Pronunciamento do Deputado Federal Mendes Ribeiro Filho, pmdb/RS, 11 de abril de 2002



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Pronunciamento do Deputado Federal Mendes Ribeiro Filho, PMDB/RS,

11 de abril de 2002

Senhor Presidente, Senhoras e Senhores Deputados,

No próximo dia 11 deste mês de abril, terá passado 30 dias do falecimento na cidade de Camaquã do grande poeta e compositor gaúcho Barbosa Lessa.

Gostaria, Senhor Presidente, de prestar uma homenagem que é de todos os gaúchos a este verdadeiro patrimônio das letras e das tradições de meu Estado, um dos mentores da criação dos Centros de tradição Gaúcha, hoje, um pedaço do Rio Grande do Sul espalhado por todos os rincões deste País.

Nascido em uma chácara pertencente à cidade histórica de Piratini, em

13 de dezembro de 1929, quando criança queria ser peão de estância, mas teve o sonho abortado pelo pai, que lhe exigiu um diploma.

Cumpriu as exigências paternas, e foi além. Ao longo de 50 anos, produziu 61 livros, além de peças de teatro, ensaios, músicas e textos jornalísticos, foi patrono da 46ª Feira do Livro de Porto Alegre, em 2000, e recebeu prêmio da Academia Brasileira de Letras pelo romance Os Guaxos.

A saída da terra natal, Piratini, foi aos 12 anos, depois de aprender, com a mãe, teoria municipal, piano, um pouco de matemática e uma novidade para a época: datilografia. A partir daí, viveu uma espécie de nomadismo, indo estudar em Pelotas para depois viajar para Porto Alegre e ingressar no clássico do Colégio Júlio de Castilhos. Foi no tradicional colégio que, em 1948, junto com Paixão Côrtes e Glaucus Saraiva, foi um dos mentores dos centros de tradição gaúcha, os CTGs.

Ajudou a fundar o 35, primeiro CTG da história do Rio Grande. Lessa ainda participou da criação da Casa de Cultura Mario Quintana.

No retorno, com passagem pelo Diário de Notícias e pela Revista do Globo, foi também secretário estadual da Cultura, quando ajudou a idealizar a Casa de Cultura Mario Quintana. Atuou também como colunista do Jornal Zero Hora, no Caderno Cultura, por muitos anos.

Em Camaquã, na Fazenda Água Grande, no meio do mato, na Serra do Erval, o escritor viveu os últimos dias com a companheira de quase quatro décadas, Nilza Lessa.

Muito obrigado.


Bibiografia
Nasceu em 13 de dezembro de 1929, numa chácara nas imediações da histórica vila de Piratini (capital farroupilha), RS. Devido à dificuldade para cursar uma escola regular, teve de aprender as primeiras letras e quatro operações com sua própria mãe, a qual, ao se improvisar de professora, também lhe ensinou teoria musical, um pouco de piano e, inclusive, uma novidade na época chamada datilografia.

Indo cursar o ginásio na cidade de Pelotas (Ginásio Gonzaga), aos doze anos fundou um jornal escolar ("O Gonzagueano"), em que publicou seus primeiros contos regionais ou de fundo histórico. E também fundou o conjunto musical significativamente denominado "Os Minuanos" (uma das tribos indígenas no velho Rio Grande do Sul), que pretendia se especializar em música regional gaúcha mas que, por inexistência de repertório àquela época, teve de se conformar com o gênero sertanejo e um tanto de música urbana brasileira.

Para cursar o 2o grau colegial, transferiu-se para Porto Alegre, ingressando no Colégio Júlio de Castilhos. Aos dezesseis anos de idade já colaborava para uma das principais revistas brasileiras de cultura ("Província de São Pedro") e obteve seu primeiro emprego como revisor e repórter da "Revista do Globo".

No ano seguinte participou da primeira Ronda Crioula/Semana Farroupilha e, munido de um caderno de aula para coletar assinaturas de eventuais jovens que se interessassem pelo assunto, tomou a iniciativa para a fundação do primeiro Centro de Tradições Gaúchas (CTG), o "35".

Nesta agremiação ele retomou seu interesse pela música regional e, na falta de repertório, foi criando suas primeiras canções, tais como a toada "Negrinho do Pastoreio" - hoje um clássico da música regional gaúcha.

Bacharel pela Faculdade de Direito de Porto Alegre (UFRGS), 1952.

Formando com seu amigo Paixão Côrtes uma abnegada dupla de pesquisadores, de 1950 a 1952, realizou o levantamento de resquícios de danças regionais e produziu a recriação de danças tradicionalistas. Resultado dessa pesquisa da dupla foi o livro didático "Manual de Danças Gaúchas" e o disco long-play (o terceiro LP produzido no Brasil) "Danças Gaúchas", na voz da cantora paulista Inezita Barroso.

Incentivou a realização do Primeiro Congresso Tradicionalista do Rio Grande do Sul, levado a efeito na cidade de Santa Maria, em 1954, quando apresentou e viu aprovada sua tese de base socióloga "O Sentido e o Valor do Tradicionalismo", definidora dos objetivos desse movimentos.

Em 1956 montou um grupo teatral para apresentação de sua comédia musical "Não te assusta, Zacaria!", e saiu divulgando as danças e os costumes gauchescos por todas as regiões do Rio Grande do Sul, colhendo aplausos também nas cidades de Curitiba e São Paulo.

Residiu na capital paulista até 1954, envolvido com produção de rádio, televisão, teatro e cinema, detendo-se finalmente na área de propaganda e relações públicas. Chefe de grupo-de-criação da Jr. Walter Thompson Publicidade e chefe de relações-públicas do Banco Crefisul de Investimentos.

Voltou a Porto Alegre em 1974, já como especialista em Comunicação Social, tendo trabalhado na Mercur Publicidade e Companhia Riograndense de Saneamento, CORSAN. Aposentou-se como jornalista em 1987.

Entrementes, na administração de Amaral de Souza, foi Secretário Estadual da Cultura, tendo então idealizado para Porto Alegre um centro oficial de cultura acadêmica, que veio a pré-inaugurar em março de 1983: a Casa de Cultura Mário Quintana.

Hoje mantém pequena reserva ecológica no município de Camaquã, onde reside com sua esposa Nilza, dedicada à produção artesanal de erva-mate e plantas medicinais. Filhos: Guilherme, analista de sistemas, residente em Porto Alegre e Valéria, casada com norte-americano e residente no estado de New Jersey, USA.

Tem destacado nome na música popular e na literatura. Dentre suas músicas, sempre de cunho gauchesco, destacam-se "Negrinho do Pastoreio", "Quero-Quero", "Balseiros do Rio Uruguai", Levanta, Gaúcho!", "Despedida", bem como as danças tradicionalistas em parceria com Paixão Côrtes.

E numa bibliografia de cerca de cinqüenta títulos, destacam-se os romances "República das Carretas" e "Os Guaxos" (prêmio 1959 da Academia Brasileira de Letras), os contos e crônicas de "Rodeio dos Ventos", o ensaio indigenista "Era de Aré", a tese pioneira "O sentido e o Valor do Tradicionalismo", o ensaio "Nativismo, um fenômeno social gaúcho", "Mão Gaúcha, introdução ao artesanato sul-rio-grandense", o álbum em quadrinhos "O Continente do Rio Grande" (com desenhos de FLávio Colin) e os didáticos "Problemas brasileiros, uma perspectiva histórica"", "Rio Grande do Sul, prazer em conhecê-lo", e "Primeiras Noções de Teatro". Também os dois volumes do Almanaque do Gaúcho.

É Conselheiro Honorário do MTG - Movimento Tradicionalista Brasileiro.




Músicas



nome da música

data

estilo

parceria

Acalanto

1962

canção




Andarengo

1963

samba-canção




O Anu

1956

dança tradicionalista

Paixão Côrtes

Aroeira

1963

chote




Balaio

1956

dança tradicionalista

Paixão Côrtes

Balseiros do Rio Uruguai

1963

chamamé




Bambaquererê

1978

bambaquererê




Cana Verde

1956

dança tradicionalista

Paixão Côrtes

Canção do Tropeiro

1962

toada




Cantiga de Eira

1963

cantiga-de-traalho




Capitão Jagunço

1960

baião

Paulo Dantas

Carreteiro

1957

toada




Chamarra do Calaveira

1983

chamarrita

Heleno Gimenez

Chimarrita

1956

dança tradicionalista

Paixão Côrtes

Chimarrita-Balão

1956

dança tradicionalista

Paixão Côrtes

Chimarrita-Cafuné

1957

chimarrita




Chirimindé

1957

cantiga-de-trabalho (ervateiros)

Paixão Côrtes

Chote Inglês

1970

chote

Paixão Côrtes

Chote-Laranjeira

1956

chote

Paixão Côrtes

Chula

1956

dança tradicionalista

Paixão Côrtes

Curtição da Tradição

1984

suíte popular

Heleno Gimenez

Despedida

1963

toada andante




Dezoito de Junho
(Alma do Rio Grande)

1963

rancheira

José Manzano Filho

Entrevero no Jacá

1963

limpa-banco

Danilo de Castro

Feitiço Índio

1957

missioneira




Generoso

1957

toada




Hino do Octa-campeonato

1974

marcha-rancho e sambão




Kerb no Céu

1974

mazurca




João de Barro

1963

valsa




Jornada da Despedida

1967

cantiga de pastoril




Maçanico

1955

dança tradicionalista

Paixão Côrtes

Me Dá Um Mate

1953

limpa-banco




Meu Cabelo

1956

dança tradicionalista

Paixão Côrtes

Meia-Canha

1956

serrana - polquinha

Paixão Côrtes

Milonga do Bem Querer

1960

milonga




Milonga do Casamento

1957

milonga




Milonga do Moço Novo

-

milonga




Moço, êi Moço

1963

limpa-banco

Paixão Côrtes

Nau Catarineta

1954

trova




Negrinho do Pastoreio

1957

toada




No Bom do Baile

1957

chote




Olhando a Moça

1963

recortado




Passarinho Bem-Querê

1963

polca missioneira




Pezinho

1956

dança tradicionalista

Paixão Côrtes

Pôr-do-sol no Guaíba

1976

marcha-rancho




Quando Sopra o Minuano
Levanta Gaúcho!

1963

rancheira




Quero-Mana

1956

dança tradicionalista

Paixão Côrtes

Quero-Quero

1957

valsa campeira




Rancheira de Carreirinha

1956

dança tradicionalista




Redondo, Sinhá!

1963

limpa-banco

Paixão Côrtes

Rilo

1956

dança tradicionalista

Paixão Côrtes

Saracura

1963

polca missioneira




Salamanca do Jarau

1963

polca missioneira




Seu Bugio

1966

bugio

Paixão Côrtes

tatu

1956

dança tradicionalista

Paixão Côrtes

Terra Morna

1960

toada missioneira




Tiarajú

1963

toada missioneira




Tirana do Lenço

1956

dança tradicionalista

Paixão Côrtes

Trago a Filha na Garupa

1963

toada




Vamos Pastoras Queridas

1967

cantiga de pastoril




Livros


  • As mais belas poesias gauchescas, seleção e notas, Tip. Goldman, Porto Alegre, 1951

  • Esquemas de direito administrativo, apostila, Faculdade de Direito, Porto Alegre, 1953

  • História do Chimarrão, Revista do Arquivo Municipal, São Paulo, 1953

  • O sentido e o valor do tradicionalismo, tese aprovada pelo Primeiro Congresso Tradicionalista do Rio Grande do Sul, Santa Maria, 1954

  • Manual de Danças Gaúchas, co-autoria com Paixão Côrtes, Irmãos Vitale, São Paulo, 1956

  • Primeiras Noções de Teatro, didático, Ed. Francisco Alves, São Paulo, 1957

  • O boi das aspas de ouro, contos, Ed. Globo, Porto Alegre, 1958

  • Os Guaxos, romance, Ed. Francisco Alves, São Paulo, 1959

  • Arquivo de danças brasileiras, plaquete, Ed. Francisco Alves, São Paulo, 1959

  • Cancioneiro do Rio Grande, letra e música, Ed. Seresta, São Paulo, 1962

  • Nova história do Brasil, Ed. Globo, Porto Alegre, 1967

  • O justiceiro da estrada, quadrinhos, distr. Scania-Vabis, 1973

  • O crime é um caso de marketing, policial, Ed. Globo, Porto Alegre, 1975

  • Danças e andanças da tradição gaúcha, co-autoria com Paixão Côrtes, Ed. garatuja, Porto Alegre, 1975

  • Porto Alegre: terra-gente, Epatur, Porto Alegre, 1976

Uma história real, biografia, Grupo Joaquim Oliveira, Porto Alegre, 1977
Mão Gaúcha - introdução ao artesanato sul-rio-grandense, ilustrações de Fernando Jorge Uberti, Fundação Gaúcha do Trabalho, Porto Alegre, 1978
Literatura

Rio Grande de luto

Escritor Barbosa Lessa morre ao 72 anos em Camaquã O escritor Barbosa Lessa, 72 anos, morreu à uma hora desta segunda-feira, no Hospital Nossa Senhora Aparecida, em Camaquã, de câncer no pulmão. O morador do sítio Água Grande, em Camaquã, famoso por sua hospitalidade, descansou de dedilhar sua inseparável Olivetti. Nascido em uma chácara pertencente à cidade histórica de Piratini, em 13 de dezembro de 1929, quando criança queria ser peão de estância, mas teve o sonho abortado pelo pai, que lhe exigiu um diploma. Cumpriu as exigências paternas, e foi além. Ao longo de 50 anos, produziu 61 livros, além de peças de teatro, ensaios, músicas e textos jornalísticos, foi patrono da 46ªFeira do Livro de Porto Alegre, em 2000, e recebeu prêmio da Academia Brasileira de Letras pelo romance Os Guaxos.

A saída da terra natal, Piratini, foi aos 12 anos, depois de aprender, com a mãe, teoria musical, piano, um pouco de matemática e uma novidade para a época: datilografia. A partir daí, viveu uma espécie de nomadismo, indo estudar em Pelotas para depois viajar para Porto Alegre e ingressar no clássico do Colégio Júlio de Castilhos. Foi no tradicional colégio que, em 1948, junto com Paixão Côrtes e Glaucus Saraiva, foi um dos mentores dos centros de tradição gaúcha, os CTGs. Ajudou a fundar o 35, primeiro CTG da história do Rio Grande. Lessa ainda participou da criação da Casa de Cultura Mario Quintana.

Ainda na capital gaúcha, Lessa formou-se em Direito pela UFRGS, em 1954, e depois foi para o centro do país. Lá viveu 20 anos, trabalhando em produção de cinema e TV, até sua volta para o Estado. No retorno, com passagem pelo Diário de Notícias e pela Revista do Globo, foi também secretário estadual da Cultura, quando ajudou a idealizar a Casa de Cultura Mario Quintana. Atuou também como colunista do jornal Zero Hora, no Caderno Cultura, por muitos anos. Em Camaquã, em uma casa pré-fabricada no meio do mato, na Serra do Erval, o escritor viveu os últimos dias com a companheira de quase quatro décadas, Nilza Lessa. O sepultamento foi ontem à tarde, em Camaquã.
Depoimento

A museóloga caxiense Tânia Tonet foi a primeira mulher a assumir a vice-presidência do Movimento Tradicionalista Gaúcho. A seguir, seu depoimento: “O Rio Grande do Sul perde o maior pensador das causas tradicionalistas. Um dos grandes feitos do Lessa foi a tese O Sentido e o Valor do Tradicionalismo, que foi aprovada no 1º Congresso Tradicionalista, em 1954, dando embasamento teórico ao movimento tradicionalista. Lessa era um homem de múltiplos talentos, um intelectual de primeira grandeza, um idealista. Tive a honra de desfrutar da amizade dele e bater longos papos, discutindo sobre os caminhos desse movimento. É uma perda insubstituível


A popular toada do Negrinho

Ao mesmo tempo em que se dedicava à implantação do tradicionalismo, Barbosa Lessa pesquisou a música regional. Ao deparar, também, com a escassez do repertório gauchesco, criou novos títulos. Foi assim que, em 1957, surgiu a popular toada Negrinho do Pastoreio. A canção é baseada na lenda do jovem escravo que, ao perder a tropilha de cavalos do patrão, é agrilhoado a um formigueiro para ser devorado pelos insetos. Ao acender uma vela para a madrinha, Nossa Senhora, ela encontra os animais perdidos. Mas é tarde, o Negrinho está morto, e acaba virando mito. Diz a lenda que, quando se perde alguma coisa, basta acender uma vela e pedir ao Negrinho para que o objeto reapareça.

A narrativa, uma das mais populares do Estado, foi contada por Simões Lopes Neto, Glaucus Saraiva e Jayme Caetano Braun. Teve versões no cinema, e nas artes plásticas, Vasco Prado esculpiu negrinhos. Na visão Lessa, a lenda é contada do ponto de vista de um exilado do campo, situação quase autobiográfica. A música já foi cantada por dezenas de intérpretes. Inezita Barroso, Leopoldo Rassier e Kleiton & Kledir entre eles.
Obras

1951 – As Mais Belas Poesias Gauchescas (seleção e notas)

1953 – História do ChimarrÃo 1954 – O Sentido e o Valor do Tradicionalismo, tese aprovada pelo 1º Congresso Tradicionalista do RS

1956 – Manual de Danças Gaúchas, co-autoria com Paixao Côrtes

1957 – Primeiras Noções de Teatro (didático)

1958 – O Boi das Aspas de Ouro (contos)

1959 – Os Guaxos (romance) 1959 – Arquivo de Danças Brasileiras (plaquete)

1962 – Cancioneiro do Rio Grande (letra e música)

1967 – Nova História do Brasil

1975 – Crime é um Caso de Marketing (policial)

1975 – Danças e Andanças da Tradição Gaúcha

1978 – Mão Gaúcha – Introdução ao Artesanato Sul-Rio-grandense

1978 – Rodeio dos Ventos (contos)

1978 – Rio Grande do Sul Através de Debret (relatório ilustrado)

1978 – Pequena Antologia do Bolicho

1980 – Problemas Brasileiros – Uma Perspectiva Histórica (2 volumes)

1984 – Rio Grande do Sul, Prazer em Conhecê-lo (história)

1985 – Nativismo, um Fenômeno Social Gaúcho

1987 – República das Carretas (romance histórico)

1987 – Continente do Rio Grande (quadrinhos de Flávio Colin)

1997/1998 – Almanaque dos Gaúchos 1, 2 e 3

1999 – Histórias para Sorrir (contos, crônicas e poesias)

1999 – Nheçu2000 – Rio Grande do sul, Prazer em Conhecê-lo (2ªedição)

Capital farroupilha se despede de tradicionalista
O escritor Barbosa Lessa foi sepultado ontem na cidade histórica de Piratini com a presença de autoridades, amigos e parentes

FÁBIO SCHAFFNER - Casa Zero Hora/Pelotas


Ilustre piratinense: cavaleiros pilchados acompanharam o cortejo fúnebre pelas ruas da cidade na manhã de ontem (foto Nauro Júnior/ZH)
O Rio Grande do Sul chorou ontem a morte de um dos mais aguerridos defensores das tradições e do folclore gaúcho.

Aos 72 anos, morreu ontem em Camaquã Luis Carlos Barbosa Lessa, artífice do Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG) e um dos fundadores do CTG 35, o mais antigo centro de tradições gaúchas do Estado.

Barbosa Lessa morreu à 1h, no Hospital Nossa Senhora Aparecida, onde estava internado desde quinta-feira. Autor de obras fundamentais na cultura do Rio Grande do Sul, o escritor e compositor foi sepultado em Piratini, sua terra natal e berço dos ideais farroupilhas que tanto preconizou. O governador Olívio Dutra decretou luto oficial de três dias no Estado, e o prefeito Tarso Genro decretou três dias de luto oficial em Porto Alegre. As prefeituras de Camaquã, onde Barbosa Lessa morou nos últimos 15 anos, e de Piratini também decretaram luto de três dias.

O tradicionalista foi hospitalizado com insuficiência respiratória aguda, causado por um câncer pulmonar contra o qual lutava havia seis anos. Em 1997, ele se submeteu a uma cirurgia no Hospital Moinhos de Vento, na Capital, e o tumor foi retirado.

Porém, segundo o cardiologista Mário Warlet, que o tratava há seis anos, o câncer ressurgiu no ano passado, disseminando-se por outros órgãos. Na sexta-feira, ele entrou em coma irreversível.

A saúde debilitada, no entanto, não o impedia de trabalhar. Na última quarta-feira, um dia antes de ser internado, concluiu a seleção de fotos para sua mais recente obra, Fulano de Tal. No livro, a ser lançado pela Editora Alcance, ele reproduz as correspondências que recebeu dos amigos nos últimos 50 anos.

Ontem pela manhã, o corpo do escritor foi velado no salão nobre da prefeitura de Camaquã. Às 10h, ele foi conduzido a Piratini, onde foi recebido na entrada da cidade por oito cavalarianos com as bandeiras do Brasil, do Rio Grande do Sul, do município, do MTG e do CTG 20 de Setembro. À frente do cortejo, o prefeito Francisco de Assis Luçardo puxava um cavalo com a sela vaga e a bandeira do Piquete Barbosa Lessa, simbolizando a perda do amigo de três décadas.

Desde as primeiras horas da manhã, um carro de som circulava pela cidade anunciando a morte do mais ilustre piratinense. Quando o cortejo alcançou o centro, uma multidão se aglomerava nas calçadas e aplaudia a passagem do corpo. Levado ao salão do CTG 20 de Setembro, foi velado durante toda a tarde, enquanto uma chuva fina cobria o município.

A primeira dama do Estado, Judite Dutra, o secretário estadual da Cultura, Luiz Marques, o ex-governador Amaral de Souza – de quem Barbosa Lessa foi secretário da Cultura –, autoridades tradicionalistas e culturais, músicos, amigos e curiosos se revezaram em torno do caixão, prestando homenagens e amparando a viúva Nilza Lessa.

Num dos momentos de maior emoção, o conselheiro do MTG Ivo Benfatto fez todos repetirem, com o braço estendido na direção do corpo, o lema criado por Barbosa Lessa para o CTG 35: em qualquer chão, sempre gaúcho, pelo Rio Grande e pelo Brasil.

O escritor foi sepultado às 18h, no Cemitério Municipal de Piratini. Instantes antes, um grupo nativista fez uma última homenagem, entoando duas das mais célebres composições de Barbosa Lessa, Quero-Quero e Negrinho do Pastoreio.

Geraldo Huff, presidente da Câmara Rio-grandense do Livro:

Foi maravilhoso ter Barbosa Lessa como patrono da 46ª Feira do Livro. O que mais me impressionou foi a maneira como ele se relacionava com a imprensa e com o público da feira, sempre muito atencioso, cordial e carinhoso.



Luís Carlos Borges, tradicionalista:

Conheci Lessa como compositor desde as primeiras canções de sua autoria, como Quero-Quero e Negrinho do Pastoreio. Durante uma entrevista, ele contou que, desde os 15 anos, já se sentia impelido a compor, por absoluta falta de repertório gaúcho que lhe agradasse.



Paulo Flávio Ledur, ex-presidente da Câmara Rio-grandense do Livro:

Dizem que quem faz muitas coisas acaba não desempenhando bem nenhuma delas. A Lessa essa regra não se aplica. Ele ficou 20 anos fora do Estado e não perdeu o contato com suas origens. Guardo dele a imagem de um homem culto que, por ser culto, era extremamente simples.



Armindo Trevisan, poeta:

Barbosa Lessa foi uma enorme surpresa para mim. De repente, descobri um grande escritor e um grande homem. Grande escritor da melhor estirpe do Simões Lopes Neto. Grande homem de coração generoso, humano. Gente assim só nasce de vez em quando.



Luiz Antônio de Assis Brasil, escritor:

Se o Rio Grande tem uma alma, nela vive, e agora pela eternidade, Barbosa Lessa. Amigo querido, ele sempre me deu razões para acreditar naquilo que nos torna diferentes.



Amaral de Souza, ex-governador do Estado:

Perdi um grande amigo. O Lessa foi tão grande que o Estado jamais vai esquecê-lo.



Judite Dutra, primeira-dama do Estado:

Barbosa deixa um grande capital de sabedoria na cultura, na história e nas lendas gaúchas, coisas que aprendi ainda na infância.



Luiz Marques, secretário de Estado da Cultura:

Barbosa Lessa foi um grande intelectual, um artista que legou a obra que enriquece nosso imaginário.



Celso Souza Soares, presidente da Confederação Brasileira da Tradição Gaúcha:

Mais de 3 milhões de tradicionalistas ficaram órfãos.



Francisco Luçardo, prefeito de Piratini:

Foi uma perda para a municipalidade, para o Estado e o país, sobretudo uma perda prematura.



João Carlos Machado, prefeito de Camaquã:

Perdemos uma pessoa de passado glorioso, em defesa do tradicionalismo, da cultura.



Manoelito Savaris, presidente do Movimento Tradicionalista Gaúcho:

Barbosa Lessa era um ícone. Foi nosso maior teórico, dando a base filosófica do MTG. Não há como substituí-lo.



Rudi Borghetti, ex-patrão do CTG 35:

Barbosa Lessa era o homem de maior expressão, o maior ideólogo do MTG, dotado de uma inteligência invulgar e uma antevisão extraordinária.



Eraci Rocha, presidente do Instituto Gaúcho da Tradição e Folclore:]

Ele era uma das figuras mais importantes da nossa história, responsável por muito do nosso imaginário e pela auto-estima de sermos gaúchos.



Angélica Panatieri, diretora do Museu Histórico Farroupilha de Piratini:

Jamais esquecerei uma história de Barbosa Lessa. Ele disse que, quando era criança, brincava em frente ao busto de Bento Gonçalves em Piratini. Quando ficou sabendo que em Porto Alegre havia uma estátua em tamanho natural do líder farroupilha, não descansou até conhecê-la. Anos depois, foi estudar na Capital e saiu pelas ruas perguntando onde ficava a estátua, mas ficou desapontado, pois ninguém sabia informá-lo. Ao chegar ao local, aos pés de Bento Gonçalves, ele prometeu ao general que um dia todos saberiam quem ele era.


Épico em qualquer cantinho de linguagem

Barbosa Lessa escrevia ficção desde os 10 anos de idade. Seu primeiro livro, Um Assassinato no Texas, 60 páginas datilografadas, começava assim: “Tom Derbey, proveniente de Austin, chegou à cidadezinha de Queler e logo torceu as rédeas do seu cavalo na direção do Joy Saloon”. Conta a lenda da sua iniciação na literatura que o irmão mais velho, Paulo, incentivou-o com um “vai em frente, tchezinho!” e sugeriu que ele substituísse os cowboys norte-americanos por heróis farroupilhas. Paulo guiou a curiosidade do irmão para a leitura de Almanaque do Rio Grande do Sul e para as rodas de causos do domador Donato no galpão.

Nasceu deste respeito à história simultaneamente oral e impressa a obra caudalosa de Barbosa Lessa, cerca de 60 títulos lançados de 1951 a 2000, a maioria de não-ficção. Com o passar dos anos e com a consolidação de sua importância como agitador cultural, o ficcionista do romance Os Guaxos (1951) e da novela policial O Crime é um Caso de Marketing (1975) foi ficando menos importante do que o pesquisador e historiador de livros como Nativismo: um Fenômeno Social Gaúcho, Mão Gaúcha: Introdução ao Artesanato Sul-riograndense e Rio Grande do Sul, Prazer em Conhecê-lo. Ser reconhecido só como folclorista angustiava Lessa, a ponto de ele comemorar, quando foi patrono da 46º Feira do Livro de Porto Alegre, em 2000, que “finalmente” o haviam reconhecido como escritor.

Com o premiado Os Guaxos, os críticos costumam destacar na sua obra os títulos Rodeio dos Ventos (1975) e Era de Aré (1993). Um fascículo que mapeia bastante bem a biografia do escritor de Piratini morto ontem foi lançado pelo Instituto Estadual do Livro (IEL) em 2000. Neste exemplar, o jornalista e mestre em Letras pela PUCRS Leandro Sarmatz assinala que Rodeio dos Ventos e Era de Aré procuram recontar, em chave mítica, o passado latino-americano: “Lessa recolhe aquelas histórias dispersas na memória popular, mesclando-as com leituras históricas e lhes dá uma costura narrativa. (...) O autor reconta a história autóctone, compreendida aqui como núcleo formativo do Rio Grande do Sul, dotando-a de intensidade épica”.

O tom épico, aliás, deliciava Lessa até na hora de escrever sobre colheitas de arroz. Uma de suas biografias romanceadas foi a do herói Garibaldi, lançada com o título Garibaldi Farroupilha. O guri fã de filmes de faroeste introduziu a bela Manuela nas cenas de luta e foi publicando a história como folhetim no jornal Última Hora, em 1965. Também apresentou na forma de história em quadrinhos Chica da Silva, Marília de Dirceu e Jacobina. Lessa tinha esse dom raro de mostrar o épico em qualquer cantinho ou linguagem, num xote e num copo de chifre ornado de prata, em qualquer saloon do Texas. Deixar uma lista de 56 títulos publicados, sem contar as canções e os CTGs, também foi basicamente épico.
Nas livrarias

• Rio Grande do Sul, Prazer em Conhecê-lo (AGE)

• Missões Jesuítico-Guaranis, co-autoria (Editora Unisinos)

• Nheçu (Editora do Brasil)

• O Crime é um Caso de Marketing (Mercado Aberto)

• CD Coleção Palavra, com narração de Paixão Côrtes (Espaço Engenho e Arte)

Sobre Barbosa Lessa

Autores Gaúchos (IEL)


O Velho Lessa

Antônio Augusto Fagundes

Piratini. O rio do peixe que faz barulho. Ali começou tudo. Ali terminou tudo. Ontem, segunda-feira. Ali, 72 anos atrás, nasceu um gurizinho miudinho como aquele seu parente que ficou famoso no conto Deve um Queijo, de Simões Lopes Neto. Os Lessa sempre foram muito respeitados!

O guri recebeu o nome de Luiz Carlos Barbosa Lessa e cedo revelou uma inteligência espantosa: fazia circo em casa, sapateava de pés descalços sobre cacos de vidro, cobrando entrada dos guris da vizinhança para exibir-se como O Homem dos Pés de Aço, batia com um lápis nos dentes, com o dedo tocando até o Hino Nacional, escrevia e desenhava histórias de vaqueiros do Texas, porque tinha verdadeira fascinação por cavaleiros nos seus grandes espaços abertos e eram essas histórias que ele via no cinema. Quando tirava uma melodia no violão ou na gaitinha de boca, era alguma coisa com gosto campeiro.

Um dia, mais crescidito, já morando em Pelotas, o irmão Paulo (que se revelaria uma sumidade no Direito e foi paraninfo da minha turma em 1964) o estimulou a escrever sobre os gaúchos. E a partir daí Barbosa Lessa deixou de lado os cavaleiros mascarados do Texas, os mexicanos bigodudos, os apaches e os índios da pradaria que encantavam seus sonhos. Quis conhecer os escritores que já haviam escrito antes sobre o gaúcho e a história da nossa terra.

Mudou-se para Porto Alegre para ler melhor as grandes bibliotecas. Fez-se amigo de Coelho de Souza, Othelo Rosa, Walter Spalding, Moisés Vellinho, Dante de Laitano e tantos outros, tornando-se íntimo, pelo conhecimento da leitura, de escritores como Pereira Coruja, Caldre e Fião, Apolinário Porto Alegre, Carlos Kozeritz, Roque Callage, Alcides Maya, Ramiro Barcelos e o grande João Simões Lopes Neto. Aos 16 anos, já publicava trabalhos nas revistas do Globo e Província de São Pedro.

Em setembro de 1946, Luiz Carlos Barbosa Lessa já sabia o que queria: estava na Praça da Alfândega com um caderninho na mão. Queria colher assinaturas para a fundação de uma associação tradicionalista. Ali vai encontrar um Piquete de Cavalarianos Gaúchos – oito rapazes vestidos corretamente, comandados por um taura bigodudo, com cheiro de fronteira chamado João Carlos Paixão Côrtes. Ali vai encontrar também o escoteiro graduado, bem conhecido como poeta gauchesco, um pé de vento, um furacão chamado Glaucus Saraiva. Pronto! Estava reunida a santíssima trindade do tradicionalismo.

O que o Rio Grande do Sul deve a esses homens não se paga com dinheiro: de lá para cá, todos sabem o que aconteceu e todos sabem que Lessa foi o leme firme desse grande barco. Paixão Côrtes está aí e estará sempre, porque já é estátua-símbolo de Porto Alegre. Glaucus encilhou o pingo e se foi bochinchar nos galpões do infinito. Lessa, agora, estendeu os arreios e foi sestear.

Piratini. Aqui tudo começou. Mas aqui tudo não termina

Trecho de "Os Guachos"
O João-de-barro é um passarinho de nada.

Como deve ser brabo, para ele, o esforço de levar no bico, por dias a fio, pedacinhos de barro e pedacinhos de capim. Mas não afrouxa o tutano, ajeita daqui, ajeita dali, voa para cá, voa para lá, traz, põe terra, não cansa, voa de novo, empurra com o biquinho os grãozinhos de terra, bate as asinhas doloridas de cansaço, se agiganta, vem a chuva ameaçando por tudo abaixo, ele remenda o que a chuva estragou, recomeça, vem o gavião voando para acabar com a vidade dele, ele foge, quando gavião vai embora ele volta, segue em frente, traz mais barro, chega ao topo, dá os remates finais...

E olha lá, num amanhecer de primavera, o rancho todo construído e ele piando de felicidade ao lado da companheira. E agora podem vir chuvas, que isto não tem mais importância.

E pode vir o gavião de novo, que os filhos estão dormindo com toda a segurança numa caminha de penas. Que lindeza!


Se o joão-de-barro, que é um passarinho flaquito, pode fazer tudo isso com seu biquinho de nada, por que não poderá um homem construir sua felicidade? Basta querer!







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