Projeto “Fortuna Crítica da intercom” Arquimedes I



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Projeto “Fortuna Crítica da INTERCOM”

Visionários - Fortuna Crítica de Isaac Epstein

Por Arquimedes Pessoni1
Isaac Epstein nasceu em São Paulo, em 26 de abril de 1926, filho de Morris e Dora Epstein. Graduou-se em Engenharia Civil pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, em 1950, e durante 13 anos trabalhou na área da construção civil Na área da engenharia civil Epstein dirigiu como engenheiro residente algumas obras importantes governamentais e privadas, entre elas o Aeroporto de Viracopos (Campinas), Secretaria da Fazenda de São Paulo, Estádio do Guarany FC e Palácio da Justiça de Campinas.

Em 1963, preocupado com a questão de falta de moradias para a população de baixa renda, resolveu especializar-se em “Técnicas Modernas de Construção” mediante uma bolsa de estudos concedida pelo governo francês no programa da ASTEF na França. Percebeu durante os cursos que lhe foram oferecidos que a carência de habitações populares no Brasil, mais do que um problema de tecnologia era uma questão econômico-social uma vez que a renda média do trabalhador brasileiro não lhe permitia reservar entre 17% a 19% de seu salário (taxa considerada adequada pelo sistema francês) para amortizar uma habitação popular em 30 anos. Em suma, o buraco era mais embaixo, onde o nó estava instalado: na distribuição iníqua da renda do brasileiro.

Em 1968 Isaac Epstein voltou novamente à universidade, agora não mais como aluno, mas como professor. Ingressou na então recém-iniciada Faculdade de Comunicação Social e Artes Plásticas da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), como titular das disciplinas "Teoria da Informação" e "Teoria da Comunicação". Permaneceu naquela instituição até 1986, chegando a chefiar o Departamento de Comunicação Social da referida faculdade. Enquanto lecionava na FAAP voltou para os bancos da universidade, agora na Faculdade de Filosofia, Ciência s e Letras da USP onde, em 1983 obteve seu título de mestre em Filosofia com o trabalho “Subdeterminação das Revoluções Científicas”. Sua dissertação acabaria sendo premiada, em 1985 como a melhor dissertação do ano no Concurso "Teses Universitárias" promovido pela Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo.

À margem da produção acadêmica, construiu em 1963 um engenhoso dispositivo denominado “Uma máquina que aprende”,que simulava um sistema cibernético, cuja descrição detalhada foi publicada na revista “Cibernética” I em 1966 pela Associação Internacional de Cibernética, sediada na cidade de Namur, na Bélgica e transcrito na coletânea “Cibernética e Comunicação” (Cultrix, 1972) Este “máquina” não só jogava como “apreendia” a jogar o popular “Jogo da Velha”. Jogando contra um opositor humano, o “aprendizado” consistia em tentar aleatoriamente, mas com a mesma probabilidade de ocorrência, cada lance entre os lances possíveis, na sequência da partida. Ao final da partida, se a máquina ganhava, empatava ou perdia de um opositor humano recebia um prêmio ou punição. O prêmio consistia num aumento da probabilidade de escolher a seqüência de lances que tinham conduzido a vitória, ou ao revés, uma diminuição desta probabilidade em caso de derrota. Em caso de empate, as probabilidades se mantinham as mesmas.

Em 1977, inspirado pela Teoria das Catástrofes de Rene Thom, construiu um dispositivo mecânico, que simulava genericamente a estrutura das rupturas em determinados sistemas, e que poderiam ser exemplificados em estruturas físicas, biológicas ou sociais. Este dispositivo, denominado “Simulador de Catástrofes”, foi exibido na XIV Bienal de São Paulo, ocorrida em 1977 e dedicada à “Arte Catastrófica”.

Em 1986, Isaac dá início ao seu projeto de doutorado, agora em Comunicação, na Escola de Comunicação e Artes (ECA), da Universidade de São Paulo. Seu título de doutor foi obtido em 1991, com a tese intitulada “Subsídios para uma Gramática do Poder” que foi posteriormente (1993) publicada pela editora Ática. Alias “poder” é uma palavra que, lhe deu certa dor de cabeça em maio de 1977, quando concedeu uma entrevista à revista IstoÉ, que recebeu o título Esquizofrenia do Poder. Na oportunidade, afirmou que a comunicação gerada pelo poder ditatorial governamental então vigente, era patológica e nascia basicamente de um problema de comunicação inadequada entre povo e poder. Esta entrevista o levou a receber uma “visita” de agentes do Serviço Nacional de Informações (SNI) que lhe “proporcionaram” um alentado interrogatório.

Em 1987, Epstein ingressa na Universidade Metodista de São Paulo e passa a integrar o corpo docente do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social. Naquela instituição, onde permaneceu até 2009, coordenou a área de concentração: "Comunicação Científica e Tecnológica”, e também, posteriormente, a Linha de Pesquisa da “Comunicação Científica da Saúde".
PENSAMENTO EPSTEINIANO
A trajetória de pesquisador/professor de Isaac Epstein traz em seu DNA a influência de um sem-número de autores que, dentro do espaço encefálico do mestre, cruzando os números, as linhas de pensamento e sua filosofia de vida, acabaram encontrando solo fértil para prosperar e fazer nascer dali livros, publicações, eventos, orientações de mestrados e doutorados. A primeira fase de Epstein é marcada pelo interesse na Teoria Geral dos Sistemas encarnado no então no domínio interdisciplinar denominado de Cibernética.

Ligada mais à área da administração e base para qualquer esquema funcionalista (o funcionalismo só é possível através da teoria dos sistemas), esta teoria irá influenciar Epstein durante as décadas de 60 e 70, levando-o ao estudo da Teoria da Informação e da Cibernética. Seu interesse pelo assunto permite que coloque primeiramente os conceitos básicos da Teoria da Informação e indica a aplicabilidade à estética, à lingüística e à arte.

Influenciado, durante as décadas de 60 e 70 pelo funcionalismo, principalmente, quanto à corrente da Escola Norte-americana, Epstein encontra nessa vertente sua atuação acadêmica. No final da década de 70 e início da década de 80, a crítica social o leva a uma postura ideológica inspirada na Teoria Crítica, teoria da sociedade que implica em uma avaliação crítica da própria construção científica, sofrendo influência de Max Horkheimer e Adorno, portanto, da Escola de Frankfurt. Mais tarde, influenciado pelo francês Louis Althusser (marxismo e estruturalismo), Epstein faz reflexões sobre os aparelhos ideológicos. Seu livro, a Gramática do Poder, reflete esta fase pela qual passou Isaac Epstein. O mestre também simpatizava com os autores Umberto Eco (Tratado de Semiótica); Edgar Morin (Totalidade e Autocrítica), Ferdinand Saussure, Charles Sanders Pierce, R.Barthes, além de Roman Jakobson (formalista russo) e suas seis diferentes funções da linguagem, Gregory Bateson (Teoria Pragmática da Comunicação Humana), François Lyotard, Michel Foucault (Microfísica do Poder) e vários outros autores.

Entre os temas que Epstein se debruça em sua trajetória acadêmica, destacam-se três campos de abordagem: a sintaxe (estudo do código e das regras de combinação de seus elementos para composição das mensagens), a semântica (considerações sobre o referente ou significado) e a pragmática (que leva em conta os demais componentes e os efeitos do sistema de comunicação - fonte, emissor, canal ou receptor) as reflexões sobre linguística, semiologia e semiótica. Essas indagações o levam à publicação, em 1987, do livro O Signo, uma introdução ao estudo dos signos e à semiótica, atributos dos signos, funções da linguagem, e classificação dos signos e símbolos.


LEGADO COMUNICACIONAL
O professor e pesquisador Isaac Epstein apresentou larga produção acadêmica na forma de artigos científicos, orientações de mestrado e doutorado, capítulos de livros e livros publicados e/ou organizados. Destacamos alguns para comentar nesta coletânea que busca inventariar a produção acadêmica da vanguarda da INTERCOM, com o propósito de disponibilizar às novas gerações referências biográficas e bibliográficas que permitam o resgate das ideias do autor.

Cibernética e Comunicação (Org.). São Paulo: Cultrix: EDUSP, 1973 (241 p.).

No início da década de 60 do século XX, Epstein se interessa pela ciência da Cibernética, domínio interdisciplinar desenvolvido poucos anos antes pelo filósofo e matemático Norbert Wiener. Isaac participa dos Congressos Internacionais de Cibernética em 1967 em Namur, Bélgica, e Filosofia em 1968, em Viena. Em 1967 Epstein é convidado pelo professor Vilém Flusser para dar um curso de “Teoria de Informação” no IBF (Instituto Brasileiro de Filosofia) e, em 1968, como docente, para lecionar a disciplina “Fundamentos Científicos da Comunicação” na recém-instalada Faculdade de Comunicação da FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado). A coletânea foi organizada nesta época e contou com artigos de pesquisadores, vários deles conhecidos internacionalmente como A.M.Turing (“Computadores e Inteligência”), A. Moles (“Cibernética e Ação”), W. Ross Ashby (“A Variedade indispensável e suas implicações no controle de Sistemas Complexos”). M. Maruyama (“Metaorganização da Informação”), I Epstein (“Uma Máquina que apreende”) , G.Pask, (“Princípios de Aprendizagem e de Controle”), W.Ross Ashby (“A aplicação da Cibernética a Psiquiatria”), F.M.Reza (“Introdução à Teoria da Informação”) e J. Hyppolite e H. de Campos (“Lance de Dados de Mallarmé”).

Em 1970 Epstein convidou o pesquisador A.Moles para dar um curso introdutório das Ciências da Comunicação na FAAP. Durante sua estadia em São Paulo, A.Moles, auxiliado por Isaac Epstein, elaborou um projeto para a Faculdade de Comunicação com sugestão dos conteúdos teóricos, laboratórios de pesquisa, etc. Este projeto foi doado à FAAP, mas não chegou a ser implementado por sua diretoria.

O Signo. São Paulo: Ática, 1991 – Série Princípios (80 p.)

Após alguns anos de militância docente na FAAP lecionando a disciplina de “Fundamentos Científicos da Comunicação”, transformada pela mudança do currículo oficial em 1980, na disciplina denominada Teoria da Comunicação, Epstein escreveu este pequeno livro sobre os signos como livro de texto para seus alunos, mas que, por sua organização didática e originalidade na apresentação, teve edições e reimpressões sucessivas chegando a ter 8.000 exemplares impressos. É ainda um livro indicado por professores e procurado por estudantes de comunicação. O livro é dividido em 6 capítulos: 1.Signos, veículos de variedade.; 2.Signos veículos de significado; 3.Algumas caraterísticas dos signos; 4. As funções da linguagem; 5. As classificações dos signos; 6.Os símbolos; um vocabulário crítico e a bibliografia.

Este foi o primeiro livro de Epstein da série Princípios, da editora Ática e a semiótica foi a temática escolhida pelo autor. Esta obra de Epstein peca por não trazer uma introdução aos capítulos, o que não permite ao leitor uma visão panorâmica do que o espera nas 80 páginas seguintes.

De qualquer forma, para quem quer uma visão ampla do campo da semiótica, O Signo, de Epstein, dá conta do recado. Já começa como uma pergunta: “o que significa dizer que um organismo se comunica com o outro?” (p.6). O significado, o signo, o significante e todos os elementos da semiótica serão explicados no decorrer da obra, trabalhando os supersignos, a articulação dos códigos visuais, a questão da denotação e conotação, a função sígnica, os signos naturais e artificiais, os expressivos, as funções semântica e estética, os signos imotivados (arbitrários) e motivados e as funções da linguagem. Aliás, o capítulo quatro, que tem como título “As funções da linguagem”, o autor explica os conceitos de função fática, as funções de Jacokson, as funções metalinguística e a poética. O quinto capítulo é mais denso e o que traz mais o DNA do autor, quando aborda a classificação dos signos, explicando as teorias de Pierce, Charles Morris, Adam Schaff e Umberto Eco, propondo uma tabela comparativa entre os autores, bastante útil ao leitor.

No sexto capítulo, os símbolos são o foco de Epstein, que explicam que eles (os símbolos) desempenham um papel importante na vida imaginativa. Segundo o autor:

Eles revelam os segredos do inconsciente, conduzem a ação por caminhos que às vezes não são perfeitamente claros. A formação, o agenciamento e a interpretação dos símbolos interessam a muitas disciplinas: a história das civilizações e das religiões, a linguística, a antropologia cultural, a crítica de arte, a psicologia profunda, etc.

Nesta parte do livro Epstein esclarece os símbolos e signos, alguns atributos dos símbolos e a retórica dos símbolos. Como é de praxe do autor, os dois últimos capítulos do livro são contribuições para quem quer mais informação sobre o tema: vocabulário crítico e bibliografia comentada.


Teoria da Informação. São Paulo: Ática - Série Princípios, 1988 (77 p.)

O livro é dividido em sete tópicos: introdução; comunicação e informação; o que é informação; quantificação da informação; arte permutacional; vocabulário crítico e bibliografia comentada.

Na introdução o autor aborda a Teoria da Informação (TI) de Shannon e a visão de outros teóricos como Bar Hillel e Ashby, sempre abordando o caráter dual da informação:

(...) por um lado, a TI é uma teoria que define informação como variedade, cuja quantidade ocorre na desordem ou estado caótico. Por outro, a própria percepção, segundo a teoria gestáltica, só é possível na medida da emergência de uma forma que, vista à luz dos conceitos de TI, é forma justamente porque contém menos variedade e, portanto, menos informação do que o estado caótico (p.7).

Epstein acredita que percebemos ou entendemos o mundo quando temos informação a respeito dele a partir da redundância, que é a redução dessa informação ou variedade, o que confere uma dimensão mais ampla aos conceitos básicos da TI: quantidade de informação, redundância e ruído. Para o autor:



Tais conceitos têm uma significação unívoca quando compreendidos no âmbito da TI stricto sensu e admitem nela uma quantificação. Quando se trata, de estendê-los à comunicação humana em geral, verifica-se que, na variedade dois signos interpretantes ou consciências interpretadoras, o que é ruído para um intérprete pode ser informação para outro, e esta necessita de redundância para ser apreendida (p.12).

Isaac encerra a introdução afirmando que o conceito de TI varia para outras áreas e dá referências de autores nos segmentos da psicolinguística, economia, estética, desenho industrial, comunicação animal, psicologia, biologia e pedagogia.

No capítulo dois, o autor utiliza os exemplos do tabuleiro do xadrez, de um navio que transmite sua posição no mar e de um cientista que divulga os resultados de seus experimentos para explicar o que é comunicação e informação. Para Epstein, a comunicação envolve o significado ou interpretação das mensagens e estas só ganham sentido quando rebatidas a códigos. Já a informação depende apenas da variedade ou do número de mensagens possíveis abrangidas pelo código. Na sequência do capítulo o autor explica os termos código, redundância, sintaxe e ruído, amarrando o texto com a fusão dos códigos e a Teoria da Informação, sobre a informação sobre o sistema sinalizador, o ruído como fator de reorganização e o ruído e as teorias científicas.

Epstein, no capítulo três, utiliza os autores Laplace e James Clark Maxwell para abordar o conceito de informação, introduzindo fórmulas para conceituar a informação no campo da certeza e da incerteza. Nesse sentido, Isaac lembra que o discurso científico deve ser carregado de certezas e não de dúvidas e isso depende muito das palavras escolhidas para darem sentido único às informações:



As palavras empregadas pelas ciências podem ser as mesmas da linguagem corrente ou inventam-se palavras novas. Em ambos os casos, todavia, seus significados devem ser definidos univocamente. É próprio da atividade científica a definição unívoca dos termos utilizados, ao contrário da obra artística, equívoca ou plurívoca por excelência (p.34).

No capítulo quatro, Isaac Epstein aborda a quantificação da informação e, mais uma vez, sua formação em Engenharia se mostra presente na sopa de letras e números que o autor organiza tão bem em suas conceituações na área comunicacional. Elencando diversas funções logarítmicas para a composição da medição de informação, Isaac atribui a Shannon essa vertente que, para ela, ajudaria a medir a redução de incerteza ou a quantidade de informação. Se não bastasse a dose de números e equações que colocam o comunicador a beira da loucura, Epstein aprofunda ainda mais os conceitos de redundância e dependência sequencial incluindo a chamada Cadeia e Markov que o autor define como “processo probabilístico no qual o desenvolvimento futuro depende estatisticamente do estado presente e, de modo algum, pela forma com que se chegou a ele” (p.59).

No quinto capítulo, Epstein foca a arte permutacional, afirmando que a obra de arte pode ser vista como uma combinação de um número finito de elementos discretos e expressar-se por uma sequência de algarismos. Nesse âmbito, o autor propõe algo inovador, como a visão do engenheiro, filósofo e comunicador da obra de arte:

Se dividíssemos um quadro em minúsculos quadradinhos e fizéssemos corresponder a cada um deles certa tonalidade de cor, a informação obtida poderia ser codificada por um determinado número. Neste exemplo, é claro, abstraímos todas as características do quadro, como textura e outras, considerando somente a tonalidade de cor (p.66-67).

No sexto e último capítulo, Epstein dá uma grande contribuição denominada “vocabulário crítico”, em que o autor explica os conceitos utilizados em sua obra e que deixam mais claro para o leitor leigo a profundidade dos temas abordados por Isaac Epstein.


Cibernética. São Paulo: Ática, 1986 - Série Princípios (88 p.)

Definida por Norbert Wiener, em 1948, como um campo de estudos que tem como objeto o controle e a comunicação no animal e na máquina, a cibernética é o tema deste livro de Isaac Epstein que faz parte da série Princípios, da Editora Ática. Na obra, Epstein lança mais uma vez seu olhar de cientista interdisciplinar, de visão múltipla, sobre o campo da informação, reunindo numa obra densa conceitos da comunicação e da matemática para o leitor tentar tem uma ideia do que é a cibernética.

O livro é dividido em oito tópicos: introdução; uma disciplina interdisciplinar; sistemas; retroação e homeostase; caixa-negra; inteligência artificial; vocabulário crítico e bibliografia comentada.

Já na introdução, numa frase atribuída a Gordon Pask, Epstein define a cibernética como “uma arte, uma tecnologia, uma ciência e uma filosofia”. Dada a amplitude do tema, o próprio autor faz um alerta de que não haveria espaço suficiente para uma visão geral da cibernética: “Antes que uma refeição, este pequeno livro deve ser considerado um cardápio de degustação. Aguçar o apetite do leitor, indicando-lhe as fontes do alimento sem lhe provocar um fastio ou indigestão prematuros, foi a principal intenção do autor” (p.6).

No primeiro capítulo, Epstein busca na filosofia a origem da palavra cibernética, atribuindo a ela o sentido de ser a arte de guiar navios e o Estado. O autor discute a questão da eficácia de uma ação (uma das definições de cibernética, de Couffignal, 1964, seria “a arte de tornar a ação eficaz”) o papel do agente externo nas ações. A partir deste ponto, o autor tenta mostrar o papel da cibernética nas mudanças sociais, uma vez que estas acontecem a partir da atuação de organizações sociais.

No capítulo seguinte, Epstein evolui para a questão dos sistemas, definidos por ele como um conjunto de objetos interligados (p.21). O autor justifica a explicação ligando-a à citação de Pask (1961) que afirma que o tema da cibernética é como os sistemas se autorregulam, se auto reproduzem, evoluem e aprendem. Seu ponto mais relevante é a questão de como os sistemas se auto-organizam. Ainda neste capítulo Epstein explica a classificação dos sistemas, exemplificando a prática de um sistema no trânsito de veículos em uma metrópole e disserta sobre sistemas que se auto-organizam.

O capítulo quatro tem como temática a retroação e a homeostase. A primeira palavra (retroação) foi escolhida por Epstein como sinônimo de feedback, que explica que, num sentido genérico, a retroação denota uma parte da saída (output) que, na forma de energia ou informação, volta à entrada (input). E dá-lhe diagrama para exemplificar o pensamento do autor... Já o segundo termo abordado por Epstein neste capítulo, a homeostase, é explicado na página 44:

A ideia da homeostase é básica em biologia, mas também se aplica a outras ciências, como a psicologia, a sociologia, etc. De um modo geral, este conceito é importante sempre que os fenômenos estudados passam a ser analisados sob uma ótica sistêmica, principalmente quando se trata de sistemas complexos, ou extremamente complexos, e que são autorreguláveis.

No capítulo seguinte, utilizando os conceitos anteriores, Isaac Epstein elucida o funcionamento das caixas negra e branca para a cibernética. O autor lembra que o significado de caixa-negra é o de um sistema no qual se podem introduzir estímulos (inputs), isto é, perturbações conduzidas ao interior do mesmo, e observar as que emergem (outputs). Já na caixa-branca, ao contrário, é aquela em que se conhecem todas as conexões internas, como por exemplo, um motor para um mecânico especializado ou um aparelho de rádio para o técnico.

Na última parte da obra, Epstein aborda a inteligência artificial, explicando a mente matemática e a mente perceptiva, questionando se seria a inteligência artificial criativa. Uma boa parte do capítulo Epstein dedica à programação de jogos, mostrando como exemplo de inteligência artificial aplicada.

Uma importante colaboração de Epstein, que anos depois seria ampliada e se tornaria base de seu livro 96 Verbetes (2002), é o capítulo 7, denominado “vocabulário crítico”, em que o autor procura definir simplificadamente diversos termos científicos abordados em seu livro.


Revoluções Científicas. São Paulo: Ática, 1988 (144p.) - Trabalho premiado no concurso de teses universitárias promovido pela Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo, em 1985.

Classificado no segmento da Filosofia da Ciência, o livro Revoluções Científicas, oriundo de trabalho acadêmico do autor e premiado, é profundo e retrata a evolução e o progresso das ciências naturais por meio das revoluções científicas. A obra está dividida no formato de trabalho acadêmico que – além de introdução, conclusão e bibliografia – traz nove capítulos (o movimento pela ciência unificada; os contextos da justificação e da descoberta; ciências idiográficas e nomotéticas; insuficiências do contexto da justificação; um experimento imaginário; a subdeterminação das revoluções científicas; as revoluções de Kuhn vistas à luz do contexto da descoberta; a ruína da autonomia do contexto da justificação e os interstícios da subdeterminação). Com bibliografia internacional densa, Epstein discute a questão da ruptura na ciência diante da mudança dos paradigmas. Elege Thomas Kuhn como fio condutor de seu pensamento e compara a obra deste pesquisador com os diversos – e diferentes – olhares de outros cientistas, acreditando que Kuhn oferece uma visão sistêmica da ciência. Epstein justifica a importância de seu trabalho acadêmico da seguinte forma:



O exame dos cortes, das rupturas e, especificamente, das revoluções científicas coloca em xeque a soberania exclusiva do contexto da justificação, com referência à análise e à comparação entre as teorias. A ideia da relevância exclusiva desse contexto e a racionalidade dos procedimentos envolvidos (verificação, confirmação e até falsificação dogmática) pressupõem uma autonomia dos objetos da ciência autonomia esta articulada ao não inequívoco com que podem responder às teorias que lhe concernem (p. 140)

Gramática do Poder - São Paulo: Ática, 1993 - Série Fundamentos (215 p.)

Gramática do Poder: Todo discurso se sustenta em teias invisíveis. No que diz respeito ao discurso do poder, a sua eficácia está justamente naquilo que ele oculta. Por esta razão, revelar a sua estrutura significa também desvendá-lo ou descobri-lo. Nesse sentido, este livro visa buscar os elementos que estruturam os códigos do exercício do poder. Ao procurar subsídios para uma "Gramática do Poder", Isaac Epstein explicita as regras desta possibilidade de código que regula as relações entre dominantes e dominados. Os primeiros são definidos como aqueles “agentes do poder”, isto é, os que emitem ordens e têm a capacidade e os meios de se fazerem obedecer; Os segundos, ao revés, são os que obedecem ou padece as conseqüências da desobediência, os chamados “pacientes do poder”. Tido pelo próprio autor como sua principal contribuição no campo do conhecimento, o livro de Isaac Epstein é composto de sete capítulos 1.O que um dia vou saber, não sabendo eu já sabia; 2.Cruzamentos interdisciplinares 3.nascimento de uma matriz teórica; 4 Poder de criar um código e poder comandar segundo um código estabelecido; 5.Primeiro cruzamento; Códigos fortes e códigos fracos; 6.Segundo cruzamento: algumas verificações; 7.Terceiro cruzamento: o poder nas organizações, acrescido de bibliografia, índice onomástico e de assuntos.

Citando Sapir (1927), Epstein inicia o primeiro capítulo – com um título bem inquietante – mostrando que “inúmeras atividades nas interações humanas operam de acordo com um código elaborado e secreto, que não está escrito em parte alguma, conhecido de ninguém, porém compreendido por todos”. Para Isaac trata-se da cultura encoberta ou implícita, conceito introduzido na primeira metade do século XX por antropólogos americanos. Nesse foco, a cultura ocorre em níveis relatados como aberto e encoberto. Dentro e fora da consciência, explícito e implícito. A estranheza do assunto, que torna o trabalho do autor inovador, é explicada por Epstein logo no começo da obra:

De fato, procuramos descrever um código (que não está, ao que saibamos, escrito em parte alguma), torná-lo conhecido (uma vez que não é conhecido de ninguém), mas que, não obstante, é compreendido por todos (p.14)

Isaac Epstein relata que a primeira parte do livro é dedicada a explicitar os princípios da Gramática e a segunda a mostrar os “outros modos” através dos quais se evidencia a sua compreensão. Para Epstein, “estes modos consistem em fragmentos da memória cultural colhidos em vários registros, em características de atitudes, valores ou desempenhos das pessoas ou grupos em algumas situações” (p.15). O autor simplifica o objetivo de seu livro, afirmando consistir numa formulação de uma “nova” linguagem para o estudo e descrição de alguns fenômenos de agenciamento do poder e justifica:



Esta linguagem é nova porque não está escrita em parte alguma, mas é simultaneamente uma linguagem “velha”, porque tem sido efetivamente utilizada pelos atores em determinados marcos socioculturais. Em suma, a “nova” linguagem formulada nada mais faz do que tornar explícito o que há muito está escrito e implícito por um lado, em registros da memória cultural e, por outro, em atitudes e desempenho dos atores.

Segundo o idealizador da Gramática do Poder, está é constituída pela construção de determinados conceitos e suas respectivas articulações, enquanto modelo teórico, e pela confrontação deste modelo com certos fenômenos culturais que envolvem o agenciamento do poder. Epstein cita alguns pressupostos que ele mesmo assume para construir o conceito (p.17):



  1. O agenciamento do poder é estudado a partir do objeto “ordem” ou “comando” e as entidades mínimas constituintes deste objeto molecular: Agente, Paciente, Ordem 1 (Código) e Ordem 2 (Comando propriamente dito).

  2. As várias modalidades deste objeto molecular constituem os semas fundamentais da linguagem proposta e a partir da qual analisaremos o agenciamento do poder.

  3. Enquanto linguagem científica, isto é, enquanto metalinguagem empregada para descrever a “linguagem” ou “Gramática do Poder”, são duas dimensões sintáticas (relações formais entre os signos) ou semânticas (relações entre os signos e os objetos a que são aplicáveis) que assumem relevância especial.

  4. Enquanto linguagem realmente “falada” pelos atores, agentes e pacientes do poder, é sua dimensão pragmática que assume especial importância.

Explicadas as premissas, o autor parte para os conceitos de modos de agenciamento de poder que ele divide em Modo Normal (MN) e Modo Inverso (MI). O primeiro (MN) equivale a uma complementaridade (onde há uma relação assimétrica de poder) relativamente estável e o segundo (MI) é aquele no qual o Agente é equívoco, ambíguo, seja na edição de normas confusas, seja na sucessão de edição e revogação de normas unívocas.

No segundo capítulo da Gramática do Poder, Isaac Epstein parte para a abordagem do conceito de interdisciplinaridade e seus cruzamentos que resultam no nascimento de uma matriz teórica. Dessa forma, explica o autor, seu objeto de estudo (o agenciamento do poder) é a “ordem” e como as interações sociais que envolvem este objeto interceptam contextos pertencentes a várias disciplinas. Por ser algo interdisciplinar, Epstein ressalta que este tipo de trabalho implica no empréstimo de termos consagrados para novas aplicações e criação de novos conceitos e adverte:



Os setores interdisciplinares são, às vezes, “montados” com aparelhos conceituais pertencentes a disciplinas distintas. A princípio estes aparelhos podem ser instrumentos frágeis, mas que vão se fortalecendo na medida em que se mostram viáveis e férteis. Esta “montagem” caracteriza o nascimento de uma nova matriz teórica ou de um novo modelo de pensar a partir do cruzamento de matrizes existentes, porém distintas (p.27).

Nesse composto de cruzamentos, Isaac avalia que o primeiro refere-se a um esquema formal que, no trânsito interdisciplinar, adquire significado inesperado, que seria a teoria do duplo vínculo. A mesma é baseada formalmente na transposição de um paradoxo semântico para o âmbito da pragmática. O segundo cruzamento, explica o autor, demanda, previamente, uma matização do paradoxo pragmático e da contradição como um caso limite de ambiguidade. Para esta finalidade, Epstein introduz os termos Código Forte e Código Fraco, Agente e Paciente do poder, com significados distintos. O terceiro cruzamento interdisciplinar, revela Epstein, procura associar os esquemas canônicos já mencionados às constrições a que está sujeito o agenciamento de poder nas organizações burocráticas. Para fundamentar os cruzamentos propostos, o autor bebe em diversas fontes: para o primeiro cruzamento seu referencial teórico está baseado em Aristóteles, Wittgenstein e Batenson; no segundo cruzamento cita Whitehead e Russell e, para o terceiro cruzamento, opta por Weber.

O terceiro capítulo da obra de Isaac Epstein dá atenção especial ao conceito de poder e suas manifestações. Segundo o autor, em seu significado mais geral, a palavra “poder” é correlata à competência (atual ou potencial) para agir e produzir efeitos. Neste sentido tanto pode referir-se às inter-relações humanas como ao poder sobre fenômenos naturais (p.35). Para Isaac:

Definir o exercício do poder, como circunscrito a situações de emissão e obediência a ordens ou mandatos, deixa aparentemente de lado muitas situações mais latentes onde “ordens” são menos visíveis e concretas, mas nem por isso menos reais em seus efeitos, especialmente em comportamentos ocasionados por valores introjetados. A razão, todavia, mais importante para esta limitação é nossa intenção de aprender o exercício do poder através de seu objeto concreto: a ordem (p.36).

Isaac faz uma distinção entre Ordem 1 e Ordem 2, conforme citamos anteriormente. Para deixar mais claro, o próprio autor explica seus usos e aplicações na construção da Gramática do Poder, afirmando que a Ordem 1 separa um conjunto de possibilidades de acordo com certas regras, dentro de um universo mais amplo da totalidade das possibilidades logicamente congruentes. Assim ocorre com o conjunto de normas jurídicas, com pressupostos de um paradigma científico, de um estilo artístico, das regras de um jogo esportivo, por exemplo. A positividade do poder consiste na capacidade para o restabelecimento de uma Ordem 1, onde anteriormente não existia.

Já a Ordem 2 é um comando, um ato imperativo de um Agente, que dispõe em determinado contexto de competência para tanto, e da qual a Ordem 2, é também efeito. Explica Epstein (p.39):

Se considerarmos esta Ordem 2 como uma mensagem (Comando) pronunciada por um emissor (Agente do poder), e endereçada a um receptor (Paciente), verificamos que a noção de Ordem 1 corresponde à de Código e a de Ordem 2 à de Mensagem. Em outras palavras, o lado positivo do poder (o estabelecimento do uma Ordem 1) e seu lado negativo (de obrigar ao cumprimento do que decorre da Ordem 1, através das Ordens 2) complementam as duas faces.

Para exemplificar seu modelo de ordem, Epstein usa a criação do universo para deixar claro seu conceito, salientando poder distinguir dois registros de poder: o primeiro torna possível o segundo, sendo o primeiro essencialmente uma positividade e o segundo, a consequência do primeiro, restritivo, portanto, de certo modo, negativo. Mais adiante, saindo do macro para o micro, Isaac aborda sua teoria aplicada ao poder do Estado. Se no âmbito teológico a Ordem 1 estaria com Deus (ou o criador do universo), o autor acredita que num sistema de governo a bola estaria com o dirigente principal, que daria a Ordem 1. Usa Hobbes (1952) para justificar:



O soberano de um Estado, quer seja uma assembleia, ou um homem, não se sujeita às leis civis. Dado que tem o poder de fazer e revogar as leis, pode quando lhe aprouver libertar-se dessa sujeição, revogando as leis que o estorvam e fazendo outras novas; por consequência, já antes era livre. Porque é livre quem pode ser livre quando quiser. E a ninguém é possível estar obrigado perante si mesmo, pois quem pode obrigar pode libertar, portanto quem está obrigado perante si mesmo não está obrigado.

Mais adiante, após exemplificar em uma tabela a questão do uso dos Códigos de Ordem 1 e 2 com Agentes e Pacientes, o autor faz uma afirmação com tom revolucionário (p.50):



Em certas ocasiões, os pacientes do poder podem provocar um confronto com os agentes e este confronto pode assumir a forma extremada de uma tentativa de substituição do Código (Ordem 1) vigente por outro. É o caso da substituição de uma Ordem 1 política por outra, ou da substituição de um paradigma científico. Estes eventos radicais são denominados de “revoluções”, sejam estas políticas, científicas etc.

Partindo para o capítulo quatro, denominado “Primeiro cruzamento”, o autor questiona o que acontece quando uma ordem é impossível de ser cumprida. Neste caso, Epstein busca na psiquiatria suas respostas, explicando a teoria do duplo vínculo, importada de Bateson. Para aquele autor, a teoria do duplo vínculo afirma que existe um componente experiencial na determinação ou etiologia dos sintomas esquizofrênicos e dos padrões de conduta afins, tais como o humor, a arte, a poesia, etc. Notoriamente, a teoria não distingue entre estas subespécies. “Em seus termos, não há nada que sirva para determinar se um dado indivíduo se tornará um palhaço, um poeta, um esquizofrênico ou uma combinação destes...” (p.65).

Epstein explica que a tese de Batenson e de seus amigos (p.66) era de que, quando uma pessoa se encontrasse frequentemente encurralada numa situação de duplo vínculo, sua resposta defensiva seria semelhante às atitudes e respostas usuais dos indivíduos considerados como esquizofrênicos: confundir frequentemente o literal com o metafórico, supor que atrás de cada enunciado há um significado persecutório, aceitar tudo o que lhe é dito ou isolar-se da comunicação. Em suma, o duplo vínculo recorrente seria um agente etiológico da esquizofrenia.

Isaac acredita que a teoria do duplo vínculo configura um tipo de comunicação que, quando reiterado, pode provocar sintomas patológicos em atores em situação de dependência e adverte:

Em suma, um padrão de comunicação capaz de provocar distúrbios de conduta. Senão um mecanismo de defesa, uma comunicação desqualificada, segundo os padrões usuais: o esquizofrenês. É fácil compreender que nestas condições o padrão de comunicação configurado pelo duplo vínculo pode se transformar em instrumento de exercício do poder por parte de seus agentes. Daí o interesse da “Gramática” por esta teoria.

No quinto capítulo, o assunto principal são os códigos Forte e Fraco. O autor menciona vários exemplos: linguagens, códigos urbanos, táticas de combate armado, organizações, etc.

Entendidos os conceitos dos códigos propostos por Epstein, o autor vira a página e vai cuidar dos significados canônicos da “Gramática” por ele proposta, reiterando o uso e sentidos dos modos de agenciamento do poder, classificados por ele como Modo Normal, Modo Inverso e Modo Paradoxal. Na sequência do trabalho o autor se propõe a tentar mostrar como os desempenhos “normais”, “inversos” e “paradoxais” ocorrem em algumas díades clássicas de agentes e pacientes do exercício do poder e como os referidos significados destes modos emergem em diversos registros da memória cultural.

Nessa toada, o sexto capítulo é repleto de exemplos de aplicação dos códigos. Isaac Epstein os encontra na questão de gêneros, na ficção literária, na paisagem urbana, no trânsito, na publicidade, na arquitetura, em eventos formais e informais, na política, na escravatura, na música, na capoeira e no jogo do poder.

Para fechar a obra, o sétimo e último capítulo propõe o terceiro cruzamento interdisciplinar que se refere à adequação dos esquemas canônicos Modo Normal, Modo Inverso e Modo Paradoxal e as interações que ocorrem no seio das organizações, no comércio do poder efetuado entre agentes e pacientes. Nesta parte do livro, o propósito de Isaac Epstein é analisar algumas das estratégias de ação disponíveis aos atores, agentes e pacientes do poder, circunscritas aos parâmetros destas organizações e envolvendo semas referidos e seus componentes, Códigos Fortes, Códigos Fracos e Códigos Paradoxais.

Na resenha sobre o livro, publicada em 1994, na Revista Brasileira de Comunicação (INTERCOM), de autoria de Tércio Sampaio Ferraz, o resenhista explica bem a questão dos Códigos Fortes e os Fracos abordados por Isaac Epstein em sua obra. Para Ferraz (1994) quando Epstein analisa o poder nas organizações e nas instituições totais, na análise das mesmas, a questão da irracionalidade conduz o autor ao tema da comunicação patológica. O resenhista acredita que Epstein enfrenta o problema da patologia sugerindo que esta surja por uma perversão por ele denominado Modo Normal, em que o agente pode impor ao paciente um Código Forte (portanto, unívoco, com óbvios traços de racionalidade), mas cujo cumprimento é incompatível com a mera sobrevivência física do paciente. Nesta situação, a resposta deste é absolutamente desencontrada (exacerbação do instinto de conservação), embora, literalmente, venha ao encontro do que pede o agente, isto é, os Códigos Fracos com que responde são desenvolvidos individualmente, destruindo a moral coletiva e o próprio caráter. Esta perversidade do Modo Nornal chama-o Isaac de Modo Normal Pevertido.


Divulgação Científica: 96 verbetes. Campinas, SP: Pontes, 2002 (287p.)

Apresentado pelo linguista e professor titular na área de semântica argumentativa da Unicamp, Carlos Vogt, a obra de Epstein reúne em ordem alfabética 96 verbetes importantes aos que trabalham no segmento da divulgação científica. Como o próprio Vogt assinala, o livro de Epstein traz informações valiosas sobre essa atividade, distinguindo conceitos, apresentando metodologias e analisando práticas e procedimentos que vão configurando um saber próprio e fecundo. Conforme lembra o próprio Vogt, na apresentação do livro:



O livro (...) constitui uma contribuição indispensável à consolidação e à sistematização da divulgação e do jornalismo científico no Brasil, revelando um esforço metódico, que supõe persistente dedicação ao tema e ativa militância institucional no seu ensinamento, e mostrando a solidez amadurecida de um conhecimento, por parte do autor, que desdiz com fineza e elegância espirituosa e inteligente de Bernard Shaw quanto ao abrangente vazio da sabedoria generalista, neste caso, fundamental à prática da boa divulgação científica e ao cumprimento de sua tarefa de aproximação crítica entre ciência e sociedade

Isaac Epstein comenta que a idéia do livro nasceu e progrediu após sua experiência com a disciplina de “Comunicação da Ciência”, ministrada nos cursos de pós-graduação em Comunicação Social da Universidade Metodista de São Paulo e do Labjor, na Unicamp. O próprio Epstein ressalta que os 96 verbetes expandidos são temas substantivos das ciências naturais, algumas teorias muito comentadas nos últimos anos, temas ligados à semiótica da divulgação científica, assuntos ecológicos e ambientais, sociologia da ciência, indicadores e revistas científicas.

Sobre o público-alvo do livro, o autor salienta que não foi feito para especialistas e nem para o cidadão sem a mínima cultura científica ou mesmo interesse pela ciência. Como Epstein mesmo destaca: “sobrou o miolo entre esses dois extremos: o profissional em comunicar ciência, o estudante e o público jovem ou não tão jovem, porém curioso, às vezes fascinado pelas descobertas e procedimentos da ciência” (p.9).

Referências (fonte: currículo Lattes de Isaac Epstein, consultado em dez/2012)
Artigos completos publicados em periódicos

1. EPSTEIN, Isaac. Teorias da Comunicação: muitas ou poucas?. Comunicação & Sociedade, v. 49, p. 211-216, 2008.

2. EPSTEIN, Isaac. Quando um fato se transforma em notícia no Jornalismo e na ciência. Comunicação & Sociedade, v. 47, p. 159-179, 2007.

3. EPSTEIN, Isaac. Em busca do conhecimento científico. Comunicação & Sociedade, UMESP - SBC, v. 45, p. 189-195, 2006.

4. EPSTEIN, Isaac; BERTOL, S.. Caminho das pedras: a difícil arte de comunicar a ciência para o público. Comunicação & Sociedade, n.43, p. 11-27, 2005.

5. EPSTEIN, Isaac. Efeito contra placebo das contra indicações e efeitos adversos anunciados na bula. Anais do VI Conferência Brasileira de Comunicação e Saúde, UMESP - SBC, v. 1, n.1, p. 15-31, 2005.

6. EPSTEIN, Isaac ; MACEDO, Monica Gonçalves ; ROUET, Jean Francois ; FAYARD, Pierre. Vulgarisation Scientifique: les revues en ligne. Hermés, Paris - França, p. 61-68, 2004.

7. EPSTEIN, Isaac. resenha - A empresa familiar e o exercício do poder. Comunicação & Sociedade, São Bernardo do campo, n.40, 2003.

8. EPSTEIN, Isaac ; MACEDO, Monica Gonçalves ; ROUET, Jean Francois ; FAYARD, Pierre. Effects of online Reading on Popular Science Comprehension. Science Communication, Londres, v. 25, n.2, p. 99-128, 2003.

9. EPSTEIN, Isaac . Comunicação e Saúde. Comunicação & Sociedade, São Bernardo do Campo - SP, v. 35, p. 159-186, 2001.

10. EPSTEIN, Isaac. Ciência e Burocracia. PCLA. Pensamento Comunicacional Latino Americano (Online), São Bernardo do Campo - UMESP, v. 2, n.2, 2001.

11. EPSTEIN, Isaac. PROJETO COMSALUD I (1997-2000). PCLA. Pensamento Comunicacional Latino Americano (Online), http://www2.metodista.br, v. 2, 2001.

12. EPSTEIN, Isaac. Comunicação da Ciência. São Paulo em Perspectiva, São Paulo, 1999.

13. EPSTEIN, Isaac. Comunicación y Salud Pública. Chasqui, Quito, Editora Ciespal, n.64, 1998.

14. EPSTEIN, Isaac . Ciência e Anti-ciência. Comunicação & Sociedade, São Bernardo do Campo, n.29, p. 13-33, 1998.

15. EPSTEIN, Isaac. Comunicação no Universo dos Cientistas. Comunicação & Sociedade, n.30, p. 173-220, 1998.

16. EPSTEIN, Isaac. Paradoxo de Condorcet e a Crise da Democracia Representativa. Revista Estudos Avançados Iea Usp, São Paulo, 1997.

17. EPSTEIN, Isaac. Os Possíveis Efeitos Negativos devido à Publicação Prematura de Notícias Inesperadas ou Novidades na Divulgação Científica. Comunicação & Sociedade, São Bernardo do Campo, n.27, p. 21-39, 1997.

18. EPSTEIN, Isaac. Ecologia e Cultura. INTERCOM (São Paulo), São Paulo, v. XX, n.2, p. 152, 1996.

19. EPSTEIN, Isaac. O Dilema do Prisioneiro e a Ética. Revista de Estudos Avançados, São Paulo, n.23, 1995.

20. EPSTEIN, Isaac. Telemática e Modernização. Comunicação & Sociedade, São Bernardo do Campo, n.21, 1994.

21. EPSTEIN, Isaac. A palavra, o Discurso e o Poder. INTERCOM (São Paulo), São Paulo, n.59, 1988.

22. EPSTEIN, Isaac. O Vôo Livre das Ciências. Revista Sala de Aula, São Paulo, 1988.

23. EPSTEIN, Isaac. Desafios da Interdisciplinaridade. INTERCOM (São Paulo), São Paulo, n.56, 1987.

24. EPSTEIN, Isaac. Impasse Curricular. Série Ensino Eca Usp, São Paulo, 1987.

25. EPSTEIN, Isaac. Passeio com Eco. INTERCOM (São Paulo), São Paulo, n.54, 1986.

26. EPSTEIN, Isaac. Informação e desinformação na medicina. Boletim Intercom, Campinas, n.40, p. 25-28, 1982.

27. EPSTEIN, Isaac. Modos de comunicação, subsídios para uma Gramática do Poder. Comunicação e Classes Subalternas, São Paulo, 1980.

28. EPSTEIN, Isaac. Jogos. Revista Ciência e Filosofia, São Paulo, n.11, 1979.

29. EPSTEIN, Isaac. Ciência e Informação. Revista Brasileira de Filosofia de São Paulo, São Paulo, 1970.

30. EPSTEIN, Isaac. Teoria de jogos e anti-jogo. Revista Brasileira de Filosofia de São Paulo, São Paulo, 1970.

31. EPSTEIN, Isaac. Informação e Estrutura. Mirante das Artes, São Paulo, 1967.

32. EPSTEIN, Isaac. Teoria da Informação. Associação Brasileira de Desenho Industrial, São Paulo, 1967.

33. EPSTEIN, Isaac. Entropia e Informação. Cavalo Azul, São Paulo, 1966.

34. EPSTEIN, Isaac. Une Machine qui apprend. Cybernetica (Namur), Bélgica, 1966.

Livros publicados/organizados ou edições

1. EPSTEIN, Isaac (Org.); SANCHES, Conceição Aparecida (Org.); MARCOLINO, Eliana Martins (Org.); SATHLER, André (Org.); CARPIGIANE, Berenice (Org.). A comunicação também cura na relação médico paciente. 1. ed. São Paulo: Angellara, 2006. v. 1. 206p .

2. EPSTEIN, Isaac (Org.); MELO, José Marques de (Org.); GOBBI, Maria Cristina (Org.); GOMES, Ana Luisa Zaniboni (Org.). Anais da VI Conferência Brasileira de Comunicação e Saúde. 1. ed. Brasília: ANVISA, 2005. v. 1. 302p .

3. EPSTEIN, Isaac. Divulgação Científica: 96 verbetes. São Paulo: Ática, 2002. v. 1. 287p

4. EPSTEIN, Isaac (Org.); MELO, José Marques de (Org.); BARBOSA, Sergio (Org.); SANCHES, Conceição Aparecida (Org.). Mídia e Saúde. 1. ed. Diamantina: UNESCO/UMESP/FAI, 2001. 844p .

5. EPSTEIN, Isaac. Gramática do Poder. São Paulo: Ática, 1993.

6. EPSTEIN, Isaac. Revoluções Científicas. São Paulo: Ática, 1988.

7. EPSTEIN, Isaac. O Signo. São Paulo: Ática, 1987.

8. EPSTEIN, Isaac. Cibernética. São Paulo: Ática, 1986.

9. EPSTEIN, Isaac. Teoria da Informação. São Paulo: Ática, 1986.

10. EPSTEIN, Isaac (Org.). Cibernética e Comunicação. São Paulo: Cultrix, 1973.

Capítulos de livros publicados

1. EPSTEIN, Isaac. Apresentação e resenhas. In: Dinah Poblacion, Rogerio Mugnani, Lucia Maria S. V. Costa Ramos. (Org.). Redes Sociais e Colaborativas em Informação Científica. : , 2009, v. 1.

2. EPSTEIN, Isaac. Cibernética: A arte de guiar navios (e o Estado). Memória do Futuro. São Paulo: Itaú Cultural, 2008, v. , p. 90-105.

3. EPSTEIN, Isaac. Relação Médico Paciente e Sistema de Saúde. In: Isaac Epstein. (Org.). A comunicação também cura na relação entre médico e paciente. 1ed.São Paulo: Angellar, 2006, v. 1, p. 165-202.

4. EPSTEIN, Isaac. Apresentação. In: Isaac Epstein. (Org.). A comunicação também cura na relação entre médico e paciente. 1ed.São Paulo: Angellar, 2006, v. 1, p. 9-17.

5. CARPIGIANE, Berenice; EPSTEIN, Isaac; MARCOLINO, Eliana Martins; FRANCO, Fabiana; SANCHES, Conceição Aparecida; SATHLER, André . Relação médico paciente e sistemas de saúde. In: Isaac Epstein. (Org.). A comunicação também cura na relação médico paciente. São Paulo: Angelara, 2006, v. , p. 165-202.

6. EPSTEIN, Isaac. Ciência, Poder e Comunicação. In: Jorge Duarte; Antonio Barros. (Org.). Métodos e Técnicas de Pesquisa em Comunicação. 1ed.São Paulo: Atlas, 2005, v. 1, p. 15-31.

7. EPSTEIN, Isaac. Do Comsalud ao Comsaúde. In: Marques de Melo;. (Org.). Anuário UNESCO/UMESP de Comunicação. 4ed.São Bernardo do Campo: UMESP, 2000, v. 4, p. 237-239.

8. EPSTEIN, Isaac. Duas Culturas. In: UNIDERP. (Org.). Ensaios e Comunicação. Campo Grande: UNIDERP, 1998.

9. EPSTEIN, Isaac. Um Aspecto da Dimensão Filosófica da Comunicação. In: Pontificia Universidad Javeriana. (Org.). Signo y Pensamiento. Bogotá: Pontificia Universidad Javeriana, 1998.

10. EPSTEIN, Isaac. The Prisioner's Dilemma and Ethics. In: Glanville,R & de Zeeuw,G. (Org.). Problems of excavating cybernetics and systems. Southsea, UK: BKS, 1998, v. , p. 101-116.

11. EPSTEIN, Isaac. La Théorie de l'informação et la Communication Publique. In: Kunsch,M & Lefebvre,Y,N, & Lopes,M,I,V. (Org.). Pratiques Culturelles, Communication et Citoyennete. Paris: CECOD, 1998.

12. EPSTEIN, Isaac. Telemática e Modernização. In: Pós Graduação em Comunicação Social UMESP. (Org.). Pensamento Comunicacional Brasileiro: o Grupo de São Bernardo. São Bernardo do Campo: UMESP, 1998.

13. EPSTEIN, Isaac. Cientificidade entendida como vigência de um paradigma. In: Isaac Epstein. (Org.). Epistemologia: A Ciência em questão. São Paulo: Papirus, 1990.

14. EPSTEIN, Isaac. Conquistando o bem-estar social: dimensões para o novo desenvolvimento. In: Isaac Epstein. (Org.). Comunicação na América Latina. São Paulo: Papirus, 1989.

15. EPSTEIN, Isaac. O Cego. In: Isaac Epstein. (Org.). Almanaque Editora Brasiliense. São Paulo: Brasiliense, 1981.




1 Mestre e Doutor em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo. Docente do Mestrado em Comunicação da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS). E-mail: pessoni@uscs.edu.br


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