Ps. Cláudia D'Andretta Ps. Andreza Trigo Ribeiro Ps. Cibele Cintra Souza



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Encontro07.02.2018
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Ps. Cláudia D'Andretta 

Ps. Andreza Trigo Ribeiro 

Ps. Cibele Cintra Souza

 Neurose de transferência é um termo bifronte que Freud introduziu em dois trabalhos perduráveis de 1914. Em "Recuerdo, repetición y elaboración", o define como um conceito técnico, por assinalar uma modalidade especial do desenvolvimento do tratamento psicanalítico e, segundo essa modalidade, a enfermidade originária se transforma em uma nova que se canaliza para o terapeuta e para a terapia. Em "Introdución del narcisismo", ao contrário, neurose de transferência se contrapõe à neurose narcisística e é, portanto, um conceito psicopatológico.

Os dois significados do termo não são discriminados em geral, entre outras razões porque o próprio Freud pensou sempre que as neuroses narcisísticas careciam de capacidade de transferência e ficavam, portanto, fora dos alcances do seu método.

Se procurarmos ser precisos, no entanto, o que Freud afirma em "Recuerdo, repetición y elaboración" é que, com o começo do tratamento, a enfermidade sofre um giro notável que cristaliza no próprio tratamento. Diz Freud em seu ensaio: "Vemos claramente que a enfermidade do analisado não pode cessar com o começo da análise, e que não devemos tratá-la como um fato histórico, mas como potência atual. Pouco a pouco, vamos atraindo à nós cada um dos elementos dessa enfermidade e fazendo-os entrar no campo de ação do tratamento e, enquanto o enfermo os vai vivendo como algo real, nós vamos praticando neles nosso trabalho terapêutico, que consiste, sobre tudo, na referência ao passado." (O.C., 14:143, trad. López-Ballesteros).

Adiantando o mesmo conceito, já em 1905 havia dito no "Epílogo de Dora":

"Durante um tratamento psicanalítico, se interrompe regularmente a produção de sintomas. Porém, a produtividade da neurose não se extingue com ele, mas atua na criação de uma ordem especial de produtos mentais, inconscientes na sua maior parte, ao que podemos dar o nome de transferências" (O.C., 15:106, trad. López-Ballesteros). Dessas citações se desprende claramente, a meu ver, que Freud concebe a neurose de transferência como um efeito especial do início do tratamento psicanalítico em que cessa a produção de novos sintomas e surgem em substituição a eles outros novos que convergem para o analista e seu ambiente.

Quem melhor definiu a neurose de transferência em sua vertente técnica foi Melanie Klien, no Simpósio sobre Análise Infantil de 1927. Destaca neste simpósio, com veemência, que, se extinguirmos o método freudiano de respeitar o setting analítico e respondermos ao material da criança com interpretações, prescindindo de toda a medida pedagógica, a situação analítica se estabelece igual (ou melhor) que no adulto, e a neurose de transferência, que constitui o âmbito natural de nosso trabalho, se desenvolve plenamente. Com certeza, naquele momento, Klein falava de neurose de transferência, porque ainda não sabia que nos anos seguintes, e em boa parte graças ao seu próprio esforço, o fenômeno psicótico em particular e o narcisismo em geral iam se incorporar ao campo operativo do método psicanalítico.

Vale a pena transcrever aqui as afirmações rotundas de Melanie Klein: “Em minha experiência, aparece nas crianças uma plena neurose de transferência, de maneira análoga como surge nos adultos. Quando analiso crianças, observo que seus sintomas mudam, que se acentuam ou diminuem de acordo com a situação analítica. Observo nelas a abreação de afetos em estreita conexão” com o progresso do trabalho em relação a mim. Observo que surge angústia e que as reações da criança são resolvidas no terreno analítico.

Pais que observam seus filhos cuidadosamente com freqüência me contam que se surpreendem ao ver reaparecer hábitos, etc., que haviam desaparecido há muito tempo. Não encontrei crianças que expressem suas reações quando estão em sua casa da mesma maneira que quando estão comigo: em sua maior parte reservam a descarga para a sessão analítica. Certamente, ocorre que às vezes, quando estão emergindo violentamente afetos muito poderosos, algo da perturbação se torna chamativo para os que rodeiam a criança, mas isso só é temporário e tampouco pode ser evitado na análise de adultos." (Obras Completas, t. 2, pp. 148-149).

Assim, pois, os sintomas mudam (diminuem ou aumentam) em relação à situação analítica, os afetos, e em especial a ansiedade, se dirigem ao analista, recrudescem velhos sintomas e hábitos, as reações afetiva tendem a se canalizar para a análise e não fora. A neurose de transferência, enfim, é definida como reconhecimento da presença do analista e do efeito da análise.

Se me permitem uma concisa definição da neurose de transferência, em seu sentido técnico, diria que é correlato psicopatológico da situação analítica. Quero dizer que a situação analítica se estabelece quando aparece a neurose de transferência e, vice-versa, quando a neurose de transferência se demarca da aliança terapêutica, a situação analítica se constitui.

  NEUROSE DE TRANSFERÊNCIA E PARTE SADIA DO EGO

Com isso chegamos a outro ponto de nossa reflexão. Às vezes se sustenta que, para que se constitua a situação analítica (e se ponha em marcha o processo), é necessário que exista, basicamente, como ponto primário, o

fenômeno neurótico, tela na qual se pode enxertar eventualmente situações psicóticas, etc. A neurose de transferência não pode estar ausente: se existisse uma psicose pura, não poderia haver análise: deve existir uma neurose, que de alguma maneira a contenha.

Em "La iniciación del tratamiento", de 1913, Freud observou que a fase de abertura da análise se caracteriza por o paciente estabelecer um vínculo com o médico. E é um grande mérito dos psicólogos de ego haverem desenvolvido uma teoria coerente e sistemática da presença indispensável de uma parte sadia do ego para que o processo analítico possa se desenvolver. Essa linha de investigação, que parte de Freud, de Sterba e de Fenichel, passa por Elizabeth R. Zetzel, Leo Stone, Maxwell Gitelson e Ralph R. Greenson, para não citar mais que os principais. Esses autores pensam que é inerente à neurose como entidade clínica a presença de uma parte sadia do ego, que muitos homologam como área livre de conflito de Hartmann, na qual se assenta

uma aliança terapêutica (Zetzel) ou de trabalho (Greenson). Com outro enfoque teórico, Salomón Resnik prefere falar de transferência infantil, que expressa a capacidade de relação do paciente em um nível lúdico. A criança que habita o adulto - diz Resnik - é fonte essencial de comunicação de todo ser humano.

Há, entretanto, dois critérios de analisabilidade:

1. Só é analisável a pessoa que desenvolve uma neurose de transferência (no

sentido escrito) e

2. É analisável toda pessoa com núcleo são do ego que lhe permita configurar

uma aliança terapêutica.

São duas coisas distintas: que no neurótico seja mais forte e mais nítida a parte sadia do ego não implica que nos outros não exista. Não devemos, pois, confundir neurose de transferência com parte sadia do ego.

Esta é outra razão para explicar porque foi dado tanta ênfase na neurose de transferência e porque não se corrigiu este conceito à luz dos fatos.

  SOBRE A NEUROSE DE CONTRATRANSFERÊNCIA

Pode-se considerar que o correlato de transferência do paciente é sempre uma neurose de contratransferência ou que a contratransferência assume um caráter psicótico, de drogadição, perverso ou psicopático, complementar ao de tranferência. Por razões teóricas e especialmente pelo que me ensina a experiência clínica, apóio a segunda alternativa - e suponho que Racker também o faria. Penso, pois, que é natural que a resposta do analista tenha o mesmo signo que a transferência do analisado.

No exemplo de páginas anteriores, configurou-se uma perversão de contratransferência, que se prolongou um tempo e só pôde ser resolvida quando aceitei interiormente sua realidade psicológica e pude imediatamente interpretar.

Creio que isto é inevitável para chegar a captar plenamente a situação: o analista tem que ficar incluído no conflito e tem, com certeza, que resgatar com a interpretação. O que levou um tempo certamente muito longo para mim, poderia tê-lo feito em um minuto, se na primeira vez que se deu esse jogo de irada provocação polêmica latente eu tivesse notado meu desagrado e um impulso hostil.

Para estudar a fundo esse delicado tema, pode-se recorrer aos conceitos de posição e ocorrência contratransferencial de Racker. Apesar de que a posição contratransferencial implica um maior compromisso do analista, posição e ocorrência não devem ser entendidas como fenômenos diferentes na sua essência. Quanto mais fluída for a resposta contratransferencial, mais fácil será naturalmente para o analista compreendê-la e superá-la.

Também é eficaz para explicar esse tipo de relação o conceito de contra-identificação projetiva de Grinberg. Com esse suporte teórico, temos que concluir que o paciente coloca no analista uma parte sua, que será presumivelmente perversa no perverso ou psicopática no psicopata, etc. e que o analista se responsabiliza por essa projeção inevitavelmente, passivamente.

Otto Kernberg assinala com razão que a reação contratransferencial ocorre como um contínuo em relação à psicopatologia do paciente e vai, assim, desde o pólo neurótico do conflito ao psicótico, de modo que, quanto mais regressivo for o paciente, maior será sua contribuição na relação contratransferencial do analista. E acrescenta que, nos pacientes boderline e em geral nos muito regressivos, o analista tende a experimentar emoções intensas, que têm mais a ver com a transferência violenta e caótica do paciente que com os problemas específicos do passado do analista.

O fetichista de Betty Joseph também provoca fenômenos contratransferenciais em sua exímia analista. A perversão de transferência consistia basicamente em colocar nos outros a excitação e ficar como um fetiche inerte. Diz Miss Joseph em seu trabalho que tinha que prestar muita atenção ao tom de voz e a sua compostura como analista, porque era muito forte a pressão que exercia o paciente para que ela se excitasse interpretando.

Novamente, está claro aqui o momento de perversão contratransferencial e a forma, que, com sua maestria habitual, Betty Joseph o resolve. A forma como ela conceitua, entretanto, poderia ser mais precisa, se tivesse presente o conceito de perversão de contratransferência. O cuidado de Miss Joseph em não mostrar excitação, na realidade já anuncia na contratransferência a interpretação que ela mesma fará pouco depois, que ele coloca excitação nela e a sente excitada. Tal interpretação surge, evidentemente, de um momento de excitação (perversa) que a analista sente e transforma em interpretação. Creio que é sempre lógico e prudente cuidar-se para não incorrer em erro, mas destaco neste ponto que este cuidado já adverte o analista sobre o conflito que deve ser interpretado. Se o analista cede simplesmente a este cuidado, incorre sem querer na perversão via renegação (Verleugnung): sente e renega (ou desmente ao mesmo tempo a excitação - mecanismo tipicamente perverso. No entanto, quando se interpreta, como o faz com dedicação e agudeza Joseph, se sai da perversão e não se necessita na realidade cuidar-se de nada.



Em um trabalho recente, apresentado nas III Jornadas Transadinas Psicanalíticas (out/92), Rapela sustenta, ao contrário, que o fenômeno contratransferencial não depende tanto da forma da transferência, mas da disposição do analista. Inclina-se a pensar que a proposta que eu faço deveria se limitar aos casos em que o compromisso contratransferencial é muito notório e persistente.

 

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