Princesa do Deserto The Sheikh's Defiant Bride Sandra Marton



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Princesa do Deserto

The Sheikh's Defiant Bride



Sandra Marton

Sheiks & Magnatas 01




Ela dará ao sheik um herdeiro. Mas se tornará sua esposa?
O príncipe herdeiro de Dubaac precisava de um filho, e o dever lhe exigia a escolha de uma esposa que lhe obedecesse dia e noite. Porém, por uma artimanha do destino, Madison Whitney engravidou de Tariq! Mas ela certamente não é uma mulher obediente... Por isso, para conquistá-la e reivindicar seu filho, Tariq não hesitará em seduzi-la... e até mesmo seqüestrá-la!


Digitalização: Simone R.

Revisão: Cris Pacheco

Querida leitora,

Ao fazer uma inseminação artificial, Madison Whitney jamais imaginou que, pouco tempo depois, fosse ter à sua porta um sheik alto, moreno, sedutor... e furioso. Tariq ai Sayf reivindicaria seu filho, mesmo que sua concepção tivesse sido um acidente. A solu­ção ideal era o casamento, que resguardaria sua honra e protegeria a linhagem real. Ela, no entanto, não esta­va disposta a ceder a ele, um homem retrógrado, com uma visão tão machista e limitada do mundo. Tariq precisaria fazer melhor que isso e seduzir Madison lhe parecia uma excelente forma de começar...

Equipe Editorial Harlequin Books

PUBLICADO SOB ACORDO COM HARLEQUIN ENTERPRISES II

B.VJS.à.r.l.

Todos os direitos reservados. Proibidos a reprodução, o armazenamen­to ou a transmissão, no todo ou em parte.

Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência.



Título original: THE SHEIKH’S DEFIANT BRIDE

Copyright © 2008 by Sandra Marton

Originalmente publicado em 2008 por Mills & Boon Modem Romance

Arte-final de capa: Isabelle Paiva

Editoração Eletrônica:

ABR£U'S SYSTEM

Tel.: (55 XX 21) 2220-3654/2524-8037

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Aos cuidados de Virgínia Rivera



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PRÓLOGO
Reino de Dubaac, início do verão
O sol inundava o azul-claro do céu como uma tor­rente de ouro derretido. Sob seus raios inclementes, um pequeno grupo de homens a cavalo permanecia imóvel, cercado pelo infinito silêncio do deserto.

Todos fitavam o cavaleiro afastado dos demais e o açor encapuzado, cujas garras letais se fechavam ao redor de sua luva de couro. Finalmente, um dos homens aproximou-se calmamente em seu cavalo e parou ao lado dele.

— Está na hora, Tariq — disse o homem em voz baixa.

O homem chamado Tariq assentiu com a cabeça.

— Eu sei.

Ele sabia mesmo. Estava na hora. Seu pai tinha ra­zão, mas, de alguma forma, aquela última homena­gem ao irmão morto, Sharif, tornara-se tão torturan­te quanto o funeral. Quem diria que um costume tão antigo seria tão doloroso? Tariq crescera em Dubaac, mas, depois, vivera muitos anos longe das Nações. Era um homem bem educado, cosmopolita, moderno, e aquele era apenas um gesto simbólico...

— Tariq?

Ele balançou a cabeça e levantou o braço. O fal­cão se agitou, ansioso, e esperou que lhe tirassem o capuz. Em vez disso, Tariq soltou as correias do pás­saro. Os minúsculos sinos que enfeitavam as tiras de couro macio amarradas às patas da ave tilintaram ao cair na areia. Após uma breve hesitação, Tariq tirou o capuz do falcão e o jogou de lado. Pela primeira vez, desde que fora capturado e treinado, o falcão estava totalmente livre.

Tariq ergueu o rosto para o céu. Seu perfil tinha a mesma pujante nobreza do falcão.

— Sharif, meu irmão — disse em voz rouca. — Eu lhe envio Bashashar: que vocês possam voar juntos para sempre na vastidão do céu de nossa pátria.

Após um outro momento de hesitação, ele elevou o braço. O falcão abriu suas poderosas asas, soltou o punho enluvado de Tariq e, sem hesitar, voou na dire­ção do sol.

Por um momento, ninguém se moveu ou disse algo. O sultão pigarreou.

— Está feito — resmungou.

Tariq assentiu e manteve o olhar no céu, apesar de o falcão já ter desaparecido de vista.

— Sim, pai.

— Seu irmão está em paz.

Estaria mesmo? Tariq gostaria de pensar que sim, mas a morte súbita de Sharif ainda era muito recente. Seu avião caíra durante um vôo de rotina e levara dias até encontrarem o que restara de Sharif após a queda e o incêndio que se seguiu.

— Ele era um bom filho — disse o sultão, sereno. Tariq concordou. — Um dia ele guiaria nosso povo com sabedoria. Agora ele se foi, precisamos reavaliar nossos planos para o futuro.

Um músculo da mandíbula de Tariq se contraiu. Ele já esperava por isso, mas não achava que seria tão imediato. Mas, afinal, por que adiar algo inevitável?

— Compreendo, pai. O sultão suspirou.

— Não temos tempo a perder, meu filho. Tariq olhou para o pai, alarmado.

— Você está doente?

— Só se velhice for doença — disse o sultão, im­perturbável. — Mas a morte de Sharif é uma prova, se é que precisamos de uma, de que nossas vidas são go­vernadas por Kismet. Agora você é meu herdeiro, Ta­riq. Tremo só de pensar, mas se algo lhe acontecer...

Não precisava dizer mais nada. O peso da suces­são caíra sobre Tariq, e para garantir a continuidade de uma sucessão ininterrupta de líderes que se mantivera por séculos ele agora tinha o dever de se casar e ter um filho. Se ao menos Sharif tivesse casado e tido filhos, se ainda estivesse vivo, pensou Tariq ao sentir o ardor estranho das lágrimas em seus olhos acinzentados.

— Pense no que sempre aconteceu às Nações quan­do houve algum problema de sucessão — disse o sul­tão, enganado quanto às razões do silêncio de Tariq. — E isso que você deseja para nosso povo?

Tariq pigarreou.

— Não precisa me convencer, pai — disse ele, se­camente. — Cumprirei meu dever.

O sultão deu um leve sorriso.

— Ótimo. Agora venha. Vamos voltar ao palácio e celebrar a vida de seu irmão.

— Vá com os outros. Eu... quero ficar um tempo sozinho.

O sultão fez um sinal para seus homens. Partiram como tinham chegado: em fila e em silêncio respeitoso.

Tariq desmontou, acariciou o pescoço do cavalo e olhou para o céu.

— Uma esposa, Sharif — disse, baixinho. — É o que preciso encontrar, por sua causa. — Ele sorriu. Se o irmão pudesse ouvi-lo, entenderia aquele tipo de conversa que mantinham desde que eram meninos. — Como é que vou fazer? — O vento sussurrou em resposta. — Devo deixar que o pai e o conselho esco­lham minha noiva? Você sabe quem seria. Abra, que me mataria de tédio ou Lilah, que logo estará mais pesada que eu. — O vento sussurrou novamente. — Um homem tem o direito de escolher sua noiva. — O cavalo resfolegou e bateu a pata na areia. — Onde vou encontrá-la, Sharif? Aqui, nas Nações? Nos Estados Unidos? O que acha?

Claro que Sharif não poderia responder, nem pre­cisava. Tariq sabia o que ele teria dito. A esposa per­feita não seria norte-americana. Havia dois tipos de mulheres norte-americanas: as rateis, interessadas em superficialidades; e as inteligentes, que cuspiam o fogo e a fumaça da igualdade. Nenhuma das duas ser­viria. Claro que ele queria uma esposa atraente, mas eram necessários outros requisitos: ela deveria ter um temperamento agradável, ser capaz de conversar de maneira apropriada com as pessoas com quem ele se relacionava e nunca provocar discussões. Em outras palavras: a mulher perfeita entenderia seu papel de esposa e jamais reivindicaria igualdade. O homem que um dia ocuparia o trono precisava de uma mulher com tais qualidades, o tipo de mulher que agradaria a qualquer homem. Ele deveria procurá-la entre seu próprio povo. Tariq fora educado, vivera e trabalhara nos Estados Unidos, mas a partir de agora seu estilo de vida seguiria os costumes de Dubaac, onde um ho­mem comanda sua própria casa e sua esposa.

Um grito áspero atravessou o deserto. Tariq olhou para o céu e viu Bashashar, que planava muito acima de sua cabeça. Alguns diriam que era um presságio. Tariq não acreditava em presságios, mas, quanto mais pensava em encontrar uma noiva, mais se convencia de que deveria restringir sua busca a Dubaac, e, se necessário, às outras Nações.

O cavalo encostou o focinho no ombro de Tariq, que agarrou as rédeas e o montou. Estava resolvido. Ficaria uma semana em Dubaac, talvez duas, não mais. Afinal, não poderia ser tão difícil encontrar uma esposa adequada.


CAPÍTULO UM
Nova York, dois meses depois
Era raro que Sua Excelência, o sheik Tariq ai Sayf, príncipe herdeiro do trono de Dubaac, se enganasse. Jamais, quando se tratava de negócios. Mesmo seus adversários, que o julgavam jovem demais e que ha­viam previsto seu fracasso ao assumir a direção do Banco Real de Dubaac, em Nova York, quatro anos antes, tinham que admitir que o banco prosperara sob seu comando.

Ele também raramente se enganava em sua vida par­ticular. Claro, uma ou outra amante ocasional chorara e o chamara de miserável insensível no final de um relacionamento, mas não por sua culpa. Ele sempre fora honesto, talvez franco demais. "Para sempre" não lhe interessava, fazia questão de esclarecer às mulheres. Para sempre significava uma esposa, casamento, filhos, algo para o futuro... Entretanto, o futuro chegara, e sob o céu quente do deserto de sua terra natal ele dissera a si mesmo que encontraria uma esposa em uma semana — duas, no máximo. Afinal, não deveria ser difícil.

Parado diante da parede de vidro de seu enorme escritório, Tariq admirou o rio Hudson, ao sul de Manhattan, e fez uma careta. Não fora difícil, fora impossível.

— Idiota — resmungou por entre os dentes.

As duas semanas haviam se transformado em três, depois, em quatro. Seu pai promovera um elegante jantar para as mais nobres famílias do reino que ti­vessem uma filha solteira para lhe apresentar. Tariq achara algum defeito em cada uma. Em seguida, o pai promovera um jantar para as famílias mais nobres de todas as Nações. Tariq se arrepiava ao recordar as jo­vens em fila para conhecê-lo, todas cientes da razão de estar ali... Ele as cumprimentara, beijara suas mãos, conversara um pouco e as vira balbuciar e corar, sem jamais encará-lo porque isso seria inadmissível para uma moça de boa reputação. De repente, ocorrera-lhe que escolhia cavalos da mesma maneira, e a partir de então era assim que pensava naquelas jovens: como éguas que esperavam docilmente ser escolhidas pelo garanhão.

— E então? — perguntara o pai, depois do segundo jantar. — De qual delas você gostou?

De nenhuma. Eram muito altas ou baixas, muito ma­gras ou gordas. Falavam demais ou não falavam. Eram introvertidas ou extrovertidas... Frustrado, zangado consigo mesmo por falhar em sua missão, Tariq voltara para Nova York havia um mês. Talvez estivesse enganado a respeito das norte-americanas. Quem sabe, poderia encontrar ali uma mulher que preenchesse seus requisitos? Pensando bem, ele es­quecera de alguns aspectos favoráveis. Em geral, as norte-americanas eram atraentes. Muito sol, aparelho nos dentes na infância, muita vitamina e cálcio. Isso contava. Eram sociáveis, gostavam de festas, con­versavam sobre assuntos divertidos, não provoca­vam discussões. Melhor: encantavam-se com qual­quer título. As jovens que conhecera seriam capazes de tudo para fisgar um marido de sangue azul. Cla­ro, no passado, quanto mais elas demonstravam in­teresse, mais rápido ele fugia... Agora, quanto maior o interesse da pretendente em alguém da realeza, maior seria a vantagem. Não faria mal expandir seu campo de busca, procurar em Nova York e ver o que encontraria.

A resposta fora: nada.

Tariq aceitara vários convites para velejar, para festas em Connecticut, eventos beneficentes nos Hamptons. Saíra com inúmeras mulheres para jan­tar, ir ao teatro ou a concertos no Central Park. Saíra com tantas mulheres que depois de algum tempo se arriscava a chamá-las pelo nome errado. Onde isso o levara?

— A lugar nenhum — disse em voz alta, melancó­lico. Não estava mais perto de encontrar uma pre­tendente do que estivera há dois meses. Assim como acontecera em sua terra natal, as mulheres exagera­vam em tudo, inclusive em agradá-lo. Nada de manter olhos baixos nos Estados Unidos, mas a intenção era a mesma. Sim, Alteza. Claro, Alteza. Ah, concordo to­talmente, Alteza. Maldição! Será que ele tinha uma placa pendurada no pescoço anunciando que procura­va uma esposa? Não que ele não quisesse uma esposa submissa. Afinal, um dia seria o líder de seu povo.

Uma esposa que não demonstrasse respeito não lhe serviria.

Tariq semicerrou os olhos. Então, por que, toda vez que uma candidata lhe parecia bastante atraen­te — apesar de nenhuma corresponder ao tipo físico que ele desejava — ele a submetia a uma série de testes estúpidos? Contava uma piada sem graça, fazia comentários tolos sobre os problemas do mundo... Não precisava esperar muito. Logo a mulher que ele discretamente avaliava soltava uma gargalhada ou sacudia o penteado rebuscado, como uma boneca de corda. Ele, então, olhava o relógio e dizia:

— Nossa, veja a hora. Não percebi que era tão tarde...

Ainda por cima — não que ele fosse puritano —, a maioria era supersexuada. Não exatamente sensual, mas óbvia, esta era a palavra. Um homem deseja uma esposa que aprecie o sexo, mas também quer que ela seja discreta. Ele sabia que este era um conceito sexis­ta e chauvinista, mas... Mas, por Ishtar, ele se enfiara num buraco sem saída.

Talvez por isso, algumas semanas antes, ao jantar com seus melhores amigos, ele acabara comentando as dificuldades de sua tarefa. Khalil e Salim ouviram, impassíveis. Depois, entreolharam-se.

— Ele está procurando uma esposa — disse Salim, solenemente.

— Mas não consegue encontrar — Khalil comentou, no mesmo tom.

Os lábios de Salim se contorceram. Os de Khalil também. E os dois caíram na gargalhada.

— O garanhão do Saara. — Khalil perdeu o fôlego.

— Lembra quando aquela garota o chamou assim em Harvard?

— E ele não consegue encontrar uma esposa — disse Salim. E os dois se desmancharam de rir.

Tariq levantou.

— Vocês acham engraçado? — disse ele, furioso.

— Esperem até que tenham que se casar!

— Não por muitos e muitos anos — respondeu Khalil. — Mas, quando chegar a hora, vou fazer tudo às antigas. Vou deixar que meu pai resolva por mim. O casamento de um príncipe não tem nada a ver com romance. Trata-se de dever.

Tariq suspirou e olhou pela janela do escritório. Era verdade. Então, por que ele demorava tanto a decidir? Seu irmão se fora. Seu pai já não era jovem. E se algo acontecesse com seu pai, ou com ele mesmo? Tudo era possível. Sem um herdeiro para o trono, Dubaac se tornaria um caos. Era algo que ele não deixaria acontecer...

Alguém bateu na porta. Tariq se voltou e viu sua assistente.

— O jornal de economia das 17h, na CNN, já começou, senhor. Deseja assisti-lo?

Ele a olhou sem expressão.

— Para ver se a MicroTech vai anunciar sua nova aquisição...?

Sem esposa, sem cabeça, pensou Tariq, sombrio.

— Obrigado, Eleanor. Boa tarde. Vejo você amanhã.

Tariq sentou-se à sua mesa e ligou a televisão. Diante dele surgiu a imagem estereotipada do que deveria ser um escritório. Paredes claras, piso escuro, uma longa mesa atrás da qual se sentava um homem de meia-idade, vestido num terno azul-marinho, encarando outros três homens de meia-idade em ternos azul-marinho... E uma mulher. Ela também vestia um terno azul-marinho, mas a semelhança terminava ali.

Os olhos de Tariq se estreitaram. Seria difícil dizer a idade dela por trás dos enormes óculos de aro de tartaruga que lhe davam uma aparência severa, assim como os cabelos louro-dourados, presos na nuca. Ela sentava muito reta na cadeira, com as mãos no colo e as pernas cruzadas. Lindas pernas! Longas, esbeltas, bem torneadas...

Tariq sentiu uma pontada de desejo nas entranhas. Ele se viu levantando aquela mulher da cadeira, soltando-lhe os cabelos, tirando-lhe os óculos para constatar se era apenas atraente ou perturbadoramente linda... Maldição! Ele não costumava fantasiar com mulheres, ainda mais desconhecidas. Sua busca por uma esposa o reduzira a isso? A desejar uma mulher que via na televisão? Uma mulher cujo nome ignorava? Era resultado do celibato: há dois meses não tinha contato com uma mulher. Pensara que seria melhor não se deixar influenciar pela perícia de uma mulher na cama enquanto procurava uma esposa. A idéia lhe parecera ótima, e era. Tudo o que ele precisava era parar de fantasiar como um estudante. Desviou os olhos da imagem da mulher. O apresentador do programa, o executivo sentado diante dela, falava.

— ... verdade que a MicroTech adquiriu o controle acionário da FutureBorn?

O mais roliço dos executivos assentiu com a cabeça.

— É verdade. Acreditamos que a FutureBorn re­presenta o futuro, sem trocadilho — acrescentou, com um sorriso. Os dois homens ao seu lado riram com aprovação. A moça não reagiu. — Veja, Jay. Quanto mais as pessoas adiarem o nascimento de filhos, mais as novas técnicas da FutureBorn se tornarão impor­tantes.

— Mas a FutureBorn não está num mercado bas­tante disputado?

— Eu diria que sim. A inseminação artificial é usa­da há muito tempo, mas as novas técnicas da Futu­reBorn... Talvez nossa diretora de Marketing possa explicar melhor.

Todos olharam para a mulher. Diretora de Marke­ting, pensou Tariq, levantando a sobrancelha. Um tí­tulo importante. Ela o merecera ou será que o conse­guira dormindo com alguém? Ele estava nos negócios há tempo suficiente para saber que tais coisas acon­teciam.

Ela olhou para a câmera. Direto para ele, disseram-lhe suas entranhas, apesar de ele saber que era ridículo.

— Vou tentar. — A voz dela era suave, quase rou­ca. Tariq tentou se concentrar no que ela dizia, mas estava ocupado demais admirando-a. — ... em ou­tras palavras, absolutamente perfeito para armazenar o esperma.

Tariq se assustou. O que ela acabara de dizer?

— Poderia explicar, por favor, srta. Whitney?

Tariq agradeceu intimamente ao apresentador pela pergunta. Com certeza, a mulher não poderia ter dito...

— Com todo prazer — disse ela. — É verdade, como você disse, a inseminação artificial não é algo novo, mas o sistema que a FutureBorn desenvolveu para preservar o esperma não é apenas novo, é revo­lucionário.

Tariq ficou surpreso. Como é que uma mulher par­ticipava daquele tipo de conversa?

— E quais são os benefícios?

— Bem... — A mulher umedeceu os lábios com a ponta da língua. Fora um gesto inconsciente, mas dei­xou Tariq com a boca seca. — Um benefício óbvio é que um homem que não queira ter filhos agora pode nos confiar seu sêmen. Será uma contribuição para o futuro, e ele ficará seguro de que o material poderá ser usado anos depois. — Uma contribuição, pensou Tariq. Interessante escolha de palavras. — Se não for para uso pessoal, poderá ser utilizado de acordo com o interesse do doador.

— Como assim? — perguntou o apresentador.

— Por exemplo, um homem poderá deixar ins­truções sobre o uso de seu esperma depois que ele morrer. — Ela sorriu educadamente. — O esperma congelado, junto com as disposições legais sobre sua utilização, é um meio seguro de um homem rico garantir que terá um herdeiro...

Ou de um príncipe garantir um sucessor. Tariq fran­ziu o cenho. E se ele deixasse um... uma... Como ela dissera? Uma contribuição. E se ele preservasse um tubo de ensaio com seu sêmen, para o caso de ocorrer alguma interferência do destino antes que ele encon­trasse uma esposa? Maldição. Estaria louco? Tariq desligou a televisão e levantou-se. Um homem de verdade não deixaria uma "contribuição" num tubo de ensaio. Ele a deixaria no útero de uma mulher. Ele não procurara direito. Numa cidade de milhões de ha­bitantes, com certeza, haveria uma mulher perfeita à sua espera. Ele fora convidado para uma festa naque­la noite. Seu advogado comprara uma casa no East Side e iria comemorar. Ao imaginar quantas mulheres de pernas longas estariam ali, Tariq logo pensara que seria uma ótima oportunidade para ele. Depois, estre­mecera ao perceber que passara a considerar tais oca­siões em termos de oportunidades, e decidira mandar uma desculpa. Outro erro, ele pensou, enquanto vestia o paletó e saía do escritório. O primeiro fora escolher o celibato, o que afetara claramente sua concentração. O segundo seria recusar o convite para ir à festa, onde, sem dúvida, teria excelentes perspectivas de encon­trar uma esposa. Uma velha expressão norte-america­na lhe ocorreu: três erros e você está fora. A frase se referia a beisebol, mas bem poderia ser usada no seu caso: primeiro, sua procura em Dubaac, depois, nas Nações. Não haveria um terceiro erro. O problema é que ele não procurara direito, e tudo mudaria a partir daquele momento.

— Certo, pessoal. Estamos fora do ar. Madison Whitney levantou-se, tirou o microfone da lapela e o entregou ao técnico de programação.

— Madison — disse-lhe seu chefe — você fez um ótimo trabalho.

— Obrigada.

— Excelente. Ho-ho-ho! — Ele riu exatamente como um péssimo ator interpretando o Papai Noel, pensou Madison. — Que tal tomarmos uma bebida e discutirmos alguns assuntos?

Discutir o quê? ela quis responder. A maneira pela qual você vai tentar me levar para a cama? Mas a sra. Whitney não criara uma filha idiota e, portan­to, ela deu o sorriso luminoso que mantinha desde a fusão da MicroTech com a FutureBorn, e respondeu que seria muito agradável, mas já tinha outro com­promisso. O sorriso falso de seu chefe — casado — tornou-se ferino.

— Vamos, Madison. Não é prudente dizer sempre "não".



Também não é prudente se arriscar a ser processa­do por assédio sexual, pensou Madison. Mas ela sabia algo que ele ignorava: que a desagradável convivên­cia dos dois logo terminaria. Não foi difícil dar outro sorriso.

— Talvez em outra ocasião, sr. Shields. Como lhe disse, tenho um encontro.

Vinte minutos depois ela se sentava num bar sosse­gado da avenida Lexington. Duas coisas a aguardavam: um coquetel Cosmopolitan e sua antiga companheira de quarto na universidade, Barbara Dawson. Madison suspirou, pegou o copo e bebeu um grande gole.

— Bendita seja, por já ter pedido a bebida. Eu es­tava precisando.

— Eu vivo para servir — disse Barb alegremente, e apontou a tevê sobre o balcão. — Assisti ao pro­grama. Você ainda se esconde por trás desses aros de tartaruga?

Madison fez uma careta.

— Eles me dão um ar intelectual.

— Você quer dizer que eles lhe dão a aparência de intocável.

— Quem dera — disse Madison ao beber outro gole da bebida.

— Não diga. O devasso continua insistindo?

— Hã, hã. Sabia que você era meu encontro desta noite?

— Ora, Maddie — ronronou Barb, batendo as pestanas. — Eu não sabia que era assim que você se sentia.

— Ei, você me deu uma idéia. Talvez esta seja mi­nha próxima desculpa. — Madison sacudiu a cabeça. — Ele é impossível, mas, também, é homem.

— Você não acha que está na hora de parar de pen­sar que todo homem é infiel, um miserável hipócrita como o seu ex-noivo?

— Não — disse Madison com firmeza. — Todos eles são iguais. Isso inclui meu pai, que só parou de trair minha mãe porque morreu. São todos uns menti­rosos. E um fato da vida.

— Errado.

— Certo. Não existem homens sinceros, Barb. Bem, com exceção do seu, mas Hank é o último exemplar do planeta.

— Maddie...

— Você leu o último boletim dos ex-alunos?

Barb desanimou. Sabia aonde aquilo iria levar.

— Não.

— Você se lembra de Sue Hutton? Ela se formou um ano depois de nós. Divorciada. Sally Weinberg? Divorciada. Beverly Giovanni? Divorciada. Beryl Edmunds? Div...



— Certo. Entendi o recado, mas isso não significa que...

— Significa sim. — Madison engoliu o último gole de bebida e procurou o garçom. — Eu nunca vou me casar, Barb. Jamais!

— Nada de marido? Família? Filhos? Madison hesitou.

— Sem marido não significa sem filhos. Na ver­dade, eu quero muito ter um filho. — Ela hesitou de novo. — Mas não quero que um marido atrapalhe.

Barb levantou uma sobrancelha.

— Como é que você vai fazer?

Certo, pensou Madison. Aquele era o momento.

— Inseminação artificial — disse ela. Se seu co­ração não tivesse disparado ao admitir pela primeira vez o que pretendia fazer, teria rido da cara de Barb.

— Surpresa?

— Claro que sim!

— Eu conheço bem esse assunto. É um método se­guro, confiável e significa que uma mulher só precisa de uma seringa de sêmen, não do homem que o doou.

Algo caiu no chão. Madison olhou para cima. O garçom, um jovem de cerca de 20 anos, estava para­do junto à mesa. Seu queixo, ou talvez seu bloco de pedidos, acabara de cair. Era o que Madison precisava para aliviar a tensão.

— Outro Cosmopolitan — disse ela gentilmente. — E outra taça de Chablis para mi­nha amiga... E desculpe se abalei seu ego.

Barb gemeu e escondeu o rosto nas mãos. O gar­çom sumiu depressa. Madison esboçou um sorriso.

— Às vezes, a verdade dói.

— Falando nisso... Vou ser franca, posso? — disse Barb.

— Somos amigas, vá em frente.

— Você já pensou bem nesse assunto? Quer dizer, já pensou por que quer um filho? Talvez seja para re­viver sua própria infância, apagar os erros de sua mãe. Ah, inferno... — disse ela ao ver o sorriso de Madison desaparecer. — Maddie, eu não queria...

— Não. Tudo bem. Você avisou que seria franca. Eu também vou ser. — Madison se inclinou sobre a mesa. — Minha mãe dependia do marido para tudo. Eu não queria ser igual a ela. Pretendia viver do meu jeito, sem nunca ter que me apoiar em alguém. Um bom de­sempenho escolar faria a diferença, assim como obter um diploma, uma especialização em Administração e ocupar um alto cargo em alguma empresa.

— Querida, você não precisa se... Madison pegou a mão de Barb.

— Eu tinha certeza de que não queria casar ou ter filhos. — Ela hesitou e abaixou a voz. — Então, um dia, eu olhei à minha volta e percebi que tinha tudo o que desejava: o diploma, a especialização, um ótimo emprego, o apartamento em Manhattan... mas... falta­va algo que eu não conseguia definir.

— Viu? Eu tinha razão, Maddie. Um homem para amar e...

— Um filho. — Um sorriso iluminou o rosto de Ma­dison, mas não impediu seus olhos de ficarem úmidos. — Há um Picasso na parede ao lado da minha mesa. Ele custa milhares de dólares. Minha secretária tem uma fo­tografia da filha em cima da mesa, e, sabe de uma coisa? Um dia, percebi, de repente, que a foto que ela tem vale muito mais que o meu Picasso. Então, há cerca de dois meses, uma jovem que foi minha estagiária veio me vi­sitar. Estava com uma barriga enorme, suas costas doíam e ela precisava ir ao banheiro a cada cinco minutos... Eu notei que ela jamais estivera tão feliz. — Madison soltou a mão de Barbara e esperou, enquanto o garçom as servia. Quando ele se afastou, ela pegou o copo e tentou parecer indiferente, sem conseguir. — Na mesma ocasião, percebi que logo terei 30 anos. Quase dá para ouvir meu relógio biológico fazendo tique-taque...

— Trinta anos não é nada.

— Não é verdade. Minha mãe teve uma menopausa precoce. Pelo que sei, é hereditário.

— Eu insisto que existe um homem feito para você andando por aí.

— Não se o mau gosto da minha mãe para homens também for hereditário. Vá em frente, olhe para mim com essa cara, mas quem sabe? Ela foi casada três ve­zes, sempre com um cafajeste de primeira classe, rico e lindo. Se não fosse pelo acidente, é provável que ela estivesse casada com o número quatro.

— E quanto ao fato de as crianças precisarem de pai e mãe? — insistiu Barb.

— Você teve os dois?

— Não, mas...

— Ter apenas um dos pais dando amor é melhor que ter os dois estragando tudo. Eu sei que a insemi­nação artificial não é o ideal para todos, mas, no meu caso, é a melhor solução. I

— Você está mesmo falando sério? — Barb perguntou.

— Estou. — Madison deu um sorriso trêmulo. — Eu quero tanto ter um filho... Chega a doer só de pensar. Em tudo, sabe? Os prós e os contras, carregar uma vida no ventre, um bebê nos braços. Fraldas e mamadas de madrugada, o primeiro dia na escola, as visitas de Papai Noel e depois de alguns anos, as bri­gas sobre o horário de chegar em casa...

— Está bem. Você me convenceu. Talvez você deva realmente fazer isso.

Madison deu um suspiro.

Vou fazer — ela disse, calmamente. — Já está tudo preparado.

Barb arregalou os olhos.

— O quê?

— Consultei minha ginecologista. Estou controlan­do meus períodos menstruais... Consultei as fichas da FutureBora e escolhi um doador que parece perfeito. Ele tem cerca de 30 anos, doutorado, excelente saúde, gosta de ópera, de poesia e...

— Como ele é? — perguntou Barb.

— De constituição mediana, cabelos castanho-claros, olhos castanhos...

— Eu perguntei qual a aparência dele.

— Ah, não existem fotos. Todo o processo é anôni­mo, a não ser que o doador queira preservar o esperma para uso próprio no futuro. Quando uma mulher com­pra o esperma...

— Compra! — disse Barb levantando a sobran­celha.

Madison deu de ombros. Aquela parte da con­versa seria fácil. Falar sobre seus sentimentos seria difícil. Os detalhes técnicos eram brincadeira de criança.

— Não se trata de um romance — disse ela, seca­mente. — O objetivo é ter um filho, não um relacio­namento.

— E... quando é que você pretende fazer isso?

— Segunda-feira. Se tudo der certo...

— Tão rápido assim?

— Esperar não faz sentido. Segunda-feira, às 14h. Se tudo der certo, daqui a nove meses serei mãe. — Madison hesitou. — Você não vai me desejar boa sorte?

Barb olhou-a por um longo tempo, suspirou, pegou o copo e o levantou.

— Claro. Desejo-lhe toda a sorte do mundo, você sabe. Eu só espero...

— Tudo vai dar certo.

As duas fizeram um brinde, trocando o tipo de sor­riso que as mulheres dão quando amam uma à outra, mas discordam sobre algo importante.

— Então — disse Barb bruscamente — já que se­gunda-feira é o grande dia, por que não celebramos esta noite?

— Você e Hank não pretendem sair?

— Na verdade, pensei que poderíamos nos encon­trar com Hank. O chefe dele comprou uma casa e vai dar uma grande festa.

Madison se admirou.

— Uma festa na cidade, em junho? — disse ela. — Que coisa mais absurda.

— Vamos, não diga não. Vai ser divertido.

— É, talvez — apenas talvez — eu me deixe arre­batar por algum Príncipe Encantado? — Madison riu ao ver Barb corar. — Você é tão óbvia, Barbara!

— Ora, ainda é sexta-feira. Seu encontro com o tubo de ensaio só será na segunda.

— Muito engraçado.

— Vamos, Maddie. Madison deu um longo suspiro.

— Foi um dia cansativo e eu não estou vestida para...

—A festa é perto do seu apartamento. Podemos pa­rar para você trocar de roupa. Por favor.

— Às vezes, esqueço como você é quando cisma com alguma coisa.

Barb fez uma careta.

— Como um cachorro com o osso, é assim que eu sou. Olhe. Uma última tentativa para encontrar o prín­cipe encantado não vai lhe fazer mal.

— Não existem príncipes, só existem sapos.

— Você é uma mulher implacável, Madison Whitney.

— Não, eu faço qualquer coisa por uma amiga.

— Você vai?

Madison concordou com um movimento de cabeça. Iria apenas porque era importante para Barb. A partir de segunda-feira, toda aquela bobagem acabaria. Ela faria a inseminação, ficaria grávida, teria o bebê e o educaria sozinha, dando-lhe todo o amor que tinha no coração.




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