Proposta metodológica para avaliação geotécnica da erodibilidade de



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VII Simpósio Nacional de Controle de Erosão

Goiânia (GO), 03 a 06 de maio de 2001 Pag

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PROPOSTA METODOLÓGICA PARA AVALIAÇÃO GEOTÉCNICA DA ERODIBILIDADE DE SOLOS RESIDUAIS NÃO SATURADOS

BASTOS, C.A.B.1, MILITITSKY, J.2 e GEHLING, W.2 ;1DMC – Fundação Universidade Federal do Rio Grande, bastos@dmc.furg.br, 2PPGEC/EE – Universidade Federal do Rio Grande do Sul


RESUMO

A erodibilidade é uma das propriedades de comportamento dos solos de maior complexidade e tem no meio geotécnico a maior lacuna na quantificação e entendimento dos mecanismos envolvidos. É apresentada uma proposta metodológica para avaliação geotécnica da erodibilidade de solos residuais não saturados, com base num extenso estudo experimental com perfis de solos residuais da Região Metropolitana de Porto Alegre. Os resultados apontam para o emprego, entre outros, do ensaio de Inderbitzen e da Metodologia MCT e para a importante relação entre a erodibilidade e a perda de coesão dos solos com a saturação.


Palavras-Chaves: Erosão Hídrica, Erodibilidade, Solos Residuais, Geotecnia, Metodologia.

ABSTRACT

The erodibility of soils is a complex property. There is a lack of knowledge on the mechanisms involved and means for its quantification. The paper presents a proposal for methodology for geotechnical evaluation of erodibility of unsaturated residual soils. This is based on a extensive experimental study of residual soils profiles of Porto Alegre metropolitan region. The results indicated that the Inderbitzen test and MCT methodology give good indications. There is a good relationship between erodibility and loss of soil cohesion with flooding.


Key-Words: Hydric Ero



  1. INTRODUÇÃO

Embora possa parecer de simples concepção, o fenômeno da erosão hídrica destaca–se pela complexidade dos mecanismos envolvidos. A principal causa da dificuldade no estudo dos processos erosivos é a multiplicidade e a inter-relação de fatores intervenientes no fenômeno. Estes fatores podem ser agrupados em quatro classes: fatores climáticos (chuva, temperatura, radiação solar e vento); fatores topográficos (declividade e o comprimento de rampa); fator vegetação (cobertura vegetal) e fator solo (erodibilidade do solo).

A erodibilidade pode ser definida como a propriedade do solo que retrata a maior ou menor facilidade com que suas partículas são destacadas e transportadas pela ação de um agente erosivo. Constitui uma das propriedades de comportamento dos solos de maior complexidade em função dos grande número de fatores físicos, químicos, biológicos e mecânicos intervenientes.

A ação erosiva acelerada da água sobre os solos urbanos é quase sempre associada à intervenção imprópria do homem no meio físico, resumida em três aspectos condicionantes: a) aumento na energia do fluxo das águas pluviais por alterações na topografia original dos terrenos, como no caso da execução de taludes de corte; b) concentração do fluxo das águas superficiais pela abertura de ruas, por estruturas de drenagem mal projetadas e/ou mal executadas e por redes de galerias pluviais e de esgotos lançados de forma inadequada nos talvegues receptores; c) exposição de solos erodíveis à ação direta do fluxo de águas pluviais.

Na Região Metropolitana de Porto Alegre (RMPA) são constatados graves problemas de erosão hídrica acelerada. Em muitos loteamentos de baixa a média renda, a erosão é considerada o principal problema geotécnico, gerando grandes prejuízos às obras de infraestrutura como pavimentos, sistemas de drenagem e esgotos, redes de água e energia e até mesmo moradias e outras construções existentes. Ao longo de muitas das rodovias e estradas vicinais da região, os processos erosivos têm gerado a degradação e a instabilidade de taludes de corte envolvendo perfis de solos residuais, levando ao comprometimento da infraestrutura das rodovias e estradas, seja pelo avanço dos processos erosivos ou pelo acúmulo de sedimentos gerados. Associados às erosões, os assoreamentos trazem como resultado imediato a redução nas seções transversais dos cursos d’água adjacentes às erosões e, em conseqüência, inundações que atingem as populações ribeirinhas.

Problemas como estes têm conscientizado a comunidade geotécnica da necessidade em identificar o potencial erosivo dos terrenos antes da intervenção, levando em conta as condicionantes envolvidas, em particular, a propriedade erodibilidade dos solos. É de consenso no meio geotécnico que ainda são necessários estudos que consolidem métodos de avaliação da erodibilidade e que permitam sua abordagem segundo propriedades geomecânicas de comportamento tratadas pela Mecânica dos Solos (ISSMFE, 1985; Pastore, 1986 e Vilar e Prandi, 1993). A própria medida experimental da resistência a erosão esbarra em dificuldades práticas, pois envolve esforços de muito pequena magnitude se comparados com a resistência do solo a outras solicitações, além de ser necessário representar complexas condições ambientais. Bastos et al.(2000) apresentam uma revisão sobre os principais estudos geotécnicos até então realizados com o objetivo de caracterizar a erodibilidade dos solos.

Neste artigo é apresentada uma proposta metodológica para a abordagem geotécnica da erodibilidade dos solos. Esta proposta é fundamentada no estudo experimental realizado por Bastos (1999) com perfis de solos residuais não saturados, brevemente descrito a seguir.




  1. ESTUDO EXPERIMENTAL – AVALIAÇÃO DA ERODIBILIDADE

Com base nos problemas geotécnicos associados a erosão hídrica acelerada na RMPA, foram escolhidos quatro perfis de solos residuais como pontos de amostragem:

  • perfil ALG – solo residual de granito, localizado no Loteamento Algarve, município de Alvorada/RS. Área sujeita a intensos processos erosivos por ravinas e boçorocas. Horizontes estudados: B (solo ALGB) e C (solo ALGC);

  • perfil RS-239 – solo residual do Arenito Botucatú (pouco intemperizado) localizado em talude às margens da rodovia RS-239, no município de Campo Bom/RS. Representa o material sujeito a processos erosivos por ravinamento em cortes na região. Horizontes estudados: BC (solo RS239BC) e C (solo RS239C);

  • perfil PT – solo residual do Arenito Botucatú (fortemente intemperizado) em loteamento do município de Novo Hamburgo/RS. Sujeito a processos erosivos por ravinas e boçorocas. Horizontes estudados: B (solo PTB) e C (solo PTC);

  • perfil CD – solo residual de granito localizado na zona sul de Porto Alegre. Representa os processos de erosão por ravinamento, típicos dos solos dos morros graníticos da capital.OOOH Horizontes estudados: B (solo CDB) e C (solo CDC);

A erodibilidade relativa dos solos estudados foi avaliada com base no comportamento frente a erosão no campo. A avaliação levou em conta a magnitude e freqüência dos processos erosivos nas situações onde os solos são sujeitos à ação do fluxo hídrico superficial. O Quadro 1 apresenta a erodibilidade relativa dos solos e a característica dos processos atuantes.

O extenso programa experimental a que foram submetidos os solos amostrados é descrito em detalhe em Bastos (1999). O Quadro 2 resume os ensaios realizados. Pela importância na metodologia proposta, alguns ensaios merecem alguns comentários.

O ensaio de Inderbitzen constitui um dos mais simples ensaios de canal hidráulico. Consiste numa rampa hidráulica onde é estabelecido um fluxo a vazão constante sobre uma amostra indeformada de solo, instalada rente ao fundo. A vazão, a inclinação da rampa e a umidade prévia da amostra são as variáveis controladas. Um maior detalhamento do equipamento e resultados obtidos nesta pesquisa é encontrado em Bastos et al.(1999). Uma importante inovação foi a análise dos resultados dos ensaios por parâmetros hidráulicos, particularmente pela taxa de erodibilidade K, que representa a taxa de aumento da perda de solo no ensaio com o aumento da tensão cisalhante hidráulica aplicada, esta última, estimada em função da declividade da rampa e altura da lâmina d’água.

A avaliação da erodibilidade pela Metodologia MCT, estabelecida por Nogami e Villibor (1979), baseia-se em dois ensaios: o ensaio de infiltrabilidade e o ensaio de erodibilidade específica (ou perda por imersão modificado). O primeiro procura avaliar o potencial de infiltração de água pelo terreno com base na velocidade de ascensão capilar, quantificada pelo coeficiente de sorção (s). Já o segundo, avalia o potencial de desagregação do solo indeformado sob imersão através do parâmetro perda por imersão (pi). Os dois parâmetros definem o critério de erodibilidade pela Metodologia MCT. Detalhes sobre o critério e sua aplicação na pesquisa em questão são apresentados em Bastos et al.(1999).

O ensaio de desagregação constitui um simples ensaio na avaliação qualitativa do potencial a desagregação do solos quando sob gradual imersão. Embora o caráter qualitativo, pela simplicidade, praticidade e estreita relação com os fenômenos associados aos processos naturais, é destacado o potencial do ensaio numa prévia avaliação da erodibilidade dos solos.

Vale também destacar o papel dos ensaios geomecânicos (cisalhamento direto e de colapsividade) na busca de propriedades de comportamento estudadas pela Mecânica dos Solos que se relacionem a erodibilidade. A coesão (em particular sua variação com o umedecimento e inundação) e o potencial de colapso foram os parâmetros pesquisados.


3. AVALIAÇÃO DA ERODIBILIDADE - A FUNDAMENTAÇÃO DA PROPOSTA

A erodibilidade dos solos estudados foi avaliada através da observação do comportamento em campo, indiretamente através de diferentes critérios de erodibilidade estabelecidos na literatura técnica e diretamente por meio dos ensaios de Inderbitzen.

Na avaliação indireta da erodibilidade foram aplicados os seguintes métodos e critérios:


  • Estimativa do fator erodibilidade KUSLE da Equação Universal de Perda de Solo (USLE) – baseado na textura, teor de matéria orgânica, tipo de estrutura e classe de permeabilidade do solo;

  • Critérios na prática de projetos de obras hidráulicas – prática francesa (Hénensal, 19871) e do SCS/USDA (Hanson, 19911);

  • Avaliação da dispersibilidade dos solos – com base no teor de sais dissolvidos no extrato de saturação e no resultado de ensaios de dispersão SCS – parâmetros: % dispersão e Razão de Dispersão (RD) (Middleton, 19301)

  • Avaliação do potencial de desagregação dos solos – pelos ensaios de desagregação;

  • Critérios de erodibilidade estabelecidos pelo LNEC – Santos e Castro (1965)1 baseado na expansibilidade e na textura, Meireles (1967)1 baseado na textura e na plasticidade e Nascimento e Castro (1976)1 baseado na expansibilidade, na textura, na plasticidade e no limite de absorção;

  • Critérios baseados na Metodologia MCT – classificação MCT dos solos, critério de erodibilidade MCT (Nogami e Villibor, 1979) e critério de Vertamatti e Araújo (1990)1 com base na classificação MCT modificado;

  • Critérios propostos por Alcântara (1997) - com base no ensaio de cone de laboratório e estabilidade de agregados.


3.1 Avaliação qualitativa da erodibilidade dos solos estudados

A avaliação qualitativa da erodibilidade dos solos estudados com base nos critérios citados, comparada com o comportamento de campo, permite concluir:



  • A erodibilidade destes solos residuais estudados não está associada a dispersibilidade, tudo indicando que esta característica pode ser estendida a todos os solos tropicais e subtropicais com baixo teor de sais dissolvidos;

  • O potencial de desagregação dos solos em água está intimamente relacionado com a susceptibilidade à erosão dos solos não saturados;

  • Destacada adequação do critério de erodibilidade MCT aos solos estudados.




    1. Análise dos parâmetros físicos e geomecânicos frente à erodibilidade relativa observada em campo e à taxa de erodibilidade medida em laboratório

Nesta etapa, foram reunidos e analisados em conjunto os valores do KUSLE, os parâmetros físicos envolvidos nos critérios citados, os parâmetros geomecânicos e os valores da taxa de erodibilidade K dos ensaios de Inderbitzen.

Dentre os parâmetros físicos: Razão de Dispersão de Middleton (RD); parâmetros pelos critérios do LNEC: expansibilidade LNEC (), % passante nas peneiras #40 e #200, limite de liquidez (wl) e índice de plasticidade (IP); razão entre a perda por imersão modificado e o coeficiente de sorção (pi/s) pela Metodologia MCT; variação de resistência à penetração do cone de laboratório com o umedecimento; valores do diâmetro médio ponderado dos agregados estáveis em água (DMP). Dentre os parâmetros geomecânicos: a coesão na condição não saturada (cnat) , a coesão na condição inundada (cinu) , a variação de coesão (c = cnat - cinu / cinu) e o coeficiente de colapso para mínimo carregamento normal (ic).

Cada um dos parâmetros acima foram relacionados à erodibilidade relativa observada em campo e àquela medida em laboratório pelo ensaio de Inderbitzen. Uma análise estatística por modelos de regressão linear foi realizada, tendo como variável dependente o logaritmo da taxa de erodibilidade K e como variáveis independentes os parâmetros destacados. Testes de significância foram executados, usando para tal a distribuição de Student (teste t).

O teor de finos (% passante na peneira #200) foi a propriedade física que melhor se relacionou estatisticamente à taxa de erodibilidade K e que melhor identificou a erodibilidade relativa de campo. Solos de baixa erodibilidade apresentaram teor de finos > 55%, enquanto os solos com erodibilidade média até alta apresentaram % passante na peneira #200 < 35%. Quanto a plasticidade, foi possível inferir que solos de baixa erodibilidade apresentaram IP > 10%, enquanto solos de alta erodibilidade IP < 5%.

Quanto ao fator KUSLE, o valor limite para KUSLE = 0,20 permitiu separar os solos estudados de média a baixa e baixa erodibilidade dos solos de média até alta erodibilidade.

A Razão de Dispersão também apresentou relação direta com a taxa K. Um limite em RD = 50% permitiu separar os solos mais erodíveis daqueles mais resistentes à erosão;

A razão pi/s do critério de erodibilidade MCT também apresentou relação significativa com o parâmetro K. O limite proposto por Nogami e Villibor (1979): pi/s= 52 foi validado. O termo “não erodível” (pi/s < 52) é associado aos solos de média a baixa e baixa erodibilidade.

Quanto às propriedades propostas por Alcântara (1997) para avaliação da erodibilidade, a variação de resistência à penetração do cone de laboratório (DP) e a estabilidade de agregados (pelo DMP) não apresentaram relação significativa com a taxa K. A variada textura dos solos prejudicou a análise pelo diâmetro dos agregados estáveis em água.

A relação entre parâmetros de resistência ao cisalhamento e erodibilidade permitiu concluir que a variação de coesão (c) apresenta relação estatística significativa com o parâmetro K. Os solos com média a alta e alta erodibilidade apresentaram c > 85%.

O coeficiente de colapso não apresentou relação com o parâmetro K. Embora supunha–se que o processo de desagregação do solo em água estivesse relacionado com os fenômenos de colapso e erosão, a diferença dos esforços envolvidos pode explicar os resultados obtidos.

A análise das propriedades geomecânicas dos solos estudados frente à erodibilidade vem a confirmar uma das principais hipóteses previamente formuladas no início desta pesquisa: a importância da coesão na interpretação da susceptibilidade dos solos à erosão hídrica. A significativa relação entre os parâmetros K e c indica que os solos mais erodíveis apresentam maior redução da coesão com a saturação na condição de fluxo d’água superficial.
4. PROPOSTA DE ABORDAGEM GEOTÉCNICA PARA PREVISÃO DA ERODIBILIDADE DE SOLOS RESIDUAIS NÃO SATURADOS

A análise da erodibilidade dos solos estudados alicerçou uma proposta de abordagem geotécnica ao problema de erosão para solos residuais tropicais e subtropicais não saturados, no que tange a caracterização da susceptibilidade destes solos à erosão hídrica acelerada. Esta proposta, detalhada em Bastos (1999), tem seus principais etapas resumidas a seguir:

1a) Levantamento de dados preliminares - são reunidas informações sobre: características geométricas do problema; caracterização geológica e pedológica dos perfis de solos envolvidos; posição do perfil na geomorfologia local e descrição in situ dos perfis de solos. Estes dados auxiliam na interpretação do comportamento em campo frente à erosão e orientam a avaliação da erodibilidade dos solos envolvidos.

2a) Investigação in situ do comportamento dos solos frente à erosão - são descritos processos erosivos e analisada a susceptibilidade à erosão por fluxo superficial de cada um dos principais horizontes, definindo–se classes de erodibilidade relativa aos materiais. Esta caracterização expedita da erodibilidade relativa dos solos serve de parâmetro inicial de análise. Nesta etapa são definidos os solos a serem investigados experimentalmente.

3a) Avaliação da erodibilidade - avaliação direta por ensaios de Inderbitzen ou avaliação indireta por propriedades relacionadas ao comportamento frente à erosão.

Para a avaliação direta da erodibilidade é proposta a obtenção da taxa de erodibilidade K a partir de ensaios em canais. O ensaio de Inderbitzen é sugerido pela simplicidade e eficiência. O critério proposto, baseado em ensaios na umidade natural, é o seguinte:



  • K < 0,001 g/cm2/min/Pa – solos de baixa erodibilidade

  • 0,001 < K < 0,1 g/cm2/min/Pa – solos de mediana erodibilidade

  • K > 0,1 g/cm2/min/Pa – solos de alta erodibilidade

A avaliação indireta da erodibilidade permite identificar os solos potencialmente erodíveis, isto é, solos que em condições normais são susceptíveis a processos erosivos. Como critério preliminar é proposto a avaliação do potencial à desagregação em água. Solos que desagregam em água são considerados potencialmente erodíveis. Os demais critérios são aplicados a partir de três níveis de informações obtidas de ensaios geotécnicos.

No 1o nível, a erodibilidade é avaliada com base na % passante na peneira #200, no índice de plasticidade, no fator KUSLE e na Razão de Dispersão de Middleton.

São considerados potencialmente erodíveis solos com:


  • % passante na peneira #200 < 55%

  • IP < 10%

  • KUSLE > 0,20

  • RD > 50%

No 2o nível, são empregados dados da classificação MCT e da aplicação do critério de erodibilidade MCT. São considerados potencialmente erodíveis solos classificados como NS’, LA e LA’ e solos que apresentam razão pi/s > 52.

No 3o nível, a erodibilidade é avaliada pela a variação de coesão c, obtida de ensaios de cisalhamento direto (convencionais ou com controle de sucção) na umidade de campo e inundados. São considerados potencialmente erodíveis solos com c > 85%.

As informações complementam–se, permitindo a melhor avaliação da erodibilidade dos solos. A importância relativa dos dados na avaliação da erodibilidade é crescente com o nível da informação. Os conflitos quanto aos resultados da aplicação dos critérios de avaliação indireta devem ser julgados com base na importância relativa das informações existentes.


  1. CONCLUSÕES

Os estudos realizados destacam o potencial da Metodologia MCT e do ensaio de desagregação na avaliação indireta da erodibilidade. Ambas técnicas fundamentam-se na relação entre a susceptibilidade a erosão e a desagregação do solo quando imerso em água.

Na avaliação direta da erodibilidade em laboratório, os ensaios em canais hidráulicos com amostras indeformadas constituem importante ferramenta. O ensaio de Inderbitzen, pela sua simplicidade em equipamento e operação é indicado para fins geotécnicos.

Quanto a proposta apresentada, destaca-se que os critérios quantitativos foram estabelecidos com base nos solos estudados. Logo, são indicados apenas como uma primeira aproximação para a previsão da erodibilidade de solos residuais não saturados. A validação destes critérios deverá ser submetida ao aumento no universo de solos pesquisados.

A avaliação da erodibilidade permite orientar medidas preventivas à erosão hídrica por fluxo superficial. Solos de alta erodibilidade pela avaliação direta e solos considerados potencialmente erodíveis pela avaliação indireta requerem medidas preventivas especiais, com maior investimento em obras de drenagem e emprego de técnicas especiais de proteção superficial. Solos de mediana erodibilidade em ensaios de erosão e solos que não tenham sido classificados como potencialmente erodíveis pelos critérios indiretos têm recomendadas soluções convencionais em drenagem e proteção superficial. Os solos com baixa erodibilidade, comprovada na avaliação direta, dispensam medidas especiais de proteção e podem ser empregados como proteção natural a solos mais erodíveis, salvo em situações especiais de fluxo superficial concentrado.

Esta proposta de abordagem geotécnica sobre a erodibilidade de solos residuais tropicais e subtropicais não saturados permite orientar o engenheiro geotécnico na avaliação do potencial erosivo dos terrenos antes de uma iniciativa de ocupação urbana ou implantação de qualquer obra de engenharia que exponha estes solos naturais. É o passo inicial no direcionamento de medidas preventivas e de soluções que minimizem o impacto da obra de engenharia no meio físico natural no que se refere à erosão hídrica por fluxo superficial.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


ALCÂNTARA, M.A.T. Aspectos geotécnicos da erodibilidade de solos. São Carlos/SP, 1997, 128p. Dissert. Mestrado em Geotecnia, EESC/USP.

BASTOS, C.A.B. Estudo geotécnico sobre a erodibilidade de solos residuais não saturados. Porto Alegre/RS, 1999, 298p. Tese de Doutorado em Engenharia, PPGEC/UFRGS.

BASTOS, C.A.B.; Milititsky, J.; Gehling, W.Y.Y. Emprego do ensaio de Inderbitzen e da Metodologia MCT no estudo da erodibilidade de solos residuais da Grande Porto Alegre. In: Congresso Brasileiro de Geologia de Engenharia, 9., 1999, São Pedro/SP. Anais... São Pedro/SP: ABGE, 1999 (em CD).

BASTOS, C.A.B.; Gehling, W.Y.Y.; Milititsky, J. Avaliação geotécnica da erodibilidade dos solos. In: II Simpósio de Prática de Engenharia Geotécnica da Região Sul. Porto Alegre/RS: ABMS/ABINT/PPGEC-UFRGS, 2000. Cap.4, p.203-211.

ISSMFE. Progress Report (1982–1985) of the comitee on tropical soils: Peculiaridades of geotechnical behaviour of tropical lateritic and saprolitic soils. In: International Conference on Geomechanics in Tropical Lateritic and Saprolitic Soils, 1., 1985, Brasília/DF. Proceedings..., Brasília/DF: ABMS, 1985. p.1–45.

NOGAMI, J.S.; Villibor, D.F. Soil characterization of mapping units for highway purposes in a tropical area. Bulletin of the IAEG, Krefeld, n.19, p.196–199, 1979.

PASTORE, E.L. Contribuição ao tema geotecnia e meio ambiente: erosão. In: Congresso Brasileiro de Mecânica dos Solos e Engenharia de Fundações, 8., 1986, Porto Alegre/RS. Anais... Porto Alegre/RS: ABMS, 1986. p.43–54.

VILAR, O.M.; Prandi, E.C. Erosão dos solos. In: Solos do interior de São Paulo. São Carlos/SP: ABMS / EESC–USP, 1993. Cap.7, p.177–206. sion, Erodibility, Residual Soils, Geotechnique, Methodology.



Quadro 1. Erodibilidade relativa dos solos estudados com base no comportamento em campo.

SOLO

ERODIBILIDADE RELATIVA

CARACTERÍSTICAS DOS SOLOS E PROCESSOS EROSIVOS ATUANTES


ALGB

baixa

Solo laterítico envolvido em sulcamento superficial. Quando preservado, mostra maior resistência ao ravinamento deflagrador das boçorocas.

ALGC

alta

Solo friável extremamente fragilizado pela ação da água e envolvido nos espetaculares processos de erosão hídrica acelerada por boçorocas verificados no Lot. Algarve.

RS339BC

média a baixa

Solo de transição em um perfil de baixo intemperismo do Arenito Botucatú, onde a perda de cimentação herdada da rocha é em parte compensada pelo enriquecimento em argila.

RS239C

média

Solo arenoso fino, onde certa resistência à erosão é determinada pela cimentação herdada do arenito. Susceptíveis a ravinamento e piping.

PTB

baixa

Solo laterítico bastante evoluído, quando preservado resiste aos processos de erosão hídrica acelerada no Lot. Parque do Trabalhador.

PTC

alta

Solo arenoso fino friável, de forte intemperismo do Arenito Botucatú, envolvidos nos ravinamentos e boçorocas no Lot. Parque do Trabalhador.

CDB

média a baixa

Solo subsuperficial de perfil pouco evoluído de origem granítica, envolvido em processos de erosão dos morros de Porto Alegre.

CDC

média a alta

Solo saprolítico arenoso de origem granítica, sujeito a ravinamentos e alguns boçorocamentos verificados em morros de Porto Alegre.

Quadro 2. Síntese dos ensaios realizados, tipos de amostras e objetivos no estudo

ENSAIOS

AMOSTRAS

OBJETIVO

Caracterização geotécnica (granulometria e plasticidade) e mineralógica (difratograma e fluorescência de raios X)

Deformadas

Obter as características texturais, de plasticidade e mineralógica dos solos

Ensaio de Inderbitzen

Indeformadas – anéis ( = 10cm e h = 5cm)

Avaliar em laboratório a resistência a erosão por fluxo superficial. Análise pela taxa de erodibidade K (taxa de aumento da perda de solo com o aumento da tensão cisalhante hidráulica)

Ensaios para classificação MCT dos solos

Deformadas (fração < 2mm)

Classificação MCT dos solos

Ensaios de infiltrabilidade e perda por imersão (Metodologia MCT)

Indeformadas

( = 5cm e h = 5cm) e ( = 5cm e h = 2,5cm), respectivamente



Obtenção dos parâmetros coeficiente de sorção e erodibilidade específica, respectivamente, empregados na avaliação da erodibilidade segundo a Metodologia MCT

Ensaios de desagregação

Indeformadas – anéis ( = 10cm e h = 5cm)

Avaliar qualitativamente a resistência a desagregação do solo frente a imersão em água.

Ensaios para avaliação da dispersibilidade – ensaio sedimentométrico SCS, ensaios químicos com a água intersticial

Deformadas

Avaliar o potencial de dispersibilidade dos solos estudados

Ensaio de cone de laboratório

Indeformadas - anéis ( = 6cm e h = 2cm)

Avaliar a coesão superficial dos solos pela resistência a penetração de um cone padrão

Ensaios de estabilidade de agregados (método de peneiramento múltiplo)

Deformadas – agregados > 2mm

Avaliar a estabilidade dos agregados naturais dos solos frente a ciclos de imersão e emersão.

Ensaios de cisalhamento direto

Indeformadas - anéis ( = 6cm e h = 2cm)

Avaliar a resistência ao cisalhamento dos solos em diferentes condições de umedecimento

Ensaios de colapsividade em oedômetros

Indeformadas - anéis ( = 5cm e h = 2cm)

Avaliar o potencial de colapso estrutural dos solos frente a súbita inundação.



1 Apud Bastos (1999)


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