PrincÍpios de InterpretaÇÃo BÍblica



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princípios de interpretação bíblica

introdução à hermenêutica com ênfase em gêneros literários


Sumário


Sumário 7

Introdução 8

Parte I - O objeto de análise: a Bíblia 9

1 A BÍBLIA E O INTÉRPRETE 10

2 O CÂNONE BÍBLICO 14

3 A BÍBLIA HEBRAICA E O TEXTO DO ANTIGO TESTAMENTO 20

4 A CRÍTICA TEXTUAL E AS EDIÇÕES DO NOVO TESTAMENTO GREGO 25

5 A BÍBLIA EM TRADUÇÃO 35

6. ESBOÇO DA HISTÓRIA DA INTERPRETAÇÃO DA BÍBLIA 42

Parte II - O método exegético 51

7. A QUESTÃO DO MÉTODO EM EXEGESE 52

8 UM MÉTODO DE INTERPRETAÇÃO DE TEXTOS BÍBLICOS 56

9 A DIMENSÃO LINGÜISTICA DA BIBLIA 60

10 A MENSAGEM CENTRAL DA BÍBLIA 66

11 A DIMENSÃO PRAGMÁTICA DO TEXTO BÍBLICO 69

Parte III - O método exegético aplicado a diferentes gêneros bíblicos 72

12 GÊNEROS LITERÁRIOS NA BÍBLIA 73

13 NARRATIVAS BÍBLICAS 74

14 AS PARÁBOLAS DE JESUS 78

15 A DIMENSÃO POÉTICA DA BIBLIA 84

16 EPÍSTOLAS 90

17 A INTERPRETAÇÃO DO ANTIGO TESTAMENTO, COM ÊNFASE NOS TEXTOS PROFÉTICOS 96

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 101




Introdução


Muitas pessoas têm a impressão de que ler, entender e explicar a Bíblia é coisa complicada. Isso pode ser resultado de sua própria experiência, um tanto quanto frustrante, mas, ao que parece, tem muito mais a ver com o que dizem e fazem outros intérpretes da Bíblia, que vendem a imagem de que o processo é, de fato, extremamente complicado. Há alguns malabarismos exegéticos e interpretações de caráter duvidoso que confundem os menos avisados. Além disso, livros de hermenêutica que tendem a focalizar problemas de interpretação reforçam a idéia de que interpretar a Bíblia é coisa muito difícil.

Na verdade, interpretação bíblica não é, e nem deveria ser, tarefa acessível apenas a especialistas. A Bíblia é um livro claro. E não é de hoje que se diz isso; a própria Bíblia já o afirma (1 Co 2.11; 1Jo 2.27). A Escritura Sagrada, por si só, é clara e compreensível também às pessoas simples. Em vista disso, os antigos diziam que não se deveria pressupor a necessidade absoluta da hermenêutica. Ou seja, estudar princípios de interpretação não é condição necessária para entender a Bíblia. A rigor, tudo que se tem a fazer é ler o texto e dar atenção ao contexto.

O problema de muitos é pensar que, no momento em que começam a ler a Bíblia, não mais se aplicam as regras que valem para a leitura de outros textos. O simples fato de citar versículos já dá a impressão de que o texto bíblico é diferente. Na verdade, porém, a gente começa a ler a Bíblia como se lê a carta de um amigo. É importante saber que se trata de uma carta. É preciso lidar com a língua e a história. Em outras palavras, é preciso levar a sério e decodificar o que está escrito, e levar em conta o momento histórico em que o texto foi escrito. Isto é, a rigor, exegese histórico-gramatical.

Este livro não parte do princípio de que alguém só será intérprete da Bíblia a partir do momento em que estuda hermenêutica. A rigor, cada pessoa aprende hermenêutica desde o momento que nasce. Ela aprende isso na família, na Igreja, na escola, na vida.

Os manuais de hermenêutica existem para que as pessoas possam crescer no processo de leitura e compreensão do texto bíblico. Entre outras coisas, a hermenêutica ensina a ler e trabalhar com método. Ela lembra ao cristão de hoje que leitura e interpretação da Bíblia começaram muito tempo antes dele. Ela tem importante papel quando se trata de evitar os equívocos e as falácias exegéticas. Ela ajuda o intérprete a justificar a sua exegese e permite que ele se convença a Si mesmo e a outros da viabilidade da leitura proposta. Por último, a hermenêutica é importante quando se trata de avaliar a metodologia e as conclusões de outros exegetas.

Este livro se divide em três partes: I - O objeto de análise: a Bíblia; II - O método exegético; III - O método aplicado a diferentes gêneros bíblicos.

A primeira parte apresenta o livro que é o objeto de análise exegética: a Bíblia. Interessam questões relacionadas com a formação do cânone bíblico, a história da transmissão dos textos originais e sua publicação hoje, a tradução do texto e a história da interpretação.

O método exegético, com o qual se ocupa a segunda parte, é uma tentativa de capacitar o leitor a fazer seu trabalho exegético com maior proveito. É um roteiro de trabalho que ajuda a ordenar e disciplinar a leitura.

Um método não pode ser uma camisa de força ou um esquema imutável. Além de flexível, precisa também levar em conta ou ser adaptado às diferentes formas literárias encontradas na Escritura: narrativas, parábolas, poesia, epístolas, textos proféticos. Este é o assunto da terceira parte, que inclui também um capítulo sobre o Apocalipse.

Parte I - O objeto de análise: a Bíblia

1 A BÍBLIA E O INTÉRPRETE


... inspirada por Deus e (...) útil para ensinar a verdade (...) e ensinar a maneira certa de viver. (2Tm 3.16)

Um dos livros que, no Brasil, se manteve na lista dos dez mais vendidos em 2004 e 2005 é O código da Vinci, de Dan Brown. O livro conta uma história recheada de ação e suspense, mas ao mesmo tempo propaga algumas meias verdades e mentiras. Especialmente no que diz respeito à Bíblia. A certa altura, no meio da madrugada, a mocinha da história está conversando com um especialista inglês chamado Teabing. O diálogo é este:



Teabing pigarreou e declarou: - A Bíblia não chegou por fax do céu.

- Como disse?

- A Bíblia é um produto do homem, minha querida. Não de Deus. A Bíblia não caiu magicamente das nuvens. O homem a criou como relato histórico de uma época conturbada e ela se desenvolveu através de incontáveis traduções, acréscimos e revisões. A história jamais teve uma versão definitiva do livro.

- Oh, sim. (BROWN, 2004, pp.219-220)

Neste diálogo, boa parte do que se nega é negado com razão, e tudo que se afirma é, no mínimo, meia-verdade, para não dizer mentira. De fato, a Bíblia não chegou por fax do céu, ou, para usar uma analogia mais moderna, como anexo de um e-mail. Ela não caiu magicamente das nuvens. Ninguém encontrou a Bíblia empacotada num cofre enterrado numa ilha deserta. A própria Bíblia desmente esse tipo de idéia. O evangelista Lucas diz que fez pesquisa para escrever o seu Evangelho. Ele fala de "acurada investigação" (Lc 1.3). E o apóstolo Paulo diz: "Vejam as letras grandes que estou escrevendo com a minha própria mão" (Gl 6.11).

Agora, dizer que a Bíblia é um produto do homem, não de Deus, é uma meia-verdade. Uma coisa não exclui a outra. A Bíblia foi escrita por homens, sim, mas isto não significa que ela é menos palavra de Deus. Além disso, dizer que a Bíblia se desenvolveu através de incontáveis traduções e que jamais existiu uma versão definitiva do livro é simplesmente falso.

O termo "Bíblia"

"Bíblia" é uma palavra grega plural, que significa "livros", ou, para ser mais exato, "rolos". Em grego se pronuncia biblía, com acento no segundo i. Embora a palavra, nessa forma de plural, apareça três vezes no Novo Testamento (Jo 21.25; 2Tm 4.13; Ap 20.12), em momento algum se refere aos livros da própria Bíblia. Segundo consta, foi o teólogo cristão Orígenes quem, por volta de 250 d.C, pela primeira vez usou o termo "Bíblia" para designar os livros do Novo Testamento (NT). Depois, por volta do ano 800 d.C, o termo entrou no latim, para designar o conjunto dos livros sagrados. Do latim, passou a outras línguas, tanto assim que em inglês se diz Bible; em alemão, Bibel; em italiano, Bibbia, e assim por diante.

Embora, por vezes, o termo apareça em sentido figurado, para designar um livro de grande importância ou um livro que se consulta com freqüência, quando se diz Bíblia a maioria das pessoas sabe do que se está falando.

Palavra de Deus normativa

A Bíblia é um livro bem humano, escrita por pessoas, que usaram linguagem de gente, não de anjos. Mas ao mesmo tempo ela afirma - e assim a Igreja o confessa - que é a palavra de Deus, a palavra que Deus inspirou. Ela é, como se diz em certa língua indígena, "a fala de Deus no papel".

A própria Bíblia não explica como se deve entender a inspiração. Na segunda epístola de Pedro se diz que "homens falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo" (2Pe 1.21). O termo que foi traduzido por "movidos" pode também ser entendido como "guiados". Homens foram movidos ou guiados pelo Espírito. O Espírito guiou o quê? Os pensamentos? A escolha das palavras? A mão, ao escrever? A Bíblia não explica. Ela simplesmente diz ser inspirada pelo Espírito Santo (At 1.16; 2Tm 3.16; 2Pe 1.21).

Como palavra de Deus em linguagem humana, a Bíblia é a única norma de fé e de vida. A locução "única norma" expressa o sola Scriptura ("somente a Escritura") da Reforma. Como única norma de fé, a Bíblia diz o quê, ou, melhor, em quem se deve crer. Como norma de vida, ela, e só ela, diz que vida é agradável a Deus (2Tm 3.14-17).

João Ferreira A. de Almeida, o pastor protestante que, lá pela. metade do século XVII (1681), traduziu a maior parte da Bíblia para o português, disse o seguinte a respeito dela:

A Escritura Sagrada, por ser a Palavra de Deus divinamente inspirada, tem de Si mesma bastantíssima autoridade, e contém suficientissimamente em Si toda a doutrina necessária para o culto e serviço de Deus e nossa própria salvação, como mui claramente o ensina S. Paulo, nas sua 2 Epistola a Tim. cap. 3 verso 15,16,17 dizendo: Desde a tua meninice sabes as letras sagradas... (ALMEIDA, 1684, pp.37-38)

Livro a serviço da salvação

O objetivo da Bíblia não é contar histórias antigas ou satisfazer a curiosidade de seus leitores quanto a passado, presente ou futuro. Ela não é o livro que tem todas as respostas, ao menos não as respostas específicas a perguntas por vezes sem maior importância. Mas ela responde as grandes questões da vida e da morte.

A grande novidade da Bíblia também não está em seu ensino ético. A Bíblia quer mesmo é tornar-nos sábios para a salvação pela fé em Cristo Jesus, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra (2Tm 3.14-17). Com vistas a esse objetivo, Deus fala, basicamente, duas palavras: uma, de condenação (lei); outra, de absolvição (evangelho). As duas palavras estão a serviço do propósito de salvação. Em outras palavras, a lei está a serviço do evangelho (Cristo), que é o centro de toda a Escritura, como o próprio Cristo indica, em Lucas 24.

Mensagem clara, isto é, Deus fala para ser entendido

Muitos pensam, erroneamente, que apenas um seleto grupo de estudiosos é competente para interpretar a Bíblia. Alguns autores até criam a impressão ou, então, dizem abertamente: "A menos que você leia meu livro, não entenderá". Outros transformam a Bíblia num complicado quebra-cabeças, especialmente em questões relacionadas com o fim dos tempos. Claro, quanto mais complicado, mais se depende deles. Tudo isso ajuda a criar essa impressão de que interpretação bíblica é coisa esotérica, quando, na verdade, não é.

Ao ler a Bíblia, importa descobrir o sentido que melhor combina com aquilo que o escritor parece ter em vista. Importa buscar o sentido natural do texto, aquilo que qualquer pessoa de inteligência mediana extrai do texto, sem precisar de qualquer código ou chave interpretativa que supostamente apenas alguns têm. Até prova em contrário, o melhor sentido de uma passagem bíblica é o sentido literal1.

As famosas cruces interpretum ("cruzes dos intérpretes"), isto é, textos complexos como Gl 3.20 e 1Co 15.292, não anulam essa verdade fundamental. Na Bíblia existem passagens que requerem um estudo mais aprofundado, e algumas delas parece que relutam em "entregar" o seu sentido. Agora, o essencial está claro a todos os leitores. E o essencial é, acima de tudo, a mensagem da redenção.



Revelação progressiva

A Bíblia é feita de dois testamentos, o Antigo e o Novo. No entanto, do ponto de vista cristão, os dois não estão em pé de igualdade. Isto porque o Novo Testamento (NT) interpreta o Antigo. Na prática, isto quer dizer que o Antigo Testamento (AT), que constitui dois terços da Bíblia, é lido à luz do Novo.

Passagens como Is 7.14 e Is 53, que, vistas em seus contextos no AT, se afiguram tão enigmáticas, são interpretadas no NT. Tanto assim que não se precisa mais perguntar de quem estão falando. Também não se precisa fazer de conta que não se sabe a quem esses textos se referem.

A restauração de Israel, de que falavam os profetas, se cumpriu, não com a criação do Estado de Israel, em 1947, mas, como fica claro no NT, com a vinda do reino de Deus em Jesus Cristo (Gl 6.16; Fp 3.3; lPe2.9).

A perspectiva missionária que norteia a ação da Igreja é a que aparece no NT. Ela é basicamente centrífuga, isto é, implica um movimento de Jerusalém para o mundo, em contraposição à perspectiva do AT, que era basicamente, embora não de forma exclusiva, centrípeta, ou seja, esperava-se que as nações fossem a Jerusalém (Is 2.2-4; Is 60.4-9).

Este princípio se aplica também ao sábado e ao dízimo. Tudo aquilo que não foi reinstituído no NT, inclusive o sábado e o dízimo, foi abolido em Cristo.



Interpretação a partir da própria Bíblia

A Bíblia não se contradiz e interpreta a Si mesma. Ela tem uma unidade orgânica. Existe unidade na diversidade: muitas vozes, mas, em seu todo, um som harmônico.

A Bíblia também se explica sozinha. Ela é sua própria intérprete. Ela se interpreta de forma imediata ou direta, como, por exemplo, em Jo 2.19,21 e Jo 12.32,33. Ela também se explica de forma mediata, em paralelos, pela "analogia da fé", isto é, a soma das passagens bíblicas claras.

Interpretar a Bíblia pela própria Bíblia, à luz da própria Bíblia, é trabalhar com princípios hermenêuticos derivados da própria Bíblia. Por isso, importa estudar toda a Bíblia. A chave interpretativa do Antigo Testamento é o Novo Testamento. O segredo para se entender textos menos claros, textos com muitas figuras e símbolos, por exemplo, é recorrer aos textos que expressam tudo de forma clara e direta.



A importância do leitor comprometido

De uns tempos para cá, em teoria da literatura, passou-se a falar do leitor ideal ou leitor modelo. Este leitor encontra-se, por assim dizer, dentro do texto. Umberto Eco define o leitor modelo como "um conjunto de condições de êxito, textualmente estabelecidas, que devem ser satisfeitas para que um texto seja plenamente atualizado no seu conteúdo potencial" (ECO, 1986, p.45). Em outras palavras, o autor determina, no ato de escrever, quem estará em condições de ler o seu texto3.

Quem é o leitor modelo, no caso da Bíblia? Quem consegue satisfazer as condições de êxito que o autor, Deus, espera? No caso do AT, pessoas que conhecem a língua (originalmente o hebraico e o aramaico), que estão familiarizadas com a cultura e, acima de tudo, que são membros do povo de Deus. No caso do NT, pessoas que conhecem a língua (originalmente o idioma grego), a cultura judaica e greco-romana, a Escritura como um todo, e que abraçam a fé. Escritores bíblicos como Paulo, em Rm 1.7, e também Lucas, em Lc 1.4, para citar apenas dois exemplos, esperam um leitor cristão (2Co 3.15-16).

Isto significa que o leitor cristão não precisa pedir desculpas por ler a Bíblia sob uma perspectiva cristã. Por ser quem ele é, o cristão é a pessoa mais bem preparada para entender a mensagem da Bíblia. Afinal, a Bíblia foi escrita para ele.



O privilégio de ler

Ler e interpretar a Bíblia é, antes de tudo, um privilégio. Muitos gostam de enfatizar que se trata de uma obrigação, mas é, isto sim, um privilégio. Um privilégio em grande parte recente, pois, durante a maior parte da história da Igreja, a Bíblia só era conhecida a partir da leitura pública. A maioria das pessoas não tinha acesso ao texto impresso.

Ler a Bíblia também não é um pré-requisito absolutamente necessário para a salvação. Robert Hoyer disse: "Não espere uma bênção especial de Deus porque você lê a Bíblia. Ler a Bíblia não aumenta o amor de Deus por você, e deixar de fazê-lo não vai fazer com que Ele o ame menos" (1971, p.5). Não se lê a Bíblia para Deus, mas para Si mesmo, isto é, para proveito pessoal.

Iluminação e transpiração

É claro que o leitor da Bíblia pode contar com a iluminação do Espírito Santo (Jo 14.26; ICo 2.9-16; 2Co 3.13-16; Mt 11.25,26; Sl 119.18), que é revelador e iluminador. Disse Alan Cole: "Deus por vezes abençoa uma exegese mal feita de uma péssima tradução de um texto duvidoso de uma passagem obscura de um dos profetas menores" (STOTT, 1972, p.206). É verdade. Mas isso não autoriza o intérprete a ser displicente em sua leitura. Iluminação do Espírito não dispensa trabalho, nem está em conflito com transpiração, isto é, com esforço pessoal. Leitura e interpretação é trabalho árduo. A iluminação do Espírito se dá no ato de leitura, não antes dele nem em lugar dele.




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