Ps, eu te amo



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PS, Eu te amo

-Cecília Ahern-
Um
HOLLY SEGUROU O SUÉTER AZUL de algodão contra o rosto e o perfume familiar imediatamente a fulminou, uma devastadora tristeza contraindo seu estômago e despedaçando seu coração. Alfinetes e agulhas percorreram a parte posterior do pescoço e um bolo na garganta ameaçou sufocá-la. O pânico assumiu o comando. Salvo o baixo zumbido da geladeira e o ocasional lamento dos canos, a casa achava-se silenciosa. Estava sozinha. A bile subiu-lhe até a garganta e ela correu para o banheiro, onde desmoronou de joelhos diante do vaso sanitário.

Gerry partira e jamais voltaria. Aquela era a realidade. Ela nunca mais correria os dedos por seu cabelo macio, nunca mais partilharia uma piada secreta por sobre a mesa em um jantar comemorativo, nunca mais choraria em seu colo quando chegasse em casa após um dia difícil no trabalho e necessitasse apenas de um abraço; nunca mais dividiriam a cama novamente, nunca mais seria acordada por seus ataques de espirro a cada manhã, nunca mais ririam tanto que o estômago dela doeria, nunca mais brigaria com ele a respeito de quem era a vez de se levantar e apagar a luz do quarto. Tudo o que restava era um conjunto de lembranças e uma imagem de seu rosto que se tornava mais e mais indefinida a cada dia.

O plano dos dois era muito simples. Permanecer juntos pelo resto de suas vidas. Um plano que qualquer um em seu círculo de amigos concordaria que era realizável. Todos os consideravam excelentes amigos, amantes e almas gêmeas destinadas a ficarem juntas. Mas por acaso, um dia o destino havia mesquinhamente mudado de idéia.

O fim chegara cedo demais. Depois de se queixar de uma forte dor de cabeça por alguns dias, Gerry concordara com a sugestão de Holly de procurar o médico. O que foi feito numa quarta-feira de trabalho, num intervalo de almoço. O médico achou que o sintoma devia-se ao estresse ou ao cansaço e declarou que, na pior das hipóteses, ele poderia precisar de óculos. Gerry não havia ficado contente com aquilo. Andara se preocupando com a idéia de usar óculos. Ele não precisava ter se preocupado, já que, como foi descoberto, o problema não eram seus olhos. Era o tumor crescendo dentro de seu cérebro.

Holly deu a descarga no vaso sanitário e, tiritando por causa da friagem do chão revestido de cerâmica, firmou-se sobre os pés com passo vacilante. Ele tinha 30 anos. Não era de forma alguma o homem mais saudável da terra, mas era saudável o bastante para... bem, para levar uma vida normal. Quando estava muito doente, corajosamente dizia brincando que não deveria ter vivido com tanta segurança. Devia ter consumido drogas, bebido mais, viajado mais, saltado de aviões enquanto depilava as pernas... a lista continuava. Mesmo quando ele zombava a respeito, Holly conseguia enxergar o arrependimento em seus olhos. Arrependimento pelas coisas que nunca encontrara tempo para fazer, pelos lugares que nunca vira, e sofrimento pela perda das experiências futuras. Será que ele lamentava a vida que tivera com ela? Holly nunca duvidara de que ele a amava, mas temia que sentisse haver perdido um tempo precioso.

Envelhecer tornou-se algo que ele desejava desesperadamente realizar, em vez de ser apenas uma temida fatalidade. Quão presunçosos ambos haviam sido em jamais considerar o envelhecimento uma realização e um desafio. Ficar mais velhos era algo que queriam tanto evitar...

Holly deslizou de um cômodo a outro enquanto derramava suas grossas e salgadas lágrimas. Seus olhos estavam vermelhos e doloridos e aquela noite parecia não ter fim. Nenhum dos aposentos na casa a confortava. Somente silêncios indesejados à medida que fitava a mobília ao seu redor. Quis que o sofá lhe estendesse os braços, mas até mesmo ele a ignorou.

Gerry não ficaria contente com aquilo, pensou. Respirou fundo, secou os olhos e tentou estimular algum bom senso dentro de si. Não, Gerry não ficaria nada satisfeito.

Exatamente como vinha acontecendo em noites alternadas nas últimas

semanas, Holly caiu num sono intermitente nas primeiras horas da manhã. Todos os dias, dava por si atravessada sobre alguma peça de mobília; naquele dia foi o sofá. Mais uma vez, um telefonema de um amigo preocupado ou um membro da família a acordou. Eles decerto pensavam que tudo que ela fazia era dormir. Onde estavam as ligações enquanto perambulava indiferente pela casa como um zumbi, procurando nos aposentos... o quê? O que esperava encontrar?

— Alô — respondeu com voz fraca. Estava rouca em conseqüência das lágrimas, mas havia muito parara de se preocupar em parecer forte para quem quer fosse. Seu melhor amigo partira e ninguém entendia que maquilagem alguma, ar fresco ou fazer compras iria preencher o vazio em seu coração.

- Oh, desculpe, querida, acordei você? - a voz preocupada da mãe de Holly soou através da linha. Sempre a mesma conversa. Todas as manhãs sua mãe ligava para ver se ela sobrevivera à noite sozinha. Sempre com medo de acordá-la, ainda assim sempre aliviada ao ouvir-lhe a respiração; sentindo-se segura ao saber que a filha havia enfrentado os fantasmas noturnos.

- Não, eu estava somente cochilando, está tudo bem. - Sempre a mesma resposta.

- Seu pai e Declan saíram e eu estava pensando em você, querida. Por que aquela voz suave, simpática, sempre produzia lágrimas nos olhos de Holly? Ela podia imaginar o rosto preocupado da mãe, sobrancelhas franzidas, testa vincada de preocupação. Aquilo a fez lembrar-se do porquê de estarem todos preocupados, quando não deveriam estar. Tudo deveria estar normal. Gerry deveria achar-se ali ao lado dela, girando os olhos na direção do teto, tentando fazê-la rir à medida que sua mãe tagarelava. Tantas vezes Holly tivera de entregar o telefone a Gerry, tomada por um acesso de riso. Então ele começava a conversar, ignorando Holly enquanto ela pulava ao redor da cama, ensaiando as caretas mais bobas e executando as danças mais engraçadas somente para tê-lo de volta. Raras vezes funcionava.

Ela fez ”hummm” e ”ahh” durante a conversa, ouvindo, mas sem escutar uma palavra.

- Está um dia lindo, Holly. Faria um bocado bem a você sair para dar um passeio. Pegue um pouco de ar fresco.

- Hummm, acho que sim. - Lá estava novamente, ar fresco - a suposta solução para todos os seus problemas.

- Talvez eu ligue mais tarde e possamos conversar.

- Não, obrigada, mãe, estou bem.

Silêncio.

- Tudo certo, então... telefone se mudar de idéia. Estou livre o dia todo.

-OK.


Outro silêncio.

- Obrigada, de qualquer forma.

- Certo, então... cuide-se, querida.

- Vou fazer isto. - Holly estava prestes a recolocar o fone no gancho quando ouviu a voz de sua mãe novamente.

- Oh, Holly, quase esqueci. Aquele envelope para você ainda está aqui, sabe, aquele do qual lhe falei. Está sobre a mesa da cozinha. Você pode querer pegá-lo, está aqui há semanas e deve ser importante.

— Duvido. Provavelmente é outro cartão.

- Não, não acho que seja, meu amor. Está endereçado a você e acima do seu nome diz... oh, espere enquanto o pego em cima da mesa... — O fone sendo abaixado, som de saltos de sapato sobre a cerâmica em direção à mesa, cadeira arranhando o chão, passos ficando mais altos, o fone sendo levantado...

— Você ainda está aí?

- Estou.

- Certo, está escrito no alto ”A Lista”. Não tenho certeza do que isto significa, meu amor. Vale a pena dar uma...

Holly deixou cair o fone.
Dois
GERRY, APAGUE A LUZ! - Holly soltou um risinho nervoso enquanto assistia a seu marido se despir diante dela. Ele dançava pelo aposento, fazendo um striptease, desabotoando vagarosamente a camisa branca de algodão com seus dedos longos e finos. Ergueu a sobrancelha esquerda na direção de Holly, deixou a camisa escorregar por sobre os ombros, agarrou-a com a mão direita e girou-a sobre a cabeça. Holly riu nervosamente outra vez.

- Apagar a luz? O quê, e perder tudo isto? - ele abriu um sorriso amplo e atrevido enquanto flexionava os músculos. Não era um homem vaidoso, mas tinha muito do que se envaidecer, pensou Holly. O corpo era forte e perfeitamente definido. As longas pernas eram musculosas, em função das horas passadas na academia. Não era muito alto, mas era alto o bastante para fazer com que Holly se sentisse segura quando ele se colocava protetoramente ao lado de seu corpo mignon. Do que ela mais gostava, quando o abraçava, era que sua cabeça descansava harmoniosamente à altura do queixo dele, onde podia sentir-lhe a respiração soprando de leve os cabelos e fazendo cócegas em sua cabeça.

O coração dela deu um salto quando ele abaixou as cuecas, segurouas com a ponta dos dedos dos pés e atirou-as na direção de Holly, em cuja cabeça aterrissaram.

- Bem, pelo menos está mais escuro aqui embaixo - riu ela. Ele sempre conseguia fazê-la rir. Quando chegava em casa cansada e aborrecida depois do trabalho, ele era sempre simpático e ouvia suas queixas. Raramente brigavam e, quando isso ocorria, era a respeito de bobagens que os faziam rir mais tarde, como quem havia deixado ligada a luz da varanda o dia todo ou quem tinha esquecido de ligar o alarme à noite.

Gerry terminou o striptease e mergulhou na cama. Aninhou-se ao lado da mulher, enfiando os pés congelados sob as pernas dela para se aquecer.

- Aaaagh! Gerry, seus pés parecem pedras de gelo! - Holly sabia que aquela posição significava que ele não tinha a mínima intenção de se mover um milímetro. - Gerry - preveniu a voz de Holly.

- Holly - ele a imitou.

— Você não se esqueceu de nada?

— Não, não que eu me lembre — disse ele num tom atrevido.

- A luz?


- Ah, sim, a luz - murmurou ele sonolento e fingiu roncar alto.

- Gerry!


- Que eu me lembre, tive de sair da cama e fazer isto à noite passada.

- É, mas você estava de pé exatamente ao lado do interruptor um segundo atrás!

- É... exatamente um segundo atrás - repetiu ele sonolento.

Holly suspirou. Detestava ter de sair da cama quando estava acomodada e confortável, pôr o pé no chão de madeira frio e então tatear no escuro de volta à cama. Ela reclamou.

- Não devo fazer isso o tempo todo, Hol. Um dia destes, posso não estar mais aqui e então, o que você vai fazer?

- Vou fazer com que meu marido apague a luz - bufou Holly, fazendo o melhor que podia para chutar os pés gelados dele para longe dos dela.

-Ah!

- Ou simplesmente vou me lembrar e eu mesma fazer isso antes de vir para a cama.



Gerry bufou.

- Poucas chances de acontecer, meu bem. Vou ter de deixar uma mensagem ao lado do interruptor antes de partir para que você se lembre.

- Quanta consideração da sua parte, mas prefiro que você simplesmente me deixe seu dinheiro.

- E um bilhete no aquecedor central - prosseguiu ele.

- Ha-ha.

- E na caixa de leite.

- Você é muito engraçado, Gerry.

— E nas janelas, para que você não as abra e dispare o alarme de manhã.

- Ei, por que você simplesmente não me deixa uma lista, em seu testamento, das coisas que preciso fazer se acha que vou ser tão incompetente sem você?

- Não é má idéia - riu ele.

— Muito bem então, vou apagar a maldita luz. — Holly deixou a cama com raiva, fez uma careta quando pôs o pé no chão gelado e apagou a luz. Estendeu os braços no escuro e vagarosamente começou a procurar o caminho de volta à cama.

- Alô?!!! Holly, você se perdeu? Tem alguém aí fora, fora, fora, fora? gritou Gerry no quarto às escuras.

— Sim, estou uauuuuuuuuu! — uivou ela ao bater com o dedão contra o pé da cama. — Merda, merda, merda, droga, filho da puta, merda, bosta!

Gerry resfolegou e abafou o riso embaixo do cobertor.

- Número dois em minha lista: Tome cuidado com o pé da cama...

- Oh, cale a boca, Gerry, e pare de ser tão mórbido - esbravejou Holly, aninhando nas mãos seu pobre pé.

— Quer que eu dê um beijo para passar? — perguntou ele.

- Não, estou bem - replicou Holly num tom triste. - Se eu pudesse somente colocar os pés aqui para esquentá-los...

- Aaaaah! Jesus Cristo, eles estão gelados!

- Hi-hi-hi - ela havia rido.

E assim a brincadeira a respeito da lista havia surgido. Fora uma idéia tola e simples, logo compartilhada com seus amigos mais chegados, Sharon e John McCarthy. Foi John quem se aproximou de Holly no corredor da escola quando tinham apenas 14 anos e murmurou as famosas palavras: ”Meu amigo quer saber se você vai sair com ele.” Após vários dias de discussões intermináveis e reuniões de emergência com suas amigas, Holly finalmente aceitou.

- Ah, vá em frente, Holly - encorajara Sharon -, ele é tão divertido, e pelo menos não tem sardas no rosto inteiro como John.

Como Holly invejava Sharon nesse momento. Sharon e John haviam se casado no mesmo ano que Holly e Gerry. Holly era a mais nova do grupo, com 23, o restante tinha 24. Uns diziam que ela era muito jovem e davam-lhe lições de moral a respeito de como, na sua idade, deveria estar conhecendo o mundo e se divertindo. Em vez disso, Gerry e Holly viajaram juntos pelo mundo. Isso fazia muito mais sentido porque, bem, quando não estavam juntos, Holly simplesmente tinha a sensação de que um órgão vital de seu corpo estava faltando.

O dia de seu casamento esteve longe de ser o melhor de sua vida. Ela sonhara com um casamento de conto de fadas, como a maioria das garotas, com um vestido de princesa e um dia lindo e ensolarado em um local romântico, cercado por todos que lhe eram chegados e queridos. Imaginou que a recepção seria a melhor noite de sua vida, viu-se dançando com todos os amigos, sendo admirada por todos e sentindo-se especial. A realidade foi completamente diferente.

Acordou na casa dos pais aos gritos de ”Não consigo encontrar minha gravata!” (seu pai) ou ”Meu cabelo está uma merda” (sua mãe), e o melhor de todos: ”Estou parecendo uma maldita baleia! Não vou de jeito nenhum a essa porcaria de casamento assim. Vai ser um escândalo. Mãe, olha para o meu estado! Holly, pode procurar outra dama de honra porque eu não vou. Ei! Jack, me devolva essa merda de sacador de cabelo, ainda não terminei!” (Essas inesquecíveis declarações foram feitas pela irmã mais nova, Ciara, que normalmente sofria explosões de raiva e se recusava a sair de casa, reclamando que não tinha nada para vestir, não obstante seu guarda-roupa abarrotado. Atualmente estava vivendo em algum lugar da Austrália com estranhos, e o único contato que a família tinha com ela era um e-mail a cada poucas semanas.) A família de Holly passou o resto da manhã tentando convencer Ciara que ela era a mulher mais linda do mundo. Enquanto isso, Holly vestia-se em silêncio, sentindo-se um lixo. Ciara afinal concordou em sair de casa quando o normalmente calmo pai de Holly gritou com a voz mais alta que podia, para a surpresa de todos: ”Ciara, este é o maldito dia de Holly, não o seu

E você vai ao casamento e vai se divertir, e quando Holly descer você vai dizer a ela o quanto ela está linda, e não quero ouvir um pio seu pelo resto do dia


Assim, quando Holly desceu, todos fizeram ”ooh” e ”aah” enquanto Ciara, parecendo uma garota de 10 anos que acabara de levar uma palmada no traseiro, olhava para ela chorosa com lábios trêmulos e dizia: ”Você está linda, Holly”. Os sete se espremeram dentro da limusine, Holly, seus pais, seus três irmãos e Ciara, e sentaram-se num silêncio aterrorizados durante todo o trajeto até a igreja.

Agora o dia inteiro lhe parecia um borrão. Ela mal tivera tempo de falar com Gerry, já que ambos eram puxados em direções opostas para conhecer a tia-avó Betty, que vivia num buraco qualquer no fim do mundo, a quem não via desde que nascera, e o tio-avô Toby, da América, que jamais fora mencionado, mas que de repente era um membro muito importante da família.

Tampouco a haviam informado de que seria tão cansativo. No final da noite, as bochechas de Holly estavam doloridas de sorrir para fotografias e seus pés matavam-na, por ter de correr de um lado para o outro o dia todo num pequeno par de sapatos idiotas, que não haviam sido desenhados para caminhadas. Queria desesperadamente juntar-se à ampla mesa onde estavam seus amigos, que uivavam de rir a noite toda, obviamente se divertindo. Melhor para eles, pensou Holly. Mas assim que pôs os pés na suíte de lua-de-mel com Gerry, seus tormentos desapareceram e o significado de tudo aquilo ficou claro.

As lágrimas rolaram mais uma vez pelo rosto de Holly e ela percebeu que estivera sonhando acordada de novo. Sentava-se congelada no sofá, com o telefone ainda fora do gancho ao seu lado. O tempo simplesmente parecia passar por ela aqueles dias, sem que soubesse que horas eram ou mesmo em que dia estava. Parecia estar vivendo fora do corpo, adormecida para tudo que não fosse a dor em seu coração, em seus ossos, em sua cabeça. Sentia-se apenas tão cansada... Seu estômago resmungou e ela deu-se conta de que não conseguia se lembrar da última vez que havia comido. Teria sido no dia anterior?

Arrastou os pés até a cozinha vestindo o roupão de Gerry e seus chinelos cor-de-rosa favoritos, de Diva das Discotecas, que Gerry havia comprado no Natal anterior. Ela era sua diva das discotecas, ele costumava dizer. Sempre a primeira na pista de dança, sempre a última a sair da boate. Huh, onde estava aquela garota agora? Abriu o refrigerador e fitou as prateleiras vazias. Somente vegetais e iogurte com a data de validade havia muito vencida, deixando um cheiro horrível na geladeira. Não havia nada para comer. Deu um sorriso cansado enquanto sacudia a caixa de leite. Vazia. Terceiro item na lista...

No Natal dois anos antes, Holly fora às compras com Sharon atrás de um vestido para o baile anual que freqüentavam no Hotel Burlington. Fazer compras com Sharon era sempre perigoso, e John e Gerry haviam brincado a respeito de como, mais uma vez, ficariam sem presentes no Natal, em função da Jornada de compras das mulheres. Eles não estavam errados. Pobres maridos negligenciados, era assim que as mulheres sempre os chamavam.

Naquele Natal, Holly gastara uma escandalosa quantia no Brown Thomas, no mais lindo vestido branco que já vira.

— Merda, Sharon, isto vai fazer um rombo enorme no meu bolso — disse Holly culpada, mordendo o lábio e correndo os dedos sobre o tecido suave.

- Ah, não se preocupe, Gerry pode costurá-lo para você - replicou Sharon, ao que se seguiu a sua infame gargalhada. - E, por sinal, pare de me chamar de ”merda Sharon”. Sempre que fazemos compras você se dirige a mim dessa forma. Se não tomar cuidado, posso começar a me ofender. Compre esse maldito troço, Holly. Afinal de contas, é Natal, época de presentes e tudo mais.

- Meu Deus, você é tão diabólica, Sharon. Nunca mais venho às compras com você. Isto é a metade do meu salário. O que vou fazer durante o resto do mês?

- Holly, você prefere comer ou ficar maravilhosa? - Ainda valia a pena pensar a respeito?

- Vou levar - disse Holly excitada à vendedora.

O vestido era decotado, o que deixava perfeitamente à mostra o colo miúdo e bonito de Holly, e aberto na coxa, revelando suas pernas alongadas. Gerry não conseguira tirar os olhos dela. Mas não por estar tão linda. Ele simplesmente não conseguia entender por que, em nome de Deus, aquela pequena tira de tecido havia custado tanto. Uma vez no baile, a diva das discotecas excedeu-se nas bebidas alcoólicas e conseguiu destruir o vestido, derramando vinho tinto na parte da frente. Holly tentou, mas não conseguiu conter as lágrimas, enquanto os homens informavam bêbados, a suas parceiras, que o número 54 da lista prevenia contra beber vinho tinto usando um vestido branco caro. Então ficou decidido que leite era a bebida favorita, já que não seria visível se fosse derramado em vestidos brancos caros.

Mais tarde, quando Gerry derrubou seu drinque, fazendo-o escorrer sobre o colo de Holly, ela anunciou à mesa (e a algumas das mesas próximas), chorosa mas séria:

- Regra 55 da lista: nunnca, jamaiss compre um vestido branco caro. Assim ficou combinado, e Sharon acordou de seu coma em algum lugar embaixo da mesa para aplaudir e oferecer apoio moral. Fizeram um brinde (depois que o atônito garçom havia entregado a bandeja repleta de copos de leite) a Holly e a sua séria adesão à lista.

- Sinto muito pelo vestido branco caro, Holly - soluçara John antes de disputar um táxi, rebocando Sharon com ele na direção de casa.

Seria possível que Gerry tivesse mantido a palavra e escrito uma lista antes de morrer? Ela passara todos os minutos de cada dia com ele até sua morte, e ele nunca a havia mencionado, nem ela notara qualquer indício de que ele a estivesse escrevendo. Não, Holly, fique calma e não seja estúpida. Queria tão desesperadamente que ele voltasse, que estava imaginando todo tipo de coisas malucas. Ele não faria isso. Ou faria?
Três
HOLLY ATRAVESSAVA um campo repleto de lírios; o vento soprava gentilmente e as pétalas sedosas faziam cócegas na ponta de seus dedos à medida que ela avançava através dos longos emaranhados de vegetação verde brilhante. O solo produzia uma sensação macia e instável sob seus pés descalços, e seu corpo estava tão leve que ela parecia quase flutuar logo acima da superfície de terra porosa. Ao seu redor, pássaros assoviavam sua alegre canção enquanto cuidavam de seus afazeres. O sol erguia-se tão brilhante no céu sem nuvens, que tinha de proteger os olhos, e a cada vez que o vento roçava seu rosto, o doce perfume dos lírios preenchia-lhe as narinas. Sentia-se tão... feliz, tão livre. Um sentimento estranho naqueles dias.

De repente o céu escureceu, à medida que seu sol caribenho desaparecia atrás de uma gigantesca nuvem cinzenta. O vento recrudesceu e o ar resfriou-se. Ao redor, as pétalas de seus lírios corriam desordenadamente pelo ar, nublando-lhe a visão. O solo, antes macio, fora substituído por pequenas pedras afiadas, que cortavam e arranhavam seus pés a cada passo. Os pássaros haviam parado de cantar e em vez disso empoleiravam-se em seus galhos e observavam. Algo estava errado e ela sentiu medo. Ao longe, à sua frente, uma pedra cinzenta era visível em meio à alta vegetação. Desejou voltar correndo para suas lindas flores, mas precisava descobrir o que havia adiante.

Quando deslizou mais para perto, ouviu Bang! Bang! Bang! Apressou o passo e correu por sobre as pedras afiadas e por entre a vegetação de bordas cortantes, que golpeavam seus braços e pernas. Caiu de joelhos diante da placa acinzentada e soltou um grito de dor quando percebeu do que se tratava. O túmulo de Gerry. Bang! Bang! Bang! Ele estava tentando sair! Estava chamando seu nome; ela podia ouvi-lo!

Holly saltou para fora do sono com uma forte batida na porta.

- Holly! Holly! Sei que você está aí! Por favor me deixe entrar! Bang! Bang! Bang! Confusa e semi-adormecida, percorreu o caminho até a porta para deparar com uma Sharon frenética.

- Cristo! O que estava fazendo? Estou batendo na porta há séculos! Holly olhou ao redor, ainda não completamente desperta. Estava claro e levemente fresco, devia ser de manhã.

- Bem, não vai me deixar entrar?

- Sim, Sharon, desculpe, eu estava só cochilando no sofá.

- Deus, você está com um aspecto terrível, Hol. - Sharon estudou seu rosto antes de lhe dar um grande abraço.

- Uau, obrigada. - Holly girou os olhos e virou-se para fechar a porta. Sharon nunca era evasiva, mas por isso gostava tanto dela, por sua honestidade. Também por esse motivo Holly não estivera disponível para Sharon no mês anterior. Não queria ouvir a verdade. Não queria ouvir que tinha de dar seguimento à própria vida; simplesmente queria... oh, não sabia o que queria. Estava feliz com sua infelicidade. De alguma forma aquilo parecia certo.

- Meu Deus, está tão abafado aqui, quando foi a última vez que você abriu uma janela? - Sharon circulou pela casa abrindo janelas e recolhendo xícaras e pratos vazios. Levou-os para a cozinha, onde os colocou na máquina de lavar louças e então procedeu à limpeza.

— Oh, você não tem de fazer isso Sharon — protestou Holly com voz fraca. - Eu faço...

- Quando? No ano que vem? Não quero você vivendo num cortiço enquanto o resto de nós finge não notar. Por que não vai lá para cima e toma uma chuveirada e, quando descer, tomamos uma xícara de chá?

Uma chuveirada. Quando fora a última vez que até mesmo se lavara? Sharon estava certa, devia estar repugnante com seu cabelo engordurado, unhas escuras e roupão sujo. O roupão de Gerry. Mas aquilo era algo que ela não planejava lavar nunca. Queria que ficasse exatamente como Gerry o havia deixado. Infelizmente, seu perfume começava a desaparecer, substituído pelo inconfundível mau cheiro da própria pele.

— Oh, mas não tenho leite. Não tenho saído para... — Holly sentiu-se envergonhada por sua falta de cuidado com a casa e consigo mesma. Não permitiria, de maneira nenhuma, que Sharon olhasse dentro da geladeira, ou Sharon definitivamente a internaria.

- Tchã-tchã - fez Sharon, erguendo uma sacola que Holly ainda não havia percebido que ela trouxera. - Não se preocupe. Cuidei disso. Ao que tudo indica, você não come há semanas.

- Obrigada, Sharon. - Um bolo formou-se na garganta de Holly e lágrimas lhe subiram aos olhos. A amiga estava sendo tão boa para ela.

- Pare com isso! Nada de lágrimas hoje! Só diversão, riso e alegria geral, minha cara amiga. Agora, chuveiro, rápido!

Holly sentia-se quase humana quando voltou ao andar de baixo. Vestia um training azul e deixara seus cabelos compridos e louros (e castanho nas raízes) caírem sobre os ombros. Todas as janelas do andar inferior estavam completamente abertas e a brisa fresca varreu a cabeça de Holly. Foi como se removesse todos os seus maus pensamentos e medos. Holly riu diante da possibilidade de sua mãe estar certa afinal. Precipitou-se para fora de seu transe e respirou fundo, à medida que olhava ao redor. Não podia ter demorado mais de meia hora, mas Sharon havia arrumado e esfregado, passado o aspirador de pó e ajeitado, lavado e borrifado purificador de ar em todos os cômodos. Seguiu o ruído na cozinha, onde Sharon esfregava os acendedores do fogão. As bancadas estavam resplandecentes; as torneiras prateadas e o escoadouro na pia cintilavam.

- Sharon, você é um perfeito anjo! Não posso acreditar que tenha feito tudo isto! E em tão pouco tempo!

- Ah! Você sumiu por mais de uma hora. Eu estava começando a pensar que tinha caído no ralo. O que poderia ter acontecido, dada a magreza em que está. — Ela examinou Holly de cima a baixo.

Uma hora? Mais uma vez os devaneios haviam assumido o comando da mente de Holly.

- Comprei alguns legumes e frutas, coloquei o queijo e os iogurtes ali e leite, claro. Não sei onde você guarda massa e enlatados, então simplesmente os pus lá. Oh, e guardei algumas refeições para microondas no freezer. Isto deve resolver por algum tempo mas, por sua aparência, vai durar o ano todo. Quanto peso você perdeu?

Holly olhou para baixo, na direção do próprio corpo; seu training estava folgado no traseiro e o cadarço da cintura achava-se puxado ao máximo; ainda assim, o traje lhe caía sobre os quadris. Ela não notara a perda de peso. Foi trazida de volta à realidade mais uma vez pela voz de Sharon.

- Coloquei alguns biscoitos ali para acompanhar o seu chá. Jammy Dodgers, seus favoritos.

Aquilo era demais para Holly. Os Jammy Dodgers foram a gota d’água. Sentiu as lágrimas começarem a escorrer por seu rosto.

- Oh, Sharon - choramingou ela -, muito obrigada. Você tem sido tão boa comigo e tenho sido uma megera horrível como amiga. — Sentou-se à mesa e agarrou as mãos de Sharon. — Não sei o que faria sem você.

Sharon acomodou-se diante dela em silêncio, permitindo-lhe continuar. Era isso o que Holly vinha temendo, começar a chorar na frente das pessoas em todas as ocasiões possíveis. Mas não se sentiu envergonhada. Sharon simplesmente bebericava com paciência seu chá e segurava-lhe a mão como se aquilo fosse normal. Por fim, as lágrimas pararam de cair.

- Obrigada.

- Sou sua melhor amiga, Hol. Se não a ajudar, quem vai fazer isto? disse Sharon, apertando-lhe a mão e lançando um sorriso encorajador.

- Acho que eu deveria estar ajudando a mim mesma.

- Pah! - Sharon deu-lhe um tapinha, sacudindo a mão em sinal de pouco caso. — Quando você estiver pronta. Não leve em consideração todas essas pessoas que dizem que você deveria voltar ao normal em um ou dois meses. De qualquer jeito, sofrer faz parte de ajudar a si mesma.

Ela sempre dizia as coisas certas.

- Bem, de qualquer modo tenho feito um bocado disto. Já cansei de me lamentar.

— Não é possível! — disse Sharon, fingindo repugnância. — E só dois meses depois que seu marido está frio na sepultura.

- Oh, pare! As pessoas vão dizer estas coisas o tempo todo, não?

- Provavelmente, mas danem-se elas. Há crimes piores no mundo do que aprender a ser feliz outra vez.

- Acho que sim.

- Prometa que vai comer.

— Prometo.

- Obrigada por ter aparecido, Sharon, realmente adorei a conversa. - disse Holly abraçando com gratidão a amiga, que tirara o dia de folga no trabalho para estar com ela. - Já me sinto muito melhor.

- Você sabe que é bom estar com pessoas, Hol. Os amigos e a família podem ajudar. Bem, na verdade, pensando melhor, talvez não a sua família - brincou ela -, mas pelo menos o resto de nós pode.

- Eu sei, entendo isto agora. Simplesmente achei que poderia lidar com tudo sozinha, mas não posso.

- Prometa que vai telefonar. Ou pelo menos sair de casa de vez em quando.

- Prometo. - Holly girou os olhos. - Você está começando a parecer minha mãe.

- Nós todos estamos apenas cuidando de você. O K, vejo você em breve - disse Sharon, beijando-a na bochecha. - E coma — acrescentou, cutucando-a nos quadris com a ponta do dedo.

Holly acenou enquanto Sharon se afastava em seu carro. Estava quase escuro. Haviam passado o dia rindo e fazendo piadas sobre os velhos tempos, então chorando, seguindo-se mais algum riso, então mais choro novamente. Sharon lhe dera uma nova perspectiva também. Holly não havia sequer pensado no fato de que Sharon e John haviam perdido seu melhor amigo, que seus pais haviam perdido o genro e os pais de Gerry, o único filho. Simplesmente estivera muito ocupada pensando em si mesma. Fora bom estar no meio dos vivos outra vez, em lugar de perder tempo com os fantasmas do passado. O dia seguinte seria um novo dia e ela pretendia começá-lo recolhendo aquele envelope.



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