PrevençÃO À aids em usuários de drogas



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QUADRO XXIII:Transtorno sexual induzido por cocaína



Disfunção sexual clinicamente importante que resulta em desconforto intenso ou prejuízo em relacionamento interpessoal.

Evidências na história, exame físico ou por achados laboratoriais:

Sintomas do critério A se desenvolvem durante a intoxicação ou abstinência, ou em período inferior a um mês destes e/ou

o consumo da substância é relacionado etiologicamente ao transtorno apresentado.

Sintomas não são característicos de transtorno sexual que não é induzido por substância. Evidências que os sintomas não são induzidos por substâncias incluem:

Surgimento dos sintomas precedeu o início do consumo de drogas;

Sintomas persistem por período maior que um mês após a interrupção do consumo ou da síndrome de abstinência;

Sintomas excedem aqueles esperados para a intoxicação ou abstinência da cocaína;

Subtipos:

Prejuízo no desejo sexual,

Dificuldade na excitação sexual,

Prejuízo na capacidade de experimentar orgasmo,

Dor sexual.


Fonte: APA (1994)

estabelecimento da síndrome psiquiátrica tem causado menos dificuldade do que a compreensão de sua etiologia e diagnóstico diferencial; para tanto, uma anamnese detalhada, associada a exame físico completo e entrevista com familiares e rede social, constituem os elementos fundamentais para o clareamento diagnóstico.Tais procedimentos podem ser complementados com um exame toxicológico para detecção de substâncias psicoativas que têm se mostrado um bom auxiliar em situações de dúvida.



3.6- Vias de Administração
Alguns dos principais problemas clínicos em usuários de cocaína decorrem mais da forma como a droga é utilizada do que da ação do produto propriamente dita. Há relatos de várias vias para o consumo de cocaína, porém, do ponto de vista clínico as que se destacam são :
Inalatória ou intranasal
A cocaína é consumida colocando-se o pó, em superfície lisa e plana, geralmente vidro ou espelho, sendo então “batida” para que fique uniforme e disposta em fileiras que são aspiradas. A partir da inspiração da droga, os efeitos começam a surgir, de forma gradual, se comparados com as demais vias de administração, entre 30 segundos e 2 minutos e, após 40 minutos os efeitos começam a se dissipar. Após a inalação, a cocaína é rapidamente absorvida pela corrente sanguínea. Os efeitos sobre o humor são evidentes após 15 a 30 minutos, acompanhados por aumento da pressão arterial e taquicardia. Após atingir a estabilidade o nível sérico começa a cair; os efeitos psíquicos observados são depressão, ansiedade, cansaço, irritabilidade e fissura por nova dose (WEISS, 1994).

Segundo LARANJEIRA (1996), os principais problemas clínicos associados a esta via de administração são uma rinite alérgica ou vasomotora, anosmia e hiposmia. A perfuração do septo nasal é comumente encontrada e pode ocorrer mesmo após três semanas de uso, podendo ser grave, com sangramento, ulceração, sinusite, colapso nasal e mesmo deformidade nasal em sela.

Dados do NIDA (1994), têm mostrado uma importante ligação da cocaína em todas as suas formas de administração, com a sexualidade, já que a mesma tem reputação de ser uma substância “afrodisíaca”, além da desinibição que acompanha estágios iniciais de seu consumo. Tal observação tem sido feita com maior frequência entre usuários da via nasal, já que estes mantém uma relação de compulsão com a droga menor se comparados com usuários de cocaína pelas demais vias. Tal constatação poderia colocar os usuários de cocaína por esta via como em potencial risco para atividades sexuais sem as adequadas medidas de prevenção com relação às DSTs, especialmente a AIDS.
Via pulmonar ou fumada
Recentemente o surgimento de uma nova apresentação da cocaína, o crack, tem chamado a atenção dos profissionais que trabalham com usuários de drogas. O crack é encontrado na forma de pequenas pedras que são produzidas a partir de cloridrato de cocaína, acrescido de uma base, em geral bicarbonato de sódio, além de outras substâncias que são adicionadas no sentido de aumentar o volume produzido. Estas pedras são fumadas, sendo o princípio ativo - a cocaína - rapidamente absorvido pelos capilares pulmonares, indo daí para a corrente sanguínea, e atingindo o SNC com um início de ação bastante rápido ( cerca de 1 a 3 minutos ), assim como seu decréscimo. A intensidade da euforia parece ser o determinante fundamental para o potencial de dependência da droga, sendo também proporcional à fissura que surge logo que os efeitos começam a dissipar- se, 10 a 20 minutos depois, levando o usuário a buscar uma nova administração, freqüentemente de forma desesperada e arriscada para si (WEISS, 1994).

consumo de crack tornou-se muito popular nos EUA desde a sua introdução por volta de 1985. Em nosso país o aumento mais evidente deu-se a prtir de 1990. Crack não é uma droga nova, mas um novo método de administração de cocaína (LEITE & ANDRADE, 1999).

A absorção da cocaína fumada é tão rápida que equivale ao uso EV. Os efeitos observados após o consumo são: taquicardia, hipertensão, taquipnéia e hipertermia; pupilas dilatadas, tensão muscular, tremores e sudorese intensa. Embora os primeiros episódios de consumo sejam marcados por euforia, sensação de bem estar e desejo por repetir o uso, a continuidade do consumo resulta em ansiedade, hostilidade e depressão extrema. Os usuários costumam consumir álcool para o controle desta ansiedade. Continuando o consumo, em doses mais altas podem surgir ilusões perceptivas e finalmente a psicose cocaínica, com extrema hipervigilância, delírios paranóides e alucinações.

Contendo até 75% de cocaína pura, o crack é considerado a forma da cocaína mais capaz de causar consumo compulsivo e dependência. O consumo de crack causa aumento rápido do nível de cocaína no sangue, produzindo imediatamente os efeitos psíquicos, com pico em cinco minutos. A intensidade da euforia obtida parece contribuir para o potencial de dependência da droga; é também proporcional à fissura pela droga que surge logo que os efeitos começam a dissipar-se, dez a vinte minutos depois, levando a nova administração. Os efeitos desagradáveis são igualmente mais intensos, contribuindo também para a readministração (WEISS, 1994).

Os efeitos farmacológicos do crack (início rápido, extrema euforia e curta duração) potencializam os riscos de um consumo compulsivo. Além disso, observa-se o descuido pessoal dos usuários, sendo negligenciada a alimentação, e higiene básica, com importante comprometimento da saúde física (NIDA, 1994).

uso de crack tem sido associado a aumento na criminalidade, aumento nas demandas de tratamento e crescimento nas taxas de DSTs (HUDGINS et al.,1995).

LARANJEIRA (1996) refere que pacientes que usam crack comumente apresentam dores torácicas, tosse e hemoptise, que podem ser devidas a várias condições clínicas como atelectasias, pneumomediastino, pneumotórax e hemopneumotórax. A inalação da cocaína envolve um esforço respiratório freqüente seguido por uma “ manobra de Valsalva” e tosse violenta. Isto resulta num aumento da pressão intra alveolar com consequente ruptura dos alvéolos e ar escapando para o espaço intersticial, podendo chegar ao mediastino. A descompressão do pneumomediastino através da pleura pode levar ao pneumotórax. Edema pulmonar não cardiogênico já foi descrito e seria devido à ruptura das membranas capilares alveolares. Outras condições descritas são: hemorragia alveolar difusa, granulomatose pulmonar, bronquiolite obliterante e piora acentuada de asma preexistente.
Via endovenosa ou injetável
uso EV é a variedade mais perigosa de consumo de cocaína. Além de grande potencial de abuso, o uso EV carrega os problemas adicionais de injeção de substâncias não estéreis e transmissão de infecções (hepatite, endocardite e AIDS).

Um dos principais efeitos da intoxicação aguda por cocaína é a sensação de prazer descrita muitas vezes como euforia. Este efeito parece estar relacionado, à capacidade da droga de induzir readministrações repetitivas em animais de laboratório (LEITE, 1999).

A sensação induzida de hiperalerta é relatada pelos usuários e pode ser confirmada por EEG e por ECG. A cocaína, pelo fato de bloquear os centros da fome, localizados no hipotálamo lateral, reduz o apetite, e o uso crônico acarreta perda de peso importante.

Do ponto de vista dos riscos clínicos LARANJEIRA (1996), aponta que o uso endovenoso facilita o aparecimento de complicações secundárias ao ataque feito à camada protetora da pele, quer seja no uso endovenoso propriamente dito, quer seja quando a via é subcutânea. O maior risco sem dúvida é a contaminação pelo HIV, mas além dele, a hepatite B também é uma das mais freqüentes infecções observadas nestes usuários de drogas.

Segundo o mesmo autor, alguns estudos mostram que cerca de 50% dos UDIs já tiveram contato com o vírus no passado e 10% podem estar cronicamente infectados. Recentemente a hepatite C também passou a ser associada ao consumo de drogas e seria responsável por muitos casos de doença crônica. As bactérias de agulhas contaminadas entram na circulação e podem se instalar no coração e suas válvulas. O Staphylococcus aureus é a bactéria mais comum, sendo que os Streptococcus e os Gram-negativos também podem estar presentes. A lesão das válvulas direitas são mais comuns, com a tricúspide sendo a mais afetada. Cerca de 60% das bacteremias nestes pacientes não são decorrentes de infecção cardíaca. Outras causas como pneumonia, osteomielite e encefalites devem ser investigadas. Celulites e abscessos também podem estar associados com bacteremia.
- Tratamento
As diretrizes gerais no tratamento a dependentes químicos foram apresentadas no item 2.8 deste estudo, sistematizando, de forma ampla, as alternativas terepêuticas em toxicomania.

Embora o tratamento a dependentes de cocaína siga as mesmas diretrizes (TIMS & LEUKEFELD,1993), do ponto de vista farmacológico, os objetivos, segundo TAYLOR (1990) são , a minimização dos sintomas de abstinência, disforia e fissura.

QUADRO XXIV a seguir apresenta os grupos farmacológicos utilizados e seus principais efeitos :

QUADRO XXIV : Principais medicamentos usados no tratamento da dependência de cocaína
GRUPO FARMACOLÓGICO PRINCIPAIS DROGAS EFEITO OBSERVADO

Agonistas dopaminérgicos Amantadina Redução do craving nas 3

Bromocriptina semanas iniciais

Antidepressivos Desipramina Redução do craving e da

anedonia na abstinência

Agentes serotoninérgicos Fluoxetina Redução do craving e do

consumo total de cocaína

Antagonistas dopaminérgicos Neurolépticos Redução da euforia durante

a intoxicação por cocaína

Lítio Carbonato de lítio Controle da euforia

( abandonado)

Anticonvulsivantes Carbamazepina Diminuição da sensibilidade

à cocaína

Fonte : LEITE & CABRAL (1999)


Tem-se tentado encontrar medicamentos com potencial de reduzir o risco de recaídas em dependentes de cocaína. Para tal finalidade, os antidepressivos e estabilizadores do humor têm sido utilizados, porém, na prática clínica mostram maior eficácia quando empregados em pacientes com espectrum de transtorno de humor ( depressão, distimia, disforia, mania) e não uma adição “pura”.

Os agonistas dopaminérgicos têm sido utilizados no sentido de tentar reduzir o craving na abstinência inicial, porém, com grande variabilidade de resposta entre os indivíduos.

Os medicamentos ansiolíticos e neurolépticos têm sido utilizados na abstinência e intoxicação, tendo um papel importante como tratamento sintomático, porém, sem valia no tratamento a médio e longo prazo, à exceção de quadros de co-morbidade com transtornos ansiosos e psicóticos.

Portanto, o tratamento farmacológico permanece como coadjuvante nas dependências químicas, principalmente quando se trata de cocaína.



CAPÍTULO 4
Caminhante, não há caminho, faz- se o caminho ao andar”.
Antonio Machado


4 - Uso de Drogas e HIV/AIDS

4.1- Epidemiologia
Segundo BASTOS (1995), toda epidemia é resultante de um processo de difusão de um agente causal através de redes de interação. Outros fatores-chave são a velocidade e a intensidade em que esta difusão se dá, o que igualmente remete à interconectividade destas redes de interação e seus eventuais pontos de fratura; tal constatação, aparentemente tão somente óbvia, é fundamental para a compreensão de mecanismos na disseminação do HIV.

Desde que a AIDS começou a ser reconhecida como problema de saúde pública, tem havido uma preocupação crescente com o papel desempenhado pelos usuários de drogas injetáveis na disseminação global do HIV e muitas pesquisas têm sido desenvolvidas para elucidar os mecanismos pelos quais o HIV é transmitido entre usuários de drogas injetáveis (LIMA et al., 1998).

Estudos etnográficos e “surveys” têm apontado para uma redução considerável do risco de transmisssão do HIV entre usuários de drogas nos EUA e em alguns países europeus. Há relatos de mais demanda por seringas novas, redução no compartilhamento durante a iniciação do usuário de droga injetável, maior índice de limpeza de apetrechos e em menor grau, utilização de preservativos (BOXACA, 1989 & DES JARLAIS et al., 1985). No entanto, tem havido efetivamente mais redução do que eliminação de riscos.

Atualmente o perfil da epidemia de AIDS, assim como a disseminação do HIV em nosso meio têm sido significativamente alterados pelo grupo de usuários de drogas injetáveis. Desde o início da coleta de dados em nosso país, a proporção de casos notificados por categoria simples de exposição para o uso de drogas injetáveis aumentou de 8% no perídodo de 1980-1987 para 22,3% no período de 1980-1995.

Com 8.000 novos casos por ano, a AIDS é considerada um dos principais problemas de saúde pública no Estado de São Paulo, principal causa de morte de mulheres entre 20-34 anos, e a segunda entre homens na mesma faixa etária.

Observou- se que a prevalência da infecção pelo HIV entre usuários de drogas é, no Estado de São Paulo, maior que aquela observada em qualquer outro grupo. Enquanto a taxa de infecção é de 13% entre homens que fazem sexo com homens, 18% entre profissionais do sexo e 15% entre clientes de serviços públicos de testagem anônima para HIV. Os índices observados entre usuários de drogas se aproximam de 60% (58% em Bauru, 48% em Campinas, 42% em São Paulo e 72% em Santos) (GRANGEIRO, 1998).

Verificou-se ainda que o rápido crescimento do número de novos casos de AIDS entre indivíduos com prática heterossexual, mulheres e recém nascidos está, intrinsecamente, associado ao uso de drogas injetáveis. Esta associação é evidenciada pela constatação de que 73,7% dos usuários de drogas que se infectaram pelo HIV relataram prática heterossexual, e de que 34,6% das mulheres heterossexuais infectadas pelo HIV refere parceria sexual com usuários de drogas injetáveis.

Segundo dados do BOLETIM DO CRT/DST/AIDS (1996), o compartilhamento de agulhas e seringas, no uso de drogas injetáveis, foi apontado como o principal fator de crescimento da epidemia nos últimos anos, passando de 3,56% do total de casos, em 1985, para 30% em 1995, representando 19,8% em 98/ fevereiro de 99.

Campinas ocupa hoje o décimo primeiro lugar no país e o quarto lugar no Estado, tendo uma relação masculino/ feminino de 4:1, apresenta como faixa etária predominante 20 a 39 anos e como principal categoria de transmissão o uso injetável de drogas.

Não há hoje qualquer dúvida sobre o papel desempenhado pelo uso de drogas injetáveis na transmissão sangüínea e sexual do HIV. Tem-se porém observado o papel desempenhado pelos consumidores de SPAs que não utilizam a via EV (INCIARDI, 1994).

Desde o final dos anos 80, é sabido que homossexuais e bissexuais, participantes de estudos epidemiológicos de coorte e que usam álcool ou drogas injetáveis com seus parceiros são mais propensos a se envolverem em atividades sexuais de risco, especialmente sexo anal sem uso de preservativos. Os indivíduos que usam drogas parecem ser menos sensíveis às medidas preventivas e não conseguem obter o mesmo sucesso que os não usuários nas tentativas de diminuir seu risco sexual (LIMA et al., 1996).

Este maior risco de contrair HIV por via sexual em usuários de drogas não injetáveis não se limita à população homossexual. Segundo o mesmo autor, vários estudos apontam para a relação entre o uso de álcool, benzodiazepínicos, maconha, inalantes e crack e o comportamento sexual de risco. O uso, mesmo ocasional destas substâncias, está associado a uma menor freqüência de uso de preservativos em casais heterossexuais, principalmente com parceiros não fixos ou fortuitos.

Não resta dúvida de que os UDIs constituem elemento essencial na dinâmica da epidemia do HIV, o que foi reconhecido desde o início da epidemia, primeiro nos EUA e depois na Europa. Igualmente começou-se a identificar um número significativo de crianças HIV+, filhas de pais usuários de drogas nos programas de screening e clínicas de atendimento (KELLY, 1995). Na cidade de Nova York, em 1988, os UDIs eram fonte de infecção pelo HIV de mais de 90% dos casos de AIDS devido à transmissão heterossexual e mais de 80% dos casos adquiridos pela transmissão perinatal. A AIDS com isso passou a ser considerada uma doença que atinge a família no seu conjunto (WOODAK & FISHER & CROFTS, 1994), gerando repercussões clínicas, psicológicas e sociais bastante graves.

4.2 - Cocaína e HIV/AIDS
Hoje tem-se como hipótese provada que a reutilização de agulhas com sangue de indivíduos infectados por HIV é uma via de transmissão eficiente do vírus. As pesquisas demonstram ainda que a propagação do HIV nas comunidades de usuários de droga injetável é muito mais rápida e eficiente que entre as comunidades de contato sexual (ANTONY & VLAHOV, 1991).

Grande parte da literatura internacional sobre o uso injetável de drogas refere-se à heroína; porém, o uso da cocaína injetável - droga padrão de consumo injetável em nosso país - tem, no que diz respeito à disseminação do HIV, repercussões mais graves que o consumo da heroína, uma vez que as características da cocaína (ação mais rápida e mais breve, implicando um maior número de picadas) levam à uma maior reutilização das agulhas e outros apetrechos (BASTOS, GALVÃO, PEDROSA & PARKER, 1994).

É também significativo o fato de que, uma vez disseminada a infecção entre os UDIs, eles podem servir como ponte para que o HIV atinja a população heterossexual, em especial as mulheres, parceiras sexuais destes usuários (DES JARLAIS, 1989; SASSE, 1991).Tal fato poderia explicar o crescente número de casos de AIDS entre mulheres no Brasil, assim como o reflexo direto destes casos femininos sobre o crescente e explosivo número de casos perinatais registrados pelo Ministério da Saúde em 1995.

No Brasil de hoje, cerca de 25% dos casos de AIDS reportados ao Ministério da Saúde estão relacionados ao uso de drogas injetáveis.

Desde 1982, quando se registrou o primeiro caso de AIDS entre usuários de drogas injetáveis e, principalmente, a partir de 1985, o curso dos casos de AIDS entre esta população vem tendo um aumento expressivo. Em 1985 este número representava 2,7% do total (14 casos) e ascende a 18,2% (736 casos) em 1990 e 19,8% em 1999.

Segundo dados da CNDST/AIDS do Ministério da Saúde (1995), o primeiro caso de AIDS na categoria de exposição usuário de drogas injetáveis (UDI) data de 1982, quando um caso foi notificado, atingindo um patamar de 3.532 casos em 1993 e estabilizando- se, deste então, em torno de 3.000 casos ao ano, perfazendo, até fevereiro de 1999, um total de 30.766 casos. Estes representam 19.8% do total acumulado de casos de AIDS notificados no País até a data acima referida, e 85% dos casos de AIDS atribuídos à transmissão sangüínea em maiores de 12 anos.Um total de 15.963 pessoas, correspondente a 14,4% dos casos notificados até 31 de maio de 1997, foi classificado na subcategoria de exposição UDI. As mulheres contribuíram com apenas 15,9% dos casos, tendo alcançado 17,6% no período entre 1987 e 1992. Estes casos apresentaram um crescimento importante, após 1986 (acompanhado também pelo crescimento entre heterossexuais), chegando a representar a segunda maior subcategoria de exposição analisada entre 1988 e 1991, posto que mantém até hoje.

Em relação à idade, 55% dos casos de UDIs soropositivos são adultos jovens menores de 30 anos, e quase 80% dos casos têm até 34 anos de idade. Estes casos são proporcionalmente, mais jovens do que os notificados nas demais subcategorias analisadas. A mediana de idade entre os UDIs varia de 27 a 29 anos, nos três períodos analisados (1980-86, 1987-92, 1993-97), enquanto que ela varia de 29 a 33 nos heterossexuais, de 33 a 34 nos homossexuais, e é de 35 anos entre os bissexuais, naqueles três períodos de tempo. Quando se analisa os casos por sexo, as mulheres UDIs apresentam uma idade mediana 3 anos menor do que a das mulheres que adquiriram AIDS por exposição heterossexual, entre 1987 e 1997. A mediana de idade menor entre os casos que referiram uso de drogas injetáveis sugere um contato mais precoce com o HIV do que o decorrente de infecção por exposição sexual, podendo ainda ter como consequência o risco de morbidade e mortalidade em um período precoce da vida.

De um total de 9.603 (62,9% mulheres) casos com prática heterossexual, não usuários de drogas injetáveis e que não referiram qualquer outra parceria sexual de risco, 2.138 casos (22,3%) referiram parceiro sexual usuário de drogas injetáveis. Destes, 923 (43,1%) referiram parceiro soropositivo para o HIV. Entre as mulheres com prática heterossexual, não UDIs e sem qualquer outra parceria de risco, 30,7% referiram parceiro UDI; destas, 45,1% o sabiam soropositivo para o HIV. Ou seja, em 13,8% das mulheres sem qualquer outro risco identificado, o parceiro é UDI e soropositivo para o HIV. Entre os homens este percentual cai para 2,5%. A escolaridade também é menor entre os UDIs.

Alguns estudos entre usuários de drogas injetáveis no Brasil detectaram níveis de soroprevalência para o HIV variando de 8,6% a 74% entre 1986 e 1995, dependendo da população estudada (MARQUES & DONEDA, 1999).

uso de drogas injetáveis teve papel importantíssimo no aumento do número de casos em mulheres: em parte por fazerem, elas próprias uso de drogas injetáveis e, em parte mas não de forma menos importante, por serem parceiras sexuais de homens usuários. Cabe ressaltar, que das mulheres que apresentaram como categoria de transmissão a prática heterossexual, 34,6% relataram parceria sexual com UDI. Neste contexto, o uso de drogas injetáveis foi um dos principais fatores a determinar a mudança na proporção de casos de AIDS entre homens e mulheres que passou de 38:1 em 1985 para 3:1 em 1995 e uma tendência a 2:1em 1999.

É importante lembrar que a AIDS é a principal causa de mortalidade em mulheres de 15 a 35 anos no Estado de São Paulo, o que mostra o grande impacto da epidemia nesse grupo da população. Em conseqüência do aumento no número de casos de AIDS na população feminina tivemos também o crescimento do número de casos em crianças em decorrência da transmissão perinatal (BOLETIM EPIDEMIOLÓGICO, 1996).

Ao se abordar a transmissão do HIV por uso de drogas, tem- se considerado quase que exclusivamente os objetos de transmissão- seringas e agulhas- são eles os objetos de investimento em nível de prevenção. Este raciocínio levou a um estreitamento na compreensão da realidade complexa do uso de drogas e de sua relação com a transmissão do HIV.

KITAYAPORN (1994) chama a atenção para o aumento de transmissão do HIV por outras vias, que não pelo ato de compartilhar seringas, entre os usuários de drogas, muitas vezes não usuários EV.

Exemplificando: o crack e o aumento da promiscuidade sexual associada ao seu uso. Portanto, para compreendermos melhor o comportamento dos usuários de drogas devemos atentar também para o “mundo” por trás do uso: os rituais, as formas de relacionamento interpessoais, suas formas de proteção, seu vocabulário e as vias de comunicação.

Vale a pena lembrar que outros comportamentos de risco estão associados ao uso de drogas : múltiplos parceiros sexuais e prostituição. Sendo assim, devem ser abordados com os pacientes não só a transmissão pelo ato de compartilhar seringas, mas sim todas as formas de transmissão da doença e as formas de evitá-la (MALBERGIER, 1993).

Segundo HUNTER et al. (1995), a infecção pelo vírus HIV é um exemplo da importância do fator via de uso na compreensão dos problemas relacionados ao consumo de drogas. Uma vez associado o vírus ao uso EV, o consumo de crack surgiu como uma alternativa com potência similar e aparente ausência de riscos de infecção.

DE LA FUENTE et al. (1997) apontaram para a redução do consumo de heroína injetável em UDIs, num estudo com 990 usuários de heroína de Madri, a razão que se mostrou significativa para tal mudança de comportamento foi o temor de se contaminar com o HIV.

Os usuários de crack (UC) em geral desenvolvem quadro de dependência com pouco tempo de uso e é possível que as práticas utilizadas para obtenção da droga, especialmente a prostituição, associada à sua forma de consumo e seus efeitos psicoativos, possam proporcionar novas situações de risco para a infecção pelo HIV, o que torna importante uma melhor avaliação desta nova realidade. Esta forma de consumo tem atraído um grande número de adeptos inclusive UDIs promovendo uma mudança no perfil comportamental destes.

Diante da escassez de dados e a possibilidade de acompanhar este fenômeno, foram incluídos usuários de crack neste trabalho.

Alguns trabalhos (HUDGINS et al., 1995) têm mostrado que em comparação com usuários de cocaína EV, usuários de crack têm um número maior de parceiros sexuais e menor uso de preservativos , além da observação da transição do consumo da cocaína EV para a forma pulmonar como uma mudança de comportamento dos usuários no sentido de uma possível prevenção à contaminação pelo HIV.

NAPPO (1999) mostrou, em estudo realizado com usuários de cocaína injetável e crack na cidade de São Paulo, que parte da população de UDIs que contraiu o HIV por esta via, deixou de utilizá- la; outra parte da amostra passou a consumir crack, o que parece ser uma tendência atual de qualquer consumidor EV, isto é, mudar a rota de administração na tentativa de prevenir- se do contágio pelo vírus HIV .

NIDA (1994) tem apresentado trabalhos sobre o risco de contaminação entre homossexuais não UDIs que trocam sexo por crack; tal prática tem sido observada com freqüência, tendo como riscos adicionais as características estimulantes e compulsivas do crack, o descuido pessoal comum nestes usuários e lesões em boca em função de queimaduras pelo “cachimbo” e nos genitais por DSTs.

Também tem sido estudada a contribuição dos usuários de cocaína não EV na transmissão do HIV. A intoxicação reduz a inibição e facilita os contatos sociais e sexuais, além da observação crescente de troca de dinheiro/ drogas por sexo, especialmente em usuários de crack.

Diversos artigos, segundo CHAISSON (1989), desde o final dos anos 80, vêm apontando para uma associação significativa entre o consumo de cocaína EV e a maior disseminação do HIV entre estes usuários se comparados aos usuários EV de substâncias opióides como a heroína, tal diferença deve-se a:

diferenças nas propriedades físico químicas das duas substâncias, dando origem a um “meio de cultura” em tese mais favorável à persistência e viabilidade do HIV nas injeções contendo cocaína;

diferenças comportamentais, a princípio, tributárias da natureza farmacológica da substância. A cocaína é uma substância estimulante do SNC e a heroína é depressora; a cocaína tem uma meia vida no organismo mais breve que a dos opióides, e a sensação de fissura (craving) por nova injeção se instala num intervalo de minutos a uma hora, enquanto na heroína a “segunda picada” freqüentemente vem depois de uma clara síndrome de abstinência, que se instala em intervalos mais longos, de cerca de 3 horas . Essas diferenças fazem com que o padrão de uso da cocaína seja basicamente repetitivo, num curto intervalo de tempo, ou seja, um número maior de injeções num mesmo espaço de tempo;

diferenças comportamentais outras, de correlação menos explícita com a farmacologia. É mais freqüente que usuários de cocaína EV mantenham paralelamente o uso inalatório, isso contribui para padrões de compartilhamento e redes de interação distintas entre usuários de cocaína e heroína. Igualmente, por serem substâncias opostas do ponto de vista da ação no SNC, exercem diferentes modulações sobre a sexualidade, pesquisas apontam para uma maior interação social e sexual nos usuários de cocaína.

Todas estas constatações e indagações indicam que o papel do usuário de cocaína, indubitavelmente na forma endovenosa e possivelmente também pelas demais vias, merece ser melhor estudado e compreendido com a finalidade de contribuir nas estratégias de prevenção à contaminação e disseminação do HIV.




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