Prólogo tempo 1



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A MÁQUINA


PRÓLOGO
Tempo 1: Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.
INSTRUMENTAL
CENA 1 - APRESENTAÇÃO

Tempo 2: Lá de onde Antônio vem é longe que só a gota. Longe que só a gota pra trás, que é muito mais longe que só a gota pros lados. Vir de longe pra trás é vir de longe no tempo, lonjura que, pra ficar dessímpossível, demora! Lá de onde Antônio vem, era tanta coisa acontecendo que nem sei se vai dar pra contar tudo. E lá o tempo passava diferente. Era uma coisa agora, depois já era outra e logo depois não era mais. O tempo de Antônio passava rápido demais.

Tempo 3: E por volta do ano 2000 é que começa a história do tempo de Antônio. Mas o tempo de Antônio começou há mais tempo que isso, há bilhões de anos atrás quando o mundo foi criado. Tudo era uma seca só!

Tempo 1: Não tinha terra, não tinha céu, não tinha bicho, não tinha gente, não tinha nada!!! Era só o breu. Aí Deus foi ficando meio enjoado e resolveu criar o mundo. Então ele saiu inventando. Primeiro inventou o tempo que era pra ter tempo de inventar o resto. Depois inventou o céu, que era pra ter onde morar, mas como o céu tinha que ficar em cima de alguma coisa, ele inventou a terra pra ficar embaixo. No começo a terra só servia pra isso. Pra ficar embaixo do céu e em cima do inferno. E Deus concluiu: “Agora que tem a terra tenho que inventar gente pra botar lá”. E foi aí que ele inventou a vida e já inventou a morte junto, pois tudo que é vivo, morre!

Tempo 4: Ai ele inventou o dia e inventou também que entre um dia e outro ia ter uma noite no meio e assim o tempo ia passar. Assim, sem planejar, inventou de uma só vez o passado, o presente e o futuro. Ai ele encheu o mundo de um povo que tinha nariz, tinha boca, tinha orelha, tinha olho e aquilo tudo tinha que ter uma serventia. Os olhos e o nariz já tinham a deles, pois os olhos serviam pra olhar o céu e o nariz pra respirar enquanto vivo e poder para de respirar pra morrer em paz. Mas carecia de inventar utilidade pra boca e pras orelhas. Foi ai que Deus inventou o verbo.

(Tempos):

Tempo 3: Verbo é como se chamam as palavras. E como pra cada palavra tinha que ter uma coisa, Ele teve que inventar um monte de coisa pra poder ficar uma coisa pra cada palavra.

Tempo 4: Desde o começo do mundo, muita coisa aconteceu. Mas o tempo de Antônio, chamado assim desse jeito, o tempo de Antonio começou mesmo quando Antônio veio ao mundo.
Música: Cristal
CENA 2 – O RETRATO

Nazareth: E o povo besta perguntava: vai ter um time de futebol é, D. Nazareth? Eu não. Nunca gostei do algarismo onze. É algarismo que se diz, né Taydênio? Algarismo, número ou o nome que tenha, eu sempre gostei foi do número 7, que é o número das maravilhas desse mundo. Tive logo 13 filhos, que foi logo pra desafiar a sorte. Povo besta! Treze filho, D. Nazareth? E tudo macho? Impossível!! É a tal da lei da probabilidade que diz, né Taydênio? Eu quero lá é saber desse negócio de lei? Eu só quero, S. Jaime, é deixar tudo bem registradinho aí no retrato, que é pra calar a boca desse povo besta. Treze filho, tudo vivinho!! Pode fazer as contas: Valdene, Marcos, Marcone, Gladstone, Taydênio, Eugênio, Waldemar, Alcemar, Ribamar, Itamar, Orismar, Zé Geraldo e Antônio. Eita... Vc se acalme, seu cabra! Que desse retrato eu faço questão de todo mundo feliz. Quero ninguém amuado porque tá doido pra pegar estrada, muito mesmo menino chorando desse jeito, Antônio. Eita! Fecha a boca Antônio. Quer berrar? Então berre, isso! Berre bem, muito! Isso, pode berrar! Vá, berre mesmo! Enquanto tu não parar de berrar não tem retrato nenhum. O Sr me perdoe viu, S Jaime, mas não vai ter condição, não. O sr me dê licença que não vai ter mais retrato. Vamos, todo mundo pro terreiro brincá, vam’bora que por causa de Antônio, o registro fotográfico vai ficar pra outro dia!

Taydênio: E eu, mãinha?

Nazareth: Tu só vai depois do retrato.

Taydênio: Mas a senhora não disse que não ia ter mais retrato?

Nazareth: Num vai ter retrato é com menino chorando, porque eu não quero retrato nem triste nem barulhento. Deixe de agonia e espere seu irmão resolver parar de chorar, aí tiramos o retrato, eu lhe dou sua benção, Deus lhe abençoe e depois vc segue seu caminho, né?

Taydênio: E eu vou perder a condução de amanhã? Vou esperar outra semana todinha? A próxima besta?

Nazareth: E como não?!

Taydênio: Vou passar mais sete dias nessa bixiga dessa Nordestina?
CENA 3 - NORDESTINA

Tempo 5: Nordestina era uma cidade desse tamaninho assim, da qual se dizia: “Eita lugarzinho sem futuro”. E é claro que ninguém ia pra lá. O que é que uma pessoa ia fazer num lugar que não tem nada pra fazer? Pois foi nessa Nordestina que Antônio nasceu, chorou pela primeira vez e seguiu chorando por cinco anos sem trégua e só parou depois que uma tempestade chegou até Nordestina, acabando com aquela seca sem fim.

Tempo 6: E se o tempo acabou com a choradeira de Antônio, mandando as gotas de chuva pra ocupar o lugar das suas lágrimas, pelo jeito tomou o menino por seu protegido. Antônio ouviu isso desde pequeno e deu por certo o fato de que ele era filho do tempo.

Passagem de tempo



CENA 4 – TAYDÊNIO E ANTÔNIO

Taydênio: Antônio, tá vendo ali onde começa a não se ver mais? Bem onde divide? Num parece uma linha?

Antônio: Parece sim... retinha, retinha!!

Taydênio: É linha do horizonte o nome dela... Mas o povo só chama ela de cruz.

Antônio: E o que é que tem lá do outro lado?

Taydênio: Não sei muito bem, mas na hora que eu cruzar essa que se diz linha, eu faço questão de conferir se tem mesmo uma risca no chão entre Nordestina e a cidade junto.

Antônio: Deixe de doidera!

Taydênio: Eita, doidera por quê? Mas o que eu quero conferir mesmo é como é, pra lá da risca, lá nesse tal de mundo, que é pra ver se ele merece tanta fama.

Antônio: E pra que isso? Aqui em Nordestina, não tá bom, não?

Taydênio: Pra mim, não. Eu tenho é sede da vida. E tu? Amanhã, depois que eu for, “o próximo que vai” vai ser tu?

Antônio: Quem sabe... se tiver precisão...

Taydênio: Tu não vai mesmo é nunca, que eu sei. Tu vai ser “o próximo que vai” a vida inteira e, no final, o que tu vai ser mesmo é “o que nunca foi”. Eu só não sei é o que é que tu vê nisso aqui. Vixe!
CENA 5 - PREFEITURA

Tempo 1: Antônio trabalhava na prefeitura da cidade, sendo pra folha de pagamento o funcionário número 19.

Tempo 2: Pro prefeito ele era o rapaz do café.

Prefeito: Eita Antônio, aonde é que anda esse café? Será que tu foi apanhar os grãos lá no porto de Recife, foi?

Tempo 2: Pro povo em geral era Antônio de D. Nazareth.

Habitante: Lá vai o trézimo filho de D. Nazareth. Aquele que serve café e é office boy na prefeitura.

Tempo 1: Pra D. Nazareth era o filho mais novo.

D. Nazareth: Eita que eu não sabia que o último filho era o que acabaria com a cabeça na lua.

Tempo 3: Mas ali em Nordestina, bem na rua de baixo, vivia uma moça que apertava os olhos pela metade quando olhava, por quem Antônio era perdidamente apaixonado.

Música:




CENA 6 – KARINA EM NORDESTINA

(com Jéssica)

Jéssica: Karina!!!!!

Karina: Que foi Jéssica?

Jéssica: Dona Prazeres está doidinha te esperando. Todo mundo já provou a fantasia e já escolheu a máscara pro baile.

Karina: Todo mundo é Jéssica? Tu mais as meninas lá da rua? Isso lá é todo mundo? O mesmo povinho de sempre? O ano passado eu só fiz foi ter é raiva.

Jéssica: Mas esse ano vem até gente de fora.

Karina: Gente de fora, Jéssica? Em festa de mascarado, aqui em Nordestina? Só se esse “de fora” fosse pior do que esse aqui de dentro.

Jéssica: Mas Dona Prazeres mandou dizer que tua fantasia já ta quase bem adiantada e que ela não aceita nem devolução e nem desistência.

Karina: E quem foi que mandou ela quase bem adiantar minha fantasia se eu num fiz essa encomenda pra ela?

Jéssica: Isso ela não disse, não.

(com D. Prazeres)

Prazeres: Que tanta gente é aquela na frente da igreja?

Karina: Hoje é dia de besta.

Prazeres: Se hoje é dia de besta, hoje é segunda.

Karina: Se hoje é segunda, amanhã é terça.

Prazeres: Não foi numa terça que D. Ernestina partiu?

Karina: Deve ter sido numa segunda que é dia de besta.

Prazeres: D. Ernestina tinha mania de chamar “vrido” de frasco.

Karina: Hoje é dia de besta.

Jéssica: Se hoje é dia de besta, hoje é segunda.

Karina: Hoje é só mais um dia.
CENA 7 – KARINA E O PAI

Karina: Benção, pai.

Pai: Lá vai mais uma ruma de iludido. Nunca vi um povo com tanta capacidade pra ser burro. É tudo metido a cavalo de cão, levando fé que vai ser isso, que vai ser aquilo. Vai acabar sendo somente mais um desaventurado no meio do mundo. Que nem aquela tua mãe. Aquela triste. Esquece a família. Esquece os conterrâneo, esquece até os filhos. E sabe como é o nome disso. É malagradecimento o nome disso. E como é que essa cidade pode ir pra frente, me diga mesmo, se o povo só faz é deixar ela pra trás.

Karina: Pai, o povo vai embora porque aqui não tem recurso.

Pai: Ôxe, e por que não mandam os recursos pra cá?

Karina: Pra que mandar recurso pra cá se o povo tá todo indo embora?

Pai: Pro povo ficar aqui!

Karina: Mas se aqui não tem recurso.

Pai: D. Karina, D. Karina. A senhora tome cuidado com seus pensamentos!

Cena Karina/ Motorista da besta



Chegada do motorista da Besta. Grupo de migrantes para entrar na besta com malas na mão – Hab 1, 2, 3 e 4.
Narradores: Se palavra gastasse duvido que tivesse sobrado algum “adeus” em Nordestina, haja vista a freqüência que se usava, naquele tempo, essa palavra. Era tanta gente indo embora que o povo até se acostumou com os vazios que ficavam. Algumas partidas eram anunciadas com antecedência devido à quantidade de providências a serem tomadas. As notícias se espalhavam de várias formas:

Hab1- Vende-se mesa de fórmica com 4 cadeiras, sofá 2 lugares, cama de casal, berço, fogão e geladeira. Ótimo estado. Tratar com Lurdinha no cartório.

Hab2- Vendo urgente casa perto da bica. Quarto, sala, quintal e banheiro dentro. Pechincha. Rua da travessa, 38.

Hab3- Vendo fiteiro ótimo ponto, lucro excelente.Tratar nos fundos da prefeitura com Marconi.

Hab4- Por motivo de viagem vendo gado bom danado. Dois bois, três vacas, um garrote e de brinde 3 galinhas boas pra canja.
Karina se aproxima procurando pelo motorista que se esconde.

Motorista: (dando um susto) Oi!!

Karina: Vixê!!! (pega um embrulho) Quanto foi?

Motorista: Fica de presente.

Karina: (devolvendo) Assim eu não quero.

Motorista: Dezenove e noventa e nove.



Karina pega embrulho e dá dinheiro.

Motorista: Mas eu não tenho troco.

Karina: Fica de presente.

Motorista: O único presente que eu quero somente é ter a honra de transportar pro mundo esses teus olhinho de Oceano Atlântico. Já decidiu quando é?

Karina: No dia que for eu compro meu bilhete e vou por mim mesma! Não preciso lhe comunicar com antecedência.

Motorista: Daqui até tu ser maior de idade e viajar sozinha é tanta antecedência que me dá até enjôo só de supor.

Karina: Faltam só cento e quarenta e sete dias pra eu completar dezoito anos.

Motorista: Num instante passa!

Karina: Num instante não, mas passa!

Motorista: Mas tu tem pressa. Que eu sei do teu sonho... De ser artista... Artista de novela.

Karina: Quem foi que te disse?

Motorista: Você até fica ensaiando pra fazer teste pra novela. Mas se tu quiser eu posso te levar pro mundo logo. É só querer.Eu te garanto que teu pai num vai ficar sabendo de nada, muito pelo contrário. Quando seu Neco der fé tu vai tá é longe.

Karina: Tu vai fazer uma mágica pra eu ficar invisível é?

Motorista: O jeito que eu vou dar penso eu, mas agora pra correr o risco, aí eu quero que tu seja minha (vai beija-la. Karina sai).

Karina: Mas é nada!!

Motorista: Oh, Karina, diz que vai sim. Olha, eu sei um jeito de levar você escondida pro mundo. Já ta tudo pensado aqui na minha inteligência. (vai beija-la de novo e Karina sai correndo)
Narradores: As ruas de Nordestina andavam necessitadas de sonhos. O que se sentia era o cheiro de guardado das coisas que tinham ficado sem dono. O tempo andava espaçoso por não ter quem lhe interrompesse em momento importante. Mas o tempo de Karina passava ligeiro quando ela mais Antônio ficavam criando suas histórias de ficção. Histórias de ficção? Isso mesmo e era pra criar tais histórias que Karina e Antônio se encontravam todo final de tarde.
Cena Antônio/ Karina – Beijo de ficção (trilha)
Karina: Quem é você?

Antônio: Eu sou aquilo tudo que vc quiser que eu seja, e tudo aquilo que vc deseja, é só desejar que eu faço.

Karina: Então era vc que eu pedi nos meus pedidos, noite e dia?

Antônio: Se não me reconhece então peça a prova.

Karina: Qualquer coisa?

Antônio: Qualquer uma.

Karina: Eu quero que vc tire a escuridão da noite.

Antônio: Mas se a noite não é outra coisa se não o dia quando escurece como é que eu vou tirara somente a escuridão e deixar o dia?

Karina: Se eu soubesse como era eu não pedia. Eu mesma ia lá e tirava.

Antônio: Então eu vou ter que inventar toda noite uma estrela nova até que fique uma tão perto da outra, mas tão perto que ninguém possa enxergar escuridão nenhuma entre elas.

Beijam-se. Karina vai estranhando.

Karina: Antônio. Tu tava me beijando de verdade, é Antônio? Eu já te expliquei mil vezes. Tu não entendeste não? O que é um beijo de ficção. Entendeste não?

Antônio: Beijo de ficção. Sei demais! Um personagem que não sou eu vai usar a minha boca pra beijar um personagem que usa sua boca, mas não é vc. Eu tenho que sentir o personagem aqui dentro, sentir o amor dele, ter vontade por ele, mas na horinha mesmo tenho que deixar de ser ele e voltar a ser eu pra lembrar que esse é um beijo de ficção e quem está beijando não sou eu, mas é ele. Entender eu entendi. Eu só não acho justo, pois o único beneficiado nessa história é o tal do personagem.

Karina: Beneficiado?

Antônio: Hum, hum!

Karina: Beneficiado!!!! Antônio, tu ta querendo se beneficiar de mim?

Antônio: Não, não...

Karina: É pra isso que a gente ensaia todo dia?

Antônio: Não, não...

Karina: Pra tu se beneficiar de mim.

Antônio: Não...

Karina: Antônio, tu não tem vergonha não?

Antônio: NÃO!! Quer dizer tenho. Quer dizer... É o quê??

Karina: Falta de mentalidade. Sabia que tu nunca vai sair daqui.

Antônio: E quem te disse que eu quero sair daqui? Eu não quero sair daqui. Por que é que eu ia quere sair daqui?



Karina: Por que aqui não tem nada. Nordestina não tem nem o nome no mapa. Não tem nem pepsi twist light, não tem nem mar.

Antônio: Grande coisa mar... Não sei o que é que esse povo tanto tem com mar.

Karina: Tu nunca nem viste pra dizer.

Antônio: Nem nunca vou ver.

Karina: Eu vou. E nem tá longe esse dia e eu nem vou de visita, não. Eu vou ser lá do mundo como se eu fosse de lá. Tu vai ver se eu não vou?

Antônio: Vai não, Karina. Tu é a cara desse lugar. Por tu até que tu ia sim, mas tu sabe o que é que esse lugar fazia. Ia atrás de tu. Por mais que tu andasse, por mais que tu corresse, por mais que tu voasse, por mais que tu dissesse _ “Fica aí Nordestina, me esquece” e Nordestina ia atrás de tu: Karinaaaaa!! Karinaaaa!!!!

Karina: Não sabe nem representar uma cena e já que inventar até os efeitos...(sai)

Narrador: Antônio fazia de Karina cinema pros olhos dele... Com direito a reprise

Karina: Não sabe nem representar uma cena e já que inventar até os efeitos...(sai)

Narrador: Tá certo que ele era filho do tempo, mas tinha vez que Antônio abusava do parentesco.

Karina: Não sabe nem representar uma cena e já que inventar até os efeitos...(sai)

Narrador: Karina fazia de Antônio o rapaz que dava um pulo em sua casa depois do trabalho.

Narrador: O trabalho de Antônio parecia que dava muito trabalho e quase nunca dava dinheiro. Mas ele não desanimava e no fim do expediente já tinha compromisso certo.
Na casa de Karina

Antônio: Cheguei cedo pro treino, Karina?

Karina: Não é treino, Antônio, é ensaio!

Narrador: Uma hora de trabalho tinha vezes que durava séculos, mas não durava eternamente, graças a Nossa Senhora e lá ia ele pra casa de Karina

Antônio: Cheguei cedo pro treino, Karina?

Karina: Não é treino, Antônio, é ensaio!

Narradores: Bom sempre que acabava o trabalho ia pra casa de Karina e não sendo pessoa importante nunca se atrasava.

Antônio: Cheguei cedo pro treino, Karina?

Karina: Não é treino, Antônio, é ensaio!
Cena Narradores: Naquele tempo toda moça queria ser bonita e toda moça bonita queria ser artista de televisão. Televisão era um negócio que ficava passando umas historinhas pro povo ficar vendo. De vez em quando eles interrompiam as historinhas e entrava uns anúncios pra vender mercadoria. Assim como (entra comercial) produto pra cabelo. A finalidade era encontrar quem quisesse comprar o que foi anunciado porque com parte do dinheiro da venda do produto era usada pra pagar pra passar os tais anúncios e com parte do dinheiro dos anúncios pagava-se a feição das tais historinhas. Mas eles faziam umas historinhas tão bem feitas que quem olhasse assim pensava que a finalidade de tudo eram as historinhas. Karina era o nome da personagem da historinha que passava quando Karina nasceu. Enquanto a Karina da novela chorava as dores de um amor perdido, a mãe de Karina de verdade chorava as dores do parto. Foi então que entre um “estamos apresentando” e um “ voltamos a apresentar” a Karina de verdade foi e nasceu e cresceu sonhando em ser tornar a Karina de uma daquelas historinhas que passavam na televisão. Quando as historinhas eram em formato de música era dado o nome de Clip. Clip era um filmezinho que a gente via mas não precisava entender.
Cena Clip – música – Antônio vê Karina assistir ao clip apaixonado. Mas aparece o motorista da besta e dança com ela... Antônio aparece. Motorista vai embora.
Karina: Antônio!!! Ai que susto!!

Antônio: O que é que ele queria?

Karina: Não é da sua conta.

Antônio: Ah, e não é não?!

Karina: E tu é alguma coisa minha por acaso?

Antônio fica calado e Karina vai embora.
Narradores: Por acaso Antônio não era coisa alguma de Karina. Nem amigo era pra servir de confidente. Mas isso também Antônio não queria. Se não fosse pra ser logo o amor de Karina mil vezes não ser mesmo nada dela. A noite se espichou até onde deu pra se espichar, mas uma hora a manhã cansou de esperar e se apresentou, e Antônio não teve outra alternativa se não inaugurar o dia muito embora não tivesse a mínima idéia do que fazer com o mesmo devido ao estado de agonia em que se encontrava. Antônio nem chegou a deitar e já pulou da cama com um pressentimento. Era como se estivesse para nascer uma maneira de convencer Karina daquilo que não tinha nome, não tinha forma, não tinha jeito, não tinha espaço. Resolveu ir até a casa de Karina. Seu coração disse pra sua cabeça “Vá!” E sua cabeça disse pra sua coragem ”Vou!!”.
Antônio vai até a casa de Karina.

Antônio: Cheguei cedo pro treino, Karina?

Karina: Hoje não vai ter treino não, Antônio. Nem treino e nem ensaio.

Antônio: Ôxente, por causa de quê?

Karina: Por nada.

Antônio: Nada e o que mais?

Karina: Mais que eu tenho mais o que fazer do que ficar aqui parada olhando pra tua cara de leso

Antônio: E depois?

Karina: Que depois?

Antônio: Depois do que tu fizer o que tem pra fazer além de ficar aqui olhando pra essa minha car de leso.

Karina: Se eu fosse tu eu não esperava não

Antônio: Eu não vou esperar mesmo não, Karina. Sabe por quê? Por que esse tal amor que o personagem finge que sente, amor do tipo que tem até paciência pra esperar entre um anúncio prá somente no “voltamos a apresentar” concluir o que tinha fingido que tinha começado, esse tal amor é somente amor de ficção Karina e é muito diferente desse negócio aqui que eu sinto, esse negócio de doido que eu não encontro nome entre todas as palavras existentes e que não tem som e nem letra escrita que explique como ele é exagerado!!.

Karina: Onde foi que tu leu isso??

Antônio: Eu não li e nem decorei e nem sei repeti de novo porque sentimento sentido de verdade não carece ser firmado em papel, romance e nem filme de cinema, pois não é da conta de mais ninguém a não ser da pessoa que sente além da outra responsável pelo afeto causado. A conversa aqui é somente entre tu e eu e eu e tu, Karina. Finge somente uma vez que tu é tu, que é pra ver se tu descobre o que tu sente. Porque esse beijo que eu vou te dar agora, esse vai ser meu de verdade!!

Beijam-se longamente. Cena de Sexo



Narradores: Os nomes de Antônio e Karina passaram a só andar juntos na boca do povo.

Habitante: Lá vem Karina e Antônio!!

Habitante: Lá vão eles!!

Os dois não se afastavam nem nas frases, nem nos cantos e nem nos pensamentos. Seus olhos também não se afastavam nunca, nem os dele dos dela e nem os dela dos dele. E nem suas bocas e suas mãos. Os pedaços de um foram descobrindo os pedaços do outro até que cada pedaço de um conhecia o outro por inteiro. Antônio e Karina desconheciam até aquele momento esse negócio que dá dentro do peito da pessoa, algo que só tem vantagem, uma atrás da outra, e bastam apenas dois para senti-lo e nada mais. Pode existir coisa melhor na vida???


Antônio: Eu tava aqui pensando o que é que se diz nessa hora.

Karina: Se eu soubesse, eu dizia.

Antônio: Eu acho que é palavra de amor.

Karina: Então diga.

Antônio: Vixe, e precisa? Tú sempre não soubesse desde menina que eu era louco por tú e não dizia?

Karina: Então diga.

Antônio: Já disse. Agora é tua vez de dizer palavra de amor. Ou outra palavra qualquer pra eu saber o que tu pensa.

Karina: Felicidade.

Antônio: De verdade?

Karina: Verdadeira.

Antônio: Então agora só falta marcar a data.

Karina: Data?

Antônio: Do casamento. Eu vou casar mais tú Karina. Na cidade mais perto onde tiver padre. Hoje mesmo eu vou falar com teu pai pra fazer o pedido. (ela vai ficando desapontada) Ai eu vou arrumar um emprego bom. Coisa importante assim como cartório, pra modo de ter muito dinheiro no banco, até talão de cheque.

Karina: (triste) Antônio, pode se virar pra lá pra eu me vestir?

Antônio: Tu vai possuir de tudo que uma mulher possa querer Karina. É pulseira, é vestido, é celular, é Karaokê, uma ruma de filho, uma casa de esquina, bem grande que é pra mode caber muita mesa e cadeira nas festas de aniversário dos meninos. Posso virar Karina? Posso Karina? Oia, eu vou virar! (Se vira e Karina não está mais lá. Antônio sai desapontado).

Cena Baile de máscaras


Antônio procura Karina entre os mascarados.

Cena Antônio/Costureira sobre a máscara de Karina


Antônio: Preciso saber como é a máscara de Karina, se não, não vou conseguir encontra-la no meio desse povo todo.

Prazeres: Máscara é negócio particular Antônio. Igual a segredo sagrado de confessionário.

Antônio: Mas Prazeres eu só quero ver o desenho da máscara dela.

Prazeres: Impossível, pois o rapaz da besta já esteve aqui e levou o tal desenho.

Antônio: Vixe, e não era segredo sagrado?

Prazeres: Nesse caso é diferente, pois só entreguei o modelo a ele com a devida autorização de Karina. Caso contrário eu não era doída.

Antônio: E quem foi esse?

Prazeres: Prometi não dizer o nome dele não... Mas não prometi nunca mais olhar pra ele, não. (olha o motorista da besta que tem o papel na mão)

Antônio beija Prazeres no rosto como agradecimento.

Antônio mascarado vai e rouba o desenho da máscara de Karina, encontra com ela e a leva pra fora do baile.


Cena Antônio – ainda mascarado e Karina.
Karina: Antes de irmos pra mundo eu preciso lhe avisar uma coisa. Se tu quiser correr o risco de me levar pro mundo de besta, eu lhe agradeço, mas ser tua vai ser impossível, pois agora eu já sou de outro. Entendeu o motivo.

Antônio tira a máscara e se revela.


Karina: Antônio?? Como tu pode??!! (irritada) Quem tu pensa que é, heim, Antônio?

Antônio: Antônio.

Karina: Mas não devia. Era com Zé Onório, motorista da besta, que eu tava falando.

Antônio: Mas não era.

Karina: Tu se acha capacitado pra me levar pro mundo? Tu não se enxerga não? Tu não se acha pequeno demais pra abraçar uma causa dessa?

Antônio: Eu não tinha plano de te levar pro mundo. Por que é que eu ia abraçar causa de te levar pro mundo? Logo eu que nasci pra viver aqui. Justamente agora que tu ta gostando de me querer e vai gostar de viver aqui comigo.

Karina: Eu to gostando de te querer sim. Eu to gostando como nunca pensei em querer gostar de um amor. Mas viver aqui, isso eu não quero não Antônio.E a vida lá fora?

Antônio: Desse jeito Karina, eu estou me sentindo um pouco desprezado.

Karina: Desprezo é quando o valor da pessoa escapa do nosso pensamento por conta própria Antônio. Eu tô tangendo da minha cabeça a tua presença pra facilitar o cabimento de outras coisas.

Narrador: Ela então se botou a maldizer o mundo, usando uma palavra mais difícil que a outra. (Karina esbraveja) Ninguém nunca imaginou que ela tivesse tamanha sabedoria da língua portuguesa.
Karina: É claro que eu não ia querer ir embora se eu pudesse mandar no meu querer. Se fosse possível desenhar o mapa do mundo todinho de novo, se eu pudesse inventar outra geografia, outra economia, outra sociologia, outra filosofia. Mas se eu não quiser ser pra sempre um arremedo de gente, gastando meus arremedo de dias numa vida arremedada, eu tenho que ir me embora, pois a vera, a vera mesmo, é somente lá no mundo que tudo acontece de verdade.

Antônio: É o mundo que vc quer? Pois então eu trago ele pra vc!!

Karina: Deixe de doidice, pois o mundo não é coisa que se leve e nem se traga.

Antônio: Ou a pessoa quer o mundo ou então ela não quer Karina. E tu é do tipo de pessoa que quer então eu vou buscá-lo e vou traze-lo que isso não é serviço pra moça da tua idade..

Karina: Antônio. O que é que tu vai fazer?

Antônio: No caminho eu penso.

Antônio sai.


Narradores: Antes de partir pro próximo capítulo Antônio ainda teve o capricho de protagonizar uma última passagem.

Antônio: Tu tá é duvidando de mim, é Nordestina?

(sugestão: algum ator/atriz pode personificar a placa)



Narradores: E Nordestina bem que deve ter duvidado mesmo, mas não respondeu foi nada. Pois as cidades, por menores que fossem não serviam pra responder nada a seu ninguém muito menos pra duvidar de coisa nenhuma. A serventia das cidades era somente de ser o lugar onde seus habitantes habitavam.

Antônio: Triste da cidade que não consegue dar conta de sua única finalidade.

Antônio vai embora.


Narradores: Antônio tinha certeza que ia cumprir sua promessa, primeiro porque era homem de palavra, segundo porque era homem de atitude, terceiro porque era homem suficiente para atender a todo e qualquer desejo de Karina. Ora, se tinha prometido trazer o mundo pra ela, a primeira coisa que tinha que fazer era ir lá busca-lo. Buscar é uma coisa, trazer era outra, mas isso é só um detalhe. No caminho de ida foi pensando no da volta. Pra convencer o mundo todo a seguí-lo primeiro tinha que achar um jeito de todo mundo olhar pra ele. Eita finalidade difícil essa!! Pra que é que o mundo ia olhar pra um cabra feito Antônio???

Honesto, mas sem a menor importância.

Decente, mas sem a menor distinção.

Um cabra que não tinha nem paletó apesar de valente.

Inteligente, mas nem finalizou o grupo escolar.

Só se ele arrumasse um lugar só, pra onde todas as pessoas olhassem na mesma hora e ficasse parado. Quer dizer, parado não, que ninguém quer saber de ver ninguém parado. Fazendo a coisa mais descabida que alguém jamais pensou em fazer na vista desse povo. Mas o quê??

Antônio tinha habilidade pra tanta coisa que ficava difícil escolher uma só:

Ninguém assobiava e chupava cana ao mesmo tempo, melhor do que ele. Mas isso é coisa besta.

Podia decorar qualquer número desde que não ultrapassasse os 28.730 algarismos e depois era capaz de repeti-lo inteiro na ordem que fosse encomendada, na língua escolhida. Só não em francês porque era muito trabalhoso. Mas isso era coisa fraca.

Podia visitar o passado e o futuro, se quisesse, já que era amigo do tempo e só não tinha visitado, ainda, por não ter julgado oportuno. Mas isso era coisa sem utilidade.

E foi pensando no caminho qual seria a melhor maneira de atrair a atenção do povo.

Cena Rio de Janeiro – praia - Imagens



Narradores: Chegando no mundo Antônio ficou encantando com tamanha maravilha e, ainda abestado com tudo que viu, quando aportou desembestou a escreveu uma carta pra sua amada Karina.
Karina(s) lendo e as vozes dos Antônios: (imagens do Rio)
Antônio (lendo):

Minha muito amada Karina,


Espero que esta lhe encontre gozando de muita saúde, assim como seu pai, minha mãe e todos os meus.

Nem bem cheguei por aqui e já deu pra reparar que as diferenças daí são muitas, porém são muitas também as parecenças.

O mundo aqui tem um nome muito do engraçado. Chama-se Rio de Janeiro apesar de o nome ficar valendo também para os outros meses do ano. Esse tal Rio é tão amostrado que parece até que a gente tá na Europa, de tanto canto lindo que aparece. Por outro lado, tem hora que dá pra jurar que aqui é aí, tamanha a desgraceira. No meio da cidade tem uma lagoa enorme que por fora é uma beleza, mas é estragada por dentro.

Você não ia acreditar era nos túneis – que é um tipo de atalho aberto dentro das pedras – nem sei mais quantos são ao todo devido ao fato de aqui ter muita pedra. O Cristo Redentor, quando ele ascende lá em cima, é todo o Cristo Redentor, exatamente como aparece na televisão. Já o Pão de Açúcar, esse de fato são dois – um pequeno e outro grande.

O céu aqui fica muito mais perto do chão do que aí. É só olha pro topo dos prédios e ele está logo ali, em cima, parado. Nunca podia imaginar que esse tal mundo, chamado Rio de Janeiro, fosse tão grande.

Assim que encontrar um jeito de levar esse mundão daqui de presente pra ti, retorno da maneira muito rápida pros teus braços.

Dê lembranças minhas a todos. Muitos beijos de amor do sempre seu – Antônio.
Narradores: Assim que terminou de escrever a carta Antônio foi direto ao shopping na intenção de melhorar a aparência. Shopping é um edifício onde moram compras ao invés de gente. Tentou decorar na cabeça cada novidade que via pra contar depois, quando voltasse pra Nordestina, mas era tanta da coisa que nossa senhora!!! Admirou-se muito com a quantidade de ser humano e com a falta de cachorro vira-lata. Viu gente que sabia fazer calçada virar casa, ferida virar dinheiro, montanha virar cidade, lixo virar banquete. E começou a desconfiar que esse tal mundo que ele queria dar de presente a Karina tava assim meio... desarrumado.
Cena Antônio passeia pelo shopping-center cheio de compras.
Antônio observa luzinhas de Natal e comenta com um homem ao seu lado que está de óculos escuros
Antônio: Elas devem ter é treinado é muito pra uma ascender justamente no momento em que a outra apaga...As lusinhas!! Elas deve é ter treinado é muito.

Taydênio: E de onde é que tu é, paraíba?

Antônio: Paraíba não é nome de pessoa. É nome de lugar!!

Taydênio: Espera. De que lugar tu vem?

Antônio: Eu venho de Nordestina, que nem na Paraíba fica. Meu nome é Antônio. Antônio de D. Nazareth

Taydênio: E o meu é Taydênio. De D. Nazareth. (tira os óculos)

Antônio: Não posso acreditar!!!

Taydênio: Pois sou eu mesmo!!!

Antônio e Taydênio se abraçam


Taydênio: Tu já viste o mar??

Antônio: Já. E te digo que não achei grande coisa não. Por bem dizer achei até menor do que tinha imaginado.

Taydênio: E tu veio pro mundo fazer o que?

Antônio: Coisa de importância capital!!

Taydênio: Mas o que é que pode ser tão importante assim??

Antônio: Eu vim foi buscar o mundo pra levar pra minha garota.

Taydênio: Levar o mundo?

Antônio: Num é?! De presente!!!

Taydênio: Oh, Antônio, tu não acha que o mundo assim do jeito que ele está, todo troncho, não é um presente meio desaprumado, não?

Antônio: Realmente o mundo tá precisando de um reparo.

Taydênio: Mas aí o negócio complica. Por que uma coisa é vc mudar o mundo de lugar. Outra coisa é vc mudar o mundo completamente.

Antônio: Realmente é mais complexo.

Taydênio: Isso é!!

Antônio: Mas é mais divertido!!

Taydênio: Isso também é!!!

Saem rindo.



Cena Antônio e Irmão vão a televisão



Antônio: Oh, Taydênio, tu tem certeza que esse caminho aqui vai dar na televisão?

Taydênio: Todo caminho, tudo nesse mundo vai dar na televisão.

Antônio: E tu tem certeza que indo na televisão eu vou consegui arrumar um meio pra levar o mundo pra Karina?

Taydênio: Mas é claro Antônio. Na televisão você pode ficar famoso sem fazer muito esforço e depois que todo mundo ficar te conhecendo você pode falar o que quiser, inclusive achar um meio arretado de bom de transportar o mundo lá pra Nordestina.

Antônio: Essa televisão é poderosa mesmo?!

Taydênio: Ela pode até derrubar um presidente da república!!!

Antônio: Vixe Maria! Então é pra lá mesmo que a gente vai.

Cena Antônio no programa de televisão

Para participar do programa uma fila de candidatos: (improvisar)

Mulher 853 da fila tem oito ovos no bucho, com casca.

As moças 1.115 e 1.116 se estranham disputando o mesmo marido



O rapaz 510 desengolia relógios que nunca tinha engolido, todos marcando a hora exata.
Apresentador: Ele veio da pequena cidade de Nordestina, interior da Paraíba.

Antônio: Paraíba não. Pernambuco.

Apresentador: E diz que viaja no tempo. Eu vou conversar aqui com o jovem Antônio. Tudo bem, Antônio?

Antônio: Positivo.

Apresentador: Tá nervoso?

Antônio: Positivo

Apresentador: O caro telespectador quer novidades, Antônio. Vc preparou algum número que seja completamente diferente de tudo que se viu até hoje?

Antônio: Bote diferente nisso!!

Apresentador: Estamos ao vivo Antônio e vc tem um minuto pra conquistar a audiência. O Brasil é seu, Antônio. TEMPO!

Antônio: Eu, Antônio de D. Nazareth, dou minha palavra que vou pra outro tempo, mas precisamente o futuro, com a finalidade de verificar o prazo de validade desse mundo, que eu vou dar de presente a Karina.

Apresentador: Mas vc vai pro futuro agora, ao vivo?

Antônio: Negativo, partirei de hoje há 8 dias, saindo do meio da praça de Nordestina em direção a futuramente e só assim então sumirei, então, completamente sumido na frente de todos que estiverem lá.

Apresentador: Parece que o caro telespectador não sentiu firmeza nas suas palavras.

Antônio: Vai que na hora H, tudo certo, todo mundo em casa esperando pra ver e o negócio dá errado. O caro telespectador, como é que fica?

Antônio: Se a minha palavra é garantia pouca eu ofereço então a minha vida ao caro telespectador, pois se eu não cumprir minha promessa e não sumir coisa nenhuma, acontece o que???

Apresentador: Acontece o que??

Antônio: Acontece que aí, nesse caso, não me interessa mais viver e ai dou minha palavra que eu morro...

Apresentador: Morre?

Antônio: Ali na horinha mesmo que ia ser a hora do meu sumiço...

Apresentador: Na hora do sumiço, ele é bom...

Antônio: Mas eu não vou morrer só assim, morri e pronto, não!!

Apresentador: Não vai ser assim...

Antônio: E a minha há de ser morte importante

Apresentador: Não é qualquer morte não.

Antônio: Morte cheia de aparato, morte de encher a vista dos homens e de fazer querer tapar a vista das mulheres, deixando só um buraquinho entre os dedos...

Apresentador: Morte de encher a vista dos homens e de tapar a vista das mulheres!!

Antônio: No início da contagem regressiva vai ser disparada em direção a minha pessoa uma máquina munida de 700 lâminas giratórias, cada qual mais afiada que a lâmina do seu Neco barbeiro e se eu não sumir da frente dela ela vai talhar o meu peito e esgarçar ele todinho e depois esgarçar mais um pouquinho até ficar aparecendo tudinho lá dentro, os sentimentos sentindo, as veias se abrindo, o sangue correndo e vai destampar meu estômago para desaninhar as minhas tripas, uma por uma, como se fosse um novelo. E vai desemparelhar um pulmão do outro, separando assim que é pra mostrar o que tem no meio, e então vai arrancar o meu coração e joga-lo pra platéia, todo salpicado de sangue e ai sim eu vou morrendo aos pouquinhos, sofrendo, até morrer da morte mais linda que alguém já morreu nessa vida. Eu vou morrer é de amor, no meio do sertão, nos braços da seca, com a quentura fervilhando as idéias, enquanto houver idéias, a vida desistindo de viver, indo embora, a vista turvando, o juízo evaporando, até o finalzinho, naquela hora em que a pessoa pensa com ela mesma, eita, e agora, heim? E ai então não pensa mais nada... E acabou-se!!

AGORA EU GOSTARIA DE UMA PEPSI TWIST LIGHT!!



Cena repórteres estrangeiros e brasileiros recebem Antônio na volta da Nordestina



Americano: We just arrived at Nordestina on the northeast of Brazil to show you the brave act of this young man Antônio, who in the name of love intends to travel to the future, in front of a camera, to the whole world.

Antônio chega do mundo.



Americano: Antônio. I’m ... from CNN. Please Antônio. Talk to me please!!! Just a second… Please!! Por favore!!! Antônio habla comigo, per favore!!!
Antônio entra em casa segurando um globo e encontra Karina.
Antônio: Tu tinha razão. Não tem Nordestina no mapa do mundo, não. Ainda. Mas um dia tu ainda vai ver em qual quer globo terrestre decente, vais constar, letra por letra, N O R D E S T I N A!!!

Karina: Esquece o mundo Antônio. Não faça isso não. Essa doidice.Faça não.

Antônio: Pra que tanta agonia menina?! Calma eu só vou até o futuro e volto logo.

Karina: Tu se fia demasiadamente na minha ignorância. Tu acha que eu penso que o futuro é logo ali, em Caruaru?

Antônio: Eu só vou andar 50 anos pra frente, somente meio século, nem um dia a mais nem um dia a menos, eu prometo. Eu só vou multiplicar minha idade por 2 e depois eu só desmultiplico e pronto. Assunto resolvido.

Habitantes da cidade



H1: Eles vão transmitir a morte de Antônio, ao vivo??

H2: Ele vai é pro futuro!

H1: Mas ele não vai morrer então?

H2: Se ele vai pro futuro, ele não morre. Desaparece e a máquina passa direto.

H1: o que ele vai fazer, exatamente na hora, isso eu não sei, mas o que eu sei é que vai transmitir ao vivo, direto pro mundo todo!!
H4: Esse tal Antônio não é aquele filho de D. Nazareth que serve café e é ffice boy na prefeitura??

H5: Isso mesmo, o de número 19 na folha de pagamento.

H4: Diz que depois que ficou famoso foi até chamado pra apresentar programa de televisão.

H5: E vc não sabe da maior. Diz que a bandeja que ele servia café vai a leilão!!

H4: Eu ouvi dizer que ele vai virar enredo de escola de samba

H5: Vixe que esse mundo tá é virado mesmo!!!
Apresentador de Merchandising: Concorra a mais um eletrizante prêmio da nossa promoção “A luta do amor contra a máquina” respondendo a pergunta: Vc acha que Antônio vai morrer?? Marque em nosso cupom com um X no lugar do sim ou do não e concorra a uma noite de amor no Motel Centauro.
Prefeito (em tom de discurso): Primeiramente vim aqui declarar que Antônio, de D. Nazareth é um rapaz honesto, trabalhador e caso ele seja realmente morto por essa máquina será uma perda muito grande pra sociedade nordestinense. Trata-se de uma tragédia!! Evidentemente que o poder público, representado aqui por minha pessoa, já está tomando as devidas providências. O corpo de Antônio, caso venha a falecer, será velado na Câmara.

Dos Vereadores, de onde será transportado em carro aberto até o cemitério municipal de nordestina. O Coral Infantil da Escola Primária de D. Escolástica se apresentará durante o enterro. Caso Antônio não morra, o cerimonial também já está organizando outro evento a altura pra substituir o enterro.


Apresentador tipo Telejornal (sugestão: Boris Casoy) ou tipo Globo repórter.
Apresentador: A morte do ano!! A morte do século!!! Nordestino promete morrer de amor na frente das câmeras. A morte anunciada de Antônio da Silva atrai romeiros, turista e curiosos ao sertão. A cidade de Nordestina se prepara pra receber milhares de pessoas. Fala de lá ao vivo o(a) nosso(a) repórter Fulano de Tal
Repórter: Estamos aqui na praça central de Nordestina, onde em breve Antônio da Silva enfrentará a máquina da morte. Aqui ao meu lado estão alguns conterrâneos de Antônio. Vamos saber qual é a opinião deles sobre o fato:

H1- Isso é conversa!!

H2- Isso sim é fome!!!

H3- Isso é seca!!!

H4- Isso é o cúmulo!!!

H5- Eu peço, de joelhos, que o Brasil todo reze por Antônio!! Em nome de Jesus!!

Repórter: Antônio está sendo considerado um louco e essa morte anunciada promete abalar toda a Paraíba!

H3- Paraíba não. Pernambuco!

Repórter: Fulano de Tal direto de Nordestina para o Jornal Sensacional!!!
Pai: Agora deram de voltar tudo de lá... Do tal mundo... Olha só a ruma de iludido voltando.

H3: E o que é que tem, homem de Deus?

Pai: O que é que tem?? Vixe, o senhor me perdoe as más palavras mas com esses otários tudo vindo, Nordestina virou foi uma febre. E vieram atrás de que os iludido??

H3: Atrás da fama, ué?

Pai: Fama??!! Pois sim, vieram foi atrás da doidice desse doido do namorado de Karina, o mais doido que essa cidade já entornou nesse mundo.

H3: Olha lá o povo da televisão. Vamos lá quem sabe a gente não aparece também.

Pai: Eu não, troço mais besta esse de aparecer na televisão.


Cena Narradores Era gente que num acabava mais, chegando de 2, de 10, de 15!! Cada casa de Nordestina virou hotel, cada quintal virou acampamento e haja comida pra esse povo todo. Nunca se mataram tantos bodes, fora as galinhas e na falta dessas qualquer criatura de Deus que se prestasse a guisado, cozido ou ensopado. Era tanta palavra pelo mundo contando o que estava acontecendo – palavra francesa, japonesa e italiana que não sobrava palavra nenhuma pra se comentar outro assunto. Tudo virou Antônio e Antônio virou tudo!!

Antônio virou nome de rodovia, de filé à moda, nome de gripe e até nome de estrela no céu.

Todo menino que nasceu naquele tempo era chamado Antônio:

Antônio José do Nascimento que depois virou só Tonho.

Antônio Viana de França que depois virou Tonico.

Antônio Benedito Azevedo que depois virou bandido.

Antônio de Oliveira Fagundes que depois virou artista de televisão

Antônio Carlos de Magalhães que depois virou político.

(Sugestão – pode acompanhar fotos)

Cena Antônio/ repórter


(fusão Antônio jovem e velho)
Repórter 2: Não tens medo da morte?

Antônio: Medo da morte de eu conheço é só o medo que ela tem de mim, desde o dia que bateram em minha porta:- Quem é?

Antônio 2: Sou eu!!!

Antônio: É a morte é?

Antônio 2: E então...

Antônio: Pois vá entrando que eu preciso mesmo é levar um dedo de prosa com a senhora!!

Antônio 2: Sentou-se e eu sentei-me mesmo foi na frente dela. E só pra começar desfiei um versinho que fiz com a pouca literatura que tenho e com o muito amor que eu possuo por Karina...

Repórter 2: E quando tempo durou isso??

Antônio: Verso pouco, coisa ligeira. Conversa pra 3 dias, então embalei num improviso e mês e meio depois ela abriu um bocejo...

Repórter 2: E a morte aí dormiu??

Antônio2: Quer nada ela só foi cochilar depois de 2 anos. Conversa vai, conversa vem, quinze anos se passaram e me deu vontade de cantar... Sabe vontade??

Repórter 2: Sei... Mas quantas músicas tu teve que cantar pra distrair a morte?

Antônio: Uma musiquinha só, coisinha besta (cantarola algo).

Antônio 2: E eu cantava e desafiava a morte enquanto ela nem resposta dava até que por final ela se deu por fatigada e disse assim:

Repórter 2: E a morte falou?

Antônio: E não? E disse: “Espere que vou até ali adiantar um servicinho e outro dia eu venho.” Tu viesse?

Repórter 2: Eu não!!!

Antônio: Nem, ela!! Ainda hoje todo dia eu canto...

Antônio 2: Pro caso de ele passar por perto pois, se tem coisa que morte não se agrada é de alegria, cantoria e verso.

Antônio: E também de riso, de boniteza, de conversa de menino, tão pouco da cor amarela.

Repórter 2: Mas Antônio, como é que é essa história de viajar pra outro tempo?? Vc vai conseguir mesmo??

Antônio: Tu tá é duvidando de mim?? Olha lá o que aconteceu com a morte, num visse??

Quer que eu cante pra tu também, quer???



Cena D. Nazareth II



Nazareth: Esse menino sempre foi cheio das estranhezas. Justo quando os irmãos todos voltaram com as famílias o danado resolve viajar no tempo. Pois quer ir, Antônio? Então vá, mas depois não diga que eu não avisei pra largar de atrapalhar o andamento das coisas e deixar o tempo lá, no paradeiro dele, sossegado.
Narradores: D. Nazareth avisou logo que não ia comparecer no negócio de coisa de evento, pois se fosse pra parar seu serviço pra ficar vendo invenção de Antônio, não faria outra coisa na vida. Dito isso lá ficou ela, com ela mesma, e pronto.

O tão esperado dia da morte do tão falado Antônio tinha chegado e Nordestina não imaginava que a reta que separava a casa dele da praça central fosse um dia ficar tão famosa. Tinha até banda tocando quando ele saiu pela porta carregando a sua máquina nas costas. Cada passo que ele dava era da maior importância e houve quem lhe entregasse presente, houve quem lhe dissesse bobagem, houve quem risse, quem chorasse, houve até quem descabelasse por ver Antônio de perto.

Antônio caminhava em direção à praça central e sua cabeça não parava de falar pra seu coração: “Olha o mundo aí todo olhando pra Nordestina. Agora só falta cumprir o resto”.

Faltando somente um minuto para a hora marcada, às 11:59 exatamente, Antônio entrou na máquina da própria morte e todos os ouvidos, todos os olhos, todas as câmeras, todos os microfones do mundo estavam voltados para ele.


Repórter: Estamos aqui na praça central de Nordestina, e Antônio da Silva acaba de chegar entrar na sua máquina da morte. Não percam em instantes imagens exclusivas desta que certamente será a morte do ano. Num oferecimento de Alisante Karina – Quando ele te encontrar de cabelo liso ele será capaz de morrer por você!!
Narradores: Então se deu a hora certinha que Antônio tinha marcado pra partir. Meio Dia em ponto. CINCO – QUATRO – TRÊS – DOIS – UM – Ave Maria. E seu coração disse pra sua cabeça, vá e sua cabeça disse pra sua coragem, vou e sua coragem respondeu, vou nada, mas Antônio não ouviu e quando as setecentas lâminas da máquina da morte botaram pra funcionar, todas elas na maior ligeireza, o mundo todo que estava esperando pra ver tripa de Antônio, sangue de Antônio, osso de Antônio virar pó, não viu foi coisa nenhuma.

No que o tempo se danou a passar desatinado por Antônio, ele tentou rezar a Ave-Maria, mas não conseguiu chegar no AGORA E NA HORA DE NOSSA MORTE AMÉM, pois não sabia se agora era agora mesmo, se era a hora da sua morte amém, ou não era. Foi então que percebeu que não era o tempo que estava passando danado por ele, mas era ele que estava passando danado pelo tempo.

De repente, o tempo parou de passar num solavanco. Ou melhor dizendo, foi ele que, num solavanco parou de passar de repente pelo tempo.

Será que Antônio tinha chegado mesmo ao futuro?? Que aquilo não era agora, disso Antônio tinha certeza. Morte também não era. E se agora não é mais agora, que tempo era esse, ora essa?

Eram precisamente 50 anos depois da data da sua partida, e a praça, a cidade, o povo, o mundo todo estava em festa. Havia mesmo de chegar em data importante. Enquanto os de lá comemoravam sua partida os de cá comemoravam sua chegada.

Antônio nunca podia imaginar que ia encontrar o mundo assim sem defeito. Estava tudo perfeito. Bem que Antônio tinha dito que havia de caprichar no presente pra Karina.

Ele ainda ficou no futuro um pedacinho, tentando entender, detalhe por detalhe, com o propósito e aprender tudo muito bem aprendido pra poder repetir direito depois. Ou melhor, antes.

Na hora da despedida o povo gritava:

“Boa sorte, Antônio!!!!!!”.

“Agora volta lá e conta tudo pra gente!!!”.


Nesse instante Antônio resolveu voltar e foi exatamente nesse instante que tudo começou a voltar pra trás e dessa vez Antônio entendeu tudo, pois já não era mais marinheiro de primeira viagem. Tentou rezar a Ave-Maria, mas não conseguiu chegar ao Ave-Maria pois não sabia rezar de trás pra frente. De repente, o tempo parou de passar num solavanco. Ou melhor dizendo, foi ele que, num solavanco parou de passar de repente pelo tempo. E Tudo estava no mesmíssimo ponto em que ele tinha deixado. Antônio então concluiu que o exato momento da sua volta coincidiu com o exato momento da sua ida.

Quando Antônio deu de cara com as setecentas lâminas mortíferas da sua máquina ele deu uma carreira – e respeite a carreira de Antônio - e foi somente o vento que as lâminas cortaram.

Quando o povo viu que Antônio estava inteirinho, dos pés a cabeça, foi aí que começou a vaia. Reparem mesmo que azar o de Antônio. O instante em que ele saiu colou no instante em que ele chegou, sem nenhuma brecha no meio. Pela primeira vez na história ninguém ganhou a aposta. Perdeu quem apostou que Antônio ia para o futuro e perdeu também quem apostou na morte dele.
Habitantes da cidade:

H1- Que sujeito mais sem palavra esse tal de Antônio!!

H2- Não foi ao futuro nenhum e nem morreu morte nenhuma!!

H3- Tudo o que ele fez foi dar uma carreira pra trás.

H4- O que ele fez, qualquer um teria feito com a maior facilidade.
Antônio: Eu declaro que fui ao tempo de futuramente, mas me atrapalhei um pouco no caminho da volta, por isso regressei no mesmo instante em que tinha partido. Esse é o motivo dessa confusão toda!
H1: Deixe de conversa, cabra!

H2: Onde já se viu mentir assim, oh menino.

H3: Agora ele ficou doido de vez.

H4: Mas esse Antônio tá que inventa.
Narradores: Mas o mundo inteiro desprezou cada palavra de Antônio. O mundo inteiro se pôs a rir de Antônio. Menos Karina, obviamente. Antônio, mesmo diante de tanto desprezo e indelicadeza, tirou coragem de não sei onde e declarou:
Antônio: Esperem. O tempo há de passar e então vocês vão ver se eu não vou chegar lá no futuro, de hoje há 25 anos exatamente, aqui no meio da praça por volta do meio-dia.
Narradores: Essa era uma prova indiscutível que Antônio apresentava. Mas o único defeito é que só ia servir dali a muito tempo. Paciência.

Assim como ficou famoso, Antônio, foi logo, logo esquecido. Mas por via das dúvidas, acreditando ou não na sinceridade de Antônio, todo mundo ficou com vontade de conhecer seu próprio destino. Antônio contou que no meio da praça ia nascer um pé de caju que daria flor o ano todo; que onde tinha estação iam construir um cinema, e que ali, onde agora era a bica, ia ter estátua de Antônio. Anunciou que no futuro medo tinha virado lenda, falta tinha virado sobra, Nordestina tinha virado peça de teatro, palavra tinha virado fato e alegria tinha virado moda.

Antônio preveniu a vizinha do lado, que se dedicou ao corte e costura e tornou-se pessoa bem sucedida.

Avisou pro fiteiro que este tinha ingressado na Marinha.

Tudo quanto era moça vitalina queria saber de uma coisa somente:

Antônio: Você casou sim. Teve até cinco meninas. Já você casou sete vezes e estava com cara de que ia completar uma dezena ainda.
Narradores: Pra uma mãe recém-parida, com o menino no braço ele disse:
Antônio: Seu filho também há de se chamar Antônio e será ministro da Fazenda.

Mãe: Preciso correr até o cartório pra impedir que meu marido registre o menino com o nome de Edemílson.(sai)
Narradores: D. Nazareth foi a única que não quis saber o seu destino.
Nazareth: Se o meu destino quisesse que eu o conhecesse, se apresentava mais cedo.
Narradores: O tempo foi passando no seu próprio tempo. Cada um ia arrumando sua própria vida de acordo com o que Antônio contava. No meio da praça plantaram um pé de caju com mania por flor. A vizinha do lado dedicou-se a corte e costura. O fiteiro resolveu entrar pra Marinha. A mãe de Antônio Domingos de Lima, ex-Edemílson, obrigou seu filho a varar não sei quantas noites estudando economia. Quanto mais o tempo passava mais o mundo se parecia com o que Antônio contava.

A vida deu pra melhorar e felizmente de tanto passar o tempo, 25 anos acabaram passando.



Agora só falta chegar a hora prometida, e com ela chegar Antônio. Aqui em 2007 tudo está exatamente do jeito que Antônio disse que estaria. Medo virou lenda, falta virou sobra, Nordestina virou peça de teatro, palavra virou fato, alegria virou moda e Antônio virou gente importante.
Antônio: E, modéstia de lado, até que virei gente importante. Mais não posso contar, em parte porque só sei contar até aqui, em parte porque já vai bater meio-dia e esse Antônio que não chega?? Calma, meu povo!! É justo que chegue um pouco atrasado, pois lá de onde Antônio vem é longe que só a gota!!!!!!!!!!!!!!!


FIM








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