Postais do destino



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Prólogo
POSTAIS DO DESTINO1
Dia do meu casamento. Duas horas para a hora H. Minha melhor amiga, Beatrice, ajuda-me a passar o vestido pela cabeça, sorrindo ao ouvir o farfalhar do tecido, ao abotoar a delicada seqüência de botões na parte de trás. Deus abençoe a Bea, penso pela milésima vez no dia. Ambas olhamos para a noiva no espelho, uma noiva exemplar: cabelos negros presos num elegante coque sobre a nuca, maquiagem perfeita, pele de porcelana, brilhantes gotejando dos lóbulos.

Viro o tronco um pouquinho, para ver se a Noiva Exemplar no espelho faz a mesma coisa - e é claro que faz. Depois examina a cauda espetacular, desenhada por ninguém menos que Vera Wang e bordada na Maison Lesage, onde uma dúzia de costureiras haviam pregado minúsculos diamantes que davam o efeito de uma névoa mágica.

- Você está linda, Claire - diz Bea. O que mais ela poderia dizer diante de uma obra-prima daquelas? Ainda olhamos para minha imagem no espelho. Nenhuma de nós se dá ao trabalho de sorrir.

Alguém bate à porta da suíte do hotel, trazendo-nos de volta à realidade.

- Está aberta! - grita Bea, e eis que surge Lucille Cox, minha iminente sogra, o rosto severo de um Dobermann, o corpo franzino de um garoto de oito anos.

- Vim trazer um presente do noivo! - ela exclama para nenhuma de nós em particular. O que lhe falta em tamanho sobra em decibéis. Hoje parece menor e mais estridente que de costume, embrulhada num Oscar de la Renta vermelho que vale três vezes o carro de minha mãe. Ansiosa com o casamento, ela havia abandonado a dieta espartana em favor de outra, provavelmente etíope. Os pombos do Central Park se alimentavam melhor.

- Ah, Claire, querida, você está... - Lucille interrompe a frase e pressiona a mão coberta de jóias sobre o colo do peito, esquelético e sardento. Um gesto, presumo eu, mais valioso do que qualquer seqüência de adjetivos carinhosos. Depois de alguns segundos ela termina o pensamento: - Você está igualzinha à sua mãe!

Parem as máquinas! Será que ouvi direito? Lucille Cox finalmente dizendo a coisa certa? Uma mulher que costuma morder a própria língua como se fosse um bife? Pois ela não poderia ter escolhido elogio melhor, o meu favorito, e ainda por cima sincero:

Lucille tinha mamãe como ídolo desde os tempos de Vassar,onde elas haviam estudado juntas.

Sinto uma repentina onda de gratidão, e Lucille, antecipando-se a qualquer manifestação melosa de afetividade, despeja em minhas mãos uma caixa de veludo preto.

- Abra - ela ordena.

Obedeço sem questionar, um mau hábito recentemente adquirido. Abro o fecho da caixa e levanto a tampa com certo esforço em razão das dobradiças rígidas. Sobre uma almofadinha de veludo repousa um maravilhoso colar carregado de diamantes: decerto a jóia mais cara que já vi na vida, seguramente a mais cara que já segurei nas mãos.

- Meu Deus! - exclama Lucille, admirando o colar como se estivesse diante do primeiro neto. - Vintage Bulgari. Uma coisa. - Visto o colar, e nós três nos viramos para o espelho mais uma vez. Perfeito. Absolutamente espetacular. A secretária do meu noivo tem excelente gosto para jóias.

- Ah, eu já ia me esquecendo - continuou Lucille, com a estridência de sempre. - Consegui um exemplar antecipado do jornal de domingo. - Ela abre a bolsinha Judith Leiber e me entrega um recorte de jornal.


Claire Truman,

Randall Pearson Cox III
Claire Truman, filha de Patrícia e do finado Charles Truman,

de Iowa City, Iowa, e Randall Pearson Cox III, filho

de Lucille e Randall Cox II, de Palm Beach, Flórida, casam-se hoje na

Igreja Episcopal de Saint James em Nova York.

A Srta. Truman (27) trabalha como editora na

Grant Books. Formou-se summa cum laude em literatura

Inglesa pela Princeton. Sua mãe é artista plástica, e

seu pai, além de poeta, era professor da Universidade

de Iowa.

O Sr.Cox (31) é um dos diretores executivos do banco

de investimentos Goldman Sachs em Nova York.Também

formou-se em Princeton, com MBA em Harvard.

Sua mãe é membro do conselho do Flagler Museum e da

Palm Beach Historical Society, Seu avô era presidente do

McCowan Trust, onde seu pai ocupou a vice-presidência

até se aposentar no ano passado.


- Você está bem, Claire? - pergunta Lucille, olhando para baixo. Seguindo seu olhar, vejo que minhas mãos estão tremendo violentamente, como se segurassem uma marreta. Por sorte, minha sogra é tão dispersa quanto uma mosca e logo se distrai com a chegada de nosso maquiador, Jacques, que a conduz até uma cadeira para os retoques de última hora. - E sua mãe? - ela pergunta, procurando o vermelho perfeito na coleção de batons de Jacques. - Onde foi que ela se meteu?

- Deve chegar daqui a pouco. - Confiro a hora no relógio, pedindo a Deus que o tempo parasse pelo menos um pouquinho para que eu pudesse recuperar o fôlego. Em vão. Ao longo do último mês o tempo não tem feito outra coisa além de me atropelar.

- Não sei que brincos usar - reclama Lucille. - Queria o conselho dela.

Bea levanta os olhos, incrédula. Bem, é mesmo difícil de acreditar que Lucille Cox, dama da sociedade e proprietária de uma vasta coleção de vestidos de alta-costura novinhos em folha, precise do conselho de minha mãe riponga para saber que par de brincos Harry Winston usar com seu Oscar de la Renta recém-saído das passarelas de Paris. Minha mãe, que nunca usou outra jóia senão a aliança de casamento. Minha mãe, cuja idéia de luxo burguês se resume a um banho quente e uma sessão de aromaterapia orgânica administrada por sua melhor amiga de Iowa: uma fazendeira lésbica, colega de artes plásticas, que produz o próprio sabão. Minha mãe, cujo guarda-roupa se limita a mole tons, jeans e tie-dye.

Difícil de acreditar, mas mamãe e Lucille eram tão próximas nos tempos da universidade quanto irmãs. Lucille (que cresceu num buraco do Kansas, cada vez mais próximo de Chicago sempre que lhe perguntam) passou quatro anos crivando mamãe (descendente de uma tradicional família de Boston) com perguntas sobre etiqueta, estilo e sofisticação. Suponho que mamãe não visse nenhum mal nos desvairados sonhos de ascensão de Lucille. Talvez os considerasse até mesmo um tanto engraçados. Não se importava com o mundo de onde vinha a ponto de ter ciúmes ou frustrar o desejo obsessivo de alguém de fazer parte dele. E os conselhos de mamãe se revelaram de grande valor quando Lucille fisgou Randall Cox II,um charmoso sangue-azul jogador de polo. Ele namorava cinco garotas de Vassar ao mesmo tempo, mas elegera Lucille como esposa. O casal mais badalado do campus, como ela gosta de contar.

O marido fisgado de Lucille, também conhecido como meu futuro sogro, revelou-se tão infiel quanto bem-sucedido (muito infiel e muito bem-sucedido). Mas, até onde sei, Lucille jamais se importou com as aventuras nada discretas do marido, contentando-se com a mansão de Palm Beach, as viagens de jatinho, as jóias, o "bangalô" de sete quartos em Southampton, os desfiles em Paris e Milão, o apartamento de Manhattan, o entourage de cozinheira, massagista e secretária. Enfim, o estilo de vida da Sra. Randall Cox II.

Mamãe, por sua vez, trocou a vida de privilégios de sua família por meu pai maravilhoso - o amor de sua vida, um poeta sem eira nem beira que apesar disso nos deu uma vida de riquezas incomparáveis. Nosso orçamento sempre foi apertado: papai dava aulas na universidade, mamãe vendia suas aquarelas nas lojinhas da cidade para ajudar e eu dei um duro danado para conseguir a bolsa de estudos em Princeton. No entanto, relembrando minha infância, eu não mudaria uma vírgula sequer.

Cresci numa pequena casa de fazenda branca, tipo cartão-postal, incrustada nos milharais verde-esmeralda de Iowa. Filha única, vivia em meio à brilhante roda de poetas, estudantes, dramaturgos e romancistas que gravitava em torno da famosa Oficina de Criação Literária da universidade. Lá pelos meus 10 anos, comecei a ser convidada para ler e avaliar os trabalhos desse círculo familiar estendido. Ter minha opinião considerada era o máximo para uma incipiente devoradora de livros como eu (tudo bem, incipiente nerd), que passava tardes inteiras trancafiada no quarto escrevendo minuciosas cartas com suas idéias e sugestões. Era bem possível que aquelas pessoas estivessem apenas sendo gentis comigo, mas trabalhar com escritores tão brilhantes, escrever meus primeiros "pareceres”, sentir o gostinho das primeiras colaborações criativas, tudo isso constituía o estranho conjunto de prazeres juvenis que inspiraria o futuro bacharelado em literatura e a subseqüente carreira no mundo editorial.

Talvez seja este o meu problema: minha vida tem sido uma sucessão de escolhas fáceis, sem grandes margens para a dúvida. Nunca dei a isso seu devido valor, pelo menos até o dia de hoje. Ao contrário de quase todo mundo que conheço, nunca tive de arrancar os cabelos para decidir que caminho tomar.

Olho novamente para o anúncio no Times e sinto as lágrimas brotarem de súbito.

- Tudo bem com você? - Bea afaga meus ombros e depois segura minha mão ainda trêmula.

- Um cigarro - suplico baixinho. Ela assente à maneira de um soldado obediente. Deus abençoe a Bea.


* * *

Dez minutos depois, Bea e eu estamos escondidas nas escadas, dividindo o segundo Marlboro contrabandeado e bebendo Veuve Clicquot no gargalo, com os degraus forrados com um cobertor para que meu vestido não se suje. Tenho a sensação de que sou uma fugitiva e sei que estou correndo contra o tempo.

- Não dou nem dois minutos para que Mandy mande sua patrulha atrás da gente - ironiza Bea. Mandy é a chefe de cerimonial, neurótica e severa, que Lucille me empurrou goela abaixo assim que Randall e eu ficamos noivos. (Deixo aqui um pequeno conselho: jamais confie seu casamento a uma organizadora solteira e com mais de 35 anos; Mandy já passou dos 40 e nunca pôs uma aliança no dedo.)

Mandy e Lucille têm as habilidades diplomáticas de um trator. De início, resisti educadamente aos planos que elas conceberam para. a festa, mas logo fui vencida, e a reuniãozinha íntima na fazenda de meus pais acabou se desdobrando numa soirée de gala no St. Regis Hotel, com 600 dos nossos amigos "mais chegados”. Isto é: uns 300 integrantes do jet set de Palm Beach, uns 250 colegas de trabalho de Randall e apenas um punhado de amigos meus e de minha família.

Mas não tenho do que reclamar. A família Cox está arcando com todas as despesas. Mamãe jamais teria cacife para financiar o tipo de festa que Lucille insistiu em fazer.

- Toma - diz Bea, entregando-me o champanhe. Bebo de um só gole, e as borbulhas vão direto para minha cabeça. Dou outro gole.

Os últimos dois meses têm sido um verdadeiro inferno. Minha chefe, a famosa sociopata Vivian Grant, tem mostrado suas garras com fúria implacável. Tenho trabalhado quase 24 horas por dia... sem exagero nenhum. Se Mandy e Lucille não tivessem entrado no jogo, eu mal teria tido um minuto para cuidar dos detalhes do casamento. Quase não tenho tido tempo para ver Randall desde que ficamos noivos, três meses atrás.

Lucille chegou ao ponto de marcar a data para nós, num prazo assustadoramente curto: não queria que nosso casamento "se perdesse" na mixórdia de casamentos importantes agendados para o outono.

Uma porta se abre em algum ponto do corredor, o chão range, Bea e eu trocamos um rápido olhar.

- Claire... - ela começa a dizer, mordendo a unha do mindinho como sempre faz quando não encontra as palavras certas. (Depois de uma década de amizade, aprendemos direitinho a interpretar a linguagem corporal uma da outra, algo que às vezes beira a telepatia.)

- Não precisa falar nada - digo, interrompendo-a. – Todas as noivas têm esse frio na barriga. - Mas não posso cair fora agora. Talvez Julia Roberts possa fugir do altar algumas vezes sem perder o glamour, mas isto aqui não é um filme de Hollywood. E a minha vida. Depósitos já foram pagos e... Que piração é essa agora? Não posso cair fora porque Randall é um cara legal, quer dizer, é um homem extraordinário, e eu seria maluca se não quisesse me casar com ele.

Enquanto dou o último trago no cigarro, sou surpreendida por uma lembrança que surge do nada, um problema cada vez mais freqüente. Lembro-me da noite anterior ao casamento de Beatrice com Harry, uns três anos atrás. Uma das primeiras de nossa turma a se casar, ela optou por uma cerimônia simples no jardim da casa dos pais. Passamos a noite inteira tentando cozinhar algo remotamente parecido com um bolo de casamento, sentadas em torno da mesa grande da cozinha, lambendo os dedos sujos de massa. "Está ficando nervosa?”, uma das madrinhas perguntou a Bea. Ainda hoje me lembro da calma e da sinceridade com que ela respondeu: "Animada, sim. Nervosa, não."

Então penso em meu bolo de casamento. Que noiva não ficaria de queixo caído com um escultural bolo de 12 andares confeitado com: íris e botões de rosa botanicamente perfeitos (polvilhados com açúcar colorido para produzir um efeito de pólen), sem falar nos desenhos de glacê combinando com os bordados de meu vestido e com o serviço de porcelana? Que importância tem esse bolo ter custado mais ou menos o equivalente a um ano de mensalidades numa universidade? Um bolo literalmente perfeito. Uma obra-prima de Sylvia Weinstock. Que mais eu poderia querer?

A porta corta-fogo das escadas se abre com estrépito, quase nos matando de susto. Os perdigueiros nos encontraram.

- Claire, minha flor! Meu doce de coco! Procurei por todos os lugares! Daqui a uma hora temos de sair para a igreja! - Mandy, vermelha e claramente precisando de um calmante, ajuda-me a levantar e a desamassar o vestido. - Vou pedir à equipe de maquiagem e cabelo para fazer um retoque.

"Inacreditável" é o que ouço ela sussurrar enquanto nos conduz de volta ao quartel-general. Sem dizer palavra, vou me arrastando atrás dela feito uma de tenta recolhida do pátio da prisão.


* * *
- Claire! - Mamãe corre a meu encontro assim que dobramos o corredor rumo à suíte, arranca-me das garras de Mandy e oferece exatamente o tipo de abraço de que tanto necessito. Sinto os ombros derrearem, o pescoço relaxar. Puxa; como é bom ser abraçada de verdade... Respiro fundo, inalando o suave perfume de eucalipto do xampu que ela usa. Mamãe me aperta ainda mais forte. - Tenho uma coisa para você, querida - ela diz, tirando um saquinho de veludo de dentro da bolsa. - O colar de pérolas de sua avó. Sei que você sempre gostou dele, então achei que poderia ser seu "algo velho" para dar sorte.

- Ah, mãe... - eu suspiro, passando os dedos sobre as pérolas frias e cintilantes. Quando menina, adorava vestir este colar durante as visitas à vovó nas férias de verão. - É muito lindo. Puxa, muito obrig...

- As pérolas são lindas, Tish - interrompe Lucille -, mas Randall acabou de surpreender Claire com esse colar. Fabuloso, não acha?

Mamãe dá um passo para trás e só então repara no fio de diamantes em torno de meu pescoço.

- Meu Deus! - ela diz. - É... é uma maravilha. Quanta generosidade de Randall... Bem, Claire, você pode usar as pérolas de sua avó em outra ocasião. Elas agora são suas. - Mamãe põe o colar de volta no saquinho de veludo. É de cortar o coração o esforço que ela faz para sorrir.

- Ou então... - digo eu, mesmo sabendo que ninguém vai me dar ouvidos - quem sabe eu não uso o colar de Randall em outra ocasião?

Como previsto, Lucille explode imediatamente.

- Como é que é? Usar em outra ocasião o colar que seu noivo lhe deu? Ora, Claire, isso deixaria Randall arrasado! Esse colar é o presente especial de casamento! Você tem de usar, tem de usar!

Mamãe sacode a cabeça em sinal de concordância. E depois me aperta num segundo abraço.

Por favor, não me abandone, é o que penso, aparentemente de volta aos 7 anos de idade. No calor desse abraço, sinto o nó do estômago se dissipar pelo menos um pouquinho.

- Tish, por favor, preciso urgentemente de sua ajuda com os brincos - intervém Lucille, afastando mamãe de mim. Senti-la desfazer o abraço é pior do que ouvir o despertador tocar depois de uma noite de insônia. Fico ali, sem saber o que fazer. Estou velha demais para cair de joelhos e me agarrar a suas pernas, mas preciso reunir forças para não fazer justamente isso.

E então, quando acho que já cheguei ao fundo do poço, afundo mais.

Porque acabo de ouvir a voz dela. Uma voz inconfundível: profunda, gutural, poderosa, cruel. A voz que tem ricocheteado entre as paredes de meus pesadelos durante os últimos onze meses.

E essa voz terrível parece estar caminhando a passos largos pelo corredor, vindo em minha direção.

- Claire!... Claire! Ah, até que enfim te encontrei!

Se eu fosse uma gazela, essa voz seria os faróis do carro que vem pela estrada. Fico completamente paralisada toda vez que a ouço.

Será possível?, penso. Mais um pesadelo?

- Porra, Claire, deixei mais de dez mensagens no seu celular e na sua casa! Finalmente consegui falar com uma parenta sua, uma retardada que só depois de muita hesitação resolveu me dizer onde você estava. I-na-cei-tá-vel, Claire. Preciso saber onde você está a cada minuto, nas 25 horas do dia, nos 8 dias da semana, já falamos sobre isso mais de um milh...



Respire, penso freneticamente, sem virar para trás, as mãos começando a suar. Só pode ser mais um pesadelo. Isso não está acontecendo.

Com muito esforço, dou meia-volta. E lá está ela. A supracitada chefe dos infernos: a inclemente, poderosa e elegantérrima Vivian Grant. Um metro e sessenta de altura: um minúsculo furacão. Quadris sacudindo de impaciência, rosto vermelho de fúria, bloquinho aberto na mão.



Não, não, não!, berro mentalmente. Não acredito que essa mulher invadiu minha suíte com essa expressão no olhar que só pode significar uma coisa...

- Preciso de dez minutos para passar a você algumas das idéias que tive para a semana que vem.

Bea cruza os braços e arregala os olhos. Parece pronta para despedaçar a mulher da cabeça aos pés. Mamãe e Lucille reaparecem à porta, perplexas. A ousadia de Vivian conseguiu silenciar até mesmo a velha Luce.

- Vivian - eu digo, bem devagar -, vou me casar daqui a uma hora. Adiei minha lua-de-mel só para cumprir com minhas responsabilidades. Será que isso não pode esperar até segunda-feira?

Vivian olha torto para mim, as sobrancelhas nas alturas. Era exatamente isso que ela queria ouvir. A deixa de que precisava para proferir uma de suas tiradas preferidas.

- Fico feliz em saber que a minha agenda deve se adaptar à sua, Claire! Só estou pedindo míseros dez minutos. Você por acaso não seria generosa o suficiente para dar um tempo nisso tudo - ela abana a mão num gesto de desprezo que encampa toda a suíte, inclusive mamãe, Lucille e Bea, todas boquiabertas - para cuidar de algo tão frívolo e tão insignificante quanto a sua carreira?

Por um momento, penso em correr até a janela da suíte e...

- Eu esperava mais de você, Claire - ela continua, implacável.

- Achei que você fosse das minhas. Mas agora que vai se casar...

Sei que a mulher não bate muito bem, que o elevador dela não chega ao último andar. Ainda assim ela consegue exercer um poder quase patológico sobre mim... e sobre todas as outras pessoas que trabalham com ela.

- Cinco minutos - eu digo (rispidamente, pelo menos para mim). Dou um gole profundo no champanhe e tomo o bloquinho de suas mãos.

- Isso é uma maluquice - sussurra Bea depois que Vivian passa por ela. - Você é uma editora, Claire, não chefe de Defesa do Estado. O que pode ser tão urgente assim para que essa mulher venha infernizá-la logo no dia do seu casamento? Não faz sentido! Por que essa perua está fazendo isso com você?

Por que Vivian Grant faz qualquer coisa que ela faz? Reflito um pouco sobre a pergunta.

- Porque ela pode - respondo afinal.

De repente me dou conta de uma coisa terrível: por mais ridícula que seja a situação, sinto certo alívio pela oportunidade de esquecer um pouco o casamento que está por vir.

Pelo menos por alguns instantes vou poder parar de pensar naquela longa caminhada até o altar. Na vida que está à minha espera, ou na vida que vou deixar para trás. No homem maravilhoso com quem vou me casar, ou no motivo da minha falta de entusiasmo com esse casamento.

Mais que tudo, vou poder parar de pensar no homem que beijei seis semanas atrás.

UM ANO ANTES



Capítulo 1
UM BOM HOMEM É DIFÍCIL DE ENCONTRAR
No dia 26 de junho, exatamente um ano antes de meu casamento, eu estava esparramada no sofá com uma pizza grande de calabresa, um maço semi-vazio de Marlboro Lights, o cobertor mais aconchegante do mundo e muitas horas de televisão.

Fossem outras as circunstâncias, eu teria adorado a programação. Noutra noite qualquer, o maço de cigarros estaria semi-cheio. Mas, naquele dia, mesmo a perspectiva de ver Kiefer Sutherland salvando o mundo por seis horas seguidas não me parecia lá muito animadora.

Para início de conversa, ainda estava recolhendo os cacos de uma briga feia com meu namorado James, projeto de rock star. (Já que estamos lavando roupa suja: essa foi a última de uma seqüência de quatro brigas, cada uma delas mais claramente necessária do que a outra.) Isso tinha me abalado.

Mas o que tinha me derrubado era uma crise profissional. Naquela mesma tarde eu havia recebido a terrível notícia de que Jackson Mayville, meu adorável chefe na Peters & Pomfret (editora topo de linha de Nova York) , meu mentor profissional durante os cinco anos desde a formatura, penduraria as chuteiras naquele verão. Ele e a mulher se mudariam para a Virgínia a fim de ficarem mais próximos dos netos.

Eu deveria ter me antecipado a isso, mas nunca fui boa em prever as coisas. Portanto, quando Jackson me deu a notícia, logo fiquei de olhos marejados: um mico, eu sei, mas um mico absolutamente sincero.

- Ah, deixa disso... A gente vai continuar se falando, minha querida - ele havia dito naquele seu sotaque de Bill Clinton, tentando me consolar com um carinho nos cabelos e um lenço para enxugar as lágrimas. Depois puxou-me para um constrangido abraço, a testa crispada de preocupação paternal.

Nada disso, desnecessário dizer, serviu para aplacar meu choro. Tentei sorrir e recobrar uma postura mais ou menos profissional, mas não consegui. Eu estava arrasada. Jackson tinha sido muito mais que um chefe: fora um segundo pai desde a morte do primeiro, cinco anos antes. Do mesmo modo que papai, ele irradiava gentileza e inteligência. Ambos eram altos, magros e elegantes (mas não exatamente bonitos), tinham uma bela cabeleira grisalha e quase nunca perdiam a oportunidade de dar uma alfinetada no status quo. Ambos tinham uma inabalável adoração pelo trabalho que faziam. Ambos eram generosos, emotivos, sinceros. Ambos adoravam suas esposas.

E ambos me faziam sentir... amada. Foram muitas as noites de sexta-feira em que Jackson, vendo que eu ainda estava no escritório, arrancava-me do trabalho e arrastava-me para jantar com sua mulher, Carie, e os dois filhos adolescentes, Michael e Edward, os dois caçulas de uma prole de cinco. Sentada à mesa daquela cozinha, aconchegante e aquecida pelo forno em que ela quase sempre deixava queimar a lasanha, eu ficava com a impressão de que havia encontrado um lar de verdade em Nova York.

- Não precisa se preocupar comigo - solucei, o rosto ainda afundado no paletó de tweed de Jackson.

Foi no finzinho de meu último ano de faculdade que nos conhecemos, quando fui procurá-lo em busca de emprego: com o currículo em punho e tremendo nas bases, entrei na sala dele e me acomodei no mesmo surrado sofá de couro em que cinco anos depois eu o abraçaria chorando. Faltavam apenas algumas semanas para a formatura. Eu já contava com uma oferta de emprego de outra editora grande - resultado de muitas viagens a Nova York na combalida perua da Bea -, mas quando soube que o lendário Jackson Mayville se dispusera a me receber, informei ao RH da outra empresa que precisava de mais tempo para avaliar minhas opções. Afinal, tinha uma entrevista marcada com ninguém menos que Jackson Mayville, que havia publicado algumas das mais importantes vozes literárias do século e estava num patamar bem acima dos demais editores.

Desde menina eu sabia que queria ser editora. No ensino médio, adorava ler a seção de agradecimentos de meus romances prediletos, sonhando que um dia, talvez, algum escritor brilhante pudesse ver em mim a pessoa que "tornou este livro possível" ou "abrilhantou estas páginas com sua incomparável sagacidade editorial". Seria eu o Maxwell Perkins de algum futuro Hemingway Fitzgerald ou Wolfe? Ter Jackson Mayville como mentor me parecia um excelente primeiro passo.

E de fato foi. Os cinco anos com Jackson haviam passado num estalar de dedos, e com ele eu havia aprendido muito mais do que poderia ter imaginado.

Claro, esses cinco anos não haviam sido um constante mar de rosas, nem profissional nem pessoalmente. Foram anos de muita luta para pagar as contas no fim do mês, de sucessivos fracassos amorosos, de muitas dúvidas ao ver minhas amigas se acomodando na estabilidade doméstica enquanto eu ainda tinha de comer sopa enlatada na maioria das noites da semana. Mas também foram anos de muito aprendizado ao lado de um mentor inteligente e generoso, de muitas realizações, de uma prezada e bem-vinda independência. No fim das contas, portanto, um lado compensava o outro.

Mas agora a balança estava prestes a se desequilibrar outra vez. Jackson ia se aposentar.

E, para falar a verdade, minha vida amorosa também não vinha ajudando muito. James tinha sido uma experiência chata, cansativa, mas a maioria de meus relacionamentos recentes também não havia sido lá grande coisa. Já fazia um bom tempo que eu precisava fazer um esforço para me convencer de que o cara ao meu lado não era: a) um debiloide (E daí que ele não gosta de ópera? Nem de museus... nem de jornais... nem de ler sem mexer os lábios...); b) um bunda-mole (E daí que ele está desempregado há dez anos? Não é ligado em coisas materiais. (É tão seguro de sua masculinidade que não se importa que eu pague todas as contas); c) um babaca mal-educado (E daí que ele me deixou esperando no restaurante quase duas horas?).

Depois de adiantar a TV para mais um episódio de 24 horas, pensei com meus botões: Quer saber? Um dia como este requer muita pizza. Liguei para um serviço de entrega. Algumas pessoas praticam ioga, outras correm para a terapia - eu, por minha vez, prefiro afogar as mágoas numa suculenta calabresa.

Naturalmente, não era só o baque emocional de perder o contato diário com Jackson que me incomodava. Havia também problemas de ordem prática. Jackson mais de uma vez havia mexido os pauzinhos a meu favor: fosse convencendo Gordon Hass, o editor-chefe, a dar ouvidos a algumas das propostas que eu apresentava, ou brigando por minhas promoções, ou infernizando a turma do RH por apreciadíssimos aumentos salariais. Que impacto poderia ter a aposentadoria de Jackson em minha carreira na P&P? Eu não corria o risco de perder o emprego, pelo menos isso ele me garantira, mas não havia dúvida de que a ausência de um forte aliado como Jackson representava um obstáculo em minha trajetória. Algo nada animador, já que eu levara cinco anos para escalar a pirâmide editorial até o posto de editora-assistente, um prazo considerado curto pelos parâmetros da empresa.

Acendi o oitavo cigarro da noite e tentei concentrar a atenção em Kiefer Sutherland - mas estranhamente não consegui. O problema era que, mesmo antes, eu mal conseguia marcar uma reunião com o chefão Gordon, ou seja, era dificílimo conseguir a aprovação e os recursos financeiros necessários para dar lances em um livro. Como poderia ser promovida a editora caso não pudesse demonstrar a habilidade para comprar bons títulos e o talento para editá-los? Eu sabia que muitos de nós, iniciantes, tínhamos de lidar com esse mesmo dilema. Com tantos editores mais graduados disputando a atenção de Gordon e fatias de seu orçamento, era quase impossível conseguir uma promoção, mesmo com os valiosos empurrõezinhos de Jackson.

Ao longo dos últimos meses eu havia deixado escapar diversos títulos bastante promissores simplesmente porque não conseguira arrancar uma resposta de Gordon a tempo. Mas a culpa desse congestionamento não era dele: embora simpático e bem-intencionado, Gordon trabalhava nos limites de sua capacidade e fazia o que podia para dar espaço a todos.

Mesmo assim eu me sentia frustrada. Tinha fome de mais responsabilidades. O que me levara a entrar nesse ramo era o trabalho conceitual e criativo que um editor pode realizar com os autores, não a oportunidade de fazer fotocópias de originais durante cinco horas todos os dias.

Pois era neste ponto que eu estava um ano antes do casamento: nenhuma perspectiva romântica e uma carreira que parecia empacada num eterno modo de espera. Uma rotina "de endoidecer gente sã".
* * *
Eu já me preparava para atacar a segunda pizza quando o telefone tocou: Beatrice, chamando para a inauguração de uma galeria qualquer.

Sem chance, pensei. Na verdade, é bem possível que tenha falado em voz alta. Podia imaginar o tipo de festinha que me aguardava pela frente. Uma turba de nova-iorquinos fazendo poses, sorrindo de orelha a orelha, enchendo a cara, puxando conversa, jogando charme a torto e a direito. Socialites que haviam passado a tarde inteira escolhendo o modelito da noite. Homens de gel esquadrinhando o salão ao mesmo tempo que conversam com a gente. Burguesinhos de nariz empinado e sobrenomes ridiculamente compridos com suas louraças a tiracolo. Hippies de butique nascidos em berço de ouro. Flashes de paparazzi por todos os lados. Vinho de quinta. Conversa fiada. Mesmo as pessoas mais interessantes se deixavam levar pelas trivialidades depois de algum tempo no circuito.

Admito que estava sendo um tanto cínica. Mas com certo conhecimento de causa. Ainda que perifericamente, vinha participando dessa cena por cinco anos - sobretudo porque Bea, decoradora de interiores, precisava rodar bolsinha nesses ambientes a fim de aumentar a clientela -, e a essa altura já sabia mais ou menos o que esperar.

Fazia pouco tempo, por exemplo, que ela havia me arrastado para um coquetel na Soho House, lançamento da primeira coletânea de contos de uma jovem e talentosa escritora. Fiquei ali, observando o circo. Um grupinho de ratazanas de festa, todas de primeiro time, havia se posicionado junto a uma das estantes de livros. Patrick McMullan, fotógrafo de uma badalada coluna social, rondava por perto, mas as garotas habilmente fingiam não notar a enorme câmera pendurada em seu pescoço. Mas só até os flashes começarem a espocar. Uma das ratazanas, ex-modelo, tirou um livro qualquer da prateleira e começou a ler. Outra fez a mesma coisa. Uma a uma, todas foram assumindo ares de intelectual, apertando as pálpebras como se meditassem sobre alguma mensagem profunda, franzindo a testa - muito ligeiramente - numa afetada expressão de seriedade acadêmica. Patrick parecia estar amando tudo aquilo. Uma das meninas segurava o livro de cabeça para baixo, mas ninguém se importava com isso. Tratava-se de uma inofensiva sessão de fotos, eu sabia, mas foi o que bastou para que eu largasse a taça de vinho e buscasse a saída mais próxima.

De qualquer modo eu não estava a fim de sair. Principalmente naquela noite. Estava preocupada demais com minha situação no trabalho, e ainda tinha pela frente pelo menos uma semaninha a mais de dor-de-cotovelo. (Quem, lá no âmago de seu ser, não adora terminar uma relação? Ou pelo menos a oportunidade de deixar a culpa de lado e fumar um cigarro atrás do outro, comer baldes de sorvete, passar uma tarde inteira no sofá ou se permitir qualquer outro clichê dessa natureza? Eu não tinha a menor intenção de abrir mão de tudo isso.)

Disse a Bea que meu moletom estava com síndrome do pânico e não poderia ser abandonado naquela hora tão difícil, mas ela insistiu. Depois implorou.

E, antes de se dar por derrotada, arriscou:

- Será que James também está em casa arrastando correntes?

- Te vejo daqui a uma hora - resmunguei, levantando do sofá. Verdade seja dita: minha amiga mandou bem. Tanto ela quanto eu sabíamos que, naquele mesmo instante, James provavelmente estaria de papo com uma fanzoca de indie rock que o havia crivado de caras e bocas durante o show. Sua fraqueza por esse tipo de predadora havia sido um dos catalisadores de nossa separação.

- Você não vai se arrepender, Claire - disse Bea, animada. - Ah, usa aquele seu vestido vermelho, OK?

O vestido vermelho? Ela desligou antes que eu pudesse cair fora, tendo sentido no ar o inconfundível cheirinho de uma armadilha.


* * *
Chegando à galeria por volta das 21h, localizei Bea e tracei uma reta na direção dela.

- Vai, diz logo quem é - disparei, sorrindo com visível desânimo. Só então a cumprimentei com dois beijinhos e pesquei uma miniquiche da bandeja de um garçom que passava por perto. Harry surgiu atrás de mim, fumando um charuto fedorento que só ele tinha o direito de fumar. Carinhosamente pousou a mão nos ombros de Bea e abriu um sorriso de raposa na minha direção.

- Cuidado, homens de Nova York - disse, inclinando-se para um beijo. - A Srta. Truman está de volta à caça.

Observação: eu amo, amo, amo meu amigo Harry, uma das pessoas mais discretas, inteligentes e engraçadas que já conheci, dessas que te fazem sorrir só de estar por perto. Mas ele também sabe rodar a baiana quando necessário: na qualidade de assistente da Promotoria Pública, tem um monte de histórias de máfia para contar. Entrou em minha vida desde que Bea aceitou um convite seu para sair, no segundo ano de faculdade. Ainda bem que ela viu a luz, pois não havia naquele campus ninguém que tivesse cavado um encontro com mais persistência do que ele. Na verdade é disto, além do charme inquestionável, claro, o que mais gosto em Harry: o grande amor que ele dedica à minha melhor amiga. Bea é uma deusa aos olhos dele - e aos meus também.

Mas não somos apenas nós que achamos isso. Bea é um escândalo. Naturalmente magra, ninguém suspeita do horror que ela sempre teve à alimentação "saudável",sobretudo às verduras, nem de sua dieta à base de filé com fritas e nuggets. Tem uma beleza clássica, um rosto sadio, e sempre dá a impressão de que acabou de chegar de uma partida de lacrosse com as amigas do country club. Os cabelos fartos e dourados são de dar inveja a qualquer garota-propaganda de xampu, e os olhos enormes são tão azuis quanto o mar da Sardenha. No quesito aparência, Bea é páreo duro para qualquer Charlize Theron - e todo mundo sabe disso, menos ela própria.

Ainda por cima é casada com esse homem maravilhoso que até hoje lhe manda cartas de amor sem motivo, que tirou um ano sabático na escola de direito apenas para estudar culinária na França, que chega em casa todas as sextas-feiras com um vasinho de violetas para a mulher. Como se isso não bastasse, tem uma carreira em franca ascensão como decoradora, trabalho que lhe permite dar vazão à criatividade que ela tanto preza, sem a rigidez de horários fixos.

Isso mesmo. Se eu não amasse Bea feito a irmã que nunca tive, seria obrigada a odiá-la.

Acontece que adoro essa mulher. Sempre adorei, desde o dia em que ela se sentou algumas fileiras à minha frente durante uma das avaliações que fomos obrigadas a fazer na primeira semana em Princeton. Para dar sorte, nós duas tínhamos prendido os cabelos com uma fita colorida, um desses detalhes que a gente só percebe quando passeia os olhos pela sala durante um aborrecidíssimo teste de raciocínio quantitativo de quatro horas. Terminado o teste, comentamos uma com a outra sobre nossas superstições malucas, e ali se deu o primeiro passo para uma longa e profunda amizade.

- Você ainda vai me agradecer por ter te arrancado de casa esta noite - sussurrou Bea, apertando-me pelo cotovelo a fim de conquistar minha inteira atenção. - Você nunca vai adivinhar quem está aqui.

Rapidamente esquadrinhei a galeria, mas não identifiquei ninguém que pudesse justificar o entusiasmo de minha amiga.

- Pabst Blue Ribbon - informou Bea, escandindo as sílabas.

Arregalei os olhos, que ficaram tão grandes quanto os dela.

- Está brincando.

- E eu brincaria com uma coisa dessas? Ele está aqui. E acho que ficou ainda mais bonito do que já era nos tempos da faculdade, se é que isso é possível. - Ela acenou com a cabeça ligeiramente para a esquerda e olhou para trás como quem não queria nada.

Randall Cox.

Lá estava ele, do outro lado do salão.Eu mal acreditava no que estava vendo, mas não havia dúvida: o porte esguio de remador, o castanho avermelhado dos cabelos, o azul cortante dos olhos, a maneira absolutamente segura de se comportar - só uma pessoa reunia todas essas qualidades.

- Me segura se eu desmaiar - instruí Bea, brincando, mas nem tanto.

Um breve histórico: Randall Cox era o homem mais atraente do planeta. O padrão-ouro do charme. Em nosso primeiro ano de faculdade, Bea e eu costumávamos passar sem nenhuma pressa diante do prédio em que ele morava (fora do campus), apenas na esperança de vê-lo por uns míseros segundos. Randall já estava no quarto ano de Princeton, um ícone de beleza com uma namorada igualmente bonita.

Depois de alguns meses, Bea e eu já tínhamos estabelecido uma intricada rede de espiãs para nos manter informadas sobre a presença dele nas festas e nos bares locais. E depois nos plantávamos nesses lugares, torcendo para que o milagre se desse duas vezes na mesma semana. Quando nossas preces por fim eram atendidas, fingíamos não notar a presença dele. Tais eram os rituais de acasalamento que permitia a maturidade de nossos 18 aninhos.

Certa vez, Bea viu Randall saindo de um dos prédios da universidade e fingiu tirar uma foto minha no mesmo lugar. Essa foto, com a figura difusa de Randall no fundo, decoraria nosso quarto no dormitório durante muitos anos.

Em outras palavras, nós o perseguíamos. Implacavelmente.

- Você tem de ir lá falar com ele - disse Bea, examinando meus dentes à procura de algum restinho de miniquiche. – Tem de ir. Se não for, nunca mais lhe dirijo a palavra. - Perplexo, Harry sabiamente tomou isso como deixa para que saísse pela tangente e fosse buscar uma bebida.


* * *
Déjà vu. Duas semanas antes da formatura de Randall (desnecessário dizer, um evento traumático em nossas juventudes), Bea e eu o tínhamos visto pela janela do Annex, um dos bares mais procurados pelos estudantes. Tremendo nas bases, limpamos nossas pífias contas bancárias para molhar a mão do leão-de-chácara.

- Essa é sua última chance - disse Bea, enquanto nos dirigíamos ao balcão onde Randall esperava por um chope. Aquela altura o príncipe encantado era mais meu do que dela: Bea começava ceder aos encantos de Harry, que a vinha perseguindo sem réguas durante todo o ano.

Estacionadas no balcão, dando as costas para Randall e fazendo o possível para não trairmos nossa ansiedade, cogitávamos algum plano, algum jeito de puxarmos conversa com ele. Dizer olá? Simplório demais. Uma garota não podia ser tão prosaica ao se dirigir a um deus grego.

Depois de uns vinte segundos de hesitação, Bea fez o impensável. Fingindo tropeçar em alguma coisa, jogou-se para frente e me empurrou na direção de Randall, que me amparou pelos braços, segurando-os com firmeza. Por um breve e adorável instante, pude sentir o peito forte dele pressionando minhas costas.

Olhei para o alto e me deparei com Randall olhando de volta para mim, aparentemente se divertindo com a situação. Eu, por minha vez, estava paralisada. Catatônica. Mal conseguia respirar. Ele sorria - gentilmente, devo acrescentar, já que eu o havia feito encharcar a camiseta de rúgbi com o chope recém-servido.

- Posso lhe comprar um outro chope? - ofereci, chocada e ao mesmo tempo orgulhosa por ter conseguido juntar as palavras diante dele.

- Hmm. Será que pode? - ele retrucou, apontando para a carteira de identidade que eu equilibrava entre os dedos. Uma falsificação de quinta categoria. A garota na foto tinha cabelos loiríssimos e encaracolados, o rosto coberto de sardas. Quanto a mim, tenho a pele morena que herdei de papai e, como a maioria das meninas à época, usava os cabelos, também morenos, cortados à la Rachel do seriado Friends. Em vez de sardas, as bochechas se cobriam com um blush muito vermelho, borrado quase até o pescoço, um verdadeiro horror.

Eu não conseguia despregar os olhos de Randall. Emplacar uma conversa inteligente? Impossível. Subitamente me vi incapaz de juntar as sílabas para formar palavras.

- Não esquenta, vai - ele disse por fim, talvez se dando conta de que eu havia perdido todo o jeito logo na primeira frase. Pediu ao bartender que lhe trouxesse outro chope, além de uma latinha de Pabst Blue Ribbon, que depois entregou a mim. Murmurei um "muito obrigada", e ele se despediu com uma piscadela, voltando à companhia dos amigos reunidos em torno da mesa de sinuca.

Esse foi sem dúvida o momento mais vibrante de toda a minha vida até então. Fiquei tomada de alegria, tonta de emoção. Na verdade, tonta demais para cortar os pulsos em razão de minha total incapacidade de puxar conversa com as pessoas. Depois de saborear cada gota da cerveja que ele havia me dado, guardei a latinha na bolsa, óbvio, e fui embora na companhia de Bea. Ainda com a cabeça nas nuvens, voltamos para o dormitório e desabamos no futon dela para analisarmos cada detalhe do episódio.

- Acho mesmo que ele gostou de você - sussurrou Bea antes de cair no sono, fortalecendo ainda mais nossos laços de amizade.

Semanas depois, visitando mamãe em Iowa, repeti toda a história durante um bate-papo na cozinha.

- Randall Cox? - ela perguntou ingenuamente. E depois falou de sua antiga amizade com a mãe dele, Lucille. Por que ela não me disse isso antes? Esse seria o assunto perfeito para uma conversa naquele dia fatal.

E as páginas da história teriam sido reescritas de forma bem diferente: a sucessão de relacionamentos fracassados e decepções amorosas que me aguardaria nos anos seguintes teria sido evitada, e aos 18 anos eu teria começado a ser feliz para sempre.


* * *
Pois bem, lá estava a segunda chance pela qual eu vinha esperando por mais ou menos uma década. A adolescente bobona havia se transformado numa mulher segura e articulada. Vou falar com ele, pensei.

Ainda tentava me convencer disso quando vi a expressão no rosto de Bea mudar.

- Olá, meninas - exclamou alguém atrás de mim. Virei o rosto. E lá estava Randall, infernalmente lindo, estendendo a mão para ser cumprimentado. Eu podia ouvir meu coração bater como um bumbo. - Acho que freqüentamos Princeton na mesma época. Randall Cox - ele disse. Beatrice cumprimentou-o e se apresentou.

- Claire Truman - eu disse com surpreendente calma, abafando os tambores que rufavam internamente. - Acho que você já estava no último ano quando ainda éramos calouras, certo?

- É, tenho uma vaga lembrança, era o que meu tom de voz dava a entender. Mal sabia ele que eu havia guardado por três semanas um frasco de detergente que ele havia usado. Nem que ainda lembrava da cor das cortinas do quarto dele, visíveis do lado de fora do prédio. Nem que sabia o tamanho dos sapatos que ele usava. Nem que ainda guardava, no fundo de um armário qualquer, aquela fotografia roubada no campus.

- Isso mesmo. Vocês duas parecem bem crescidinhas – disse Randall, olhando para mim. Uau. O vestido vermelho. Geralmente os homens fecham o zoom em Bea, e ela tem de desviá-los para mim. Nunca mais tiraria aquele vestido. A não ser, claro, que Randall pedisse.

- Vou buscar mais um drinque - disse Bea, os olhinhos cintilando. - Querem alguma coisa, vocês dois?

- Não, obrigado(a) - Randall e eu dissemos juntos. Depois rimos. Falar em uníssono? Existe coisa mais bonitinha do que isso?

Tão logo Bea se afastou, passamos naturalmente aos assuntos obrigatórios em todos os coquetéis de Nova York: onde morávamos, em que trabalhávamos. Com Randall, até mesmo esse tipo de conversa era uma delícia. Ou talvez fosse o prazer de poder olhar diretamente em seus olhos a uma distância tão curta.

- Voltei para o Goldman depois de terminar o MBA – ele relatou depois de ouvir minha sinopse bem menos impressionante - e moro na Quinta Avenida com a 82.

- Essa é a quadra do Metropolitan, não é?

Randall sorriu com modéstia.

- Meu terraço dá direto para o museu. Infelizmente não paro em casa o bastante para aproveitar a vista. Praticamente tenho morado no escritório.

Vista, terraço, museu... Nada disso me interessava de verdade. Em minha cabeça fervilhava a pergunta mais importante de todas, ainda não respondida. Ele estava solteiro? Seria possível que um cara lindo daqueles, tanto no papel quanto em pessoa, estivesse disponível?



Claro que não, respondi a mim mesma. Com certeza tem uma mulherzinha qualquer rondando por aí.

Sem querer ir direto ao assunto, decidi comer a sopa pelas beiradas:

- Você namorava Alexandra Dixon, não namorava? - perguntei. Alexandra era a femme fatale da universidade.

- Namorei, sim. Sua memória é ótima. Você conhecia a Alex?

- Fizemos algumas matérias juntas. Ela era uma graça. - Admito que floreei um pouquinho. Tudo bem, floreei muito. Alex Dixon e eu fizemos uma única matéria juntas, e ela nunca me dirigiu a palavra. Eu não tinha nenhuma evidência sólida de que ela era uma graça, mas de que era, sim, absurdamente bonita, inteligente, elegante e poliglota. Juro que nunca ouvi a mulher falar a mesma língua duas vezes.Já que não estava disposta a lembrar Randall de nenhum desses atributos, recorri a uma expressão banal e inócua. Uma graça.

- Ela está ótima. Ficou um ano trabalhando como modelo em Milão e depois voltou para estudar medicina. Hoje é neurocirurgiã, dá para acreditar numa coisa dessas?

Claro que dava.

- Uau! - foi o que consegui dizer. - Suponho que não existam muitas modelos capazes de fazer uma transição dessas. Vocês ainda se falam?

- Não. Faz anos que a gente não se vê, infelizmente. Agora ela mora em Chicago, com o marido e dois filhos. Incrível, né?

- Dois filhos? - repeti, mais animada. A modelete neurocirurgiã estava definitivamente fora do páreo.

- E você? - perguntou Randall, os olhos focados em mim. - Casada? Filhos?

- Ainda não. - Eu podia sentir as bochechas queimarem. - Tenho me dedicado muito ao trabalho.

- Entendo. - Randall novamente olhou para mim de um jeito que fez meus joelhos tremerem. - Ano passado terminei um relacionamento longo. A garota era ótima, mas por algum motivo eu não me via casado com ela. Então achei melhor terminar.

Meu coração deu cambalhotas de alegria. Com todo respeito ao infortúnio da garota.

- Bem, suponho que você não vá ter dificuldade para encontrar alguém.

- Encontrar alguém como você é muito mais difícil do que parece - ele disse. - Alguém assim, sabe... inteligente, bem-sucedida, e ainda por cima bonita!



Não. Só podia ser um sonho. Eu? Recebendo a coroa tríplice de Randall Cox? Inteligente, bem-sucedida e bonita? Será que ouvi direito?

- Olha, Claire, sei que o coquetel está só começando, mas... que tal a gente dar uma escapulida para comer alguma coisa? Esses canapezinhos não estão com nada.



Muita calma nessa hora, pensei. Respira. Não vá meter os pés pelas mãos.

- Eu adoraria - respondi.

Randall sorriu. E dali a pouco já estávamos deslizando rumo à porta, a mão firme dele em minhas costas. Despedi-me de Bea com um adeuzinho, e ela respondeu com uma piscadela discreta.
* * *
- Você está calada, Claire. Acho que estou falando demais do meu trabalho, não estou? - desculpou-se Randall, colocando mais vinho em minha taça.

Tratava-se de uma experiência quase sobrenatural: eu ali, jantando na companhia da minha grande paixonite de todos os tempos. Como se estivesse diante de uma megacelebridade, fazendo de tudo para disfarçar a excitação de estar cara a cara com alguém que até então eu só vira nas telas de cinema, nos outdoors da vida, nas revistas ou nos jornais. O rosto de Randall havia freqüentado meus sonhos durante anos, temporariamente substituído por casinhos menores, mas nunca inteiramente esquecido. Portanto, nada mais natural que eu me sentisse assim, meio aturdida por estar com ele num jantar à luz de velas no Il Cantinori, um dos lugares mais descolados da cidade para um tête-à-tête romântico.

- De jeito nenhum - retruquei. - Estou impressionada com tudo que você conseguiu realizar em tão pouco tempo. - E estava mesmo, embora pudesse ter dado a impressão de estar rasgando seda. Randall tinha um currículo fenomenal para alguém de sua idade. Além do MBA em Harvard, ele havia se tornado o mais jovem diretor executivo de toda a história do Goldman Sachs, um banco de investimentos conhecido não exatamente por contratar burocratas sem nenhuma ambição. E conseguira isso numa conjuntura econômica que não havia contribuído em nada.

- Sabe, gosto de desafios - ele disse sem nenhuma empáfia. Já ia dizendo algo mais quando o BlackBerry apitou e ele conferiu a tela. - Desculpe, Claire, é o Greg de novo. As coisas andam meio malucas no escritório. Preciso falar com ele, prometo que não vou demorar.

Greg já havia ligado três vezes desde que saíramos da galeria. Conferi as horas no relógio: eram 22h45. Puxa, a que horas essa criatura descansava? Coitado. Embora eu sempre implicasse com Bea quando estávamos juntas e ela se pendurava no celular, esperei pacientemente enquanto Randall passou a seu colega de trabalho uma série de instruções indecifráveis.

Na verdade, fiquei impressionada com a dedicação dele, especialmente em se tratando de alguém que poderia levar a vida na flauta, se quisesse. A família Cox era riquíssima, segundo mamãe havia contado, e portanto Randall poderia ter escolhido uma ocupação bem menos árdua, alguma coisa como colecionador de bússolas, ator desempregado, sei lá. Que ele tivesse optado pelos rigores e desafios de uma carreira estressante deixava bem claro o tipo de homem que realmente era.

- Do que mesmo estávamos falando? - ele disse dali a pouco, o incêndio já apagado. - Me conte mais sobre o seu trabalho. Que tipo de livro você edita?

- Bem, tenho a impressão de que tudo vai mudar daqui para frente. Jackson Mayville, meu chefe desde o início, acabou de comunicar que vai se aposentar, e não sei direito como vão ficar as coisas para o meu lado na Peters & Pomfret.

- Conheço o Jackson. Jogamos squash no mesmo clube. É um ótimo sujeito. Péssimo jogador, mas ótimo sujeito.

Não pude conter o riso, custando a crer que Jackson pudesse fazer qualquer coisa mais atlética do que amarrar os próprios sapatos.

- Ele é o máximo. Aprendi horrores com ele. Na verdade, só hoje fiquei sabendo dessa história de aposentadoria. Fiquei arrasada, embora para ele seja ótimo poder passar mais tempo com a família.

Randall ficou pensativo por um instante.

- Não tenho tido muito tempo para leitura ultimamente - disse. - Quer dizer... Talvez eu nem devesse confessar isto, você vai me achar um perfeito idiota, mas acabei de ler um livro publicado pela Vivian Grant. Algo da lista de best sellers do New York Times, eu acho. Sobre uma freira que abandona o convento para fazer strip, já ouviu falar? O título é péssimo... Como era mesmo? O livro ainda está na minha mesinha-de-cabeceira. Posso até ver a capa dele...

- Maus hábitos? - perguntei. Gordon havia feito algumas piadinhas a esse respeito na última reunião de editoria. O livro já estava na lista do Times por seis semanas, o que era um tanto deprimente. Randall tinha lido essa porcaria?

- Exatamente, Maus hábitos - ele disse balançando a cabeça, fazendo com que uma mecha de cabelos caísse sobre a testa. - Literatura de quinta, eu sei.Talvez nem seja literatura. – Ele olhou para mim com um sorriso acanhado. - Você nunca mais vai querer ver minha cara, não é?

- Bobagem - eu disse, o coração a mil. Que importância tinha o gosto literário dele? Trabalhando duro daquele jeito, Randall decerto não tinha a menor vontade de chegar em casa e mergulhar num livro que lhe desse mais trabalho ainda.

- Sabe, já estive com Vivian Grant algumas vezes – ele continuou. – É amiga de meu pai. Uma mulher danada. Sei que está sempre à procura de bons editores. Não me custaria nada falar com ela a seu respeito, caso você esteja interessada numa guinada profissional. Sei lá, acho que seria bom você trocar uma palavrinha com ela.

Trocar uma palavrinha com Vivian Grant?

Grant era uma das locomotivas do mercado, amplamente conhecida pelo pavio curto e pela crueldade no trato profissional. Não havia quem não revirasse os olhos diante da simples menção do nome dela. Na Mather-Hollinger, outra grande editora do país, ela havia conquistado um selo só para si, fazendo fama e fortuna com a publicação de grandes porcarias campeãs de venda, incluindo autores como Mindi Murray, a adolescente que se tornara rainha da indústria pornô, ou o serial killer que havia aterrorizado Chicago por mais de um ano, além de uma série de comentaristas políticos radicais de esquerda ou de direita.

A bem da verdade, esses autores de grande visibilidade e quase nenhum mérito literário ofuscavam alguns dos livros de excelente qualidade que ela publicava. Grant também havia contribuído nos bastidores para a elaboração de ótimos romances, bem como para o reconhecimento e sucesso, quase sempre estratosféricos, de alguns autores até então desconhecidos. Eu havia lido uma entrevista na qual ela reclamava, com toda razão, de que ninguém a elogiava quando um bom livro era publicado, preferindo sempre associá-la ao lixo editorial.

A despeito da opinião que as pessoas tivessem dela, Vivian Grant era tida como uma das personagens mais fascinantes do setor, além de uma das mais bem-sucedidas. Falar pessoalmente com ela? Com essa mulher que sozinha havia construído um verdadeiro império editorial? Eu não tinha como abrir mão de uma oportunidade dessas, por menor que fosse minha vontade de trabalhar na Grant Books.

- Seria ótimo, sim, Randall. Obrigada - respondi. Uma gracinha, não é? Ele se interessar assim pela minha carreira, logo no primeiro encontro...

- Que nada, não precisa agradecer. - Ele digitou um lembrete no BlackBerry.

Um [petit gâteau, enviado pelo dono do restaurante, chegou à nossa mesa. Eu estava de tal modo relaxada que decidi não me furtar do prazer de saboreá-lo: fui logo espetando o garfo na casca crocante, e o chocolate vazou feito lava.

- Não consigo comer mais nem um grãozinho do que quer que seja - disse Randall. Sorrindo, ele se refestelou na cadeira e alisou o abdômen forjado a ferro. Imediatamente larguei o garfo sobre a mesa. Randall provavelmente estava acostumado a namorar modelos que consideravam um prato de agrião desidratado uma farta refeição (e depois corriam duas horas na esteira para queimar as calorias). Embora a sobremesa estivesse uma delícia, não havia necessidade nenhuma de trazer a público, pelo menos num primeiro encontro, a formiguinha que eu de fato era.

- Estou tão feliz por ter encontrado você naquela festa... - Randall delicadamente pousou a mão sobre a minha.

Com a mão que me restava livre, belisquei a coxa para ter certeza de que não estava sonhando. Difícil acreditar que três horas antes eu estivesse curtindo uma bela dor-de-cotovelo por causa de James. E que agora fitava os olhos do homem mais perfeito que conheci em toda a minha vida.

- À velha Princeton - brindou Randall, levantando a taça - e aos novos começos.

Respondi ao brinde e pensei com meus botões: nada como um dia após o outro.




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