PrevençÃO À aids em usuários de drogas



Baixar 276.4 Kb.
Página2/5
Encontro30.01.2018
Tamanho276.4 Kb.
1   2   3   4   5

QUADRO VII: Estado de abstinência/ F1x.3


Um conjunto de sintomas, de agrupamento e gravidade variáveis, ocorrendo em abstinência absoluta ou relativa de uma substância, após uso repetido e usualmente prolongado e/ou uso de altas doses daquela substância. O início e curso do estado de abstinência são limitados no tempo e relacionados ao tipo de substância e a dose que vinha sendo utilizada imediatamente antes da abstinência. O estado de abstinência pode ser complicado por convulsões.

Fonte: CID-10 (1993)

QUADRO VIII: Abstinência de substância


Desenvolvimento de uma síndrome específica à substância devido à cessação (ou redução) do uso pesado e prolongado da substância.

A síndrome específica à substância causa sofrimento ou prejuízo clinicamente significativo no funcionamento social, ocupacional ou outras áreas importantes da vida do indivíduo.

Os sintomas não se devem a uma condição médica geral nem são melhor explicados por outro transtorno mental.


Fonte: DSM-IV (1995)


2.6 - Breves Considerações Sobre Co-morbidade
O conceito de co- morbidade vem sendo, há 30 anos, aplicado às síndromes diagnósticas clínicas e há menos de 15 anos, na psiquiatria, referindo- se às síndromes patológicas que ocorrem simultaneamente em um indivíduo. Este termo, construído a partir de morbidade, apresenta uma série de imprecisões, não estabelecendo relações causais precisas entre os diagnósticos apresentados (LEITE et al., 1999).

consumo de substâncias psicoativas pode ser tanto causa, conseqüência, ou somente estar associado a outros quadros psiquiátricos. Existe controvérsia no que se refere à extensão da co-morbidade entre transtornos mentais e abuso de substâncias (LEITE & ALI RAMADAN & ALVES, 1999).

As possíveis relações entre uso de drogas e psicopatologia segundo MEYER (1986) seriam :

Sintomas ou transtornos psiquiátricos constituindo um fator de risco para o comportamento de consumo

Sintomas ou transtornos psiquiátricos modificando o curso da dependência química no sentido de seu agravamento, resposta ao tratamento, apresentação clínica e prognóstico

Sintomas psiquiátricos surgindo em conseqüência de intoxicações crônicas por SPAs

Transtornos psiquiátricos surgindo como conseqüência do uso e persistindo após a cessação do consumo

Uso de substâncias e sintomas psicopatológicos (ambos antecedendo e como conseqüência) alternando- se no tempo

Condições psicopatológicas ocorrendo em indivíduos dependentes, porém com freqüência semelhante à encontrada na população geral, não sugerindo uma correlação entre o consumo e a dependência

Para a síndrome apresentada ser considerada relacionada ao consumo de substâncias psicoativas, esta deve instalar- se durante o uso ou em período inferior a um mês após a interrupção do consumo, sendo que os sintomas devem corresponder à(s) substância(s) utilizada(s). O transtorno primário, por outro lado, geralmente se desenvolve anteriormente ao início do consumo (LEITE et al., 1999).

Dados da última fase do estudo ECA (Epidemiological Catchment Area), realizado em cinco cidades dos EUA , envolvendo 20.000 indivíduos da população geral, sugerem que mais da metade das pessoas que abusam de outras drogas, que não o álcool, apresentam ao menos uma patologia mental em co-morbidade (NICASTRI & ANDRADE, 1992).

Os transtornos psiquiátricos que apresentam maiores taxas de co-morbidade com o consumo de SPAs são: transtorno de ansiedade (28%), aqui inclusos transtorno de pânico e transtorno de ansiedade generalizada; em seguida, transtornos do humor (26%), transtorno de personalidade anti- social (18%) e esquizofrenia ( 7%).

A partir da avaliação de diversos estudos de co- morbidade entre dependência química e outros transtornos psiquiátricos MILLER (1994) refere que :

a prevalência de sintomas psiquiátricos em grupos de dependentes é maior do que no restante da população;

a prevalência de sintomas psiquiátricos relacionados ao uso ou dependência de álcool ou drogas é maior do que o diagnóstico de transtorno psiquiátrico nesse grupo independente do uso;

taxas de prevalência de dependência são maiores do que taxas de doenças psiquiátricas;

taxas de prevalência para co- morbidade de dependência em populações com transtorno psiquiátrico são semelhantes à população geral, exceto para esquizofrenia e transtorno de personalidade anti-social;

taxas de prevalência para co- morbidade entre dependentes varia de acordo com a seleção da amostra porém está mais próxima da realidade do que avaliar co-morbidade entre pacientes psiquiátricos.

É fundamental que se tenha conhecimento da ocorrência de tal associação posto que as medidas terapêuticas que freqüentemente apresentam bons resultados para portadores de um dos transtornos isoladamente, terão resultados bastante precários quando utilizadas para populações de indivíduos que apresentem co- morbidade. Por outro lado, quando os sintomas psiquiátricos ocorrem em conseqüência do consumo de drogas, e.g., um quadro psicótico paranóide induzido por cocaína, a intervenção e o prognóstico serão bastante diversos do que seriam se os sintomas apresentados fossem devido a esquizofrenia, por exemplo. Ainda levando em conta possíveis relações etiológicas, há situações em que o diagnóstico psiquiátrico precede o consumo de substâncias, sendo talvez este uso uma tentativa de “aliviar- se” de sintomas desconfortáveis; como por exemplo a utilização de cocaína na tentativa de “tratar” um quadro depressivo de base, ou o abuso de álcool em quadros ansiosos.

Por outro lado, deve- se ser criterioso no estabelecimento de diagnósticos psiquiátricos em usuários de drogas, especialmente na sua associação com transtorno de personalidade anti-social. Tal diagnóstico parecia ser extremamente prevalente nesta população, porém, tem- se observado que tal quadro freqüentemente referia- se a comportamentos anti- sociais, relacionados à manutenção do consumo e subcultura da droga, não estabelecendo, necessariamente um diagnóstico. Esta associação por décadas relegou os dependentes químicos a um lugar desprivilegiado nas medidadas de atenção em saúde.

Embora ainda tenhamos grande dificuldade em estabelecer uma relação de causa e efeito na associação de transtornos psiquiátricos e consumo de drogas, é mister que investiguemos corretamente tal possibilidade diagnóstica, com vistas à escolha terapêutica mais adequada para cada indivíduo em cada situação.

2.7- Prevenção
Historicamente, métodos mágicos e empíricos foram usados em várias sociedades como ações preventivas não apenas pela população de forma espontânea, mas também com a recomendação dos responsáveis pela saúde na comunidade local. Entretanto, o conceito científico de uma intervenção preventiva foi desenvolvido como resultado de avanços no conhecimeto médico tendo por base a descoberta de agentes etiológicos específicos e de imunizadores ( BUCHER, 1995).

A prevenção na área de drogas visa a adoção de uma atitude responsável com relação aos psicotrópicos. O objetivo último da prevenção, no campo dos problemas relacionados ao consumo de drogas psicotrópicas, é procurar que os membros de uma dada população não abusem de drogas e, conseqüentemente, não causem danos pessoais e sociais relacionados a este abuso, nem prejuízos que daí possam decorrer ( CARLINI et al., 1990).

Partindo do modelo médico original e tradicional, a noção de prevenção evoluiu para um modelo pedagógico que privilegia a multicausalidade das doenças, levando em conta a interação do sujeito com seu meio.

Dentro desta perspectiva podemos dividir as ações preventivas em três níveis :


Prevenção primária

Constituída de ações antecipatórias que visam diminuir a probabilidade do início ou do desenvolvimento de uma condição. No domínio das substâncias psicoativas, o objetivo é impedir que se produza um consumo problemático antes mesmo do primeiro uso. Incluem- se aqui a educação para a promoção da saúde, a informação e medidas sociais e legais.
Prevenção secundária

Consiste em intervenções para evitar que um estado de dependência se estabeleça. Este tipo de trabalho é definido como uma intervenção especializada endereçada a pessoas que já manifestaram sinais de uma certa dificuldade com as substâncias psicoativas, em razão de um uso impróprio ou nocivo, dirigindo-se portanto a uma população bem definida, ou seja , aquela que dá sinais de excessos esporádicos ou abuso momentâneo. Aqui incluem-se o diagnóstico precoce, orientação dirigida e a intervenção na crise.
Prevenção terciária

Consiste de quaisquer atos destinados a diminuir a prevalência das incapacidades crônicas numa população, reduzindo ao mínimo as deficiências funcionais consecutivas à doença, no caso, a dependência de substâncias psicoativas. Aqui incluem-se medidas terapêuticas propriamente ditas e reabilitação.

A Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (ABEAD, 1990) estabeleceu diretrizes a serem implementadas nas políticas de prevenção ao abuso de drogas no Brasil, que se encontram elencadas a seguir :

A questão das drogas psicoativas, incluindo o álcool e o tabaco, deve ser tratada fundamentalmente como um problema de educação e saúde

A abordagem do problema deve ser ampla, contemplando igualmente as drogas lícitas e ilícitas

As políticas em relação às drogas devem ser integradas às políticas sociais mais gerais

As ações de enfrentamento do problema devem respeitar as particularidades históricas, sociais e culturais

A viabilização dos programas depende da participação de toda a sociedade

As políticas referentes às drogas devem ser baseadas no conhecimento científico sobre o tema

As tentativas de estabelecimento de programas de prevenção ao uso, abuso e dependência de SPAs têm nos mostrado o quão complexa pode ser a relação do ser humano com produtos capazes de modificar percepções e sentimentos. Sabe-se hoje, que as estratégias preventivas têm eficácia limitada, restando um percentual de indivíduos que chegarão ao uso problemático, necessitando de intervenções terapêuticas propriamente ditas, como abordaremos no próximo tópico.



2.8 - Tratamento
O aspecto fundamental na abordagem terapêutica das dependêncicas químicas repousa na adequada definição do diagnóstico e dos objetivos do tratamento. Tal colocação, à primeira vista óbvia, aborda alguns dos pontos cruciais nesta área.

cuidadoso estabelecimento do diagnóstico, realizado através de uma minuciosa anamnese psiquiátrica, com especial ênfase na relação do usuário com o(s) seu(s) produto(s), os fatores desencadeantes e atenuantes do quadro, além do padrão de consumo, avaliação da existência de co- morbidades e avaliação do estado mental e físico são fundamentais, por estarmos tratando de uma situação clínica que tem interfaces com as questões legais e sociais em que está inserido o sujeito. Além disto, a visão do tratamento por todos os envolvidos é fundamental.

A tentativa de estabelecer, o mais precisamente possível, as expectativas investidas no tratamento, tanto para o indivíduo como para sua família, e por que não dizer para o profissional ou instituição que se propõe a auxiliá- lo no percurso do tratamento, evita ou ao menos minimiza o risco de que cada agente envolvido no tratamento caminhe num sentido diferente e por vezes contrário aos demais, gerando grande sofrimento para o dependente e sua família.

As principais possibilidades terapêuticas serão portanto definidas a partir das considerações supracitadas, podendo constar de :

Abordagens baseadas na reestruturação da personalidade e compreensão psicodinâmica das dependências, podendo ser de caráter individual, grupal e /ou familiar

Abordagens que compreendem a dependência química como um aprendizado e tratam- na através de técnicas cognitivas que podem ser de caráter individual ou grupal

Abordagens medicamentosas, que se propõe a tratar a intoxicação e a abstinência, uso de produtos de substituição e tratamento das co- morbidades que possam estar presentes

Abordagens de auto-ajuda, de caráter grupal, que visam a manutenção da abstinência utilizando recursos de fortalecimento da rede social e modelos identificatórios

Tais possibilidades terapêuticas podem ser utilizadas unitariamente, associadas entre si ou com outras possibilidades de abordagem dentro de uma gama extensa de propostas que buscam em última análise propiciar ao dependente o modelo terapêutico que mais se adeque às suas características de personalidade e momento de vida.
Há basicamente dois “momentos” no tratamento da dependência química :

a desintoxicação, que compreende o processo de retirada da(s) droga(s), que na maior parte dos casos poderá ser da caráter ambulatorial. O processo de retirada, gradual ou abrupto levará em conta o tipo de droga, o padrão de consumo e o indivíduo que a utiliza. Para tal, poderão ser utilizados medicamentos de substituição ou fármacos que visem atenuar os sintomas de abstinência e

a manutenção, que consiste no tratamento propriamente dito, já que aqui o sujeito irá reavaliar sua relação com o produto e as modificações objetivas e subjetivas que deverá empreender para manter sua meta de abstinência ou uso controlado. Nesta fase poder-se-á lançar mão de um arsenal de técnicas de caráter individual, grupal, familiar e outros como supra citado.

Embora existam várias alternativas terapêuticas em dependência química, tem-se tentado estabelecer, através do acompanhamento sistemático de instituições de tratamento e seguimento a longo prazo de dependentes, algumas diretrizes a serem levadas em conta nesta área.

A seguir, algumas sistematizações relevantes no manejo do dependente químico são expostas nos QUADROS IX, X, XI e XII, os quais descrevem respectivamente: dificuldades no tratamento do dependente, integrantes do tratamento eficaz da dependência, etapas da promoção de abstinência e indicações de tratamento hospitalar para dependentes químicos.


QUADRO IX: Dificuldades no tratamento do dependente


Expectativas irreais a respeito do processo terapêutico;

Manutenção do consumo mesmo após o início do tratamento;

Recaídas muito freqüentes;

Características peculiares de algumas drogas (compulsão, sintomas de abstinência).






Fonte: WASHTON (1989)


QUADRO X: Integrantes do tratamento eficaz da dependência



Estrutura definida de tratamento;

Processo terapêutico em etapas;

Abstinência completa de substâncias psicoativas;

Inclusão de aspectos psicoeducacionais;

Envolvimento de familiares no tratamento;

Análises toxicológicas;

Terapia de grupo.


Fonte: WASHTON (1989)
QUADRO XI: Etapas da promoção de abstinência


Identificação de desencadeantes externos e internos do desejo de usar a droga e criar estratégias para evitá-lo.

Estruturação de uma nova rotina de substituição aos rituais de obtenção e consumo de droga.

Psicoeducação dirigida a fatores relacionados ao uso compulsivo.


Fonte : WASHTON (1989)

QUADRO XII: Indicações de tratamento hospitalar para dependentes químicos



Paciente com ameaça de suicídio ou comportamento autodestrutivo.

Paciente heteroagressivo.

Presença de complicações clínicas importantes.

Uso de substância(s) que requeira(m) abstinência assistida.

Falhas recorrentes na abstinência a nível ambulatorial.

Ausência ou escassez de suporte social.



Fonte: LEITE & CABRAL (1999)
Finalizando, FOCCHI et al., (1999) sintetizam alguns fatores preditivos para um bom prognóstico no tratamento da dependência a SPAs :

Pacientes que procuram tratamento voluntariamente, reconhecendo o seu problema, suas conseqüências e sua gravidade, evoluem melhor que aqueles que se vêem obrigados pela família, justiça ou empregador e negam ou minimizam o seu problema com drogas.

Pacientes que tomam a responsabilidade de sua recuperação para si evoluem melhor que aqueles que colocam a responsabilidade no programa ou no clínico, esperando uma cura rápida.

Pacientes que têm uma história de bom funcionamento, incluindo um emprego e vida familiar estáveis além de ausência de problemas psiquiátricos prévios, evoluem melhor que aqueles que têm uma história de funcionamento errático, relacionamentos destrutivos e tumultuados e o uso de muitas drogas diferentes, como auto medicação para sintomas depressivos, disfóricos e outros estados negativos do humor.

Pacientes que demonstram disposição e habilidade para seguir as requisições do tratamento, especialmente no cumprimento do contrato, evoluem melhor do que aqueles que barganham as regras e tendem a fazer quase tudo da sua forma particular.


CAPÍTULO 3
Quem é este terceiro que anda sempre ao seu lado?

Quando eu conto,somos só eu e você.

Mas quando olho para frente,

ao longo da estrada,

deslizando, encapuzado,

não sei se homem ou mulher

Quem é este, que está ao seu lado?”

T. S. Eliot


3 - Cocaína

3.1- Histórico
Em seu trabalho “ÜBER COCA” de 1885 (BYCH, 1989), Freud traz o seguinte relato sobre a história da cocaína, à época, sendo estudada por ele como promissor tratamento da depressão, do nervosismo, da dependência de morfina, do alcoolismo, das doenças digestivas e mesmo da asma: “ A planta coca, Erythroxylon coca, é um arbusto de cerca de 1,20 m a 1,80 m de altura, amplamente cultivada na América do Sul, em particular no Peru e na Bolívia, cresce melhor nos quentes vales das encostas orientais dos Andes, situados 1.500 a 2.000 m acima do nível do mar. As folhas têm formato oval, com 5 a 6 cm de comprimento; o arbusto dá flores pequenas e brancas e produz frutos vermelhos de formato oval.

Quando os conquistadores espanhóis invadiram o Peru, descobriram que a planta coca era cultivada e tida em alta consideração naquele país, estando intimamente ligada aos costumes religiosos do povo. A lenda afirmava que Manco Capac, o divino filho do Sol, havia descido dos penhascos do lago Titicaca em tempos primevos, trazendo a luz de seu pai para os infelizes habitantes do país, que lhes trouxera o conhecimento dos deuses, lhes ensinara as artes úteis e lhes dera a folha de coca, essa planta divina que sacia os famintos, dá forças aos débeis e faz com que esqueçam seus infortúnios.

As folhas de coca eram oferecidas em sacrifício aos deuses, mascadas durante cerimônias religiosas e até mesmo colocadas na boca dos mortos, a fim de lhes garantir uma recepção favorável no além. Os espanhóis não acreditavam nos efeitos maravilhosos da planta, que desconfiavam ser obra do demônio, principalmente pelo papel que desempenhava no ritual religioso, chegando a proibir o seu uso sob a alegação de que era pagã e pecaminosa; mas esta atitude mudou, no entanto, quando os conquistadores perceberam que os índios não conseguiam executar o trabalho pesado que lhes era imposto se fossem proibidos de mascar coca. Diante disto, os espanhóis transigiram, a ponto de distribuir as folhas aos trabalhadores três ou quatro vezes ao dia.

A mais antiga recomendação da coca consta do ensaio do Dr. Monardes em 1569, que louva o efeito prodigioso da planta no combate à fome e à fadiga. Em 1749 a planta foi trazida para a Europa e classificada no gênero Erythroxylon. Em 1786 apareceu na Encyclopédie méthodique botanique, de Lamarck, sob o nome de Erythroxylon coca”.

DOMIC (1992) em seu extenso trabalho denominado “l’État Cocaïne”, relata que em 1855, Ernst von Bibra (1806-1876) publicou Die Narkotischen Genussomittel und der Mensch em que ele descrevia dezessete drogas, entre elas o chá, o café, o haxixe, o ópio e a coca. Em 1859 Albert Niemann extraiu o alcalóide das folhas da droga e criou o termo cocaína, acompanhado de relatos de sua capacidade de eliminar a fadiga.

Após a morte de Niemann em 1862, Lossen retomou seus trabalhos e apresentou a fórmula química da cocaína: C17H21NO4. Na Alemanha em 1867, T.Clemens propôs seu uso terapêutico e em 1883, Theodor Aschembrndt, médico militar, introduziu secretamente a cocaína nas manobras de treinamento para ser consumida pelos soldados, com bons resultados.

Em 1884, começou-se a estudar o efeito anestésico da cocaína, tal decoberta foi atribuída ao oftalmologista Carl Koller. Neste período houve importante aumento no valor comercial da cocaína, e seu uso terapêutico se ampliou e diversificou.

Paralelamente, o entusiasmo inicial de Freud com a cocaína desapareceu após o fracasso terapêutico no tratamento da dependência de morfina de seu amigo Dr. Ernst von Fleischl- Marxow, que após a sua utilização apresentou um quadro delirante paranóide. A partir de então, Freud não mais citou a substância em seus trabalhos (LEITE, 1999).

Simultaneamente foi produzido o vinho Mariani, composto por uma mistura de vinho e cocaína o qual rapidamente alcançou enorme sucesso, sendo divulgado como “excelente remédio para esquecer as dificuldades da vida cotidiana”. Na Inglaterra era vendido como “Vinho dos Atletas”, e sua fórmula foi condecorada pelo Papa Leão XIII e à época era consumido por Thomas Edison, Júlio Verne e Emile Zola entre outros. Em 1885, um farmacêutico da Geórgia estabeleceu a fórmula da Coca Cola, que chamou na época de “Vinho Francês de Coca, Tônico Ideal”. Porém, em 1886 proliferaram os relatos de casos de usuários de cocaína apresentando quadros psicóticos.

A visão social da cocaína transformou-se a partir deste período; de um tônico anunciado sem efeitos colaterais, para uma droga com as restrições mais severas da história (MUSTO, 1992). A partir de 1906, nos Estados Unidos, todos os produtos contendo cocaína e outras substâncias com potencial de causar dependência, deveriam ter seus ingredientes mencionados na embalagem.

Segundo DOMIC (1992), dos anos 30 aos anos 60 parece ter havido um arrefecimento no consumo de cocaína que reaparece na cena mundial com o movimento hippie, que na época contestava os valores sociais, através do uso de SPAs, entre outros comportamentos.

A partir dos anos 70, houve novo crescimento no consumo de cocaína, em parte associada, especialmente nos Estados Unidos, a uma ideologia ligada ao consumismo e à rápida ascenção social, a denominada era yuppie, relacionada ao consumo de cocaína através da sensação do aumento de energia e da capacidade intelectual.

Foi a partir dos anos 80 que se começou a observar um importante crescimento no consumo de cocaína e consequentemente nos problemas associados ao seu uso. Paralelamente, o surgimento da AIDS e sua rápida associação com o uso compartilhado de drogas injetáveis lançou luz à gravidade do consumo de drogas por esta via, entre as quais a cocaína. Em seguida, observou- se uma nova via de administração da droga, a via pulmonar, a saber a cocaína na forma de crack, evidenciando uma nova maneira de consumo que tem crescido rapidamente e trazido muitos problemas físicos, psíquicos e sociais .

Além do momento social que pode ser visto como um dos responsáveis pelo incremento no consumo de cocaína em nossa época, não há dúvida de que outro fator facilitador é o aumento da oferta, mediado pela lógica do ganho financeiro e da sofisticação na área química e de produção do produto.

processo de extração da cocaína é iniciado colocando-se as folhas e solventes orgânicos em recipientes, onde após um período de maceração o extrato orgânico é separado das folhas e evaporado. O resíduo obtido, denominado pasta de coca, contém cocaína juntamente com outros alcalóides e óleos essenciais. A droga pode ser obtida também por meio da secagem das folhas, digestão com ácido sulfúrico e posterior extração, após precipitação com bicarbonato de sódio. A pasta de coca é tratada com ácido clorídrico para formação de cloridrato de cocaína, que corresponde à forma usual de tráfico, sendo porém , freqüentemente “diluída” com a adição de produtos que procuram mimetizar sua ação farmacológica, cor ou sabor. São utilizados com essa finalidade outros anestésicos locais (lidocaína, procaína), cafeína, efedrina, quinina, estricnina, manitol, sacarose, heroína, pó de mármore, talco, entre outros. A partir do cloridrato é possível obter cocaína na forma de base, que é volátil e quimicamente mais estável (SILVA & ODO, 1999).



Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal