Psicologia & sociedade revista da Associação Brasileira de Psicologia Social – abrapso



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PSICOLOGIA

& SOCIEDADE

Revista da Associação Brasileira de Psicologia Social – ABRAPSO
Ano III N.o 4 Março 1988

Anais do III Encontro Mineiro

de Psicologia Social

Publicação:ABRAPSO

Pró-Reitoria de Extensão e Ação Comunitária da PUCMG

CONSELHO EDITORIAL

Dra. ELIZABETH DE MELO BOMFIM MARCOS VIEIRA SILVA

VÂNIA CARNEIRO FRANCO

ABRAPSO - DIRETORIA DO BIÊNIO Julho 87/ Junho 89

Presidente: Dra. ELIZABETH DE MELO BOMFIM

1o Secretário: MARCOS VIEIRA SILVA

2o Secretário: KARIN von SMIGAY

1o Tesoureiro: BIANCA GUIMARÃES V. CARNEIRO 2o Tesoureiro: MARIA STELLA B. GOULART

Vice-Presidente Regional M.G.: Dr. MARCOS GOURSAND DE ARAÚJO Vice-Presidente Regional S.P.: LUIZ CARLOS ROCHA

Vice-Presidente Regional Sul: ANGELA MARIA PIRES CANIATO Vice-Presidente Regional D. F.: ALCIONE ALVES DA COSTA

ENDEREÇO ABRAPSO: Rua Carangola, 288 - Sala 324 Belo Horizonte - M.G.

30.350


PSICOLOGIA E SOCIEDADE

Revista da ABRAPSO - Associação Brasileira de Psicologia Social Ano III, No 4, Março/1988

Anais do III Encontro Mineiro de Psicologia Social

ABRAPSO -

Pró-Reitoria de Extensão e Ação Comunitária - PUC/MG

III ENCONTRO MINEIRO DE PSICOLOGIA SOCIAL

PROMOÇÃO:

ABRAPSO - ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSICOLOGIA SOCIAL Presidente: Elizabeth de MeIo Bomfim

DEPARTAMENTO DE PSICOLOGIA DA UFMG

Chefe: Mercês Lacerda Penna

DEPARTAMENTO DE PSICOLOGIA DA PUC/MG

Chefe: Ana Maria Sarmento S. Poelman



APOIO:

Conselho Regional de Psicologia - CRP - 4a Região Centro de Estudos de Psicologia da UFMG

Grupo de Estudos e Pesquisas em Saúde Mental Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas Conselho de Pesquisa da UFMG

Pró-Reitoria de Extensão e Ação Comunitária da PUC-MG Sindicato dos Psicólogos de Minas Gerais



COMISSÃO ORGANIZADORA. Bianca Guimarães Veloso Elizabeth de Melo Bomfim Karin von Smigay

Keila Deslandes

Marcos Goursand de Araújo Marcos Vieira Silva

Maria Inês Costa Moreira

Maria Stela Brandão Goulart Marília Novais da Mata Machado Vânia Franco

Belo Horizonte - Novembro - 1987



S U M Á R I O

Páginas


- NOTA INTRODUTÓRIA ............................................03

- TEXTOS DE ABERTURA DO III ENCONTRO MINEIRO DE PSICOLOGIA SOCIAL

Elizabeth de Melo Bomfim......................................05 Mercês Lacerda Penna..........................................07 Ana Maria S. S. Poelman.......................................09
- PSICOLOGIA COMUNITÁRIA.........................................11

- PSICOLOGIA COMUNITÁRIA.........................................13

Elizabeth de Melo Bomfim Marília Novais da Mata Machado

- CRISES E ALTERNATIVAS DO MOVIMENTO POPULAR E SINDICAL..........17

William César Castilho Pereira

- MUDANÇAS EM COMUNIDADE.........................................36

Marília Novais da Mata Machado

- INFERÊNCIAS NO CAMPO DA INTERVENÇÃO............................41

Maria Regina Godoy de Almeida

- FAVELA: FRAGMENTOS.............................................44

Luciana Maia de Menezes

- ACABA MUNDO....................................................47

Alayde Maria Caiafa de Arantes

- VILA DO ACABA MUNDO, BAIRRO SION...............................50

Elizabeth de Melo Bomfim

- A VILA EPINAY VILLETANEUSE.....................................54

Isabelle Gamin

- CORPOS RADIATIVOS, NOVOS ESTIGMAS..............................57

Elizabeth de Melo Bomfim

Marília Novais da Mata Machado

Páginas

- TRABALHOS E COMUNICAÇÕES.....................................63

- QUEM É O BRASILEIRO?..........................................65

Antônio Ribeiro de Almeida

- NOTA SOBRE O CARÁTER SACRIFICIAL DA DELINQUÊNCIA SISTEMÁ-

TICA.........................................................85

Welber da Silva Braga

- ESBOÇANDO UM ENQUADRE PSICOANALÍTICO-MARXISTA: UMA UTOPIA?..98 Maria Lúcia Vieira Violante

- MOMENTOS DE GRUPOS..........................................108

Elizabeth de Melo Bomfim

- UMA EQUIPE ESQUIZODISCIPLINAR...............................109

Márcia Midôri Watanabe

- CONVERSA VAI, CONVERSA VEM..................................115

Jane Aparecida Franco

- VIOLÊNCIA: MARCO INICIAL E ETERNO...........................120

Nilda Maria Ribeiro

- MOVIMENTO AUTONOMISTA.......................................126

Romualdo Dâmaso

- UMA EXPERIÊNCIA DE ENSINO DA PSICOLOGIA SOCIAL MARXISTA

NA UFPA.....................................................132

Hilma Khoury Carvalho

- FALARES E CANTARES BRASILEIROS..............................136

Electra Barbosa de Paula

Elizabeth de Melo Bomfim

- 500 ANOS DE FEMINISMO.......................................141

- A QUESTÃO DA MULHER COMO TEMA DA PSICOLOGIA SOCIAL..........143

Marília Navais da Mata Machado

- O EXCESSO E A FALTA.........................................149

Lúcia Afonso

- A MULHER, O HOMEM E AS LEIS.................................152

Rodrigo da Cunha Pereira

Páginas


- RELAÇÕES ENTRE EMPREGADAS E PATROAS: A INTERRELAÇÃO DO

RACISMO E SEXISMO............................................157 Sandra Azevedo

- RECEITA DA MULHER.............................................160

Carla Leitão, Dannusa Prates, Dirce Lara, José Luiz Filho, Mércia Ferreira e Tânia Pires

- NOTA SOBRE O CENTRO DE DEFESA DOS DIREITOS DA MULHER..........162

Maria Cândida P. de Hollanda, Ivone C. Damas, Renata Pelluci, Fernando L. Vaz Robalo

- MULHERES......................................................166

Paula Braga

- PAPÉIS DE GÊNERO E VIDA CONJUGAL: UMA REVISÃO CRÍTICA

DA LITERATURA E CARACTERÍSTICAS DE UMA POPULAÇÃO..............169

Maria Helena Nolasco de Abreu

- PSICOLOGIA SOCIAL E SAÚDE MENTAL.............................171

- O ESTADO DA ARTE DA PRODUÇÃO DE TRABALHOS EM SAÚDE MENTAL

NO BRASIL......................................................173

Marcos Vieira Silva

Maria Stella Brandão Goulart

- IMPLICAÇÕES DO ENFOQUE SOCIAL NA PRÁTICA DO PSICÓLOGO EM

SAÚDE MENTAL...................................................178

Angela Caniato

- A CONSTRUÇÃO OU DEFINIÇÃO DO SUJEITO COMO DOENTE MENTAL

NO MOMENTO DE TRIAGEM E INTERNAÇÃO.............................189

Alice Leão Andrade

- FORMAÇÃO DOS TRABALHADORES EM SAÚDE MENTAL.....................198

Elizabeth de Melo Bomfim



NOTA INTRODUTÓRIA

Este número da revista "Psicologia e Sociedade" marca um momento importante da ABRAPSO. Empenhada no desenvolvimento da Psicologia Social no Brasil, a ABRAPSO, só no 2o semestre de 1987, esteve presente no I Encontro Paranaense de Psicologia (Foz do Iguaçu, agosto), no XVIII Congresso Brasileiro de Neurologia, Psiquiatria e Higiene Mental (Fortaleza, novembro), III Encontro Mineiro de Psicologia Social (Belo Horizonte, novembro), Encontro de Psicologia na Comunidade (Brasília, novembro), I Encontro de Psicologia Social no Pará (Belém, dezembro), II Congresso Nacional de Trabalhadores em Saúde Mental (Bauru, dezembro) e, finalmente, promoveu o III Encontro Nacional de Psicologia Social (São Paulo, dezembro-87). A nova diretoria se fez presente a todos os eventos, incentivando tais realizações.

Contendo textos de vários eventos, o no 4 da revista "Psicologia e Sociedade" contém, na maioria, os trabalhos apresentados no III Encontro Mineiro de Psicologia Social, resultando daí ser também considerado como "Anais" do referido Encontro.

Na expectativa de estarmos apresentando um trabalho significativo, dedicamos este número à Sílvia T. Maurer Lane, criadora e primeira presidente da ABRAPSO.

Os editores.

TEXTO DE ABETRURA DO

III ENCONTRO MINEIRO DE PSICOLOGIA SOCIAL

Elizabeth de Melo Bomfim(*)

E iniciamos o terceiro! Crescemos em temas, em participação e em apoio. As andanças com a Psicologia Social trouxeram para Belo Horizonte a diretoria da ABRAPSO. E Minas que, segundo o poeta Drummond, "não é palavra montanhosa. É palavra abissal (...) é galeria vertical varando o ferro para chegar ninguém sabe onde", abre suas portas para mais este evento. Um Encontro que esperamos proveitoso.

Aproximando os 500 anos de feminismo, a reforma sanitária, os trabalhos comunitários e a identidade brasileira, a psicossociologia mineira deixa um rastro de diversidades em seu traçado. Será este trabalho peculiar, frágil ou tímido? Está sujeito a se apagar pelo aproximar do assovio do vento? Ou sua verticalidade irá varar a dureza do ferro? São caminhos a serem perseguidos. Sabemos que, prática e teoricamente, há muito a ser construído.

E é na esperança de que nossos caminhos possam ser iluminados que abrimos o III Encontro Mineiro de Psicologia Social.

________________________________________________________________________

*Presidente da ABRAPSO.

TEXTO DE ABERTURA

Mercês Lacerda Penna(*)

É com grande prazer que o Departamento de Psicologia da UFMG se associa ao Departamento de Psicologia da PUC e a Abrapso na promoção do III Encontro de Psicologia Social.

Em nome do Departamento participo desta abertura esperando que o Encontro deste ano seja tão profícuo como os anteriores.

Acreditamos, que encontros desta natureza, trazem a oportunidade das trocas de informações científicas e novas produções, ao mesmo tempo que em muito colaboram para uma maior integração das pessoas deste universo onde diferentes concepções podem conviver.

O social é palavra chave.

Bom Trabalho.

_______________________________________________________________________

(*)Chefe do Departamento de Psicologia - UFMG.


TEXTO DE ABERTURA

Ana Maria S. S. Poelman(*)

Para o Departamento de Psicologia da PUC-MG é um momento muito significativo este, da realização do III Encontro Mineiro de Psicologia Social.

Ele concretiza uma disposição firme de um grupo de pessoas que se encontram em torno de uma questão comum: a representação psicológica das questões sociais.

Aqui se apresentam contribuições de professores e alunos; debatem-se questões teóricas ou se faz o relato de experiências desenvolvidas nos contornos da Psicologia Social.

Aqui se busca um caminho para superar aparentes dicotomias :

a dicotomia entre teoria e prática, entre o trabalho intramuros e o extra-muros, entre o ensino e a prestação de serviços.

Por isto, este é um momento tão grato para nós do Departa- mento de Psicologia da PUC-MG. Significa a possibilidade concreta de um diálogo entre Universidade e sociedade; de uma resposta mais efetiva da instituição acadêmica aos problemas sociais, enfim, o resgate dum aspecto essencial da Universidade: servir à sociedade.

________________________________________________________________________

(*)Chefe do Departamento de Psicologia da PUC-MG

PSICOLOGIA COMUNITÁRIA

.11.


PSICOLOGIA COMUNITÁRIA

Elizabeth de Melo Bomfim(1)

Marília Novais da Mata Machado(1)

Trabalhar com a Psicologia Comunitária é trabalhar, simultâneamente, com o individual e o coletivo, com o que é comum e o que é incomum entre sujeitos sociais concretos que ocupam um determinado espaço físico-geográfico.

O psicólogo comunitário trabalha com sujeitos sociais, em condições ambientais específicas, atento as suas respectivas psiquês. As condições ambientais são, frequentemente, objeto de demandas por transformações, quer nas grandes metrópoles barulhentas, poluídas e com suas favelas insalubres, quer nas pequenas cidades preconceituosas, proibitivas e com suas normas terrificantes.

A psiquê, objeto da pesquisa psicológica, só pode ser compreendida e trabalhada considerando-se essas condições ambientais. Portanto, as noções de ecologia, que nos remetem às questões de urbanização, saneamento, enfim, condições de sobrevivência, são centrais no trabalho comunitário.


Embora grande parte do trabalho do psicólogo comunitário


seja desenvolvido em comunidades carentes, periféricas ou faveladas, isto não significa que o atendimento da Psicologia Comunitária esteja restrita a este tipo de população. Na realidade, embora haja mais demanda por parte dessas populações, justamente pelo fato de serem mais carentes, o psicólogo comunitário tem todo um espaço de atuação junto aos sujeitos de classe média e alta. Onde houver movimentos urbanos, associações de moradores, associações religiosas, sindicatos, grupos minoritários. associação de consumidores, associações de profissionais, grupos de mulheres, de donas de casa, organizações ecológicas, centros culturais e outras formas de reunião é possivel a

atuação do psicólogo comunitário. Trabalhando, quer nos processos

básicos de urbanização e saneamento quer nos problemas gerados pelo crescimento modernizador desenfreado, o psicólogo comunitário está interessado na melhoria da qualidade de vida.

_______________________________________________________________________

(1) Professoras no Departamento de Psicologia – UFMG.

.13.


-

Assim como a participação do cliente é necessário para o andamento de uma terapia individual, o engajamento comunitário é imprescindível para qualquer trabalho de Psicologia Comunitária. O psicólogo comunitário, trabalhando com grupos que surgem nos movimentos sociais, resgata na sua prática todo o conhecimento da dinâmica dos grupos, organizações e instituições. Atrelado a demandas e práticas coletivas de reinvidicações e lutas, o psicólogo comunitário acompanha os movimentos da população na qual trabalha ou, em caso de miséria sócio-política, cria alguns dispositivos para provocá-los.

Nas comunidades carentes, o trabalho do psicólogo comunitário está atravessado pela ausência dos meios imprescindíveis de consumo coletivo tais como, infra-estrutura de saneamento (redes de esgoto, calçamento, energia elétrica, água encanada, etc.), saúde (fí-


sica e mental), moradias decentes, meios de transportes, escolas,


trabalho, etc. Noções preventivas de doenças e higiene (aqui entendida como a arte de conservar e recuperar a saúde) fazem parte dos programas de combate à miséria econômica.

Nestas comunidades o psicólogo comunitário atua na questão psico-político-social no sentido de buscar a reciprocidade entre os sujeitos, a ajuda mútua e o cooperativismo nas formas de associação. Para tanto, lança mão de seus conhecimentos de técnicas e práticas grupais. Incentivando as organizações próprias e a autonomia, o psicólogo trabalha pela construção de comunidades autônomas e livres. Consciente da importância da história dos grupos sociais, o psicólogo investiga, junto ás populações, as suas formações históricas.




A história de algumas comunidades da periferia belorizontina retrata lutas, movimentos, fracassos, derrotas e vitórias em quadros de passividade aparente, desencantos, descrenças ou esperanças. O bairro "Horto Florestal", por exemplo, ainda hoje traz as marcas de sua história traçada pelas linhas da primeira ferrovia e das oficinas da Central do Brasil datadas de 1919. Com uma história de greves de operários da Central e suas consequentes dispensas e remoções de emprego, o bairro "Horto" caracteriza-se também pela sua Banda de Música que sobrevive desde 1934 e uma igreja construída em 1946. A religiosidade dos moradores tem-se manifestado nas festas, nas visitas ao Presépio do Pipiripau e nas lembranças das atuações político-religiosas da JOC (Juventude Operária Católica), ali funda-

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da em 1967.

Dentre as histórias dos 400.000 favelados de Belo Horizonte podemos citar a dos moradores da "Vila Maria", situada no bairro "Gorduras", e que foi construída para abrigar flagelados das enchentes de 1979. As 824 casas de madeirit, sem divisões internas e sem banheiro, foram recusadas pela maioria dos flagelados e ocupadas por pessoas ainda mais carentes. Em meio a tamanha miséria, surgiu uma Associação de Moradores que tem promovido algumas melhorias no local (Posto de Saúde, cursos profissionalizantes e novas casas com recursos do BNH).

Um exemplo de imobilização sócio-política dos moradores é o caso da vila "Acaba Mundo", situada no bairro "Sion", que, com seus córregos poluídos e o fedor do lixo e detritos, sem qualquer infra-estrutura de saneamento, abriga cerca de 1.300 pessoas. Doenças, cenas de violência e alcoolismo são frequentes entre os moradores. Alguns deles expressam suas queixas de corrupção em relação ao presidente de sua Associação, que não promoveu nenhuma melhoria na vila e, possivelmente, tem contribuído para a desmobilização do frágil movimento de participação dos moradores. Em casos como estes, o psicólogo comunitário deve lançar mão de dispositivos de provocação contra o medo dos moradores e a miséria sócio-política reinante,tais como: promoção de reuniões, formações de grupos de jovens, incentivo a clubes de mães e outros.

Nas comunidades de nível sócio-econômico mais elevado, o psicólogo comunitário desenvolverá seu trabalho atento às reinvidica- ções dos diferentes movimentos citadinos. Estará alerta aos problemas gerados pela sociedade esquizo-moderna, que massifica a comunicação, polúi o ambiente, sufoca a diversidade, massacra a alteridade, especula sem freio na questão imobiliária e reduz os espaços de lazer e manifestação cultural. Alguns exemplos de mobilizações reivindicativas puderam ser vistos nos jornais dos últimos dias: "Moradores detém a marcha do metrô para Ipanema", "Moradores do Posto 6 (Copacabana) protestam contra a venda de terreno do Exército" e "Passeata ecológica reúne três mil estudantes do pré".

Reconhecendo como pontos de impasse nas comunidades modernas a crescente burocratização, a alta especialização e hierarquização do trabalho e o trabalho alienado do prazer, o psicólogo comuni-

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tário volta-se para a busca de uma autonomia, sem abandonar a perspectiva internacional, lutando contra o desperdício insensato dos recursos ambientais e procurando incrementar novas formas de relações entre o homem e a natureza.

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CRISES E ALTERNATIVAS DO MOVIMENTO POPULAR E SINDICAL

INDIVIDUALISMO OU COLETIVISMO

Palestra proferida pelo psicólogo William César Castilho Pereira(*)

Primeiramente, gostaria de agradecer a direção organizadora

pelo convite que me foi feito de estar aqui debatendo com os demais colegas e com todos vocês da assembléia.

O tema dessa mesa redonda foi previamente definido, com base em inúmeras indagações e diante de situações preocupantes de um refluxo dos movimentos populares, ou seja, dos movimentos coletivistas da sociedade. Tanto a nível das organizações institucionais (Escola, Universidade, Igrejas... etc.) como a nível das organizações populares e sindicais, percebemos um domínio de posições individuais sobre as posições coletivistas.

Acho importante nós encararmos de frente este momento que estamos denominando de crise dos diversos movimentos. Pois, nossa tendência natural é fugir e abandonar o barco. Exatamente porque a crise provoca uma série de fantasias persecutórias, de angústia, de fracasso de impotência. Tudo isso mobiliza a subjetividade do ser humano e, o faz fugir, se afastar e ficar só no seu canto. Aí vem aquela velha história: "o último que ficar apague a luz". Vai saindo um, saindo outro, mais um... até ficar o último sozinho, responsável, culpado, bode expiatório que deverá apagar a luz e ser o depositário do fracasso de todo o grupo.

É importante nos termos esta coragem de enfrentar e rever coletivamente a nossa prática. Duvidar sempre das coisas que a gente faz. Porque aquele que duvida e questiona, é aquele que sabe e constrói verdadeiramente um saber sólido. Aquele que não duvida, acha que sabe, mas seu saber é um saber onipotente, estéril, superficial. Pois ele nunca duvidou do que faz, nunca questionou suas convicções.

_________________________________________________________________________________

(*)É Professor Adjunto da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Exerce a profissão de psicólogo clínico. Trabalho com Educação Popular e CEB's. Autor dos livros: "Dinâmica de Grupos Populares" - "Uma Escola no Fundo do Quintal" e "Associação de Pais e Mestres". É sócio da ABRAPSO.

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Pois bem, vivemos no século XX. É lógico que as sociedades cientificistas, as instituições, a população de outros séculos fizeram discussões semelhantes sobre o homem e suas crises. Nós, além de compreendermos o homem moderno, temos que reler todo o seu passado histórico, suas determinações sociais, econômicas, culturais e psiquicas.



O século XX é chamado de século da modernidade. "Tudo está impregnado de moderno, tudo é moderno. Até as reações contra o moderno são modernas. A modernização é uma totalidade ideológica, histórica, somada a uma organização cultural, civilizacional: as mediações históricas, as instituições, universidades, escolas, códigos civis e penais, religião, meios de comunicação, etc. Tudo está impregnado de moderno". (9)

Mas a modernidade não é um fato isolado. Ela foi muito bem preparada há muitos séculos. Sua proposta foi sempre a de difundir e solidificar as práticas e vivências individualistas. O espaço para o coletivo não só foi reduzido, como também em muitas situações histór~ cas foi proibido, considerado desnecessário e altamente combatido com repressão "legal" e policial.

Descreveremos, a título de resumo, apenas para nos situar diante da história evolutiva de nossa sociedade, algumas formas individualistas que se tornaram as principais bases de sua sustentação.

BASES DO INDIVIDUALISMO

1) A Base Religiosa

O pedigree do individualismo moderno esteve solidificado na Renascença, século XV: a nossa herança cultural judaico-cristã. Em termos sociológicos, a emancipação do indivíduo ou sua transcendência pessoal se pautava no indivíduo-fora-do-mundo buscando Deus. O indivíduo se sente sozinho diante de Deus.(4)

A Igreja tinha nessa época (e ainda conserva muito disso) uma perspectiva fundamentalmente individualista, derivada de uma época de "salvação pessoal". Portanto, a salvação eterna era uma questão individual. "Salva-te a tua alma". As orações em comum não significavam nenhuma participação comunitária, coletiva. Cada um rezava individualmente, só que estavam juntos na capela.

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Após o período da Idade Média, precisamente no Século XVI surge a Reforma Protestante. Os movimentos Luterano e Calvinista impõem uma revisão da Cristandade. É bom lembrar que, neste período, as relações de produção foram alteradas com o advento do Capitalismo Mercantilista.

Consequentemente esse novo movimento econômico, político e religioso trouxe várias conexões e indagações, como: a relação do Capitalismo Comercial com a ética protestante; a ética protestante auxiliou a expansão do Capitalismo, ou o Capitalismo Comercial fez surgir a ética protestante? A Reforma Protestante com a nova mentalidade individual não auxiliou a sociedade a assimilar as práticas do Capitalismo? A nova prática financeira, o capital-dinheiro, produzindo mais dinheiro, empréstimo a juros, não propiciaram uma nova concepção do Homem?(l)

Além do culto do indivíduo com Deus, da conexao do protestantismo com o Capitalismo Comercial, a Igreja também desenvolveu o processo de "desculturação", de que fala Goffman, pela manutenção de práticas autoritárias, pelo sistema de hierarquia, de obediência e subserviência.

Este período da Cristandade, e mesmo o da Reforma, foram paralelamente vividos por nós na epoca do Descobrimento do Brasil e dos períodos do Brasil Colônia - Império - República. Consequentemente, trouxeram grandes determinações e influências culturais, políticas, econômicas, etc., para o nosso povo e nossas organizaçoes.

Após 500 anos, com o advento do Concílio Vaticano II, assistimos a uma mudança na metafísica da Igreja: do indivíduo-fora-do mundo buscando Deus, para o indivíduo-no-mundo. As principais conclusões conciliares foram: inserção da Igreja no mundo - realidade material; valorização e participação do leigo; renovação litúrgica e nova concepção do sacramento; ênfase na oração comunitária; abertura da Igreja ao mundo, ou seja, diminuição de distância entre o sagrado e o profano; diálogo com a sociedade científica; documentos e pronunciamentos sobre a posição da Igreja na vida política, sistema de governo, etc.

Mas a situação na América Latina era completamente diferente da Europa, palco do Concílio Vaticano II. Aqui vivíamos com ditadura militar em quase todos os países, dívida externa exacerbada, desem-

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prego, fome e tortura política. Problemas graves de saúde, habitação, educação, infra-estrutura urbana, etc. Evidentemente que as conclusões do Concílio passaram a ser insignificantes para nós.



Diante disso, setores da Igreja e das organizações populares, insatisfeitos com tais conclusões, puxam o cordão da Teologia da Libertação. Pois o Concílio não atingiu o ponto nevrálgico das questões econômicas, social, política, cultural dos povos do Terceiro Mundo. Isso só foi feito com os encontros de Medellin e Puebla em 1968 e 1979, respectivamente. As principais conclusões tiradas desses encontros foram: crítica ao sistema institucional, hierárquico, burocrata e individualista da Igreja; elaboração de uma linha de pastoral baseada e redimensionada nos aspectos históricos, sociais, políticos, econômicos e antropológicos do nosso povo. Criação das CEB's e mobilização nacional em torno dos temas gritantes da América Latina, como: reforma agrária, favelas, moradia, salário, poluição, o negro, o índio.

Mas, apesar de todo esse esforço de setores da igreja e do fato de algumas Igrejas Protestantes mudarem sua ótica e seu modo de fazer igreja junto as camadas subalternas, apesar da Igreja ser considerada no relatório do Rockfeller, na década de 70, como inimiga número um do Capitalismo Internacional, ela passou a ter como sua principal rival a "igreja eletrônica" da modernidade e a proliferação de seitas pentecostais, verdadeira embriaguez da ideologia política reacionária.

Essa organizaçao da "igreja eletrônica" despeja no ar semanalmente forte carga emocional, agressividade com relação as regiões afro-brasileiras, contra o curandeirismo, dissemina uma prática individualista, forte repressão psíquica e alienação política. Rex Rumbard é um dos principais agentes dessa prática religiosa nos Estados Unidos, com 2 milhões de telespectadores semanais, 202 estações de T.V. com uma venda anual de 13 milhões de discos e 233 milhões de dólares arrecadados anualmente. No Brasil, David Miranda possui 537 emissoras de rádio, onde despeja no ar diariamente cenas de expulsão de demônios, discurso repressivo contra o fumo, a sexualidade, o álcool, a moda e o comunismo.(9)

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2) A Influência do Pensamento Filosófico e da Literatura.

No século XVIII (1.700), teve iníio o niilismo que foi solenizado por Nietzsche. Heidegger assinala que ele é uma das chaves de leitura da modernidade. O niilismo se exprime ideologicamente no individualismo: eu sou o centro do mundo, o mundo existe para mim. O "Eu" se transformou na medida de todas as coisas. (9), (6).

Neste mesmo periodo de 1.700, surge o Liberalismo, com raízes no Racionalismo e no Empirismo. O individualismo impõe-se como valor determinante da concepção liberal. Em consequência, o Estado Liberal, passa a defender esse postulado fundamental.

Somente a essas concepções, se fortifica o pensamento Positivista. Para o Positivismo, a "ciência é a única porta de salvação para o homem assim coisificado". O Positivismo casa-se com a fase tec- nicista e consumista da sociedade capitalista.(6)

3) Era da Modernidade

Já no século XIX. com a Revolução Industrial e com o forta- lecimento do modo de produção capitalista, solidifica-se e instala-se a Era da Modernidade.

Neste mesmo período, mais ou menos na metade do século XIX, no campo da literatura surge o Romantismo com forte característica do individualismo.

Diante dessas novas determinações sociais, econômicas, cul- turais, políticas, qual é a nossa concepção de homem? Se a afirmação do indivíduo se dá com a afirmação social, quem é este Homem da Moder- nidade?

Vejamos então, algumas características desse Homem Moderno: cada época desenvolve suas próprias formas de patologia, que exprimem de forma exagerada, sua estrutura de caráter subjacente.

"No final do século XIX, a era freudiana, a histeria e as neuroses obsessivas levaram a extremos os traços da personalidade associados à ordem capitalista no estágio mais anterior de seu desenvol- vimento: a ganância, a devoção fanática ao trabalho e à ordens de insti- tuições, e uma forte repressão sexual". (5)

Após a Segunda Guerra Mundial, com o surgimento do movimento fascista e o fortalecimento do Capitalismo e Liberalismo, as desordens esquizofrênicas ou distúrbios de caráter, tem atraído crescente

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atenção dos psicólogos e psiquiatras. Não é por acaso que temos um governador com esses traços regendo Minas Gerais.

Pois bem, descreveremos agora alguns campos de atuação do individualismo na Era da Modernidade.

A) Individualismo no Campo Ideológico

Na sociedade moderna, não há espaço para experiências cole- tivas. Pelo contrário: tudo é muito bem arquitetado e organizado para experiências individuais. Pois o "EU" se transformou na medida de to- das as coisas, eu sou o centro do mundo, o mundo existe só para mim.O "Eu grandioso, o novo Deus. A verdade passou a ser instrumentalizada, dependendo de cada "Eu". A cultura do individualismo competitivo é o oxigênio do Capitalismo. Essa cultura é absorvida na super-estrutura ideológica da sociedade, de modo a passar para as pessoas um comportamento competitivo, mesmo que elas não sejam capitalistas.

Que permitam os marxistas fazer uma colocação mais ampla da situação do nosso sistema, fugindo um pouco daquelas clássicas ca- tegorias (que são verdadeiras; mas são as únicas explicações) como: divisão de classe, luta de classe, pobre e rico, questões que Marx situa muito bem.

Gostaria de fugir dessas questões e falar um pouco do nosso sistema capitalista em seus aspectos subjetivos. Quem não viu o filme "A Classe Operária vai ao Paraíso" deve vê-lo. Ontem á noite eu o revi, juntamente com um grupo de amigos que se preparam para assumir a campanha política municipal do próximo ano. Após a projeção do filme, realizamos um debate e nos baseamos no texto do Dr. Gregório Baremblitt, que agora me proponho comentar com vocês.

O filme mostra que esse sistema em que vivemos há muito tempo, não só mutila o corpo do trabalhador, não só estraga esse corpo enquanto matéria, enquanto carne, mas penetra na mente do indivíduo, na sua vida sexual, atravessa a vida da família, da escola, das instituições, dos sonhos, das nossas aspirações. Ou seja, esse sistema violenta muito mais a subjetividade do ser humano do que o seu corpo. E isso a meu ver tem uma explicação muito profunda, muito grande, põe que ele vai inclusive perverter, desviar, atrapalhar de uma certa forma aquilo que nós produzimos em termo de sonho, de aspirações, de imaginações, quer dizer, o mundo subjetivo do ser humano. Isso para

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mim é mais grave. E tudo está preso a esta estrutura, esse sistema. E o ser humano está dentro dele, dessa armadilha. E essa armadilha funciona muito bem. Ninguém pode duvidar de como esse sistema capitalista, esse modo de produção, baseado no lucro, na produção do dinheiro, está bem articulado, muito bem feito, afetando a todos, indistintamente e complicando esta questão da subjetividade.(2)

Agora algumas perguntas: Quem é que maneja este sistema? Quem é que o controla? Para que isso é feito?

São perguntas difíceis de responder rapidamente, por exemplo é a multinacional. Mas acredito que não seja só isso. Isso explica, mas não justifica.

O enredo do filme "A Classe Operária Vai ao Paraíso", mostra um operário jovem, (até a metade do filme ele é um puxa-saco do patrão) que produz exacerbadamente sendo inclusive modelo de produção para os companheiros. Até os cronometrístas da fábrica recorrem a ele como exemplo para os demais. Um dia ele vai visitar um operário, um homem mais velho consagrado pela história do movimento operário, que enlouqueceu e foi internado em um hospital psiquiátrico como psicótico crônico. Então o operário jovem encontra-se com o velho que lhe diz: "Olha, nós estamos aqui porque a fábrica produziu esta loucura, ou seja, nós estamos aqui porque este sistema capitalista produziu um louco, doente mental". Em seguida o operário mais jovem indaga: "Aqui



tem rico? Rico também enlouquece? " E o velho responde: "Enlouquece, tem rico louco e tem pobre louco", ou seja, o sistema não perdoa nin- guém. Aí o novo olha a sua volta e vê que ali só tem operário e gente pobre, e novamente indaga: "Mas eu não estou vendo os ricos?" E o ve- lho sorri como quem diz: os ricos estão em outro hospício e se aqui eles estivessem não suportariam nosso riso, nosso olhar. Quer dizer, o riso como símbolo da subversão:"Oh, vocês que inventaram, estão aqui também no mesmo inferno".

"É interessante este filme porque mostra que o sistema pro- duz o louco em toda esfera, em toda camada social, em toda classe. Es- tão mais uma vez a gente pergunta: quem é que maneja esse sistema? Quem controla? Para que é feito tudo isto? A explicação que nós temos é que o sistema é uma entidade abstrata, embora, nós o vejamos na manipulação concreta do dinheiro. O sistema capitalista está muito mais na ordem simbólica das coisas do que na ordem materiaL Então, a enti-

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dade abstrata-dinheiro é que controla e mantém o sistema e faz com que funcione muito bem. O dinheiro é que faz caminhar esse processo num único sentido: produzir mais, produzir mais, e mais... é o dinheiro, e não o ser humano ou uma máquina, que faz caminhar esse processo".(2)

Com isto, essa produção exacerbada de dinheiro, dinheiro, produz concomitantemente esse inferno que nós estamos vivendo, esse inferno de loucura. E essa felicidade que esse dinheiro promete ele a transforma exatamente numa felicidade de inferno. E a loucura de que estamos falando, não é produzida porque o sistema nervoso do homem é torto, nasceu errado. O que acontece é que o ser humano tem sua estrutura psíquica pervertida por esse sistema que o desvia de sua finalidade primordial, que é exatamente a felicidade do indivíduo. Em certo sentido, desde criança, nossa formação, o nosso desejo de sermos felizes foi de certa forma desviado, foi realmente pervertido. Não tem campo nenhum que não seja atingido por essa loucura: a vida sexual, a vida familiar, a vida da educação, dos sindicatos, principalmente a vida da produção que é a fábrica, o cerne dessa questão.

Como dizia, ontem lá em casa, quando v1amos o filme junto com alguns operários, a gente percebia numa violenta tensão no corpo deles. Porque estava sendo ali espelhada uma situação que eles vivem de uma forma inconsciente e que o filme, uma obra de arte teve a capacidade de não omitir. A obra de arte tem esse poder: vai direto e penetra no inconsciente do indivíduo e desencadeia um processo de simbolização. Ao ver o sol você pode vê-lo como símbolo da vida, a cruz como símbolo da cristandade. No caso, a loucura mostrada no filme é para o operário o símbolo da angústia e drama provocado por esse sistema que o esmaga.

Aquilo tudo do qual o operário se aliena, na obra de arte não há como escapar. A influência do teatro, da literatura, do cinema e outras formas de arte, no inconsciente de uma pessoa, é profunda. A arte tem uma outra linguagem, a linguagem da fantasia, da subjetividade. Não é essa linguagem formal, racional, que é própria do mundo intelectual, como a nossa. Não é por acaso que a exibição desse filme no circuito comercial foi proibida aqui no Brasil. Pois, especificamente este filme funciona como analisador da realidade operária. E a burguesia sempre dificultou a classe operária. E a burguesia sempre dificultou a classe operária de ter acesso ao simbólico.

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Como disse, esse sistema atravessa todos os segmentos da nossa vida. E o homem dentro desse sistema, como se sente? Como vive? Nesse sistema, o homem vive numa oscilação constante. Num momento ele busca atividades que permitam a ele uma sensação de onipotência e no outro eLe experimenta sensações de impotência, de profunda incapacidade de realização. O não acontecimento da realização na fase de onipotência dá lugar à outra fase de impotência ou realizações fantasiosas.



O filme termina mostrando os operários num delírio, numa alucinação coletiva, chamado por isso de "paraíso". Ou seja, não deu para lutar contra os patrões, contra o Capitalismo. Então nós vamos entrar agora no nosso "paraíso artificial". E eles acabam dentro de uma seção da fábrica, alucinando, delirando e criando um mundo mágico do louco, o mundo do louco no bom sentido: "vamos sair dessa realidade tão dura e vamos procurar uma forma de alienação".

Constantemente vemos uma massa enorme de nossa população seja rica ou pobre, buscando esse paraíso alienante. Nós podemos colocar aí nesse bloco o futebol, não como esporte coletivo de desenvolvimento físico ou de lazer, mas como realização de uma massa alucinante. As pessoas não vão ao estádio somente para ver o jogo, mas com outro desejo: fazer com que o time de futebol incorpore na vida dele, tão fracassada, tão impotente, a realização de vitória, da gana, da força. Se eu uso o esporte só para isso, na verdade eu o estou usando como forma alucinante, delirante. Também entra aí o carnaval, o populismo, as seitas religiosas, que criam também um paraíso artificial. No local do culto, você delira, você fica maluco. É como experimentar uma droga. Você fica coletivamente maluco. Você satisfaz uma série de realizações inconscientes. O hospital psiquiátrico, as prisões, os conventos (de uma certa forma) os crimes, tudo isso é uma forma enlouquecida, que o homem encontra para poder fugir desta realidade tão dura para ele. Existem muitas formas de fugir da realidade. A nossa população vai ao posto de saúde à procura de um remédio que muitas vezes pouco tem de poder químico capaz de alterar as funções orgânicas. O remédio tem outro poder, um poder mágico de cura, de fetiche, fantasiado por quem o procura. E na relação com o médico esta- belece-se uma relação de afeto, prazer ou gozo, satisfação de carência. E ela acaba voltando ali sempre à procura de realização de seu

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