Portugalský jazyk a literatura Lenka Zemanová



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MASARYKOVA UNIVERZITA

FILOZOFICKÁ FAKULTA

ÚSTAV ROMÁNSKÝCH JAZYKŮ A LITERATUR




Portugalský jazyk a literatura



Lenka Zemanová


A vida e a obra de Caetano Veloso

na época do tropicalismo

Bakalářská diplomová práce



Vedoucí práce: Mgr. et Mgr. Vlastimil Váně
2009

Prohlašuji, že jsem diplomovou práci vypracovala samostatně

s využitím pramenů uvedených na příslušném místě.

Tištěná verze práce je shodná s její verzí elektronickou.

……………………………………………



Na tomto místě bych chtěla poděkovat

Mgr. et Mgr. Vlastimilu Váňovi

za veškerou pomoc, věnovaný čas a podnětné rady.

ÍNDICE




1. INTRODUÇÃO.............................................................................................. 6

2. BIOGRAFIA DE CAETANO VELOSO 8

2.1 Gilberto Gil – o principal companheiro de Caetano Veloso na época 9



3. A CARACTERÍSTICA DO MOVIMENTO TROPICALISTA 10

3.1. A situação política durante o tropicalismo 11

3.2 O surgimento do nome do movimento, a época inicial 12

4. CAETANO VELOSO E A SUA ACTUAÇÃO

ARTÍSTICA DURANTE O TEMPO DO TROPICALISMO 15

4.1 Os Festivais de Música Popular Brasileira 15

4.2 O show na boate Sucata 19

4.3 O programa Divino, Maravilhoso 21

4.3.1 A sua passagem pelas drogas 23

5. O NOVO ACTO E AS SUAS CONSEQUÊNCIAS 25

5.1 A prisão ...................................................................................................... 25

5.1.1 O interrogatório principal ......................................................... 27

5.2 A prisão «domiciliar» ................................................................................ 28

5.2.1 A sua actividade artística em Salvador ..................................... 29

5.2.2 O show da despedida ................................................................ 30



6. NO EXÍLIO ................................................................................................. 32

7. DE VOLTA NO BRASIL ........................................................................... 34

8. CONCLUSÃO ............................................................................................. 35

9. BIBLIOGRAFIA ........................................................................................ 36

APÊNDICE ................................................................................................... 38

Caetano é uma luz, um dos artistas mais importantes da minha geração e do Brasil de sempre. Essa luz não iluminou apenas a música brasileira, mas também os

nossos cinema, teatro, poesia e até a vida quotidiana dos brasileiros.
Cacá Diegues, cineasta


1. INTRODUÇÃO
A cultura brasileira, com a sua variedade e originalidade, certamente pertence entre as culturas mais ricas do mundo. A parte mais importante da cultura deste país exótico, ou digamos, a que é mais característica do povo brasileiro, é a música.

A música brasileira tem passado por grande desenvolvimento e não há dúvidas que no futuro ainda poderá oferecer muito da sua riqueza para todos os gostos.

Eu pessoalmente tenho interesse em cultura e música brasileira já há muito tempo, mas o meu primeiro contacto com cantor Caetano Veloso foi só dois anos atrás, quando ouvi por acaso uma sua canção. Comecei a interessar-me tanto pela sua obra como pela sua vida.

O tempo do tropicalismo1 era a época marcante na sua vida. No passado, o movimento, apesar de não ser muito conhecido fora do Brasil, foi uma das coisas mais relevantes para a evolução da música. Naquela época Caetano estava ainda no princípio da carreira, mas conseguiu com sucesso dirigir o movimento tropicalista e instaurar assim uma nova atitude na música popular brasileira, que até hoje inspirou muitos artistas.2

Este trabalho dedica-se propriamente ao decurso do movimento tropicalista, enfocando-se à vida e à obra de Caetano Veloso como líder principal do movimento.

Nos primeiros capítulos vamos explicar as características do tropicalismo e o contexto político que levou com a parte considerável ao seu surgimento.

Logo vamos prosseguir ao próprio cantor, descrevendo a sua actuação artística durante os anos principais, os de 1967 e 1968.

O capítulo seguinte dedicamos à sua estadia na prisão e no exílio, que chegou como o resultado lógico depois das suas provocações e comportamento contra o régime político daquela época.

Finalmente, o último capítulo vamos dedicar à sua volta ao Brasil depois de algum tempo vivido em Londres.

No espaço de todo o trabalho, ocupamo-nos não só com os factos, mas também os tentamos de enriquecer dos próprios sentimentos e das opiniões de Caetano Veloso para podermos perceber de forma ainda mais larga a sua personalidade e o seu modo do comportamento.



2. BIOGRAFIA DE CAETANO VELOSO

Caetano Emanuel Viana Teles Veloso – cantor, compositor, escritor – nasceu a 7 de Agosto de 1942 em Santo Amaro da Purificação, na Bahia, como o filho de José Teles Veloso, que trabalhava como Funcionário público do Departamento de Correios e Telégrafos, e de Claudionor Vianna Teles Veloso, que ficou mais conhecida como dona Canô. Tem sete irmãos – Nicinha, Clara, Mabel, Irene, Rodrigo, Roberto e a mais conhecida Maria Bethânia (cujo nome foi escolhido por ele por causa de uma valsa do compositor pernambucano Capiba).

Desde a sua infância demonstrou interesse pela música, pintura, e depois também pelo cinema. Em 1952 gravou «Feitiço da Vila» e «Mãezinha Querida» acompanhado ao piano por sua irmã mais velha, Nicinha. Esta gravação ainda não teve intenção profissional. Em 1956 morou durante curto período em Guadalupe, no Rio de Janeiro. Aqui frequentou o auditório da Radio Nacional – era palco de apresentações dos maiores ídolos musicais brasileiros da época. Em 1959 conheceu o trabalho do músico João Gilberto através do LP «Chega de Saudade». Este músico mais influenciou sua trajetória artística:
«No João, parece que é tudo mais justo, necessário: melodia, as vogais, as consoantes, os sentimentos, o respeito por aquela forma, que ele reconheceu ali, o jeito daquelas coisas se expressarem esteticamente. João traduz a canção.» 3

(Songbook Caetano Veloso vol.1)

Em 1960, depois de ter concluido o curso ginasial, mudou-se com a família para Salvador, onde concluiu o ensino médio. Entre 1960 e 1962 escreveu críticas de cinema para o Diário de notícias. Nesta época também aprendeu a tocar violão e começou a cantar com a irmã Maria Bethânia em bares de Salvador. Em 1963 ingressou na Faculdade de Filosofia da Universidade de Bahia. Neste ano conheceu o seu ídolo que já conhecia pela TV, Gilberto Gil, e tornou-se o amigo dele. Também conheceu Gal Costa (chamada ainda da Maria da Graça) e Tom Zé. Casou-se com a baiana Dedé Gadelha em 21 de Novembro de 1967. No dia 22 de Novembro de 1972 nasceu o primeiro filho deles, Moreno Veloso. No dia 7 de Janeiro de 1979 Júlia, que morreu dias depois. Em 1986, já separado de Dedé Veloso, começou a viver com a carioca Paula Lavigne. Com ela teve mais dois filhos – Zeca Lavigne Veloso, nascido no dia 7 de Março de 1992, e Tom Lavigne Veloso, nascido em 25 de Janeiro de 1997 em Salvador.


2.1 Gilberto Gil – o principal companheiro de Caetano Veloso na época

«Caetano! Venha ver aquele preto que você gosta!» Assim a mãe de Caetano chamava-lhe, quando o Gilberto Gil, em 1962 surgia na televisão. Caetano estava com 20 anos, e ficava impressionado ao ver Gil dedilhar o violão. Ouvir o mestre da Bossa Nova pela primeira vez tivera o efeito duma revelação grande na vida do Caetano. Conheceram-se pessoalmente em 1963. Principalmente a admiração por João Gilberto surgiu como um definitivo ponto da identidade entre os dois.

Gilberto Gil, sem dúvidas, não é menos importante do que o próprio criador

do Tropicalismo Caetano Veloso. Quase toda a época passaram os dois cantores juntos, propagando o movimento. Por isso vamos dedicar um pouco de espaço também a vida dele.

Gilberto Passos Gil Moreira nasceu em 26 de Junho de 1942 em Salvador. Três semanas depois, segiu junto com o seu pai, o doutor José Gil Moreira e a sua mãe, a professora primária Claudina para Ituaço, no interior da Bahía. Formou-se em Administração, mas desde cedo já demonstrava interesse pela música. Quando resolveu seguir o caminho da música popular, escolheu o violão. Um compacto duplo gravado em 1963 foi o início da sua trajetória de sucesso na música popular brasileira.

Junto com o Caetano foi preso e acabou exilado em Londres. No início de 1972 retornou ao Brasil. No final dos anos 80, teve sua primeira experiência como político, tornando-se vereador em Salvador.

O definitivo reconhecimento internacional foi em 1998, quando Gil obteve o Prêmio Grammy de melhor disco de World Music por «Quanta Gente Veio Ver».

Em 2002 tornou-se Ministro da Cultura de governo de Luís Início Lula da Silva. Hoje em dia segue compondo e fazendo shows.


3. A CARACTERÍSTICA DO MOVIMENTO TROPICALISTA
Tropicalismo foi um movimento musical que teve lugar entre 1967 e 1968 pautado pela intervenção crítico-musical no cenário cultural brasileiro liderado pelo Caetano Veloso. Os outros participantes foram Gilberto Gil e Tom Zé, os poetas Torquato Neto e Capinam, os maestros de formação erudita Rogério Duprat, Damiano Cozzella e Júlio Medaglia, o grupo Os Mutantes, a cantora Gal Costa e o artista plástico Rogério Duarte, entre outros artistas.

A música brasileira pós-Bossa Nova e a definição da qualidade musical no país estavam cada vez mais dominadas pelas posições tradicionais ou nacionalistas de movimentos cujas ideas foram orientadas à esquerda. Contra essas tendências, os tropicalistas procuraram universalizar a linguagem da música popular brasileira incluindo elementos da cultura jovem mundial, como o rock, a psicodelia, a guitarra eléctrica. As idéias tropicalistas acabaram impulsionando a modernização não só da música, mas também da própria cultura nacional.

O fundamento é estético. O movimento foi uma estética de vanguarda, queria que a arte evoluísse. O tropicalismo renovou também a letra da música, seguindo das tradições dos grandes compositores da Bossa Nova e incluindo novas referências e informações do seu tempo. Misturou rock mais bossa nova, mais samba, mais bolero, mais rumba. Sua atuação quebrou as barreiras que permaneciam no país – pop x folclore, alta cultura x cultura de massas, tradição x vanguarda.

Além dos discos antológicos, que foram produzidos, também a televisão foi outro remédio fundamental de atuação de grupo – principalmente os Festivais de Música Popular da época.

Na visão tropicalista, não há uma verdade que o compositor tem de anunciar. Caso haver, ela não é conhecida. A realidade está fragmentada, há múltiplos estímulos, factores novos, e o compositor encontra-se perplexo.4

A tropicália transformou os critérios de gosto não só quanto à música e à política, mas também ao comportamento, ao sexo, ao corpo e ao vestuário. A contracultura hippie foi assimilada, com a moda dos cabelos longos e das roupas coloridas e berrantes.

O movimento durou pouco mais de um ano e acabou reprimido pelo governo militar. Porém, a cultura do país já estava marcada para sempre pela descoberta dos trópicos.


3.1 A situação política durante a época do tropicalismo
Para entendermos melhor o surgimento do movimento tropicalista, explicamos agora aqui em poucas palavras a situação política do país daquela época.

Em 1964 o Brasil foi influenciado pela Guerra Fria – disputa entre as superpotências dos Estados Unidos e da União Soviética, que alimentava conflitos na América Latina e no país.

Em 1959 a Revolução Cubana transformou Fidel Castro e Che Guevara em heróis internacionais e atiçou a pressão do bloco capitalista sobre os países do terceiro mundo. Segundo a opinião de Luiz Carlos Maciel, esta revolução foi o que mais marcou a geração – «Foi uma revolução audaciosa, justa, juvenil, romântica – enfim, tudo o que sonhávamos.»5

O presidente João Goulart propôs uma série de reformas para atenuar o grave problema da desigualdade social e as pressões políticas que vinha sofrendo dos movimentos de esquerda. Contra tais propostas, formou-se um movimento da direita e da parte da sociedade que preconizavam uma modernização conservadora. Elites dominantes perceberam os sintomas que podiam resultar em uma possível ruptura com a política de manipulação de massas – dia 31 de Março de 1964 concretizaram o Golpe de Estado. O presidente foi depusido e os militares ganharam o poder. O Golpe apoiado pelos americanos rompeu o frágil jogo democrático brasileiro. Castelo Branco tornou-se o primeiro general-presidente ditatorial. Ele queria limpar o Brasil do esquerdismo e da corrupção para poder entregá-lo às modernidades do livre mercado. Num ambiente estudantil, que foi altamente politizado, a música popular funcionava como arena de decisões importantes para a cultura brasileira tão como para a própria soberania nacional. Costa e Silva, seu substituto, governou o país de 1967 a 1969.

Até 1968, movimentos e intelectuais de esquerda podiam agir livremente, só com pequenos problemas com a censura. A política fazia-se presente em todas as áreas – teatro, cinema, artes plásticas.

A partir de 1967, no campo da música, houve confrontos entre os artistas nacionalistas de esquerda e os vanguardistas do tropicalismo, que se manifestaram contra o autoritarismo e a desigualdade social. Para os tropicalistas, entender a cultura de massas tinha tanta importância quanto entender as massas revolucionárias.

As tensões no país chegaram ao máximo em 1968. Intesificaram-se as greves operárias e manifestações estudantis. Com o crescimento da oposição, Costa e Silva, na época pressionado pela extrema direita, respondeu com o endurecimento político. Em 13 de Dezembro, o Ato Institucional N° 5 decretou o fim das liberdades civis e de expressão – até ano 1984, quando o general João Figueiredo deixa a presidência do país.

3.2 O surgimento do nome do movimento, a época inicial
O tropicalismo foi influenciado pela exposição do artista Hélio Oiticica Tropicália do Abril de ano 1967, exposta no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, da qual tirou o nome e a fundamentação teórica.

Era um ambiente formado por dois penetráveis, cercados por areia, brita e plantas tropicais, labirinto cheio dos vegetais e pássaros.

Hélio radicalizava na teoria o projecto de miscigenação cultural e valorização do genuinamente brasileiro. Criticou o consumo imediato e impensado do tropicalismo.6

Caetano viu esta exposição e resolveu colocar o nome «Tropicália» em uma das suas composições. Depois, o nome tropicalismo foi derivado. Citamos agora as palavras de Caetano sobre o nome do movimento:


«[...]me soa não apenas mais bonito: ele me é preferível por não se confundir com o "luso tropicalismo" de Gilberto Freyre (algo muito mais respeitável) ou com o mero estudo das doenças tropicais, além de estar livre desse sufixo ismo, o qual, justamente por ser redutor, facilita a divulgação com status de movimento do ideário e do repertório criados.» 7

O segundo disco de Caetano apresenta as canções «Tropicália» e «Alegria, alegria», e na capa traz a figura de Caetano rodeada por cores e flores. As canções compostas há mais tempo, mas ajustavam-se perfeitamente ao espírito tropicalista.

O texto de «Tropicália» mistura o automatismo surrealista e a prosa jornalística. Caetano usa tal linguagem para construir uma alegoria musical que comenta a conjuntura cultural em geral e o estado da música popular em particular8:
sobre a cabeça os aviões

sob os meus pés os caminhões

aponta contra os chapadões meu nariz

eu organizo o movimento

eu organizo o carnaval

eu inauguro o monumento

no planalto central do país

viva a bossa sa sa

viva a palhoça ça ça ça ça ...

Em 20 de Agosto de 1967, Caetano deixava evidente sua ansiedade por novidades no cenário da música popular brasileira em uma entrevista:

«Acho que a música brasileira , depois da bossa nova, ficou discutindo tudo que a bossa nova propôs, mas não saiu dessa esfera, não aconteceu nada maior. Eu, pessoalmente, sinto necessidade de violência. Acho que não pé pra gente ficar se acariciando. Me sinto mal já de estar ouvindo a gente sempre dizer que o samba é bonito e sempre refaz o nosso espírito. Me sinto meio triste com essas coisas e tenho vontade de violentar isso de alguma maneira. É a única que me permite suportar e aceitar a idéia de manter uma carreira musical, porque uma coisa é inegável: a música é a arte mais viva em todo o mundo. O que acho é que a música tem sido utilizada muito pra gente se manter enganado e eu não quero mais. Quero que a gente saiba mesmo, que a gente engula e veja que a gente está num país que não pode nem falar de si mesmo. A gente tem que passar a vergonha toda pra poder arrebentar as coisas.» 9

Numa outra entrevista Caetano declara, que a gente falava sobre a necessidade de um movimento de renovação da música popular brasileira já no ano 1966. Gil tinha feito umas reuniões no Rio com os outros compositores e músicos para tentar trasmitir o novo modo de ver. Mas o pessoal não entendeu. Caetano também conversava com os outros músicos sobre a falta de capacidade de aventura do criador de música popular no Brasil, sobre os resguardos dentro do mundo de bom gosto e do politicamente correcto na época, também sobre o preconceito contra o rock. Os outros embora não se interessassem tanto em princípio, tinham uma vitalidade para descobrir as coisas novas.10




4. CAETANO VELOSO E A SUA ACTUAÇÃO ARTÍSTICA DURANTE

O TEMPO DO TROPICALISMO

4.1 Os Festivais de Música Popular Brasileira
Na década dos anos 60, o Brasil vivia uma grande efervescência cultural. Uma ponta-de-lança mais importante era a música. Os primeiros ídolos da televisão foram por isso músicos e cantores. Nesse período foram também criados, pela TV Record, os Festivais de Música Popular Brasileira. Marcaram a história da música brasileira – pela comoção que instauraram, pelas discussões que detonaram, pelo espaço que ocuparam em meio à ditadura e principalmente através desses espaços o movimento tropicalista pôde eclodir com todo o seu arrojo.

Alguns festivais foram especialmente marcantes, como o de ano de 1967. Caetano queria compor algo especial, uma canção que pretendia ser uma espécie de manifesto, uma síntese pessoal das conversas e discussões sobre os novos rumos estéticos da música popular brasileira.

Decidiu que no festival de 1967 deflagraria, junto com o Gil, a revolução. Queria compor uma canção que fosse fácil de aprender por parte dos espectadores do festival, mas ao mesmo tempo caracterizasse a nova atitude que queriam inaugurar.11

O resultado foi a canção «Alegria, alegria» apresentada no terceiro Festival de MPB12 de TV Record de São Paulo. Classificou-se, para desgosto de muitos, em quarto lugar.

Toda apresentação da canção nova foi muito rápida. Os Beat Boys, o grupo argentino de rock, acompanhando o Caetano, surgiram no palco do Teatro Paramount, com guitarras e cabelões. Iniciou-se uma vaia que o Caetano interrompi entrando em cena, com uma expressão muito irada, antes que o seu nome fosse anunciado. Isso assustou locutores, directores, produtores e público. A entrada de Caetano foi ainda mais chocante, porque o seu vestido era diferente de todos os cantores, músicos e apresentadores – tinha um terno xadrez e uma camisa laranja. O público aplaudiu euforicamente, e o próprio Caetano ficou surpreendido com a rápida mudança de atitude do público, que primeiro ficou, por causa do susto, quieto. Neste momento inaugurou-se o tropicalismo. Cresceram os desafetos, a violência da platéia.

Imediatamente após do festival, «Alegria alegria» era tocada nas rádios de todo o país. Transformou-se em hit, ultrapassou a marca de 100 mil cópias vendidas.

A base rítmica da canção foi a tradicional marcha, mas o acompanhamento musical, como já mencionámos, foi feito por um grupo pop. Nos festivais existia o preconceito contra os instrumentos eléctricos, pela maioria eram vistos como uma manifestação de alienação ou de sentimento antinacionalista. A instrumentação dada por Caetano foi uma declaração, relacionada ao refrão, que podia soar como um desafio: «eu vou, por que não?».13

A letra da canção era completamente inovadora para a MPB. Na letra podemos destacar dois aspectos fundamentais para a compreensão das tendências do tropicalismo – a crítica aos intelectuais de esquerda14:


por entre fotos e nomes

sem livros e sem fuzil

sem fome, sem telefone

no coração do Brasil
que pode ser vista como a crítica às «grandes palavras» dos intelectuais, que não se tornaram reais.

O outro aspecto é a presença dos meios de comunicação de massa15:


ela nem sabe, até pensei

em cantar na televisão

Caetano começou a ser tratado como um popstar. O novo ídolo era recontado em superlativos na grande parte da imprensa: «Caetano Veloso, o homem de maior prestígio no mundo de arte no momento» (O Sol); «o maior ídolo da platéia paulista» (Última Hora); «a personalidade mais discutida da música popular» (Manchete); «o letrista de maior imaginação criadora» (Tribuna da Imprensa); «o líder de uma juventude que procura novos caminhos» (Fatos & Fotos); «verdadeiro revolucionário de nossa música» (Notícias Populares).16

Dia 9 de Abril de 1968 Caetano era o astro principal da Discoteca do Chacrinha, o anárquico programa de auditório de Abelardo «Chacrinha» Barbosa da TV Globo no Rio de Janeiro. Por causa daquela noite, que foi anunciada como Noite da Banana, estava a vestir um camisolão estampado com bananas estilizadas. Além de cantar sua «Tropicália», escolheu também algo perfeito para a ocasião – a marchinha «Yes, nós temos bananas» (de Braguinha e Alberto Ribeiro). O sucesso desta primeira show provocou mais uma noite dedicada aos tropicalistas. Caetano, Gil e os Mutantes passaram a ser atrações frequentes nos programas de Chacrinha.

Os tropicalistas procuravam também alguma coisa que não fosse séria, alguma coisa que sacudisse a estrutura mental européia que os dominava. Chacrinha era «isso», era uma personagem que apresentava uma característica da cultura brasileira, que é a habilidade de transformar situações sérias em situações risíveis.17

O outro festival importante foi a 15 de Setembro de 1968 em São Paulo – Festival Internacional da Canção. Aqui Caetano apresentou sua canção «É proibido proibir», e sofreu uma vaia inimaginável. No ano anterior, apresentando «Alegria, alegria», já havia utilizado o acompanhamento de guitarras eléctricas – naquele tempo representou um passo adiante no processo evolutivo da música dos tropicalistas – mas o impacto do totalmente novo não permitiu uma reacção adversa do público, que também se calhar neste tempo não considerou a sua música tão direccionada contra o regime.

Ao contrário, com «É proibido proibir» a plateia já esperava «o estilo» politicamente incorrecto, acompanhando por guitarras eléctricas de novo, e o recebeu agressivamente mal. A apresentação desta canção transformou-se num happening. Quando os Mutantes começaram a tocar a introdução da música, a plateia já atirava ovos, tomates e pedaços da madeira contra o palco. Desta reacção do público podemos observar que a plateia já sabia muito bem quem ia vaiar, no show não era provocada pelo momento.

O Caetano apareceu vestido com roupas de plástico, colares exóticos e bolas do papel. Entrou em cena rebolando, fazendo uma dança erótica, que lembrava uma relação sexual. A plateia ficou escandalizada e deu as costas para o palco. Os Mutantes reagiram imediatamente – sem parar de tocar, viraram as costas para o público.

Caetano fez um longo discurso, que quase não se podia ouvir pelo barulho dentro do teatro. Citamos agora alguns fragmentos importantes do seu discurso:


«Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder? Vocês têm coragem de aplaudir, este ano, uma música, um tipo de música que vocês não teriam coragem de aplaudir no ano passado! São a mesma juventude que vão sempre, sempre, matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem! Vocês não estão entendendo nada, nada, nada, absolutamente nada [...] Gilberto Gil está comigo, para nós acabarmos com o festival e com toda a imbecilidade que reina no Brasil. Acabar com tudo isso de uma vez. Nós só entramos no festival pra isso. Não é Gil? Não fingimos. Não fingimos aqui que desconhecemos o que seja festival, não. Ninguém nunca me ouviu falar assim. Entendeu? Eu só queria dizer isso, baby. Sabe como é? Nós, eu e ele, tivemos coragem de entrar em todas as estruturas e sair de todas. E vocês? Se vocês forem... se vocês, em política, forem como são em estética, estamos feitos! ...»18

O Caetano próprio manifestou-se que este show era possivelmente a mais bem-sucedida peça do tropicalismo. A que melhor expunha os interesses estéticos e a capacidade de realização dos tropicalistas.19

«É proibido proibir» é uma das composições mais interessantes de Caetano Veloso. Foi feita por sugestão de Guilherme Araújo, que foi o empresário dele, sob inspiração dos acontecimentos em Paris de Maio de 1968, onde os estudantes escreviam palavras de ordem nas paredes dos muros. Uma destas foi: «É proibido proibir».

Nesta canção Caetano verifica a afirmação repressiva dos valores estabelecidos pela estrutura social vigente – restrições sexuais familiares («A mãe da virgem diz que não»), à manipulação das consciências da economia capitalista de consumo («E o anúncio da televisão»), à codificação da ideologia dominante numa superestrutura jurídica e formal («Estava escrito no portão»), ao cerceamento da liberdade artística através da estética tradicional («E o maestro ergueu o dedo»), ao policiamento organizado dos interesses de classe dominante («E além da porta há o porteiro»). Tal tese do estabelecimento é sintetizada numa nota musical a que corresponde a palavra «sim» («E eu digo sim») A estrofe acaba com o refrão negador: «E eu digo não» / E eu digo não ao não / E eu digo é proibido proibir». 20

Caetano também recusa as restrições sexuais («Me dê um beijo meu amor») e convoca ao protesto geral, com uma evocação às manifestações estudantis em Paris («Eles estão nos esperando» / «Os automóveis ardem em chamas»), ele edifica às palavras de ordem do espírito anárquico dessas manifestações que propõem uma reformulação radical de todos os valores estabelecidos («Derrubar as prateleiras / as estantes / as estátuas / as vidraças / louças / livros»).21

A canção tem sua força. Sua importância liga-se muito ao contexto em que vivia a geração, ao questionamento de valores e crenças que propunhavam na época.22

4.2 O show na boate Sucata
Caetano ganhou o sucesso popular graças aos Festivais da Canção de São Paulo. Também a primeira explosão dos baianos foi nesta cidade. Mas o primeiro grande show dos tropicalistas aconteceu no Rio, na boate Sucata.

O show foi anunciado assim – «Um espectáculo violento, diferente de tudo que já foi feito».23 Neste show, Caetano, Gilberto Gil e os Mutantes mostraram a resposta aos festivais, que tinham favorecido a redundância tradicional, em detrimento de vanguarda tropicalista. O show mostrou com clareza que eles estavam a fim de levar às últimas consequências a sua actual posição de vanguarda.

O espectáculo era construído com inteligência destinado a envolver progressivamente o espectador. No palco pequeno foram instaladas duas bandeiras, com as inscrições «Yes, nós temos bananas» e «Seja marginal, seja héroi» (seguindo uma outra obra de Hélio Oiticica, criada em homenagem ao bandido Cara de Cavalo, já exposta em outras ocasiões).24

Primeiro, entravam os Mutantes, com sua alegre ironia. Depois, o Gilberto Gil subiu ao palco. Com ele iniciavam-se os primeiros choques, a entrada de Caetano ficava então preparada. Começava a cantar quietamente sua canção «Saudosismo», composta havia poucos dias, acompanhando-se de um violão. No fim, cantava alguns versos da canção de João Gilberto «Chega de Saudade». Cantava cada vez mais alto, até ficar berrando no palco. Logo a seguir explodiam as guitarras eléctricas dos Mutantes.

O surpreendente foi, que a plateia participava de alguma forma também. Além de aplaudir, alguns iam até o palco para dançar ou cantar. Mas havia também espectadores mais agressivos que na impossibilidade de entrarem na boate carregando tomates e ovos, jogavam cubos de gélo e água sobre o palco.

O Caetano foi depois acusado de ter cantado o Hino Nacional durante um dos shows, enxertando versos ofensivos às Forças Armadas.25 O cantor manifestou-se na forma que se segue:26


«Os militares devem lembrar-se de que o Hino Nacional não é um hino de guerra, nem uma canção militar, mas uma civil, feita para os civis, e que pode ser cantado em qualquer lugar. Nós estamos fazendo um show na Sucata e nesse show acontecem muitas coisas, mas uma coisa que não aconteceu foi o Hino Nacional. Não cantei o Hino Nacional durante a Passeata dos Cem Mil. Prefiro músicas líricas a hinos patrióticos.» 27
4.3 O programa Divino, Maravilhoso

Durante a epóca da Sucata, os tropicalistas conseguiram obter um espaço próprio na TV Tupi, o programa Divino, Maravilhoso. A concepção geral e o roteiro estavam por conta de Caetano, com a colaboração de Gil. Cada programa era idealizado como um happening.

Quase tudo era definido no próprio dia da gravação, poucas horas antes de ser transmitido ao vivo. O primeiro programa foi ao ar em 28 de Outubro de 1968, às 21 horas.

«Este é um som livre! É mutante, não pode parar!»28 festejou Caetano logo depois de cantar «Saudosismo». Para os padrões da televisão brasileira o roupa de Caetano já era bastante para chocar a maioria dos espectadores – um casaco militar desabotoado, que deixava à mostra o peito nu, colar de dentes, jeans e sandálias de franciscano. Cantando logo a seguir uma outra canção, «Baby», junto com os Mutantes, Caetano repetiu os gritos que incomodavam a platéia já durante os shows de Sucata. Na penúltima canção de show a anarquia já estava absoluta. A última canção cantada era «É proibido proibir», Caetano cantou-a a deitado no chão.

Este foi sem dúvidas o programa mais anárquico que a TV brasileira já exibira até aquele dia. Até alguns técnicos de emissora não entendiam como a censora do Departamento de Polícia Federal não cortara nada daquelas loucuras depois de ter assistido ao ensaio.

Os cenários do programa eram modificados a cada semana, e os happenings continuavam. Num deles, Caetano criou uma grande jaula, que ocupou quase toda a cena. Dentro das grades, que foi construídas com madeira, o elenco do programa representou uma espécie de hippies. O finale da noite ficou por conta de Caetano. Ele próprio quebrou as grades da jaula, cantando «Um Leão Está Solto nas Ruas» (a canção bem sucedida de Roberto Carlos).

Exactamente um ano após as vaias provocadas por «Alegria Alegria» e «Domingo no Parque», o tradicional Festival de Música Popular Brasileira da TV Record mudou – em 13 de Novembro de 1968 parecia que os tropicalistas tinham tomado o poder no país da MPB. Das 18 canções tocadas naquela noite, pelo menos 10 estavam acompanhadas com guitarras eléctricas. Os intérpretes vestiam roupas extravagantes e pareciam ter saído de uma festa tropicalista. Até uma antiga adversária de Caetano, Gil e Mutantes, a chefe de torcida Telé Cardim, disse: «Foi uma fabricação em massa de tropicalismo. Ninguém quis reconhecer as inovações do baianos, e agora todos procuram imitá-los: nas roupas, nos sons, nas palavras. Mas imitam mal». 29
Numa outra parte do programa regular Divino, Maravilhoso, na noite de 23 de Dezembro de 1968, Caetano escolheu para cantar uma das músicas do baiano Assis Valente «Boas Festas». Cantando-a, apontava um revólver para a própria cabeça:
Anoiteceu

O sino gemeu

Agente ficou

Feliz a rezar

(...)

Já faz tempo que eu pedi

Mas o meu Papai Noel não vem

Com certeza já morreu

Ou então felicidade

É brinquedo que não tem

Gabus Mendes, responsável pela edição de imagens do programa, usou todos os recursos disponíveis para evitar que o revólver aparecesse no vídeo em primeiro plano. Sabia bem, que uma cena tão forte poderia provocar algum problema maior do que as cartas indignadas de espectadores e autoridades, que já continuavam a chegar à emissora.

Mas Caetano tinha para esta cena uma explicação bem consistente. A imagem dramática, cantando uma canção que ironizava o espírito natálico, revelava também a essência da poesia de Assis Valente – o compositor baiano, negro e bissexual, realmente se suicidou, aos 47 anos de idade, em 1958, tomando goles de formicida numa garrafa de guaraná.30

Por causa de provocações desse tipo no programa não era surpresa que logo nas primeiras semanas já se comentava que o Divino, Maravilhoso tinha seus dias contados. O auditório da TV Tupi era frequentado por policias à paisana, o que ainda mais contribuia para mal-estar dos tropicalistas. Todos tinham consciência de que a qualquer momento poderiam ter problemas com a polícia.

«O importante é que se discutiu o que nós fizemos. O fundamental é que fizemos o que nos deu na cabeça»31 revelou Caetano numa entrevista do Jornal da Tarde. O réporter também se interessava por os novos projectos do compositor para o ano seguinte. Caetano, apesar de ter mostrado a incerteza, entre os seus planos mencionou trocar São Paulo pelo Rio de Janeiro, talvez morar por um tempo no exterior, e também realizar o antigo sonho de dirigir seu primeiro filme. A respeito do programa Divino, Maravilhoso, o programa ainda continuaria por mais cinco semanas, o período que faltava para terminar o contrato assinado com a TV Tupi. Ninguém sabia ainda, se o contracto seria renovado. Ironicamente, o único plano do compositor, que se realizou meses depois, foi o de morar no exterior.32

4.3.1 A sua passagem pelas drogas
Durante a época do sucesso e do próprio programa na TV Caetano também entrou em contacto com as drogas, mas encarava-as com muita reserva (ao contrário do Gil, que já fumava maconha com frequência). Sua primeira e única experiência em Salvador, mais de um ano antes, tinha sido terrível. Uma amiga norte-americana deu-lhe um cigarro de um fumo muito forte. Sem saber que isso era muito, Caetano fumou o cigarro inteiro. Não entendia porque não sentia nenhuma reacção diferente. Mas logo a seguir, já com o corpo amortecido e coração disparado começou a sentir-se muito mal. O efeito da erva durou quase seis horas. Caetano achava que iria a morrer, e depois prometeu a si mesmo que nunca mais fumaria aquilo.

Um dia Gil apareceu em seu apartamento com uma garrafa de auasca – uma bebida alucinógena da Amazônia preparada de ramos e folhas do caapi, usada pelos índios peruanos há séculos em rituais. Serviu a cada um a quantidade recomendada – pouco mais de meio copo. É claro que Caetano a princípio recusou, porque não queria passar por aquela experiência assustadora outra vez. Gil, tentando convencê-lo, argumentou: «Eu entendo porque você sofreu tanto, Caetano. Eu gosto de maconha, mas ela realmente dá um tapa em você. Com isso aqui, você não vai ficar tonto, nem distante do mundo. Você ganha a capacidade de alucinar, mas não perde a sua vigília».33

Como ele estava ali entre os seus amigos, diante do único copo de auasca que não era desvaziado, tomou a coragem e engoleu todo o conteúdo. Caetano estava à espera dos efeitos. Realmente nada aconteceu de comparável ao tapa da maconha. Começou a achar cómica a música do Pink Floyd que estava a tocar no toca-discos. Também logo a carpete de náilon do quarto do som apresentou o seu modo peculiar, tanto como o tapete de nylon. Caetano teve sensação de saber de forma exacta como aqueles cores se manifestavam a partir de cada um dos fios do tapete. Era também interessante que os efeitos levaram-no a ver os amigos de um modo diferente. Teve a impressão de poder compreender o ser de cada uma daquelas pessoas, assim que o sentimento que o ligou a elas. Começou a ver alguns pontos de luz coloridos, e tudo lhe parecia simétrico, sentiu felicidade.

A volta à consciência foi terrível e demorou algum tempo. Caetano achava que nunca mais se reencontraria, que teria enloquecido definitivamente. Não podia reconhecer os seus amigos, até o seu reflexo no espelho. Só no dia seguinte tudo voltou-se a forma normal. Apesar disso, Caetano ficou com a definitiva sensação de que nunca mais foi a mesma pessoa. Nas semanas seguintes, comandando as gravações do programa Divino, Maravilhoso continuou com esta impressão. Mesmo enquanto trabalhava ao lado dos seus amigos pensava que não fazia mais parte daquele universo e sentia se vivendo como que um palmo acima de tudo o que existe. Como ele próprio disse: «Na verdade, algo de essencial mudou em mim a partir daquela noite».34



5. O NOVO ACTO E AS SUAS CONSEQUÊNCIAS
Dia 13 de Dezembro de 1968, um golpe interno no governo militar lançou o Acto Institucional N° 5 – dando poderes à polícia de invadir domocílios e instaurando um regime policial truculento. Também deflagraram-se as primeiras prisões de intelectuais e activistas, cassações políticas, actos da censura.

Naquela época Caetano estava em Salvador por uns dias, e viajou para São Paulo mesmo no dia 13. Logo a seguir chegou sabendo o que tinha ocorrido. O humorista Jô Soares disse-lhe que tinha ouvido que corria entre os militares uma lista de nomes de artistas da Record (onde ele trabalhava e Caetano com Gil havia pouco também) da qual constavam o nome de Gil e de Caetano entre as possíveis pessoas para interrogatórios.

Dia 27 de Dezembro, Caetano e Gil foram presos. «É claro que nem Gil nem eu imaginávamos que seriamos presos. Não havia expectativa de que nada de grave pudesse acontecer connosco»35 confessou Caetano. Não tinham muito por que pensar que os militares quereriam lhes prender, já estavam habituados a hostilizações por parte da esquerda. Por isso, quando os policiais chegaram até a casa de Caetano, ele imaginou que lhe só estavam levando para uma conversa com algum oficial.

Mas na verdade, a possibilidade de ser preso já havia alguns meses, desde que o grupo tropicalista começasse a radicalizar mais suas provocações. O perigo era mais evidente no episódio da canção «É proibido proibir», quando todo o grupo foi agredido pela furiosa plateia com tomates e ovos. Nas últimas semanas daquela época, a situação tornou-se quase insuportável. Eram criticados diariamente na média ou por colegas do meio artístico.




5.1 A prisão
Dia 27 de Dezembro de 1968, depois de passarem algumas horas no Ministério da Guerra, Caetano e Gil foram despachados para o quartel da Polícia do Exército. Aí ficaram trancafiados em duas solitárias minúsculas. Deprimidos, passaram dessa maneira também a noite de ano-novo. Durante aquela primeira semana não comeram nada, só alguns pedaços de pau.

Caetano podia atenuar a angústia e o medo lendo. Com sorte conseguiu receber dois romances, que foram introduzidos em sua cela clandestinamente, por um coronel rebelde.

Depois desta uma semana foram ambos trancados para outro quartel da Polícia do Exército, em Deodoro, na zona oeste. Ficaram em celas colectivas, conseguiram então ter até uma conversa, embora muito precária.

Durante a época vivida no prisão, Caetano identificava-se com a afirmação de um criminoso que tinha lido numa entrevista: «Às vezes eu acho que nasci aqui, que sempre vivi aqui, que o mundo lá fora, tudo o que eu vivi, só existe na minha cabeça».36 Ao Caetano, o apartamento de São Paulo, o seu casamento com Dedé, a Bahia, os estúdis de gravação, os palcos de auditórios, tudo lhe parecia desprovido da realidade.37

Também começou a sentir-se incapaz de mostrar os sentimentos. Os dias dele pareciam na forma que se segue – dormia muito cedo a noite, era acordado por soldados pela manhã, passava a manhã inteira sentado no cobertor, no meio dia, depois do almoço adormecia outra vez por algum tempo. Ele descreve a situação assim: «O meu sono de presidiário era um sono triste e infalível do qual eu emergia sem nenhum resíduo de sonho.» 38

Um dia até pensou que ia a morrer. Segundo o comportamento dos soldados e da atmosfera no ar pensava que ia a acontecer algo horível, que iam fazer alguma coisa física com ele. Mas o objectivo verdadeiro foi levar-lhe à barbearia do quartel. Logo a seguir sentiu a imensa alegria que não ia a morrer, mas foi empanada pela constatação do ridículo deprimente de tudo aquilo. O corte do cabelo era, para eles, mas não para Caetano, um assassinato simbólico. «Se eu tivesse pensado em cabelo, teria imediatamente adivinhado o que ia se passar, e não teria tido medo de que me matassem» 39, confessou Caetano.



5.1.1 O interrogatório principal
Em meados de Janeiro de 1978, os dois cantores foram transferidos, já definitivamente separados, para diferentes quartéis do Regimento de Pára-quedistas, em Deodoro. Foram detidos em celas individuais, maiores que as solitárias da Polícia do Exército.

Aqui foi Caetano interrogado pela primeira vez. O comandante fez o que pôde para encontrar alguma informação falsa nos seus depoimentos. Primeiro, quis saber tudo sobre a sua família. Durante os seguintes interrogatórios, o comandante perguntou detalhes sobre toda a vida de Caetano.

O que é importante, também finalmente entrou no que deveria ser a justificativa formal para o Caetano estar preso – o episódio na boate Sucata, envolvendo a obra de Hélio Oiticica, com a bandeira com a inscrição «Seja Marginal, Seja Héroi». O show foi depois suspendido. A história da interdição da Sucata por causa desta bandeira correu de boca em boca e é possível que agarrando a essa palavra «bandeira» um apresentador de rádio e televisão de São Paulo, Randal Juliano, criou uma versão fantasiosa em que os tropicalistas apareciam enrolados na bandeira nacional e cantavam o Hino Nacional enxertado de palavrões. Atitudes como essa eram usuais no programa de Randal Juliano, e como os tropicalistas não tinham assistido a sua fala contra eles, não a deram muita importância. Agora o comandante informava que esse locutor tinha se dirigindo aos militares pedindo punição para eles.

Caetano ficou surpreendido com que os oficiais não tivessem tentado verificar a veracidade dessas acusações, as quais ele mesmo podia provar serem falsas. Deu ao major as nomes das pessoas que podiam provar a sua versão dos factos (Ricardo Amaral, o dono da boate e Pelé, o discotecário – ambos eram presentes ao show todas as noites).40

As versões de ambos confirmavam a de Caetano em todos os detalhes. Isso mudou totalmente o tratamento que recebia no quartel. Podia ter visitas semanais, obteve permissão para comer a mesma comida dos oficiais e as vezes também podia ouvir rádio. Do major obteve a promessa da liberadade dentro de dois ou três dias, mas os superiores do major não pensavam da mesma maneira, ou ainda não tivessem decidido o que fazer. Caetano ficou ainda mais um mês na prisão.

Nos dias finais na prisão, Caetano compôs uma canção, inspirando-se com o nome de sua irmã mais nova:


Eu quero ir minha gente

Eu não sou daqui

Eu não tenho nada

Quero ver Irene rir

Quero ver Irene dar sua risada.
Quando chegou o dia da libertação, Caetano e Gil foram levados para Salvador. Antes de ter saído ficaram sabendo que estavam terminantemente proibidos de deixar a Cidade de Salvador e que tinham de se apresentar diariamente à Polícia Federal. Caso contrário voltariam para a cela.

Em total ficaram presos cerca de dois meses. Durante aquela época o comportamento do Caetano era totalmente diverso do de Gil. Era caladão, deprimido com a situação, descobria que o sofrimento não serve para absolutamente nada. Gil, ao contrário, pedia uma violão e cantava e tocava toda a noite, também seu comportamento e temperamento mudaram para melhor e para sempre.




5.2 A prisão «domiciliar»

Quando permaneceram confinados em Salvador, Caetano e Gil ficaram proibidos de dar entrevistas, fazer shows, apresentar-se em rádios e TVs.

Depois de passar quatro meses em Salvador, Caetano junto com Gil foram convidados a deixar o país. Porque não tinham direito a aparições públicas, não ganhávam dinheiro suficiente para sustentar as famílias. O coronel Luís Artur (a quem tinham tido de lhes apresentar diariamente durante o período do confiamento) encontrou como a solução a sua saída do país. O exílio foi a solução que lhe parecia inteligente.

Como também não tinham dinheiro para comprar as passagens e financiar as estadias dos primeiros meses, o coronel convenceu as autoridades mais altas de que precisavam fazer uma apresentação em Salvador para conseguir esse dinheiro assegurando que não fariam dela uma incitação à subversão.

O público mal notava a sua ausência nos palcos e na TV. A jornalista Marisa Alvarez Lima veio a Salvador fazer uma reportagem em que Caetano aparecia fotografado e em cujo texto apenas se dizia misteriosamente que Caetano estava em Salvador e parecia triste.41


5.2.1 A sua actividade artística em Salvador

Nesse meio tempo Caetano, assim como Gil, fez um disco. Como não podia ir ao Rio de Janeiro ou ao São Paulo, fez as gravações num estúdio pequeno de Salvador, apenas com a violão. As fitas foram enviadas para São Paulo ou Rio para que Rogério Duprat adicionasse baixo, bateria e orquestra. Não havia proibição de radiodifusão das músicas deles.

O LP de Caetano com o nome «Caetano Veloso» não conseguia esconder a tristeza e a depressão que o autor tinha vivido durante os seis meses que precederam a gravação. O disco começa pela versão de «Carolina», a popular canção de Chico Buarque42, que Caetano decidiu gravar ao ver crianças pobres de Salvador cantarem-na em um programa de caloiros.43

A atmosfera de melancolia dominava quase todo o álbum (apesar da euforia carnavalesca da canção «Atrás do Trio Eléctrico») especialmente em faixas como «The Empty Boat» – uma das primeiras canções em inglês de Caetano, o fado «Os Argonautas», a versão de «Chuvas de Verão» de Fernando Lobo.



5.2.2 O show da despedida
O show da despedida no Teatro Castro Alves dia 20 de Julho de 1969 foi a primeira aparição dos dois tropicalistas num palco, desde as gravações do programa Divino, Maravilhoso, em Dezembro de 1968. Em total haviam três exibições de show, e todo o programa ficou registrado no disco «Barra 69».
«Oportunamente apresentaremos para vocês algo mais... mais... mais... mais... sei lá... algo mais divertido – disse o palhaço vaiado. Assim esperamos – disse a platéia, já agora morrendo de rir. O grande sucesso do palhaço. Esta e outras histórias não serão contadas agora porque não há tempo» 44
escreveu Caetano, assumindo assim sua tristeza publicamente, em um texto pequeno feito para o programa do show de despedida.

A atmosfera no teatro era bastanta festiva. Caetano e Gil, além de recordarem sucessos tropicalistas, como «Alegria Alegria», «Tropicália», «Domingo no Parque», também ofereceram à animada platéia uma prévia dos novos discos, os quais Rogério Duprat estava a finalizar em São Paulo. Entre as figuras notáveis, presentes ao show, eram o poeta Augusto de Campos ou escritor Jorge Amado.

No final, Gil fechava o show cantando «Aquele Abraço», uma samba que foi apresentada em público pela primeira vez nesse show. Esta canção fez Caetano a chorar – por causa do brilho e fluência das frases, da evidência de que se tratava de uma canção popular do sucesso inevitável, do sentimento de amor e perdão, e sobretudo porque se dirigiu directamente ao Rio de Janeiro, a cidade que Caetano sinta tão intimamente sua por causa da estada de um ano entre os treze e os catorze anos. No show, o público também foi tomado pela música, cantando-a junto com Gil como se já a conhecesse de muito tempo. Parecia ser um canto de despedida do Brasil.
«Aquele Abraço era, nesse sentido, o oposto do meu estado de espírito, e eu entendia comovido, do fundo do poço da depressão, que aquele era o único modo de assumir um tom de bola para frente sem forçar nenhuma barra. Nunca esta canção deixará de ter, para mim, uma importância afectiva [...]» 45
proclamou Caetano.

6. NO EXÍLIO

Dia 28 de Julho de 1969, Caetano partiu para Lisboa, e segiu o seu caminho, junto com o Gil, até Londres. Na véspera do seu dia da partida ainda fez uma entrevista para o Última Hora, onde deu a sua opinião sobre a situação do movimento e a acção dos tropicalistas daquela época:


«Sei que o movimento que a gente começou está influenciado meio mundo. Mais dia, menos dia, era inevitável que aqui também se começasse a utilizar uma linguagem nova. Isso demonstra que estávamos certos e que o que fazíamos, aquela confusão toda, era um acontecimento natural no processo musical brasileiro. Quanto ao Tropicalismo, ainda não posso falar muita coisa. É claro que ele mantém raízes. O fato é que Gal Costa se tornou a mais importante cantora brasileira a partir dele e eu acho que isso já compensa. Se o Tropicalismo passou, eu não sei, mas acho que, ele continua, e do modo certo, com Gal.» 46
Primeiro, os dois cantores ficaram hospedados por alguns dias num hotel em Sothampton, depois mudaram-se para bairro de Chelsea, numa casa de três pavimentos. Logo o ambiente da casa era muito parecido como no apartamento de Caetano e Dedé em São Paulo. Os amigos visitavam-lhes frequentamente, e assim criou-se lá uma comunidade brasileira. Por isso, Caetano falou principalmente português, mas também estudou inglês.

Fez um disco com composições como «London London» – sobre a solidão dos dias vividos no outro pais, ou «If You Hold a Stone» – na letra desta canção confessou o seu próprio sentimento da vida no exílio: «Eu não vim aqui para ser feliz». Ele próprio não gostou de LP por causa da depressão pelo qual passava – não se podia acostumar a frio e chuva e achava Londres escura e feia. Até parou de compor durante alguns meses, porque não viu mais sentido em fazer música fora do Brasil.

Depois de sete meses passados na Inglaterra Caetano e Gil fizeram juntos um primeiro show, na primeira semana de Março de 1970. O show teve sucesso, mas os críticos sugeriram que os cantores ainda não estavam familiarizados com o gosto europeu.

Em relação com o Gil, Caetano não se envolveu tanto em Londres com a cena musical. Entre os artistas de que ele gostou mais, foram Jimi Hendrix, Richie Havens e os Rolling Stones. Mas os concertos de rock levou-lhe a sentir as saudades do Carnaval da Bahia.

Depois de viver um ano e meio fora do país, as autoridades militares permitiram ao Caetano fazer uma visita no Brasil – foi dia 7 de Janeiro de 1971. Desembarcou no Rio de Janeiro, mas a recepção que obteve foi muito «fria». Logo foi acompanhado pelos policiais e depois interrogado durante seis horas. Os militares intimidaram e chantagearam-lhe. No fim estabeleceram os mandados - Caetano poderia dar entrevistas só por escrita, não tinha permissão de raspar a barba ou cortar o cabelo durante sua visita e teria de fazer uma apresentação na TV determinada por os militares – foi dia 4 de Fevereiro, na TV Globo. Caetano cantou só uma samba.

Ainda por cima, durante o seu estágio, ele com a sua mulher estavam espionados todo o tempo. Três dias depois do show na TV voltaram para Londres. Conhecendo a situação no Brasil, Caetano mudou os seus planos de voltar em breve para o seu país.

No extrangeiro, Caetano ainda lançou novo disco pela Famous Records no início de Julho. Formou uma banda, junto com os artistas brasileiros os quais convidou para Londres. Apresentou-se também na Suíça, Holanda e França.

Um dia recebeu o convite do mestre da bossa nova João Gilberto participar no seu programa especial no Brasil. Apesar de não querer voltar tão cedo para o Brasil, decidiu finalmente tomar parte do programa. Dia 8 de Agosto de 1971 chegou ao Brasil, e ficou surpreendido ao ser recebido com sorrisos, inclusive pelas autoridades. Para o show escolheu as canções novas londrinas. Caetano voltou para Londres com o muito melhor sentimento, e já com os planos de voltar.



7. DE VOLTA NO BRASIL
Dia 11 de Janeiro de 1972 Caetano desembarcou no Brasil, com os planos de ficar definitivamente no país.

Logo a seguir já começou a sua primeira turnê pelo Brasil, depois do exílio, no palco do Teatro João Caetano. A sua imagem que mostrou ao público era diferente – não era o Caetano agressivo e provocante dos tempos dos tropicalistas, mas quieto, tocando violão ao apresentar as suas canções. De Londres voltou como um cantor profissional de música popular brasileira. Também aprendeu dominar o nervosismo e em geral a sua imagem era mais segura de si. Assim chegou à sua decisão dedicar-se à música como profissional. Numa entrevista disse:


«Eu não quero assumir nenhum tipo de liderança. Quero só cantar as minhas músicas, para as pessoas verem que continuamos cantando e trabalhando. Não existe nenhuma esperança de organizar as pessoas em torno de um ideal comum.» 47
declarando assim que não voltou ao país com a intenção de resgatar o papel de líder que tinha na época do tropicalismo.


8. CONCLUSÃO
Quase quarenta anos após o surgimento do tropicalismo, os efeitos do próprio movimento são persistentes mais do que os próprios criadores e também aqueles que só o consideravam como um assunto temporário podiam imaginar. Perduram até hoje, e como já mencionámos, inspirando outros compositores e cantores.

O objectivo deste trabalho foi esboçar a época do movimento tropicalista, concentrando-se principalmente à actuação de Caetano Veloso, dando assim o conhecimento da parte da cultura brasileira ainda não geralmente bem conhecida.

No início cantor assumiu a posição principal entre os outros artistas, liderando todo o movimento. Apesar de ter propagado a atitude contra o régime e por isso estando numa posição de rebelde, a sua actuação em frente do público era ainda tímida. Mas mesmo assim consegiu manter bem o seu posto e ganhou muitos simpatizantes. Ao seu sucesso ainda atribuiram sem dúvidas seu carisma, talento de exprimir-se pela música e a sua capacidade de conquistar a maioria para os seus objectivos.

A estadia na prisão e os meses passados no exílio eram os tempos menos felizes na sua vida. Apesar de ter vivido esta época difícil, ultrapassou a crise e a sua personalidade ficou ainda mais forte.

Caetano, depois de voltar para o seu país, foi rapidamente integrado entre as maiores estrelas da área artística. Nos shows já parecia mais maduro e auto-suficiente. Desde este tempo, já nunca mais saíu de cena. Até nestes dias continua produzir discos e shows com regularidade. Sem dúvidas pertence entre os maiores artistas não só da música popular brasileira assim como de todas as artes do Brasil.
Graças deste trabalho eu pessoalmente tive a oportunidade de conhecer mais profundamente a vida e a obra deste cantor, também como a época da história do Brasil.

A comparação dos novos conhecimentos com com as experiências auténticas contadas pelo próprio Caetano fez-me entender ainda melhor a sua música e o seu comportamento na época do tropicalismo.



9. BIBLIOGRAFIA
CALADO, Carlos: Tropicália: a história de uma revolução musical – Editora 34 Ltda.: São Paulo, 1997
CYNTRÃO, Sylvia Helena: A forma da festa – tropicalismo: a explosão e os seus estilhaços – Editora Universidade de Brasília: São Paulo, 2000
MACIEL, Luiz Carlos: Geração em transe: memórias do tempo do tropicalismo – Nova Fronteira: Rio de Janeiro, 1996
PERRONE, Charles A.: Letras e letras da MPB – Elo Editora e Distribuidora Ltda.: Rio de Janeiro, 1988
VELOSO, Caetano: Verdade tropical – Companhia das Letras: São Paulo, 1997
Fontes da Internet:
As letras de Caetano Veloso [online].[citado 2009-05-05]

Disponível em: WWW:





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