Programa Radiofônico Filosofia é Liberdade



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Sociabilidade
A sociabilidade é um dos valores mais importantes depois da própria vida. Com a industrialização, com a consolidação da cultura citadina e com o aumento exponencial da demografia nos vemos cada vez mais forçados a interagir com nosso semelhante. Nas sociedades agrícolas o que se vê é o sujeito mais fechado, mais ensimesmado e menos conhecido, ao menos no que se refere ao grau de profundidade. Nas sociedades citadinas contemporâneas nada fica oculto, o governo, a mídia e segmentos sem rosto escrutinam a vida do sujeito. Parece-nos de que não há grandes problemas ficarmos expostos publicamente. Desde que o que se aplica a um seja aplicado a todos os demais. Porque é desleal ser o único transparente como vidro numa sociedade de mascarados. O moralismo é um dos principais inimigos da sociabilidade. Porque o moralista cobra do outro uma virtude que ele não tem e reprova o que ele mesmo faz quando um terceiro age como ele age. A sociabilidade passa pelo desencantamento. Uma sociedade pautada em heróis é avessa à sociabilidade e isto se faz sentir nos aspectos quantitativos da população carcerária de tal sociedade. Não que o heroísmo seja uma farsa. O homem, sob certas circunstâncias, acaba se tornando um herói. Heroísmo e aviltamento são dois lados de uma mesma moeda. Sociabilidade passa um pouco por relativização e muito por equilíbrio. Penso que o valor da virilidade não pode cair em desapreço em nome da sociabilidade embora eu tenha ojeriza em relação à cultura da valentia, conquanto a própria ingorância, e a valentia é uma prova disso, seja uma espécie de cultura. O que está mais de acordo com a moral: a prostituta de vida sexual desregrada que é afável e gentil ou a religiosa virgem, ranzinza e sempiternamente de cara amarrada? A sociabilidade é uma ferramenta de construção da verdade. Porque mesmo que eu consiga provar algo contra alguém por meios documentais ou científicos não terei findado o trabalho de construção de verdade enquanto aquele que é atingido pela declaraçãodo enunciado não admitir que realmente a assertiva é procedente. A sociabilidade tira daquele sujeito cheio de justiça própria a capacidade de rejeitar como verdadeiro o que todos já internalizarem como verdadeiro exceto ele mesmo. A sociabilidade nos educa intelectualmente. Toda erudição do mundo não nos enriquece tanto e não nos ensina tanto acerca do ser humano assim como a socialização meio e resultado da sociabilidade. A sociabilidade é fator importantíssimo para o sucesso na vida profissional e financeira. Aculturação é irmã gêmea da sociabilidade. O sucesso do indivíduo enquanto ser humano depende dos processos de socialização pelos quais passou e do que ele conseguiu fazer intelectualmente com suas vivências. Penso que a ética discursiva habermasiana foi extremamente feliz ao socializar a discussão pertinente à ética comunitária cujo escopo é justamente estatuir as regras de conduta que se prestará a nortear o agir dos sujeitos de moralidade. Família, igreja, trabalho, escola, academia, política são nichos privilegiados de fazer acontecer a sociabilidade. A sexualidade é inseparável da sociabilidade. Porque todo ser social o é sexuado também. Aliás, a sexualidade, ao menos do ponto de vista orgânico, precede a socialização. Mas se por alguma razão Sartre disse que criança é esse monstro que os adultos produzem, fê-lo e di-lo justamente por saber que a família é uma sociedade cujo objetivo primeiro foi a cópula. E tudo o que decorre da irracionalidade da paixão está e sempre estará assinalado pela natureza da fonte da qual emana o propósito de Deus foi a sociabilidade, ainda que os textos sagrados empreguem uma terminologia menos técnica. Este é o sentido do “amai-vos uns aos outros”, do “consolai-vos uns aos outros” e do “suportai-vos uns aos outros”. O sexo, o dinheiro, o poder e o próprio sagrado enquanto bem cultural não passam de pretexto para que o homem e a mulher, o homem e o homem, a mulher e a mulher, a criança e o ancião se relacionem. E seremos medidos pelo que fizemos com os instrumentos que nos foram postos à nossa disposição. Em primeiro lugar o ser humano é sempre fim e não meio. Segundamente, o mau uso do meio denota o despreparo de quem o maneja. O ser humano é medido por Deus por tudo aquilo que faz com os bens postos sob seus auspícios em razão do que adquire a condição de depositário. O mundo espiritual é um contrato de depósito e quem quer ser adimplente precisa ser fiel depositário. Embora na parábola dos talentos fique claro que Deus quer resgatar acrescido o que pôs em nossas mãos.
Paz
A paz é um estado de espírito. Ainda que se fale em pax romana, ou seja, numa paz que advém da sucumbência de todos aqueles que teriam interesse de contestar o uníssono estado de ordem. Entretanto, hoje, os Estados Unidos que teriam força militar para estar impingindo ao mundo este tipo de paz, não têm interesse econômico de fazê-lo. A paz é a sensação de harmonia interna do sujeito para consigo mesmo e a harmonia do eu com aquilo que está fora do eu. Claro, nem tudo com o que nos deparamos tem a imediata capacidade de ser acolhido pelo eu. Assim, a paz requer capacidade de abstração. É preciso fechar os olhos ou, enxergando, não autorizar que os aberrantes agridam os sentimento daquele que observa ou até mesmo sofre a beligerância do real. Ter paz é não perder o equilíbrio diante da crise econômica, familiar, política, cultural, de saúde ou mesmo quando somos submetidos à ministração de drogas contra nossa vontade. A paz é estar essencialmente acima das circunstâncias. A paz é manter-se centrado quando pai, mãe, esposa, filho e o melhor amigo nos dão as costas. Somente um homem cujo fundamento está em si mesmo consegue ter paz. Porque quem se escora sobre algo que esteja fora de si está propenso a despencar em razão da mobilidade do ponto de apoio. Davi sentia-se em paz em meio à guerra a ponto de colocar a cabeça sobre o travesseiro e dormir profundamente, mesmo sabendo que os seus inimigos estavam acampados ao seu redor. A paz é uma decisão. É preciso que o sujeito queira sentir-se em paz. A paz está diretamente relacionada à categoria de tempo. Porque o saudosismo e a ansiedade, respectivamente, relacionados com o passado e o futuro são causa de infortúnio para muita gente. A questão do tempo também atrela-se à da paz na medida em que o tempo transcorre e algumas pessoas são afastadas do nosso convívio enquanto outras novas vão ocupando os assentos vazios deixados pelos primeiros. A paz é a instância mais profunda da felicidade que não passa de uma maneira adquada e bem sucedida de encarar a vida. A vida é uma luta, o mundo e a nossa mente são campos de batalha. Não podemos almejar a paz somente quando sobrevir a bonança. Até porque a característica da vivência que fazemos neste dimensão é o conflito, ficando excluída a hipótese de vivermos em tal mundo passando ao largo de todos os conflitos. Uma das coisas que tira nossa paz é saber que há contradição entre aquilo que somos e aquilo que pretendemos ser. Também no campo da ideologia vemos isto: o resultado que a teoria persegue e o resultado que ela efetivamente produz. A tensão entre o ser e o dever ser não deve tirar nossa paz justamente porque nosso pensamento chega a patamares elevados muito mais rapidamente do que a concreção de nossa vida. O que também tira a nossa paz é desenvolver ao máximo um tipo de aparato para poder fazer frente ao mundo e ser atacado com uma espécie de arma que empregamos. Como na arte da argumentação sou uma metralhadora giratória, vejo meus oponentes fugirem do foro de discussão e apelarem para estratégias de baixa classificação no sentido de ferir a idoneidade do argumentador para formar na cabeça dos destinatários da mensagem a ideia de que nada do que eu diga faz sentido, por mais genial que seja. A paz decorre daquilo que conseguimos transmitir aos outros e não do que os outros conseguem nos transmitir. A paz é uma postura mental. E tão importante quanto ter uma postura mental correta é fazer prevalecer a perspectiva de harmonia sobre a perspectiva de desarmonia. A paz não é a superveniência da bonança, algo que cai de presente em nosso colo. Pelo contrário, a paz é uma decisão, é fazer prevalecer o Reino de Deus sobre toda e qualquer outra ordem que difira da ordem de paz. A paz é algo que requer esforço. E nem sempre estamos na melhor fase de nossa vida quando a própria vida nos cobra esforço. As coisas nos são colocadas da seguinte forma: se tu deres a partida te daremos combustível, ainda que tu saibas que não há combustível no tanque para fazer o motor funcionar. Então temos que fazer o milagre de girar o motor para receber aquilo sem o qual ele não poderia se encontrar em outra situação senão na mais absoluta inércia. A paz caminha muito neste sentido: ela lhe cobra aquilo que você não tem e despreza o que você tem em abundância. Assim, o ônus que muitas vezes se impõe sobre o maior dos argumentos é requerer dele que sistematicamente tenha a capacidade de perder as discussões nas quais se envolve. A paz não é um ponto de chegada, é o próprio caminho. Quem deplora a violência como resultado, deve deplorá-la como método para atingir qualquer coisa que seja e até mesmo e com maior razão, a paz. Razão pela qual, ao lado de outras tantas, o marxismo malogrou, errando o alvo pois o próprio caminho pelo qual enveredou se mostrou inadequado e medonho. É claro que quem ama a paz deve estar preparado para a guerra, assim como quem ama a felicidade não pode se esquivar da tribulação, mas o papel da antítese, na maioria das vezes, é reforçar a tese em relação à qual se apresenta como afronta.
Religião, política e economia
Eu não tenho a menor dúvida de que as três grandes forças que movem a realidade humana são, respectivamente, religião, política e economia. O mundo material e o espiritual não só se interpenetram, mas em algum sentido são um só e mesmo mundo. Falta um teólogo dizer que a religião tem palavras de eternidade, mas ela se presta antes de mais nada para nos tornar conhecedores e manejadores das realidades empíricas, pois o espírito tem poder absoluto sobre a matéria. Falta um filósofo político ou um cientista político dizer que política não é consequência casuística de voto despejado aleatoriamente na urna. Basta lembrar as palavras de Cristo. “Tu não terias poder algum sobre mim se este não te fosse dado do alto”. E faço questão de dizer que política e religião devem, na medida do possível, ficar apartados, mas uma atividade não exclui a outra e são complementares. O cristão é convidado a ser sal da terra e luz no mundo cumprindo seu civismo. Novamente colacionamos citação bíblica: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Max Weber mostrou em sua obra A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo o quanto a religião pode influir sobre a dimensão econômica. Já quem é rico mais facilmente consegue obter prestígio na vida política. Penso que deve ser projeto de cada um colaborar decisivamente na vida das pessoas em cada uma destas três áreas. O marxismo nada mais é do que uma resposta a estas três dimensões. Politicamente Marx defende o desaparecimento do Estado que deveria ser precedido pela ditadura do proletariado. Economicamente tira do indivíduo o direito à propriedade, embora, em tese, fome ninguém deveria passar. E, o mais grave de tudo, nega Deus, ridiculariza a religião, tirando do homem o último recôndito de sua dignidade. Três questões, três péssimas respostas. O liberalismo é infinitamente superior ao assegurar ao indivíduo sua liberdade de consciência, o que inclui liberdade de consciência religiosa, garante o direito à propriedade e defende a democracia como o melhor sistema político que, além de imparcial, está calcado na legalidade. A filosofia, em boa medida, cumpre um papel que coincide com o da religião. No sentido de que a religião é uma visão de mundo, uma metanarrativa, uma perspectiva intelectual que orienta o indivíduo neste mundo. Bem, entendo que a religião é uma forma de conhecimento que está num nível mais aprofundado do que a filosofia. E embora muitas vezes haja choque entre a filosofia e a religião, quem tem cultura enciclopédica consegue conciliar as duas coisas a ponto de entender que, apesar das aporias discursivas, o cerne da religião e da filosofia é exatamente o mesmo. A filosofia é uma metadiscussão que, dentre outros objetivos, se presta para discutir os postulados, os axiomas, as premissas e os corolários de cada uma destas três áreas. Uma só de cada uma destas três áreas. Uma só principiologia mostra o fundamento destas atividades é uno e antiplural. Se, pois, a filosofia é a grande maestra que, na qualidade de superteoria, paira acima disto tudo, não podemos deixar de considerar a importância da própria ciência política, da teologia e da própria economia, aqui arrolada como ciência humana e não como atividade, o que vem a ser objeto de estudo da disciplina homônima. Até porque as tais disciplinas não se limitam a explicar processos, mas ainda recomendam dossiês. Basta pensar na teologia da libertação que apregoa mobilização política, no keynesianismo, que estabelece diretrizes políticas públicas e nos partidos em cujas siglas se faz alusão a cristianismo ou ateísmo, só para exemplificar. O conhecimento é um forte interventor na realidade. Assim como há quem só trabalhe, há quem somente pense. Nenhum outro poder é tão forte quanto o poder do pensamento. Isto é válido sobretudo a médio e longo prazo. Porque o pensamento se transforma em força material quando se apossa dos homens. O ser humano é pensamento e ação. Quem forma o pensamento alheio é como aquele programador que dispõe o computador a executar as tarefas exatamente do jeito que ele queria. Claro, quando falo assim, não quero dizer que todos devamos ser reduzidos a fantoches, mas que se queremos um homem melhor e uma sociedade melhor, devemos pensar seriamente nisto e valorizar cada vez mais a educação.
Epistemologia animal
Por certo que a inteligência é precedida dos sentidos. Aristóteles já dizia que não há nada que esteja no intelecto que não tenha estado primeiro nos sentidos. Claro, isto afrontava o ensinamento de seu mestre Platão que afirmava ter a alma já contemplado todas as ideias no mundo espiritual. A tensão inatismo versus empirismo que, grosso modo, poderia ser rotulada pelos nomes de René Descartes e David Hume, para encurtar conversa, seria de alguma forma resolvida por Kant. O apriorismo do intelecto humano é um complemento àquela instância que se presta a captar o fenômeno a posteriori. A inteligência animal também tem seus a prioris. E justamente porque o a posteriori animal é diferente do a posteriori humano é que o a priori animal é diferente do a priori humano. Quando Kant fala de a priori está, na verdade, falando daqueles esquemas mentais inatos que precedem experiência individual. Mas o que Darwin ensina é que os a priori do indivíduo são forjados pela experiência que a espécie faz. Assim, portanto, em algum sentido o a posteriori precede o a priori, embora fique impossível dizer o que precede o quê. A razão pura animal é diferente da razão pura humana. E assim como a medicina veterinária ensina e constata que cada animal tem uma fisiologia própria, no campo da epistemologia precisamos admitir que cada inteligência animal é sui generis. Os elefantes ouvem infrassons, isto é, sons gravíssimos, e por isso podem constatar tremores de terra que nós não. O gato e o cachorro ouvem ultrassons, ou seja, os sons agudos. A audição humana é caracterizada pela frequência de 20 mil hertz enquanto a do gato fato fica em 60 mil hertz. Um gato é capaz de ouvir o murmurinho de uma pessoa no térreo mesmo estando no décimo andar do prédio. Muitas aves tem um quarto espectro, além do vermelho, azul e verde humanos, seja ele, o ultravioleta. Mas se o beija-flor e o papagaio tem quatro receptores de cor enquanto nós humanos só temos três, o camarão mantis tem doze receptores. A coruja enxerga à noite graças a um quarto receptor infravermelho. Enquanto nós humanos temos nove mil papilas gustativas o bagre tem vinte e sete mil. O que teria, afinal, de tão gostoso nas águas de um riacho ou de um tanque? Talvez seja justamente a tentativa da natureza de sentir sabor naquilo em que não há sabor algum. Os morcegos têm um sistema de emissão e recepção de silvos que lhes permite desenhar o espaço ao seu entorno. O que o morcego faz na atmosfera os golfinhos fazem no meio líquido. O tubarão tem uma capacidade ímpar de sentir estímulos elétricos a ponto de ser advertido de um coração batendo a alguns metros. Muitas cobras têm sensores que sinalizam a movimentação de uma presa pela emissão do calor corporal. Isto significa que muito do que atribuímos ao sexto sentido, seguindo uma linha de paranormalidade, não passa de um a posteriori em tudo idêntico aos cinco sentidos, embora sejamos os primeiros a reconhecer a paranormalidade. A dinâmica de uma estrutura é que haja necessariamente vigas mais fortes e outras nem tanto, é supor que toda força é desequilíbrio e por fás ou por nefas a sonegação de uma dimensão automaticamente acarreta a afirmação de outra. É assim que devemos nossa inteligência superior à nossa sofrível audição, visão e olfato, à circunstância de termos couro delicadíssimo e mandíbula fraca. Já a baixa inteligência das outras vidas que conosco partilham o planeta decorre justamente do fato de nelas a busca de superação ter sido centrada em audição, visão, músculos, chifres, proliferação, etc, ao invés de recair sobre a desenvoltura da inteligência. Enquanto que a inteligência animal é voltada para o exterior a inteligência humana tem a capacidade ímpar de voltar sobre si mesma, a ponto de querer entender as leis que regem a si mesma. Os primatas têm um psicologismo que os outros animais não tem, notadamente no que se refere à memória, aprendizagem e comportamento, mas o ser humano é o único capaz de abstrair. Estamos numa situação ligeiramente cômoda. Porque ao passo que os irracionais estão em luta de todos contra todos, se nós humanos colocarmos em ação aquilo que nos caracteriza, a racionalidade, viveremos em harmonia e ninguém poderá rivalizar com a dominância de nossa espécie. Se alguma oposição sofremos, a maior delas é a intolerância que temos para conosco mesmos. Daí a necessidade de educarmos a razão prática para o multiculturalismo, para a relatividade, para a democracia, para o respeito, para a liberdade e para a tolerância. Lamarck dizia “tudo o que não se usa se atrofia”. Portanto, exercitemos nosso ponto forte, exercitemos a racionalidade.
O que Montesquieu não quis ver ou fez questão de ocultar
Montesquieu foi o primeiro autor a teorizar com ímpar clareza a tripartição dos poderes. O poder é uno; em verdade, suas funções são metafisicamente apartadas justamente para que um possa fiscalizar, controlar e contrabalançar os outros dois. O modelo proposto por Montesquieu é intrinsecamente democrático. A estrutura teórica preconiza uma estrutura burocrática e, à primeira vista, nada há que possa ser oposto ao modelo de organização estatal. Todavia, o que Montesquieu não conseguiu ver ou fez questão de ocultar é que os agentes políticos empoderados nas três instâncias, Executivo, Legislativo e Judiciário, não se relacionam entre si apenas como prepostos deste ou daquele poder. Há uma instância que, na falta de uma nomeclatura melhor, nominamos de fraternidade branca, para nos referirmos àquele coletivo que alberga a maior parte das confrarias iniciáticas, cujos membros tem mais acesso à assunção de cargos estatais ou, são acolhidos justamente por gozarem da prerrogativa de ter logrado espaço na administração pública. Evidentemente, que se há um grupo de indivíduos jungidos entre si por laços de fraternidade e moralidade que deram conta de sujeitar a máquina estatal a seu controle, está o mencionado grupo demasiadamente empoderado. Porque Max Weber dizia que o Estado é o monopolizador do poder e do uso legítimo da violência. Disse que o Estado é o maior poder temporal. Acima dele, apenas o mundo espiritual. Logo, se o monopólio do poder tem dono, este dono tudo possui e governa. E não é apenas isto. Os laboratórios, as clínicas psiquiátricas, a saúde, a educação e os conselhos de classe estão nas mãos da fraternidade branca. E este coletivo de confrarias iniciáticas, além de ser maioral no poder político e naquelas instâncias de poder político e naquelas instâncias de poder que Michel Foucault chamou de microfísica do poder, mas a nomemclatura não quer dizer que tais instâncias sejam desimportantes, ainda conta com o poder econômico e religioso. Bem, diria que o que estou a falar não deve ser motivo de preocupação para ninguém. Em primeiro lugar porque toda autoridade, ainda que pessimamente exercida, procede de Deus. e também porque o poder no mundo de hoje se tornou sutil. A ponto de grande parcela da sociedade ter perdido a noção da conduta correta por conta disso. No passado vivíamos um hardpower, hoje vivemos um softpower. Os poderosos, no passado, mobilizavam pela pólvora, hoje se mobiliza pela persuasão. O poder nunca esteve tão organizado como agora. Penso que devemos ser gratos à fraternidade branca pelo modelo dentro do qual vivemos hoje. Toda vez que uma sociedade é mal organizada, e a organização tem seu fundamento último na idealidade do ordenamento jurídico, ela cria tiranos superditadores. Quanto mais organizada uma sociedade, mais impessoal o poder. O modelo de Montesquieu restringe ao máximo o poder entendido como discricionariedade e arbítrio e amplia o poder enquanto competência e atribuição. Mas tudo aquilo que compete ao agente político executar e cumprir, ele não o faz como quer, mas do modo preconizado e estipulado pela mesma lei que lhe elevou à condição de agente político. Existe, destarte, um dirigismo quanto à meta e quanto ao procedimento. Como as metas são quantitativamente poucas, a preocupação maior dos legisladores de todas as instâncias diz respeito ao procedimento. Em nosso entender, o Poder que deve ser o mais proeminente deve ser o legislativo, na medida em que todo o Estado e toda a sociedade está pautada na lei, inclusive o próprio legislativo e, obviamente, o Judiciário e o Executivo. Em tempos de democracia saudável o Judiciário cumpre um papel importantíssimo, na medida em que os magistrados, comunhão de esforços com os membros do Ministério Público e nobilíssima classe dos advogados fazem o trabalho importantíssimo de acomodação da norma à realidade fática social. Evidentemente, este trabalho os referidos juristas desempenham é sobremaneira especial se se considerar que no interior de uma ação judicial são discutidas desde questões existenciais, até outras mais empíricas e domésticas, até premissas e perspectivas filosóficas e humanistas. O direito é essencialmente interdisciplinar e os juristas são os manejadores da áurea caneta que fazem com que a ministração casuística da lei aos cidadãos que figuram como partes numa demanda seja a menos traumática, a mais razoável, a mais equânime e a mais justa possível. Parabéns para quem montou este modelo. Como diria Churchill “a democracia é o pior modelo político salvo todos os demais”.
Filosofia Medieval
A filosofia medieval, em certo sentido, é o momento áureo da filosofia. Porque embora a reflexão filosófica anterior não fosse destituída de conteúdo, o cristianismo gerou uma demanda de inteligência dos pensadores, sem precedentes. O cristianismo desafia o pensamento filosófico na medida em que o teórico carrega o ônus de acomodar perspectivas que num plano perfunctório são conflitantes. O pensamento medieval é valoroso como um bem em si mesmo e também como um referencial teórico, uma tese a ser resistência a trabalhos filosóficos posteriores. A Modernidade é impensável sem o período que lhe precedeu. E isto vale não só para a filosofia, mas para o direito, a política, as humanidades e todos os ramos do conhecimento. A Idade Média é a Antiguidade arrebentada e estraçalhada. É o triste reconhecimento da supremacia da barbárie sobre a civilidade Greco-romana. E a dinâmica do mundo espiritual é algo tão impressionante que o cristianismo toma força justamente quando mais precisávamos dele enquanto coletividade. Sim, porque todo o indivíduo precisa de cristianismo independente onde ou quando se dê sua existência. Mas eu estava a falar do cristianismo como fator de organização social. Como o mundo espiritual é mais forte que tudo, é mais plausível atribuir a derrocada do Império Romano a fatores espirituais do que a econômicos, políticos ou militares. Mas se a Antiguidade já não mais podia dar respaldo às instâncias materiais e mais imediatas, ainda deveria ser considerada do ponto de vista cultural, filosófico e ideal. Tremenda foi a revelação de Agostinho de Hipona e de Tomás de Aquino que se aperceberam da necessidade de arranjar o pensado no humanismo harmonicamente com aquilo que do alto nos foi dado imerecidamente. A filosofia medieval tem a capacidade ímpar de agradar tanto a filósofos quanto a teólogos ou, ao contrário disso, desagradar tanto a filósofos quanto a teólogos. A verdade é que a Palavra de Deus, além de ser manifestação de Deus, fonte de salvação, é, também, conhecimento. Mas a Palavra de Deus é uma forma de conhecimento superior à filosofia. A filosofia é muito importante na medida em que mantém o estudioso da Revelação preso ao chão e à cerebralidade. Porque o superior tem como característica a faculdade ímpar de suspender a regra, mas a filosofia a todo instante nos lembra das leis do pensamento das quais decorrem todas as demais leis. Penso que, como tudo o que é cultural, essa junção de filosofia e Revelação deve ser feita. E, em seguinda, desfeita. Lamentável é que não é todo dia que surge um Tomás de Aquino. O cristianismo precisa de mentes extraordinárias. Somente imploro que deixem o velho Aristóteles com suas categorias descansar em paz. É lamentável ir até à banca, comprar uma revista de filosofia cristã e ver o mesmo de sempre. Eu mesmo tentei enveredar por uma nova perspectiva e elaborei uma teoria nova sob a denominação Comportamento como Expressão da Metanarrativa. oportuna foi a reflexão que os modernos fizeram acerca da epistemologia. Mas como a própria epistemologia se deu conta de que, após muita discussão, não está em melhores patamares do que a metafísica que tanto agrediu, não tardou aparecer os chamados pragmáticos. De acordo com o pragmatismo, como não sei se meu conhecimento é credível, na medida em que a metafísica dá saltos abstrativos e a epistemologia não pode aferir a margem de segurança das acrobacias intelectuais intrínsecas àquele que constrói conhecimento, postulou-se o aforismo de que toda afirmação é verdadeira e merecedora de crédito se ela tem o condão de redundar em proveito útil para mim. Ora, isto significa que o ápice teórico de uma linha de investigação filosófica que nasceu como crítica à filosofia medieval, torna a revalidar aquilo que tanto menosprezava. Sim, porque nada tão útil, prático e aproveitável na vida de uma pessoa como a Palavra de Deus e, por consequência, o humanismo que dá guarida às instâncias que lhe transcendem. Nada melhor do que dar a volta ao mundo para quem quer compreender o próprio vilarejo. Nada melhor do que compreender a si próprio para compreender o mundo e compreender o mundo para compreender a si próprio. Como é valiosa para a fé a crise de fé. Quem desdenha os medievais não entendeu o que eles escreveram. Filosofia Medieval é trabalho de gente grande, mas a própria infantilidade intelectual tem muito a ensinar. Se o que um autor escreveu lhe parece muito absurdo, um disparate que não merece senão repúdio e deploração, então você não entendeu o autor, não conseguiu se colocar no ponto de vista dele.


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