Projeto Espaços sociais, envelhecimento e relações geracionais Projeto Envelhecimento e memória Coordenação: Josimara Delgado Transcrição de depoimento



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Núcleo de Extensão sobre Gerações



Pólo Interdisciplinar na Área do Envelhecimento

Projeto Espaços sociais, envelhecimento e relações geracionais

Projeto Envelhecimento e memória

Coordenação: Josimara Delgado

Transcrição de depoimento
Maria Aparecida Gonçalves da Silva, nascida em 12 de abril de 1936. (73 anos)
Infância

Eu não tive infância. Porque era uma das mais velhas da minha família né?! Então, não tinha como... e minha mãe trabalhava muito, lavava roupa pra fora, né?! Meu pai bebia demais, né?! Então, eu ajudava, eu ia no meu tio pra buscar uma cesta básica pra gente né?! E, eu buscava trouxa de roupa pra minha mãe lavar, eu ajudava, sabe?! Carregava o almoço né?! Carregava o almoço, levava o almoço no “Muller”, na fábrica de tecelagem, né?! Tecido né?! No “Muller”, no Mascaranhas, no “sibiulius”. Aí depois vinha pegando as vasilhas, as marmitas tudo! Estudava, no Delfim Moreira, que é na Avenida Rio Branco, que é o central né?! Ali eu estudei sabe?! Repetia ano, mas anos! Que a cabeça não dava sabe?! Diz que era porque os “poblema” de família, né?! E eu ficava preocupada com aquilo né?! Meu pai, eu levava almoço pra ele, chegava na hora, eu deixava o almoço dele, ia levar os outros, aí depois dali eu ia pro colégio, né?! Na esquina da Getúlio Vargas tinha um senhor que vendia banana, aí a turma ia tudo comprar banana lá, porque era barato, né?! Quer dizer, um montão de banana! Aí eu ia. Quando chegava na porta do colégio ali, falava: “Ah, vou na aula não! Vou voltar!” Aí voltava pra casa. Tomava o bonde, voltava pra casa, ou senão a pé, e vinha embora. Aí foi indo, foi indo, eu não tava saindo na aula. Meu pai falou com a “véia”: Ela vai, eu vou, ela vai estudar de qualquer jeito!” Ah menina, quando foi um dia, eu cheguei no portão, conversei com as meninas, virei-me “inté” pra trás, papai com a bicicleta já: “Volta!Vai estudar! Se ela tiver algum problema, a senhora pode ligar que eu venho pegar.” ali minha filha, depois daqueles tempos, não perdi nenhum dia mais de aula. Estudei, aprendi tudo, aquelas música eram boa né?! Sexta-feira a gente tinha o canto e tudo. Aí fiquei, sabe?! Aí depois disso, pronto. Fui pro segundo, terceiro, quarto, quinto, e... fui embora né?! Mas eu não tive uma vida boa... fácil! Você entendeu?! Fácil não... Meu pai bebia, ia preso, eu trabalhava, o que eu ganhava, depois de treze, pra quatorze anos eu comecei a trabalhar, fazia a despesa de casa e guardava um dinheirinho pra quando eles vinham falar que meu pai tava preso, pra pagar! Porque de primeiro pagava né?! Carceragem, pra poder tirar a pessoa de lá! Mas só por bebida...e qualquer coisa, só de você olhar ele já tava brigando! Entendeu?! E todo ano minha mãe esperando nênêm, ganhava outro nênêm, aí nascia nênêm... Eu tinha que levar comida, as coisas pro meu pai na cadeia, eu tinha que pegar remédio nos bairros pra minha mãe, aquela época era a época do açúcar e do feijão que sumia, e eu ia pra fila pra pegar açúcar e feijão, pra fazer comida pros meus irmãos, né?! E tudo...e ficava assim... você pegava a fila, o quê que pegava? Meio kilo de açúcar, meio kilo de feijão... não tive, não tive infância não.( Eram quantos irmãos?) Nós era muitos, muitos irmãos! Mas foi morrendo, porque minha mãe ganhava de dois em dois, gêmeos! De quatro vez ela teve oito filhos! Mas perdeu. Todos! Entendeu?! Nós éramos em treze irmãos, restou só quatro. Agora restou só três! O meu irmão morreu de repente, e tudo. Então, é a vida né, minha filha?! Então, não foi uma vida fácil. (Como eram os nomes dos seus pais?) José Gonçalves. E minha mãe Alice Ferreira Gonçalves. (E seus irmãos?) Antônio Gonçalves, Marise de Fátima Gonçalves, e... Iria Gonçalves. Agora, os outros irmãos...já foram!
Trabalho

Depois de treze anos eu fui trabalhar, aí eu pagava as despesas da casa. Eu trabalhei em calçados, eu trabalhei em malharia, trabalhei em costureira, trabalhei na Mascaranhas, trabalhei em muitos lugares! Trabalhei no “Bazoquinho” que é ali na, no Largo do Riachuelo, aquela fábrica de estojo, de caixa né?! Trabalhei muito em “restorante” né?! Trabalhei muito, muito em “restorante” sabe?! Aqui no São Mateus, lá no centro, Adega do ninho... Ih! Muita coisa! Trabalhei naquela, naquela dona da Vasp, sabe?! Que tinha empresa de avião na Espírito Santo?! Trabalhei muito tempo com ela, muito tempo mesmo. Na casa dela! Trabalhei com aquela dona do k2, Carmen Maranhão, entendeu?! Trabalhei no 16 clube de Juiz de Fora. Lutei! Mas lutei muito!Quando a minha mãe tava esperando nênêm, sabe o que eu fazia?! Eu comprava as galinha, eu comprava o vinha “moscatel”, comprava as rosca, caramujo, fazia o enxoval do nênêm todinho! (Costurava, bordava?) Não! Comprava! Fazia e pra deixar pra minha mãe que tivesse esperando nênêm como se fosse, eu era o marido da minha mãe! Porque meu pai... era só a bebida! Entendeu?! (Antes de você trabalhar, que mantinha a casa?) Quem mantinha? Era meu pai, você entendeu?! Era meu pai. Mas ele punha assim, as coisa tudo pouquinho, porque ele bebia, tinha que pagar botequim, ele trabalhava na prefeitura, ele era bombeiro de lá, né?! Então, a compra, fazia a compra assim, esse mês tava devendo aquela, quando era no mês seguinte, pagava aquela ficava devendo outra. Sempre naquela luta, você entendeu?! Era assim que era nossa vida. Aí minhas irmãs começaram a trabalhar, sempre tinha uma que ficava desempregada, né?! Quando não tava as duas, tava uma, tinha dia que tava as três, tinha tempo que não tinha nenhuma, todo mundo desempregado...era assim sabe?! Que a gente vivia.(E onde você nasceu?) Eu nasci no Manoel Honório, na rua Álvares Júnior,111. Não tem o final da Avenida Rio Branco do lado de lá?! Aquele finalzinho antes da garganta? Naquela rua ali que eu nasci. Até hoje né?! A minha família mora lá. Minhas irmãs. Eu me casei eu tava com 26 anos. Até 26 anos eu morei lá, depois fui morar em casa de aluguel, depois minha sogra viu que tava difícil pra gente, aí eu voltei pra minha casa, que minha vó tava doente, então ajudei minha mãe a olhar minha vó né?! Fiquei lá uns três anos mais ou menos. Aí depois saí de lá e vim pra cá. Aí, aqui minha sogra me ajudou, fez a casa, aí a gente morava aqui e tudo, aí tive, ganhei os nênêm, um casal de gêmeos. Depois ganhei mais duas gêmeas também. Que uma é aquela que mora ali, e a outra que mora lá em cima. Ela até tem uns nênêm que tá lá no semente também né?! Aí depois o marido separou né?! Aí eu fiquei com os netos, os filhos desempregados. Aí que eu trabalhei o dobro pra criar os netos, e os filhos, e as duas filhas. Ajudar eles né?! Aí pronto! Depois cada um foi pro seu lado. Uma casou, ficou viúva. A outra mora com companheiro. Aí eu fui trabalhando. Mesmo assim, eu aposentada, ainda trabalhava. Trabalhei sete anos no Tupi, de lavadeira. Que aí, que eles me ajudavam lá né?! Me ajudavam muito porque eu não podia trabalhar, né?! Me ajudou muito nesse modo né?! Mas depois eu tive que sair, porque o Bretas saiu né?! Então... tinha um senhor lá que começou a mandar eles embora, ele ficou com raiva, aí ele começou, sabe, a atrapalhar todo mundo. Aí o Daniel do Bretas falou assim: “Ah tia!” ele me adorava “ Ô tia! A senhora, nós infelizmente, vamos ter que te dispensar! Porque tá esse problema aí, nós não queremos que a senhora fiquei sem sua aposentadoria. E como que você vai ficar? Assim é melhor. Aí a gente vai te dar um dinheiro aí, e aí nós vamos pôr sua filha no seu lugar pra ela trabalhar e ta dar uma mesada, te ajudar.” Aí falei: tudo bem, tudo bem, Daniel” Aí eu saí tá?! Mas, por causa disso, porque senão tava lá até hoje! Aí eu tava trabalhando, minha casa queimou, todinha! Fiquei sem nada! Essa aqui! Fiquei sem nada! Sem nada! Entrei aqui com um “colchosnete” e uma cadeira, entendeu?! Sofri tá?! Aí morava aqui no terreiro, mas não deu certo. (E porque que pegou fogo?) Olha, eles falam que é eu que queimei, mas aí eu pensei que foram as crianças, mas foi assim, aí depois o corpo de bombeiros falou pra gente que eu esqueci o ferro elétrico ligado, porque eu passei roupa pra ir trabalhar e esqueci o ferro, e o ferro esquentou, começou a pegar na colcha da cama, nas “beradas”, e aí foi pegando, pegando, pegando... tudo, tudo, tudo! Eu comecei de baixo. A televisão só que salvou, assim mesmo porque meu neto dormia na sala, aí quando viu aquela quentura no corpo dele, quando ele virou o fogo “êvinha!” ele deu aquele pulo da cama, tirou a televisão correndo e saiu. Meu neto também ficou com a roupa do corpo! Isso tudo foi “adoado”, tudo ganhei, uma coisa eu ia comprando devagarzinho, uma coisa, outra até... ter o que eu tenho! Mas eu sofri viu?! Eu penei, penei muito!

Relação com os irmãos/ família

Ah, eu brincava! De roda, de pique, entendeu?! Cirandinha, nós fazia teatro, tinha uns vizinho lá, fazia teatro, fazia apresentação do teatro, naquela época e decorava aquele trecho né?! E tudo. Ih, era bom demais sabe?! Aí, depois, a gente ia em festas, nas festas né?! Convidava e tudo, aí a gente trabalhava, fazia aquela roupinha, comprava um sapatinho, e ia toda feliz! Quando chegava na festa, tava lá bem lá, querendo arrumar um namorado, piscava o olho e tudo, a gente ficava ali, mas não podia né?! Namorar, porque não deixavam, e meu pai era muito rígido. Aí quando vê ele chegava, escorando pelas paredes, meu apelido era “Tôta” né?! Aí ele “Mariinha! Tôta, Tunica, já pra casa!” a gente tinha nem a felicidade da roupa nova, do sapato, nem nada menina!Tinha que voltar pra casa. Tinha hora que não tinha nem vinte minutos que nós tava na festa. Ele já fazia a gente sair, ir embora. Aí a gente não aproveitava nada não boba! A gente ia só à missa, aos domingos né?! Ia à missa, voltava, fazia o almoço, a gente almoçava, ficava por ali, pronto. (Seus outros irmãos também trabalharam pra ajudar em casa?) Eu e as outras. Mas as outras tinha época que tava desempregada e tudo né?! E a minha irmã que costurava, depois ela começou a costurar, lá onde é que ela trabalhava. Ela trabalhava na “Quinete Têxtil”, aí depois ela começou a fazer tricô né?! Que ela até agora é professora de tricô. Tricô à máquina né?! Então, ficou vivendo. Depois ela foi pro rio, voltou... mas viveu a vida desse jeito! (Você estudou até que série?) estudei até a quinta série. Depois eu parei. Não dava pra ir estudar mais não. Na época eu estudava à noite né?! Depois eu ficava muito cansada e tudo, porque tinha dia que eu tinha que fazer serão, pro dinheiro aumentar, pra poder ajudar lá, a família.


Juventude

Da juventude?! Ah...Eu lembro muito dos bailes, sabe?! Dos namoros, né?! Porque não podia namorar, o namorado ia, sentava, tinha que sentar longe da gente pra conversar né?! Aí perguntava, chegava “Como é que é?! Você tá bem?! Você tá com boas intenções menino?!” Meu pai falava assim né?! “ É! Porque se for pra tapear, pra namorar assim e não “afirmar”.... namorar na rua não pode não!” Aí eu namorei muito tempo. Um outro, outro... namorei muita gente! Muitos rapazes. Mas assim, chegava no namorico era assim, que eu trabalhava na hora hora do almoço, vão conversar ali e tudo, depois ia embora pro serviço, outros tava no portão a gente conversava, ali despistado, porque não podia né?! Tinha um filho de uma cumadre da minha mãe, que morava ali nos fundos da minha casa, mas na outra rua, sabe?! Então ele... passava. Quando ele saía, aí eu sabia que ele tava passando, vocês conhecem aquela música “bequinte, bequinte”? Não?! Nossa! É linda a música! Linda! É aquela música, não sabe não?! “ Quando começa o bequinte, bequinte... bate os tambor na doce cadência...” (cantando) Aí eu já sabia né?! Que ele tava subindo, que ele tava chegando. Aí se fosse mais cedo, eu saía pro portão despistado, né?! E vão indo né menina?!



Casamento

Meu ex-marido?! Foi assim, eu trabalhava nessa “Genuína calçados”,né?! E eu tinha, tenho até hoje, parentesco aqui na pirapora na parte de cima né?! Então ele era sobrinho desta tia que era conhecida da gente. Mas eu nem pensava que ele era conhecido nem nada! Aí ele começou, eu trabalhava já na Genuína e ele começou a trabalhar lá, ele trabalhava na expedição né?! Quer dizer, a expedição é o que já, que carimba, que faz a embalagem, tudo né?! Aí nós começamos a namorar. Ali eu falei “Aqui, meu pai é muito enjoado sabe?! Ele não gosta que fica demorando toda vida não! Ele gosta da pessoa que resolve, que seja uma boa pessoa e tudo né?!” Ele falou: “ Ah não! Pode deixar! Tô apaixonado e vou casar mesmo e tudo, né?! Aí nós começamos a namorar em janeiro, quando foi em maio, ficamos noivos! Quando foi em dezembro, casamos! É mas foi assim sabe?! Que eu queria mesmo ele. Os outros falavam assim: “Ah! Ele tem cheio de namorada, ele tem isso, tem aquilo, outros problemas com outras aí tudo, muito namorador e tal.” Mas ele todo dia, chegava o ônibus , era serrinha isso daqui né?! Parava na praça da estação, e eu vinha do Manoel Honório, quando eu chegava ali, ele já tava me esperando, aí a gente já ia conversando lá pra fábrica e tudo. E ele trabalhava, eu trabalhava aqui, e ele como no quarto. Aí os colegas, a gente ia conversar e tudo, brincava, eles mexia comigo, quando eu via, sapatada! Ele tampava o sapato nas minhas costas! Sapato nas costas porque eu tava conversando com os meninos. Aí na hora do almoço, acabava de almoçar, ia pra almoçar tinha uma sala lá que guardava as coisas né?! Guardava as embalagens, sentava lá, almoçava perto de mim, na hora de sair, saía junto! Não dava tempo pra nada não! Não tinha tempo! Na hora de sair do serviço ia lá pra casa, chegava lá em casa ele jantava, conversava com meus pais e tudo. Aquele tempo inteiro. Quando dava 21 h, ele vinha embora pra casa , aquele tempo inteiro sabe?! Mas depois não deu certo, sabe?! Nós casamos, e fomos 25 anos da casados, nós separamos. 25 anos. ( Você não teve nenhum outro companheiro?) Não. As meninas são muito ciumentas boba, elas não deixam não! “Não! Ninguém entra aqui! Se for pra entrar é só meu pai novamente! Outra pessoa não!” (Ele é vivo ainda?) Vivo, é vivo.



Irmãos

(Você é a filha mais nova?) Eu sou a quinta, porque nós era em treze né?! Morreram todos em criança! Quer dizer, no meio de tudo morreram e eu fiquei como a mais velha. A mais velha da família. (Então ficaram três mulheres?) É. Três mulheres. A Iria, que eu falei, essa é a solteira, tinha três filhos, três meninas quando ela morreu. A menor tava com um ano e pouco né?! E tem a Antônia. A Antônia é depois de mim, e a Marisa é depois da Antônia. A Marisa tá com 58 anos, vai fazer 60! E essa Antônia, vai fazer 70! E eu tô com 73! (E seus pais?) Meu pai também morreu de repente. Que ele adoeceu sabe?! Vinha do Alcoólicos Anônimos, né?! E foi que ele teve um problema, problema de pneumonia e morreu com problema de cabeça você entendeu?! Foi assim, de um mês pro outro ele morreu! E aí ficou só minha mãe. Minha mãe ficou criando essas minhas sobrinhas, filhas dessa minha irmã mas do meio, você entendeu?! E as minhas irmãs tava no Rio, e eu também ajudava a cuidar da minha mãe, tá?! Todas duas, no Rio! No Rio não, tava em São Paulo. As duas minhas irmãs tava em São Paulo, a minha mãe morava no Manoel Honório. (Você casou e veio morar aqui?)Não, eu me casei e fui morar lá no bairro Nossa Senhora Aparecida. Aí eu morei lá acho que uns três anos, depois voltei pro Manoel Honório outra vez pra cuidar da minha vó que tava doente, pra ajudar minha mãe, e depois que eu fiz, minha sogra fez aqui minha casa aqui pra mim, essa que caiu.(Você lembra o ano em que veio pra cá?) Eu vim pra cá foi em 62. Foi 62 pra 63. E esse aí meu filho gêmeo é de 63, e as outras gêmea é de 65. (Seus filhos nasceram todos aqui?) Tudo aqui! Na minha família tem até trigêmeos! Eu tive uma tia que teve trigêmeos, depois de duas vezes ela teve gêmeos, de três vezes ela teve sete filhos!! É ué! Essa minha filha aqui em cima tem gêmeos, dois gêmeos. Aquela outra ali, também já ganhou gêmeos. A minha mãe de quatro vezes, ganhou oito! Perdeu tudo! É ué, família é... (Gêmeos igualzinhos?) É, tudo assim... diferente. Um é mais fechadinho, outro é mais abertinho... Essa minha tia ganhou uma que era escurinha, bem fechadinha mesmo, e um rapaz que era o Geraldo, que é mais abertinho, e a outra também, que é mais abertinha. Eu ganhei o casal, que era...Adejanira, que era a escurinha, Adejacir, esse aí já era bem mulatinho, e com esse aí sofri muito viu gente?! Nossa Senhora... é a vida né?!

Filhos:

A criação dos filhos?! Foi assim, estudavam e tudo, mas depois levava no colégio, teve, ia no jardim da infância, eu trabalhava e tinha uma pessoa que tomava conta deles pra mim né?! Mas depois, essa uma com idade de treze pra quatorze anos, arrumou problema, aí foi ser mãe tá?! Foi ser mãe, deu o maior susto pra gente, o maior aborrecimento, né?! Aí depois ela começou a trabalhar e tudo, e eu criei o filho dela mais velho, que ela saía pra baile, não voltava sabe?! Gostava de beber também, aquela coisa. Já a outra que é gêmea não, ficava sempre aqui comigo, aí depois casou, teve os filhos, aí o marido também não era gente boa, aí ela voltou, com dois meses de casada eu fui buscar ela na casa do marido, voltou, nunca mais ela voltou pra lá, ficou aqui entendeu?! E foi assim, elas.. por bem dizer não teve infância não sabe?! Agora o meu filho dá trabalho também... bebia muito, tentava suicídio, várias vezes tentou suicidar tá?! Ficava no hospital de nervo, sofri muito. Tinha dia que tava as jantinha tudo pronta, o almoço, ele comia, comia, comia bastante, eu falava: “ Meu filho, não vai comer a comida toda! Ainda tem suas irmãs pra almoçar ou jantar....” Ele tampava as panelas tudo no meio do terreiro com tudo! Sofri muito gente...muito, muito, muito...Hoje em dia o meu marido tá doente também, aí falou que vai voltar... Ele mora lá na Borboleta. Ele mora na Borboleta, na casa de um colega, e ele tem a casa dele lá no Nova Era né?!Ele fez lá, a mulher que ele vivia com ela exigiu, que ela quer que ele indenize né?! Aí ele vai vender lá pra indenizar ela. Porque ela queria ficar com tudo né?! Aí a gente arrumou um “adevogado”. Então agora ela entregou pra ele lá, mas tem que indenizar. Aí ela queria que fosse dividir, como é que ia dividir? Três andares né?! Ia dá um pra um, outro pro outro, e o outro ia dividi no meio? Não podia né?! Não tinha como! Aí ele deixou esse aí pra mim. Pra mim morar. (Seus filhos estudaram até que série?) Até a quarta. Uma, até a quarta, o outro até a terceira, essa daqui estudou até o segundo ano e olhe lá! Foi assim...


Trabalho após casamento

Trabalhei! Trabalhei muito! Continuei trabalhando, lá na mesma firma né?! Meu patrão, como eu te falei, me ajudou muito, e então eu trabalhava pra ajudar a fazer isso aqui, e depois a casa da minha sogra é a de cima, caiu! Aí eu tava construindo aquela na frente, aí minha sogra foi pra da frente, até arrumar aquela, aí acabou, construiu aquela, ela subiu. Aí minha filha veio morar naquela ali, a outra sabe?! Então...trabalhei muito minha filha, muito mesmo. Minha vida foi de luta né?! Trabalhar... fazer pros outros as casas....ajudar os filhos... ajudar os netos...e tudo, foi uma vida de luta, você entendeu?! Até hoje! Até hoje ainda luto muito, muito mesmo. E aí tem que olhar um, olhar outro, minhas irmãs também, né?! Teve época de tá desempregada, uma eu ajudei muito ela também, quando eu podia né?! E as minhas irmã saíram, vieram com a mudança né?! Não tinha meio de trazer a mudança, eu que mandei trazer a mudança delas de São Paulo né?! A outra do Rio pra cá... e foi assim! Sempre ajudando, sempre fazendo pra um outro, pra um outro sabe?! E até hoje! Ainda tinha vontade de trabalhar, mas eu não posso né?! Essas pernas, não agüento mais, dói muito, Deus me livre! Cai muito... essa semana já caí aqui, meu joelho tá ó! Aqui! Aí a perna! Não dá! Cai muito! E tenho vontade de trabalhar!


Velhice

Mudou muito assim, em doença...em modo de viver? Ah, tá muito difícil! Muito remédio que eu uso sabe?! E as dificuldades e tudo, não tá brinquedo! Porque tem uma filha doente que até essa uma que saiu, todo mundo aqui tem problema na perna, problema de pressão alta! Ali então, Nossa Senhora, é uma luta! E eu vivo, mesmo assim. Se eu parar de andar, para tudo né?! Minhas perna não ajuda. Tá assim! Você precisa de ver, quando faz calor, as pernas ficam dessa grossura! Incha tudo! Incha muito sabe?! É varizes interna! Eles falam que é também aquela, a ... como é que chama?! Dá muito “izipela”, demais! Todo ano me dá! Tem vez que dá duas vezes no ano entendeu?! Isso dói muito... não doía tanto, mas agora dói demais! Sinto muito cansaço, muita dor...Nossa! Ah, eu não tenho vontade de operar não! Tenho medo! E outra, eu fico com medo, tem hora, das minhas pernas parar, paralisar. Porque tem vez que eu tô parada assim, no ponto de ônibus, pra esperar ônibus, pra mim esperar o ônibus, tem que ficar andando assim, se eu não começar andar parece assim, que eu sou igual nênêm, a perna para pra eu começar a dar o primeiro passo, sabe?! Então é difícil... é difícil...dói muito! Muito mesmo! Eu trato com homeopatia né?! Trato também com médico né?!


Bairro

O bairro não tinha nada! Nada, nada, nada, nada! Só tinha essa casa que era a de cima, que é da minha sogra, e tinha uma outra casa pequena lá no canto! Mas não tinha essa, nem essa, nem a outra! A gente chegava da esquina, a gente enxergava isso tudo escuro! Tudo escuro1 era só mato! E um trilho pra gente passar! Pra gente pular de lá, que é o Teixeiras, tinha um trilho, de campo de futebol, que a gente saía lá nos Teixeiras, sabe?! Porque tratava de arraial do sapê né?! E... ali, ali em cima onde que tem a padaria, só tinha um dono de um venda que chamava “Sô Miguel”, que ele ali tinha de tudo! Mantimento e tudo né?! Mas não tinha uma padaria, não tinha nada! Tinha uma capelinha lá em cima, onde que era a igreja sabe?! Então tudo era assim... essas casas, tinha só barraquinho né?! Nem era casa, era barraquinho! Ali em cima tinha um...ali onde tá aqueles ferro onde desce as pessoas, tinha o pessoal lá que era os nossos parentes da parte de cima, no 127. e tinha do outro lado a Dona Geralda Lopes, a Geralda Reis...só esses vizinhos assim. Não tinha nada! Tinha umas quatro casas era muito! Era aqui, ali embaixo “seu Zé Grande”, ali, é Manoel Roque. É tinha uma, duas, três.... três, quatro, cinco! Cinco casas só acho que aqui no bairro. Mais nada! E uma longe da outra! Do outro lado de lá, não tinha casa nenhuma, quer dizer, essas casas tudo, a maioria, é os fundos pra cá né?! E tudo... e ali onde que era o semente, não tinha casa, só tinha a casa da Dona... da... como é que chama? Da... gente minha memória tá horrível! Dona Vera! Da Vera! E tinha ali,quando no atravessar, tinha o “Sô Antônio Dias”, e aquela tipo uma fazendinha quando sobe do lado de cima?! E aquilo lá entendeu? Não tinha mais nada! E dali que foi, aquele dia que nós fomos tirar a coisa né?! Tinha um trilho que saía em São Pedro, um na Pe. Café, pra descer, pra chegar na cidade né?! Pegava a Olegário, a gente ia tudo a pé ali, não tinha nada ali! A praça aqui, essa Avenida aqui não tinha. Tinha nada! Era só um trilho cheio de pedra, e tinha uma pinguela, onde é que tá ali aquela instituição dos velhinhos?! O bonde ali, parava ali, e a gente subia a pé pelo trilho, saía aqui! Quer dizer, todo mundo do Dom Bosco, passava por aqui pra ir pro Dom Bosco! Aí os da parte da Serra, porque eles falavam Serra de Baixo, Serra de Cima né?! E a serra de baixo, o pessoal pegava o trilho lá da Pe. Café, pra sair no Dom Bosco na parte de baixo. Era complicado! Não tinha nada sabe?! As venda era longe, só tinha poucas vendas... Tinha uma só, que eu falei que é do “Sô Miguel”, mais nada! (Você sempre morou aqui?) Depois que eu casei, foi sempre aqui. (O terreno era do seu esposo?) Da minha sogra! Depois minha sogra morreu, aí ficou pro meu marido. Meu marido e meu cunhado, que morava em Belo Horizonte, ele veio a falecer né?! Aí meu sobrinho ficou vindo aí e tudo, mas agora sumiu também! Que era o lote de lá, que era do meu cunhado né?! Sumiu... Aí só tinha aquela casa, aí depois construiu essa, construiu aquela, essa aí da minha neta, lá é da neta e bisneta, e essa aí da minha filha.
Família hoje

É bom perto da família né?! Tudo junto, pra conversar, pra dialogar um “poblema” tudo junto, mas ao mesmo tempo é ruim, porque tem hora que não tem união né?! É desavença né?! Um quer mais do que o outro, outro com “ciuminho” do um, do outro, entendeu?! Um que pode ajudar o outro não ajuda, entendeu?! Então é difícil, entendeu?! É difícil. Uma hora tá muito aquela paz, aquela brincadeira, todo mundo unido, de repente tá todo mundo virado, não conversa, não coisa, nem nada, e todo mundo fala que eles, eram todos eles, cada um da casa era pra me ajudar né?! E não tem ajuda de ninguém, entendeu?! Só eu! Não tem ajuda de ninguém. E tem hora que eles ainda precisa que dê ajuda pra eles né?! É difícil né?! Fica difícil, muito difícil! (E a relação com os netos?) Com os netos? Tem uns que conversa, outros não conversa, nem cumprimenta “ Bom dia vó! Tá bem? A senhora tá passando bem?” É difícil entrar aqui na minha casa, até dos meus próprios filhos! É difícil! Só entra porque tá precisando! A não ser precisar, não entra, é muito difícil chegar, sentar, “Mãe, tal, como que foi isso? Eu saí, fui ali...” Tem uma que tudo que ela faz ela me comunica, mas não é de vir, entendeu?! Porque ela gosta de tomar “o par” do que tá acontecendo comigo, tá?! “ Mãe, a senhora tá passando bem? Já melhorou? O que a senhora tá sentindo? Vão no médico? Vão cuidar e tudo né?!” Ela se preocupa demais comigo! Mas a outra já é mais quieta boba, das gêmeas ela é assim, calada sabe?! Conversa e tudo, mas ela fica mais na dela do que tudo sabe?! Eu tenho agora “ó procê vê” , tenho doze netos, doze não, agora interou quatorze, vai inteirar quinze netos!E.... já vou pra oito a nove bisnetos! Daqui uns tempos eu vou ter tataraneto né?! Só aqui ó, se bobear, já tem umas quarenta pessoas, nesse pedacinho. Quase quarenta! É! Tem casa que tem onze, ali acho que tem oito ou nove, ou dez. São cinco casas. Tudo família! (A sua sogra tinha escritura do terreno?) Ela morreu! Aí ela fez a escritura, agora da de lá não tem não! Do lote de lá não tem não! Da casa de lá não tem, tem que fazer. Todo mundo tá aqui. Só minhas irmãs que moram fora tá?! Da parta do meu marido, tá tudo. Da parte das minhas irmãs não tem ninguém. Porque lá também tem outra turma, cada um tem sua casa lá.


Bairro hoje

O bairro tá cidade. Cresceu muito. Cresceu demais, demais...Hoje em dia tá tipo assim, uma cidade. Cresceu muito, muito mesmo. Hoje em dia aqui tem de tudo, tudo mesmo. Falta nada! O bairro ficou ótimo. (E os jovens do bairro?) Os jovens do bairro? Nosso Deus! Só Deus! Porque meu filho, eles são agressivos, eles gostam de pegar, mexer com os idosos, eles gostam de pegar as coisas dos idosos entendeu?! Gosta muito de tá lidando com esse problema de tráfico, essas coisas, problema de brigar né?! Discutir, não respeitar, né?! Então... é difícil, é difícil mesmo. (Você tem medo dos seus netos neste meio?) Tenho, e como! E já tão... já tão! Tenho medo não, já tão! Pra vocês eu falo, entendeu?! Eu tenho dois netos aí que Nossa Senhora...é três! É um, dois, três, é! É três! Fora o que mora com a minha neta também aí sabe?! Então eu aconselho, eu converso, falo, explico, falo, “não pode essa vida! Não dá pra isso, e tudo né?! Não pode!” mas eles... Um agora que a menina que ele mora ganhou nênêm, ele falou que ia parar de beber, e parar com essas porcariada né?! Vão vê! Tem um irmão dele aí, que é filho dessa neta aí que tava trabalhando numa oficina de mecânico muito bem e tudo, agora largou o serviço! Tem horas que eles ficam agressivos, a gente vai conversar, você entendeu?! Eles dão uma resposta “ é, me deixa isso aí vó! Me deixa pra lá!” mas eu gosto de corrigir. Por mim, eles não tavam desse jeito. Que toda vida eu criei, sempre me obedeceram, mas agora tá difícil! (Porque você acha que estes jovens estão assim?) Porque eu acharia que eles tinham que arrumar um trabalho né?! Seguir uma religião, né?! Prestar serviço à comunidade, e fazer por onde né?! Mas eles não fazem. Estudar, que é importante, né?! Se formar né?! Pra ser uma pessoa na vida né?! Porque hoje em dia se a pessoa não estudar, não se formar... nem pra ser carroceiro, puxar burro não dá! Porque tem que ter o quinta série né verdade?! Então isso que eu falo, né?! Tem que estudar...


Vida de casada

Ah, quando eu casei, no princípio eu vivia bem. Vivia e não vivia. De um mês de casada já começou a minha luta de sofrimento. Porque ele gostava muito de namorar, você entendeu?! Arrumava uma aqui, depois outra ali, eu aborrecia, conversava, a gente brigava, discutia! Tinha dia que eu tava na paz, dialogava com ele e tudo “vamos dar um jeito né?! Pra viver direito, bem...” porque ele era uma ótima pessoa, mas o caso dele era ser mulherengo né?! Ele pintava! Pintava mesmo! Não dormia em casa...tinha semana que ele ficava a semana. Teve uma vez que ele ficou uns sete meses, quase um ano, ele só vinha em casa aos sábados! Pra pegar roupa pra ir trabalhar e roupa pra trocar. Saía do serviço, ia pra casa da namorada. Sofri muito, muito mesmo! Muito! Mas nós brigava muito! Nós brigava de agarrar um no outro de bater! Briga mesmo! ( E ainda assim os filhos com ciúmes de você?) É! Mesmo assim eles tem ciúme. Ele chegava “Ah! Onde você tava?” “ Ah, eu tava por aí! Quê que você tem a ver com a minha vida, que isso que aquilo...” e ia embora! “ Você vai né?! Vai pra casa da outra!” “ Vou!” Eu tratava ele bem, com carinho! (Porque você acha que seus filhos aceitavam o que ele fazia e com você tinham tanto ciúmes?) Os filhos falavam... os filhos não... você entendeu?! Gostava dele demais também! As crianças até adoecia! Teve uma que ficou até “aguada” , tratamento longo por causa dele, entendeu?! Mas não, ele não ouvia não! Aí ele saía, punha a roupa e saía: “ Ah, vou embora! Não dá mais não, vou embora!” quando chegava na porta era a hora! E fala, e fala, e fala, e fala, quando via nós já tava agarrando nos tapa um no outro, batendo! Aí quando era no outro dia ele cismava e voltava outra vez! Chegava e também não conversava,não ligava você entendeu?! E foi assim. Aí falava assim: “Eu vou embora! Vou embora! E nós brigava muito! Muito mesmo! Aí quando foi um dia aí, ele ficou, separou! Eu dormia no quarto, ele na sala, e era assim. Foi indo, foi indo até que um dia ele saiu pra uma viagem, foi passar a passagem do ano no Rio, e até hoje ele não voltou mais! Agora ele vem. Já veio poucas vezes, mas veio aí. Na casa das filhas, até que ele entra. Mas não voltou mais pra morar comigo... isso foi em 85... não, não tenho raiva não... tenho raiva não. Eles falam que não combina a pessoa do mesmo signo né?! Fala que não. Eu nasci dia 12 de abril. E ele é de 13 de abril. Vai ver que nós nascemos no mesmo dia, na mesma noite né?! Na hora de registrar, registrou um com um dia a mais, outro com um dia a menos, né?! É ué! (Você acredita em signo?) Eles falam assim, eu não acredito não. (E pra manter a casa? Ele ajudava?) Ah, uns tempo ele recebia dava o dinheiro pra fazer as compras, ele dava. Mas depois minha filha, ele começou a avacalhar. Ele mesmo não dava dinheiro, dava nada! Ele comprava assim, sabão... uns dez quilinho de arroz, uns cinco, uns dois de feijão...e punha aí. Aí eu chamava a minha sogra lá, que ela morava em cima, e falava “ aí ó!” ele chama juvenil né?! Eu tratava ele de Lili. “ ó quê que o Lili comprou!” “ Ah, minha filha! É assim mesmo! Eu também já sofri com meu marido, desse jeito era pior, porque ele não punha nada em casa! Nada em casa! Tá bem! Ah meu Deus! Nossa Senhora! Aí ele chegava o pessoal falava assim: “ Ih, ó, tava lá na rua cheio de bolsa entendeu?! Cheio de compras! Ah, já ia pra casa da outra!” e era assim! (Era você que sustentava a casa?) Eu que sustentava! Nunca comprou um par de meia pra um filho! Nunca! Nem de sapato, nem... sapato ainda comprava, que era obrigado a comprar, porque ele trabalhava na fábrica de sapatos! Aí eu ia lá pegava e falava “ Não! Eu vou levar o sapato! E põe aí na conta dele” esse tempo ele tinha saído né?! Até hoje ele fala: “Ô Maria! Eu não criei meus filhos, você que criou! Eu até hoje não fiz nada por eles! Ele reconhece, ele mesmo fala. Eu nunca fiz nada por meus filhos, você que toda vida fez sabe?!”
Aposentadoria

Por invalidez. Por causa das pernas. Problema das pernas, e eu dava crises, porque eu saía pra trabalhar, e de repente eu caía! Mas não... aquele desmaio de cair e ficar parada, aí quando me levantava, naquela época eu usava vestido, o vestido tinha separado já a saia da blusa, mandava eu falar “mamãe”, nem “mamãe” eu falava! Ficava uma, duas, semanas sem falar! Sem fala! Então ali eu tomava remédio, levava no médico e tudo! Aí eu comecei tomando, tomando remédio, depois eu parei. Porque eu tomava muito esse Diazepan, essas coisas, aí eu falei “ Não! Eu vou me controlar, e vou “apassar” a tomar chá. Vou me cuidar. E passei a tomar chá. Hoje eu não tomo nada de comprimido. Diazepan nem nada não. (Você aposentou quando?) Aposentei em 66.1966. (E a vida depois da aposentadoria?) Ah, umas épocas deu pra fazer as coisas, as despesas... Os meus filhos, porque toda vida sempre fui a chefe de lar e de casa né?! Solteira, puxei aquilo lá! Casada, puxei aqui! Então é isso que não tive entendeu?! De todo jeito sempre trabalhando. Tanto com a cabeça como com tudo né?! E a minha vida foi sempre assim sabe?! Solteira, casei, a mesma coisa. Tive muito problema também de estômago, operei, quase que eu morri, sabe?!


Política

A política? Presidente era na época de Getúlio Vargas né?! Ele fez muito pela gente. Muito. Porque senão a gente não teria, né?! Essa aposentadoria, muitas coisas foi por ele. Muita coisa foi por ele. E daqui, nosso né?! Da presidência né?! Ah, o Tarcísio! O Tarcísio foi um bom prefeito! (Você ainda vota?) Voto! Ele foi um bom prefeito; não como ele me deu essa casa, mas mesmo assim ele era um prefeito que eu considero muito antes. Ele que me deu essa casa! Eu não tinha como fazer. Não tinha dinheiro, um sofrimento, ele veio inaugurar o asfalto, que essa nossa rua aqui era a primeira rua do Dom Bosco, né?! Ficou sendo a última, que a última que foi asfaltada. Aí ele veio na inauguração, ele veio quando chegou ali na pracinha ele subindo, eu fui encontrar com ele, aí virei e falei “Ô Dr.! Eu queria pedir o Sr. que me fizesse uma caridade pra mim, eu preciso de um ajuda do Sr.!” “ O quê minha filha? Pode falar!” Pôs a mão no meu ombro e subiu comigo com a mão no ombro, conversando. Eu falei, “eu moro ali, minha casa queimou, eu não tenho condições de fazer, eu acho que eu nunca mais vou ter minha casa, e eu vivo muito no sofrimento, queria ter muito meu cantinho, como eu tinha né?!” Ele falou “Não minha filha! Não se aborreça não que eu vou fazer a casa pra você! Eu vou te dar sua casa novamente!” aí não durou nem...quase tava dando um mês e pouco, chegou o pessoal pra medir e tudo, aí tirou tava só assim, meia paredinha, eles acabou de derrubar tudo, eles acabou tudo! (Quando a sua casa queimou, você foi morar aonde?) Na minha filha. Na casa das pessoas não dá não. Tem que ser na da gente.


Direitos dos idosos

É melhorou. Melhorou muito, muito mesmo. Que tá tudo tá muito bom, né?! Muita coisa que dá, que eles falou que ia dar aumento aos aposentado, né?! Mais de 70 né?! E até hoje não saiu né?! Muita verba que eu tenho, da época que eu ganhava sete, né real não, é “mirréis”, né?! Ih... se for ver de dinheiro de atraso, dinheiro pra trás, ih! Tem muito dinheiro! Mas nunca sai né?! Eles não... falam que não passou, que não... dá pra dar, pra pagar e tudo, aí vai levando né?! Mas a gente assim mesmo fica agradecida, né?! De ter aposentadoria hoje né?! Porque aí, a gente não fica né?! Sem um alimento, sem uma roupa, sem uma coisa ou outra né?! Se bem que não tá dando pra gente fazer isso, comprar né?! Mas a gente ganha uma coisa de um, de outro né?! Porque esse negócio de luz, água, tudo tá muito caro, né?! Tá muito caro, e os remédios, tá muito difícil! Quer dizer, igual eu como tenho ajuda lá do semente, é uma ajuda que ajuda muito, muito mesmo. Porque o dinheiro não dá! Porque os remédios é um absurdo né?! Tá muito caro né?! Mas graças a Deus eu tô feliz porque tenho, você entendeu minha filha?! Hoje em dia tem muitos que não tem é nada! (Você recebe ajuda de alguma outra instituição?) Não, eu tinha quando a outra que eu era do...mas lá ele não dava, dava só no fim do ano que eles davam a cesta sabe?! Até agora essa cesta do fim do ano ele nem vai dar, porque agora nós temos que ajudar a trabalhar! Que é do Alan Kardec. Hoje em dia, agora nós é que temos que trabalhar pra fazer esses artesanatos e tudo, porque eles vendem muito artesanato, então a gente vai que é pra poder passar o tempo né?! (Você acha isso importante?) Eu acho, acho... eu não gosto, a reunião eu não gosto de faltar, que eu gosto muito! Terça-feira eu não fui porque eu tava passando mal, como te falei né?! Caí da escada, e machuquei né?! Não tava aguentando, mas eu não gosto de faltar não!


Cotidiano

Meu dia? Levanto de manhã, às vezes tenho roupa pra lavar, né?! Não! Eu gosto de levantar cedo! 7:30; 8:00, tem dia que às 6:00 eu tô acordada, entendeu?! E gosto de agilizar, limpar as coisas, arrumar, e vou muito na cidade pra buscar remédio pra minha filha, vou nas minhas irmãs... tem uma irmã de caridade que eu me dou muito com ela, volta e meia ela quer ir nas casas das outras irmãs de caridade, que as minhas duas irmãs trabalhava pra ela, e uma morreu agora essa semana... então eu fico assim sabe?! Se um me pede pra mim ajudar a levar no médico, se outro tá com problema, vão conversar. (O que você vê de mudanças no seu dia-a-dia?) É cansativo. A gente volta e meia tá doente, com um problema ali, um problema aqui, você entendeu? Tem hora que eu falo assim: “Eu acho que eu não vou levantar hoje não!” Você entendeu?! “Eu tô passando mal hoje!” Então, é difícil... tem dia que a gente tá desanimada, o astral baixo, aborrecida... eu choro muito boba... choro muito mesmo! Eu sou muito sentimental. Se eu vou conversar com a pessoa, e essa pessoa me responde mal, entendeu?! Se eu quero dialogar com a pessoa e a pessoa não me dá atenção... pra mim o dia acaba! Acabou! Sabe?! Eu discuto muito com minhas filhas, sobre criação, sobre os filhos, sobre tudo! Porque eu quero que fique tudo ali, nos devidos lugares, entendeu?! E eles não querem saber... “procê vê, tem hora que me maltrata, você entendeu? A falta de educação como agora... esses daí são neto emprestado, não são legítimo mesmo, de sangue não! É neto, mas da parte do meu marido, porque é de uma ex-mulher que ele teve, e as filhas dela moram aqui. Neto! Neto dele! Não te falei que ele era muito namorador? Foi antes de mim! Ele teve várias! Era assim, namorico! De casada mesmo só tem eu! O resto tudo era...”amadas”.



Filhos/netos

(Seus filhos trabalham?) Não. Essa que mora com o rapaz ali, ela tem problema de... platina! Ela já trabalhou muito em casa de família né?! Então, ela ficou deficiente e recebe a pensão do menino que tá estudando, estuda no grupinho, e eles vão no semente também! E ela tem esse rapaz, mais velho que mora com essa... tem uma companheira né?! E isto, esse companheiro dela também não gosta de ajudar muito, então ela vive assim, do que ela recebe, da bolsa escola dos menino que é deficiente. A outra minha filha também é doente, também tá com rachadura no pé. O pé todo rachado, até a sola do pé! Ela não anda, porque quanto mais ela anda, mais abre. Ela chora, tem noite que ela grita de dor! Ela não pode nem calçar direito. Tem bronquite, depressão,pressão alta, vê como é que é?! (E os filhos?) Os filhos tá aí ó! Um tá desempregado, o outro é deficiente também, a moça tem 21 anos, arrumou serviço no shopping, agora saiu, foi mandada embora porque ela tá com problema, a pressão dela chega tá 22,21... De manhã e de tarde, todo dia medindo a pressão. Toma quatro qualidades de remédios, remédio pesado mesmo, né?! E é assim... essa minha filha toma remédio também, todo dia. Essa filha dela toma uns três tipos de remédios, essa aqui que tem a cabeça no ar, doida, neta, já pôs válvula metálica duas vezes, doente também, e um casal de filhos! E todo mundo aí é cheio de problemas, tudo tem problema! Salva ninguém! (Então, nenhum dos seus filhos trabalham?) Os rapazes trabalham! Um trabalhava de mecânico, agora que parou. Esse meu neto trabalha de, pai dessas crianças aí, servente de pedreiro, né?! E ali o outro, era servente de pedreiro, saiu, a menina que mora com ele é que trabalha. Mas eles mora mais é aqui, na casa dessa minha neta aqui, junto com a mãe ali, agora mora com a mãe. E minha filha também, ela trabalhava no Tupi, trabalhou lá muito tempo, saiu de lá pra ir encostar, mandaram ela embora aí encostou, mas agora ela não tá conseguindo mais ficar né?! Então tá desse jeito! (Seu ex-marido ajuda em alguma coisa?) Quando ele saiu de casa, até hoje, nem uma bala, nunca me deu, desde que saiu de casa. (Então você sobrevive com a sua aposentadoria?) É! Nem uma bala!(E você ajuda seus filhos?) Ajudo pouca coisa né?! Nos remédios, muito remédio, gás, luz, e tudo. Você vê que a situação tá tão difícil aqui, que nem luz eles tem. Eles pegam da minha luz. Tem luz não. A água também tem uns aí que a água é minha também! Essas alturas vem aquele absurdo, e aí é isso que me aborrece! Conta alta! Divide, mas mesmo assim dividindo gente. Tinha mês que eu pagava de água 10 reais, 7, 8 reais. Agora dá quase 200 reais até por mês! A luz dá 500 e poucos reais, um absurdo! Mesmo assim, cada um dividindo, quer dizer, eu que dô tudo, a luz, a água pra eles, eu não precisava pagar nada! Eles tinham que pagar pra mim! Mas a parte que eles dão, eu também tenho que dar! Por exemplo, dá 660 reais, tem mês, aí cada um dá 120... você entendeu? Tudo uma quantidade só! Por casa! É difícil...
Lazer

Lazer tinha muito assim, festas juninas, eu tinha minha tia que morava na Pirapora parte de cima, meu tio morreu, ela ficou viúva, então ele era ex-combatente, ela já tinha uma vida melhor, dinheiro melhor né?! Então ela que ajudava a gente sabe?! Era roupa pros meus filhos, ajudava, aniversário das crianças, ela falava “Mariinha, você sobe!” subia, chegava lá tava aquele jantar! Era bolo, doce, tudo, fazia pras crianças! Era meu aniversário, da minha sogra que era irmã dela, todo mundo ela fazia entendeu?! Chegou a dançar muito baile de torda... fazia aquelas folhas de bananeira, aquela sanfona e tudo né?! Era muito divertido! Até mesmo depois de idade, casada, eu brincava de roda com as crianças... até hoje! De pique, entendeu?! Era muito divertido! (O pessoal comenta muito do futebol, você ia assistir?) Ia... ia! Os onze irmão né?! Tinha a serra de baixo, serra de cima né?! Abc, tinha vários nomes tinha os times, sabe?! As escolas de samba também tinha aqui, era... Estrela Azul...então a gente ia naqueles ensaios, fazia aquelas fantasias, de papel crepom né?! Aqueles chapéus de palha de papelão né?! Aí, desfilava o primeiro dia, dava aquela chuva, chegava no segundo dia a escola perdia porque não podia desfilar! O papelão desmanchava tudo no meio da rua, aquelas fantasia de papel crepom tudo manchado, e...tá nós lá dançando assim mesmo! Eles brigavam no meio da escola de samba, aí falava “Vai fazer feio não! Tem que fazer bonito!” e tudo! Quando foi uma vez a escola saiu, uma irmã de criação do meu marido saiu, quando tá bem sambando, a roupa de baixo caiu, aí o pessoal rindo, debochando dela aquela confusão! Aí quando foi no outro ano “Não, a escola vai sair e nós vamos ganhar! Nós vamos vencer!” aí tá. Parecia que o rapaz tava com raiva né?! Ele até foi ex meu noivo, ele chegou no bar, pegou aquelas bisnaga grande de pão com salame, e quando chegou depois do palanque, ele começou a meter o dente naquela bisnaga grande de pão com salame, aí pronto, a escola foi abaixo, perdeu tudo! Perdeu tudo! Só porque acho que ele tava com raiva, mau-humorado né?! Não podia fazer uma coisa dessas! Com tanto trabalho! A gente levava dois, três meses pra fazer aquele chapéu, aquelas coisa tudo a mão né?! Ainda não tinha máquina nem nada né?! O sapato era preto, comprava “alvaiade” tingia o sapato de preto e de branco, aquilo ficava tudo manchado, tudo feio, e vai que vai pra escola de samba! Todo mundo feliz da vida né?! E dava isso... não podia né menina?! (E tanto carnaval, como o futebol era uma coisa que unia o bairro?) Unia todo mundo! As poucas casa todo mundo ia! Nos bailes, nas festas juninas, nos aniversários! Aí nos aniversários um vizinho ajudava o outro, fazia aquelas latas de 20 litros de doce de mamão, doce de abóbora, de cidra né?! Fazia aquele bolo em casa né?! Tudo era feito em casa né?! Aquele licor, aí era divertido! (E hoje como está o lazer?) Hoje não tem área de lazer, se a gente quiser, que faz o lazer da gente né?! Vai no parque Halfed, senta, fica conversando né?! Aqui não tem mais nada! Nada! Assim, o campo do Lasset né?! Que tinha o campo de futebol, a gente ia no futebol aos domingos né?! E agora, né?! Depois eles fizeram uma pracinha com banquinho pra gente sentar e tudo, agora acabou tudo né?! (O bairro é unido?) Não, eles eram serra de baixo e serra de cima desunido, dava muita briga, agora não. De pedra, um machucava, machucava o outro.... e muita briga mesmo! Aí serra de baixo com serra de cima melhorou! Mas agora tá aqui, chapadão, eles falam 511 e 512 né?! Aqui não combina muito não, volta e meia tá brigalhada! O chapadão, o 511 que é aqui! 511 é aqui, eles tratam aqui de buraco! Antes reunia todo mundo! Até gente de São mateus subia pra vir, reunir aqui, e agora acabou tudo!
Melhorias para o bairro

Ah, uma quadra de futebol, assim, pras crianças né?! De lazer, um parquinho, ter um salão pra fazer festinha pros idosos né menina?! Ficaria bom, né?! Pra divertir, passear, fazer assim também um coral de música pros idosos né?! Isso é importante. Fazer assim igual a AMAC né?! Que tem bailes, tem trabalho né?! Tem tudo ali! ( Você gosta de cantar?) Adoro! As música tudo! Música assim, negócio de música de bolero, pagode... eu falo era samba né?! Agora eles falam pagode. Aí de vez em quando a gente tem época que tem tristeza, mas tem época também que tem alegria. Ás vezes eu tenho esses vinil aí e ponho. Aí eu pego as crianças e a gente fica dançando aqui, e vai que vai! Aí um ri daqui o outro ri dali... aí sempre quando é aniversário assim, as minhas irmãs sempre faz surpresa né?! Quando é aniversário delas, elas também vem pra cá... é assim sabe?! Outra hora eu vou pra lá... (Você gosta de escutar rádio, ver televisão?) Gosto, gosto muito de rádio, de ouvir rádio, gosto de televisão... Ah, televisão eu gosto muito das novelas, das novelas, dos programas...aí minha filha ainda falou: “Ô mãe, a senhora tem que dar um jeito com essa televisão, porque a senhora tá vendo televisão com a cabeça baixa assim” , que a televisão não tava fechando e tava ficando ruim mesmo né?! Aí eu falei tá vou dar um jeito! Mas é bom né?! Tem hora que a gente ri, muito mesmo! E tem dia que eu fico vendo filme até de madrugada! Ih! Adoro! Gosto mesmo! (Tem algum filme ou novela que te marcou?) Novela... Ah, verão vermelho!não é do tempo de vocês né?! Tarcísio Meira, né?! Acho que era Tupi né?! Não é globo não... filme? é... Barrabás! É barrabás! Tem mais mas eu esqueci! (Você ia ao cinema?) Ia! Quando eu tava namorando, que esse que era meu noivo, que casou comigo, trabalhava junto, tinha o São Luís ali na praça da estação né?! Ia eu com as colegas, e ele ia também né?! Via o filme saía cinco horas, cinco e meia a gente tava dentro do cinema. O filme acabava sete horas, aí a gente saía do cinema e ia jantar, juntava a turma tudo, igual vocês quando sai assim, e ia jantar! Gostava demais do arroz de lá sabe?! Da batatinha fritinha, crocante sabe?! Punha alho.. ih! Nós gostava demais daquilo! Saía do cinema, dali ai conversando, aí tomava um sorvete ainda, aí cada um ia pra suas casas sabe?! A gente trabalhava muito, mas divertia muito também boba! Ou senão outro dia ia na casa das colegas, chegava lá fazia aquela janta, todo mundo jantava, conversando e tudo, era bom! Bom mesmo! E elas já eram acostumadas,porque mesmo quando solteira, depois quando eu me casei, entregou os móvel, só móvel de quarto. Igual meu marido, toca violão bem demais, então o que nós fazia, minhas colegas ia lá pra casa, eu fazia aquele jantar, e nós tudo sentada de costas assim em cima da cama, e ele tocando violão e nós tudo cantando, jantando, sabe?! Mas era bom demais! Toda vida eu gostei! Eu comecei aprender a tocar violão, mas depois a casa queimou, o violão queimou, aí eu não pude comprar mais... tenho vontade! Tão bonito... e tem uma cadeira a pessoa senta assim “ találá...” é uma loucura! Loucura! Aí ó, tinha comprado um teclado aí, era doida pra aprender! Vou aprender! Se Deus quiser!
Religião

A minha religião é assim, sou católica. Aí depois eu me casei, e tudo... eu sou católica, mas não sou apostólica, nem romana né?! Porque eles tem a casa ali né?! Lá também eles são espírita, quer dizer, a gente reza né?! Faz as preces né?! Toda reza, toda prece é bem vinda né?! Eu gosto bem, muito de ir à missa né?! Vou sempre à missa. Vou com minha filha. Aqui eu não vou porque eles gostam muito de olhar a gente. Qual sapato que tá, roupa quer tá, tá vestida, penteada, aí eu indo lá pra baixo ninguém vê como que a gente tá! Aí ultimamente eu tenho ido muito à missa lá onde é que tem essa irmã, eu saio muito com ela lá na São Sebastião, São Francisco de Paula! Né?! Vou muito à missa lá. E antes disso eu ia em São Mateus. Gostava muito de São Mateus. Aí ia eu, minhas filhas, as netas, tudo nós descia todo domingo! Cinco e pouca, seis e pouca, pra ir à missa das seis, que acaba as sete né?! A gente ia pra São Mateus. Agora eu mais minha filha nós vamos lá em São Sebastião. O dia que ela não tá doendo muito, né?1 Aí nós vamos assim mesmo, assiste a missa a vem embora.


Vizinhança

Ih, eu me dou muito com a vizinhança, sabe?! Mas tem sempre um ali que não se dá com a gente, as crianças briga muito e tudo! Mas com a vizinhança eu me dou muito sabe?! Com a vizinha do lado de lá, as de cá. Daqui, esses vizinho aqui tudo eu vi nascer! Tá?! Tem um dos vizinhos que é meu afilhado de batismo, me adora, tudo que ele pode fazer por mim ele faz! Tem uns outros irmãos dele também, porque de primeiro era cerca de arame né?! Não era muro. Quando via eles na cerca eles já tava nas panelas comendo “ Ah vó! Nós tâmo comendo aqui! Nós vamos beber café!” Eu trabalhava muito, eu fazia as coisas tudo direitinho, botava tudo dentro de casa sabe?! Comprava uns biscoitinho, umas frutinha, tudo. A rua Pirapora desde lá de cima, todo mundo, as criançada vinha tudo pra cá! Porque aqui tinha as coisas pra poder comer, então, eu me dou com todo mundo aqui! É só o vizinho daqui que é difícil.


Sonhos

Busco... tenho vontade de buscar, de chegar no meus netos, bisneto, tataraneto, antaneto! Eu não tenho vontade gente, eu tenho medo! Vocês tem medo dela? De quando ela vir? Ai gente! Eu fico... você entendeu? Como é que é meu raciocínio?! Eu sou uma pessoa assim com 30 e poucos anos, que a minha vontade assim é de viver! Que na minha mente, eu acho que não existe a morte, pela cabeça cê tá entendendo? Eu fico assim “ eu quero viver! Viver! Viver!” eu rezo muito! Tenho muita fé em Deus e tudo, mas eu acho que vivo aquela vida de sofrimento, de alegria, mas aquilo com resignação, eu acho assim eu tenho que viver né?! Que eu tô vivendo e vou viver mais! Que eu falo assim eu quero chegar aos 100 anos, aos 80, aos 90 né?! Porque os meus pais morreram muito novos, eu passei eles! Porque minha maẽ morreu com 67, meu pai com 68, então...eu pretendo fazer muitas coisas, ver muitas coisas, mas coisas boas! Não coisas más né?! Muitas coisas. Eu pretendi ver vocês, casado, com filhos, né?! “Ô tia! Aqui ó, esse aqui já é meu!” é uma felicidade né?! A gente se sente feliz! (Você ainda tem vontade de realizar algum sonho?) Ah, eu tenho vontade de passear! Conhecer, cidades, eu tenho vontade se Deus me iluminasse, falasse assim, hoje dei uma sortezinha, ganhei um trocadinho, ajudar as pessoas, eu tenho vontade de ajudar meu semelhante né?! Viajar... passear, curtir... eu vou no cinema, vou ali no barzinho, fazer um lanche né?! Viajar, passear, entrar nestes shoppings das cidades que eu for, São Paulo, Belo Horizonte, tudo eu conheço, Rio eu conheço, eu quero conhecer Brasília, né?! Cabo Frio eu trabalhava lá! Todo ano! Trabalhava 20 dias, 25... O muito que eu trabalhava era 15 dias! Tinha uma médica que gostava muito de mim , então ela ia fazer, passear as féria né?! Colônia de férias, ela ia pra lá e vinha em buscava, aí eu ficava lá! 15, 20 dias tudo lá! Colônia de férias, e o filho dela solteiro, que levava a gente, a gente ia de carro né?! Trabalhava, mas aí ela ia, a gente ia pra morar em apartamento, aí os netos fazia colônia de féria e ia pra lá também, aí depois o filho dela pega morreu, de repente, ela ficou muito magoada, muito chateada, não vai mais! Gosto muito de passeio! Adoro passeio! Mas ainda mais agora que a gente não paga passagem, de vez em quando passeia. Mas eu ainda não aproveitei muito não. Depois que veio esse negócio de passagem ,viajei só uma vez. Eu fui no Rio com a minha irmã. Eu tenho vontade mesmo, de viver, viver, viver, viver! Viver e ajudar muitas pessoas... muitas, muitas, muitas...tá?! Pegar assim e ó fulano não tem isso, não tem alimentação, não tem uma roupa decente, a pessoa precisasse de um remédio... uma ajuda, ajudar! Eu gosto muito de ajudar, porque eu sou ajudada! (Você tem algum sonho pros seus netos?) Tinha vontade que eles fossem, levantassem a cabeça né?! E erguer, e falar “não eu vou ser eu ser na vida, vou trabalhar numa firma, até ficar velhinho, ou só quando me dispensar né?!” eu tinha vontade que eles virassem gente, gente de bem! Não queria isso pra eles, queria não! Nem pra eles, nem pra minha filha, nem pra ninguém! Que essa minha filha casasse com esse rapaz, que ela vive com ele né?! Que os meus outros netos, bisnetos, né?! Pra estudar se formar, né?! Porque o lado da minha filha, essa deficiente, ela estuda é inteligente. A minha outra neta também, já formou, fez não sei o quê, esqueci o que é, mas estudou, tem vontade de estudar, ela tem vontade de ir pra, pra ser guarda né?! Fosse de guarda aqui, fosse pra Marinha, algum lugar, eu acho que a pessoa tem, que melhorar! Melhorar! Não ficar só, porque vocês não tão cada um com suas vidas, melhor, tem as coisas de vocês né?! Todo mundo né?! Quer ficar no seu mundinho a só né?! Então, é o que acontece!
Mensagem final
Um recado é que eu tenho muito que agradecer vocês, que vocês continuem nos ajudando, porque vocês são uma bênção no nosso caminho, dos velhinhos né?! Porque se a gente tá assim, melhorando, progredindo e prosperando, tudo é vocês né?! Vocês que nos ajudam, tem muito carinho, muito amor a gente, também tenho muito amor a vocês lá e tudo, e no mais muito obrigado e um abração de coração! O dia que vocês quiserem vir minha casa tá a dispor!

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