Pra mim, fui eu



Baixar 0.55 Mb.
Página1/13
Encontro02.12.2017
Tamanho0.55 Mb.
  1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   13


Pra mim, fui eu.

Carlos Artur Paulon

PRA MIM FUI EU

I

“Em esta casa siempre son las 12 para comer bien” está gravado sobre a larga porta com vidros que separa a varanda da parte interna do restaurante Puerto Del Carmen na Avenida Córdoba quase esquina da Florida em Buenos Aires.

Achamos Tito e eu ser este um café bem ao estilo parisiense. Na varanda algumas mesas ocupam um espaço contido por jardineiras coloridas, mas que dá lugar de passagem às pessoas que vão e vêm num desfile populoso e incessante.

Entre uma cerveja e outra assistíamos a cidade por nós passar, talvez por trabalho, talvez por turismo, uns com pressa outros nem tanto, mas todos trocando olhares rápidos com os que, como nós, gastávamos tempo bebericando neste agradável café que, conforme Tito observou com deboche, é dos poucos no mundo que não propagam a presença assídua de Hemingway, como o Café de Flore, Café Les Deux Magots ou Select em Paris, El Floridita e o Bodeguita em Havana, o Harry's Bar em Veneza, outro em Taxco no México e ainda em Florença, cujos nomes ele não lembra e mais diversos outros bares que, no mundo todo, contam estórias do novelista que, prossegue Tito, deu adeus às armas, boas-vindas aos copos e certamente projetara escrever O Velho e o Bar.

Programávamos, entre umas e outras Quilmes, a nossa noite, a última daquela viagem e a conversa corria amena como sempre assim ocorre entre velhos e inseparáveis amigos que nada tinham mais a fazer, não só naquela tarde portenha, mas na vida mesmo já que muito tinham feito. Acordamos em assistir no Teatro El Nacional, na Avenida Corrientes, a um musical chamado Tanguera e o acordo se fez porque seria mais inteligível, já que muito perderíamos do enredo em peças faladas com a rapidez dos argentinos que a mim parecem ter substituído por jota todos os eles da língua castelhana, castejana, por certo.

Tito e eu nos conhecemos em data inesquecível para quem a viveu ou dela sabe pelos livros de história: 24 de agosto de 1954, numa manhã amanhecida com um tiro no peito que matou Getúlio Vargas e livrou o Brasil de um golpe militar, que lamentavelmente acabou se sucedendo dez anos mais tarde, mergulhando o país na violência que até hoje perdura e aflige o seu povo. Presos nas mesmas celas juntos aos prisioneiros comuns os militantes da luta contra a ditadura militar chamados curiosamente pelos que subverteram a ordem constitucional de subversivos intelectualizaram o crime que se tornou organizado e sofisticado para uma policia corrupta e mal preparada.

Fazia sol em Santo Antonio de Pádua, uma pequena cidade do norte do Estado do Rio de Janeiro e, como sempre, os alunos do internato Colégio de Pádua formados no pátio cantavam o hino nacional, exceto nós, por recomendação de Dona Adelaide, professora de canto orfeônico, que salvava assim a rotineira cerimônia de nossas terríveis e desafinadas vozes. E muito nos aborrecia a correspondente obrigação de fazer a mímica das letras que exaltavam a pátria amada, salve-salve, o que, por certo, nos inibiu qualquer parco dom musical.

Tito, naquela manhã especial, me dirigiu a palavra tão logo o Professor Lavaquial, um educador espanhol que, apesar de usar métodos tão antiquados quão autoritários para manter a disciplina, mantinha na época um educandário laico para alunos internos, diferenciado ainda por ser misto e permitir recreios misturando meninos e meninas para nossa glória e gáudio, anunciou a tragédia.

Na verdade me disse duas frases curtas: “então não vai ter aula” e “por que o Presidente se matou?”

Respondi afirmativamente à primeira, acrescentando que estávamos livres da prova oral de latim onde o critério do Professor José Pinto era dez, cinco ou zero. Tito tirara zero na primeira e dez nas provas subseqüentes o ano inteiro.

-Como foi aquilo, passou a estudar latim? Pergunto eu aqui e agora, tão longe de Pádua e passados tantos anos.

Sem cerimônia responde rindo.

-Ora, Zé Pinto sorteava a palavra latina a ser declinada por escrito no quadro-negro e eram os alunos que metiam a mão no saquinho de pano para tirar o papelzinho contendo a palavra. Tornei-me especialista em templum, templi. Você sabe, da terceira declinação com seus gerúndios, ablativos, vocativos e o não sei mais quid.

- Decorou tudo?

- Nada, tinha horror ao latim. Não devolvi o papelzinho pro saquinho. Nos dias de prova, o tirava da manga do dólmã e era dez redondo ab initio usque fine. Especialista, mesmo, fiquei em esconder cartas no jogo de pôquer.

Mas não lhe respondi a segunda pergunta. Eu não sabia direito porque Getulio Dorneles Vargas se suicidara.

Passamos então, regados à Quilmes, a fazer hora e relembrar partes ainda não esquecidas, lidas ou vividas, da historia brasileira.

Meu pai, que após a ditadura civil de Vargas, por ele chamado de Pai dos Pobres, ajudara com voto e proselitismo a botar o retrato do Velho no mesmo lugar como cantava Francisco Alves, o Rei da Voz de todos os domingos na Rádio Nacional do Rio de Janeiro, me telefonou e disse: A culpa de tudo é do Carlos Lacerda e quero que você compre um jornal, qualquer jornal, todos trazem na primeira página a Carta Testamento, na qual o Presidente falava de coisas que me eram estranhas, mas que me fez acordar para a política e para a mesquinhez e grandeza dos homens tão logo eu a li e muitas vezes reli.

Getúlio Vargas, quando mais dele soube, mais me pareceu contraditório. Mesquinho quando ditador, perseguindo adversários políticos, copiando modelos fascistas para o Estado brasileiro, entregando aos nazistas Olga Benário, prendendo comunistas e integralistas, aprisionando os sindicatos no Ministério do Trabalho, namorando o nazismo e o fascismo, prendendo Graciliano Ramos, deportando Monteiro Lobato, fora deposto em razão dos ares liberais do pós-guerra na qual o Brasil só se posicionara a favor dos aliados após muita pressão popular, mas acabou absolvido pelo mesmo povo em eleição democrática e se empenhou para capitalizar o Estado com empresas do porte e importância como Petrobrás, Eletrobrás. A Vale do Rio Doce e a Cia. Siderúrgica Nacional foram também por ele criadas no período ditatorial, até que alvo de feroz oposição, por decisão própria, saiu da vida para entrar na história, o que ele mesmo vaticinou em sua Carta Testamento.

- Você se lembra, meu memorialista capenga, como eu ignorava política? Mas agora posso conversar e até surpreender você, caso queira tomar outra Quilmes.

- Peça a cerveja, mas me conte o que sabe.

E meu amigo Tito de fato me surpreendeu:

- Getúlio, o GêGê, quem por mais tempo governou o Brasil, advogado e promotor de justiça por pouco tempo após sua formatura em direito no ano de 1907, chegou ao poder após um movimento armado, unindo os tenentes militares progressistas e os políticos derrotados nas eleições de 1930, tidas como fraudadas pelas oligarquias que elegeram Julio Prestes para suceder Washington Luis, então presidente cujo pensamento se expressa resumido em sua celebre frase: “governar é construir estradas” o que deveria ser do agrado das empreiteiras esta afirmação simplória.

Naquele ano, tropas gaúchas e mineiras iniciaram, sem expressiva participação popular, o movimento que se deu a conhecer como a Revolução de 30 e que investiu Vargas no comando e depois na presidência da República, por eleição indireta ocorrida em 1934, após promulgada uma nova Constituição, que nos legou um federalismo deveras centralizado que até hoje perdura. São desta época o salário-mínimo; a justiça do trabalho, sem ser judiciária e sim uma seção do Ministério do Trabalho; a jornada de oito horas; as férias anuais; o descanso semanal remunerado. De 1931/32 são as leis de sindicalização e do voto feminino. Em novembro de 1937 quando lançadas estavam as candidaturas presidenciais de Armando Sales, Plínio Salgado e José Américo é inventado e divulgado um falso plano chamado Cohem, uma hipotética conspiração atribuída à Internacional Comunista para a tomada do poder. O falso plano foi o pretexto para o projeto continuísta de Vargas. Apoiado pelas forças armadas que até a década de 80 enxergavam comunismo por elas tido como “ideologias exóticas” até nas revistas em quadrinhos que seriam financiadas pelo “ouro de Moscou”, a difundir “idéias alienígenas”, cerca e fecha o Congresso Nacional e pelo rádio anuncia à nação uma “nova era”, institucionalizada com a outorga de uma outra Constituição, a do Estado Novo. Com esse rótulo perdurou uma ditadura até 1945, da qual são frutos a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), legislação fascista que resistiu à democracia de 1945 a 1964, à ditadura militar de 1968 à nova redemocratização em 1985, à nova Constituição de 1988 e até hoje resiste como insepulto fantasma; a “Hora do Brasil”, outra insepulta criação que até hoje perdura com transmissão radiofônica imposta aos “senhores ouvintes” sob o novo título “A Voz do Brasil”; a barganha com os EEUU que aqui construíram a Cia. Siderúrgica Nacional em troca da cessão de espaço em Natal para instalação de sua base aérea estratégica na Segunda Guerra; o rompimento do Brasil com o Eixo Alemanha, Itália e Japão e a Força Expedicionária Brasileira criada em 1943 que desembarcou na Itália em 1944 para defender a democracia, mas oriunda de um país sob regime ditatorial.

- Pois é. Era manifesta a contradição.

-Não só pelo paradoxo de tropas que sustentavam internamente uma ditadura iam expor suas vidas numa luta pela democracia, a contradição era a marca pessoal de Vargas que oscilava nas políticas interna e externa. Acenava aos trabalhadores que “hoje estão com o Governo e amanhã serão o Governo” e felicitava Hitler pelo seu aniversário.

Permitiu a deportação de Olga Benário para morrer aos 33 anos numa câmera de gás nazista e solicitou apoio político do comunista Luis Carlos Prestes, marido de Olga, para um futuro projeto político de voltar ao poder em 1950.

Mas os “queremistas” do “queremos Vargas” não resistiram e caíram a ditadura, o Estado Novo e Vargas, daquela feita renunciando.

Nova Constituição em 1945. Nova eleição presidencial e com o apoio de Getúlio é eleito o Marechal Dutra que, segundo o meu amigo Tito, dentre outras façanhas torrou parte das reservas auferidas nos tempos de guerra com a importação de brinquedos de paz, como ioiôs e outros badulaques plásticos.

Deste Marechal, um homem honrado, contam-se estórias.

A pior se conta que ao receber o Presidente Truman respondeu ao “how do you do Dutra” com um sonoro “how tru you tru Truman”.

A melhor se conta que só decidia de acordo com o livrinho. Estivesse no livrinho podia. Não estivesse não podia. Seu livrinho era a Constituição Federal.

Mas Vargas voltaria e desta feita nos braços e com os votos do povo.

Pela segunda vez consecutiva, fato de ser na época comemorado na América Latina, estavam marcadas eleições diretas. Realizadas em três de outubro, data simbólica, a mesma em que fora deflagrada a Revolução de 30.

O ano era 1950 de triste lembrança, por ter a seleção de futebol do Uruguai vencido a brasileira por 2 x 1 e se consagrado campeã mundial no maior estádio do mundo, o Maracanã, no Rio de Janeiro.

Meu pai e eu ouvimos juntos a narração radiofônica da partida. Vi meu pai acender um charuto em comemoração ao primeiro gol brasileiro marcado por Friaça. Mas os uruguaios sob o comando de Obdulio Varela não se intimidaram diante de uma platéia de cerca de cem mil brasileiros emudecidos no estádio com o empate e a virada com um gol do ponta Ghiggia que fez o Brasil chorar. O mesmo Ghiggia que mais tarde Tito veio a encontrar como empregado num dos cassinos de Montevidéu, assim como Friaça até hoje vive modestamente em Porciúncula, cidade bem próxima a Santo Antonio de Pádua, onde acabamos Tito e eu estudando no internato. Exemplos bem diferentes dos milionários jogadores que sem garra alguma literalmente assistiram a França os vencer na Copa do Mundo de 2006.

Torcendo junto, o meu tio Heitor, de quem tenho muitas boas lembranças e uma especialmente desagradável, tão desagradável que as conseqüências até hoje perduram. Esse meu bom tio, aos domingos dos mais nobres almoços, ou seja, massa e galinha que na época era mais cara que carne bovina, adorava chupar o pescoço da bicha e o fazia com insuportável sonoridade, resultando na minha definitiva repulsa a galos, frangos e galináceos em geral, muito embora nada tenha contra patos, marrecos, codornas e perus. E não é pelo gosto e sim pelo trauma infantil, pois bem me lembro de ser enganado quando Maria, minha primeira mulher, preparava pastas para sanduíches e chamava de atum o que era na verdade uma odiada penosa.

Contra Vargas, o Brigadeiro Eduardo Gomes, militar austero, mas ingênuo politicamente, apoiado pela UDN acabou marcado por frase jamais pronunciada: “não quero votos dos marmiteiros”. Apoiado pelo PSD e também candidato, Cristiano Machado, inspirador do termo “cristianizar”, em política, sinônimo de trair por ter a maioria do seu partido naquelas eleições se aliado ao PTB de Vargas para elegê-lo o que foi feito com 3,8 milhões de votos.

Getulio toma posse em 1951 e trata de ajudar um jornalista do qual se tornara amigo em sucessivas visitas para entrevistá-lo, quando se auto-exilara em São Borja no Rio Grande do Sul, a fundar o jornal Última Hora para apoiá-lo frente a uma imprensa que lhe era adversa, como O Globo, O Estado de São Paulo e os Diários Associados então a única cadeia de alcance nacional. E não se pode deixar de citar a Tribuna da Imprensa, do Rio de Janeiro, de propriedade do Carlos Lacerda seu feroz opositor que liderou campanha contra Vargas alegando conceder financiamentos ilícitos a um estrangeiro, Samuel Wainer, o proprietário do jornal getulista.

Inaugura-se um novo estilo Vargas. Um Getulio sob regras constitucionais e democráticas, mas disposto a mudar o país. São criados o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE, hoje acrescido do S de social, BNDES) e a Petrobrás. Concede 100% de aumento para o salário-mínimo.

E a opositora cantilena lacerdista ganha fôlego a partir de episódio aparentemente apolítico.

René Aboad, secretária da 20th Century Fox, foi encontrada morta no seu apartamento da Rua Rainha Elizabeth, em Copacabana. Era mais um crime ou suicídio para uma Delegacia Policial resolver. Um repórter de A Noite, jornal dos diários associados, junto às investigações policiais, descobriu e escondeu da policia um pequeno caderno de anotações escritas em hebraico, tendo, além da escrita, um detalhe que poderia ser noticia: uma cruz suástica na primeira página.

O fato ganhou dimensões espantosas em seu jornal, embora a tradução registrasse apenas anotações domésticas de compras, peças de roupas para lavanderia, tarefas caseiras e coisas outras de menor importância. Mas como o sensacionalismo fabrica mistérios em série, para amarrar o leitor, tudo foi tomando vulto. As noticias sobre o caso deixaram a policia em má situação e o delegado de Copacabana, sob alegação de ter o jornalista sonegado provas, que, aliás, nada provavam, pediu à direção do jornal que o substituísse no caso. Foi então indicado para fazê-lo o jornalista Nestor Moreira que não podendo reverter a situação criada prosseguiu no mesmo tom misterioso e sensacional. O fato desagradou a policia e um dos famosos corretivos foi encomendado. Porém, erraram na medida e o jornalista violentamente agredido morreu em conseqüência dos ferimentos.

Meu amigo Tito interfere e acrescenta:

- Dos Lacerda, quase todos militantes comunistas, Carlos Frederico Werneck de Lacerda, intelectualmente culto sem ter concluído curso superior, jornalista cáustico e tribuno de verve admirável tornou-se político importante e quando eleito deputado federal já abandonara Marx, Lênin e o partidão, do qual fora arauto no lançamento de Luis Carlos Prestes para presidente da Aliança Renovadora Nacional. Filiara-se à União Democrática Nacional (UDN) que fazia oposição ao Partido Social Democrático (PSD) e ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) ambos criados sob tutela de Getúlio Vargas, que assim angariava apoio das elites e dos operários ao mesmo tempo, conciliando interesses antagônicos, do primeiro concedendo privilégios a industriais e proprietários rurais e do segundo dedicando uma política assistencialista e razoável poder de gerência nos institutos de previdência social. Nos inevitáveis conflitos daí resultantes, entre uma e outra baforada em charutos, ria-se com sua própria frase: “deixa como está para ver como é que fica.”

-Sabe meu amigo, o meu interesse me levou a ouvir getulistas e lacerdistas; a passar sabão na linha dos bondes defronte ao prédio da União Nacional dos Estudantes, na Praia do Flamengo, e enquanto o bonde derrapava, eu e outros estudantes adolescentes pichávamos: o petróleo é nosso! Me levou à política estudantil, à militância na esquerda, à advocacia trabalhista, à prisão militar, a abrigar guerrilheiros argentinos e uruguaios, a fundar o Partido dos Trabalhadores e, finalmente, ao desinteresse completo.

O noticiário político hoje o acompanho com postura de espectador de teatro tragicômico.

-Sei, eu também prefiro me divertir com os políticos, debochar das suas hipocrisias.

-Mas não adianta muito, sempre se joga esperança a cada eleição e assim vão se sucedendo as decepções.

-Você está se referindo ao Lula?

-Não necessariamente, já tive decepções maiores. Nem Lula e nem ninguém é milagreiro e sei o quanto deve ser difícil conciliar interesses numa sociedade complexa como a nossa.

-Sim, mas Lula me parecia menos conciliador e mais disposto a mudar mais profundamente as coisas.

-Mas isso só seria possível se o seu partido tivesse conquistado maioria no Congresso e isto não se deu. O Partido dos Trabalhadores não tem hegemonia e para governar são necessárias alianças, concessões, negociações a até transações um pouco, digamos, não ortodoxas.

-Como comprar votos de parlamentares?

-Acho que isso era o mais grave, pois a maioria obtida com corrupção acabaria perpetuando um só partido no poder, coisa socialmente mais grave do que a corrupção que enriquece pessoalmente alguns políticos desonestos.

-Por tal raciocínio o deputado que denunciou o esquema de compra de outros, que, aliás, também se vendeu, salvou as instituições?

-Nossa amiga Lena o considera herói, Macunaima, mas herói.

-Pode ser que não tenha sido esta a intenção, mas de certa forma evitou a corrupção das instituições e seja lá qual for o país, a democracia sempre desaparece quando um só partido legisla e governa. É inerente ao poder tentar a sua perpetuação. Cito o México, para que me entenda.

-Suas memórias são oficiais demais, vou lhe contar, com outra Quilmes, uma historia nada oficial.

E, Tito, com ar misterioso me relata uma estória paralela sobre o assassinato do jornalista de que falávamos antes.

- Como você, meu amigo, fui morador da Gávea, onde se situa a Rua Major Rubens Vaz, na qual passava em direção ao Restaurante Guimas onde soube de outra versão sobre esse militar homenageado com o nome desta rua por ter sido vítima em atentado gerado pelo fato de estar sendo apurada por certo jornalista, chamado Nestor Moreira, também nome de rua no Rio de Janeiro, a descoberta de um caso amoroso clandestino entre um dos Ministros de Vargas e uma vedete dos teatros de revista, cuja filha, também vedete, por curto período namorei também clandestinamente. Uma meiga moça chamada Yara, de pequena estatura, mas que nos palcos era vista como uma mulheraça, a quem os homens categorizavam como gostosa.

-Mais que o caso do caderninho com a suástica, pretendeu-se com o “corretivo” que matou o jornalista preservar um Ministro de Estado ameaçado em sua imagem pública por ter a tal vedete como amante por ele teuda e manteuda.

-Mas os negócios do governo, que ocupavam o ministro, propiciaram bastante tempo para uma eventual, porém boa convivência com Yara, esta bem informada e de “fino trato”, culturalmente bem formada e conhecedora dos truques e posturas teatrais dos quais tinha conhecimentos práticos e acadêmicos, pela qual senti rápida, porém profunda paixão. Uma paixão de fino tato.

-A morte de Nestor Moreira repercutiu em todos os jornais do país, todos instigados pela Tribuna da Imprensa de Carlos Lacerda que, na defesa de um homem da imprensa, mobilizava a classe para a aceitação de sua suspeita logo tida como verdade pela opinião pública: o governo fazia vista grossa e arrastava o inquérito policial que nada apurava, por apurar não querer.

Iniciava-se naquela época a mais tenaz oposição, das mais acirradas de nossa história política, envolvendo diretamente o nome do presidente da República e que acabou no suicídio de Vargas.

Mas agora, talvez pelas inúmeras Quilmes, resolvemos encerrar nossas recordações, antes que chegássemos à conclusão que Tito também ajudara a matar o presidente.

-Por favor, la cuenta!

- Si, son cuarenta y nueve pesos, gracias.

Eram quatro da tarde e o comércio de Buenos Aires se abria para as compras que Tito queria fazer: mimos para ex-mulheres, que são muitas. Algo especial para quem ele imagina ser a próxima.

Foi sozinho.

A distância é um estado esquisito. Separa corpos e aproxima sentimentos. Eu sentia saudades de mim mesmo dos tempos que garoto conheci o Tito e das inúmeras emoções que juntos vivemos. Saudades do Colégio de Pádua, saudades da saudade que senti, quando fui interno, da minha casa em Niterói, da minha namorada de “olhos verdes e cabelinho assim” para quem dediquei versos, uns quase poesia.

Resolvo caminhar. Evito a Florida e desço a Maipú indo até a Plaza de Mayo e caminho por cima das “avuelas” gravadas no chão. Penso nas ditaduras argentina, brasileira, uruguaia, chilena, paraguaia. Penso em Madalena minha amiga uruguaia e em Xixa minha amiga argentina. Mas penso que as ditaduras passaram, deixaram marcas, atrasaram a América do Sul, mas passaram. Por causa delas e apesar delas, os argentinos e uruguaios estão mais pobres. Os brasileiros e chilenos mais ricos. Paraguaios na mesma carência. Mas a vida continua. Comparo Perón com Vargas e me lembro de um título: “O dia em que Getúlio matou Allende” escrito pelo jornalista e advogado gaúcho, Flávio Tavares. Salvador Allende era senador chileno quando Getulio se suicidou e ficou muito impressionado quando estudou os porquês. Certamente guardou a impressão até que na repetição da história, sob farsa semelhante e mais sangrenta, imitou-lhe o extremo gesto.

Resolvi deixar de pensar em coisas tristes, afinal iríamos assistir em breve ao musical Tanguera e as tristezas e tragédias moram nos tangos, como a melancolia no fado.

Minha atenção se voltou para o Cabildo e em sua sombra identifico Tito, com bolsas de compras e em companhia de uma mulher. Quando me aproximei falavam de vinhos.

- Esta é Marta, sexóloga de Mendonza, terra dos bons vinhos, e este é meu amigo advogado brasileiro.

- Muito prazer Marta, este meu amigo bem precisa de sexóloga, talvez gaste menos com presentes e, principalmente, se case menos.

-No posso contestar. Soy viuda dos veces.

Ambos os homens nos afastamos dois passos e todos nos rimos muito.

II

O teatro, em tamanho menor, é internamente disposto tal como é o Moulin Rouge. Mesas pequenas, com abajur irradiando suave iluminação através de delicada cúpula de tecido leve e plissado, abrigam quatro espectadores que podem ser servidos de bebidas e beliscos, por jovens moças de pele perfeita como é a das mulheres argentinas.



A nós coube a companhia de duas idosas senhoras argentiníssimas, para desgosto de Tito na comparação com as belas vizinhas da mesa ao lado.

Tanguera se inicia com uma orquestra composta por muitos violinos, entoando La Cumparsita o que serviu de mote para Tito provocar uma das senhoras, elegantemente vestida e adornada com jóias de ouro, lembrando-as que aquele tango era uruguaio, que Carlos Gardel era francês e que as letras dos primeiros tangos a se tornarem conhecidos eram de um brasileiro, o paulista Alfredo Le Pera.



  1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   13


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal