Princesa do Deserto The Sheikh's Defiant Bride Sandra Marton



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Encontro25.05.2018
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CAPÍTULO DOIS
Quando o táxi parou diante da casa, Tariq estava prestes a mudar de idéia pela quarta ou quinta vez. O que o levara até ali? Procurava uma esposa. Que chan­ce teria de encontrá-la numa festa em Manhattan?

O motorista se virou para ele.

— O senhor vai ficar ou não?

Não, ele pensou. Mas, já que estava ali, bem que poderia entrar. O táxi se afastou e Tariq olhou ao re­dor. A rua, cortada nas extremidades por amplas e mo­vimentadas avenidas, era bem arborizada e tão sosse­gada quanto várias outras daquela região da cidade. Quando ele chegou à porta da casa, ouviu o ritmo ensurdecedor da música. Hesitou antes de apertar a campainha. Ainda tinha tempo para mudar de idéia. Terceira bola fora, ele pensou num misto de irritação e de ironia, mas não seria uma jogada importante. Voltaria para casa, trocaria de roupa e sairia para correr. Alguns quilômetros através do Central Park e sua ca­beça ficaria livre de pensamentos sobre dever, obri­gações e...

A porta foi aberta. Cento e vinte decibéis de guitar­ra o atingiram. Uma morena que segurava um cigarro e um isqueiro lançou-lhe um sorriso extasiado.

— Bem, bem — disse ela. — Que belo pacote eu encontrei na porta!

Ela também era um belo pacote, embrulhada num vestido transparente que, na terra de Tariq, seria uma camisola a ser usada apenas na frente do marido, mas que se tornara moda na alta roda.

— Que sorte para nós dois que eu tenha resolvido sair para fumar justamente agora.

O sorriso dela, sua voz... Aquela era uma mano­bra de abertura de um jogo do qual ele participara dezenas de vezes. Algumas bebidas, uma conversa e ele a levaria para casa. Para a cama dela, não dele — porque era menos complicado — mesmo que o que começasse aquela noite durasse algumas semanas ou alguns meses. Depois, ele perderia o interesse e ela se perguntaria por quê. A mulher se aproximou.

— Você não vai entrar? — Ela o pegou pelo braço. Tariq olhou as unhas pintadas de vermelho vivo e, depois, o rosto. Ela era bonita, mas, na verdade, ha­veria dezenas de mulheres como ela na festa. Lindas mulheres que se jogariam em cima dele apenas pela sua aparência. Não adiantava ser modesto quanto ao que a natureza lhe dera de presente. Quando as mulhe­res descobriam quem ele era, que possuía um título de nobreza e que tinha mais dinheiro do que ele mesmo conseguia contar... Não, ele decidiu. Não estava dis­posto esta noite.

— Desculpe — disse ele, polidamente. — Parece que me enganei de endereço.

— Bobagem — disse ela aproximando-se mais e roçando os seios no braço dele. — Você veio ao lugar certo... Mas, se preferir, podemos ir para algum lugar mais sossegado.

O rosto de Tariq se contraiu. De repente, aquela si­tuação lhe pareceu lamentável, e ele se afastou.

— Não estou interessado — disse ele friamente.

O rosto dela ficou vermelho. Ele disse a si mesmo que se comportava como um canalha, mas...

— Alteza! — Um dos jovens sócios do advogado de Tariq acabara de vê-lo à porta.

Maldição, pensou Tariq. Estava preso na armadi­lha. A morena se recuperou rapidamente.

— Alteza? — disse ela sem fôlego. — Você é rei?

— É uma brincadeira — disse Tariq rapidamente. — E nada engraçada, não é, Edward? — Para seu alí­vio, apesar de confuso, o advogado concordou.

— E uma piada, claro. — Ele fez uma reverência. — Entre... senhor. Permita que eu lhe sirva uma bebida.

— Ei! — disse a morena.

Tariq a ignorou e seguiu o advogado. O lugar esta­va lotado e não foi fácil encontrarem um espaço para conversar.

— Tariq. Alteza...

— Não, por favor. Chame-me pelo nome. Eu acer­tei seu nome?

— Sim, senhor.

— Bem, Edward, minha semana foi muito cansati­va. A última coisa que quero esta noite é ser tratado de maneira formal.

— Claro, senhor. — O jovem pigarreou. — O se­nhor Strickland — John — vai ficar encantado ao vê-lo. Vou procurá-lo e...

— Não é preciso. Prefiro ficar sozinho, livre e de­simpedido.

— Ah, entendi. Quer passar a noite fora da tela do radar. Claro, como preferir, Alteza.

Tariq pensou em corrigir o homem outra vez, mas desanimou. Dentro de cinco minutos estaria longe dali. Na segunda-feira pediria à sua assistente que mandasse algumas flores para John Strickland e sua esposa, junto com um cartão de agradecimento pela hospitalidade e votos de felicidade na nova casa. Ele se despediu de Edward, que sumiu no meio da multidão.

Um garçom lhe apresentou uma bandeja com canapés e Tariq recusou. Outro garçom, outra bandeja. Na terceira vez, para se livrar de outro garçom, ele pegou algo preso a uma torrada por um palito. Segurou o salgadinho por algum tempo e depois se aproximou da mesa e o colocou discretamente sobre um prato já usado.

— Você está sozinho?

A voz delicada soara às suas costas. Tariq se vol­tou e deu de cara com uma loura. Não novamente, ele pensou, mas logo se arrependeu. A morena era bonita. Esta mulher era... sensacional. Seu cabelo ti­nha a cor do trigo na primavera e caía em ondas sua­ves sobre o rosto oval. As maçãs do rosto eram sa­lientes e a testa, delicada. Os lábios cheios e macios. Seus olhos eram castanho-escuros e tinham um bri­lho inteligente. Era alta, esbelta e suas curvas eram acentuadas por um vestido simples de seda preta que contornava seus seios, a cintura estreita e os quadris arredondados.

— Eu perguntei se você está sozinho.

O mesmo jogo, mas uma abertura diferente. Tal­vez ele precisasse de um descanso da rotina das últi­mas semanas. Talvez, afinal, a noite fosse ser melhor. Ele sorriu e deu o passo que o deixaria mais próximo dela.

— O que vai acontecer, se eu responder que sim?

— Se responder que sim, vai salvar minha vida.

— Estou impressionado. Tanto drama numa festa tão banal.

Ela deu um rápido sorriso.

— Certo. Não vai salvar minha vida, mas vai me impedir de ser cruel com um sapo. Acha que pode me ajudar?

— Um sapo?

— Um homem que parece um sapo.

— Ah! — Tariq sorriu. — Vou ganhar um prêmio da Sociedade de Proteção aos Sapos?

A jovem riu. Sua risada era encantadora, luminosa, espontânea e natural.

— Algo parecido. Olhe, será apenas por alguns minutos. Converse comigo. Sorria. Essas coisas que se fazem em coquetéis. Por favor?

— Concordo — disse Tariq com seriedade. — Se é para preservar a vida animal...

— Maravilha. Obrigada. — Ela olhou por sobre o ombro de Tariq. — Ali está ele — disse em voz baixa, sorrindo. —Ah! — disse alegremente, de maneira que o homem pudesse escutar. — É verdade! Eu não diria isto, mas... — Ela parou no meio da frase e revirou os olhos. — Ele se foi.

— Sapos são sempre assim — disse Tariq, sole­nemente. — Num segundo estão aqui, no outro — upa! —, sumiram.

Ela deu outra risada adorável, olhando para ele. Tariq notou que os olhos dela não eram apenas casta­nhos, tinham tom de chocolate cremoso.

— Obrigada.

— De nada. — Ele sorriu e acariciou o rosto dela. — Como você se chama?

— Meu nome?

— Seu nome, seu endereço, seu telefone. — A voz dele enrouqueceu. — Podemos começar por aqui, habiba.

— Você quer dizer... Você pensou... — Ela corou. — Eu não estava flertando com você. Sério, eu... — Ela olhou para o outro lado da mesa. —Ah, meu Deus! — falou mais alto. — Sim, obrigada, eu adoraria!

Tariq franziu a testa.

— O sapo voltou?

— Voltou.

— Se ele fez algo para ofendê-la, habiba...

— Não. Nada disso. Eu só não conseguia me livrar dele, e não queria dizer claramente que ele perdia seu tempo.

— Uma mulher bondosa. — A voz de Tariq se transformou num murmúrio. — E quanto a mim, ha­biba, estou perdendo meu tempo?

Ah, Deus, pensou Madison. Saíra da frigideira pa­ra cair no fogo. Exceto que esse fogo faria qualquer mulher se derreter... e ainda a deixaria contente. Não uma mulher como ela, farta daquele tipo de jogo, mas qualquer mulher que se impressionasse com uma bela aparência, senso de humor, roupas que mostravam que ele tinha dinheiro e que logo estaria metida numa confusão. E sensualidade: não adian­tava negar. Ele era extremamente sensual, ao con­trário do sapo que a abordara uma hora antes e que conseguira afastá-la de Barb — ou, talvez, Barb a tivesse abandonado. De qualquer maneira, Madison se vira acuada num canto, enquanto ele falava de si mesmo: seu sucesso, seu dinheiro, sua genialidade em tecnologia.

— É interessante — ela dissera. — Eu também trabalho no ramo de tecnologia e... — Ela nem de­veria ter tentado... Ele recomeçara a falar sobre seu enorme apartamento, seu carro caríssimo, a casa em Miami...

— Ah, ali está alguém que preciso cumprimentar — dissera Madison de repente, e correra na direção do único homem que parecia estar só.

Ela procurara um salvador. Encontrara um homem que jamais salvaria uma mulher, mas que, pelo con­trário, iria levá-la direto para o caminho do pecado. Ele era lindo — não havia outra palavra para des­crevê-lo. Era alto o suficiente para ultrapassá-la em altura, apesar dos enormes saltos que ela usava. Seus cabelos eram escuros e os olhos acinzentados tinham um brilho quase prateado. Ombros largos, cintura marcada, longas pernas. Falava com um leve sotaque que acentuava sua sensualidade. Ele era um magnífi­co predador e seria fácil para ela aproveitar a última noite antes que sua vida mudasse para sempre, en­tregando-se ao que ela sentia que estava acontecen­do: ele queria levá-la para casa, queria levá-la para a cama, e ela... ela...

Madison respirou fundo e tentou recuar. A sala es­tava tão cheia que ela não conseguiu se mexer.

— Ouça — disse ela depressa. — O que eu lhe dis­se é verdade. Não o culpo pelo equívoco. Quer dizer, a culpa foi minha, e...

— Nós já nos conhecemos?

Madison levantou as sobrancelhas. Um homem co­mo ele fazer aquele tipo de abordagem?

— Não. E como eu disse...

— Devemos nos conhecer. Talvez de alguma festa?

— Desculpe. Meu rosto é muito comum.

Ele a observou com insolência, examinando-lhe os lábios com tanta intensidade que o coração dela co­meçou a acelerar.

— Creia — ele disse com doçura. — Seu rosto não tem nada de comum.

A multidão se comprimiu em torno deles e fez com que se aproximassem. O hálito de Madison to­cou o peito de Tariq e o calor a invadiu. A reação dele foi mais evidente: seu corpo se enrijeceu. Ela sentiu que ele estava excitado e se assustou ao sentir um espasmo contrair suas próprias entranhas. Ra­pidamente, ela colocou as mãos no peito dele e o afastou.

— Obrigada por sua ajuda — disse ela.

— Pretende escapar, habiba?

A voz dele era macia, repleta de sensualidade. Não, ela pensou com firmeza. Eu não vou fazer isso. Não com meu futuro planejado com tanto cuidado.

— Pretendo — disse ela num tom artificial. — Ele foi embora.

O sorriso dele era lindo, leve, sensual e totalmente masculino.

— Mas ele vai voltar.

— Tenho certeza de que não vai.

— Vai sim, se ele tiver uma gota de sangue nas veias. Nenhum homem seria tão tolo para deixá-la fugir.

— Olhe, eu não... Quer dizer, você não... — O olhar de Madison se dirigiu para além dele. — Ah, inferno — disse ela, infeliz. — Ele voltou.

— Vamos. — Sua mão grande, forte e firme agar­rou a mão dela.

— Para onde?

— Vamos para o pátio... Ou você prefere ser apa­nhada pelo sapo?

Ela hesitou por um curto instante.

— Está bem — disse ela, e Tariq a conduziu rapi­damente para o pátio.

Ele sabia muito bem que poderia se livrar do outro homem apenas com um olhar, mas porque o faria se, em vez disso, poderia levá-la até um lugar calmo e fresco? Ele não fora à festa à procura de um encontro casual, mas falara a verdade: só um homem sem san­gue nas veias não desejaria aquela mulher. Ele ficaria com ela por uma noite. Diabos, um fim de semana, e nada o impediria.

A porta do pátio abriu, o "sapo" saiu, olhou para eles, e seu rosto se iluminou.

— Ah, aí está você — ele disse. — Eu a procurei por todo lado. Não acabei de lhe contar sobre a casa que comprei em Miami...

Tariq olhou para a loura. Ela mordeu os lábios. Ele desejou que fosse ele a mordê-los.

— Ah, inferno — ela sussurrou. Tariq sentiu o sangue ferver.

— Tem razão — disse ele em voz macia. Um se­gundo depois ela estava em seus braços, olhando-o com os olhos arregalados.

— O que você...

— Estou deixando claro a quem você pertence esta noite — disse ele com firmeza, beijando-a.

Ela engoliu em seco, seu hálito contra os lábios de­le. Ele gemeu roucamente e a apertou nos braços.

— Beije-me — ele sussurrou.

Ela obedeceu. Seus lábios se abriram e suas línguas se encontraram: seda contra seda, fogo contra fogo. O pátio desapareceu, o "sapo" sumiu e tudo o que restou foi a mulher nos braços de Tariq, a sensação de que ela...

—Ah! — ela suspirou, e ele percebeu que ela sentia o mesmo. Madison deslizou as mãos pelo peito dele e entrelaçou os dedos em torno de sua nuca.

Tariq sentiu o roçar dos seios dela contra o peito e o perfume que invadia seus sentidos, e gemeu. Todo o rígido controle que mantivera durante os últimos dois meses ruiu. Ele deixou que ela sentisse sua podero­sa ereção contra o corpo, e quando ela gemeu e se agarrou a ele, apertou-a com mais força e intensifi­cou o beijo, saboreando-a. Agarrou-a pelos quadris e a ergueu, encaixando-se entre suas coxas. De algum modo, eles saíram do pátio e entraram no jardim, onde foram envolvidos pela escuridão da noite e seu doce aroma de flores. Os ruídos da festa emudeceram. Ta­riq sentiu algo às suas costas: a parede de um cara-manchão iluminado por uma luz difusa. Ele a levou para dentro. Ela se agarrou a ele e ofereceu a boca se­denta, pronta para ser invadida pela língua de Tariq, a respiração ofegante. Pegou-o pelo rosto e se entregou ao mais ardente dos beijos.

— Eu quero você — ele disse em voz rouca.

— Sim — ela sussurrou. — Sim.

Os lábios de Tariq estavam em seu pescoço, a mão, em seu seio, envolvendo-o, acariciando-o. Ele massageou-lhe o mamilo enrijecido com a ponta do dedo, através do vestido.

— Você é tão linda — ele murmurou — Tão linda...

Ela enfiou a mão sob a camisa de Tariq. Seu to­que o incendiou. Ele gemeu, levantou o vestido dela até os quadris e se colocou entre suas coxas. Seda. Sedosa e macia. Uma tira de renda, calor, a maciez dos pelos úmidos... Por Ishtar, ele teria um orgasmo. Ele, que jamais deixara a paixão controlá-lo, que sempre mantivera frieza suficiente para obser­var a mulher que possuía... estava prestes a explodir. Maldição, não daquela maneira. Queria estar dentro dela, sentir que ela o acolhia em seu corpo, enlaça­va-o com as pernas...

— Não! — O grito dela ecoou no silêncio. Tariq a olhou espantado. — Maldito, afaste-se de mim! — Ela bateu nele com os punhos, o que bastou para trazê-lo de volta à realidade.

— O que houve? — ele disse.

— Você... miserável! — Madison o empurrou. Es­tava em pânico, não por medo dele, mas por medo de si mesma. — Solte-me — disse ela. — Ouviu? Eu disse...

— Eu ouvi o que você disse. — A voz dele estava fria. — Garanto que mais da metade de Manhattan também ouviu.

Ele a soltou e se afastou, mas não fez diferença. Ela ouvia sua respiração ofegante, sentia o aroma de sua masculinidade. Ah, sim, um predador da pior espécie. Simpático, arrogante, rico, que freqüentava os ambien­tes certos. Ele era tudo o que ela desprezava, e estivera à beira de fazer sexo com ele. À beira? Maldição, um beijo a mais e... Como acontecera? Ela estremeceu.

— Você se aproveitou de mim!

Eu me aproveitei de você? — Ele começou a rir.

Ela queria bater nele de novo, mas estava furiosa, não louca.

— Você acha engraçado?

— O que eu acho — disse ele — é que devo lhe agradecer por esse rápido interlúdio. Estou à procura de algo e percebi que vai demorar mais do que eu pen­sava para encontrar.

— Não sei do que está falando.

— Graças a você, acabo de perceber como seria fácil e errado dar a uma mulher algo que eu só deveria dar para a mulher certa.

— Não importa — disse Madison. — Nada do que você disse faz sentido para mim.

— Exato. Mas faz todo o sentido para... — Ele fran­ziu a testa. — Claro! — disse ele, devagar. —Agora sei por que você me pareceu familiar. Você é a prince­sa de gelo da... Como é o nome... FutureTense?

— FutureBorn — disse Madison. — O que você sabe sobre isso?

— Não tanto quanto pretendo saber — disse ele, enigmático.

— Você conhece meu patrão? Se pensa que pode fazer com que ele me despeça... — Ele riu e lhe deu as costas. — Você não vai conseguir. Não vou ficar lá muito tempo.

Tariq não se virou. O que ela dizia não lhe impor­tava. O "sapo" ainda estava no pátio. Tariq deu um sorriso maldoso.

— A dama é toda sua — disse ele, entrando na casa. Caminhou pelas salas num andar resoluto que atraiu olhares curiosos, até encontrar seu advogado. Strickland conversava com um pequeno grupo. Tariq parou a certa distância.

— Strickland?

— Alteza...

Todos se viraram para olhá-lo. Tariq conhecia aquele olhar — um misto de respeito e de inveja. Em geral ele o odiava, mas agora era bem-vindo. A loura o fizera de tolo, e ninguém mais o faria. Strickland se aproximou.

— Edward disse que o senhor estava aqui, Alteza. Eu o procurei, mas...

— Preciso de um conselho jurídico. O advogado se admirou.

— Agora?

— Agora mesmo. — Tariq pegou seu celular, aper­tou uma tecla e aguardou até ouvir a voz de seu mé­dico particular. — Dr. Miller — disse ele com a firme segurança de quem jamais precisa pedir, apenas man­dar. — Estou na casa do meu advogado. Por favor, encontre-se comigo aqui, dentro de meia hora.

— O senhor está doente? — perguntou Strickland quando Tariq desligou, depois de informar o endere­ço.

— Há algum lugar onde possamos conversar em particular?

— Sim, claro. — O advogado o levou para um ele­gante escritório, longe do ruído da festa.

— Não estou doente — disse Tariq quando a porta fechou.

— Então, o que...

— Quero garantir que haja um herdeiro para o tro­no de Dubaac, caso algo me aconteça antes que eu me case — disse ele, bruscamente. — Chamei meu mé­dico para discutir os detalhes, mas pretendo mandar congelar uma amostra do meu esperma o mais rápido possível. Existe algum problema legal?

O advogado sorriu.

— Nenhum, Alteza. Já lidei com situações seme­lhantes.

— Ótimo — disse Tariq. E pela primeira vez desde a morte do irmão ele suspirou aliviado.
CAPÍTULO TRÊS
As 9h de segunda-feira Tariq saiu do apartamento na Quinta Avenida, recusou o oferecimento do porteiro para chamar um táxi e caminhou rapidamente. Era uma luminosa manhã de verão, mas ele teria cami­nhado mesmo que fosse uma tempestuosa manhã de janeiro.

Ele passara a maior parte da noite no terraço, obser­vando, sem ver, a escuridão do Central Park. Dizia a si mesmo que o que faria na manhã seguinte era a versão moderna de um encontro com o destino. Uma peque­na voz dentro dele insistia em descrever as coisas em termos mais realistas. Não importa o que pensasse, estava prestes a fazer sexo com um tubo de ensaio. Tinha certeza de ter tomado a decisão correta, mas não estava satisfeito. Um homem saudável, no auge da vida, que poderia escolher a mulher que desejas­se, não deveria estar tão ansioso para plantar sua se­mente num consultório médico. Ele passara o sábado lendo documentos legais que especificavam como a sua "amostra" seria conservada e utilizada. Fora para a cama com todo aquele palavrório dançando diante dos olhos, e provara outra dose no domingo. Afinal, seu material de leitura acabara. Talvez por isso ele tivera aqueles sonhos com a loura Madison Whitney. Sonhos extremamente eróticos... Irritantes. Maldição, ele era um homem maduro, não um adolescente. Se não tivesse acordado a tempo, teria feito o ensaio do que deveria fazer mais tarde naquela manhã.

A única coisa positiva que restara da noite de sexta-feira fora a certeza de que ele era um príncipe que pre­cisava encontrar uma esposa, não um homem à caça de uma noite de prazer. Mesmo assim, ele hesitou ao chegar ao consultório do médico. Não seja tolo, disse a si mesmo, erguendo a cabeça. Tocou a campainha.

O procedimento levou poucos minutos. Tariq as­sinou alguns formulários, entrou numa pequena sala com um recipiente de vidro na mão e recusou as revis­tas que lhe ofereciam com a arrogância de um homem seguro do poder de sua própria sexualidade... Então, sua imaginação o traiu. Nada aconteceu, até que ele fechou os olhos e se lembrou daquela mulher, de seu gosto, seu perfume, sua pele sedosa... Só depois disso é que ele fez o que precisava fazer. Agora, poderia esquecer a humilhação e a raiva que aquela mulher lhe causara.

Madison costumava começar seu dia tranqüilamen­te. Serenamente, dissera Barb certa vez, revirando os olhos. Por que não? Planejar com antecedência, fazer tudo com cuidado. Fora assim que Madison aprendera a contornar as incertezas de uma infância caótica.

A cafeteira estava programada para ligar automati­camente às 6h. O despertador, às 6h05. Às 6hl5, ela estaria na cozinha, de banho tomado, vestida, pronta para a primeira dose de cafeína. Dez minutos depois, de cabelos penteados com a ajuda do secador, ma­quiada, estava pronta para encarar o mundo.

Na segunda-feira de manhã tudo dera errado. O café não fora coado, o secador queimara ao ligar, não havia meias limpas na gaveta, sua máscara para cílios a traíra, ao depositar uma massa grudenta e negra nas pestanas de um olho e nada no outro. A culpa era toda sua.

Esquecera de colocar café na cafeteira. O secador já dera defeito na última vez em que o usara. Suas meias estavam todas no cesto para lavar e a máscara para cílios acabara. O mais inacreditável é que ela perdera a hora porque esquecera — pela primeira vez na vida! — de ligar o despertador do relógio. Pretendia cuidar de tudo durante o fim de semana. Compraria o café no Zabar's, um secador de cabelos na Macy's, a másca­ra para cílios na Sack's, lavaria sua roupa de baixo... Mas passara o fim de semana ocupando-se com coisas que não precisava. Limpara os armários da cozinha, o closet, o chão e os móveis com tanto cuidado que parecia que alguém do departamento de Saúde iria inspecioná-los. A noite, assistira a reprise de Sex and the City pela centésima vez, enchendo-se de pipoca de baixa caloria, livre de gordura e com gosto de nada, apesar de não ter fome.

— E por quê? — perguntou ao seu reflexo no espelho.

Porque não conseguira tirar da cabeça o miserá­vel, o estranho que quase a seduzira. Porque a simples lembrança do que acontecera a deixava humi­lhada. Porque, no fundo, sabia que culpá-lo de tudo era a mais deslavada mentira. Ele não a forçara. Simplesmente a beijara. Sua libido fizera o resto, transformando-a em alguém que ela não conhecia, uma mulher que permitira que um estranho fizes­se com ela coisas que a faziam corar e que, só de pensar, ainda lhe amoleciam os ossos. Maldição! De que adiantava remoer tudo aquilo? O que fizera, estava feito. Um profundo suspiro, mais uma olhada no espelho, erguer a cabeça...

— Pare de se lamentar — disse Madison a si mes­ma. Quem se importava com a noite de sexta-feira? Hoje era segunda. A segunda-feira. O primeiro dia do resto de sua vida, o dia em que ela esperava conceber um bebê. A expressão de Madison se suavizou. Um bebê. Uma criança para amar, para cuidar. A noite de sexta-feira, o homem — nada valiam. O importante era seu compromisso daquela tarde e a doce e lumino­sa promessa de uma gravidez. Ela foi até o closet e o abriu. Era loucura que ela, entre tantas pessoas, pudesse se deixar levar não por um príncipe — como Barb prometera, brincando —, mas pelo tipo de dom Juan que sempre entrara e saíra da vida de sua mãe. Claro que ele era atraente, mas dom Juans sempre são. Alto, moreno, lindo e com uma postura e um jeito de falar que beiravam o exóti­co. Madison fungou. Era provável que ele tivesse nas­cido no Brooklyn. Por que ainda perdia tempo com ele? Ela se vestiu rapidamente, com uma roupa sim­ples e sapatos confortáveis. Não se maquiou. Aplicou apenas um pouco de brilho nos lábios e passou um gel nos cabelos.

O dia não começara bem, mas terminaria radiante. Quando tudo acabasse e sua gravidez fosse confir­mada, ela contaria a Barb sobre a "Grande Lição" da sexta-feira: quando se comparam os benefícios de um homem e os de um tubo de ensaio, o tubo de ensaio sempre ganha.

Na FutureBorn ninguém sabia que aquele não era um dia comum. Exceto Madison, claro. Como ela po­deria se concentrar no trabalho quando algo tão im­portante iria acontecer às 14h? O tempo se arrastava. Ao meio-dia ela abriu um pote de iogurte, fechou a porta da sala, pegou a pasta com os dados do doador que escolhera e começou a ler. Sim, escolhera o ho­mem certo: educado, saudável, bonito. Polido, gentil e modesto. O formulário só continha informações so­bre educação e saúde, mas ela sabia que o resto de­veria ser verdade. Ótimas qualidades para um pai. O estranho era o oposto. Ele era um anúncio ambulante de arrogante egoísmo, impulsividade e machismo. Ou seja: era extremamente sexy. Madison deu de ombros, jogou o pote de iogurte no lixo e soltou a pasta.

— Você está louca? — murmurou. Era provável. Que importava, se estar nos braços dele fora a me­lhor experiência de sua vida? Seu toque, seus beijos, seu desejo... E, ah, o desejo que a incendiara. Ela o queria, precisava dele. Alguns segundos a mais e ela se entregaria ali mesmo, no jardim. Deixaria que ele rasgasse sua calcinha. Afinal, por que não vestira as meias de seda? Ótimo, porque as meias teriam adiado o maravilhoso momento em que ele a tocaria...

Madison levantou. Ainda eram 13h. O consultório da ginecologista ficava a alguns minutos de táxi, mas não faria mal chegar mais cedo. Estava nervosa e ten­sa. Não admira que tivesse pensamentos absurdos.

— A caminho, garota — disse ela. E saiu.


Era curioso como algo que provocara medo num homem podia se transformar em algo que lhe devolvia o equilíbrio. Às 19h, Tariq entrou em casa, jogou as chaves sobre uma mesa e tirou o paletó. Estivera tão descontente com o que fizera pela manhã que quase esquecera o motivo para fazê-lo. Sim, ele ainda pre­cisava encontrar uma esposa, mas agora teria tempo. Escolher uma mulher requeria planejamento.

Tariq tirou a gravata e entrou no quarto. Faria uma lista de qualidades que gostaria de encontrar em uma esposa e uma lista das mulheres que conhecia, e cru­zaria as duas. Só agora a idéia lhe ocorrera. Para se resolver um problema é preciso seguir um método que resulte em alguma solução. Era assim que ele dirigia seus negócios. Por que não percebera que esta seria a maneira de procurar uma esposa adequada?

Mas não naquela noite.

Ele sorriu enquanto se despia. Esta noite ele es­queceria sua missão. Um banho, uma bebida, uma refeição. E uma mulher. Ele entrou no banho e dei­xou que a água escorresse por seu corpo. Positiva­mente, uma mulher. Consultaria a agenda de telefo­nes e ligaria...

Madison Whitney não estava em sua agenda. Ainda bem! Que homem, em sã consciência, iria querer uma mulher que ligava e desligava como uma lâmpada? Ela era fria como o gelo... Exceto, que ela se incen­diara de paixão quando ele a abraçara e beijara, ardera de paixão quando ele sonhara com ela, e naquela ma­nhã, quando ele a invocara, imaginara possuí-la, en­trar em seu corpo, ouvi-la gritar de prazer... Inferno! Tariq abriu a água fria e estremeceu sob as alfinetadas geladas. Estaria louco ao se excitar com uma lembran­ça? Com uma mulher que o provocara quase ao ponto de deixá-lo sem saída? Não. Estava apenas frustrado. Um homem sadio que ficasse tanto tempo sem sexo estava à procura de confusão, e ninguém poderia cha­mar de "sexo" o procedimento médico daquela ma­nhã. Ótimo, ele resolveria o problema...

O telefone tocou quando ele se vestia. Tariq pra­guejou e atendeu.

— Alô — ele rosnou. — É bom que seja algo im­portante...

— Alteza!

Tariq suspirou. Era o advogado.

— O que foi, Strickland? Você arranjou outras 50 páginas para eu assinar?

— Não, Alteza... Eu soube, há 20 minutos... Nin­guém sabe explicar... Aconteceu algo de errado com sua amostra — disse Strickland.

Tariq sentou na cama.

— Não me diga que vou ter que fazer tudo de novo.

— Não, senhor. Nada disso. O problema não foi com a coleta.

— Então, o que houve? — Silêncio. Ele escutava a respiração de Strickland do outro lado. — Maldição, homem. Fale!

— O material foi enviado ao laboratório da Future-Born, como planejado, e... deveria ser estocado, mas, em vez disso... foi despachado.

Despachado? Tariq imaginou o maldito recipiente de vidro passeando pela cidade. Ridículo, exceto pelo arrepio que desceu por sua espinha.

— Despachado para onde? — ele disse, preocupado.

— Para um consultório médico.

— Bem, pegue de volta!

— Receio que seja impossível, Alteza. Ele foi... ele foi utilizado. Foi colocado em uma... uma receptora.

— Você quer dizer... — disse Tariq devagar — que uma mulher qualquer foi engravidada com o meu esperma?

— Inseminada, senhor. Seria prematuro dizer que ela está...

— Como diabos, isso aconteceu?

— Não sei, Alteza.

A cabeça de Tariq rodava. Em algum lugar da ci­dade uma parte dele estava no útero de uma mulher estranha. Se ela engravidasse, se ela...

— Quem é ela, Strickland?

— Alteza, existe uma questão de privacidade. Até que eu possa averiguar...

— Privacidade? — urrou Tariq, levantando-se. — Uma mulher que eu nem conheço está carregan­do meu sêmen e você se preocupa com a privacidade dela! Diga quem é ela ou irá se arrepender.

Strickland pigarreou.

— O nome dela é Madison Whitney.

Tariq já ouvira dizer que a raiva coloria tudo de vermelho. Era mentira. Sua visão ficou clara como o dia. Ele via Madison Whitney como se ela estivesse à sua frente. O rosto lindo e frio, os olhos cheios de des­prezo por ele... Impossível. Strickland pegara o nome errado, ou havia outra Madison Whitney em Nova York. O advogado descartou estas possibilidades. O sêmen de Tariq fora "despachado e utilizado" na mes­ma mulher cuja imagem tornara possível a "coleta" do material. A ironia era evidente, e, além disso, outra hipótese sombria lhe pareceu inevitável.

— Ela é uma das diretoras da FutureBorn — disse Tariq secamente. — Talvez tenha feito de propósito. Se ela sabia o que eu pretendia fazer... Ela também devia saber quem eu sou, que sou um homem muito rico e...

— E o que, senhor? Que benefício ela teria? Mes­mo que a inseminação dê certo — e não há garantias de que dê — ter um filho para conseguir seu dinheiro seria meio duvidoso... Se me perdoa a franqueza.

Tariq massageou a testa. Havia uma bateria tocan­do em sua cabeça.

— Além disso, Alteza, parece que a jovem planejou tudo há algum tempo. Ela já escolhera um doador.

— Um homem conhecido? — perguntou Tariq seca­mente, apesar de não entender por que se importaria.

— Ela escolheu um doador anônimo, senhor. Tariq fechou os olhos, enquanto Strickland conti­nuava a falar.

— Vou verificar os precedentes para um processo e...

— É esse seu conselho profissional? Que eu entre com um processo e me sujeite a ser motivo de piada?

— Pode ser que ela entre com um processo, mesmo que o senhor não o faça. — O pesadelo ainda poderia ser pior? — Até agora, ninguém falou no seu nome. Pode ser que ela não goste, tanto quanto o senhor. Pen­so que, por enquanto, a melhor opção seria esperar.

— E se a srta. Whitney engravidar? Você está su­gerindo que eu a deixe criar um príncipe de Dubaac como se fosse um... um menino de rua?

— Seria improvável — disse Strickland secamente. — Ela é bem educada, tem um cargo importante. Ela...

— Não importa que ela seja a encarnação da Madre Teresa — cortou Tariq, e suspirou. — Está bem. Por enquanto, não faça nada. Certifique-se de que quem sabe desse... "engano de endereço" fique calado. Fui claro? — Tariq sentou na beirada da cama e colocou a mão na cabeça. Seu plano inteligente ruíra. — Em quanto tempo vamos saber se ela está grávida?

— Um mês, senhor.

— Como vamos conseguir essa informação? Strickland pigarreou.

— Tenho meus métodos, senhor. Garanto que sabe­rá, assim que ela souber.

Um mês. Quatro semanas intermináveis...

— Vamos aguardar um mês — disse Tariq com calma. — Enquanto isso, mantenha-a sob vigilância. Sei algu­mas coisas sobre essa mulher — disse Tariq com frieza.

— Ah, eu não sabia...

— Sua vida sexual deixa muito a desejar. Se ela dormir com outro homem durante o próximo mês...

— Claro. Eu deveria ter pensado...

— Mas não pensou — respondeu Tariq asperamen­te. — Eu pensei. — Ele tentou se controlar. — Um mês. Depois, se for preciso tomar uma atitude... — Alguns séculos atrás, a expressão de seu rosto seria a última visão que um inimigo teria antes de morrer. — Você irá visitá-la e deixará claro que ela deve levar a gestação até o fim, ter meu filho... e entregá-lo a mim.



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