Projeto Espaços sociais envelhecimento e relações geracionais Projeto Envelhecimento e memória Coordenação: Josimara Delgado Transcrição de depoimento



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Núcleo de Extensão sobre Gerações

Pólo Interdisciplinar na Área do Envelhecimento

 

Projeto Espaços sociais envelhecimento e relações geracionais



Projeto Envelhecimento e memória

Coordenação: Josimara Delgado

Transcrição de depoimento
Percília Margarida Silva Fortuna, nascida em 04 de setembro de1931. (77anos)

Nasceu em Silverânia, Rio Pomba - MG


Primeiro contato com a lembrança.

Nasci em Silverânia, Rio Pomba. (É aqui perto?). É perto de Ubá, perto de Mercês... É aquela região ali... Meu pai era o José Ananias da Silva, minha mãe Maria Inácia de Jesus. Era uma vida muito difícil... Que agente morava na roça, muito sacrifício. Meu pai ganhava muito pouco, agente passava muita necessidade. Era tudo muito difícil até fome agente passava. (É Percília?) É nossa Senhora!... Minha mãe trabalhava na fazenda, assim não ganhava nada, trabalhava a troco da comida. Meu pai que trabalhava na fazenda, na roça, recebia assim um trocadinho por semana, todo sábado ele recebia aquele pagamentuzinho. Era à conta de comprá o que comê durante uma semana, só! Então era muito difícil pra nós. Aí agente quando almoçava não jantava, porque muita criança... Minha mãe coitada trabalhava lá, mas não ganhava nada, quase nada. Era difícil mesmo! Nas roça assim, agente não ganhava nada... Igual na cidade agente tem... Muito jeito que agente ganha muita coisa, um ajuda o outro ajuda. Na roça um não tem como um ajuda o outro. Ninguém não tem mesmo né? Pra ajuda um ao outro... Então era muito difícil!


Irmãos e infância.

No total foram doze, era aquela escadinha. Agente andava tudo descalço, roupa agente tinha duas mudas, enquanto lavava uma a outra estava no corpo (risos). Era muito... Coisa muito difícil!... Agente não estudava, eu mesma não cheguei a estudar nem nada. (Nada Percília?) Era muito difícil! Eu aprendi um pouco, um pouquinho depois que eu vim pra Juiz de Fora. (Isso foi com qual idade?) Eu vim pra cá eu tinha 19 anos. (Já era uma moça?) É! Não sabia nem pega no lápis. (É mesmo Percília? Esse tempo todo você ficou na roça?) Fiquei na roça... Aí fui trabalhando na roça, capinava. Bater pasto é o serviço nosso na roça... Capiná, panhá café, plantá milho, arroz, feijão... Panhá café, tempo da colhe café. Ia aquela turma de menina trabalhá lá na roça né? (Você chegou a fazer isso tudo?) Isso tudo... É naquela assim... Época não tinha as coisa como tem agora... Que naquela época o arroz era plantado no brejo... Agente ficava o dia todo atolado na água, plantando arroz. Outrora capinando, era coisa assim sabe? Foi uma vida muito difícil! Aí quando fui ficando maior, aí eu fui trabalhá numa casa lá do senhor que tinha uma venda. Era tudo na roça mesmo... Aí que já foi ficando mais ou menos né? A minha vida. Aí eu já tinha uma roupinha mais ou menos... Aí agente andava tudo descalço ninguém tinha um chinelo pra calçá. (Descalço mesmo?) Descalço mesmo, não tinha não. (Desde pequena que você trabalha?) Desde pequena. (Que idade você lembra?) Oito anos eu já tava nessa luta. (Os irmãos todos?) Tudo, tudo pra roça. Crescia um pouquinho os pais já botava pra trabalhá... Porque pra ajudar né? Mas mesmo assim agente ainda passava muita necessidade né? (Você lembra como funcionava as coisas lá nesse tempo, essa terra, por exemplo, que o seu pai trabalhava era dele?) Não! Era do dono, do patrão né? Do fazendeiro. (Sei, tinha um fazendeiro?) Eles tinha aquelas fazenda e dava um ranchinho pra pessoa morá. (Como os seus pais foram para lá? Eles são de lá, como foi?) Não... O meu pai não era de lá, agente vivia assim mudando. De vez enquanto num lugá, pro outro né?... Na fazenda tudo era assim... Morando na fazenda né? As vez o meu pai descombinava com o dono lá da terra, aí mandava agente embora. Aí já vai meu pai pra outro lugar né? Moradia era assim sabe? Aí já ia a turma toda, tudo andando pelas estrada descalço, não tinha condução, não tinha nada. A mudança da gente ia assim nos animais (risos). Agente não tinha móvel não tinha nada. Aí rolava aqueles colchão de palha de milho, aí enrolava aquilo punha um dum lado e o outro lado do burro e já vai embora a mudança, as panela punha nus caixote, meu pai amarrava... Meu... Depois era tropeiro né? Ai meu Deus, eu era tão pequena!... Aí a mania de pobre, agente não tava agüentando com as coisa e ainda arranja uns cachorro e ia agente com aqueles cachorro acompanhando na mudança (risos). Ai meu Deus Do Céu! Aí as vez num dava dependendo do lugá... Num dava pra chegá no mesmo dia... Ia agente... Ele (pai) andava esse mundo com tropa, porque não tinha um meio assim de...? (Transporte?) É não tinha. Porque igual agora tem caminhão, tem isso tem aquilo. Não tinha! Então tudo era poder dos animais... Então enquanto na colheita de arroz, de feijão, de milho aí levava pra outra cidade. Aí tinha esse negócio de tropeiro, aí meu pai pegou esse... Vivia andando levando mantimento era arroz, feijão que colhia na fazenda. Aí o dono ia lá e vendia pra outro lugar né? Aí a tropa ia entrega, era tudo muito difícil! (Que trabalho em?) É sim! Aí meu pai viajava e a minha mãe ficava coitada trabalhando na fazenda. (Nesse tipo de trabalho ela não ia?) Ficava, lavava a roupa lá na fazenda... Tinha uma fazenda que agente morava, aí eles tinha aquele mujole né? Fazia aquela farinha de biju, aí ia pra lá pra ajudá... Aí outra fazenda que agente morava fazia aquela farinha de mandioca, aí ralava aquela mandioca tudo. Não tinha máquina pra ralar nada, era aqueles ralo grandão. Aí juntava aquela porção de senhora pra trabalha. Era bom! Era um jeito... Um ganho pra cada pessoa. Aí botava todo mundo lá ralando mandioca tudo na mão. (E as crianças também?) As criança que já vinha crescendo já ia tudo trabalha nisso lá. Ninguém estudava, não tinha como né? Estuda... Aí algumas fazenda ia uma professora que ia pra da aula lá, mas era mais difícil! Porque uns lugá muito longe, aí não dava né? Pra ir... As crianças ficava tudo assim sem estudá, igual eu fiquei meu irmão. (Era normal?) Era normal... (As fazendas ficavam bem isoladas uma das outras?) Ficava muito isolada... (Sua família seus avós, tios trabalhavam por ali?) Meu avô pai da minha mãe eu nem conheci... Os pais do meu pai também eu nem conheci eles morreram e deixo o meu pai pequenininho, meu pai foi criado por outra família e agente também não sabe quem é né? Meu pai nem conheceu os pais dele, eles morreu e ele ficou pequenininho e uma família lá que criou ele. Mas eu não sei quem é. (Mas então você não conheceu nenhum de seus avôs?) A avó mãe da minha mãe eu conheci... Só ela! (Quem era ela?) Chamava Bárbara Augusta de Jesus, eu conheci ela também já tava... Perdeu a visão né? Então ela não enxergava mais. (Então você não teve contato com eles?) Não tive. (E tios e primos?) Tios eu tive assim, os irmão da minha mãe também já são tudo falecido... Aí eu conheci nessa época eu era muito pequenininha. Mas eu lembro de alguns deles, mas já todos falecero. Mas depois agente foi se dismistiano, mudando de perto deles. (Vocês foram o que?) Agente foi mudando de longe daqueles lugar que agente morava, que era tudo assim perto um do outro... Depois distanciando... (Nessa época da fazenda era tudo perto um do outro?) Era. Eles também trabalhava tudo assim, igual os meus pais. Era tudo assim! (Conta mais dessa época da Percília lá trabalhando criança, que mais que vocês faziam? Como era o dia a dia na casa de vocês? Como era a criação dos seus pais, eles eram bravos?) O meu pai era muito bravo. (O que ele fazia?) Ele batia na gente uai! Se não andasse direito batia mesmo. Era assim agente tinha que andar na linha, porque qualquer coisa ele batia mesmo... (O que ele não gostava que vocês fizessem?) Ah, ele não gostava assim... Criança sempre levado... Mexer nas coisas dos outros aí ele não gostava disso. De jeito nenhum! Se ele mandasse agente fazer uma coisa e agente não fizesse, também quando chegava de tarde tinha que acertar com ele (risos)... Ele saia... Aí plantava em volta da casa... Era um quintal enorme, grandão. Então tinha plantação, plantava ali arroz, feijão e agente tinha que cuidar. Aí de manhã antes dele sair pro serviço lá na fazenda ele marcava uma tarefa, que chamava. Aí marcava um pedaço pra cada um de nos cuidá, capiná né? Tudo direitinho! Aí de tarde ele chegava e olhava pra vê se agente fez... Aquele que não fizesse, castigo tava aí... Ele batia, batia mesmo! O meu irmão mais velho era muito levado (risos) Deus que tenha! Porque ele mereceu... Aí ele era danado... Meu pai marcava o pedaço maior pra ele capiná. Que, que ele fazia? Ele ia lá pegava a enxada lá longe, capinava e jogava o mato tudo em cima da gente, do outro lá (risos)... Ele num instantinho acabava e ainda ficava debochando da gente: - “Aí já acabei, já to folgado e vocês cambada de moleza?”... Então vem ajuda agente?... -“Não cada um tem que fazer o seu”. (risos). Chegava de tarde, o meu pai passava a mão numa varinha assim, e levantando os mato assim que tava um por cima do outro. Quando via tava tudo lá (risos)... Fazia ele capiná, já tava escurecendo, então tava enxergando nada e o meu pai tava lá... Não dava conta, aí ele apanhava (risos)... (E a sua mãe?) Minha mãe não!... Minha mãe já era mais calma né? Ela não aprovava nada assim né? Mas negócio de bater não!... O meu pai era diferente, batia mesmo! Mas agente tinha muito medo de couro né? Não é igual hoje em dia que agente fala e as crianças num... As crianças de hoje não é igual agente... Um olhar deles agente já sabia que queria dizer. Aquele olhar de banda assim, agente já entendia tudo... A minha mãe as vez quando chegava alguém lá, ela tava conversando se agente viesse e parasse assim, ela olhava só assim e você podia sair. Não precisava ela falá nada agente já podia sair. Olhar dela assim, agente já saia de fininho e voltava. Não podia nem passar perto dali nada... Ela tava conversando com as pessoas. (As crianças não podiam chegar perto das conversas?) Não de jeito nenhum!... Hoje em dia não, as crianças chega aonde se tá conversando, já corta o assunto da gente (risos)... É tão diferente a criação de hoje em dia! (E o que você acha disso, dessa diferença?) Eu estranho muito porque com agente não foi assim. Agente obedecia tudo!... Hoje em dia não, eles tão muito evoluído, vivido, são pra frente, atirado. Eles não obedece à agente né? (E você nota isso com quem? Com as crianças? Na sua família tem crianças agora?) Não... A criança que eu tenho aqui é só uma neta, ela vai fazer treze anos agora dia oito. É grandona! (Você nota isso com a sua neta também?) Ah, noto. (A criação é diferente?) Ah... É diferente, muito diferente! (Você acha ruim, melhor ou pior?) Ah, é pior, muito pior! (Por que Percília?) Ah... Eu acho... Não porque agente não foi criado assim, muito ruim sabe? Era muito melhor no tempo da gente. (Mas por quê? Você sabe explicar porque é pior?) Ah, eu acho que piorou né? Piorou muito! (Sua neta mora aqui?) Mora com a mãe dela aí em cima. (Você fica preocupada com alguma coisa em relação a ela?) Agente fica né?... Porque a criação de hoje em dia tá muito avançada. Preocupa né? Agente vê aí como são as garotas hoje em dia né? (Mas você tem medo de que?) Graças à Deus, até agora ela obedece à agente. Mas é fase que às vezes muda. (Adolescência?) É... Agente fica preocupado...
Mais lembranças da infância.

(Vocês tinham algum tipo de lazer, folga de vez enquanto?) Agente não tinha folga de nada não! Era direto né!... (Mas tinha algum lazer no trabalho mesmo, enquanto capinava?) Quando capinava as vez... Na época também acabava o serviço da gente... Aí agente ficava em casa, mas aí não sai dali... Aí agente ficava em casa, mas ai não saia dali, dentro de casa no quintalzinho ali esperando a hora que a mamãe chegasse do serviço. Aí agente arrumava a casa, tudo quieto dentro de casa. Não saia pra lugar nenhum não! (A sua mãe trabalhava na roça e fazia o serviço domestico também?) É o serviço domestico também. (E vocês ajudavam?) Ajudava! Cada um tinha uma obrigação lá em casa. (Como era?) Era assim, um cuidava de varrer o terreiro o outro de molhar as planta... Porque toda vida agente gostou de planta... A minha mãe plantava horta, aí tinha que cuida da horta, molhar, não tinha água dentro de casa tinha que busca na mina longe... O outro?... Deixava um só pra cuidar de pegá água né? Enche as vasilha d’água. Outro de arear as vasilhas, limpar fogão... A casa era de chão mesmo, mas agente tava sempre limpando, varrendo. A minha mãe gostava de tudo limpinho... Agente ficava fazendo esse serviçinho assim. Nada de ir pra casa dos outros, nada não! (Vocês não tinham contato com outras pessoas?) Não assim... As vez um vizinho que morava mais perto, as vez ia lá em casa, de vez enquanto... Mas não tinha esse negócio de fica assim, igual como fica aqui tudo na rua. (Era mais isolado?) Era mais isolado. (Mas devia ter algum lazer, brincadeira?) Agente brincava assim de vez enquanto... Aí na casa as vez tinha um terço ou tinha uma festinha... Aniversário de alguma criança, aí agente brincava. Aí reunia as coleguinha tudo, aí brincava de roda, só brincadeira assim. (Você lembra as brincadeiras?) Agente brincava de roda, pique de esconder (risos)... Essas brincadeiras bobinha de joga peteca pulá corda.

Adolescência.

Depois que eu fui ficando maior eu arrumei emprego na casa dessa senhora pra ser babá. (Mas lá nessa região mesmo?) Nessa região mesmo... Aí pronto! Aí que eu fui pra fica uns dia. Aí eu fiquei vinte anos nessa casa, saí porque ela faleceu. Aí meu pai não quis deixa eu fica mais lá... Aí foi aonde eu vim parar a aqui... Aí a irmã dela, ela trabalhava e morava aqui, era governanta do Bispo. Aí ela deixou oito criança tudo pequenininha. Aí essa irmã dela que tava aqui foi pra lá, pra roça, pra ajuda por conta das criança. Aí foi que nessa altura ela: -“Ah, não”... Nessas altura eu fui pra outra roça... Lá onde morava a minha mãe na fazenda... Aí ela falou que não ia deixá eu ir pra roça capiná mais não. De jeito nenhum! – “Eu vou arrumá um emprego pra você e você vai pra Juiz de Fora, eu vou lá pedi a sua mãe”... Aí ela arrumou uma senhora aqui que tava precisando de empregada. Aí eu vim pra cá, trabalha com essa senhora aqui... Daí eu fui ficando aí até... (Quantos anos você trabalhou com essa senhora?) Três anos... Aí depois eu saí de lá e fui pra outra casa, mas aqui mesmo. Aqui em Juiz de Fora mesmo! (Você não voltou mais para roça?) Não... Aí teve um... Em 54, eu fui pra Volta Redonda trabalha lá... Aí eu fui, mas fiquei pouco tempo fiquei só oito meses. (Por quê?) Ah... Não gostei não! Quis voltar pra cá... Voltei pra cá outra vez. (Por que você quis ir para lá?) (risos). Ah, porque eu gostava de uma pessoa que tava lá. E eu achava que eu fosse lá pra perto né? Eu ia consegui namora ele. Depois a mãe dele fazendo de tudo pra mim ir pra lá, achava que eu tinha que se nora dela... Num era o destino da gente. (Chegando lá não deu certo?) Ah... Não, aí eu falei não vou ficá aqui não... E também eu tava ganhando menos que aqui. Eu queria trabalhá num lugá que ganhasse mais, pra ajudá mais a minha mãe que ficou na roça... Eu sabia como era o sacrifício lá. Aí eu volta pra cá outra vez! Porque aqui eu ganhava mais do que lá e trabalhava menos do que lá em Volta Redonda... Também eu fui roubada, tudo... Aí então, que eu não quis mesmo fica mais... Aí eu vim pra cá... Arrumei outro emprego e fui trazendo as minha irmã pra cá. Fui arrumando empreguinho pra elas, fui trazendo elas pra cá agora nos vão arruma uma casa e traze a mãe pra cá. Aí assim eu fiz... (Você foi puxando a família?) Fui puxando a família... Aí o meu irmão também casado quis vim pra cá também. E veio! Não tinha nem arrumado emprego e veio pra cá assim mesmo. Aí começou a trabalhá de biscate e num instantinho trouxe a família dele pra cá também (risos)... Aí o outro veio também... Aí começou a vim todo mundo. (E isso foi quando?) 58, 59, 60 por aí que eles começaro a vim. (Você trabalhou durante vinte anos numa casa lá na roça?) Numa casa só! (Então você veio para Juiz de Fora com quantos anos?) Dezenove anos que eu vim pra cá... Que eu sai de lá. (Mas, não com dezenove anos de idade?) É com dezenove anos. (Mas você falou que trabalhou vinte anos lá?) É... Aí de lá eu vim pra cá. (Entendi). (Você lembra quando que foi?) Não... Agente não sabia ler e nem sabia quando que tinha nascido... Não sabia nada, nada, nada! (Como era essa coisa de registro? Devia ser tudo difícil?) Era difícil né? Não sabia nada... Aí depois que, chegando aqui a minha patroa perguntou se eu sabia ler, eu falei sei não. Era numa época que tinha aula noturna ali no Grupo Central, mas eu não quero estudar não... Na minha cabeça eu achava assim... Que agente aprendia a ler só quando era pequeno. Depois que fica adulto achava que não entendia mais nada né? Não sei por que eu tinha isso na cabeça... Achava que aprendia ler só quando era pequeno. Falei a não! Não vou não, por que agora já tô grande não vou aprende mais nada (risos)... Aí ela temou tanto... Ela foi lá no grupo me matriculou, eu não sabia não... Conhecia nada... Ela foi me levou na aula três vezes coitada! (Teve que te levar lá?) É levou lá! Porque eu não queria de jeito nenhum. (Igual criança?) Igual criança (risos)... Aí explicou tudo pra professora lá... Aí eu falei, não vou não porque eu não sei ler nada e a aula já começo... Era meio de abril, até isso eu sabia... As menina começo ler, elas vão rir de mim (risos)... Mas aí eu resolvi... A professora muito boazinha. Aí fiquei... Aí eu fui ficando lá... Ela me ajudando muito assim, ela ajudava fazé almoço, ajudava arrumá cozinha e sentava comigo lá na né? Pra mim ler... Me ensinando, me ensinando...(Quem que fazia isso?) A minha patroa. Ela compro caderno, compro livro, tudo! E ia me ensinando... Eu não sabia olha hora, ela me ensino olha hora (risos)... Aí quando eu comecei a olhá o relógio... Olha hora direitinho, aí eu já fui gostando. Falei opa!... Aí ela saia... Agente descia. Depois tinha um cordão, agente puxava aquele cordão a porta abria, ela chegava lá só pra me castiga... “Oh, eu esqueci, olha quantas hora pra mim?” (risos)... Aí ela judiava de mim, só pra mim aprende! Bem que ela tava com relógio, ela fazia todo dia... Eu falava, aí ela falava: - “Não, não isso não!”... Aí eu falava outra vez: - “não, não é!” (risos)... Aí ela depois olhava e falava é tantas hora... – “O ponteiro tá em que lugá?” Aí eu explicava pra ela (risos)... Aí me Deus! Como eu sofri né? Mas foi bom! (Sofreu, era difícil?) (risos) Mas foi bom né?... Porque aprendi alguma coisinha né? (Mas foi difícil a sua vinda para Juiz de Fora?) Foi difícil... É! (Você que veio primeiro e depois foi puxando a sua família e a sua mãe, nesse período você perdeu o seu pai?) O meu pai, eu não sei te dizer se ele ainda tá vivo... Porque ele sumiu. Sumiu eu não sei pra onde ele foi. (Mas quando?) Ele foi trabalhá num lugá lá pros lado de Ponte Nova... Aí a minha mãe tava esperando o último filho, que até mora aqui o meu irmão caçula. Aí quando a minha mãe ganho esse menino ele veio, aí depois foi embora e sumiu, não mais volto. Ficou quinze anos sem dá notícia nenhuma... O meu irmão foi lá aonde ele tava trabalhando, já não tava mais lá, já tinha saído ninguém sabia pra onde... Tudo isso foi mais difícil pra minha mãe, porque ele não mandava dinheiro não mandava nada. (Como é que ela fez?) Coitada ficava na roça! Foi aí que eu vim pra cá e todo mês mandava dinheiro pra ela... Recebia aqui e mandava pra ela, porque eu sabia como tava lá né?... Aí eu fui dando jeito de arrumá emprego pras irmã vim. Pra tentá nos três aqui pra arrumá mais dinheiro. Pra dá jeito de traze ela pra perto de nós. Porque ficava melhó pra gente cuidá dela... Eu tenho um irmão também que sumiu lá em Brasília, ninguém sabe por onde ele anda, num tem o endereço dele, sumiu também... Tem outra irmã também que sumiu, também no Rio, ninguém sabe aonde ela tá também. Daqui foi pro Rio e desapareceu, num escreve num vêm, ninguém sabe aonde tá. (Três pessoas?) É sumiu!... Três pessoa sumiu. (Difícil né?) É muito difícil!
Mais lembranças da vida na roça.

(Como era o trabalho de vocês lá na roça? A sobrevivência era tirada das coisas que vocês plantavam?) É! (Vocês recebiam salário?) Não, não!... Agente não recebia dinheiro não... O meu pai que recebia o trocadinho lá, que agente falava... O meu pai recebia. Agente não via dinheiro não. (É mesmo?) Não! (E quando precisava das coisas como fazia?) Aí o meu pai que comprava né? Se precisava comprá remédio era ele que ia compra. (Tinha muita coisa para comprar? O que vocês precisavam?) Não!... Agente precisava de tudo, mas não tinha como, não tinha como comprar! Mas agente tinha muita saúde, ninguém adoecia assim pra precisá de remédio assim. E agente comia mal e andava tudo descalço. (E o que vocês comiam?) Uai! Agente comia era... Feijão, angu, verdura, arroz assim... Agente comia macarrão só no domingo. Dia de semana era angu, feijão, canjiquinha. Era o que agente comia né?... Agente plantava muita verdura, aí comia abobora... Era assim, quiabo. (Tudo plantado ali) Tudo plantado ali. (Mas por um lado é bom né?) É por um lado é bom! É uma coisa pura né? Não coisa nenhuma... Era o que agente comia... Arroz, assim era só o que agente plantava. Agente mesmo que limpava o arroz tinha pilão sabe? Sabe o pilão? (Explica?) Agente tinha pilão, aí punhá aquele... Aí soprava, separava aí daquele arroz que agente fazia pra come né?... Aí, aí! Mas era difícil sabe? (Quanta lembrança né?) Uma lembrança triste, mas... (risos). (Você lembra bem dos seus pais nesse ambiente de trabalho, você dividiu esse espaço com eles? Você chegou a ir trabalhar com eles?) Na época que panhava café. (Era junto?) Era junto... A minha mãe também trabalhava no café junto com agente né? Pra plantá também. A minha mãe tava ali junto com agente.
Vinda para Juiz de Fora.

(Como foi a sua vida aqui? Você trouxe a sua mãe depois, como foi?) É vim pra aqui e fiquei aqui... Então todo fim de ano eu ia pra casa no Natal. (Lá na roça?) É lá... Passava com ela e depois eu vinha trabalhando outra vez... Todo mês mandava dinheirinho pra ela... Todo mês recebia aqui, aí ia no correio manda dinheiro e escrevia pra ela né? Aí era assim sabe? Aí depois, que eu pensei bem no final em traze ela pra cá... Já fica mais fácil pra mim vê né? Alguém também me ajuda né? E a minha patroa também muito boa ajudou também né? Quando ela veio pra cá... Aí eu fui trazendo todo mundo, aí ficou mais fácil.
Ida para Brasília e casamento.

Aí depois eu casei e o meu patrão me levo pra trabalhá lá em Brasília... Casei em abril, fiquei o resto de abril, maio e junho e fui embora pra Brasília para toma conta da casa deles lá. Porque ele pegou um serviço... Brasília tava começando ainda, aí ele pegou um serviço muito grande lá. Ele mais o irmão dele. O irmão dele era engenheiro, ele era... Entendia mais do que o engenheiro, ele entendia muito bem mesmo... Aí eles pegaram uma obra grandona lá em Brasília, levou muita gente daqui pra trabalha lá... Aí a mulher dele não foi pra lá não, ficou aqui e ele ficava lá. Ele falou: - “Então eu vou apresar o seu casamento”. Porque eu já tava noiva já. - “Eu vou apresar o seu casamento porque eu não vou leva você solteira pra lá não, porque lá a Carminha não pode ir agora”. (Quem é Carminha?) É a esposa dele... Ele só tinha um filha só e Brasília tava muito difícil colégio, porque tava começando ainda né? E a menina dele estudava aqui... E ele falou: - “Ah, não vou levá ela pra lá não, deixa terminá o ano, então você tano casada não tem aquela responsabilidade de moça solteira lá, porque eu vou trabalha e eu quero que você tomá conta da casa lá, aí você tano casada é melhor”... Arrumou serviço pro meu irmão e meu esposo também. Aí foram pra lá. Aí tava muito bom lá! (Foi bom?) É, aí fui pra lá toma conta da casa deles lá. (Quanto tempo você ficou lá?) Fiquei um ano, depois eu vim pra ganha o primeiro filho.



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