Programa Radiofônico Filosofia é Liberdade



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Encontro12.01.2018
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Sim, caminho apressadamente. Vou toda manhã para o meu escritório com determinação e bravura. Todo dia me é dada a incumbência de construir o meu país. Eu estou preocupado em fazer a minha parte bem feita. Não estou perguntando o que o Brasil pode fazer por mim, mas o que eu posso fazer pelo Brasil. O Hino Nacional, não raro me arranca lágrimas. Aliás, o Hino Nacional mais lindo do mundo indiscutivelmente é o brasileiro. Deus, Pátria e Família são os valores supremos de um homem de bem. Os problemas do meu país não são os problemas apenas do Governo Federal, eles são meus problemas. Se o meu país entre em guerra, então sou eu quem estou em guerra. Monteiro Lobato já dizia que um país se faz com homens e livros. Claro, homens sem consciência são incapazes de construir um país magnífico. E os livros, sozinhos, nada podem fazer. A teoria precisa se apossar dos homens para que eles saibam estabelecer metas e agilizar seu cumprimento e efetivação. Quem pensa que o fator chave de um país é a economia está equivocado. O fator chave é a educação e a cultura, as âncoras das quais tudo depende, inclusive a economia. A moral é tudo. Porque ser pontual, trabalhador, estudioso, diligente, caprichoso, honesta e patriota é uma questão de ética. O que ensinam as Sagradas Escrituras senão que Deus reserva uma pátria para o povo eleito já neste mundo e no outro? Só seremos merecedores da pátria celestial se honrarmos esta que nos foi dada por ora. Não raro, só valorizamos as coisas da nossa terra depois que fazemos alguma viagem para o exterior. Ninguém ama o que não conhece e conhecer é comparar. Poucos países no mundo são comparáveis ao Brasil em grandiosidade. Temos geografia, temos flora fauna extraordinárias. O potencial energético do Brasil é magnífico. Nossa economia é diversificada. Somos uma potência agrícola. Por se tratar de país jovem podemos nos considerar exageradamente intelectualizador. Já como o oitavo maior produtor de livros do mundo. Brasil é bem mais do que terra de futebol e carnaval. Entendo até que deveríamos deixar um pouco de lado estes dois aspectos e nos aplicar com mais afinco àquilo que realmente interessa. O que mais admiro no Brasil é a diversidade e a tolerância. Pouco me importa o que os políticos fazem ou deixam de fazer. A eles dedico minha oração e o meu respeito. Acima de tudo importo-me com o que faço com aquilo que me foi confiado. A pátria é essa plataforma a partir da qual se desenvolve aquilo que chamamos de História. Pátria é identidade. Talvez o ponto no qual mais nos falte patriotismo é na identidade por conta de nossa heterogeneidade. Mas a identidade é filha do tempo, é mais produto do que manifestação espontânea de vontade. Apesar de não ser experiência única no mundo vemos que o Brasil, ex-colônia sobrepujou em muito o seu colonizador. Costuma-se dizer jocosamente que o Brasil é um país tão viável que há 500 anos estão tentando quebrar é até hoje não conseguiram. O verde de nossa bandeira representa toda nossa esperança, nossas matas. O amarelo representa o Sol e as riquezas de nossa terra. O azul representa o nosso céu anil e a nossa liberdade e o branco a nossa paz de espírito. A pátria é a dimensão empírica que nos é dada para fazermos nossas experiências espirituais quando estamos encarnados. Diria que o fazer parte de uma nação traz consigo importantes implicações espirituais. Porque assim como a raça e o idioma, também a nação traz consigo suas idiossincrasias espirituais. O país emergente é, inclusive, espiritualmente emergente. Nossa missão é transmitir às gerações vindouras o legado com que fomos brindados e fazer um esforço sobre-humano no sentido de agregar mais riquezas ontológicas àquilo a partir do qual passamos a desenrolar nossa existência e tudo o que ela comporta. O Brasil gradativamente vem importando menos tecnologia e menos ideologia e está passando a exportar estes bens para aqueles que outrora neste aspecto eram nosso fornecedores. Todos os que hoje estão sentados sobre uma liteira no passado já foram liteireiros. Refiro-me ao bem estar econômico e social dos países ricos. O Brasil ainda precisa desenvolver-se muito para viver tão comodamente como os países ricos. Mas o gostoso da riqueza não consiste somente quando se está no auge, mas a própria batalha é deleitosa. Padrão de vida é o resultado da confluência da situação de você mesmo e do seu país. Lembrando que há uma dialética e uma dinâmica entre estes polos. A mim não me importa estar privado de requintes. Diria que o pouco conforto, notadamente em algumas áreas determinadas de nosso país, chega a ser uma vantagem na medida de em que alavanca o espírito através daquilo que deixa de ser dado ao corpo. O Brasil caminha para seu ápice e o diagnóstico mais conspícuo disso é a difusão sem precedentes da cultura filosófica em nosso país.
Cura
O homem que pelos livros ficou doente, pelos livros encontrará a cura. A maneira mais fácil de sair do fundo do poço é passando pela mesma via de acesso em sentido inverso que o levou até lá. Sêneca já dizia que o homem não morre, se mata. Hipócrates, por sua vez, dizia que o teu alimento seja o teu remédio. O corpo é vibração da alma e quando ele não vai bem é porque a própria alma está com problemas. Evidentemente, um dia teremos de deixar este casulo que se chama corpo. É que a alma executa músicas. E quando ela desafinar totalmente isto será para executar sanções muito mais sublimes, no entanto, um outro plano. A cura sempre é precedida de um processo de crise. A doença chega a ser algo quase que bom. Sim, porque a doença é um sintoma de que não estamos bem. A doença em si mesma não é tanto um mal, mas a parte visível de que alguma coisa na alma não vai bem. Saúde é essencialmente bem estar e harmonia sendo a doença o quadro sintomático do mal estar e do desajuste. A doença é essencialmente efeito. Quem combate o efeito faz trabalho de Sísifo porque logo mais lá estará o efeito com toda sua funestidade e prejudicialidade. É preciso desarticular os fatores causantes que desencadeiam aquelas consequências que tanto lamentamos. A doença corporal é a mais conhecida forma de doença. Mas há a doença psicológica, social, espiritual e cultural. Em todos os setores da vida humana nos deparamos com patologias. Graças às patologias é que se criam demandas e nichos profissionais. O médico e o advogado são respeitados por serem peritos em consertar aquilo que é de difícil reparação. Quando o sujeito está curado na mais estratégica de todas as áreas, a espiritual, a cura subsequente em outras áreas é uma decorrência natural. É muito importante sermos observadores para nos darmos conta do que aflige a nossa saúde, a orgânica e a virtual. Quando não estamos bem devemos tirar um tempo para pensarmos porque não estamos bem. Nossa consciência é nosso melhor médico. Tão importante quanto ser curado, para quem já está enfermo, é permanecer são para quem ainda se mantém guapo e airoso. Como diz o brocardo popular “é melhor prevenir do que remediar”. Temos que ter cuidado com todas as coisas e em primeiro lugar conosco mesmos. A palavra “doente” vem de “dolente” do latim, ou seja, aquilo que dói. Estar doente, portanto, é estar sentindo dor. Mas aí algum bom samaritano lhe leva para uma estação de tratamento, a enfermagem, se tudo der certo, você há de convalescer. Ou seja, você readquirirá valor, valentia, e aquelas faculdades que são a manifestação de um corpo e de uma mente saudáveis e vicejantes. A palavra medicina vem do latim e significa mesinha, no sentido de que em tempos idos ao lado do leito das casas de misericórdia havia uma mesinha com remédios diversos a serem ministrados ao paciente de acordo com a conveniência. A palavra paciente é aquele que está na enfermagem aguardando pela ocasião de recobrar a saúde que há algum tempo perdeu. No altar das Igrejas Católicas há uma mesinha onde se colocam diversas alfaias litúrgicas e ela chama-se credencia, o que cumpre um papel similar ao etimológico de medicina, uma vez que se aquela mobília é credora de alguma coisa, isto se deve ao fato de ela comportar um bem que possa ser considerado verdadeiramente remédio. A grande doença de nosso tempo é a depressão. A depressão não é tanto a ausência de componente químico em nosso cérebro, qualquer que seja ele. A depressão é falta de ontos os mos, em bom português, entusiasmo, ou seja, ter Deus dentro de si, de perspectiva e de esperança. É difícil sair da depressão porque ela é circular, ela coloca no final o que precisaria estar no começo. Aquilo que é visto como corolário tem de ser, na verdade, premissa. A depressão é o reverso da felicidade, mas tanto uma quanto outra não são metas, são o próprio caminho. A felicidade é um modo de encarar a vida e as pessoas felizes adoecem com menos frequência. A depressão é como que uma alma desidratada. As melhores circunstâncias se desmantelam e são reduzidas a malogro quando a pessoa está depressiva. Já o caos vira paraíso se dentro da pessoa habita uma energia vital que tudo vivifica. A enfermidade é muito este lado do elã vital titubeante. A certeza não pode hesitar, tudo é possível para aquele que crê. Siga o mestre, siga o médico dos médicos, o caminho, a verdade e a vida, a felicidade, o remédio e a cura, Jesus Cristo.

Morte
A morte é algo solene ou, ao menos, deveria ser. A este tema Ludwig van Bethoven dedicou sua sinfonia quinta. Tudo o que faço na vida é pensando na morte. A morte é uma das poucas certezas que temos. Ela relativiza o ser humano que, por definição, é extremamente relativo. A morte sobrevém ao pobre e ao rico, ao culto e ao ignorante. E todos nascemos nus e chorando sob vários aspectos idênticos uns aos outros. A vida é tão breve e ainda assim as disparidades são tão grandes. Imaginem se não houvesse morte. A morte traz consigo a ideia de missão. Uma missão não é algo que se faz quando quer do jeito que se quer e nem mesmo é um passatempo. A missão tem prazo: nossa vida não se alonga nem um minuto além do tempo que for necessário. A morte valoriza a vida porque um modo de valorizar algo é negando. A morte é um vestíbulo. É só passa no vestibular quem foi prevenido e antes estudou muito. Na visão de Hegel, sofrimento e morte são como um gole de água ou o cortar de uma cabeça de couve na horta de nossa casa. Em certo aspecto isto faz sentido. Porque a morte do indivíduo se insere dentro de um contexto muito maior em que o referido episódio é dimensionado pontualmente. Para o contexto o ponto não passa de um ponto, mas para o indivíduo o ponto pode ser tudo. Se tem a impressão de que a vida é proteica e que a morte é monótona. Mas até a morte pode ser diferenciada. Há cortejo que se depara com bloco carnavalesco e há enterros em dias de chuva torrencial. A morte pode ser um descanso: para quem vai e para quem fica. Costumo dizer que há duas mortes: a orgânica e a ideal. A orgânica é aquela que se dá no momento em que a alma eclode do casulo que chamamos corpo. Já a morte ideal é quando nenhum outro que se encontra encasulado fala daquele que um dia estava no mundo empírico. Assim, há uma imortalidade relativa, refiro-me àqueles que só sairão do plano ideal quando a humanidade como um todo deixar de existir: nesse sentido a imortalidade é uma construção e algo que se conquista pelo esforço próprio e pela determinação pessoal. A morte de um é oportunidade para outros. Muitos são levados para deixarem de ser estorvo e pedra de tropeço para outros. A morte foi a invenção mais sábia da vida para que a vida não ficasse engessada. As velhas mentalidades precisam ser sepultadas para que emerjam as novas. Por mais dinâmico, engenhoso e inteligente que seja um ser humano, por mais progresso que ele tenha agregado à coletividade, tudo o que ele faz ou fez é relativo e ele precisa sucumbir para que outros continuem a pavimentar o avanço a partir dos elementos assentados por ele. A morte é o combustível da religião, da reflexão filosófica, da ciência e das artes. Porque se a vida não fosse tão frágil não seria tão valorizada. Esta fragilidade, em certo sentido, é tudo o que temos e somos. O muito otimista ou o muito pessimista são necessariamente deterministas e é por isso que somos livres, porque a vida passa ao largo destes extremos. Isto não quer dizer que a vida não seja radical. A vida é demasiadamente radical e séria. Temos que, justamente, nos acautelarmos para não nos tornarmos refém da banalidade e da futilidade. A morte torna a vida solene. A brevidade da vida solene. A brevidade da vida é um convite-intimação a nos advertir de que devemos valorizar estes exíguos instantes. Claro que é gostoso comemorar a data de aniversário. Mas advirto o amigo leitor ou ouvinte de que é bem mais sábio contabilizar o tempo vivido em dias. A vida é um sopro. Uma flor que é bela, colorida, perfumada, acabou de desabrochar e ainda antes do fim da tarde já estará murcha e seca, pois já cumpriu o seu papel. Perceba que minha vida tinha um determinado ritmo até eu ingressar na universidade e depois o gatilho do tempo disparou. E depois que se tem um filho se chega em casa e é possível vê-lo diferente todos os dias. As novas gerações estão vindo a cada dia, a cada minuto. Todo instante há um novo chorinho na maternidade e o nosso desafio é servir de parâmetro para este público. Nossa responsabilidade, portanto, não é pequena. Façamos o bem, se necessário, empreguemos palavras. E quando nossa corrida tiver terminado que os ficantes possam olhar para nosso epitáfio e dizer: esta pessoa conseguiu ficar excluída do rol das ordinárias, pois foi e fez mais do que o mínimo do que a vida lhe requisitou. Deus o tenha, ele passou, mas o exemplo ficou e hoje continua sendo uma inspiração.
Sexo e sofrimento
Sexo e sofrimento são aspectos complementares da existência humana. O sexo é essencialmente síntese. Ele é a maneira de jungirmos tudo aquilo que assume o forma de aporias e paradoxos e de que a razão pura não dá conta de arranjar dentro do contexto da metanarrativa. O sexo é essencialmente síntese. Ele é a maneira de jungirmos tudo aquilo que assume a forma de aporias e paradoxos e de que a razão pura não dá conta de arranjar dentro do contexto da metanarrativa. O sexo é, em miniatura algo que se aproxima da experiência orgásmica do universo cujo conceito supremo é o big bang. Já o sofrimento é o que nos desaloja. Ele existe para fazer a humanidade progredir. O sofrimento exige de nós que demos uma resposta positiva a um estímulo negativo. O sofrimento nos impõe que paguemos o mal com o bem. O conforto nos causa mais mal do que o sofrimento porque vamos desacelerando até a inércia. Sofrimento gera tensão e a tensão gera movimento, melhor sinônimo para o termo “vida”. Assim como o sofrimento numa análise superficial não tem sentido algum, também o sexo parece não ter sentido algum. Mas o sexo é o melhor paliativo para mitigar o sofrimento desde que bem administrado. Sim, digo desde que bem administrado porque até mesmo sexo pode gerar desprazer, ou seja, sofrimento. Basta pensar naquele que contrai uma doença venérea ou dá causa a uma gravidez indesejada. Neste último caso os sofrimento ficará com terceiro partícipe, mas não causador do ato, acima de tudo inocente ao extremo. De acordo com as teorias eudemonistas, ou seja, aquelas que apregoam a busca da felicidade e Aristóteles é um dos grandiosos representantes desta linha, e, sobretudo, de acordo com as teorias hedonistas o fim da vida humana é a fuga da dor e do sofrimento e a busca do prazer e do bem estar. O sexo e o sofrimento são linguagens corporais e almáticas. A linguagem é algo que sem dúvida se presta para causar resultado sobre o mundo, porém, não podemos nos esquecer de que queremos mudar o mundo para que ele fique melhor para cada um de nós. E o sexo é uma linguagem que faz que nos sintamos bem agindo diretamente sobre nós mesmos, sem mediação, salvo a corporeidade de quem conosco partilha o leito. O sexo está inserido dentro do rol das coisas mais belas e mais divertidas da vida. A alternância entre sexo e sofrimento, assim como noite e dia, frio e calor, sol e chuva, despesa e receita, fome e empaturramento, é o que mantém aceso nosso cérebro, inimigo capital da monotonia, amante das oscilações e dos ciclos que agasalham a vida. O sexo pode ser considerado um luxo. Porque existem prazeres como o comer e o beber que são necessários. Já o sexo sequer precisa ser feito visando a procriação. Aliás, a procriação na maioria esmagadora das vezes não é o objetivo da cópula. O sofrimento sempre nos acompanha como algo que se nos agrega como carrapicho à roupa. Raramente alguém busca o sofrimento porque entende que isto irá lhe fazer crescer. A não ser que se trate de pessoa masoquista, o que não exibe outra coisa senão patologia e insanidade. Diria que o sexo sem a contrapartida do sofrimento inevitavelmente nos levaria à futilidade e à banalidade. Aliás, isto já está acontecendo. Porque as pessoas estão se esquivando das responsabilidades refugiando-se na unilateralidade da sensibilidade e do sexo sem compromisso. Em nome do sexo, que em muitíssimos casos é o único critério utilizado para a escolha do parceiro, se enfim os pés pelas mãos justamente porque a vida não é só sexo. O sexo dura alguns minutos, mas existe um tempo muitíssimo maior que envolve trabalho, finanças, religião, família, política e vida social e cultura. Na escolha do parceiro, portanto, o todo deverá ser considerado e não apenas uma dimensão. Porque se o todo for desconsiderado, aquilo que você reputava ser um ganho no sexo perderá no outro extremo por conta do sofrimento que a mesma pessoa irá lhe acarretar. O sexo é importante na medida em que é através dele que flui o DNA e que a genética condiciona pesadamente a feição do globo. Os trópicos são terras de muito sexo e de muito sofrimento. O clima frio, pelo contrário, faz com que as pessoas sejam mais recatadas e reservadas. Certo mesmo é que quem tem vida sexual muito intensa é porque ao longo do dia ficou ocioso, uma vez que o trabalho requer tanta ou mais energia do que o sexo. Não que trabalho e sexo se excluam. Pelo contrário, o sexo é quase sempre uma boa opção de liberar o estresse acumulado pela jornada de trabalho. O sexo é um trabalho, uma vez que, de acordo com física, a energia nele despendida pode ser medida em joules. O sexo faz bem à saúde, desde que seguro, e pode ser a expressão de afeto que não pode ser expressa em palavras, atitudes e outros padrões de comportamento mais intelectualizador.
Realidade como ponto de vista
O termo “realidade” vem de res, rei, isto é, coisa. Mas a realidade não pode apenas ser vista como arranjo de coisas, mas arranjo de relações, de troca, precisa ser vista como afetividade, poder, reverência e mentalidade. A realidade até seria uma se não existisse representação de realidade. Mas como as representações de realidade são indiscutivelmente plúrimas e como elas na sua virtualidade repercutem sobre a concreção do mundo, é de se admitir que a própria realidade seja plúrima, ou, no mínimo, movediça. Se se tem uma figura paterna na família que é autoritária e arbitrária o menino na condição de filho, assim que entrar em contato com o marxismo instantaneamente verá em seu genitor uma figura que na teoria econômica crítica se aproxima da do dono dos meios de produção. Fiquemos ainda com o exemplo do pai. Se o pai é fanático do credo católico, para o filho oprimido o catolicismo será uma ideologia de opressão pelo simples fato de ser manejada pelo opressor. Até mesmo Deus passa a ser visto com maus olhos, uma vez que é conceito central daquele paradigma teológico, embora o conceito de Deus não seja monopólio de quem quer que seja. Pensando no marxismo, pode-se dizer que ele é um discurso que faz muito sentido para todo aquele que por alguma razão se sente achacado. Mas assim que a história pessoal de vida daquele que até agora pouco foi perseguido dá uma guinada e ele se sente liberto, deixa grandemente de fazer sentido o discurso de emancipação. De alguma maneira tanto Freud quanto Marx se mostram paladinos de libertação. Mas enquanto que Marx reconhecia o sofrimento como algo social, Freud tratou de privatizar o sofrimento. Seja a razão de nossas frustrações sexual ou econômica, ou ambas, até porque uma dimensão penetra na outra em ambos os sentidos, o fato é que explicamos o mundo em que estamos inseridos pela nossa experiência particular a que atribuímos um valor universal. somos a poeira que se acumula nossas engrenagens cujo conjunto convencionou-se chamar História e toda sutileza e toda relatividade do que somos, pensamos e escrevemos ilustra as contingências espaciais e temporais que nos aprisionam. De repente o menino que até ontem tinha que pedir permissão para respirar se vê como marido e pai, como alguém que, muito antes de ser filósofo ou teorizador, precisa dar guarida às pessoas que estão sob sua responsabilidade. Aquele que queria ingressar no restrito time de imortais do pensamento agora está livre das amarras do passado, vê nas representações de mundo serem pulverizadas no ar e precisa dar a outros o que nunca teve para si mesmo. Às vezes parece mais fácil elaborar uma superteoria do que fazer algo extremamente mais simples e viver muito mais confortavelmente do suor do seu rosto. O pior de tudo não é que haja pensadores nas mais diversas áreas, notadamente na filosofia, que se apresentem como os detentores da verdade. O lamentável é que sempre haja quem neles deposite toda sua confiança e esperança. A religião é quase sempre um sistema de ideias de grande valia a ser manejado para quem é chefe de família. O varão precisa de um suporte abstrato que o confirme como chefe espiritual e chefe em todos os sentidos do lar. Quem pretendeu enfraquecer a família percebeu que primeiro seria necessário enfraquecer a religião, pois o bem palpável que a religião visa proteger é a entidade familiar. Na verdade há em certo sentido uma codependência muito grande: é na família que na pessoa adquire seus valores religiosos e então o sistema teológico dá guarida a quem lhe dá guarida e a família busca um elemento virtual de coesão. E hoje se vive uma relativização da família que relativiza, com ela, a religião e se vive uma relativização da religião, que relativiza, com ela, a família. Isto é produto em grande parte da vitória da democracia, pois ela se opõe a praticamente tudo, a todas as instâncias de poder, pulveriza o poder, e, na real, a democracia se opõe até mesmo ao Estado Democrático de Direito enquanto ele não deixa de ser uma oposição ao que pretende assegurar. Lembrando que também a religião e a democracia são um ponto de vista sobre a realidade.
Política como religião cívica
A política tem corpo e alma: o corpo é a militância e a alma é a ideologia. O fator mais determinante na consecução dos objetivos da agremiação partidária que é a hegemonia do poder estatal é o seu nível de organização. Evidentemente, a ideologia serve de mola propulsora da organização enquanto se faz de telos do a priori que integra a esquematologia da inteligência estatutária. O partido político é uma inteligência que tem o condão de interferir diretamente na prática. E, nesta qualidade, fazemos nossas as palavras de John Stuart Mill segundo as quais a inteligência só faz sentido enquanto sua missão não está totalmente cumprida. Aliás, o fim da política e da religião é o mesmo. Assim como o Evangelho de Cristo continua fazendo absoluto sentido na medida em que o mundo está carente desta sabedoria e da respectiva vivência, também muito há o que ser feito em política. A política é a ferramenta mais flexível, mais dinâmica, e mais poderosa para intervir e aprimorar todas as outras dimensões da vida humana. Pelo simples fato de que praticamente tudo um bom governo dá conta de resolver. O Estado desempenha um papel de organização social extraordinário e a antecâmara de tudo isto é a organização partidária. Na verdade, o Estado pode propiciar o desenvolvimento integral do ser humano disponibilizando-lhe acesso à saúde, educação, cultura, cidadania, segurança, vida digna e meios materiais de vida. Só de uma coisa o Estado não dá conta de fazer: tornar, apesar disto tudo, os seus administrados felizes. Porque a felicidade é uma escolha, uma visão de mundo. Coração vazio é coração infeliz. E o vazio do nosso coração é do tamanho de Deus, justamente Ele que é incomparável em grandeza, não podendo ser sub-rogado por nenhuma espécie de sucedâneo. Ao lado da política que dá conta de suprir as concretitudes de nossa vida e ao lado da religião que alimenta o espírito, está posta a filosofia que tem o condão de realizar integralmente o homem enquanto ser intelectual e metanarrador. Mas embora a metanarrativa seja uma marca forte da filosofia, ela abarca toda penseneidade. De tal sorte que mesmo quando o único objeto do ser humano é o exercício mental e dar prova de sua engenhosidade mental, também isto é filosofar. Da mesma forma que se faz ginástica não só para obter força e saúde, mas porque ela é vista como um bem em si mesma, também a filosofia é um bem intelectual em si mesma. A política também tem muito disso. O político por vocação milita no movimento como quem faz isto como a razão de ser de sua vida. Quando o instrumento é poderoso e eficaz, seja ele a religião, a filosofia, a ginástica ou a política, não raro é endeusado como um fim em si mesmo. O mesmo ocorre em relação ao dinheiro que é o documento que nos possibilita realizar permuta de bens úteis à vida e que é erigido como o supremo bem para aqueles que não se dão conta de que não é inteligente ganhar o mundo e perder a alma. O cristão é chamado a ser não só assecla desta religião cívica que é a política, mas inclusive, ser um de seus sacerdotes, a fim de que no referido âmbito se façam sentir os valores trazidos por Cristo e consignados nos evangelhos. A verdade nada mais é do que o enunciado calcado sobre uma forte organização. Organização de ideias de militância, jurídica, social, enfim, de pessoas, coisas e conceitos. A maneira mais eficiente de a organização partidário-política galgar o poder é persuadindo as organizações da sociedade civil não diretamente partidárias, mas por certo políticas, a lhe apoiarem. Uma grande organização, e a política é essencialmente isso, é a conglomeração num todo uniforme de menores instâncias previamente organizadas, a integrarem um bloco mais ou menos consistente.


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