Profª Camila Pasqual enem —



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Comentário da questão

Alernativa D

Pela condição de pobreza, de extrema miséria, os sertanejos tornam-se errantes, em busca de melhores condições e não se apegam à sua terra, são conformados por demais e não veem oportunidades; para muitos faltam-lhes iniciativas, pela mesmice de vida. Embora livres para ir e vir, mantêm-se dependentes para decidir por algo a melhorar, arranjam ‘’servicim’’ aqui, ‘’servicim’’ ali e aceitam o que lhes é dado. Caso típico de Riobaldo, protagonista de "Grande Sertão: Veredas". Através da fala do narrador, percebe-se a relação paternalista (“Eu dou proteção”) e exploradora na relação proprietários e trabalhadores das áreas rurais brasileiras. Zé-Zim é “meeiro”, trabalhador de terra alheia que reparte o rendimento com o dono da terra, o que o coloca numa relação de servilismo e dependência, semelhante ao do agregado que deve atender às exigências do seu protetor para poder sobreviver. Assim, a sua condição de vida é dificultada pelo duplo estado de homem livre e, ao mesmo tempo, dependente, como se afirma em “D”.

7) Enem 2012

Miguilim


“De repente lá vinha um homem a cavalo. Eram dois. Um senhor de fora, o claro de roupa. Miguilim saudou, pedindo a bênção. O homem trouxe o cavalo cá bem junto. Ele era de óculos, corado, alto, com um chapéu diferente, mesmo.

— Deus te abençoe, pequenino. Como é teu nome?

— Miguilim. Eu sou irmão do Dito.

— E o seu irmão Dito é o dono daqui?

— Não, meu senhor. O Ditinho está em glória.

O homem esbarrava o avanço do cavalo, que era zelado, manteúdo, formoso como nenhum outro.

Redizia:

— Ah, não sabia, não. Deus o tenha em sua guarda...Mas que é que há, Miguilim? Miguilim queria ver se o homem estava mesmo sorrindo para ele, por isso é que o encarava. — Por que você aperta os olhos assim? Você não é limpo de vista? Vamos até lá. Quem é que está em tua casa?

— É Mãe, e os meninos…

Estava Mãe, estava tio Terez, estavam todos.

O senhor alto e claro se apeou. O outro, que vinha com ele, era um camarada. O senhor perguntava à Mãe muitas coisas do Miguilim. Depois perguntava a ele mesmo:— ‘Miguilim, espia daí: quantos dedos da minha mão você está enxergando? E agora?”

ROSA, João Guimarães. Manuelzão e Miguilim.9ªed.Rio de Janeiro:Nova Fronteira,1984.

Esta história, com narrador observador em terceira pessoa, apresenta os acontecimentos da perspectiva de Miguilim. O fato de o ponto de vista do narrador ter Miguilim como referência, inclusive espacial, fica explicitado em:

a)“O homem trouxe o cavalo cá bem junto.”

b)“Ele era de óculos ,corado, alto (…)”

c)“O homem esbarrava o avanço do cavalo,(…)”

d)“Miguilim queria ver se o homem estava mesmo sorrindo para ele,(…)”

e)“Estava Mãe, estava tio Terez, estavam todos”
Comentário da questão

Alernativa A. A explicitação de que o ponto de vista do narrador da novela “Campo Geral”,de Guimarães Rosa, tem o protagonista Miguilim por “referência, inclusive espacial” está na expressão “cá bem junto”, em que o advérbio “cá”, marcador de espaço próximo de quem fala, mostra que o narrador está posicionado próximo a Miguilim. É preciso fazer um reparo à afirmação de que a novela “Campo Geral” apresenta um “narrador observador em terceira pessoa”. De fato, o narrador conta a história em terceira pessoa: seu âmbito de visão descortina os movimentos de todas as personagens, com capacidade de revelar detalhes miúdos e aparentemente insignificantes. O foco aguça-se mais, no entanto, em relação ao protagonista, Miguilim; nesse caso, o narrador comporta-se de modo onisciente, desvelando os sentimentos mais íntimos do menino, suas fantasias secretas e sonhos. Trata-se, pois, do recurso chamado, com propriedade, onisciência seletiva.
8)Enem 2013

No decênio de 1870, Franklin Távora defendeu a tese de que no Brasil havia duas literaturas independentes dentro da mesma língua: uma do Norte e outra do Sul, regiões segundo ele muito diferentes por formação histórica, composição étnica, costumes, modismos linguísticos etc. Por isso, deu aos romances regionais que publicou o título geral de Literatura do Norte. Em nossos dias, um escritor gaúcho, Viana Moog, procurou mostrar com bastante engenho que no Brasil há, em verdade, literaturas setoriais diversas, refletindo as características locais. CANDIDO, A. A nova narrativa. A educação pela noite e outros ensaios. São Paulo: Ática, 2003.

Com relação à valorização, no romance regionalista brasileiro, do homem e da paisagem de determinadas regiões nacionais, sabe-se que:

a) o romance do Sul do Brasil se caracteriza pela temática essencialmente urbana, colocando em relevo a formação do homem por meio da mescla de características locais e dos aspectos culturais trazidos de fora pela imigração europeia.

b) José de Alencar, representante, sobretudo, do romance urbano, retrata a temática da urbanização das cidades brasileiras e das relações conflituosas entre as raças.

c) o romance do Nordeste caracteriza-se pelo acentuado realismo no uso do vocabulário, pelo temário local, expressando a vida do homem em face da natureza agreste, e assume frequentemente o ponto de vista dos menos favorecidos.

d) a literatura urbana brasileira, da qual um dos expoentes é Machado de Assis, põe em relevo a formação do homem brasileiro, o sincretismo religioso, as raízes africanas e indígenas que caracterizam o nosso povo.

e) Érico Veríssimo, Rachel de Queiroz, Simões Lopes Neto e Jorge Amado são romancistas das décadas de 1930 e1940 do século XX, cuja obra retrata a problemática do homem urbano em confronto com a modernização do país promovida pelo Estado Novo.


Comentário da questão
Alternativa “C”.

O regionalismo aparece na literatura brasileira em diversos momentos, com várias propostas estilísticas e temáticas. O romance nordestino se caracteriza pela exploração de regionalismos linguísticos e pelo registro realista da luta do homem contra a natureza inóspita.



Letra A errada. O romance do sul do país não foca essencialmente o espaço urbano. Vários deles retomam a história da formação da região, centrando-se no espaço rural.

Letra B errada. Os romances de José de Alencar são urbanos, regionais, indianistas e históricos. Nos romances urbanos, o foco está na abordagem de comportamentos sociais, sobretudo da elite. Não há abordagem de conflitos entre raças.

Letra C certa. O romance do Nordeste tem como foco as questões que afligem o homem comum, principalmente os menos favorecidos, em sua relação com a natureza hostil do sertão. Os autores denunciam as relações sociais e a ausência do Estado, em textos desprovidos de idealismo.

Letra D errada. A literatura de Machado de Assis, embora aponte para o contexto de época, procura o universalismo. O autor enfatiza os comportamentos humanos, sem os atrelar a discussões específicas sobre a formação cultural do brasileiro.

Letra E errada. Simões Lopes Neto é um autor da passagem do século XIX para o XX. Além disso, o foco dos demais autores mencionados não é necessariamente ou predominantemente, o homem urbano, mas sim o morador de áreas periféricas, que enfrenta dificuldades criadas pelas desigualdades regionais.

9) Enem 2013




MUSEU DA LÍNGUA PORTUGUESA. Oswald de Andrade: o culpado de tudo. 27 set.2011 a 29 jan. 2012. São Paulo: Prof. Gráfica. 2012. (Foto: Reprodução)
O poema de Oswald de Andrade remonta à ideia de que a brasilidade está relacionada ao futebol. Quanto à questão da identidade nacional, as anotações em torno dos versos constituem

a) direcionamentos possíveis para uma leitura crítica de dados histórico-culturais.

b) forma clássica da construção poética brasileira.

c) rejeição à ideia do Brasil como o país do futebol.

d) intervenções de um leitor estrangeiro no exercício de leitura poética

e) Lembretes de palavras tipicamente brasileiras substitutivas das originais.



Comentário da questão

Alternativa A.

As anotações junto aos versos ao longo do poema possibilitam direcionamentos possíveis para uma leitura crítica de dados histórico-culturais por parte dos leitores, como a que explica que Brasil é o país do futebol, ou que Cette não é um número, mas sim um time. Além disso, o todo do poema explicita a supremacia do futebol como marca de brasilidade. O eu lírico associa os placares de vitórias obtidas pelo time do Clube Paulistano em jogos contra equipes estrangeiras como forma de imposição do Brasil sobre a Europa. Deve-se reconhecer o tom jocoso que preside a apresentação do Brasil como “país do Futebol”, o qual remete às propostas de revisão crítica da identidade brasileira apresentadas por Oswald de Andrade desde os primeiros tempos do Modernismo.

10) Enem 2012


ARGAN, G. C. Arte moderna: do Iluminismo aos movimentos contemporâneos. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. (Foto: Reprodução/Enem)
O quadro Les Demoiselles d’Avignon (1907), de Pablo Picasso, representa o rompimento com a estética clássica e a revolução da arte no início do século XX. Essa nova tendência se caracteriza pela

a) pintura de modelos em planos irregulares.

b) Mulher como temática central da obra.

c) cena representada por vários modelos.

d) oposição entre tons claros e escuros.

e) nudez explorada como objeto de arte.


Comentário da questão

Alternativa A.

Observando o quadro de Pablo Picasso percebemos a pintura de uma mesma figura em planos irregulares, característicos do Cubismo. Essa inovação permitiu a ruptura com o modelo clássico revolucionando a arte no início do século XX. Para os artistas de vanguarda, a representação do mundo passava a não ter compromisso com a imitação do real. As demais características mencionadas fazem parte da tradição artística, não contendo aspectos estéticos revolucionários.



11) Enem 2012
Desde dezoito anos que o tal patriotismo lhe absorvia e por ele fizera a tolice de estudar inutilidades. Que lhe importavam os rios? Eram grandes? Pois que fossem... Em que lhe contribuiria para a felicidade saber o nome dos heróis do Brasil? Em nada... O importante é que ele tivesse sido feliz. Foi? Não. Lembrou-se das coisas do tupi, do folk-lore, das suas tentativas agrícolas... Restava disso tudo em sua alma uma satisfação? Nenhuma! Nenhuma!

O tupi encontrou a incredulidade geral, o riso, a mofa, o escárnio; e levou-o à loucura. Uma decepção. E a agricultura? Nada. As terras não eram ferazes e ela não era fácil como diziam os livros. Outra decepção. E, quando o seu patriotismo se fizera combatente, o que achara? Decepções. Onde estava a doçura de nossa gente? Pois ele não a viu combater como feras? Pois não a via matar prisioneiros, inúmeros? Outra decepção. A sua vida era uma decepção, uma série, melhor, um encadeamento de decepções.

A pátria que quisera ter era um mito; um fantasma criado por ele no silêncio de seu gabinete. BARRETO, L. Triste fim de Policarpo Quaresma. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br. Acesso em: 8 nov. 2011.

O romance Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, foi publicado em 1911. No fragmento destacado, a reação do personagem aos desdobramentos de suas iniciativas patrióticas evidencia que

a)a dedicação de Policarpo Quaresma ao conhecimento da natureza brasileira levou-o a estudar inutilidades, mas possibilitou-lhe uma visão mais ampla do país.

b) a curiosidade em relação aos heróis da pátria levou-o ao ideal de prosperidade e democracia que o personagem encontra no contexto republicano.

c) a construção de uma pátria a partir de elementos míticos, como a cordialidade do povo, a riqueza do solo e a pureza linguística, conduz à frustração ideológica.

d) a propensão do brasileiro ao riso, ao escárnio, justifica a reação de decepção e desistência de Policarpo Quaresma, que prefere resguardar-se em seu gabinete.

e) a certeza da fertilidade da terra e da produção agrícola incondicional faz parte de um projeto ideológico salvacionista, tal como foi difundido na época do autor.

Comentário da questão

Alternativa C.

O personagem do romance Triste fim de Policarpo Quaresma ao pôr em prática suas ações patrióticas torna claro que a construção de uma pátria a partir de elementos míticos -  cordialidade do povo, a riqueza do solo e a pureza linguística, conduz a uma frustração ideológica. O segundo parágrafo do fragmento confirma, não só essa ideia como a opção C sendo a resposta certa.



Letra A errada: Policarpo próximo do final da vida, repensa sua trajetória e percebe que seus estudos foram inúteis e que impossibilitaram uma visão real do Brasil e de seu povo.

Letra B errada. A obra de Lima Barreto crítica o contexto republicano pela ausência de democracia; Policarpo Quaresma conclui que a pátria que imaginara se converteu em um “fantasma no silêncio do seu quarto”.

Letra D errada. Policarpo enfrentou as zombarias dos colegas quando se dispôs a seguir a cultura indígena, mas isso não o levou a se resguardar em um gabinete. Ao longo da vida, procurou efetivar outras ações para beneficiar o Brasil e, no final dela, foi preso por ter sio considerado um traidor da pátria.

Letra E errada. O romance destaca a dificuldade em cultivar teras que não eram “ferazes” (“férteis, “fecundas”).
12) Enem

Mal secreto

Se a cólera que espuma, a dor que mora

N’alma, e destrói cada ilusão que nasce,

Tudo o que punge, tudo o que devora

O coração, no rosto se estampasse;
Se se pudesse, o espírito que chora,

Ver através da máscara da face,

Quanta gente, talvez, que inveja agora

Nos causa, então piedade nos causasse!


Quanta gente que ri, talvez, consigo

Guarda um atroz, recôndito inimigo,

Como invisível chaga cancerosa!
Quanta gente que ri, talvez existe,

Cuja ventura única consiste

Em parecer aos outros venturosa!

CORREIA, R. In: PATRIOTA, M. Para compreender Raimundo Correia. Brasília: Alhambra, 1995.
Coerente com a proposta parnasiana de cuidado formal e racionalidade na condução temática, o soneto de Raimundo Correia reflete sobre a forma como as emoções do indivíduo são julgadas em sociedade. Na concepção do eu lírico, esse julgamento revela que

a) a necessidade de ser socialmente aceito leva o indivíduo a agir de forma dissimulada.

b) o sofrimento íntimo torna-se mais ameno quando compartilhado por um grupo social.

c) a capacidade de perdoar e aceitar as diferenças neutraliza o sentimento de inveja.

d) o instinto de solidariedade conduz o indivíduo a apiedar-se do próximo.

e) a transfiguração da angústia em alegria é um artifício nocivo ao convívio social.


Comentário da questão

Alternativa A.

O poema de Raimundo Correia revela um olhar poético sobre a máscara social do ser humano. Cada indivíduo cria uma fortaleza interior em uma tentativa de ocultar suas fraquezas. O íntimo e a aparência formam uma oposição semântica que percorre todo o texto em uma espécie de metafísica Ser × Parecer.



Letra B errada. O eu lírico acusa os homens de dissimularem suas dores, ocultando-as do grupo social, incapaz de se solidarizar com uma condição individual de vulnerabilidade.

Letras C e D erradas. Segundo o poema, os indivíduos preocupam-se em construir uma imagem de felicidade perante o grupo social, não mostrando nenhuma disposição para um convívio mais verdadeiro ou solidário.

Letra E errada. O texto não fala em “ transfiguração! (“transformação”), mas em “dissimulação”. Esta tem sido colocada como regra que permite o convívio social.


13) Enem

Cárcere das almas

Ah! Toda a alma num cárcere anda presa,

Soluçando nas trevas, entre as grades

Do calabouço olhando imensidades,

Mares, estrelas, tardes, natureza.
Tudo se veste de uma igual grandeza

Quando a alma entre grilhões as liberdades

Sonha e, sonhando, as imortalidades

Rasga no etéreo o Espaço da Pureza.


Ó almas presas, mudas e fechadas

Nas prisões colossais e abandonadas,

Da Dor no calabouço, atroz, funéreo!
Nesses silêncios solitários, graves,

que chaveiro do Céu possui as chaves

para abrir-vos as portas do Mistério?!
CRUZ E SOUSA, J. Poesia completa. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura / Fundação Banco do Brasil, 1993.

Os elementos formais e temáticos relacionados ao contexto cultural do Simbolismo encontrados no poema Cárcere das almas, de Cruz e Sousa, são:

a) a opção pela abordagem, em linguagem simples e direta, de temas filosóficos.

b) a prevalência do lirismo amoroso e intimista em relação à temática nacionalista.

c) o refinamento estético da forma poética e o tratamento metafísico de temas universais.

d) a evidente preocupação do eu lírico com a realidade social expressa em imagens poéticas inovadoras.

e) a liberdade formal da estrutura poética que dispensa a rima e a métrica tradicionais em favor de temas do cotidiano.

Comentário da questão

Alternativa C.

O texto de Cruz e Sousa explora um tema universal — o do sofrimento humano — de forma abstrata e metafísica: apresenta a alma humana como encarcerada em “prisões da Dor”.(A universalidade do tema é provada pela alusão ao desejo de libertação do mundo material e ascensão ao plano dos espíritos) A forma poética escolhida pelo autor também demonstra refinamento, já que o soneto é uma forma consagrada pela literatura clássica. O caráter vago e o uso de maiúsculas sem necessidade gramatical também apontam para aspectos típicos do Simbolismo, estética a que o poema pode ser associado.


Letra A errada. Ao contrário do que afirma a alternativa, o poema vale-se de linguagem sofisticada e ambígua, típica do Simbolismo.

Letra B errada. O tema do poema é a morte como possibilidade de libertação da alma, e não o nacionalismo expresso em tom intimista.

Letra D errada. Não há qualquer referência à realidade social do período; o incômodo do eu lírico a situações do contexto histórico em que se insere.

Letra E errada. O tema da morte com a espiritualização não pode ser considerado cotidiano. Além disso, o poema organiza-se em forma fixa (soneto), com métrica regular ( versos decassílabos) e rígido esquema de rimas.
14) Enem 2011

Abatidos pelo fadinho harmonioso e nostálgico dos desterrados, iam todos, até mesmo os brasileiros, se concentrando e caindo em tristeza; mas, de repente, o cavaquinho de Porfiro, acompanhado pelo violão do Firmo, romperam vibrantemente com um chorado baiano. Nada mais que os primeiros acordes da música crioula para que o sangue de toda aquela gente despertasse logo, como se alguém lhe fustigasse o corpo com urtigas bravas. E seguiram-se outras notas, e outras, cada vez mais ardentes e mais delirantes. Já não eram dois instrumentos que soavam, eram lúbricos gemidos e suspiros soltos em torrente, a correrem serpenteando, como cobras numa floresta incendiada; eram ais convulsos, chorados em frenesi de amor música feita de beijos e soluços gostosos; carícia de fera, carícia de doer, fazendo estalar de gozo.



AZEVEDO, A. O cortiço. São Paulo: Ática, 1983 (fragmento).

No romance O Cortiço (1890), de Aluísio Azevedo, as personagens são observadas como elementos coletivos caracterizados por condicionantes de origem social, sexo e etnia. Na passagem transcrita, o confronto entre brasileiros e portugueses revela prevalência do elemento brasileiro, pois

a) destaca o nome de personagens brasileiras e omite o de personagens portuguesas.

b) exalta a força do cenário natural brasileiro e considera o do português inexpressivo.

c) mostra o poder envolvente da música brasileira, que cala o fado português.

d) destaca o sentimentalismo brasileiro, contrário à tristeza dos portugueses.

e) atribui aos brasileiros uma habilidade maior com instrumentos musicais.

Comentário da questão

Alternativa C.

No excerto de O Cortiço, de Aluísio de Azevedo, descreve-se a mudança de postura do grupo que se reunia para ouvir o som melancólico do cavaquinho de Porfiro e que, de repente, é surpreendido pelo ritmo vibrante do violão de Firmo. A nostalgia do fado é substituída pelo som envolvente e pleno de luxúria de um chorado baiano que contagia o grupo.



Letra A errada. A referência aos dois músicos não é suficiente para revelar o confronto entre os grupos.

Letra B errada. Não há referência aos cenários do Brasil e de Portugal.

Letra D errada. A tristeza dos portugueses tem como elemento de contraposição a sensualidade brasileira e não o sentimentalismo.

Letra E errada. Não há referência ao uso dos instrumentos pelos portugueses, logo não se pode identificar uma comparação.

15) (Enem 2011)

Lépida e leve

Língua do meu Amor velosa e doce,

que me convences de que sou frase,

que me contornas, que me vestes quase,

como se o corpo meu de ti vindo me fosse.

Língua que me cativas, que me enleias

os surtos de ave estranha,

em linhas longas de invisíveis teias,

de que és, há tanto, habilidosa aranha...

[...]


Amo-te as sugestões gloriosas e funestas,

amo-te como todas as mulheres

te amam, ó língua-lama, ó língua-resplendor,

pela carne de som que à ideia emprestas

e pelas frases mudas que proferes

nos silêncios de Amor!...



MACHADO. G. In: MORICONI, I. (org). Os cem melhores poemas brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001 (fragmento).

A poesia de Gilka Machado identifica-se com as concepções artísticas simbolistas. Entretanto, o texto selecionado incorpora referências temáticas e formais modernistas, já que, nele, a poeta:

a) procura desconstruir a visão metafórica do amor e abandona o cuidado formal.

b) concebe a mulher como um ser sem linguagem e questiona o poder da palavra.

c) questiona o trabalho intelectual da mulher e antecipa a construção do verso livre.

d) propõe um modelo novo de erotização na lírica amorosa e propõe a simplificação verbal.

e) explora a construção da essência feminina, a partir da polissemia de “língua”, e inova o léxico.

Comentário da questão

Alternativa E

No poema “Lépida e Leve”, o eu lírico estabelece aproximações sugestivas entre o exercício erótico e o fazer poético ("carícias supremas","formosos poemas"). Assim, o elemento-imagem “língua” é explorado polissemicamente no sentido de fonte de prazer e ideia, expressando o total envolvimento do criador com a obra criada (“Língua que me cativas, que me enleias /os surtos de ave estranha, /em linhas longas de invisíveis teias, /de que és, há tanto, habilidosa aranha...”). O eu lírico, feminino, projeta-se como “frase” e une-se ao discurso de todas as mulheres (“amo-te como todas as mulheres”), expressando o direito de desfrutar inteiramente do prazer.




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