Projeto Klauss Vianna Um Resgate Histórico



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Projeto Klauss Vianna Um Resgate Histórico

Rio de Janeiro, casa de Angel Vianna, 20 de abril de 2007

Entrevista com Angel Vianna (AV)

Entrevistadores - Paula Grinover (PG), Valéria Cano Bravi (VCB) e Juliana Polo (JP).

Transcrição - Camila Cristina

Versão editada


Um encontro ainda no ginásio

AV - Eu conheci a mãe do Klauss quando ele se formou no CPOR. O Klauss estudou comigo também no Padre Machado que era o Instituto Padre Machado, era membro, sabe quem? O Otto Lara Rezende era o meu professor, filho do dono, era o pai dele o dono do instituto.

PG - E vocês se conheceram com quantos anos? Jovenzinhos assim?

AV - Jovens, jovens, com uns quatorze anos, quinze no máximo. eu saio de um colégio interna e vou pra onde? Imagina, olha a loucura, a contradição: saio de um colégio interno , de freira, rígida que eu era. Eu ficava tão encantada, ficava achando que aquele era o meu caminho, de ser freira. Eu via as minhas amigas, colegas do advento tudo altona e eu aquela pessoa angelical. O Colégio Santa Maria era de freiras dominicanas, bastante rígido, mas era interessante, tinha casos engraçados. Uma vez foi um noivo me visitar, eu com quatorze anos, treze sei lá, que era da família, um primo.

VCB - Ah! que arrumava pra.

AV - É, que ia pra arrumar casamento. As meninas falavam: - "Ele é lindo". E eu falei: “mas é meu primo, eu não sinto nada”. A família traz e cisma que é o meu noivo, então eu vou fingindo que eu acho bom e aí também é bom também porque eu recebo visita da minha mãe, da mãe dele, dele e todo mundo fica encantado. E como eu era muito tímida, achava legal porque eles ficavam encantados por mim (risos) que tinha arranjado um noivo. Olha que doidera, é agente vai vendo estes causos que são engraçados (risos).
Sobre o casamento...

AV - Quando eu fui casar, escrevi uma carta para o meu pai e falei com a minha irmã, que tava indo viajar com ele para a Bahia, “quando estiver a não sei quanto mil pés, você entrega esta carta para ele”. Na carta eu dizia: “Olha meu pai, eu não quero casar, eu achei uma pessoa especial e acho bom você dizer sim, porque se você não disser, vai ser muito triste para mim porque eu quero que você diga sim. Você é muito especial para mim. Nestas alturas, por favor, procure entender, porque eu não estou atrás de um marido, eu estou atrás de um ser, entenda”.

PG - Qual o casinho que você acha lindo?

AV - Quando eu ia casar, e teve um belo casamento, eu falei que eu não ia vestir vestido de noiva e ir na igreja não.

PG e VCB -(risos ) Vestiu?

AV - Vesti, mas você não sabe, quase que caí de tanta alegria (risos), da escada (risos) tropecei. Eu tenho o filme do meu casamento.

PG e VCB - Ah Angel!

AV - Eu preciso achar.

PG - Era super 8 né?

AV - Era super 8. Eu vou achar.

A abertura da primeira escola...

AV - Eu cheguei lá com a avó do Klauss e ele dava aula e ninguém pagava, tudo pendurado. Eu falei: - “não entendo Klauss, como é que você vive, você faz aula, meu pai tem dinheiro, você ta sem pai nem mãe e você tem que se virar. Ele falou: - “pois é uns pagam outros não, a avó faz caderneta lá no armazém”. (risos). Ai eu falei: - “Klauss, vamos abrir uma escola, eu e você? A gente já ta aqui no Carlos Leite há milhões de anos, por que não abrir? Eu continuo aqui no Carlos Leite”. E não é que abrimos!

PG – E vocês chegaram a ter 600 alunos?

AV- Chegamos... E ele falou para mim: - “Onde que você vai abrir escola?” Eu falei: - “Aqui na sua casa, tem quanto quartos, olha ai? Tem o seu comigo, tem o da avó, a gente pega e abre uma parede que junta com dois quartos, dá uma modificada e vai ficar legal, e ninguém entra por dentro da casa, a gente faz uma escada”... “E você tem dinheiro para isso?” Eu disse: - “Eu não, mas meu pai tem” (risos) “Seu pai não queria o casamento e me detesta, e ainda vai dar dinheiro!” Ai eu falei: - “Deixa eu conversar com ele. Eu vou tremendo de medo, mas alguma coisa vai ter que acontecer. Acho triste se ele disser não, mas e se ele disser sim? Eu também não vou exigir muita coisa, eu vou pedir emprestado o pessoal dele, que trabalhava construindo para ele”. E falei: - “Pai, me empresta o seu mestre de obras? E se o senhor puder comprar o material, eu vou te pagando por mês”. E não é que quando eu pedi ele ficou enfezado e falou assim: - “Não tenho”. E eu falei: - “É triste meu pai, não é verdade, mas é seu, não é meu, mas eu vou cumprir o dever e se você me emprestar, vai ser legal”. E saí, quando eu tava virando, no corredor para ir embora ele me olhou e eu falei: - “Eu só tava querendo seus homens”. E ele falou: - “Vem cá, vou mandar tudo!”. E não é que levei o homem lá, fiz uma escada, pus um vestiário, fiz o banheiro, abri duas paredes e ficou um salão deste tamanho. A gente começa, temos o piano da avó e a gente começou com algumas crianças e algumas alunas...

Eu falo sempre: gente não percebe que é ser humano, vejo a quantidade de loucura que são as pessoas, se elas abraçam um caminho tem que seguir em frente.



As artes e o início com Carlos Leite...

AV - Acabou o colégio na Santa Maria e eu vou pro instituto, mas ele (Klauss) me incentivou depois que eu sai do colégio.

PG - Nessa época você foi fazer aula no Carlos Leite?

AV - Depois que eu sai do Colégio Santa Maria, comecei a escola de Belas Artes, um trabalho muito interessante com uma Belga que veio a chamado da polícia, ela fazia o retrato falado em máscaras. E como ela era uma escultora maravilhosa, tinha uma habilidade anatômica perfeita. Dentro da escola de Belas Artes eu estudei com mestre Guignard (Alberto da Veiga Guignard, 1896-1962, artista plástico, viveu em Minas Gerais desde 1944 até sua morte, em 1962), que estava na direção, e outros tantos professores que eram muito legais. Hoje o pessoal de Minas, considerados grandes pintores e bons nas artes plásticas, eram os meus colegas na escola e foi muito legal.

Era muito interessante porque Belo Horizonte tinha a Geração Complemento. Eu e o Klauss pertencíamos a este acontecimento e ficamos lá trabalhando para o Carlos Leite, ele continuou dando as aulinhas dele lá no Colégio, na casa dele e nós no Carlos Leite. Klauss, a gente sabia, não era fanático pelo balé clássico, e nem eu tinha muito assim, não era pra dançar uma coreografia romântica... Meus impulsos são todos meio alemães assim...



VCB - Para expressionista?

AV - Expressionista de verdade, que é o que eu gostava, mas eu não entendia e ia aprender o que tinha que aprender. O Carlos Leite quando a gente ficou grandes amigos, eu e o Klauss , a gente saia sempre, buscava onde tinha as coisas e as artes plásticas. A escola (de Belas Artes) era fantástica, num parque Municipal que tinha lá, tinha as árvores, tinha tudo ao mesmo tempo pra trabalhar. O Guignard gostava de sair pelos jardins do parque municipal e aí a gente desenhava, trabalhava, pintava, era bom viver aquela coisa de todo mundo junto, fazendo telas né. A minha vida era assim: piano, depois artes plásticas e dança. Era uma conexão de idéias.

Artes, piano, dança, eu e o Klauss... era muito interessante. O Klauss era considerado assim, claro, bonito, alto, bailarino, ele não gostava muito mas era. Então ele vem fazer teatro. Qual a primeira peça que eu encontro, que eu vou com um namorado meu ver o Klauss trabalhar? O Retrato de Dorian Gray. Quem era Dorian Gray? Era ele mesmo (risos). Aí meu namorado árabe, eu falei: "- Gostou?" Ele olhou pra mim e falou: - "Muito bom, muito bom."

O Ballet da Juventude passou por Belô, Carlos Leite era do balé, Tatiana (Leskova) era do Balé e aí eu ia em tudo que acontecia por ali. Carlos Leite, já tava querendo sair do Rio de Janeiro e o pessoal da UNE o contratou pra ficar lá em Belo Horizonte e trabalhar. Na época a UNE era forte lá. Foi daí que nós dois começamos com o balé clássico com Carlos Leite, que foi muito lindo. Ele nos deu a noção exata do que é a dança, o amor pela dança, o respeito pela dança. Ele era bravo, mas comigo ele não ficava muito bravo não porque eu falava assim: "- Ah, eu esqueci tudo." Ele ria. Acabava rindo porque eu não era assim tão eufórica por balé, me deu joanete, me deu um monte de coisa. Naquela época mandavam você ficar muito na ponta, a musculatura do abdômen, mas era uma turma ótima. A primeira turma do Carlos Leite tinha eu, o Klauss, Décio Otero, Silvie Hermany, Vera, o sobrenome eu não lembro. Foi ótimo porque Klauss começou a criar ali.

A primeira coreografia dele foi uma homenagem a Carlos Leite que estava na Europa. Ele saiu, foi fazer alguma coisa lá, uma reciclagem provavelmente e ele perguntou quem queria dançar. Klauss adorava uma lenda, "A cobra grande", mas depois, com o tempo, a gente descobriu que a lenda que o Klauss queria, chamva "Cobra Norato", de Raul Bopp. Foi bastante interessante, que ele, como meu amigo, sabia que eu era da escola de Belas Artes e perguntou se eu dançaria também, já que era a primeira coreografia dele. Olha que lindo!



PG - Então essa foi a primeira coreografia?

AV - Foi a primeira coreografia e é muito interessante falar sobre isso .

PG – Ainda estava dentro do Carlos Leite quando ele fez a primeira coreografia?

AV - Foi a primeira coreografia lá no Carlos Leite, homenagem ao Carlos Leite que estava na Europa e voltaria dentro de X tempo, e aí ele fez a coreografia da “A Cobra Grande”. Tem uma coisa que eu acho importantérrimo de dizer dessa "Cobra Grande". Ele leu bastante a lenda e chamou as pessoas que quisessem trabalhar. Eram três pajés, tinha o Evil, Dotty, tinha Joaquim Ribeiro, tinha Décio Otero, Klauss Vianna, mais uns dois bailarinos lá da turma do Carlos Leite. Os três toparam fazer os pajés e era muito bonito. Na lenda, essa cobra grande aparecia no lago todo ano e escolheria uma noiva. Essa noiva passava por todo um cerimonial, um ritual fantástico entre as índias e o que o Kluass me pede pra fazer o figurino, eu adorava ficar desenhando. E eu fiz tudo de saco de linha, sabe aquele saco que desfia! E bastante coisa colorida.

PG - Lembrando os índios?

AV - Não era muito a coisa do índio cheio de penas, cheio disso, não, eu fazia uns desenhos na roupa bem curtinha, fazia franjas. Toda a parte coreográfica era totalmente, vamos dizer, ou moderno, ou contemporâneo, era fantástico. Ele fez os três pajés em um andar bem alto, onde eles eram bem visíveis, tocando um ritmo bastante interessante, todo ritmado mesmo, forte, e eles tinham três atabaques. Era um início belíssimo. Lá no fundo, em duas diagonais começavam a aparecer as índias. Todas entrando assim... e depois começaram o jogo das brincadeiras, uma com a outra brincando e tal, até começar a desenvolver a coreografia. Ele fez de maneira que uma índia seria escolhida e que todas as outras fariam o cerimonial na frente do público vestindo a noiva.

PG - Muito bonito.

AV - Era lindo. E um dos pajés já estava preparado pra levantar aquela índia e jogá-la na lagoa, sacrificada. Era lindo, uma coisa que me marcou profundamente o trabalho do Klauss, pra aquela época, imagina.

JP – 53.

AV - 53! Ah. (risos) Eu não tinha casado com ele, era só amiga. E como é que ele escolhia aquela índia? Podia ser aquela coisa de escolher logo, logo, logo, mas não olha, naquela época, ele pegava um canhão (de luz) e jogava o canhão no público dentro do teatro. Ele jogava o canhão longe bem longe, e começava a percorrer o teatro inteiro com aquela luz. Ia pra lá, ia pra lá, ia pra lá, ia pra lá, fazia desenhos no espaço. Por isso Klauss tinha que ser mais homenageado como um belo coreógrafo.

PG - E o foco não parava?

AV - Depois de ter passado o teatro todinho ele parava na índia escolhida.

PG - Ah, que bacana.

AV - Antes realmente de fazer a cerimônia, ele escolhia a tal índia naquela brincadeira de uma trepando nas costas da outra, aquele negócio de pular carniça. Ele trouxe muita coisa daquele momento que a gente brincava mesmo, aí era interessante que aquela luz do canhão ficava rodando, rodando, e parava na pessoa. Aquele momento de atenção total, de silêncio, de pausa...

VCB - De suspensão.

AV - De suspensão. Elas tinham medo, mas ficavam felizes ao serem escolhidas, era um negócio fantástico e parecia mesmo que tinha um lago, os pajés vinham e outros que ficavam mais dentro da coxia e pum, e jogavam a índia na lagoa. Dava impressão total de que a índia realmente tinha sido jogada. Aí voltava aquela história, todo mundo outra vez em silêncio, uns caminhando, outros rijos até terminar e esperar o outro ano. Era lindo.

VCB - Engraçado, porque faz lembrar bem a estrutura dramática da Sagração da Primavera né, que é o sacrifício da virgem.

AV - É, exatamente.

VCB - E a doação do individual para o coletivo, porque a sacrificada.

AV - É muito lindo não é? Klauss era muito interessante. Esta história eu nunca contei, nunca falei com ninguém, vou mexendo na minha cabeça, naqueles momentos lá bem fundos e as coisas vêm. Eu ficava encantada com o método que ele trabalhava. E então Carlos Leite chegou e a coreografia foi apresentada. Ele ficou comovidíssimo. Klauss sempre foi braço direito dele, dava aula para os principiantes e Carlos Leite já tinha o Balé em Minas Gerais.
O Ballet Klauss Vianna...

PG - Vocês resolveram montar o Ballet Klauss Vianna já casados?

AV - Casados.

PG - Primeiro vocês montaram a escola? Depois vocês montaram o Balé?

AV – Foi.

PG - Primeiro foi aquela história que você contou da reforma?

AV - Foi, essa foi a primeira coisa, a reforma. Antes foi o casamento, custou, mas saiu (risos). Quatro anos, o meu pai xingando, arrasado. Mas eu não me importava.

PG - Deixa eu só entender, a mãe tinha morrido?

AV - Já.

PG - E o pai era vivo, era médico?

AV – Não, é muito interessante esta historinha. Era o seguinte: quando eu conheci o Klauss, o pai já tinha morrido há muito tempo. Ele era bem mais velho, um puta pai.

Então, o Klauss já não tinha mãe, não, a mãe eu conheci quando ele se formou no CPOE. Ele se formou...



VCB - Com uns 18, 19 anos?

AV - É, antes um pouco, eu fui conhecer a mãe dele e ela era linda, era uma alemã altíssima, mas bonita. Era bonito quando saia o Klauss, o Rui, que é o irmão do Klauss, mais alto do que ele, e ela sempre no meio dos dois. Era muito interessante. Eu era amiga dele, mas ela trabalhava muito.

VCB - E ela fazia o quê Angel?

AV - Ela era estudante de medicina na Alemanha. Meu pai adorava o pai dele, achava fantástico, porque ele fazia diagnósticos sem nada, só com a mão - fazia diagnósticos sérios.

O pai do Klauss casou-se com uma parenta dele antes e tiveram quatro filhas, só mulheres, todas as quatro muito bonitas, principalmente três, que eram muito lindas. Uma delas, tinha assim um cabelo, mais pra claro, mais pra loiro, a Jane, era minha grande amiga. A turma era muito legal. O pai tinha uma casa grande lá em Belo, um quarteirão inteiro, ele fazia sabe como? Ele adorava caçar e tinha muitos cachorros de caça e na casa tinha um consultório. E ele tinha esse jardim com os cachorros, até Klauss menciona nesse livro dele um jardim.



VCB - Bem imenso.

AV - Então. Ele tinha isso e as meninas tinham babá porque a mãe, primeira mulher dele, morreu muito jovem, com 25, 26 anos, uma coisa assim. Nisso ele resolve abrir em Belo um laboratório e trazer da Alemanha o primeiro raio X da cidade. Como ele já tinha se formado em medicina em Salvador, que era a melhor escola de medicina no Brasil, ele resolveu buscar uma estudante de medicina pra ajudá-lo aqui no Brasil com o tal Raio X. Naquele casarão, naquele terrenão, ele tinha então o consultório e tinha também o local que ele preparou pra trazer o Raio X. Ele vai pra Alemanha e pede uma estudante de medicina, quem vem? Vem a mãe, que chamava Erna. É com e, E-R-N-A. A avó, (mãe dela que veio também), era Muta, alemã.

Sei lá como é que escreve em alemão (risos). Eu falava um pouquinho, Rainer também, a primeira língua que ele falou foi alemão, porque a avó ensinou. Ele rezava em alemão, era uma gracinha (risos). Então olha que interessante, ele vai pra Alemanha pra buscar uma pessoa e volta, e olha quem que era, a mãe do Klauss, a estudante de medicina. Ele perguntou se ela viria ajudar pois ela ensinaria alguém aqui e depois poderia voltar. Ela topou, fez isso e chegou aqui no Brasil. Ele era 30 anos mais velho que ela, 30 anos mais velho. Ela veio e montou o raio X e trouxe um avental de chumbo que usava na época.



VCB - Ainda usa.

AV - Ainda? Eu só sei que quando ele veio com a Erna e montou o negócio aí foi lindíssimo. Ela falou pra ele que já ia voltar e ele falou então se ela topava casar com ele, porque ele sentia a dificuldade na Alemanha.

VCB - Ele se apaixonou?

AV - Ele se apaixonou por ela, que era muito interessante, tinha os olhos claros, azuis, lindíssimos, uma mulher alta, bonita, presente, firme.

VCB - Mulherão.

AV – Mulherão. Ele era um homem bonito também.

PG - E quantos filhos eles tiveram no segundo casamento?

AV – Dois. Quando ele perguntou se ela casava com ele, ela falou: com uma condição, de trazer o pai e a mãe. Ela era filha única. Aí veio a avó e o Otto, o marido da avó, avô do Klauss. Aí pronto, casaram e tiveram o Klauss. As quatro irmãs paparicavam o Klauss. A Jane ficava alucinada, porque ninguém tinha irmão, né. Depois teve o segundo filho, dois homens. E elas encantadérrimas com os irmãos...

VCB - Então a avó sempre deu um apoio pro Klauss?

AV - A avó que criou as quatro mulheres e os dois e a mãe trabalhava dentro da casa mesmo.

PG – E como ela morreu?

AV - Ela morreu com 42 anos.

PG - Ah, ela se contaminou!

AV - É, ela se contaminou porque como o chumbo do avental incomodava, ela não usava. As filhas se adaptaram muito com a avó que era muito brava, ensinava alemão e eles aprendiam tudo com a avó e adoravam. É claro que avó é uma figura muito importante, tanto pra mim, quanto para as meninas. Depois então ela (mãe) morre.

VCB - O Klauss não estava em São Paulo quando ela morreu?

AV - Pois é tava, eu ia te contar isso exatamente. Ele dançava comigo coisas extras do Balé de Minas Gerais (de Carlos Leite). Eu ficava com pena porque Klauss queria tanto passar um tempo em São Paulo, mas nunca tinha dinheiro porque já tinha morrido o pai, e a mãe e Klauss que tinham que trabalhar. O irmão (Rui) começou a estudar medicina igual ao pai.

VCB - O Klauss era mais velho?

AV - Um ano, só um ano. Klauss é mais velho do segundo casamento mas tinha as irmãs, as quatro.

VCB - E quando ele veio pra São Paulo?

AV - Eu dançava com ele uma coreografia em que nós dois dávamos porrada um no outro, era o apache (risos). Eu e ele criávamos a coreografia e dançávamos, íamos para Uberaba, Uberlândia, Araguari. Mas com 18 anos, ele resolveu sair do Balé Carlos Leite, e nesta etapa, já sabia que tinha também o Balé do IV Centenário e a Maria Olenewa. É quando ele vem pra São Paulo. Eu arranjei um emprego para ele com um amigo meu que chamava César. Um árabe que era escolado em cassino e ia para São Paulo. Ele falou: - “Olha , eu vou com a cara e com a coragem". Eu falei - "então tudo bem, eu vou dançar com você depois e, em vez de dividir, eu deixo com você o dinheiro todo, pra você ter coragem de ir embora, e eu te ver feliz lá”.

PG - Angel, esse homem sem você não ia ser nada hein?

AV - Olha eu não sei, ele seria sim, que ele era bom demais.

PG - É que você fazia cada coisa...

AV - Mas é, eu sou assim até hoje. Eu invento coisa toda a hora, preciso, faz parte do meu sangue na veia, fico doidona se não fizer. Eu já tô doida pra sair daquele lugar e ir pra um outro novo.

PG - Angel então ele veio pra São Paulo...

AV - É, ele veio pra São Paulo com 18 anos, ficou lá trabalhando nesse cassino, foi fazer aula com Maria Olenewa e ela não cobrava nada. Vocês sabiam disso?

A primeira vez, olha que doideira, coitado, ele foi pra lá morar, fazia peripécias lá no cassino onde era garçom. Imagina Klauss de garçom!



VCB - Com aquela mãozona.

AV - Dizia ele que não tinha dia que ele não tornava café numa comida, na outra... ele ficava com saco cheio de ficar no cassino, mas era onde ele comia muito bem a noite né (risos).

VCB - E vocês não estavam namorando ainda quando ele foi pra São Paulo?

AV - Não, era amigo. aí. A gente se escrevia muito, perguntava, eu falava pra ele como é que ele estava lá no cassino, como que era aquilo e tal. E daí ele me contava tudo e falava que depois ele saia da aula e ia pro cassino , que era onde ele comia e ele morava numa pensão de motorneiro de bonde.

VCB – Ah (risos).

AV - Numa pensão que a gente não podia, naquela época, telefonava muito, mas escrevíamos. Ele me contava tudo, da Olenewa e falava que as vezes até sentia mal, que comia pouco e tinha que pagar aquela pensão e tinha de ir de ônibus pra lá e pra cá. Aí não durou um ano. A mãe com aquele negócio do raio X, ela começou a se sentir mal do pulmão, falta de ar, e não contou para ninguém. Como ela era estudante de medicina e entendia a história, sabia que estava com câncer e ela tomava sabe o que? Muita morfina escondido, principalmente da mãe dela. E ninguém ficou sabendo que ela tinha câncer. O Klauss lá naquele auge da alegria dele, a mãe morre e a avó dependia da mãe, e depois dependia do filho mais velho, Klauss.

PG - Sabe que ano que a mãe dele morreu mais ou menos?

AV - Olha, Mavi deve lembrar.

VCB - Porque se foi no ano do Centenário de 54?

AV - O Ruy sabe, o irmão dele.

VCB - A Joana falou pra mim, Joana Lopes, falou assim que o Klauss teve que voltar pra Belo Horizonte porque a mãe morreu e tava próximo dada audição que ia ter pra o IV Centenário. então deve ter sido isso, em 53.



AV - Ah em 53? Pode ser.

PG - Angel, sabe o que eu queria saber melhor, como foi que vocês começaram a escola ali. A tal reforma na casa da avó, como é que a escola foi crescendo e como é que vocês foram pra Bahia?

AV - A escola cresceu foi em 55, assim que eu caso com o Klauss. Eu contei um casinho pra você também quando o Klauss dava aula pra Verinha, eu me interrompi.

PG – A menina de quatro anos? O quê que ele fazia?

AV - É muito interessante, porque hoje em dia eu não vejo ninguém ter esse cuidado. Verinha tinha uns quatro anos de idade e ia na casa dele pra fazer aula com a mãe que vinha de Jurubati. Tinha dia que ia até mais gente pra ver ela ter aula. Ele fazia um tempo mínimo de aula, cuidava muito do corpo dela, da presença dela, via que ela tinha talento. Ele falava: - "Ah, você precisa ver a Verinha, ela tá cada dia...", e tem um retrato dela lá na escola. Quando Paschoal Carlos Magno fez o encontro em Curitiba (1962), levamos só gente formada por nós e a Verinha no meio. Ele cuidava assim: dava aula pra ela, 15, 20 minutos.


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