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XXIV ENCONTRO ANUAL DA ANPOCS

A Radicalidade de Os Parceiros do Rio Bonito: Três (ou Quatro) Aspectos da Obra de Antonio Candido

LUIZ A. CASTRO SANTOS (UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO)


GT 10: PENSAMENTO SOCIAL NO BRASIL


PETRÓPOLIS, OUTUBRO DE 2000.

A Radicalidade de Os Parceiros do Rio Bonito: Três (ou Quatro) Aspectos da Obra de Antonio Candido*
Luiz A. Castro Santos**

Uma técnica [...] quer dizer segurança, domínio do caos, afirmação de um caráter. E este caráter particular de uma obra é que a faz salvar-se do naufrágio do tempo, que determina a sua existência para além da sua época.

Álvaro Lins, Jornal de Crítica, 1944

Este texto tem um objetivo bastante limitado, que é situar a importância de uma única obra -- destacando-a do conjunto da produção de seu autor -- para a ciência social brasileira. Os Parceiros do Rio Bonito (primeira edição de 1964, José Olympio Editora) não provém da lavra de crítica literária de Antonio Candido, mas é, nitidamente, um trabalho de "cientista social". O procedimento de tomar Os Parceiros à parte tem validade discutível. Pois mesmo a produção propriamente literária de A.Candido tem, ou "devera de ter", importância marcante para além do campo literário. Os conceitos de formação, de sistema e de manifestações literárias, para ficar apenas nesses três, ajudam-nos, por exemplo, a entender a distinção entre o pensamento social pré e pós-1930, e tornam um tanto postiça a discussão em que a esse respeito se envolveram Florestan Fernandes e Guerreiro Ramos. Ainda assim, creio que vale a pena tentar, heuristicamente, fazer uma análise "isolada" de Os Parceiros, pelos motivos que procurarei explicitar a seguir.


Mas antes, uma palavra introdutória sobre minha própria experiência ou convívio com a obra, um pouco anterior a minha entrada no Departamento de Sociologia da PUC/Rio, em 1967. Um acaso feliz me aproximara dos estudos de Antonio Candido desde moço, no interior de São Paulo. Quando migrei para o Rio de Janeiro, em 1965, havia lido, ou, francamente, tentado ler, alguns de seus artigos publicados na Revista de Letras da então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis, e no "Suplemento Literário" do jornal O Estado de S. Paulo. Quando ingressei no curso de sociologia, ainda inexperiente, tinha lido Os Parceiros e creio que captara o essencial: havia muito mais naquele livro do que um estudo sobre o caipira paulista. (Superava de longe, diríamos hoje, os limites dos "estudos de comunidade"). Já lera também um ou outro "texto básico" de ciências sociais da Zahar Editores e percebia que estava diante de um texto tão básico ou fundamental como os da famosa coleção, lançada a partir de 1966. Iniciado o curso de sociologia, um ponto me intrigava: nos trabalhos de conclusão de curso em que citava Os Parceiros, nunca obtinha um comentário, nem mesmo desfavorável. Era como se autor e obra fossem produto da imaginação estéril de um aluno. Nos cursos em que aprendíamos (obsessivamente) método, ou naqueles que abordavam os fundamentos de sociologia, mudança social etc., havia algum lugar para Florestan Fernandes ou Costa Pinto, mas a onda estruturalista estourava sobre nossas cabeças e líamos sobretudo Althusser (mais do que Marx!)e os estruturalistas franceses. Só no quarto e último ano minha turma foi apresentada a Gilberto Freyre e Sérgio Buarque.1 A leitura deste autor permitiu a alguns o contato com o (hoje conhecido) Prefácio de Antonio Candido, sobre "O significado de Raízes do Brasil".2 Mas terminamos a graduação, estou certo, sem jamais termos ouvido uma palavra a respeito de Os Parceiros. E no entanto tínhamos na Gávea talvez o melhor curso de sociologia do Brasil, se lembrarmos que o autoritarismo, havia pouco, fizera em pedaços os cursos de ciências sociais da USP e da "Nacional".
Posso agora antecipar meu argumento. Para isso gostaria de lançar mão de um artigo esclarecedor de Antonio Lázaro de Almeida Prado, notadamente da noção de radicalidade ali exposta. O autor atribui a Oswald de Andrade e Mário de Andrade uma radicalidade transformadora da literatura e da cultura brasileiras, aponta os fatores responsáveis por tal posição catalisadora, mas lembra que suas propostas estéticas só foram efetivamente assimiladas pelo "corpo social" décadas depois.3 Aqui permito-me uma analogia. Discutirei mais adiante os significados da radicalidade de Os Parceiros, e quero sugerir que, em que pese o grande número de trabalhos de cientistas sociais que o enaltecem, seu real impacto ainda não se fez sentir no interior da próprio campo. Estamos diante de louvações, de intenções, mas de resultados concretos hesitantes e esparsos sobre o produção das ciências sociais em nossos dias. O impacto reduzido se explicaria, a meu ver, por ser a obra de um crítico literário, visto como um outsider, sem relação com as importações consideradas legítimas, em geral restritas à filosofia (Althusser ontem, hoje Foucault/Deleuze). Outros poderiam sugerir uma segunda razão: o livro foi marcado por um "estigma de origem", que tanto naquele tempo como hoje eqüivaleria a um certificado de óbito: Os Parceiros seria uma obra "funcionalista"... Ora, o próprio A. Candido refere-se, a certa altura do prefácio em que trata das influências intelectuais, à contribuição da abordagem "lúcida, embora simplificadora" do funcionalismo de Malinowski, para "estudar sociologicamente a alimentação humana" (grifos meus). Ou seja, trata-se de uma contribuição que "rende bem", num certo aspecto da vida social das famílias caipiras, mas o faz de modo simplificador. Por outro lado, minha geração aceitava, como as gerações recentes, o emprego da abordagem funcional por Florestan Fernandes, em seus clássicos sobre os Tupinambá.4 Não creio, portanto, ser este um motivo para a difusão tardia, entre as ciências sociais brasileiras, das lições contidas em Os Parceiros.
Não é este o lugar para vaticínios. (Quando, então, se fará sentir o impacto da obra?...). Quero aqui apenas alinhar três ou quatro dimensões fortes do texto, que denotam sua radicalidade íntima, constitutiva. São aspectos que lhe conferem permanência histórica e relevância intercultural -- assim, quem quiser entender as questões agrárias do nordeste e não apenas do "interior paulista", terá sua visão aguçada pela leitura da obra, e terá uma visão retrospectiva que se projeta, heuristicamente, para o futuro.
O primeiro aspecto que lhe dá projeção duradoura resulta de um compromisso ético-político, de denúncia das condições de vida no campo e de crítica ao domínio oligárquico. Tantas obras de valor tiveram objetivo semelhante, mas não parecem ganhar viço com o passar do tempo. Entretanto, a tessitura fina de Os Parceiros permite que o leitor penetre aos poucos na matéria social, até mesmo pelo estudo dos mitos e representações -- haja vista a discussão da "fome psíquica" do caipira -- , para tocar fundo, por fim, nas raízes mesmas de produção da crise agrária, sem que para tal viagem ele seja conduzido por um tom raivoso de denúncia que daria ao texto uma feição particular, datada e localizada. Herbert Baldus captou bem este tipo de construção, de distanciamento parcial em relação ao objeto, ao prefaciar a tese de mestrado de Florestan Fernandes sobre os Tupinambá: "Há pessoas [...] para quem a miséria humana pode ser aliviada pela compreensão das forças que agem na sociedade" (minha ênfase). Candido diz o mesmo com outras palavras, abrindo espaço para a crítica, ao dizer do "tom acadêmico" de sua obra e da posição política "apenas esboçada no fim" (OPRB, p XV).5 Ao nosso ver, são justamente esses elementos de distanciamento que vão, como em um movimento pendular, permitir a leitura política do texto. Ora, para compor um texto neste molde sutil é preciso imenso amadurecimento em relação ao que aprendemos a chamar de "instrumentos de análise". Muito da nossa sociologia de tempos passados fez uso apenas canônico ou litúrgico dos instrumentos de pesquisa e análise, servindo-se deles para descarregar uma denúncia sobre os leitores. Na época atual, as novíssimas gerações publicam copiosamente, pois o próprio cânone permite que se faça ciência social a toque de caixa, "dando-se a voz ao outro", e esquivando-se, propriamente, da construção do objeto. Nem mesmo os interacionistas simbólicos aceitariam legitimar procedimentos que negam validade ao próprio instrumento, em nome (de uma reificação) do "outro". Nesses termos, qual será o impacto de um livro como Os Parceiros, onde as vozes dos caipiras são trabalhadas pela compreensão, e só por esse duro caminho metodológico se transformam em sujeitos da análise e provocam a indignação política?
A segunda dimensão do estudo é sua dimensão estética radical. Refiro-me aqui à contribuição formal, em que se destaca uma leve arquitetura da palavra, a opção clara pela simplicidade, pelo "princípio da economia de dicção".6 Impressiona que, sem abrir mão da utilização rigorosa dos conceitos da antropologia e da sociologia (ou talvez por isso mesmo), Candido jamais submete o leitor a uma carga pesada. Sabe-se que muitas vezes a alusão (ritual) a um conceito substitui sua aplicação concreta, como se vê em um número incontável de textos publicados em ciências sociais, em que os conceitos ficam apenas enunciados, sem de fato interferirem na análise. Mas atente-se: o estilo leve de Os Parceiros, sua "elegância discreta", como diria o poeta, não é trivial, não é fácil. Ao contrário, aqui reside o ponto fundamental de sua escrita, pois é uma simplicidade que se alcança trabalhando-se o texto. Não é uma simplicidade natural ou espontânea. A argumentação passa, portanto, por um filtro exigente, que depura os conceitos de seu peso ou da ganga bruta, para até certo ponto recriá-los ou moldá-los para o uso transparente, os significados se oferecendo sem resistências ao leitor ou à leitora por meio de uma sintaxe burilada, mas singela. Os Parceiros oferecem uma passagem exemplar, na página 10. Candido abre um tópico sobre a obtenção dos meios de subsistência e seu impacto na sociabilidade, frisando dever-se a Marx a compreensão da "solidariedade profunda do mundo físico e da cultura humana", para, em seguida, assinalar que foi Malinowski quem mais tarde mostrou que, "sendo uma das molas da cultura", a satisfação das necessidades "já se situa em pleno terreno institucional". Ou seja, no território das ciências sociais, na interface entre cultura e instituições humanas. Mais adiante, desfaz o emaranhado de um tema difícil, que é o do papel da alimentação nas representações mentais de uma população rústica. Para tanto, retoma, na p. 16, a abordagem da dieta em Malinowski. Foi ele, afirma Candido, "certamente o primeiro a expor sistematicamente a sua importância social e cultural", particularmente nos casos "em que a elaboração de uma dieta é problema cruciante, absorvendo os esforços do grupo e dando lugar a fenômenos de tensão psíquica" (minha ênfase). A partir daí, nos capítulos seguintes, o estudo vai justamente construir a etnografia das populações rurais mais antigas de São Paulo, lançando a trama fina, mas inteiriça, que vai integrar o mundo empírico e os conceitos. Enfatizo os adjetivos "fino" e "inteiriço" para o fio que tece todo o trabalho, pois não se encontrará neste, em momento algum, digressões esparramadas a respeito de um conceito; ou conceito desacompanhado, sem utilização concreta; ou dados brutos citados copiosamente; ou material empírico órfão, à espera de conceituação. Ora, a busca da medida justa, que Os Parceiros realiza com êxito, é tarefa difícil nas ciências sociais. Os muitos livros sobre método que temos à disposição, e que nossos alunos usam por vezes para encontrar receitas que possam eliminar o esforço penoso daquela busca, não podem de fato fazê-lo. Por outro lado, diria mesmo, quanto ao problema particular da forma, que hoje não se deseja o estilo direto e transparente, em grande parte porque nossos modelos filosóficos (à exceção talvez dos pragmatistas, et pour cause!) pautam-se numa dicção hermética. O que não se justifica sob a ótica da ciência social, para a qual o hermetismo é perfeitamente desnecessário. Entretanto, quais são as atuais condições para a formalização superior do estilo e para a maturação de uma argumentação lúcida? Não constituem tarefas fáceis para os cientistas sociais brasileiros. O uso copioso do jargão em nossos textos e as frases de pensamento tortuoso escondem na verdade a dificuldade crescente, que se observa claramente em nossos alunos, de manejar não apenas conceitos que exigem uma poda ou limpeza para serem manejados, mas a própria sintaxe. (Penso aqui nas ciências humanas como um todo, incluindo aí, hélas, a psicanálise).
A menção a outros campos do conhecimento permite-me chegar ao terceiro aspecto, que é talvez a pedra de toque do estudo e de sua brava resistência ao tempo: a contribuição metodológica. Uma metodologia em ato, que pede uma leitura atenta para captar a arquitetura do texto, a íntima articulação das partes e o destino dado, a cada passo, à proposta aparentemente simples das páginas 3 a 6. (Em seção sobre o "Método", breve e incisiva, Candido enuncia os pressupostos da análise). Aqui lanço mão de um ensaio de interpretação que escreveu a respeito de Sérgio Milliet, intitulado "O Ato Crítico".7 Utilizo, portanto, a crítica metodológica de Candido a outro autor, para apreender sua própria metodologia. No texto aludido, como em Os Parceiros, defrontamo-nos com um pressuposto básico: a defesa do ato crítico como um movimento interpretativo aberto e pautado por alguma fluidez, em contraposição à adesão irrestrita a este ou aquele aparato teórico-conceitual. Desde logo, só esta aversão a camisas-de-força no plano dos conceitos explicará em grande medida por que Candido consegue realizar o trespassing de um a outro corpo teórico sempre que seu problema de pesquisa assim exigir. Nisto consiste o fundamento de sua radicalidade metodológica: a obra antecipa, em plena década de 60 -- tempo em que associávamos metodologia à lição doutrinária -- a possibilidade do ato interpretativo migrar legitimamente de um a outro corpo conceitual. Gostaria de frisar que assinalar tal possibilidade não é propô-la como receita. Candido não dá lições, mas revela caminhos possíveis. (Hoje em dia, a abertura de opções facilita o trespassing, mas sabemos que a adoção bem-sucedida de diferentes procedimentos na pesquisa exige destreza e maturidade intelectual). Creio que a riqueza da proposta de Os Parceiros está em resguardar o papel ativo do observador/intérprete, que toma decisões, faz escolhas, preserva sua autonomia em relação ao objeto para mais bem compreendê-lo. No artigo citado sobre Sérgio Milliet, pondera que a intelegibilidade do objeto não exige que se anule a inteligência do sujeito (p. 131, "O ato crítico"). Mas há uma atitude mental de empatia em relação ao outro, atitude criadora que se afasta de um frio e distante sociologismo construtivista, mas ao mesmo tempo desautoriza o sujeito imperial, que atribui ao objeto o caráter ou as características que "gostaria" que tivesse, conforme a ideologia ou as crenças que partilha. Tampouco o intérprete aceita mutilar-se, como sugeri anteriormente. Veja-se a forma pioneira com que emprega a técnica da história oral. No Apêndice temos a transcrição direta de lendas narradas por Nhô Roque Lameu, mas no corpo do texto (pp. 154-159) as falas deste e de outros moradores -- todos analfabetos -- são trabalhadas admiravelmente. Os problemas mais flagrantes da dura vida que as transformações do capitalismo rural lhes impunham são captados através de depoimentos orais, e interpretados à luz da noção de um "saudosismo transfigurador". No passado possuíam pequenas glebas, mas as mudanças econômicas no meio rural os empurravam para a situação de foreiros, meeiros etc. Diante das dificuldades de reação ou adaptação às novas condições, os "parceiros" recorriam a representações compensatórias, em que o mundo antigo aparecia, nos depoimentos, como um tempo de fartura, de solidariedade e de sabedoria. Se parasse ali e acatasse as representações como retrato objetivo de uma época e de um lugar, Candido estaria aceitando o que a historiografia regional e os próprios moradores mais velhos já em parte desmentiam: havia, é certo, elementos que a etnografia permitia corroborar (particularmente quanto às formas de solidariedade grupal, como o mutirão), mas havia também, claramente, manifestações de uma "utopia retrospectiva": "Os caipiras sabem que essa é uma imagem ideal, e na verdade havia mais mortes e violência, a maleita 'abria faia (falha) no povo', ocorriam anos de míngua e fome.[...] No entanto, é a sua maneira de criar uma idade de ouro para o tempo onde funcionavam normalmente as instituições fundamentais da sua cultura" (OPRB, p. 156). A partir daí, a análise vai distinguir mitos de "recuperação" ou "superação", conforme as histórias contadas se pautem na possibilidade de resgatar o passado ou na de aderir ao "mundo estranho do homem da cidade". Focalizo mais de perto esta parte de elaboração conceitual das representações para enfatizar a proposta realmente antecipadora do emprego da técnica de história oral e o modo pelo qual se distancia, na verdade, do seu uso corrente, abundante e um tanto sem-cerimônia, pela ciência social internacional. As propostas de Candido se afastam daquelas que, já na década de 1970 e hoje mais em voga, busca(va)m explicar a práxis dos grupos sociais "por eles mesmos". Tampouco Os Parceiros se inscreve na linha discursiva inquisitorial da década de 60 e da década seguinte, em que as "chaves da sociologia" na verdade fechavam as portas à imaginação criadora e instauravam um discurso hegemônico, calcado na desqualificação e na ocultação de linguagens rivais. A radicalidade do estudo está, portanto, na ausência de "manifestos" metodológicos, tão a gosto da época em que Os Parceiros vieram à lume. E é radical também em relação aos tempos atuais: o estudo tem quadros de referência nítidos e a eles se apega de maneira coerente e sistemática, ainda que a análise possa transferir-se de um referencial teórico a outro. Não se trata de uma defesa de um vale tudo metodológico: o texto de Candido demarca com clareza os limites entre o espírito crítico aberto e a conduta aventureira na pesquisa. Se há uma lição a tirar da "aventura sociológica" ou antropológica de Os Parceiros para novas gerações, é a necessidade de um esforço permanente de formação intelectual. A aventura, aqui, pressupõe um plano de viagem e a preocupação com a técnica de pesquisa, com o cuidado formal, com o cultivo de um espírito crítico e do olhar adestrado. Estamos de volta ao "ato crítico".

Estes são os aspectos talvez mais significativos em minha leitura de Os Parceiros do Rio Bonito. Mas há um quarto ponto que gostaria de enfatizar, e que não procede diretamente da análise do texto. A partir da leitura de um outro ensaio de Antonio Candido,8 julguei que, em um sentido muito preciso, fosse aceitável buscar em seu livro certos traços da conduta acadêmica e da vida intelectual de Antonio Candido. Para tanto, farei breve alusão a outros trabalhos de sua autoria. Mas não poderia fazê-lo se não houvesse -- é esta minha leitura de seu ensaio sobre Sílvio Romero -- a possibilidade de estreitas correlações entre texto e conduta intelectual. O quarto aspecto que quero assinalar é, pois, ainda que indiretamente, produto do texto. A obra Os Parceiros é indicativa de uma certa postura ética do autor diante do mundo acadêmico. Encerra, por assim dizer, uma lição de vida acadêmica. Mais ainda, é possível levantar-se a hipótese de que certos traços da conduta pessoal de um autor têm impacto sobre sua obra. Há portanto uma identidade virtual entre produção intelectual e traços de caráter do autor, entre os quais Candido singulariza a vaidade. Vamos ao que propõe, a respeito do grande crítico sergipano, da mesma geração de Joaquim Nabuco: "Silvio Romero não policiava a sua vaidade nem renunciava ao prazer de falar de si a qualquer propósito. [...] Isso, desde moço. Ainda na casa dos trinta, e com o persistente mau gosto brasileiro nesse campo, já fazia com e sem propósito balanços da própria obra, proclamando as suas inovações, reivindicando o seu lugar na cultura nacional e até procurando comprovar que sabia alemão".9 Essas declarações, pondera Candido, têm um tom invariavelmente provinciano e chegam a atrapalhar a própria tarefa de avaliação da obra de Romero. Mas a hipótese a que me referi é mais explícita em outro estudo de A Educação pela Noite, na passagem em que Minha Formação tem seu "caráter exemplar" (minha ênfase) atenuado pela "personalidade bastante narcísica" de Joaquim Nabuco, "dando exemplo de como o dado pessoal pode se dissolver na vaidade, a mais particularizadora das forças que atuam em nós" (p. 53). Candido interessa-se pelo salto do local ao universal por meio da autobiografia, ou seja, pelas condições em que o "eixo universalizante" pode dar força à expressão pessoal, datada, localizada. Sob este ponto de vista, o melhor livro brasileiro de memórias do século 19 foi, em sua opinião, Minhas recordações, do mineiro Ferreira de Resende, escritas entre 1887 e 1890 e só publicadas em 1944!10 "Depois de Marília de Dirceu, tomemos Minhas recordações como exemplo da capacidade demonstrada por tantos mineiros de, inserindo o eu no mundo, mostrar os aspectos mais universais nas manifestações mais particulares, num avesso da autobiografia estritamente individualista do tipo Nabuco, da qual o interesse [...] consiste em reduzir o geral à contingência do particular" (pp. 53-54, minha ênfase). Ou seja, a força particularizadora da vaidade contamina a feição individual ("filtro de tudo") e impede que a autobiografia possa traduzir-se em "heterobiografia", "história simultânea dos outros e da sociedade" (p. 56). Diria que, no caso dos estudos de ciências sociais, esta contaminação da expressão escrita pela personalidade narcísica pode revelar-se no conjunto da produção intelectual, comprometendo o vigor criativo que determina a permanência da obra "para além da sua época", no dizer de Álvaro Lins. Posso agora retornar a Os Parceiros. Ao redigir o prefácio ao livro, em 1964, Candido poderia perfeitamente arrolar suas publicações e citar o êxito de crítica, "lembrando ao leitor", na maneira (provinciana) dos prefácios de Gilberto Freyre, seu lugar já marcante na cultura brasileira.11 Mas não o fez. Ao contrário, a atenção do autor concentra-se em demonstrar em que medida o trabalho, nascido como tese de doutoramento, poderia ter sido aperfeiçoado, corrigidos certos equívocos, explicitada a posição política, "apenas esboçada no fim". Assinala ainda as influências intelectuais que recebeu durante as fases de pesquisa e de produção do texto. Que outras indicações necessitaria o leitor ou o crítico? Seria importante que soubesse da existência de outros estudos do autor sobre a organização social dos "parceiros", e para isso Candido cita-se uma única vez em todo o livro, ao reproduzir, na Parte Complementar, um pequeno estudo seu sobre a vida familiar do caipira. Esta atitude intelectual sóbria, avessa à autopromoção, relaciona-se ao meu ver com um certo tipo de sociabilidade respeitosa em relação a seus pares e aos leitores, uma postura ética que flui do texto para "dentro da vida", e desta para o próprio texto. Anteriormente revelei o reparo feito por Candido ao provincianismo de Romero. Agora posso indicar como sua atitude crítica se casa com sua ética pessoal de procura de pontos fortes na personalidade do outro e de redução das referências pessoais ao essencial. Romero é recuperado aqui em seu ritmo humanamente contraditório: "a atitude correta é não ir na provocação do seu temperamento polêmico; não querer, por exemplo, reduzi-lo às suas contradições nem proclamar a sua perfeita unidade; e sim procurar entender o seu ritmo de turbilhão. Na verdade a contradição era o seu modo próprio de viver o pensamento" (p. 102, op. cit.).
Retorno ao argumento inicial para modificá-lo em parte. Disse que o livro Os Parceiros encerra uma radicalidade que o tornou, em sua época (como em nossos dias, talvez menos pelo aspecto metodológico), dificilmente assimilável pelas ciências sociais brasileiras. A menção ao quarto aspecto, até certo ponto "fora da obra" e relativo à conduta intelectual do autor -- um traço pessoal de caráter -- coloca um desafio diferente, que poderia ser traduzido em "valor ético de base",12 em atitude diante da atividade acadêmica ou intelectual. Quantos de nós passaremos por este crivo, e por quanto tempo? Estamos diante de uma proposta de um "modo de ser" que dificilmente encontrará guarida, mesmo junto às velhas gerações como a minha, na competição atlética em que se transformou a vida acadêmica, nos trópicos como alhures. Mas algo já brotou e frutificou, sem volta atrás: Candido inspirou um grupo de intelectuais em São Paulo e em outras regiões do país, formados em atmosfera que criou sem autoritarismo, descobrindo e reforçando as qualidades intelectuais de quem dele se aproximava. A sociabilidade e a auto-estima convivem, aqui, de modo a enriquecer a vida intelectual. Daí posso sugerir que não só Os Parceiros do Rio Bonito, mas todos os ensaios referidos, encerram uma radicalidade ética e brotam de uma prática de convivência marcada pela cordialidade e civilidade.



* Texto apresentado no XXIV Encontro Anual da Anpocs, GT Pensamento Social no Brasil. Petrópolis, 23 a 27 de outubro de 2000. Esta é uma primeira reflexão sobre a obra de Antonio Candido, que pretendo retomar em outro estudo. Cito desde já minha dívida com Mariza Peirano, com quem há tantos anos compartilho algumas das idéias aqui expostas.

** Sociólogo, Professor Adjunto da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

1 Por indicação de Bolivar Lamounier, em passagem rápida pelo Departamento de Sociologia da PUC do Rio de Janeiro.

2 Foi nesse Prefácio que Candido pôs em primeiro plano Sérgio Buarque, Gilberto Freyre e Caio Prado Júnior, como demarcadores de novas fronteiras no campo intelectual brasileiro. Há quem diga que teria sido injusto em relação a Oliveira Viana, suposição a meu ver equivocada. Candido emitiu um juízo correto, ao lamentar a marca do preconceito e os excessos doutrinários na obra do intelectual fluminense, ainda que "por tantos aspectos penetrante e antecipadora".

3 Remeto o leitor ao texto de A. L. de Almeida Prado, "No país dos Andrades: Miramar e Macunaíma: radicalidade na arte e na práxis", Revista de Letras, Vol. 17, Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis, 1975: 205-230.

4 Ainda estudante de sociologia, pedi-lhe certa vez que autografasse meu exemplar de Os Parceiros, ocasião em que lhe contei que um colega mais velho -- que conhecia o livro de orelha -- me havia "alertado" sobre seu funcionalismo. Logo em seguida li a dedicatória: "Ao Luiz Antonio, com o abraço funcionalista do Antonio Candido".

5 Utilizo a primeira edição de Os Parceiros do Rio Bonito (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, Coleção Documentos Brasileiros, 1964)

6 Faço uso outra vez das sugestões de Almeida Prado a respeito de Mário e Oswald (Ibid.: 212, 219)

7 Capítulo 8 de A Educação pela Noite & Outros Ensaios. São Paulo, Ática, 1987.

8 Trata-se de seu estudo sobre a obra e a vida pública de Sílvio Romero, reproduzido em A Educação pela Noite & Outros Ensaios com o título "Fora do texto, dentro da vida".

9 "Fora do Texto, Dentro da Vida", op. cit., p. 104.

10 Ferreira de Resende, Minhas recordações. Rio de Janeiro, José Olympio, 1944 (Coleção Documentos Brasileiros, n. 45).

11 A rigor, o mestre de Apipucos sempre procurava ofuscar seus leitores com o brilho estelar conquistado no mundo. Este Freyre provinciano e constrangedor nunca se permitiu desfrutar a tranqüilidade intelectual de quem produziu, de fato, pelo menos duas das maiores obras do pensamento social brasileiro desde 1930: Casa-Grande & Senzala e Nordeste.

12 Na expressão de Davi Arrigucci Jr., empregada em outro contexto. Ver Enigma e Comentário: Ensaios sobre a Literatura e Experiência. S. Paulo: Companhia das Letras, 1987, p. 17.



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