Produção de novas variedades de plantas e de animais



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Melhoramento genético

Produção de novas variedades de plantas e de animais

A maioria das plantas, dos animais e dos microrganismos que consti­tuem nossa alimentação básica foi domesticada e “melhorada” em dife­rentes regiões do mundo, há milhares de anos, muito antes da descoberta dos mecanismos da herança biológica.

0 melhoramento genético consiste em selecionar e aprimorar as qua­lidades das espécies, tendo em vista sua utilização pelos seres humanos. Inicialmente, isso era feito apenas de forma intuitiva. Se um agricultor desejasse obter espigas de milho com maior número de grãos, por exemplo, selecionava para o plantio apenas sementes de espigas com grande número de grãos. Se desejasse aumentar o peso médio das galinhas, selecionava os galos e as galinhas maiores e mais pesados como reprodutores.

0 desenvolvimento de novos conceitos e novas técnicas genéticas tornou possível racionalizar e aperfeiçoar a seleção. Q melhoramento das espécies passou a ser baseado em métodos científicos.

Uma importante contribuição da Genética para a agricultura e a pe­cuária foi mostrar que quase todas as qualidades de valor econômico, como a fertilidade de animais e plantas, o tamanho e o peso dos grãos, a produção de carne, de leite e de ovos, a capacidade de resistir a doenças etc. são condicionadas por genes que interagem fortemente com fatores ambientais. Esse conhecimento tornou possível desenvolvertécnicas mais eficientes de seleção e de melhoramento para características de animais e plantas que apresentam importância econômica. [Fig. 8.1)




Um exemplo de melhoramento animal

A produção de uma nova raça de gado bovino, conhecida como gado Santa Gertrudis, é um exemplo de como novas variedades de animais podem ser desenvolvidas pela combinação de características de diferentes raças.

Com o objetivo de obter um gado de corte rústico, adaptado às condições climáticas do sul dos Estados Unidos, os criadores iniciaram, em 1910, os primeiros cruzamentos entre exempla­res da raça europeia Shorthorn, que é um excelente produtor de carne, mas sensível ao calor e a doenças transmitidas por insetos e carrapatos, com exemplares zebuínos da raça Brahman, originária da índia, que é bem resistente a parasitas e ao calor, mas que produz relativamente menos carne.

Após 10 anos de testes, com a realização de cruzamentos sempre selecionando as carac­terísticas desejadas, foi obtida, às margens do rio Santa Gertrudis, no Texas, uma variedade

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homogênea com constituição genética correspondente a g- de Brahman e g- de Shorthorn. Além



da ótima produção de carne, a nova raça, que recebeu o nome do rio Santa Gertrudis, apresenta

boa resistência a doenças infecciosas e grande tolerância ao calor, podendo viver em regiões onde o gado Shorthorn não sobreviveria bem. (Fig. 8.2]



Heterose ou vigor híbrido

Em 1909, o geneticista norte-americano George H. Shull [1874-1954] percebeu que o cruza­mento de duas determinadas variedades de milho produziu, em relação às variedades parentais, plantas mais vigorosas, mais resistentes a doenças e com espigas maiores e mais uniformes. Essas plantas foram denominadas híbridas, termo utilizado também para designar o produto do cruzamento entre linhagens diferentes de uma mesma espécie

Os pesquisadores concluíram que, no caso do milho, as plantas híbridas apresentavam quali­dades superiores às linhagens puras (altamente homozigóticas) por possuírem muitos genes em condição heterozigótica. Esse fenômeno ficou conhecido como heterose, ou vigor híbrido.




0 conhecimento da base genética do vigor
híbrido no milho permitiu a produção de duplos-
-híbridos, isto é, obtidos a partir de quatro
linhagens homozigóticas parentais. Esse tipo
de cruzamento teve tanto sucesso que hoje a
maior parte de todo o milho que se consome no
mundo é duplo-híbrido. 0 fenômeno da heterose
não se restringe ao milho, ocorrendo também
em outras plantas como o morango, o tomate,
o algodão e a cebola, e em espécies animais,
entre elas a galinha doméstica. (Fig. 8.3]

Propagação de


variedades úteis

Em um programa de melhoramento genético,


além de se obter determinado fenótipo deseja-
do, é importante que o genótipo que o condicio-
na seja propagado. Os processos sexuais das
plantas e dos animais domésticos complicam
a propagação das variedades melhoradas.
A segregação e a recombinação genética produ-
zem, a cada geração, novas misturas de alelos,
o que torna difícil a propagação inalterada dos
genótipos desejados.

Uma maneira de superar parte desse proble-


ma é promover a enxertia e a propagação por cul-
tura de tecidos, em plantas, e a autofecundação
e a endogamia, em plantas ou em animais.

Enxertia

Uma maneira de propagar assexuadamente variedades de plantas de interesse é a enxertia (do latim insertare, inserir, introduzir), que consiste em implantar parte de uma planta viva em outra. Essa técnica tem sido muito empregada na disseminação de plantas frutíferas, como laranjas, uvas, abacates, maçãs etc.



Origem e propagação da laranja-da-baía

A laranja-da-baía, ou laranja-baía, facilmente reconhecida pela presença de uma estrutura semelhante a um umbigo saliente em um dos polos, é uma variedade triploide (3n), isto é, apresenta três lotes cromossômicos. Sua meiose é anormal, de modo que ela não produz gametas, nem sementes.

A laranja-da-baía surgiu espontaneamente no estado da Bahia em 1810, em decorrência de uma mutação cromossômica. Desde então, ela é propagada assexuadamente; alguns ramos da árvore original foram enxertados em caules de outras variedades de plantas cítricas e assim suas qualidades puderam ser mantidas. (Fig. 8.4)

Em 1870, um missionário presbiteriano estadunidense em missão na Bahia, impressionado com a ausência de sementes e com o excelente sabor da laranja- -da-baía, enviou doze mudas dessa variedade ao Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, em Washington. Em 1873, duas dessas mudas foram envia­das à Califórnia e plantadas no quintal da casa de Luther C. Tibbets. Ele e sua es­posa Eliza Lovell Tibbets (n. 1825) forneceram mudas das laranjeiras aos vizinhos e, logo depois, muitas fazendas da Califórnia já estavam produzindo a laranja- -da-baía. Hoje, as plantas descendentes das duas laranjeiras plantadas em 1873 pelos Tibbets, conhecidas pelo nome de Washington Navel, cobrem mais de 40 mil hectares da Califórnia, totalizando dezenas de milhões de árvores.




Propagação de plantas por cultura de tecidos

A cultura de tecidos vegetais consiste em retirar uma pequena porção de tecido vivo de uma planta e cultivá-la em um meio nutritivo, suplementado com hormônios e fatores de crescimento. Nessas condições, certas células vegetais retomam a capacidade de se dividir e podem originar uma planta completa, geneticamente idêntica à planta-mãe. Essa técnica tem sido empregada na produção, em larga escala, de plantas como orquídeas e violetas. A vanta­gem é que, a partir da cultura de células de uma única planta, podem ser produzidas milhares de plantas idênticas. (Fig. 8.5)



Autofecundação e endogamia

Em alguns casos, há interesse em manter um grande número de genes na condição homozigótica (homozigose). Isso pode ser feito por autofecundação ou por endogamia.

A autofecundação, que ocorre normalmente em certas espécies e que pode ser feita ar­tificialmente, garante que as próximas gerações não recebam alelos “estranhos” à linhagem. Entretanto, a ocorrência da recombinação gênica leva à produção de descendência variável, pela mistura dos genes em heterozigose que a variedade naturalmente apresenta.

A endogamia (do grego éndon, dentro, e gámos, casamento) é o cruzamento preferencial entre poucos indivíduos escolhidos, por várias gerações, e resulta geralmente em descendência mais homogênea do que a proveniente de cruzamentos livres.






Ds filhos dos cruzamentos endogâmicos tendem a ser
mais semelhantes aos pais e a apresentar maior número
de genes na condição homozigótica. Dessa forma, um
determinado genótipo de interesse pode ser propagado
por reprodução sexuada endogâmica com relativamente
pouca modificação ao longo das gerações.

As raças puras, das quais muito se ouve falar,


são linhagens altamente homozigóticas mantidas
por cruzamentos endogâmicos, isto é, executados
rigorosamente entre portadores de determinadas
características escolhidas. Isso garante que surjam
indivíduos com mesmas características fenotípicas,
geração após geração. Os indivíduos dessas raças são
fenotipicamente parecidos porque possuem genótipos
semelhantes, homozigóticos para muitos de seus ge-
nes. (Fig. 8.B)

Problemas decorrentes do melhoramento

Um dos problemas decorrentes do melhoramento é o surgimento de linhagens com pouca variabilidade genética, isto é, com pouca diferença genética entre os indivíduos, o que reduz a capacidade da população em se adaptar eficientemente a alterações ambientais.

□s antigos agricultores, mesmo antes do desenvolvimento da Genética, já lidavam com esse problema. Em campos de trigo, era comum o plantio de diversas variedades, o que aumentava a chance de se preservar ao menos parte da lavoura em caso de seca, enchente ou pragas.

Essa técnica milenar atualmente tem sido negligenciada. Hoje predominam as lavouras de monocultura, em que grandes áreas são ocupadas com uma única variedade da espécie. Apesar de as monoculturas produzirem maiores lucros em curto prazo, há o risco de uma praga dizimar completamente uma plantação, sem encontrar indivíduos resistentes, uma vez que todas as plantas são geneticamente muito semelhantes. (Fig. 8.7)



Um exemplo histórico de um desastre envolvendo a perda de uma monocultura ocorreu em meados do século XIX, na Irlanda, onde a produção de batata, um dos principais alimentos da população na época, baseava-se em uma única variedade. Uma doença causada por microrganismos dizimou, em curtíssimo prazo, praticamente todas as plantações de batata da Irlanda, ü resultado foi catastrófico: morte de milhões de pessoas em decorrência da fome.

Em 1970, uma doença causada por um fungo atacou as culturas de milho híbrido do sul dos Estados Unidos, reduzindo à metade a safra prevista. Estudos realizados pelo governo estaduni­dense mostraram que suas culturas de milho eram geneticamente uniformes e muito vulneráveis a doenças. Essas culturas foram recuperadas com a introdução de um alelo para resistência ao fungo causador da doença, obtido em uma variedade de milho nativa da Colômbia.




Aconselhamento genético

Diversas doenças humanas são hereditárias. 0 estudo dos genótipos de um casal e de seus parentes permite, em certos casos, estimar a chance de uma criança ser afetada por uma doença já manifestada por algum membro da família. Pelo estudo dos heredogramas, especialistas no campo da Genética Humana podem orientar um casal sobre os riscos de seus filhos terem alguma doença hereditária. Esse tipo de orientação constitui o aconselhamento genético.

Um casal só deve se preocupar em procurar aconselhamento genético se já teve alguma criança com problemas ou se tiver parentes próximos afetados por doenças genéticas. Mulheres com mais de 35 anos que dese­jam engravidar devem procurar um serviço de aconselhamento genético, pois o risco de gerar filhos com número anormal de cromossomos aumenta significativamente depois dessa idade.

n Identificação de portadores de alelos deletérios

Alelos que causam doenças, ou que diminuem a taxa de sobrevivência ou de reprodução de um organismo, são genericamente chamados de alelos deletérios. Muitos alelos deletérios presentes nas populações humanas sur­gem por mutações de alelos normais, comportando-se como recessivos.

Para calcular o risco de uma doença genética recessiva se manifestar numa pessoa, os geneticistas tentam descobrir se seus pais são ou não portadores do alelo recessivo causador da doença. A maioria das crianças com problemas causados por alelos recessivos tem pais normais. Todas as pessoas têm alguns alelos deletérios em seu genoma, que só não se mani­festam porque estão em dose simples, isto é, na condição heterozigótica.

Atualmente é possível descobrir se uma pessoa é portadora ou não de alelos deletérios recessivos para algumas doenças genéticas. Por exemplo, um teste bioquímico relativamente simples permite descobrir se uma pessoa normal é portadora do alelo recessivo que condiciona a doença de Tay-Sachs, uma enfermidade fatal. Pessoas heterozigóticas para anemia falciforme tam­bém podem ser identificadas em um exame de sangue simples e barato, o que ajuda a evitar o nascimento de crianças afetadas por essa enfermidade.

É cada vez maior o número de genes deletérios que podem ser identifi­cados pelas novas técnicas de análise do DNA, o que vem se tornando uma poderosa ferramenta de auxílio ao aconselhamento genético. Em muitos casos, a partir de uma única célula de um embrião, pode-se determinar se ele terá ou não uma doença genética grave.

Nos casos de fertilização in vitro, em que se sabe que existe chance de os filhos terem herdado determinado alelo deletério, costuma-se realizar exame de DNA de uma célula dos embriões antes da implantação no úte­ro da mãe. Dentre os embriões analisados, o especialista pode escolher apenas os geneticamente saudáveis para serem implantados, o que tem levantado questões éticas.

Casamentos consanguíneos

Casamentos entre parentes próximos, tais como primos em primeiro grau, são denominados casamentos consanguíneos. Nestes, é maior a probabilidade de alelos deletérios recessivos se encontrarem, originando um indivíduo homozigótico recessivo. Isso porque, por terem herdado seus genes de ancestrais comuns próximos, pessoas aparentadas têm maior chance de possuir um mesmo tipo de alelo deletério “familiar” que pessoas não aparentadas.






Diversas culturas têm leis que proíbem ou desaconselham o casamento entre parentes próximos. Essas leis surgiram, possivelmente, da observação empírica de que o nascimento de crianças com anomalias são mais comuns nos casamentos entre parentes. Problemas causados por casamentos consanguíneos também podem ser observados nos animais domésticos e em zoológicos, em que animais aparentados são frequentemente cruzados entre si.

Diagnóstico pré-natal

Atualmente é possível diagnosticar certas doenças genéticas graves ainda durante a vida intrauterina. Nesses casos, o casal pode optar pelo aborto terapêutico (permitido em certos paí­ses, mas não no Brasil), ou se preparar para criar um filho portador da anomalia. Há dois métodos básicos para diagnosticar possíveis defeitos genéticos de um embrião em desenvolvimento: a amniocentese e a amostragem vilocoriônica.

A amniocentese é uma técnica rápida, precisa e de pouco risco, empregada para análise de fetos entre a 15ae a 18asemanas de gravidez. Uma agulha longa é introduzida na barriga até atingir a bolsa amniótica. Esse procedimento é monitorado por um aparelho de ultrassonografia. Bastam cerca de PO mililitros de líquido amniótico para realizar diversos tipos de exame.

Certas doenças podem ser detectadas pela presença de determinadas substâncias eliminadas pelo feto no líquido amniótico. Outra possibilidade é cultivar células fetais presentes no líquido amniótico, induzindo-as a se multiplicar em laboratório, o que permite estudar os cromossomos e o DNA fetal.

A amostragem vilocoriônica permite diagnosticar doenças hereditárias entre a 8a e a 11a se­manas de gravidez, antes, portanto, que a amniocentese. Com o auxílio de um longo instrumento de punção introduzido pela vagina até o interior do útero, retira-se uma pequena porção do envoltório embrionário, o chamado cório. As células embrionárias coletadas podem ser cultivadas em meio nutritivo ou ser analisadas imediatamente, dependendo do tipo de estudo que se queira realizar.

A operação de retirada de amostras de vilosidades coriônicas causa aborto do embrião em cerca de 1% dos casos. Por isso, esse tipo de diagnóstico é empregado apenas quando há alto risco de doença ge­nética, o que pode justificar sua identificação precoce para um eventual aborto terapêutico. (Fig. 8.8]

Essas técnicas diagnosticas, que possibilitam a identificação de portadores de doenças graves ainda durante a vida intrauterina, colocam em discussão a questão do aborto terapêutico e levam a questionamentos éticos e morais. □ aborto terapêutico é permitido em certos países. No Brasil, o aborto é ilegal; os únicos casos em que é permitido é quando a gravidez resulta de estupro ou se há risco à vida da mãe. Os novos caminhos apontados pela Genética exigem que a sociedade discuta novas atitudes, normas e valores, coerentes com o conhecimento científico atual.




A genética molecular e suas aplicações

P Enzimas de restrição

No início dos anos 1970, descobriu-se que certas enzimas bacterianas, denominadas endonucleases de restrição, podiam cortar moléculas de DNA em pontos específicos, gerando fragmentos de tamanhos definidos. Isso permitiu análises detalhadas do ONA até então impossíveis, dado o grande tamanho e a heterogeneidade das moléculas.

As endonucleases de restrição são enzimas bacterianas que atuam como “tesouras moleculares”, reconhecendo seqüências de pares de bases específicas em moléculas de DNA e cortando-as nesses pontos. Elas são altamente específicas: cada tipo de enzima reconhece e corta apenas uma determinada seqüência de nucleotídios, em geral constituída por 4 ou 6 pares de bases nitrogenadas. Endonucleases de restrição são comparáveis a ferramentas que permitem cortar moléculas de DNA de forma controlada e previsível (Fig. 8.9]






Acredita-se que as enzimas de restrição bacterianas tenham sido selecionadas ao longo da
evolução desses organismos por promoverem proteção ao ataque de bacteriófagos (vírus que
infectam bactérias). Uma molécula de DNA viral que contenha sítios de corte para uma endonu-
clease bacteriana, ao ser injetada na bactéria, é prontamente cortada nesses pontos e deixa de
funcionar. Hoje são conhecidas centenas de enzimas de restrição, que são purificadas e comer-
cializadas por diversos laboratórios no mundo.

Além de evidenciar a existência de um sistema de defesa bacteriano e da complexa interação


entre bactérias e seus vírus parasitas, a descoberta das enzimas de restrição permitiu grandes
avanços na Genética Molecular. Por isso, os três pesquisadores responsáveis pela elucidação
do mecanismo de ação das endonucleases de restrição, o suíço Werner Arber (n. 1929) e os es-
tadunidenses Daniel Nathans (1928-1999) e Hamilton Smith (n. 1931), receberam o Prêmio Nobel
em Medicina ou Fisiologia em 1978.

Moléculas idênticas de DNA tratadas

com determinada endonuclease de res-
trição são cortadas nos mesmos pontos,
originando fragmentos de tamanhos idên-
ticos. Por exemplo, no primeiro estudo com
esse tipo de enzimas, realizado em 1971, o
virologista Daniel Nathans e uma de suas
estudantes, Kathleen Danna, trataram DNA
do vírus SV40 com a enzima Hind II e obti-
veram 11 tipos de fragmentos, que diferiam
em tamanho. Como o DNA desse vírus é uma
molécula circular, concluiu-se que ela foi
cortada em 11 locais; o tamanho de cada
fragmento correspondia à distância entre
dois sítios de corte adjacentes. (Fig. 8.10)

Separação eletroforética de fragmentos de DNA

Como vimos na figura 8.10, os fragmentos de DNA com diferentes tamanhos, gerados pelo corte com determinada endonuclease de restrição, podem ser separados por meio de uma técnica denominada eletroforese (do grego phúresis, ação de transportar, migração).

0 processo de eletroforese é realizado em uma placa de gelatina especial (gel). A solução contendo os fragmentos de DNA é colocada em fendas em uma das extremidades do gel, à qual é conectado o polo negativo de uma fonte geradora de corrente elétrica; à extremidade oposta do gel é ligado o polo positivo da fonte.

A aplicação de uma diferença de potencial na placa de gel faz os fragmentos de DNA se deslocarem em direção ao polo positivo, uma vez que eles possuem carga elétrica negativa. 0 deslocamento dos fragmentos de DNA no gel é comparável a uma corrida de obstáculos, repre­sentados pelas fibras que formam o gel; o DNA movimenta-se entre as fibras e, quanto menor o tamanho do fragmento, maior a velocidade com que ele se desloca.

Quando o campo elétrico é desligado, fragmentos de mesmo tamanho “estacionam” juntos em determinada posição na placa de gel, formando uma faixa, ou banda. A placa de gel é, então, tratada com uma solução de brometo de etídio (CaiHgQBrN3), que adere às moléculas de DNA e forma um complexo que se torna visível quando iluminado com raios ultravioleta, o que permite a visualização das bandas formadas pelos fragmentos de DNA.

Fotografias do gel obtidas sob iluminação ultravioleta permitem aos pesquisadores analisar a posição de cada banda. Pela medida da distância relativa de migração das bandas, é possível calcular o peso molecular e o tamanho dos fragmentos de DNA que as constituem. (Fig. 8.11)






A identificação de pessoas pelo DNA

A comprovação de que era possível caracterizar moléculas de DNA por meio do padrão eletroforético de fragmentos gerados pela digestão com endonucleases de restrição levou a se pensar no emprego dessa metodologia para identificar pessoas. Realmente, a análise desse padrão mostrou ser um método seguro para identificar pessoas e, atualmente, é largamente utilizado em investigações policiais e em pro­cessos judiciais.

O princípio dessa metodologia é o seguinte: como as pessoas diferem entre si quanto ao material genético que possuem (com exceção dos gêmeos univitelínicos), a digestão, por uma endonuclease de restrição, do DNA de uma pessoa produzirá um padrão de fragmentos típico dela, comparável a um “código de barras” ou a uma “impressão digital" molecular.

Detecção de fragmentos específicos de DNA

Nos organismos eucarióticos, o corte do DNA total do genoma por uma endonu­clease de restrição produz tantos fragmentos, de tantos tamanhos diferentes, que é impossível visualizar bandas individuais na separação eletroforética: elas estão tão próximas umas das outras que aparecem como uma mancha contínua ao longo do gel. Por isso, é necessário utilizar técnicas especiais para evidenciar apenas determinados tipos de fragmentos de interesse.

Uma dessas técnicas, chamada hibridização molecular, consiste em tratar o gel de modo a separar as cadeias duplas dos fragmentos de DNA. Em seguida, aplicam-se








sondas, que são moléculas de DNA com seqüências de bases complementares às de interesse, portanto capazes de parear com elas. Com isso, as sondas, que apresentam algum tipo de marcação que as tornam visíveis, evidenciam apenas as bandas corres­pondentes ã região de interesse, que podem, então, ser analisadas.

As seqüências de DNA utilizadas na identificação de pessoas

Geralmente, os testes de identificação de pessoas pelo DNA utilizam sondas capa­zes de detectar trechos do DNA humano que variam muito entre as pessoas de uma população. Essas regiões, conhecidas pela sigla VNTR, iniciais da expressão inglesa variable numberof tandem repeats (número variável de repetições em seqüência), são constituídas por seqüências curtas, de até algumas dezenas de pares de nucleotídios, que se repetem ao longo de trechos da molécula de DNA. É o número dessas repetições que varia entre as pessoas, daí o nome desses trechos do DNA.

Suponha, por exemplo, que uma pessoa possua, em determinada região de um de seus cromossomos, um trecho VNTR com cinco repetições e no cromossomo homólogo, na região correspondente, um trecho com apenas três repetições.

Ao ser cortado com uma enzima de restrição que atua sobre seqüências que delimi­tam essas VNTRs, o DNA dessa pessoa produzirá fragmentos menores, corresponden­tes ao trecho com três repetições, e fragmentos maiores, correspondentes ao trecho com cinco repetições. Uma sonda que identifique essas VNTRs revelará, na separação eletroforética do DNA, duas bandas em posições diferentes. Uma outra pessoa que possua em ambos os cromossomos VNTRs com três repetições, com a utilização da mesma sonda, apresentará apenas uma banda, que corresponde aos dois fragmentos de mesmo tamanho.

Uma terceira pessoa com cinco repetições em cada cromossomo também apresen­tará uma única banda, porém localizada mais próxima do polo negativo, pois terá se deslocado menos durante a eletroforese devido ao seu maior tamanho. (Fig. 8.12)






Em certos casos, um mesmo tipo de unidade de re­petição está presente em diversas regiões do genoma, formando VNTRs de diversos tamanhos. Assim, quando se utiliza uma sonda capaz de revelar a seqüência de bases dessas VNTRs, obtêm-se diversas bandas na separação eletroforética. É a combinação dos diversos tipos de bandas que caracteriza cada pessoa.

Por exemplo, na figura 8.13 são mostrados os padrões de bandas de amostras de DNA obtidas das seguintes fontes: da vítima de um crime [V), de uma gota de sangue encon­trada no local do crime e tomada como prova (P), e de três suspeitos de terem cometido o crime (S,, S2 e S3). Nesse caso, as cinco amostras de DNA foram digeridas com a mesma endonuclease e a separação eletroforética foi tratada com um mesmo tipo de sonda, obtendo-se a imagem mostrada na foto. Observe que o padrão de VNTRs da prova é idêntico ao do suspeito 3 (S3), indicando que o sangue pertence a ele, que deve ser o culpado do crime.

Determinação de paternidade pela análise do DNA

O teste de paternidade foi um dos principais fatores de popularização da sigla DNA, mas hoje já se questiona se esse tipo de exame deve ser realizado livremente pelas pessoas. Em alguns países, a realização de tais exames sem solicitação explícita da justiça está sendo proibida com a justificativa de que os danos psicológicos que os resultados de tais testes podem gerar aos envolvidos superam, em muitos casos, os benefícios que eles possam trazer.



Afigura 8.14 mostra o resultado de um teste de DNA de uma mulher (A/l), mãe de uma criança (C) cuja paternidade é disputada por dois homens (P, e P2). Amostras de DNA dos quatro envolvidos foram tratadas com uma mesma enzima de restrição, submetidas à eletroforese em uma mesma placa de gele tratadas com uma sonda para revelar certos tipos de VNTR, o que resultou nos padrões de bandas mostrados na fotografia.

Note que alguns fragmentos de DNA da criança (assina­lados com as setas à esquerda) não estão presentes no DNA de sua mãe e, portanto, só podem ter sido herdados do pai. Apenas um dos homens (P2) apresenta esses fragmentos (assinalados com asteriscos à direita), o que indica ser ele o pai da criança. Com base na estimativa da frequência de cada tipo de VNTR na população e do número utilizado em diagnóstico (três, em nosso exemplo), pode-se estimar o grau de confiabilidade do teste, em geral bastante alto, ultrapassando os 99,9%.






Clonagem molecular do DNA

Em 1972, os pesquisadores estadunidenses Stanley Cohen (n. 1922] e Herbert Boyer (n. 1936] encontraram-se em um congresso científico no Havaí. Cohen trabalhava com plasmídios bacterianos, tentando isolar genes para resistência a antibióticos, e Boyer trabalhava com enzimas de restrição.

Em conversa após as conferências, eles resolveram tentar algo totalmente novo: cortar o DNA de plasmídios, emendá-lo a um outro DNA por meio de uma enzima denominada ligase e introduzira molécula produzida - um DNA recombinante - em bactérias. □ objetivo era verificar se a molécula produzida em um tubo de ensaio era capaz de se multiplicar na bactéria e gerar cópias idênticas.

A partir dessa ideia, Boyer e Cohen desenvolveram uma das mais revolucionárias metodologias para multiplicar segmentos selecionados de DNA. A aplicação dessa metodologia possibilitou a produção de diversas proteínas humanas de interesse médico, como o hormônio de crescimento, a insulina, o fator VIII de coagulação sanguínea, entre outras.

0 plasmídio recombinante, produzido pela união do DNA plasmidial ao segmento de DNA sele­cionado, multiplica-se juntamente com a bactéria hospedeira. Assim, a partir de uma única célula bacteriana transformada, que recebeu o plasmídio recombinante, obtêm-se bilhões de bactérias idênticas, cada uma com uma ou mais cópias do DNA recombinante.

As moléculas de DNA idênticas obtidas da multiplicação da célula bacteriana transformada constituem um clone molecular, daí a metodologia para obtê-las ser denominada clonagem molecular. (Fig. 8.15]






Com o desenvolvimento dessa técnica, os pesquisadores passaram a imaginar que genes codificadores de proteínas humanas de interesse poderiam funcionar se clonados em bactérias hospedeiras, produzindo proteínas tipicamente humanas.

Essa possibilidade de aplicação comercial da clonagem molecular, também conhecida como engenharia genética, fez com que Boyer e Cohen patenteassem a invenção e passassem a receber dividendos (royalties] dos laboratórios comerciais que pretendiam utilizar a técnica na fabrica­ção de seus produtos. Após ter fornecido 350 licenças para utilização comercial da tecnologia e recebido cerca de 27 milhões de dólares em royalties, Cohen declarou: “Boyer e eu não trabalha­mos com o objetivo de inventar a engenharia genética. Ela surgiu devido aos nossos esforços em compreender fenômenos biológicos básicos e ao concluir que nossa descoberta tinha aplicações práticas importantes”.

Expressão de genes em bactérias

Em 1977, foi obtida pela primeira vez a síntese de uma proteína humana por uma bactéria trans­formada. Um segmento de DNA com 60 pares de nucleotídios, contendo o código para a síntese da somatostatina (um hormônio composto de 14 aminoácidos) foi ligado a um plasmídio e introduzido em uma bactéria, a partir da qual foram obtidos clones capazes de produzir somatostatina.

A primeira proteína humana produzida por engenharia genética em células de bactérias e aprovada para uso em pessoas foi a insulina. Até então, esse hormônio para tratamento de diabéticos era extraído de pâncreas de bois e de porcos, obtidos em matadouros. Apesar de a insulina desses animais ser muito semelhante à humana, ela pode causar problemas alérgicos em algumas pessoas diabéticas. A insulina produzida em bactérias transformadas, por outro lado, é idêntica à do pâncreas humano e não causa alergia, devendo substituir definitivamente a insulina animal. (Fig. 8.16)

ü hormônio de crescimento humano, a somatotrofina, foi produzido pela primeira vez em bactérias em 1979, mas a versão comercial só foi liberada em 1985, após ter sido submetida a inúmeros testes que mostraram sua eficiência.

□ hormônio de crescimento é produzido pela hipófise. Crianças nas quais esse hormônio é ausente ou está presente em quantidade muito baixa não se desenvolvem adequadamente. Até pouco tempo atrás, a única opção para crianças que nasciam com deficiência hipofisária da somatotrofina era o tratamento com hormônio extraído da hipófise de cadáveres. Agora esse hormônio é produzido por técnicas de engenharia genética.






Clonagem molecular em vírus

Outra maneira de clonar um segmento de DNA é introduzindo-o no cromossomo de um vírus bacteriano, que atua como vetor de clonagem. Dependendo dos objetivos, a clonagem em vírus tem certas vantagens sobre a clonagem em plasmídio; por exemplo, em vírus podem ser clonados fragmentos de DNA bem maiores.

Um dos vírus mais utilizado como vetor de clonagem molecular é o fago lambda, um dos bacteriófagos mais bem conhecidos do ponto de vista genético. Todos os genes desse fago estão mapeados em seu cromossomo e se conhece a seqüência exata em que cada um deles entra em atividade, após o DNA viral ter sido injetado na bactéria hospedeira.

0 fago lambda tem genes essenciais, indispensáveis ã sua multiplicação, e genes não essenciais, cuja presença é dispensável à reprodução viral. Os genes essenciais, localizados nas pontas do cromossomo do vírus, são responsáveis pela produção das proteínas do capsídio viral, das enzimas que atuam na duplicação do DNA viral, das enzimas de empacotamento do DNA e de algumas outras proteínas importantes. Os genes não essenciais localizam-se na região mediana do cromossomo viral e se relacionam aos processos de recombinação entre moléculas de DNA e não interferem na multiplicação do vírus.

Esse conhecimento possibilitou o uso desse vírus como vetor de clonagem molecular. Nesse caso, a região mediana do cromossomo viral, onde se localizam os genes não essenciais, é remo­vida e substituída por um segmento de DNA de qualquer outro organismo. 0 DNA recombinante formado é encapsulado por proteínas virais, formando uma partícula viral capaz de infectar e se multiplicar em bactérias hospedeiras.

Assim, a partir de uma única partícula viral, podem-se obter bilhões de partículas idênticas, cada uma delas contendo uma cópia do fragmento de DNA que foi introduzido no cromossoma do vírus. (Fig. 8.17)






Atualmente, podem-se clonar segmentos muito grandes de DNA em células eucarióticas, como nas da levedura Saccharomyces cerevisae.
Ds segmentos de DNA introduzidos nas células da levedura comportam-se como um dos cromossomos do fungo, duplicando-se e sendo trans­mitido às células-filhas.

Misturando genes entre espécies: transgênicos

As técnicas da engenharia genética tornaram possível introduzir, por exemplo, genes humanos em camundongo ou genes de insetos em plantas. Qs organismos que recebem e incorporam em seu genoma genes de outra espécie são chamados de organismos transgênicos.

Como são produzidos animais transgênicos?

Animais transgênicos são produzidos pela injeção de DNA previamente clonado de uma espécie em ovos de outra espécie. 0 DNA é injetado por meio de uma microagulha diretamente no núcleo de ovos da espécie que se deseja transformar.

Se a espécie em questão for um mamífero como um camundongo, por exemplo, é necessário realizar a fecundação in vitro e, posteriormente, implantar o embrião no útero de uma fêmea em período fértil.

Para realizar a fecundação in vitro, é preciso retirar os óvulos das fêmeas, colocá-los em um líquido apropriado e adicionar espermatozoides. D processo da fecundação é acompanhado ao microscópio e, tão logo ocorra, o segmento de DNA que se deseja incorporar é injetado na célula-ovo. A microinjeção é feita por meio de uma aparelhagem de micromanipulação e o DNA contido em uma finíssima agulha é injetado diretamente no núcleo da célula-ovo. Qs embriões originados desses ovos são, então, implantados no útero de uma fêmea, onde se desenvolvem.

Em geral, uma ou mais moléculas do DNA injetado incorporam-se aos cromossomos da célula- -ovo, sendo transmitidas às células-filhas quando o zigoto se divide. Nesse caso, todas as células do indivíduo conterão esse DNA. Quando o organismo transgênico se reproduzir, os genes incor­porados serão transmitidos aos descendentes, como qualquer outro gene. (Fig. 8.18)






0 primeiro transplante de genes bem-sucedido em animais foi realizado em 1981. Pedaços de DNA de coelho com o gene da hemoglobina foram injetados em ovos de camundongos; estes foram implantados no útero de fêmeas de camundongo, onde se desenvolveram.

üs camundongos nascidos desses ovos tinham hemoglobina de coelho em suas hemácias. Isso mostrou que o DNA injetado no ovo se incorporou a um cromossomo e foi transmitido de célula a célula, por meio das mitoses ocorridas no desenvolvimento embrionário. Quando os camundongos transgênicos foram cruzados, o gene do coelho incorporado ao seu genoma foi transmitido de geração a geração, segundo as leis básicas da herança.

Transgênicos entre animais e plantas

A manipulação genética de plantas é mais simples que a de animais, uma vez que é relativa­mente fácil obter uma planta completa a partir de uma única célula geneticamente transformada. Ds genes que se deseja introduzir na planta podem ser ligados a moléculas do plasmídio Ti da bactéria Agrobacterium tumefaciens, que tem capacidade de integrar-se ao cromossomo da planta. Pode-se também introduzir DNA em células vegetais bombardeando-as com minús­culas partículas de metal com DNA aderido em sua superfície. As células que incorporam os genes são induzidas, por hormônios vegetais, a se multiplicar e originar plantas completas, que serão transgênicas.

Um exemplo bem ilustrativo de produção de planta transgênica foi a introdução do gene da enzima luciferase, do vaga-lume, em uma planta de tabaco. Essa enzima catalisa a degradação da luciferina, uma reação química que libera energia na forma de luz (bioluminescência],

D gene, clonado em um plasmídio, multiplicou-se em bactérias e depois de purificado foi injetado em uma célula do tabaco. Por meio da técnica de cultura de tecidos vegetais, conhecida há muito tempo pelos botânicos, produziu-se uma planta inteira a partir dessa única célula transformada. 0 gene clonado incorporou-se a um dos cromossomos da célula e foi transmitido a todas as células da planta. Quando esta foi regada com luciferina, passou a emitir luz. (Fig. 8.19)






Nos últimos anos, os transgênicos de plantas tornaram-se amplamente conhecidos da po­pulação, principalmente devido às polêmicas sobre o plantio de uma determinada variedade transgênica de soja.

Essas plantas de soja receberam um gene que confere resistência a determinados herbici­das, substâncias utilizadas para matar as ervas daninhas que crescem nos campos cultivados. Com isso, os agricultores podem utilizar herbicidas que matam todas as outras plantas, menos a soja transgênica; com a eliminação das plantas competidoras, aumenta a produtividade da lavoura de soja.

Outro organismo transgênico bem conhecido do público leigo é o milho bt, que tem incor­porado em seu genoma um gene da bactéria Bacillus thuringensis, que produz uma substância tóxica aos insetos, mas inofensiva aos mamíferos. Essa linhagem de milho apresenta, por isso, resistência ao ataque de insetos, tendo sido liberada para uso na alimentação do gado, mas não para uso humano.

Desvendando o genoma humano

Como vimos, atualmente contamos com metodologias sofisticadas que permitem cortar moléculas de DNA em pedaços definidos e separá-los uns dos outros. Sabemos como induzir a multiplicação dos fragmentos isola­dos para obter uma infinidade de cópias de cada um deles. Descobrimos como unir pedaços de DNA de origens diferentes, produzindo moléculas- -quimeras. Estas podem ser introduzidas em células vivas, modifican­do seu funcionamento e sendo transmitidas para as gerações futuras. Há a perspectiva de que, no futuro, certas doenças hereditárias humanas possam ser curadas pela substituição dos genes defeituosos nas células onde eles se expressam.

As pesquisas sobre o DNA culminaram, no início do século XXI, com a conclusão do Projeto Genoma Humano, uma ambiciosa empreitada científica cujo objetivo é conhecer todo o conteúdo do genoma humano. Ds resultados desse projeto têm mostrado que o sistema biológico é mais complexo do que se imaginava e que ainda será necessária muita pesquisa para começarmos a compreender os fundamentos da vida.

Projeto Genoma Humano

0 Projeto Genoma Humano teve início oficialmente em outubro de 1990, com a publicação de um plano de pesquisa cujo objetivo principal era determi­nar a seqüência de todos os nucleotídios dos 24 cromossomos constituintes do genoma humano (os 22 autossomos e os cromossomos sexuais X e VI. Outro objetivo do projeto era identificar todos os genes humanos.

No plano inicial estava previsto o desenvolvimento de técnicas para análise dos dados e de normas para os problemas éticos, legais e sociais que certamente iriam surgir com o aumento de conhecimento na área. Previa-se, também, o sequenciamento do genoma de organismos usados como modelo na investigação biológica, como a bactéria Escherichia coli, o verme nematódeo Caenorhabditis elegans, a mosca Drosophila melanogaster e o camundongo Mus musculus, entre outros.

0 projeto foi iniciado por duas agências governamentais estadunidenses, o Departamento de Energia e o Instituto Nacional de Saúde [NIH], com a participação de universidades e institutos de pesquisa de diversos países.




Em maio de 1998, uma companhia particular fundada especialmente para esse fim, a Celera Genomics, entrou na disputa pela pesquisa sobre o sequenciamento do genoma humano, prevendo completá-lo em apenas três anos, o que significava quatro anos antes do previsto pelo consórcio público. A principal diferença entre os dois projetos era o método utilizado para a determinação das seqüências de nucleotidios.

A estratégia do consórcio público era dividir cada cromossomo em grandes fragmentos e determinar a seqüência de nucleotidios de fragmentos adjacentes. A Celera adotou a estratégia de partir todo o genoma em pequenos fragmentos, sequenciar cada um deles e, em seguida, ordená-los por meio da sobreposição de suas extremidades, o que demandaria a utilização de poderosos computadores e sofisticados programas de computação. Outra diferença é que a Celera não pretendia tornar públicos os dados obtidos, mas patenteá-los e comercializá-los.

Tendo em vista a possibilidade de uma empresa particular tornar-se proprietária exclusiva de um patrimônio da humanidade - o genoma humano o consórcio público redobrou os esforços para concluir o projeto em menor tempo.

Finalmente, em 26 de junho de 2000, os pesquisadores Francis Collins (líder do consórcio público) e Craig Venter (presidente da Celera Genomics) anunciaram na Casa Branca, sede do governo dos Estados Unidas da América, na cidade de Washington, a conclusão de um esboço geral do genoma humano. Os trabalhos relatando a conclusão do sequenciamento foram publi­cados nas revistas científicas Science (a parte realizada pela Celera) e Nature (a parte realizada pelo consórcio público) em fevereiro de 2001.

Com o final do sequenciamento conclui-se que o genoma humano é constituído por cerca de 3 bilhões de pares de nucleotidios, distribuídos nos 22 autossomos e nos cromossomos sexuais X e Y. Para se ter ideia do que isso representa, se escrevêssemos a seqüência de iniciais das bases M, T, C e G) de apenas uma das cadeias do DNA constituinte dos 24 cromossomos humanos em tipos bem pequenos, preencheríamos mais de 200 volumes equivalentes a grossas listas telefônicas.

Apenas 3% dos 3 bilhões de pares de bases do genoma humano correspondem a genes; 97% são seqüências não codificantes, isto é, não transcritas para moléculas de RNA.

0 número total de genes humanos - cerca de 20 mil - é bem menor do que o previsto antes do sequenciamento do genoma humano. Quanto a esse número, estamos em pé de igualdade com os camundongos e pouco acima das moscas, cujo genoma possui 13 mil genes. Assim, a quantidade de genes não é o que faz a diferença entre o grau de complexidade dos organismos, mas sim como esses genes funcionam, suas relações entre si e com o ambiente.

0 sequenciamento do DNA humano revelou que muitos de nossos genes são semelhantes aos de bactérias e de vírus. Cerca de 40% de nossos genes são semelhantes aos dos vermes nematódeos, 60% são semelhantes aos de drosófilas e nada menos que 90% de nossos genes são semelhantes aos dos camundongos. Diferimos de nosso parente mais próximo, o chimpanzé, em apenas 1% das seqüências de DNA, ou seja, em apenas um par de bases nitrogenadas a cada 100 pares.

Os esforços para o sequenciamento do genoma humano têm levado a um grande desenvolvimen­to tecnológico, o que facilita o sequenciamento de genomas de outras espécies de interesse.

No Brasil, o primeiro genoma a ser totalmente sequenciado foi o da bactéria Xillela fastidiosa, espécie que causa a doença dos laranjais conhecida como amarelinho. Outros projetos genomas têm sido desenvolvidos em diversos estados brasileiros, com auxílio de agências financiadoras de pesquisa federais e estaduais.



Geneterapia

0 sucesso da produção de animais transgênicos abriu a perspectiva de correção de doenças gené­ticas, procedimento chamado de geneterapia. Teoricamente, seria possível substituir ou adicionar às células de uma pessoa doente uma cópia correta do alelo alterado, causador da doença genética.



Apesar de esse tipo de tratamento ainda não ser uma realidade prática, muitos já se preocupam com os problemas éticos que ele possa trazer. Alguns argumentam que a geneterapia poderia levar a um controle da distribuição de genes humanos. Outros acreditam que não haveria nenhuma diferença entre a engenharia genética de células humanas e outros métodos convencionais de terapia.


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