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Profª Camila Pasqual

ENEM —Dicas de Literatura: Texto Poético, Texto Literário, Estilos de Época, Poesia, Modernismo.

Literatura é arte da palavra, sendo, portanto, um instrumento de comunicação e de interação, por isso, faz parte da prova de Linguagens e Códigos do ENEM. Sua abordagem segue o estilo da prova, ou seja, é contextualizada e exige bastante interpretação.

O ENEM privilegia alguns verbos e dentre eles está o relacionar. É importante que essa ação seja praticada nessa prova, logo, não estude a Literatura de forma fragmentada, contextualize-a, relacione o contexto histórico com a escola literária e com as manifestações artísticas da época. Não se esquecendo de estudar os autores que são considerados ícones dentro daquela escola.

A Literatura desde os primórdios é influenciada pelo momento histórico, pois está veiculada à sociedade, logo se torna difícil entender uma sem ter conhecimento do outro.

Outro aspecto relevante para a prova de Literatura do ENEM é o conhecimento da cronologia da Literatura Brasileira, ou seja, a ordem em que as escolas literárias aparecem e como se dá sua classificação, pelo estilo e época (correntes literárias).

Em 2014, o Modernismo configura-se como uma forte tendência para a prova do ENEM, uma vez que, entre outros fatores, um dos ícones da poesia de 1930, Vinícius de Moraes, estaria completando 100 anos. Como é comum ao ENEM aproveitar as datas comemorativas para abordá-las em sua prova, é interessante ficar atento a isso.

Vinícius de Moraes fez muito sucesso com suas composições que falavam de amor, mas alcançou igual destaque para as de cunho social.  Como uma das temáticas que se destacam no ENEM é essa, não deixe de estudar as características da poesia de 1930 e da obra de Vinícius de Moraes, atentando para o poema “Operário em construção”, que possui figuras de linguagem, intertextualidades, além de outros elementos.

Por último, nos estudos para a prova de Literatura, não se esqueça de relacionar as manifestações artísticas que ocorreram no passado com as que ocorrem hoje. Por exemplo, era característica do Classicismo a busca pela perfeição da forma e a exaltação dos ideais da beleza. Será que isso só acontecia naquela época? E nos nossos dias, será que esses ideais não estão presentes? Então, sempre que você for estudar, procure relacionar as manifestações artísticas.


O poema Operário em construção foi  escrito  por Vinícius de Moraes em 1956 e pode ser compreendido como uma metáfora para a construção da consciência de um trabalhador. De modo geral, a obra de Vinícius tem traços da  segunda e da terceira geração do Modernismo brasileiro, período em que os textos estavam fortemente impregnados de questões sociais e políticas.

A  primeira estrofe apresenta o  operário  por meio de uma comparação e uma  metáfora que o identificam como trabalhador da construção civil sem  consciência de sua importância social

Era ele que erguia casas

Onde antes só havia chão.



Como um pássaro sem asas

Ele subia com as casas

Que lhe brotavam da mão.

Mas tudo desconhecia

De sua grande missão:
Nos versos abaixo, as palavras liberdade  e escravidão são associadas não como ideias opostas (o que, em uma leitura imediata, induziria o leitor a pensar em uma antítese), mas sim como um paradoxo – figura de linguagem caracterizada pela associação de ideias contraditórias. Tal análise justifica-se, uma vez que o produto de seu trabalho deveria garantir liberdade ao  operário; no  entanto,  isso  não se concretiza conforme o  texto  progride até o  seu  final.

Não sabia, por exemplo,

Que a casa de um homem é um templo

Um templo sem religião

Como tampouco sabia

Que a casa que ele fazia



Sendo a sua liberdade

Era a sua escravidão.

Em contraste com a alienação inicial,  o operário é tomado por uma súbita revelação e a tomada de consciência de que  tudo   à sua volta é  fruto de seu trabalho: “[...] casa, cidade, nação!/ Tudo o que existia/ era ele quem  o  fazia [...]“. A partir desse ponto, o  poema mostra  como  isso  passa a interferir em  seu  dia a dia.

Ah, homens de pensamento

Não sabereis nunca o quanto

Aquele humilde operário

[...]


O operário emocionado

Olhou sua própria mão

Sua rude mão de operário

De operário em construção

E olhando bem para ela

Teve um segundo a impressão

De que não havia no mundo

Coisa que fosse mais bela.

O  poema de Vinícius, como  outros  de sua geração, traz um importante questionamento a acerca das condições trabalhistas.  Os versos “O que  um operário dizia/ outro  operário  escutava” representam  as organizações sindicais. Por meio de metáforas, na estrofe abaixo há uma reflexão sobre as desigualdades existentes entre as duas classes  sociais presentes no texto:

Notou que sua marmita

Era o prato do patrão

Que sua cerveja preta

Era o uísque do patrão

Que seu macacão de zuarte

Era o terno do patrão

Que o casebre onde morava

Era a mansão do patrão

Que seus dois pés andarilhos

Eram as rodas do patrão

Que a dureza do seu dia

Era a noite do patrão

Que sua imensa fadiga

Era amiga do patrão.

Os  versos seguintes mostram a  influência do operário sobre os outros empregados, até o momento em  que é delatado pelos colegas (“Como era de se esperar/ As bocas da delação/ Começaram a dizer coisas/Aos ouvidos do patrão.”). Como resultado, o  patrão ordena que o  funcionário seja “convencido” a mudar  suas convicções.

Dia seguinte, o operário

Ao sair da construção

Viu-se súbito cercado

Dos homens da delação

E sofreu, por destinado

Sua primeira agressão.

Teve seu rosto cuspido

Teve seu braço quebrado

Mas quando foi perguntado

O operário disse: Não!

A epígrafe que abre o texto é extraída do Evangelho de São Lucas (Lc 5, 5-8). Na passagem bíblica, Cristo é levado pelo Diabo ao alto de um monte e ali é desafiado a adorar seu  opositor. O texto de Vinícius de Moraes retoma essa ideia por meio de uma estrofe em que o  operário é desafiado a  abandonar sua ética em troca de favores de seu patrão, após esse perceber que nem mesmo a violência o convenceria:

[...]

De sorte que o foi levando

Ao alto da construção

E num momento de tempo

Mostrou-lhe toda a região

E apontando-a ao operário

Fez-lhe esta declaração:

– Dar-te-ei todo esse poder

E a sua satisfação

Porque a mim me foi entregue

E dou-o a quem bem quiser.

Dou-te tempo de lazer

Dou-te tempo de mulher.

Portanto, tudo o que vês

Será teu se me adorares

E, ainda mais, se abandonares

O que te faz dizer não.

[...]


Nesse poema, a lógica das relações de trabalho é apresentada por meio de uma metonímia.  Vinícius não  nos  fala  de um patrão e um empregado específico, mas de duas classes sociais que vivem  em  lados opostos:  “Via tudo  que fazia /O lucro do seu patrão/ E em cada coisa que via / Misteriosamente havia/A marca de sua mão.” O  trabalhador reluta e, ao dizer “Não!”, deixa explícito  que  sua liberdade de pensamento  e sua ética são seus maiores bens.

QUESTÕES DE PROVAS DO ENEM
1) Enem 2011

TEXTO I

Onde está a honestidade?
Você tem palacete reluzente

Tem joias e criados à vontade

Sem ter nenhuma herança ou parente

Só anda de automóvel na cidade...


E o povo pergunta com maldade:

Onde está a honestidade?

Onde está a honestidade?
O seu dinheiro nasce de repente

E embora não se saiba se é verdade

Você acha nas ruas diariamente

Anéis, dinheiro e felicidade...


Vassoura dos salões da sociedade

Que varre o que encontrar em sua frente

Promove festivais de caridade

Em nome de qualquer defunto ausente....



ROSA, N. Disponível em: http://www.mpbnet.com.br. Acesso em: abr. 2010.
TEXTO II
Um vulto da história da música popular, reconhecido nacionalmente, é Noel Rosa. Ele nasceu em 1910, no Rio de Janeiro; portanto, se estivesse vivo, estaria completando 100 anos. Mas faleceu aos 26 anos de idade, vítima de tuberculose, deixando um acervo de grande valor para o patrimônio cultural brasileiro. Muitas de suas letras representam a sociedade contemporânea, como se tivessem sido escritas no século XXI.

Disponível em: http://www.mpbnet.com.br. Acesso em: abr. 2010.

Um texto pertencente ao patrimônio literário-cultural brasileiro é atualizável, na medida em que ele se refere a valores e situações de um povo. A atualidade da canção Onde está a honestidade?, de Noel Rosa, evidencia-se por meio:

a) da ironia, ao se referir ao enriquecimento de origem duvidosa de alguns.

b) da crítica aos ricos que possuem joias, mas não têm herança.

c) da maldade do povo a perguntar sobre a honestidade.

d) do privilégio de alguns em clamar pela honestidade.

e) da inexistência em promover eventos beneficentes.
Comentário da questão

Alternativa A. O título da poesia musicada de Noel Rosa já adverte para uma situação irregular de procedimentos de vida que uma tal pessoa consegue benefícios e bens de forma duvidosa e, de forma maldosa, quem a conhece pergunta: "Onde está a honestidade?" É por esta forma jocosa, irônica, que Noel procura fazer com que as pessoas reflitam para a conquista de patrimônio e de sucesso, apenas, de forma honesta, decente e objetiva, sem precisar do uso de artifícios duvidosos para tanto.

Vale lembrar também que, na canção de Noel Rosa, o eu lírico contrapõe a riqueza de um sujeito (“Você tem palacete reluzente/tem joias e criados à vontade”) à origem obscura dos bens, revelando ironia ao afirmar, por exemplo, que “o seu dinheiro nasce de repente”. A denúncia do enriquecimento ilícito garante a atualidade do texto.


2)Enem 2010
Não tem tradução

[...] Lá no morro, se eu fizer uma falseta

A Risoleta desiste logo do francês e do inglês

A gíria que o nosso morro criou

Bem cedo a cidade aceitou e usou

[...] Essa gente hoje em dia que tem mania de exibição

Não entende que o samba não tem tradução no idioma francês.

Tudo aquilo que o malandro pronuncia

Com voz macia é brasileiro, já passou de português

Amor lá no morro é amor pra chuchu

As rimas do samba não são I love you

E esse negócio de alô, alô boy e alô Johnny

Só pode ser conversa de telefone

ROSA, N. In: SOBRAL, João J. V. A tradução dos bambas. Revista Língua Portuguesa. Ano 4, nº 54. São Paulo: Segmento, abr. 2010 (fragmento).

As canções de Noel Rosa, compositor brasileiro de Vila Isabel, apesar de revelarem uma aguçada  preocupação do artista com seu tempo e com as mudanças político-culturais no Brasil, no início dos anos 1920, ainda  são modernas. Nesse fragmento do samba Não tem tradução, por meio do recurso da  metalinguagem, o poeta propõe

a) incorporar novos costumes de origem francesa e americana, juntamente com vocábulos estrangeiros.

b) respeitar e preservar o português padrão como forma de fortalecimento do idioma do Brasil.

c) valorizar a fala popular brasileira como patrimônio linguístico e forma legítima de identidade nacional.

d) mudar os valores sociais vigentes à época, com o advento do novo e quente ritmo da música popular brasileira.

e) ironizar a malandragem carioca, aculturada pela invasão de valores étnicos de sociedades mais desenvolvidas.

Comentário da questão

Alternativa “C”. A música de Noel Rosa combate as influências francesas e inglesas, estas últimas com muito tempo de domínio em nosso país, pela condição de serem consideradas símbolos da cultura, da internacionalidade, da importância de saber mais sobre as culturas, costumes e vocabulários dos dois idiomas. Esta era a moda da época do Noel Rosa - a preocupação em se saber mais sobre culturas externas e esquecimento de nossas origens. Noel Rosa procurou satirizar aquelas interferências, compondo música popular brasileira, com grande influência de costumes cariocas, o povo, a fala deste povo, a moradia, a felicidade acompanhada da simplicidade. Procurou ironizar camadas sociais preocupadas em comunicar-se em francês e inglês, considerando-se cultas para a época.

3) Enem 2013

Olá! Negro 

Os netos de teus mulatos e de teus cafuzos

e a quarta e a quinta gerações de teu sangue sofredor

tentarão apagar a tua cor!

E as gerações dessas gerações quando apagarem

a tua tatuagem execranda, 

não apagarão de suas almas, a tua alma, negro! 

Pai-João, Mãe-negra, Fulô, Zumbi, 

negro-fujão, negro cativo, negro rebelde

negro cabinda, negro congo, negro ioruba, 

negro que foste para o algodão de USA 

para os canaviais do Brasil, para o tronco, para o colar de ferro, para a canga 

de todos os senhores do mundo;

eu melhor compreendo agora os teus blues 

nesta hora triste da raça branca, negro! 

Olá, Negro! Olá, Negro! 

A raça que te enforca, enforca-se de tédio, negro! 
LIMA, J. Obras completas. Rio de Janeiro: Aguilar, 1958 (fragmento).   
O conflito de gerações e de grupos étnicos reproduz, na visão do eu lírico, um contexto social assinalado por:

a) modernização dos modos de produção e consequente enriquecimento dos brancos. 

b) preservação da memória ancestral e resistência negra à apatia cultural dos brancos.

c) superação dos costumes antigos por meio da incorporação de valores dos colonizados. 

d) nivelamento social de descendentes de escravos e de senhores pela condição de pobreza. 

e) antagonismo entre grupos de trabalhadores e lacunas de hereditariedade.


Comentário da questão: 

Alternativa “ B”. Fica explícito, no poema de Jorge de Lima, o engajamento social do escritor ao escolher um tema que dialoga com a realidade dos negros no Brasil. É possível observar grande preocupação com a questão da discriminação racial, oriunda de um triste episódio de nossa História: a escravidão e o tráfico negreiro. Jorge defende em seu poema a preservação da identidade cultural dos negros, sobretudo no verso “não apagarão de suas almas, a tua alma, negro!”, que aponta para a ideia de resistência negra à apatia cultural dos brancos.

4) Enem 2013

Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou.

[...] Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever. Como começar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer? Se antes da pré-história já havia os monstros apocalípticos? Se esta história não existe, passará a existir. Pensar é um ato. Sentir é um fato. Os dois juntos – sou eu que escrevo o que estou escrevendo. [...] Felicidade? Nunca vi palavra mais doida, inventada pelas nordestinas que andam por aí aos montes.

Como eu irei dizer agora, esta história será o resultado de uma visão gradual – há dois anos e meio venho aos poucos descobrindo os porquês. É visão da iminência de. De quê? Quem sabe se mais tarde saberei. Como que estou escrevendo na hora mesma em que sou lido. Só não inicio pelo fim que justificaria o começo – como a morte parece dizer sobre a vida – porque preciso registrar os fatos antecedentes.



LISPECTOR, C. A hora da estrela. Rio de Janeiro:  Rocco, 1998 (fragmento).

A elaboração de uma voz narrativa peculiar acompanha a trajetória literária de Clarice Lispector, culminada com a obra A hora da estrela, de 1977, ano da morte da escritora. Nesse fragmento, nota-se essa peculiaridade porque o narrador

a) observa os acontecimentos que narra sob uma ótica distante, sendo indiferente aos fatos e às personagens. 

b) relata a história sem ter tido a preocupação de investigar os motivos que levaram aos eventos que a compõem.

c) revela-se um sujeito que reflete sobre questões existenciais e sobre a construção do discurso.
d) admite a dificuldade de escrever uma história em razão da complexidade para escolher as palavras exatas.

e) propõe-se a discutir questões de natureza filosófica e metafísica, incomuns na narrativa de ficção.
Comentário da questão:

Alternativa “C”. O romance A hora da estrela apresenta um narrador onisciente intruso, interferindo no destino da personagem e funcionando como uma espécie de alter ego de Clarice Lispector. A narrativa é construída em uma fragmentação ternária com as histórias interligadas — a da personagem, a do narrador e a própria história. No fragmento apresentado, o narrador promove uma reflexão existencial que se debruça sobre o fazer artístico por meio da metalinguagem do texto e trabalha a palavra como uma tentativa de resposta às suas próprias perguntas. O narrador do trecho, Rodrigo S.M., de A hora da estrela, não se limita a narrar os fatos. Ele reflete sobre questões existenciais, como mostra o trecho “Pensar é um ato. Sentir é um fato”, bem como sobre a própria escrita, como evidencia”.Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever.”

5) Enem 2011


TEXTO I

O meu nome é Severino,


não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias,
mas isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem fala
ora a vossas senhorias?

MELO NETO, J. C. Obra completa. Rio de Janeiro, Aguilar, 1994 (fragmento)
TEXTO II

João Cabral, que já emprestara sua voz ao rio, transfere-a, aqui, ao retirante Severino, que, como o Capibaribe, também segue no caminho do Recife. A autoapresentação do personagem, na fala inicial do texto, nos mostra um Severino que, quanto mais se define, menos se individualiza, pois seus traços biográficos são sempre partilhados por outros homens. SECCHIN, A. C. João Cabral: a poesia do menos. Rio de Janeiro, Topbooks, 1999 (fragmentos)


Com base no trecho de Morte e Vida Severina (Texto I) e na análise crítica (Texto II), observa-se que a relação entre o texto poético e o contexto social a que ele faz referência aponta para um problema social expresso literariamente pela pergunta: "Como então dizer quem fala/ ora a vossas senhorias?". A resposta à pergunta expressa no poema é dada por meio da

a) descrição minuciosa dos traços biográficos do personagem-narrador.

b) construção da figura do retirante nordestino com um homem resignado com a sua situação.

c) representação, na figura do personagem-narrador, de outros Severinos que compartilham sua condição.

d) apresentação do personagem-narrador como uma projeção do próprio poeta em sua crise existencial.

e) descrição de Severino, que, apesar de humilde, orgulha-se de ser descendente do coronel Zacarias.



Comentário da questão

Alternativa C. Por mais que quisesse identificar-se e caracterizar-se, mais distante de sua identidade ficava Severino, o retirante, protagonista do poema e da encenação em "Morte e Vida Severina". Conhecido o poema, na sua totalidade e pelo próprio título, deduz-se mais um entre muitos ''Severinos'', sem rumo e conhecedor de seu infortúnio e de seu destino, incapaz de ser reconhecido como um particular ser, pois muitos e tantos outros tinham o mesmo destino que ele: a miséria, o sertão e a falta de oportunidades. Finaliza, então, com um questionamento: como querer e poder identificar-se se há tantos outros com a mesma sina? Se todos a quem se apresenta também são outros severinos? Sofredores, conformados pela falta de recursos, de condições de trabalho e infelizes com uma sobrevivência miserável.

Letra A errada. No trecho há referência apenas ao processo de nomeação, que aponta para a generalização e não para a minúcia.

Letra B errada. Ao questionar a maneira de se apresentar, Severino mostra consciência de sua condição social, estendida a tantos outros, sugerindo certo incômodo e não resignação.

Letra C certa. No texto selecionado, a personagem Severino se apresenta a partir de traços que são comuns a outras pessoas que partilham sua condição social; possui um nome comum a sua identificação, relacionada aos pais, cujos nomes também são comuns a muitos nordestinos.

Letra D errada. Nada no texto permite afirmar que o personagem-narrador é uma projeção do poeta, nem identificar no discurso uma “crise” existêncial”. O questionamento tem base na questão social.

Letra E errada. Severino não descende do coronel Zacarias; seu pai recebeu esse nome em homenagem a um antigo senhor da sesmaria.
6) Enem 2011

Quem é pobre, pouco se apega, é um giro-o-giro no vago dos gerais, que nem os pássaros de rios e lagoas.  O senhor vê: o Zé-Zim o melhor meeiro meu aqui, risonho e habilidoso. Pergunto: - Zé-Zim, por que é que você não cria galinhas-d'angola, como todo mundo faz? - Quero criar nada não... - me deu resposta: - Eu gosto  muito de mudar... [...] Belo um dia, ele tora. Ninguém discrepa. Eu, tantas, mesmo digo. Eu dou  proteção. [...] Essa não faltou também à minha mãe, quando eu era menino, no sertãozinho de minha terra.  [...] Gente melhor do lugar eram todos dessa família Guedes, Jidião Guedes; quando saíram de lá, nos  trouxeram junto, minha mãe e eu. Ficamos existindo em território baixio da Sirga, da outra banda, ali onde o de-Janeiro vai no São Francisco, o senhor sabe. ROSA, J. G. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: José Olympio (fragmento).

Na passagem citada, Riobaldo expõe uma situação decorrente de uma desigualdade social típica das áreas rurais brasileiras marcadas pela concentração de terras e pela relação de dependência entre agregados e fazendeiros. No texto, destaca-se essa relação porque o personagem-narrador
a) relata a seu interlocutor a história de Zé-Zim, demonstrando sua pouca disposição em ajudar seus agregados, uma vez que superou essa condição graças à sua força de trabalho.
b) descreve o processo de transformação de um meeiro — espécie de agregado — em proprietário de terra.

c) denuncia a falta de compromisso e a desocupação dos moradores, que pouco se envolvem no trabalho da terra.

d) mostra como a condição material da vida do sertanejo é dificultada pela sua dupla condição de homem  livre e, ao mesmo tempo, dependente.

e) mantém o distanciamento narrativo condizente com sua posição social, de proprietário de terras.



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