Pseudônimo – r r santiago



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ANTES QUE NASÇA O DIA


RUDÁ DE OLIVEIRA


(com excertos de textos de ESMERALDA OLIVEIRA)

A MINHA MÃE

A MINHA FILHA JORDANA

E A PESSOA CUJA AMIZADE DEVO ACONCRETIZAÇÃO DESTE SONHO:

LEILA MARIA LIMA DE OLIVEIRA (Piggui)

ANTES QUE NASÇA O DIA é resultado de um grande fracasso. Fracasso de realizações. Fracasso de sonhos. Fracasso de ideais. Sem o signo desconcertante do fracasso, estas linhas jamais existiriam.

Exemplos múltiplos da História nos ensinam que um grande triunfo pode advir de um grande fracasso, e que da morte e da desintegração nascem a vida e a ressurreição. (Vide o exemplo do Filho do Homem.) Sem as suas experiências nos campos de trabalho na Sibéria, Dostoievski nunca nos deixaria sua grandiosa análise dos submundos da natureza humana. Sem situações de encarceramento e perseguição jamais conheceríamos as denúncias de Soljenitzin e as “Memórias do Cárcere” de Graciliano. Sem a experiência frustrada de um cartório e sem as suas desditas pessoais Balzac talvez nunca nos deixasse algumas melhores páginas da “Comédia Humana”. Sem a vida enclausurada pela asma que o vitimou, Proust jamais teria descido tão fundo aos labirintos da consciência humana e sua “Recherche” seria para sempre perdida. E os exemplos se multiplicam. Às vezes fazem-se necessárias, não se sabe porque, derrotas, quedas, derrocadas, tristezas, para que as grandes realizações subam à tona. O espinho da carne de São Paulo, a cegueira de Helen Keller, os sofrimentos de Joseph Conrad, os exílios de Dante e de Victor Hugo que o digam.

Não pretendo que meu livro seja uma dessas grandes realizações humanas. Apenas desejo demonstrar que a criação, com muita freqüência, nasce de partos dolorosos e de profundo período de trevas.

ANTES QUE NASÇA O DIA é um título que, a princípio, seria usado por Marcel Proust para a sua obra, antes que ela se tornasse EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO como hoje conhecemos. Como na natureza nada se desperdiça, aproveitei essa semente lançada fora pelo grande mestre da literatura francesa. A palavra “dia” é emblemática. Todos nós procuramos esse dia. E eu, como todos, ainda o procuro- a cada nascer de sol.

O AUTOR.


IMPRESSÕES: SOL NASCENTE vermelho sombrio (...), até que finalmente o sol ficou no céu, claro e branco.” (Hermann Hesse, ‘Pequenas Alegrias’) “ De manhã, pouco antes das oito, assustei-me com um poderoso e ameaçadoramente sombrio fogo no céu (...) Era o amanhecer (...) flamejavam nuvens vermelhas, ardentes, líquidas, das quais só a certa altura se erguia o sol PRIMEIRA PARTE

“E uma pessoa interroga-se: mas então onde estão os teus sonhos? E sacode a cabeça, dizendo: Como os anos passam tão depressa!... E novamente nos interrogamos: mas o que fizeste dos teus anos? Onde foste enterrar o teu tempo mais precioso? Viveste verdadeiramente? Sim ou não?” (Dostoievski, ‘Noites Brancas’)



Eu mantinha o olhar fixo no horizonte que pouco a pouco se azulava – aquele organismo vivo, palpitante, a rolar aos meus pés como vassalo e tributário, gigante a emergir das sombras e a tingir-se pouco a pouco da hemorragia da aurora, límpido, suave, levemente encrespado pelo bafejar da brisa matutina, ‘tabula rasa’ para um novo dia, e que desde a minha mais tenra infância me dominava em sua grandiosidade e pureza (como na época em que ainda não se tinha feito o alargamento da praia do Leme e de Copacabana, situação causadora do belo e temível espetáculo das águas tumultuadas a bater na calçada de pedras portuguesas e a borrifar os mais incautos; eu o vira ainda pequeno- minha mãe tinha-me pela mão- espalhando-se como um orgulhoso pavão a abrir sua cauda em leque, sua rica plumagem a desdobrar-se pela pedra do Leme e despudoradamente encharcar um homem encasacado sobre um banco da orla, como se ele fosse um Laocoonte-Prometeu punido por sua ousadia e petulância de querer sondar os segredos mais íntimos das profundezas daquele reino proibido a fim de revelá-los aos homens), tão distante de nossos limitações e mesquinharias, e que me impressionava por sua vastidão e mistério e me fazia devanear com mundos distantes, em dias ventosos e cinzentos, com seu dorso espumoso arrepiado e alisado pelo vento a lhe desenhar crinas, formando com suas espumas, na minha imaginação fértil de criança, os fiordes dos quadrinhos do Príncipe Valente; o gigante que sempre devolve aos nossos pobres e tristes portos os nossos dejetos e imundícies, as nossas deblaques, mas ao mesmo tempo nos traz o perfume de terras exóticas e com esse aroma nos induz a sonhar, a sair da (ir)realidade, a embriagar-nos como num sonho das Mil e Uma Noites. Mas o que eu fazia ali, num prelúdio de dia, diante daquele mar salgado com as lágrimas de Portugal, mar-símbolo de terror e de mistérios pavorosos aos lusíadas do passado, nossos avós, estranhos mundos de fantasmagoria, de monstros marinhos, serpentes colossais e gigantes Adamastores? Diante daquele mistério, achatado sob um céu lentamente a se revestir da luz matinal, o vento fresco osculando o meu rosto, eu pensava em mim, no microcosmo da minha pobre vida perante um imenso plano universal, e vinham assomar as velhas perguntas- velhas como o homem, QUEM SOU EU, PARA QUE VIVO, PARA ONDE VOU: o belo quadro de Gauguin - indagações que eu não conseguia responder. O QUE FIZESTE DE TUA VIDA, SONHASTE TANTA COISA, O QUE FOI FEITO DE TODOS ESSES SONHOS, TANTAS PROMESSAS DE INFÂNCIA, O ARTISTA, O PINTOR, O POETA, PARA ONDE FORAM AS TUAS ILUSÕES: quem me fazia estas novas perguntas era um menino de uns dez anos de idade, vestindo camiseta e shorts, calçando botinas pretas e com óculos de lentes e aros grossos; de pé na areia ele me encarava interrogativamente e comigo fazia um acerto de contas: OLHA PARA TRÁS DE TI, obedeci, e um quadro abriu-se diante de meus olhos como num sonho fantástico, isto é, naquela mesma praia, na areia prateada, envolto num halo de luz fantasmagórica como em certos filmes de science-fiction, o mesmo garoto estava sentado diante de uma mesa onde rabiscava em pedaços de cartolina branca traços de rostos de escritores e compositores, os mesmos que tinham sido meus heróis de infância como o foram os heróis dos gibis: JULIO VERNE, DICKENS, VICTOR HUGO, ALEXANDRE DUMAS,TOLSTOI, DOSTOIEVSKI, CHOPIN, TCHAIKOVSKI- quando rematou um daqueles esboços o menino levantou-se e entregou-o a uma mulher jovem, morena e corpulenta que passava metida num vestido pintalgado de arabescos florais; a mulher contempla a cartolina enquanto a criança voltava à sua faina sobre a mesa - um ar de desprezo e desgosto desenha-se em seu rosto- solta um suspiro profundo, desembaraça-se dele com descaso; o pobre objeto alvo e quadrangular revoluteia em loucas piruetas pelo ar, levado por Zéfiro que por sua vez o entrega ao seio de Netuno- este o acolhe amorosamente em seus braços azuis, como uma mulher a um enjeitado; estou atônito: assistira a uma cena da minha infância, quando garranchava retratos de escritores e compositores copiados de livros e presenteava aos meus familiares nas noites de Natal – aquela mulher, que depois de encaminhar o destino de minha obra-prima, dissolveu-se no ar, era minha irmã mais velha, Clara, a quem eu dera um desses esboços, e que desfizera-se dele empurrando-o para o fundo de uma lixeira, LEMBRAS-TE , a voz do menino me despertou de meu devaneio, SIM, tenho que responder, ENTÃO OLHA DE NOVO: o garoto da mesa agora escreve furiosamente em um caderno pautado de capa verde, CHEGA PERTO, ordenou-me o meu interlocutor: por cima do ombro do garoto vejo que ele rabisca com letra infantil a estória de TARZOR, O REI DAS SELVAS, primo pobre do TARZAN de EDGAR RICE BURROUGHS, e por mínimos instantes sinto de novo aquele gosto de felicidade, de encantamento, de transcendente placidez nas paragens longínquas da infância, quando, invejoso do gênio alheio, criava pastiches de livros e de heróis- ah, por que não fora eu a descobrir o fogo, a inspiração única, inimitável... Às vezes, ao querer imitar os gênios do passado, recolhia as penas que tombavam das asas das gaivotas na areia dessa mesma praia e as manipulava, salpicando-as num tinteiro, para escrever com elas minhas aventuras- e era com prazer que sentia o rascar da pena no papel, alvo como aquele areal, LEMBRAS-TE COMO FICASTE CHATEADO COM UM DOS AMIGOS DE PAULO, QUANDO ELE COMEÇOU A RIR E A DEBOCHAR AO LER UM DESSES ESCRITOS – SIM, ERA A HISTÓRIA DE FRANKENSTEIN, RECONTADA À MINHA MODA, de repente o menino escrevinhador levanta-se da mesa e toma de uma máquina fotográfica apoiada num cabide de pés e simulando uma câmera de filmar – LEMBRAS-TE – SIM, EU ERA O PRODUTOR DIRETOR ROTEIRISTA ATOR PRINCIPAL VILÃO HEROÍNA DIRETOR DE FOTOGRAFIA E AINDA POR CIMA RESPONSÁVEL PELOS FIGURINOS, CENÁRIOS, TRILHA SONORA, novamente do nada surge: Clara, trajando blusa de gola ‘rolé’ e pantalonas, ronda o menino cineasta que aplica o olho direito na viseira da câmera feito um cinegrafista- repete o gesto de descaso anterior, abanando a cabeça com desprezo -TUDO ISSO FOI UMA PROMESSA INFANTIL DE UM GENIO QUE NUNCA SE CUMPRIU, o garoto que falava comigo tinha o rosto anuviado por uma sombra – WILLIAM SHAKESPEARE, QUANDO MENINO, BRINCAVA DE REPRESENTAR PEÇAS COM SEUS AMIGUINHOS, eu disse, MAS A SORTE SORRIU PARA SHAKESPEARE; PORQUE NÃO CONTIGO-CONOSCO, A CULPA FOI TUA, o menino de súbito transforma-se em meu acusador, aponta-me um dedo de ameaça, apocalíptico, a face congestionada- NÃO, grita alguém atrás de mim: um rapaz na faixa dos vinte – óculos de aros redondos, camiseta, jeans, calçando tênis – vem quase voando até nós, a bufar, avermelhado, o suor a escorrer pelo rosto, suor e lágrimas forma uma pasta que lhe enevoa as lentes dos óculos: NÃO, A CULPA NÃO É DELE, ELE QUER REAVER O TEMPO PERDIDO, O TEMPO QUE EU DESTRUÍ, eu mesmo – na faixa dos vinte. EU, NA MINHA PREGUIÇA, NA MINHA PROCASTINAÇÃO, DESTRUÍ TODOS OS SONHOS, TODAS AS FANTASIAS, TODO O FUTURO GLORIOSO QUE TÍNHAMOS PELA FRENTE, desata a chorar, choro convulso, o rosto coberto pelas mãos, apiedo-me e corro para ele – começo a consolá-lo, a mão esquerda toca-lhe afetuosamente um dos ombros, ri o garoto, NÃO ADIANTA, ESTE AÍ É UM VERDADEIRO FRACASSO, indignado com o demoniozinho, volto-me para ele, esbravejo, SAI DAQUI, PESTE! e de súbito a imagem ainda a gargalhar se esvanece no ar, o mesmo começa a ocorrer com o jovem que soluça a não mais poder – ponho-me de pé, assustado, POR QUE SERÁ QUE MAUPASSANT VIA A ÁGUA COMO SÍMBOLO DE VIDA, DE RESSURREIÇÃO, um clarão vermelho e alaranjado atinge-me em cheio no rosto: A cortina de meu quarto banhada pelo sol da manhã. Saio- penosamente- da cama de casal (Elaine já não está, foi trabalhar, antes deixou Jordana, nossa filha, na creche), ando, não ando, me arrasto, a cabeça a latejar. Tudo parece mergulhado na normalidade: pela janela do quarto dou com um gigantesco ovo sendo fritado no espaço – o deus louro a principiar novo dia de seu eterno reinado; como na obra de Monet, IMPRESSÕES: SOL NASCENTE, era difícil definir onde principiavam céu e mar. Sentei-me na cama e comecei a pensar no sonho para onde fora lançado por meu inconsciente: Eu tivera um encontro traumático com os meus dois egos do passado, com cada fase de minha vida, e jungidas a essas ruminações da vida anterior vieram bater à porta da memória as palavras do gerente da extinta Editora Minerva (uma noite, faz alguns dias, sonhei com ele: estava estranhamente jovem) a me elogiar pelo meu gosto tão precoce pelas obras de Michel Zevaco ( escritor francês que à moda de Dumas ressuscitava a História da França com enredos recheados de cenas de amor, conspirações e duelos de espada), sinal de um talento promissor. Mamãe me levava àquele recinto do começo do século, um sobrado da Rua da Quitanda onde se editava esses folhetins que me faziam babar, com suas capas povoadas de espadachins de olhos chispantes e rostos audazes, de mulheres perversas e ajaezadas, numa mistura de sedas, de brocados, chapéus de plumas, botas de couro e colares de pérolas que enchiam os meus olhos maravilhados e me provocavam um apetite voraz, uma gula por devorar o conteúdo guardado por aquelas figuras movimentadas; mamãe tivera essa coleção, oculta em um pequeno cofre preto que um dia na minha curiosidade infantil abri e foi como o descortinar de um mundo fantástico, novo, deslumbrante, como se eu fosse Edmond Dantès a descobrir na ilha deserta o magnífico tesouro do abade. Mais tarde ela se desfaria daquela coleção, por necessidade; mas agora comprava, novamente, cada um dos volumes, motivada pelo meu crescente interesse pela História da França e porque eu, pretenso escritor invejoso do talento alheio, ambicionava criar epopéias empolgantes como aquelas, que fariam de mim um novo Zevaco. E junto com as palavras elogiosas daquele senhor de cabelos brancos amável e culto, vinham as palavras de Adelpho Monjardim, escritor capixaba, autor de livros fantásticos à á la Poe e Júlio Verne, amigo de mamãe desde a juventude e que ao visitar o Rio sempre nos levava a uma lanchonete em frente à Praça Serzedelo Correia, onde estalavam deliciosos croquetes e coxinhas de frango; ele me chamava de ‘o nosso poeta’. COMO VAI O NOSSO POETA, perguntava ele em suas cartas de letra quase hieroglífica- mamãe a comparava com a caligrafia de um médico; hoje, sinto-o a perguntar do passado: O QUE FOI FEITO DAQUELE POETA QUE TANTO PROMETIA? Tentara publicar uma novela, rejeitada pelas editoras que procurara; imprimira uma revista literária na faculdade, a qual não passou do primeiro número. Eu via tudo aquilo passar diante de meus olhos como num juízo final, uma prestação de contas – como o moribundo que ao se despedir da vida assiste ao desfile de todas as suas ações antes do último suspiro. Aquele menino que me acusava de dedo em riste era o meu duplo a fazer a cobrança pela forma como utilizara os dons e talentos que a vida me proporcionara e aquele jovem era a minha mocidade no momento em que tudo poderia ter se realizado, juventude desperdiçada em erros, desvios e procastinações. Olhei de novo pela janela direção do mar, SERÁ QUE MAUPASSANT ESTAVA MESMO CERTO POR VER O MAR COMO UM SÍMBOLO DA MORTE? A divindade dourada ia tecendo sua tenda no ar e fazia fugir os vestígios da noite anterior, como a sentinela de uma fortaleza a render seu companheiro, seus raios deflorando o céu virgem, ensangüentando-o. De repente escutei risadas de crianças vindas do mar, e me vi novamente como um garoto, junto com Rogério, os dois brincando com uma bóia imensa: era assim que fazíamos em nossa infância comum; passei as palmas das mãos pelos olhos como que a expulsar aquela lembrança intrusa; não- Rogério não estava mais ali: estava morto – e eu- eu não era mais a criança alegre que ria -----------------------------------------------------------------------

A MONTANHA MÁGICA

“´dia. – disse Joachin. – Que tal a sua primeira noite aqui em cima? Está satisfeito?”

(Thomas Mann, “A Montanha Mágica”)



Acordei lá pelas oito da manhã em meu ônibus a caminho da região sul - lá fora, resplandecentes à luz matinal, os campos verdejantes, as montanhas e pastos corriam velozmente; três horas depois achei-me em Campolargo, seguindo as instruções recebidas pelo correio, as quais eram descer em frente a uma igreja católica, transpor a estrada e andar por um caminho ladeado de araucárias. O cheiro vivificante do campo enchia-me os pulmões acostumados à poluição do Rio de Janeiro e agiam como um tonificante. Um boi negro e luzidio ruminava no pasto ao lado de outros bois e vacas espalhadas a mordiscar a erva verde, junto a árvores frondosas. O dia estava meio gris; fazia um frio agradável e renovador. Deparei com um grande portão munido de porteiro eletrônico; uma voz feminina atendeu ao meu toque no botão: identifiquei-me como um dos participantes do retiro espiritual do pastor Osmar Ludovico, é como Abre-te Sésamo, aberta a porta adentro por um caminho coberto de pedregulhos que me conduzem a um conjunto de casas aprazíveis cercadas por um jardim: a Casa de Retiros de Santo André, mantido por freiras que cultivavam o silêncio e a contemplação. Sempre fora costume de Osmar Ludovico da Silva, pastor protestante de Curitiba, realizar esses encontros em mosteiros católicos, por conterem o ambiente propício idealizado por ele para o intimismo e quietude necessários a tais encontros, baseados na espiritualidade clássica contemplativa e praticada em particular por mestres e monges da Igreja Católica e começada no primeiro século da Era Cristã como contraposição à onda de corrupção que assolava o Cristianismo. Uma freira nissei de cabeça descoberta e metida em um vestido azul e branco, tendo um pequeno crucifixo franciscano de madeira ao pescoço, me recebeu sorridente e agradável à porta envidraçada, e em pouco mais de uma hora eu estava só, de banho tomado, já tendo almoçado, em meu quarto monástico pequeno e despojado, onde uma cama, uma cadeira, um armário, um lavatório, uma lixeira e um crucifixo na parede eram a única e necessária mobília e ornamentação, na porta reproduzidas num papel com letras de computador as palavras de Jesus aos Seus apóstolos, VINDE A UM LUGAR DESERTO E REPOUSAI, que seria o lema daqueles cinco dias como o era normalmente em Santo André. Teria agora que aguardar a tarde inteira pela chegada do restante das pessoas: Osmar Ludovico, uma psicóloga de São Paulo que o assessorava anualmente nesses retiros, Dra. Dora Eli, e mais nove pessoas. Eu me adiantara muito chegando antes do meio-dia, e eles só estariam ali pelo cair da tarde, situação que me levou a fazer um reconhecimento do local- conheci a sala de reuniões, as duas capelas, a horta mantida pelas próprias irmãs, as montanhas, o pasto; o clima estava delicioso e úmido. Entretanto foi uma tarde difícil: não estava acostumado ao silêncio que avultava em Santo André, e uma ansiedade terrível começava a apossar-se de meu peito. Minha cabeça era um ninho de pensamentos entrecruzados, as minhas emoções encontravam-se carregadas de tensão, e meus músculos se assemelhavam a um arco retesado. Voltei a passear pelo campo e sentei-me em uma pedra situada numa elevação de onde se podia descortinar uma grande extensão de árvores e um riacho a correr alguns metros abaixo, o peito congestionado pela angústia, a angústia de anos seguidos de tensão e estresse, onde se misturavam culpas, remorsos, pequenos e grandes tormentos mentais e emocionais, além da minha própria condição de mediocridade e de fracasso, eu odiava o que fazia, o meu casamento estava desmoronando (Eloísa por várias ocasiões pronunciara a palavra “separação”), meus talentos encontravam-se represados por diques de circunstâncias frustrantes acumuladas com o tempo, montanhas a me esmagar como o sofrimento das criaturas danadas que povoam o inferno de Dante- lágrimas escorriam pelo meu rosto, um tremor íntimo me sacudia e o meu coração sangrava: a única coisa que pude fazer foi dizer esta oração, as únicas palavras que a minha alma convulsa passava para os meus lábios,

SENHOR, DIZE Á MINHA ALMA: EU TE AMO

SENHOR, DIZE Á MINHA ALMA: EU TE AMO

SENHOR, DIZE Á MINHA ALMA: EU TE AMO



e com isso a tarde caía sobre Campolargo e eu esperava a cada momento a chegada dos automóveis que trariam as outras pessoas com as quais conviveria aqueles cinco dias; tentei dormir, ler, orar, no quarto, diante do crucifixo, mas em vão; nem escrever umas poucas idéias no bloco de anotações que trouxera consegui. Dirigi-me então à sala de recepção onde a que imaginei ser a superiora do convento, bonita senhora de cabelos curtos aparentando quarenta anos, estava de pé a olhar pela porta envidraçada; mantive com ela alguns poucos minutos de conversação e depois encontrei-me novamente só, e foi então que percebi à parede uma representação pictórica da parábola do filho pródigo. O que me cativou a atenção não foi a figura do pródigo de roupas imundas e rotas e pés descalços e feridos pelos espinhos do caminho de volta nem a correria dos criados trazendo o novilho cevado para a comemoração pelo retorno daquele que estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado, não, não foi isso que me prendeu, mas o beijo amoroso, cálido, acolhedor, perdoador do pai nos lábios daquele verme sujo e repelente coberto de trapos, cheirando a porco, em seu triste regresso da boêmia sem um tostão no bolso, já tendo gastado toda a herança paterna nos prazeres de Baco e de Vênus, o beijo unificador e vivificante de um pai misericordioso, símbolo do Grande Pai do Céu na humanidade pecadora encapsulada na pessoa do filho; e era aquilo a minha maior necessidade agora do que nunca, mais de vinte anos passados do que contarei daqui a pouco ter sido a experiência do terraço da Duvivier. Enfim os automóveis começaram a chegar, e um a um homens e mulheres de São Paulo, de Minas, do Rio de Janeiro, de Curitiba, enchiam a sala diante do Filho Pródigo. A Dra. Dora Eli, elegante e encasacada, envolveu-me num sorriso encantador; Osmar Ludovico foi o último a chegar- estava já grisalho mas o rosto moreno revelava o mesmo frescor, a mesma juventude do tempo em que o conheci, o mesmo porte, a pele amorenada, os olhos grandes, ardentes e rasgados, o nariz grande e um tanto curvo, os lábios grossos, que a um sorriso seu iam de um canto ao outro, como aqueles sheiks das Mil e Uma Noites. Revê-lo era retornar ao passado, aos anos 70 e 80. Ele perguntou o nome de cada um, e sem me reconhecer fez o mesmo comigo, e quando me nomeei bateu com a mão espalmada na testa, exclamou, abraçando-me, AH, É MESMO, É VOCÊ, FAZ TANTO TEMPO, E AINDA POR CIMA VOCÊ ESTÁ CARECA, NÓS DOIS ESTAMOS. Conheci Osmar nos finais dos anos 70, década dos grupos revolucionários e contestadores, do Tropicalismo, do ‘barato’ das drogas e da busca por experiências genuínas, autênticas, época do meu ingresso na Igreja Presbiteriana de Copacabana. Hoje, quando encontro alguém que tenha freqüentado a União de Mocidade da Igreja Presbiteriana naquele tempo, o comentário é sempre o mesmo, FORAM OS DIAS MAIS FELIZES DA MINHA VIDA, FORAM OS NOSSOS ANOS DOURADOS, estávamos sempre juntos, convivendo em passeios, retiros espirituais fora da cidade, reuniões semanais em apartamentos, ou simplesmente indo à praia (em frente ao Hotel Trocadero - onde moravam os filhos do gerente, Georgio e Diana Papadoplos, nascidos na Grécia - estendíamos na areia uma enorme tenda, a ‘Tenda de Abraão’, a qual demarcava o nosso território, e ali ficávamos até o cair da tarde, ao sabor das conversas, das brincadeiras, cantando ao som de um violão, enquanto se ouvia o marulho das ondas deslizando sobre a areia) ou a fazer compras, não tínhamos compromissos maiores, éramos a maioria estudantes, solteiros, livres, a velha frase ÉRAMOS FELIZES E NÃO SABÍAMOS caía como uma luva sobre nós- quantos suspiros de amor, quantas amizades verdadeiras saíram daqueles tempos mágicos e preguiçosos... Os namoros tumultuados, os troca-troca de casais provocando brigas entre velhos amigos ... Hoje cada um tem a sua vida, os seus problemas pessoais, os itinerários traçados por si mesmos ou pelas circunstâncias da vida, nesses dias tão corridos de hoje. Foi em dezembro de 1976 que, aos dezoito anos, comecei a freqüentar aquele velho prédio cinzento do começo do século -com sua torre assemelhada a um foguete catapultado para o infinito-, a convite de um colega do Curso Científico, o Rogério”Limão”; no início eu apenas freqüentava os cultos dominicais da tarde dirigidos pela UMP, os quais estavam completamente lotados (Praticamente Copacabana inteira pelo menos já estivera uma vez nas tardes de domingo no Culto Jovem da Igreja Presbiteriana, não importando o credo a que pertencesse- os convertidos levavam seus familiares, que ou passavam uma só vez por aqueles átrios e nunca mais retornavam, salvo em algumas situações, como um casamento ou batizado, ou ficavam fiéis àquela coletividade e à profissão de fé por ela seguida). Só um mês depois eu estaria nas reuniões semanais que os jovens faziam em apartamentos com o intuito de estudar a Bíblia (ainda hoje passo em frente ao prédio da rua Domingos Ferreira com Figueiredo de Magalhães onde tive o meu primeiro encontro tímido com aqueles jovens dos quais conhecia poucos; distribuídos como esses condenados que em tempos recuados tinham os seus membros esquartejados e espalhados pelas ruas e estradas como advertência de algum tirano para com futuros pretensos rebeldes, somos nós através de lugares públicos, esquinas, ruas, prédios, restaurantes, salas e quartos por onde passamos – ou mesmo nas lufadas de vento, no disque-disque de uma palmeira numa praia deserta ou no contorno algodoado de uma nuvem no céu- , onde foram escritos os momentos mais particulares de nossas existências, pedaços fatiados de dias, meses, anos, horas, minutos e segundos preciosos e para sempre desvanecidos). Eu fora nervoso, sem saber como seria recebido, e quando entrei no apartamento espaçoso onde deviam estar reunidos dez ou doze e rapazes e moças, um seminarista, Jacimar, que eu achava a cara do ator Jack Palance (aquelas simples e informais reuniões, fruto da visão pluralista e avançada do Ver. Nehemias Marien, o qual depositava total confiança nos talentos mais jovens, malgrado a oposição da “velha Guarda”,eram uma espécie e cadinho, de oficina de Vulcano onde os seminaristas da igreja eram forjados, e daquela fôrma saíram Renato Maia, que acabaria por ser pastor batista, Carlos Alberto Chaves Fernandes, o Beto, que anos depois seria o pastor-titular da Igreja Presbiteriana de Copacabana, Marcelo Carvalhal, José Roberto ‘Baiano” e de leigos como René Milazzo, Pedro Bianco, Lisâneas Sá Freire e Inácio Braconnot, temperamentos tão díspares e tão unidos, como uma inquebrantável corrente de bronze), conduzia um polêmico estudo sobre o livro do Apocalipse, que eu felizmente conhecia da infância, quando mamãe, rompida com o Catolicismo, para que eu não ficasse sem instrução religiosa, comprava-me fascículos de histórias da Bíblia que a Abril lançava nos jornaleiros; ao final da reunião, uma das moças, Isabela, uma judia morena convertida junto com a irmã Eliane ao Cristianismo, perguntou o meu nome e eu, desastradamente (meus nervos), respondi, EU SOU NOVO AQUI, SIM, EU SEI QUE VOCÊ É NOVO, MAS QUAL É O SEU NOME, o filho do dono da casa, Pedro Bianco, chamou-me a um canto, falei-lhe de minhas tristezas, do relacionamento com meu pai, com minha irmã, do período triste que fora o meu Ginásio; ele disse-me algumas palavras de consolo sobre o amor de Deus, emprestou-me um livro, e quando voltei para casa sentia-me renovado, embriagado com a perspectiva nova que surgia na minha vida, consolado com a possibilidade de ser apresentado a uma entidade cósmica que apesar de sua superioridade queria entrar em relacionamento comigo. Entretanto, só vim a experimentar uma conversão verdadeira, dostoeivskiana, tolstoiana, numa sexta-feira de fevereiro de 1977, no terraço de um prédio da rua Duvivier, à luz das estrelas a piscarem para nós em uma magnífica noite de verão- ainda me lembro da música que se derramava daqueles violões...“Nas estrelas vejo a Sua mão e no vento ouço a Sua voz /Deus domina sobre terra e mar/ O que Ele é pra mim?/ Eu sei o sentido do Natal pois na História tem o seu lugar/ Cristo veio para nos salvar/O que Ele é pra mim? Té que um dia Seu amor senti/ Sua imensa graça recebi/ Descobri então que Deus não vive longe lá no céu sem se importar comigo/ Mas agora ao meu lado está / Cada dia sinto o Seu cuidar/ Ajudando-me a caminhar/ Tudo Ele é pra mim...“


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