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INTEGRALISMO, ANOS 30: MAIS UMA CONCEPÇÃO DE EDUCAÇÃO INTEGRAL ?



Profa. Dra. Lígia Martha Coimbra da Costa Coelho

Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro - UNIRIO
1. Educação integral e Integralismo : Um tema em um movimento
Durante minha vida profissional, algumas situações me levaram a refletir sobre educação integral e tempo integral. Entre elas, destaco a experiência concreta em instituições privadas que funcionavam – e funcionam, até hoje – em tempo integral, bem como a passagem por programa educacional do Governo Estadual do Rio de Janeiro1, quando tive a oportunidade de coordenar atividade central na concepção de educação integral e de tempo integral na escola pública.
No início de minha vida acadêmica, na área específica da Educação, intrigava-me o fato desse tema não fazer parte das pesquisas nacionais, latinas e/ou internacionais. Sentia a ausência de estudos aprofundados sobre educação integral e tempo escolar integral no Brasil. Com o tempo, e a ampliação de leituras que, de alguma forma, me davam subsídios para melhor entender essa temática, fui percebendo que o problema restringia-se aos países terceiromundistas. Em outras palavras, nos países desenvolvidos, as escolas por nós denominadas do ensino fundamental funcionam, todas, em, no mínimo, seis horas diárias, e com atividades diversificadas2, o que configura uma concepção de educação integral, dois fatos que, por si sós, já conduzem ao pouco – ou nenhum – interesse investigativo sobre o tema.
Concluí assim que, à quase não existência de escolas públicas de tempo e educação integral no país, sucede-se a inexistência de estudos aprofundados sobre essa especificidade e sobre a importância estratégica que pode vir a adquirir no panorama sócio-educacional brasileiro. Percebi também que, em termos de políticas públicas para a educação, em nível nacional, a essa quase inexistência somam-se ações governamentais que primam pelo trabalho pedagógico em tempo parcial, citando quase sempre o aspecto democrático de que se reveste essa opção.
Essa constatação conduziu-me ao pressuposto de que o conceito de democracia, identificado-se com visões sociais de mundo diversas e controversas, serve como cenário para o teatro da implantação e consolidação da escola pública brasileira, levando-me a ter, como objeto de estudo – a importância da educação integral e do tempo integral e(em) suas manifestações no Brasil e a um macro-problema, se assim o posso definir –as tentativas dessas práxis3 educativas na escola pública brasileira, durante o século XX tendo, como suporte, o conceito de democracia.
Assim definido o problema estabelece, de certa forma, um limite temporal – o século XX, mesmo reconhecendo a possível existência de manifestações de educação integral em tempo integral no Brasil do final do século XIX4. Contudo, a efervescência sócio-ideológica desse século para o estudo aprofundado daquelas experiências, notadamente em alguns de seus períodos, nos confirmaram a necessidade do recorte efetuado. Contudo, mesmo assim o problema de estudo configurava-se amplo demais. Era preciso recorte ainda mais cirúrgico. Desta forma, foram necessárias outras reflexões teóricas, que possibilitassem esse recorte.
A partir de meados de 2002, dediquei-me à pesquisa de fontes bibliográficas que abordassem as duas categorias-base daquele objeto de estudo e conseqüentemente, à leitura e análise dessa bibliografia. Tal mergulho teórico, ainda que incipiente, levou-me às seguintes questões:
1. Em âmbito nacional, a partir do século XX, quais grupos/organizações/tendências/partidos político-sociais implantaram instituições escolares baseadas em concepções de educação integral e/ou de tempo integral?
2. Quais os fundamentos da educação integral e do tempo integral encontrados nos documentos preparados e elaborados/trabalhados nas escolas implantadas por esses grupos/organizações/tendências/partidos?
3. Que estrutura organizacional essas instituições escolares apresentavam? Elas reproduziam as estruturas dos grupos/organizações/tendências/partidos que representavam?


  1. Como se processava a educação integral e o tempo integral no cotidiano dessas instituições escolares?




  1. Que conceito de democracia refletia-se no ideário dessas práxis educativas, a partir do pensamento sócio-político que as norteava e dos elementos detectados no cotidiano das escolas que as implementava?

As reflexões sobre as leituras anteriormente realizadas, bem como a amplitude das questões que essas reflexões desencadearam, de certa forma contribuíram para que delimitasse o problema, não mais ao século XX, mas ao período compreendido entre as décadas de 30 e 60, quando um verdadeiro caldo político-ideológico encontrou, nos movimentos anarquista, integralista e liberal, os ingredientes para a formação do sistema de ensino nacional laico tendo, como um de seus panos de fundo, concepções de educação integral e de tempo integral.


A partir dessa hipótese, traçamos como recorte temporal desta pesquisa o período de 30 a 60 e, como recorte temático e problema deste estudo o movimento integralista, depois partido integralista, em suas investidas educativas, notadamente no que se relaciona à elaboração de idéias e implantação de instituições escolares com uma concepção de educação integral.
Esta escolha não foi aleatória: norteou-se pela hipótese que acima apontei, e a partir da possibilidade de realização de pesquisa interdepartamental , na UNIRIO, visto que duas pesquisadoras de Departamento afim preocupam-se, atualmente, com os movimentos anarquista e liberal. É necessário acrescentar também que, durante o Curso de Doutorado, trabalhei com o tema Educação e Autoritarismo, em disciplina optativa, fato que levou-me a questionamentos e reflexões sobre o movimento integralista, o que pretendo retomar com esta pesquisa.
A fim de darmos continuidade ao estudo, apontamos como objetivos específicos da investigação:


  1. Verificar a existência de projetos político-pedagógico e/ou educacional, com destaque para a implantação de instituições escolares/cursos, que privilegiem a educação integral e/ou o tempo integral no movimento/partido integralista, durante as décadas de 30-60.




  1. Refletir acerca da existência daqueles projetos e/ou implantação de escolas, a partir da análise de documentos, de depoimentos e entrevistas com pessoas que, de alguma forma, tiveram contato – principalmente escolar – com essas realidades introjetadas no movimento/partido integralista, nas décadas de 30-60.




  1. Analisar os fundamentos teórico-metodológicos das propostas de educação integral e/ou de tempo integral existentes no projeto de educação do movimento/partido integralista, nas décadas de 30-60.




  1. Refletir sobre a categoria da democracia em sua relação com o sistema/proposta de educação do movimento/partido integralista, nas décadas de 30-60.

É pertinente esclarecer que os objetivos que propomos encontram igualmente um recorte espacial. Nesse sentido, além do recorte no tempo sócio-histórico, é importante ressaltar que nos limitaremos, também, e em um primeiro momento, ao cenário do atual estado do Rio de Janeiro. Este recorte não prescinde de pesquisas outras, realizadas por pesquisadores de/em outros estados que, motivados pelo tema-problema apresentados, possam contribuir para com o seu aprofundamento.


No entanto, nossa opção apresenta dois argumentos: primeiro, o fato de que, à época, o Rio de Janeiro era a capital do país, portanto lócus privilegiado de manifestações sócio-políticas, seguido do estado de São Paulo; em segundo lugar, o movimento integralista contava com um bom número de periódicos e revistas de divulgação de suas idéias, tanto na capital quanto nos municípios que, hoje, compõem o referido estado. No entanto, este material encontra-se disperso, em alguns casos já conhecidos5, o que abre perspectivas para um trabalho investigativo, inclusive, de resgate dessas fontes primárias.
Em síntese, a investigação encontra sua justificativa na própria pertinência do tema em relação ao avanço da pesquisa em educação realizada no Brasil. Acredito, assim, que ainda há muito a construir no campo sócio-histórico da educação brasileira. Talvez este tema – relegado até o momento a um segundo plano – possa contribuir para com as discussões acerca da educação pública nacional, e seus reflexos – ou opacidade – atuais.
Em termos de relevância, são três os nossos argumentos: acredito que a investigação que ora propomos pode consolidar sua importância no fato de, como já afirmamos, não existirem quase estudos sobre o tema no país. Destaco, também, a discussão do tema a partir conceito de democracia, em sua relação com a educação pública, uma vez que este veio ainda não foi suficientemente explorado pela área acadêmica nacional. Finalmente há, na UNIRIO, pesquisadoras interessadas em estudar o mesmo tema, nas mesmas décadas, trabalhando com outros movimentos sócio-políticos, pesquisa interdepartamental que abre perspectivas para um maior aprofundamento do tema geral aqui proposto.
Levando em consideração o estágio atual da investigação acima delineada pretendo discutir, neste ensaio – ainda que de forma incipiente – o conceito de democracia, trabalhando-o principalmente à luz das posições integralistas, a fim de encaminhar reflexão sobre o papel da educação para seus seguidores.
2. Educação integral, Integralismo e Democracia : categorias que se combinam?
Aprofundando o raio de ação de minhas inquietações em relação ao tema-objeto-problema a ser investigado pergunto-me, não raras vezes, sobre quais motivos levam vários governos, responsáveis que deveriam ser por políticas públicas de alcance social, e apesar de se dizerem democráticos, a não se interessarem pela implantação de escolas públicas de educação e de tempo integral no Brasil. Contextualizando essa nossa preocupação, nos idos da década de vinte, em São Paulo, Sampaio Dória “encurtou” o tempo escolar e criou o segundo turno nas instituições públicas de ensino, em nome da democratização de acesso à escola. Nesse sentido, questiono: Que acesso a qual escola? Que se entende por democracia e cidadania nesta situação específica e em outras, que lhe são similares?
Por outro lado, pergunto-me também sobre quais fundamentos e práticas podem construir, no sistema escolar público, o tempo integral com uma educação crítico-emancipadora e integral; que possibilidades o cotidiano dessas instituições cria para que essa construção se efetive; em suma, ao longo da história educacional brasileira, como essas construções se deram, quais fundamentos as produziram e quais efeitos propiciaram.
Essas e outras questões levam-me a buscar o aprofundamento de conceitos como democracia na educação, bem como de categorias a eles inerentes. Concomitantemente, levam-me ainda a refletir sobre educação integral em tempo integral, no Brasil, predominantemente nas décadas de 30-60 : sua história sócio-política e as especificidades que a regeram.
Iniciando essa reflexão em um país onde não se discute o tempo que a criança deve dedicar à escola; em que, por vezes, luta-se com os próprios familiares para que a mantenham, ao menos, durante três/quatro horas nessa instituição, pergunto-me: será isto democracia? qual democracia? Ou seja, quando falamos em sociedades como a brasileira, prenhes de desigualdade, a utopia se inscreve na busca de uma sociedade plenamente democrática. Contudo, o que isto significa, e para quem?
As sociedades liberais se dizem democráticas. Algumas sociedades socialistas também falam em democracia. No entanto, apesar do termo significar poder do dêmos, do povo6, a História tem sido pródiga em exemplos de que esse poder não se consolidou. As reflexões teóricas também não lhe imputam uma contextualização próxima à origem, advogando sua não-concretização até hoje7. Segundo Bobbio (1988),
a democracia moderna não só não é incompatível com o liberalismo como pode dele ser considerada, sob muitos aspectos e ao menos até certo ponto, um natural prosseguimento.(p.37)
Em outras palavras, para Bobbio, a democracia moderna aparece como conformação do liberalismo. Nesse sentido, a democracia emerge em seu aspecto legal, procedimental, e o autor procura apresentar argumentos que destacam aquele natural prosseguimento. Entre eles, aparecem a liberdade e a igualdade. No entanto, em outro momento Bobbio distingue a democracia formal daquela que denomina democracia substancial, afirmando que

É inegável que historicamente "democracia" teve dois significados prevalescentes (...) conforme se ponha em maior evidência o conjunto de regras cuja observância é necessária para que o poder político seja efetivamente distribuído entre a maior parte dos cidadãos (...) ou o ideal em que um governo democrático deveria se inspirar, que é o da igualdade. À base dessa distinção costuma-se distinguir a democracia formal da substancial (...) ambos os significados são historicamente legítimos (...) Dos dois significados, é o primeiro que está historicamente ligado à formação do Estado liberal.( p.37-38)


Conforme podemos perceber, quando a ideologia liberal fala de democracia, o faz utilizando suas características legais, formais, não as substanciais. A igualdade existe apenas perante a lei, vista como um conjunto de regras capazes de unificar as mesmas liberdades para cada indivíduo. Desta forma, para o todo de que estes indivíduos fazem parte - a sociedade. Porém acredito que, não estabelecendo um corpus concreto na realidade; situando-se nesse nível formal, a igualdade torna-se abstração, bem como a liberdade. No momento em que ambas são propostas para todos, a contradição eclode.
Se constato a presença da desigualdade social como foco - o que é perfeitamente plausível ao falar, principalmente, de sociedade em países dependentes -, dificilmente todos os indivíduos gozarão de liberdades individuais. Portanto, não é a formalização legal que garante a liberdade e a igualdade reais. Conseqüentemente, não será através da representação ideológica liberal que se alcançará a democracia plena.
Aliás, o próprio Bobbio (1983) faz uma declaração que considero o cerne dessa questão :
Antes de mais nada, seria necessário começar a reconhecer que a relação entre a democracia e o socialismo não é uma relação tranqüila, como não foi tranqüila (...) a relação entre democracia e liberalismo. Não é uma relação tranqüila porque a democracia é subversiva no sentido mais radical da palavra porque, onde chega, subverte a concepção tradicional de poder.(grifo nosso, p.64)
Também Ingrao (1980) afirma que "a democracia é subversiva na medida em que se revela inacabada" (p.142). Podemos concluir, assim, que a lógica que se estabelece entre as reflexões destes dois teóricos 8 amplia o conceito de democracia. No entanto, se concebo sua presença em uma sociedade liberal, essa subversão da concepção tradicional de poder e esse inacabamento serão constituintes ausentes, tanto de seu fundamento quanto de suas práticas.
Em outras palavras, posso dizer que a democracia se encontra nas sociedades liberais. Contudo, em uma (con)formação ideológica. Porém, se essas sociedades são sociedades de classes, em que consiste a democracia para as classes/categorias dominadas, em sua visão utópica? Em que consiste a democracia para movimentos sócio-políticos e/ou partidos que surgem discutindo seus pressupostos, principalmente no Brasil?
Estas questões abriram espaço para analisarmos, a partir de nosso interesse investigativo, o movimento/partido integralista , seus conceitos de democracia e de educação, dentro de conjuntura social determinada – décadas de 30 a 60.
Mais precisamente, quando analisamos a década de 30, no Brasil, percebemos que a idéia de democracia permeia vários movimentos político-sociais, mesmo aqueles considerados como não democráticos pela sociedade civil organizada ou por intelectuais. Leitura da primeira parte de obra de Nagle (2001) nos permite visualizar, na efervescência desses movimentos político-sociais e correntes de idéias, o mote da democracia, travestido nas mais diferentes vestes e presente em todos os cenários que se construíram em seu nome.
Especificamente em relação ao Integralismo, o problema cresce em proporção, pois este movimento, pouco estudado, tem sido “desclassificado pela historiografia como um mero facismo caboclo” (TRINDADE, in CAVALARI, 1999) e, nesse sentido, - o de fascismo caboclo-, percebido com uma feição antidemocrática. Confirmando esta nossa reflexão, vemos em Nagle (2001) que

A história do integralismo está ligada ao amplo movimento de feições antiliberais e antidemocráticas que se difundiu pelo mundo todo, principalmente depois da Primeira Grande Guerra (p.118)


Assim sendo, soa de forma estranha afirmar que os integralistas se interessavam em discutir a natureza e a prática da democracia, que esta também os preocupava, uma vez que os estudos a eles relacionados destacam suas cores autoritárias e, portanto, como já afirmamos, antidemocráticas.
No entanto, apesar dessa conclusão, temos de nos deter no outro lado do palco social de 30, quando o grande Chefe do movimento integralista, Plínio Salgado (s/d), afirma que
Há palavras de que se tem abusado e que havendo perdido tôda a significação em face de evidências históricas de nossos dias, servem apenas de máscara inexpressiva à efígie de um terrível futuro. Está nesse número a palavra democracia (...) O que os inimigos da democracia tem feito dela contra ela própria é uma das maiores evidências históricas de nossos tempos. Os dois regimens atualmente conhecidos como antidemocráticos9 ou totalitários, utilizaram-se da democracia para se implantarem (ps.371-376)
Sendo a democracia a forma mais sensata do govêrno dos povos, não só pelas garantias que oferece internamente a cada pessoa contra arbitrariedades doutrem ou do próprio Estado, mas também pelas garantias que oferece às nacionalidades de não serem absorvidas por outras mais poderosas cumpre corrigir nela o que existe de contrário à sua permanência e vitalidade (p.380)

...quando Jaime Pereira (1936), seguidor dos ideais plinianos e, portanto, adepto do Integralismo constata que


...a única forma de se atender aos imperativos atuais creados pelo estado de espírito decorrente do movimento socialista é a adoção da democracia integralista. Nem, pois, o “exagero individualista” da liberal democracia, que atribue o poder exclusivamente ao capital, nem o “exagero classista” da social democracia que desvia esse poder inteiramente para o trabalho. Só a democracia integral harmonizará o capital com o trabalho pela função polivalente que ela exerce, como organismo político, econômico, técnico e moral que é, ao mesmo tempo (PEREIRA, 1936,os.113-114)
...E ainda quando, transcrito no Jornal O Therezopolis (10.05.1936), o Manifesto da “Acção Integralista Brasileira” pontifica:
...Já sabem todos que os soldados do Sigma estão levando a cabo a Grande Revolução – não das armas, porém das almas; que o Integralismo quer realizar a união de todos os brasileiros, sobrepor o interesse da Nação aos interesses particulares, salvar a Democracia pela implantação do Estado Corporativo, pela Democracia Organica, pela Democracia Integral.”
Conforme podemos verificar, a democracia faz parte das reflexões de seguidores e também do líder do movimento, sendo entendida de forma diferente daquela apresentada pelas concepções liberais e socialistas – duas arqui-inimigas dos integralistas. Analisando a fala de Salgado percebemos que, para ele, democracia é termo mal utilizado pelos adeptos desses outros ideários políticos. No entanto, é ideal a ser construído, caracterizando-se como processo estruturante e dinâmico.

Já em Pereira, podemos visualizar uma reflexão que envolve dois conceitos: o de democracia e o de poder. Em outras palavras se, para os liberais, a democracia resume-se ao poder do capital e, para os socialistas, ao predomínio do poder do trabalho-trabalhador, para Pereira a democracia integralista advoga, para si, o papel de interlocutora do poder da conciliação e da harmonia entre esses dois opostos – capital e trabalho, enquanto que, no Manifesto, essas idéias encontram-se embutidas nas expressões Estado corporativo e Democracia orgânica.


Verificamos assim que, para os integralistas, democracia é poder. Mas um poder conciliador, não conflituoso, que emerge de valores solidários, segundo eles não presentes nas concepções liberais e socialistas. Tentando aprofundar essa relação, retornamos mais uma vez a Salgado (s/d1), e percebemos que esses valores solidários, capazes de conciliar opostos em nome de uma concepção integral de democracia estribam-se no espiritualismo:
...Se sua origem é materialista-agnóstica, nada há a fazer em sua defesa, porque é regímen suicida. Se a sua origem é espiritualista, então, traz consigo os elementos da perenidade. (...) Decidir pelo espiritualismo é a única atitude eficiente de manutenção das formas democráticas verdadeiras; mas esta decisão exige deveres entre os quais o maior de todos é a coragem de dizer com todas as letras do alfabeto, tudo aquilo que não permitimos, em hipótese alguma, que se institua, sendo mau, ou se rejeite, sendo bom. (pgs. 379 e 389-390).
É importante destacar que o espiritualismo defendido por Salgado restringe-se à visão cristã, ou seja, não se consolida enquanto uma tendência arraigada a pressupostos mais amplos de Fé. O autor trabalha com uma fé específica – aquela atrelada às concepções do Cristianismo – fato que comporta características diversas de um espiritualismo preso, por exemplo, aos pressupostos do Protestantismo. E são os pressupostos da fé cristã que constituem a democracia integralista:
A democracia para nós, cristãos, há de ser, antes de tudo, uma declaração de princípios cristãos. Sem essa declaração de princípios, é impossível para a nossa dignidade deduzir quaisquer normas jurídicas e quaisquer estilos de Governo (Salgado, s/d, p.390).
Ao mesmo tempo, essa democracia concentra-se em valores morais e políticos definidos na contramão daqueles empreendidos pelos movimentos antitéticos ao integralista. Em outras palavras, fundam-se na importância das corporações e das hierarquias, conforme constatamos nos excertos apresentados.
Nesse sentido, podemos inquirir: se para os integralistas a democracia é pressuposto constituinte de suas reflexões, estribando-se em valores morais e espirituais cristãos que divergem das concepções de democracia liberal e socialista, essa constituição permeará o conceito de educação presente no ideário do movimento integralista? Se a democracia que perseguem pretende conciliar o poder emanado do capital e do trabalho; consolidar as corporações e sustentar uma organização hierárquica, essa harmonização influencia a concepção de educação (integral) que concebem?
3. Educação Integral e Integralismo : Perseguindo (todas) as fontes
As perguntas são sempre bem vindas. Portanto, continuando a série de inquirições com que fechamos a seção anterior, questionamos ainda: O conceito de educação integral para o movimento integralista responde por uma perspectiva democrática? Qual perspectiva?
Ao entrarmos no campo educacional, em busca de concepções de educação integral, debruçamo-nos sobre artigo de Carvalho (1987), em que a autora reflete sobre o poder atribuído à educação, na década de 20-30, poder este que lança campanhas de alfabetização por todo o país, mais tarde “cedendo lugar para movimentos em favor do que se entendia por educação integral” (p.73). Ora, são conhecidos os movimentos liberais em prol dessa educação, capitaneados por Anísio Teixeira. E quanto ao Integralismo?
Levando em consideração o problema exposto no primeiro item e as questões que vimos enunciando ao longo deste ensaio, a análise que pretendemos realizar nesta seção conta com discursos e fundamentos teóricos existentes em documentos do movimento/partido integralista, e ainda com trabalhos teóricos realizados por pesquisadores que se dedicaram a estudá-lo10.
Inicialmente, é importante destacar que, segundo CAVALARI (1995), não há no movimento nem no partido integralista produção teórica específica sobre educação ou projeto integralista de educação. O que se encontra são textos esparsos, inclusive no próprio volume IX da Enciclopédia do Integralismo que se refere, especificamente, à educação. Há ainda referências ao projeto e à pedagogia do movimento em livros, jornais e revistas publicados entre 1932 e 1937, motivo que nos leva à procura destes vestígios, documentais ou pessoais, de forma a abrir mais um flanco de pesquisa sobre o tema11. Nesse sentido, é digno de nota um trecho da Enciclopédia do Integralismo que afirma: “em todos esses escritos, um único pensamento : o da educação integral para o homem integral”... Como essa “educação integral para o homem integral” se apresenta?
Segundo Cavalari (1999), pertencendo ao grupo que citamos – o dos movimentos que imputavam grande poder à educação -, o Integralismo possuía especificidades que o distinguiam dos demais. Entre elas destacamos, neste ensaio, os valores que veiculava. Para a autora:
a abnegação, o sacrifício e o sofrimento eram meios para despertar a Nação e a alma de um povo. (...) Outros valores ressaltados e difundidos pelo integralismo eram a obediência e a disciplina. Estes desempenhavam um papel fundamental, na medida em que eram entendidos como condição sine qua non para a obtenção da ordem espiritual e moral, indispensáveis ao Movimento (ps.49-52)

Os valores citados por Cavalari – abnegação, sacrifício, sofrimento, obediência, disciplina – podem ser encontrados em documentos e artigos integralistas, quando estes se referem à educação, assim como referências aos valores espirituais e morais – “2o. não se fará pregação doutrinária, mas a orientação geral será: espiritualisada rumo DEUS, PÁTRIA e FAMILIA” (O Therezopolis, 9/9/1934).


Em artigo denominado “ O juramento” e publicado no periódico O Therezopolis (9/6/1935), Plínio Salgado destaca que
Como obra de educação intellectual, o Integralismo trata de crear o sentido de autonomia nacional de nossas elites, o gosto pelos estudos (...) Como escola moral, o Integralismo dissemina pelas suas legiões, bandeiras, terços e decúrias, os conhecimentos indispensáveis à formação de uma consciência nacional esclarecida e subordinada aos imperativos espirituaes e cívicos, sem os quaes não se concebe a grandeza de uma Pátria; é escola de disciplina, de hierarquia; é centro cultural de virtudes individuaes indispensáveis à construcção do Todo Nacional”
O longo trecho que citamos procede, pois expõe pontos que nos interessam destacar em uma análise que relacione as concepções integralistas de educação e de democracia.
Conforme podemos verificar no item anterior, a concepção de democracia integralista fundamenta-se em valores morais e do espiritualismo cristão. No entanto, o espiritualismo cristão encerra uma visão submissa do Homem perante o poder Divino, diferentemente do espiritualismo protestante, por exemplo. Nesse sentido, quando Salgado afirma a necessidade da educação integralista formar consciências subordinadas aos imperativos espirituaes e cívicos e visualiza-a como escola de disciplina e hierarquia estabelece elos com aqueles valores caros à democracia integralista de cunho cristão, visto que tais expressões baseiam-se em valores presos à idéia-força da submissão.
Assim sendo, verificamos que a educação proposta por Plínio Salgado e seus seguidores encontra-se alicerçada no equilíbrio entre fatores morais e ideais cívicos, não esquecendo que o componente espiritual ecoa, de maneira forte, nessa formação, que é triádica – Deus = espiritual + Pátria = civismo + Família = moral –. Tal configuração fundamenta, igualmente, a proposta de democracia do movimento.
Ainda no campo da Educação, outro ponto que faz parte de nossa investigação refere-se às instituições escolares. Durante muito tempo consideradas inexistentes12, por não fazerem parte das obras de referência em História da Educação temos certeza, hoje, da existência de escolas integralistas, de alfabetização e até profissionalizantes13. Afirma Cavalari (1995) que o Integralismo “se por um lado, não se propôs a elaborar uma pedagogia integralista, por outro educou e, até mesmo, chegou a constituir uma rede de escolas” (p.22). Esta sua afirmação, de alguma forma já prenunciada em outras fontes secundárias14, encontra material em fontes primárias, como obras de Salgado e notas em periódicos simpatizantes do movimento.
Pesquisa ainda incipiente, realizada na atual sede do jornal O Teresópolis15, a partir dos exemplares encadernados ano a ano e referentes aos anos de 1934 a 1936, indicam-nos aquela existência, como podemos constatar através dos trechos transcritos abaixo:
Escola “Alberto Torres” - Mantida pelo Núcleo Integralista de Therezopolis. Começará a funccionar no próximo dia 1o. a Escola mantida pela Ação Integralista Brasileira, na sede do Núcleo, à Praça 3 de Outubro s/n. O horário para funccionamento das aulas será das 18 hs. Às 19.30hs. As matrículas estarão abertas desde o começo das aulas, sendo as mesmas francas a qualquer pessoa. Secretario do D.E.D. José Fernandes Costa. (O Therezopolis, 30-09-1934)
Integralismo – Aos Chefes dos Núcleos Districtaes – Tendo chegado ao conhecimento da Chefia Municipal que algumas escolas não estão funccionando, essa Chefia lembra aos Chefes Districtaes, que todas as oito (8) escolas de alphabetisação disseminadas no Município, devem funccionar todos os dias uteis, sem interrupção. O Integralista que concorrer para a sua paralisação, está se afastando da doutrina integral. Nilo Tavares – S.M.E. (O Therezopolis. 19-04-1935)
Escola Jayme Guimarães -, O Núcleo districtal de Vieira acaba de fundar a primeira escola integralista do 3o. districto, que funcciona com a denominação de “Escola Jayme Guimarães”, em homenagem a um dos martyres do Sigma. (O Therezopolis. 14-07-1935).
Escola Profissional Maria José – Foi inaugurada no dia 28 de julho p. findo esta escola, destinada ao ensino de trabalhos femininos, funccionando no salão do Núcleo Municipal as segundas, quartas e sextas-feiras, das 18 ½ às 20 ½ horas. Este curso é gratuito, podendo desde já as interessadas se inscreverem. (O Therezopolis. 11-08-1935)
Conforme podemos verificar através da leitura acurada de periódico municipal simpatizante ao movimento, as escolas integralistas foram criadas e funcionaram. Geralmente, constituíram-se como instituições de alfabetização existindo, entretanto, escolas profissionalizantes, como a Escola Profissional Maria José.
Faltam-nos, por enquanto, elementos mais concretos de sua implantação e consolidação, dados que pretendemos recolher ao longo da pesquisa, através da continuação do levantamento naquele periódico integralista e em outros mais, destacando notícias e fatos relativos à educação, à implantação e implementação de escolas integralistas, bem como a partir da coleta de depoimentos de pessoas que tiveram contato com as mesmas, seja como professores, funcionários ou alunos.
4. Educação Integral e Integralismo : à guisa de conclusão
O item três deste ensaio iniciou-se com uma pergunta. O item dois teve seu desfecho atravessado por outra. Acreditamos que aquelas questões foram parcialmente respondidas, na medida em que, através de trechos retirados de fontes secundárias, mas principalmente primárias analisamos, ainda de forma incipiente, a concepção de educação vigente no movimento integralista em sua relação com a concepção que esse mesmo movimento possui de democracia.
Percebemos que há uma estreita relação entre os fundamentos da democracia e da educação integralistas pois, insistimos, para o Integralismo, a educação não se constitui como um ato isolado. Ela depende de todo um contexto que talvez possamos identificar com o sentido de totalidade pregado por Plínio Salgado em seus escritos. Não sendo ato isolado, também não é neutra: ela serve a uma ideologia, e deve fortifica-la, através do princípio da auto-construção humana:
O jovem deve construir-se primeiro, para depois pensar em construir a sociedade. A auto-construção não se faz nas praças públicas, nem fragor das manifestações coletivas; pelo contrário, forja-se no estudo, na meditação, na discussão, na troca de idéias (Salgado, s/d2. p. 107)
É interessante verificar, ainda, que o conceito de educação integral passa, não só pelo ensino fundamental, com a criação de escolas de alfabetização, mas também pelo ensino profissionalizante, modelador do destino dos homens...Não estaria, na criação de cursos com esta finalidade, o propósito conciliador do capital e do trabalho, citado por Pereira, ao analisar a concepção de democracia dos integralistas?
Ao concluir, é necessário esclarecer que as reflexões aqui apresentadas constituem-se como ensaio preliminar da investigação que iniciamos em maio deste ano – 2003. Nosso objetivo é o de continuar aprofundando nossos estudos acerca da concepção de educação integral vigente no ideário integralista, para o que se torna imprescindível a análise do contexto sócio-histórico em que se inseriu o movimento, bem como dos pressupostos políticos que o fundamentam. É preciso, ainda, que se procure – em fontes primárias – evidências da existência de instituições escolares integralistas que, de alguma forma, tenham implantado aquela concepção em seu cotidiano.
Acreditamos que, através da comparação entre princípios e metodologias de trabalho existentes nas escolas fundadas pelo Integralismo poderemos, de forma mais cabal, esboçar o que é educação integral para o movimento integralista – cerne de nossa pesquisa mais ampla que tem, nas concepções de educação integral existentes no Brasil seu norte e seu rumo.



1II Programa Especial de Educação, constituído no segundo governo de Leonel Brizola, no Rio de Janeiro tendo, como objetivo, implantar a escola pública de tempo integral em todo o estado.

2 Na França, por exemplo, às atividades de sala de aula somam-se outras culturais (ida a museus, por exemplo), esportivas ( competições entre escolas ) etc. No Japão, a cerimônia do chá é atividade escolar. Essas e outras informações foram conseguidas nos respectivos consulados, em folhetos de divulgação sobre a educação nestes e em outros países.

3 A utilização do termo práxis refere-se à reflexão teórica efetuada por Vazquez (1977)

4 Pesquisa realizada pelo prof. Ahyas Sis detectou tempo integral em escolas no período do Império.

5 Referimo-nos a periódicos encontrados nos municípios de Sapucaia e de Teresópolis(RJ), por exemplo.

6A palavra demônio vem da raiz grega dâimon, que significa força agremiadora, impulso criativo e, fonicamente, evoca dêmos, povo.Seria o poder do povo (democracia) um impulso criador, uma força agremiadora e, portanto, fermento do diabo?

7Entre essas reflexões, destaco as de Betinho (1991).

8É interessante levar-se em consideração que Bobbio e Ingrao possuem posturas ideológicas diferentes. Em seu livro As massas e o poder (1980), o capítulo "Resposta a Bobbio : democracia de massa" revela o embate teórico entre ambos.

9 É interessante notar que Salgado denomina como antidemocrático o movimento comunista.

10 Destacamos, neste ensaio, textos de Plínio Salgado, Jaime Pereira; documentos e/ou revistas e periódicos do movimento. Em relação aos estudiosos do Integralismo, trabalhamos basicamente com Hélgio Trindade e Rosa Cavalari.

11 Nossa pesquisa iniciou-se em maio de 2003. Nesse sentido, encontramo-nos consolidando fundamentação teórica acerca do movimento integralista e, concomitantemente, buscando fontes primárias que exponham, não só a existência dessas escolas, como sua face político-pedagógica.

12


13 Obras de CAVALARI (tese de doutorado e obra de referência), bem como foto existente no Arquivo do Estado do Rio de Janeiro nos permitem essa afirmação.

14 Tanto Chauí (1978) quanto Trindade (1979) fazem referências a existência dessas instituições escolares.

15 O jornal é semanário regular existente no município de Teresópolis, estado do Rio de Janeiro e foi citado, por Cavalari, como periódico de cunho integralista. Nossa pesquisa iniciou-se com os periódicos dos anos de1934, 1935 e 1936.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


CARVALHO, Marta Maria Chagas.“Pelo ensino público, leigo e gratuito”. In: Revista USP. São Paulo, (6): 71-83, jul/set. 1987.
CAVALARI, Rosa Maria Feiteiro. Educação e integralismo: um estudo sobre estratégias de organização da Ação Integralista Brasileira – (1932-1937). São Paulo, FEUSP, 1999 (tese de doutorado).
CAVALARI, Rosa Maria Feiteiro. Integralismo – ideologia e organização de um partido de massa no Brasil (1932-1937). Bauru, Edusc, 1999.
COELHO, Lígia Martha C. da C. Integralismo : Anauê na educação? Rio de Janeiro, UFRJ, 1988. Trabalho final de disciplina do Doutorado.
O Therezopolis, 09 de setembro de 1934.
O Therezopolis, 09 de junho de 1935.
O Therezopolis, 14 de julho de 1935.
O Therezopolis, 11 de agosto de 1935.
O Therezopolis, 19 de abril de 1936.
O Therezopolis, 10 de maio de 1936.
PEREIRA, Jaime R. Democracia integralista. Rio de Janeiro, José Olympio, 1936.
SALGADO, Plínio. Obras completas. Volume 8 – “O conceito cristão da democracia”. São Paulo, Editora das Américas, s/d (1)
SALGADO, Plínio. Reconstrução do homem. Rio de Janeiro, Clássica, s/d(2).

NAGLE, Jorge. Educação e sociedade na primeira república. Rio de Janeiro, DP&A, 2001.


TRINDADE, Hélgio. Integralismo – o facismo brasileiro na década de 30. São Paulo, DIFEL, 1979.



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