Psicologia e sociedade



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Revista da Associação Brasileira de Psicologia Social – ABRAPSO





Ano III No 3 setembro 1987


Publicação: ABRAPSO


PSICOLOGIA E SOCIEDADE

Revista da ABRAPSO ­Associação Brasileira de Psicologia Social

Ano II, No 3, Setembro/87

Anais do II Encontro Nacional e II Encontro Mineiro de Psicologia Social

ABRAPSO


Associação Brasileira de

Psicologia Social

NOTA EXPLICATIVA

Este número da revista "Psicologia e So- ciedade" está sendo publicado com atraso, numa tentativa de resolver as dificuldades encontradas pela gestão anterior da ABRAPSO.

Esta precária edição contém o "Anais do II Encontro Nacional e II Encontro Mineiro de Psicologia Social", realizado em Belo Horizonte, em novembro de 1986. É dirigida aos sócios da ABRAPSO quites com a anuidade de 1987.

Na esperança de estarmos contribuindo

com a melhor solução, apresentamos o no 3 de

"Psicologia e Sociedade".


Conselho Diretor da ABRAPSO-

­Gestão 1987/1989

Março - 1989

ORGANIZADORES DO EVENTO:

Elizabeth de Melo Bomfim

Marcos Vieira Silva

PROMOÇÃO:

Departamento de Psicologia - UFMG Regina Helena Campos

Departamento de Psicologia – PUC/MG Vânia Franco

Associação Brasileira de Psicologia Social/ ABRAPSO Angela Caniato

COMISSÃO DE APOIO:

Marí1ia N. Mata Machado

Maria Stella GouIart

Lúcia Afonso

UMA EDIÇÃO DE:

Elizabeth de Melo Bomfim

Rua Carangola, 288 - Santo Antônio 3o andar - Caixa Postal 253

Belo Horizonte - Minas Gerais - 30.000

NOTA INTRODUTÓRIA

O II Encontro Nacional e o II Encontro Mineiro de Psicologia Social, realizados em novembro de 1986, em Belo Horizonte, pretenderam reunir professores, profis- sionais, alunos e pessoas interessadas na área psicossociológica e, assim contribuir para a divulgação e incrementação do conhecimento e da prática psicossocial Inte- ressados na produção teórica e prática não só de profissionais como também de alu- ­nos e estagiários, o evento procurou ser um lugar de debate sério porém não sisudo. Entre mesas redondas, conferências, debates, comunicações de trabalhos, exposições, filmes, representação teatral tivemos tempo para saborear o cafezinho e o pão de queijo mineiros.

Na programação estiveram presentes temas relacionados com a Psicologia Social, entre os quais: Política, Violência, Ecologia, Delegacias de Mulheres, Sexualida- ­de, Sindicatos, Saúde, Educação, Comunidades, Cultura, Arte e Comunicação de Mas- ­sa. Registramos, também, uma conferência sobre a Psicologia em Cuba feita pelo

Prof.Manuel Calvino, da Universidade de Havana.

Infelizmente não foi possível reproduzir todos os acontecimentos mas, na me- dida do possível, este texto reflete as apresentações ocorridas durante o evento.

Gostaríamos de agradecer o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Es­- tado de Minas Gerais (FAPEMIG) para a publicação deste "Anais" e poder dedicá-lo, por sua força e amor à vida, à memória da Professora Néa M.Correa.


A Editora

SUMÁRIO

Texto de abertura

Elizabeth de MeIo Bomfim 7

Aos participantes

Vânia C. Franco 9

Abertura do II Encontro Nacional

Angela Caniato 11

MESAS REDONDAS E CONFERÊNCIAS


Sexualidade e instituições

Marília Novais da Mata Machado

Viagem às utopias: crise no imaginário social

Lúcia Afonso

Trabalho, Participação Social e Psicologia Social

Brígido Vizeu Camargo

Delegacias de Mulheres

Karin ElIen Von Smigay

A luta de ex-favelados pela moradia como parte essencial da formação da cons-

ciência social

Ângela Caniato

O namoro entre Psicologia e Arte

Elizabeth de Melo Bomfjm

Influência junguiana sobre o artístico

André Versiani Barbosa

Última Hora

Patrícia Moran Fernandes

De uma esquisita arte, parte uma esquizo análise

Simone Fonseca

Representações sociais e manifestações artísticas

Andréa Guisoli/Eliana Delfino/EIizabeth Bomfim/Luiza Guimarães/'Vinicius

Queiroz


Notas sobre o estudo de representação social

Edson de Souza Filho

A Psicologia em Cuba

Manuel Angel Calviño


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COMUNICAÇÔES DE TRABALHOS

"'Acaba Mundo": Da proposta de urbanização a um projeto de ecologia huma-­ na em favela

Elizabeth Bomfim/Maria Emt1ia Torres Lima/Man1ia N. Mata Machado 57

O comportamento de massa no metrô de São Paulo

Cristina Borges/Marise R.Vianna 81

Pesquisa e intervenção em bairro

Angela Caniato/l.eila M. F. Salles 86

Notas para uma proposta de atuação do psicólogo na área de saúde pública Andréa Guisoli/Eliana DelfIno/Luisa Guimarães/Marília N. Mata Machado/

Vinicius Queiroz 94

Uma intervenção psicossociológica numa creche da rede municipal de Vitória-ES Maria Helena Amaral/Elizabeth Barros/Luciene Donadio/Arion Oliveira/Lie-

nara Varanda 102

Trabalho institucional - um desafIo

Carlos Campos/Wanda Miranda/Jovaneide Polon/lulacy Singular 103 Análise institucional na escola - subversão ou modismo

Elizabeth Andrade/Elizabeth Barros/Claudia Jorge 104 Desnovelando a psicologia da comunicação de massa

Elizabeth de Melo Bomfim 106

Comunicação e Psicologia de Massa : a hipótese esquecida

Lúcia Afonso 109

Um terceiro escrito sobre psicologia e comunicação

Marilia Novais Mata Machado 112

Tancredo Neves n'a Imprensa

Edson de Souza Filho 114

Psicologia Social e Transferência Social

Brígido V. Camargo 117

Burocracia, poder e produção de subjetividade

Kleber Prado Filho 119

Apontamentos para uma critica da reforma do setor saúde

Márcia Mezêncio/Laura Cony 120

O modelo psicanalítico quando subordinado ao modelo médico

Judith Albuquerque/Maria Letícia Bax/Thais Melo 128

Aspectos da Psicologia Comunitária e Ecologia Humana em Cuba

Elisabeth de MeIo Bomfim 132

Relato de Experiência

Marília Novais da Mata Machado 137

Algo no Tempo

Casa da Vovó 142

TEXTO DE ABERTURA DO II ENCONTRO NACIONAL E

II ENCONTRO MINEIRO DE PSICOLOGIA SOCIAl.



Elizabeth de Melo Bomfim{*}

Na abertura do I Encontro Mineiro de Psicologia Social convidamos, a todos os participantes, a persistirem no caminho e no sonho de uma psicossociologia mais cria­tivamente significativa, lembrando uma citação de "As mil e uma noites"; "a verdade não é feita de um único sonho mas da soma de muitos sonhos".

Hoje, na abertura do II Encontro Mineiro de Psicologia Social que realiza-se, juntamente, com o II Encontro Nacional de Psicologia Social gostaria de, ao dar as boas vindas a todos, insistir no mesmo sonho, lembrando o conto "As ruínas circulares" de Jorge Luis Borges, onde o forasteiro sonha, a cada noite, em cada minúncia, um outro homem, a partir desta "matéria incoerente e vertiginosa de que se compõem os sonhos". Assim, na esperança de que do sonho que muitos de nós te­mos sonhado, o sonhado possa despertar e, ao despertar, partir, pois sabemos que tudo que desperta, parte, abrimos este evento. E o fazemos na expectativa de que as partições sejam frutíferas e que possam espalhar benefícios.

Estão abertos o II Encontro Nacional e o II Encontro Mineiro de Psicologia Social.

Belo Horizonte, 7 de novembro de 1986.
___________

(*) Professora do Departamento de Psicologia – UFMG.


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AOS PARTICIPANTES DO II ENCONTRO NACIONAL DE PSICOLOGIA SOCIAL E II ENCON"TRO MINEIRO DE PSICOLOGIA SOCIAL

Vânia C. Franco (* )

o Departamento de Psicologia da PUC/MG, em conjunto com o Departamento de Psicologia da UFMG e com a ABRAPSO, estão promovendo o II Encontro Nacional de Psicologia Social e II Encontro Mineiro de Psicologia Social. O referido encontro acontece após um movimento grevista da PUC/MG, o que dificultou a coordenação, a articulação e até mesmo a maior divulgação do evento, Não obstante, o Encontro representa um momento significativo de revitalização do "fazer" acadêmico, reduzido muitas vezes ao exercício docente em sala de aula. Em encontros desta natureza é possível vislumbrar e discutir alternativas para a ação do psicólogo, reveladas na diversidade da temática proposta e na discussão de sua "práxis".

Os temas relacionam a Psicologia Social com a política, a saúde, a educação, o trabalho comunitário, a violência, etc., além de incorporar conferência sobre Psicologia em Cuba, através do Dr.. Manoel Angel Calviño, da Universidade de Havana. Neste sentido, cria-se a oportunidade para uma reflexão acerca do vasto campo coberto pela Psicologia Social e das alternativas metodológicas para sua abordagem.

Ao participar de eventos desta natureza, espera o Departamento de Psicologia da PUC/MG ampliar seus contatos e facilitar a integração de diferentes correntes de pensamento e concepção da Psicologia.

Ao mesmo tempo, em que tenta recuperar o significado da promoção como uma d1mensão intrínseca à atividade acadêmica, ao lado da pesquisa, ensino e extensão.

Queremos ainda agradecer a comissão organizadora Professora Elizabeth Bom­fim da UFMG e Professor Marcos Vieira Silva e Professora Stella Brandão Goulart da PUC/MG, cujo empenho e trabalho permitiram que este evento se realizasse.

(*) Chefe do Departamento de Psicologia - PUC/MG.

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ABERTURA DO II ENCONTRO NACIONAL DE PSICOLOGIA SOCIAL



Ângela Caniato ( * )

Na condição de Presidente Nacional da Associação Brasileira de Psicologia Social (ABRAPSO) quero agradecer às chefes dos Departamentos de Psicologia da UFMG e da PUC/BH, respectivamente, Regina Helena Campos e Vânia Franco, pelo empenho que tiveram na promoção deste Encontro; um carinho especial para Elizabeth de MeIo Bomfim e Marcos Vieira Silva que se desdobraram na organização do II Encontro Mineiro de Psicologia Social e II Encontro Nacional de Psicologia Social, ambos promovidos, também, pela ABRAPSO; meu reconhecimento a todos os participantes deste Encontro que vieram de vários Estados do Brasil acompanhar os trabalhos que aqui se desenvolverão.

Aproveito a oportunidade para informar o que é a ABRAPSO. A Associação é uma entidade científica que surgiu em julho de 1980, durante a 32a Reunião Anual da SBPC, acompanhando os questionamentos epistemológicos e políticos que se realizavam na Psicologia Social desde a década de 50. Ela tem a finalidade de congregar estudantes e profissionais da área da psicologia e ciências afins, propiciar a difusão e o intercâmbio de informações sobre a Psicologia Social e organizar encontros, cursos e conferências, acompanhando o desenvolvimento da Psicologia Social no Brasil.

Organiza, anualmente, encontros em todas as suas Regionais que são: Regional São Paulo, Regional Minas Gerais e Regional Sul (Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul).

A partir de 1986 voltou a organizar Encontros Nacionais, sendo que o segundo é este de Belo Horizonte e o próximo será em São Paulo nos dia.; 14 à 17/05/87. Desde 1980 participa das Reuniões Anuais da SBPC com várias atividades: cursos, mesas redondas e simpósios.

­­_____________

(*) Presidente da Associa~o Brasileira de Psicologia Social

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Até 1986 a ABRAPSO mantinha Boletins para informes e comunicação de trabalhos entre seus associados e entidades congêneres e a partir deste ano passou a publicar a Revista PSICOLOGIA E SOCIEDADE que já está em seu segundo número.

Existem, atualmente, cinco Núcleos (Belém, Paraíba. Bahia e Espírito Santo),

onde associados vem divulgando a política científica da ABRAPSO.

Espero que todos possam aproveitar este II Encontro Nacional da ABRAPSO e levar daqui pa.ra seus cursos e diferentes Estados do Brasil os questionamentos na Psicologia Social que serão difundidos.

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MESAS REDONDAS E CONFERÊNCIAS


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SEXUALIDADE E INSTITUIÇÕES(*)



Marília Novais da Mata Machado(**)

Os filhos homens se reúnem, assassinam o pai e devoram-lhe o corpo. Os homens agora, livres da autoridade, são iguais; nenhum deles pode substituir o pai pois se arriscaria ao mesmo destino. Decidem que nenhum poderá possuir as mulheres do pai e nenhum matará. Surgem assim as primeiras normas morais e, com elas, a sociedade e suas instituições.

O banquete totêmico, indefInidamente repetido, não permite que se esqueça aquele assassinato e suas conseqüências. O pai é representado pelo animal totem sa­grado, periodicamente assassinado, lamentado e consumido cerimoniosamente. As religiões repetem o cerimonial, assim como cada uma de nossas refeições.

O desejo de assassinar nossos pais e possuir (ser possuído) por eles persiste inscrito em cada um de nós. Cada uma de nossas normas e de nossas instituições lembra-nos da proibição. Quando elas nos falham, criamos outras normas e outras instituições. A sociedade assim se institui, repressoramente.

Contra estas hipóteses "pessimistas" de Freud, expressas sobretudo em Totem e Tabu (1913) insurgem psicanalistas tais como Reich e Marcuse. Querem o fim da repressão, em especial da repressão sexual, querem a libertação, em especial a libertação orgásmica. Propõem a plena satisfação dos desejos sexuais e a redescoberta de uma dimensão estético-erótica.

Prolifera o discurso sobre a sexualidade, desejantemente libertador. À institucionalização do discurso coincide a institucionalização de novas normas. Reich, Marcuse, relatórios Hite, movimentos de libertação do corpo e encontros de sexologia impõem agora um padrão revolucionário para o homem e/ou a mulher sexual-


______________

(*) Texto apresentado no 1Il Encontro Nacional de Sexologia (1985).

(**) Professora da Universidade Federal de Minas Gerais.

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mente livres: ausência de qualquer disfunção sexual, erétil ou ejaculatória, saudável apetite e orgasmo total. Crianças recebem aulas sobre educação sexual, prisioneiros adquirem direito a visitas conjugais como prêmio de bom comportamento, a sexualidade em instituições psiquiátricas é vista com olhos mais condescendentes e existem os consultórios para tratar daqueles problemáticos que não se encaixam no padrão.

Deixamos há um século as preocupações com a masturbação infantil, suposta­mente causadora de epidemias e comprometedora da espécie humana. Colégios já não se ocupam tanto com a disciplina do sexo e estamos longe daquela opinião médica do Século XIX que, segundo Poste r (1979),

advertia inequivocamente os pais sobre os perigos da masturbação entre os quais se incluíam acne, torpor mental, hemorróidas, tumores, homossexualidade, loucura e, finalmente, a morte. Foram desenvolvidas e vendidas no mercado invenções destinadas a ajudar os pais na guerra contra a masturbação infantil. Havia anéis com dentes afiados para impedir a ereção e dis­positivos que faziam soar um alarme quando o pênis endurecia. A solução final nessa política desvairava de repressão era a cirurgia. Médicos nos Estados Unidos, França, Alemanha e Inglaterra, pelo menos durante um curto período, realizaram em meninos e meninas circuncisões, cauterizações, infibulações dos grandes lábios da vulva, tudo isso para cercear a masturbação. (p. 192).

Abandonamos o ferro em brasa que controlava a expressão da sexualidade infantil. Nosso novo padrão, comparado aos do Século XVIII, e ao vitoriano, contemporâneo de Freud, é bem diferente, Entretanto, é igualmente normativo, igualmente repressor: continuamos, por exemplo, com as cirurgias padronizadoras de um certo desempenho sexual, o único “saudável”, nos moldes de Reich e Hite.

Mudamos, com nossos movimentos libertários, as instituições educacionais, médicas, de produção e controle e chegamos a novas formas instituciona1izadas, às vezes mais, às vezes menos repressoras, sempre questionadas, sempre em mudança,

A distinção repressão-libertação do desejo sexual parece assim bastante inútil.

O discurso libertador mostra-se repressor. Resultados sociais de uma postura libertadora ou repressora são igualmente normativos. A oposição repressão-libertação oferece poucas pistas para se chegar ao conhecimento da sexualidade. Assim, Foucault mostra-nos que,

onde a sexualidade é mais. livre que os moralistas da Antiguidade se interrogaram com mais intensidade e que chegaram a formular as doutrinas mais rigorosas. O exemplo mais simples: o estatuto das mulheres casadas lhes proibia qualquer relação sexual fora do casamento; mas sobre este "mono-

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pólio", quase nada se encontra de reflexão filosófica, nem de preocupação teórica. Em compensação o amor com os rapazes era livre (dentro de certos limites) e é sobre isto que se elaborou toda1 uma concepção do comedimento, da abstinência e da ligação não sexual. (Ewald, 1985, p. 77).



O próprio discurso sobre a sexualidade parece também inútil. Além de beirar sempre a normatização, nos remete a uma verdadeira institucionalização da sexualidade - o sexo é produzido, controlado, vigiado e regulado. Foucault e Sennet (1981) compartilham da opinião de que a sexualidade tem se tomado tão importante que se institui como exigência de definição e conhecimento de si mesmo. Só nos conhece­mos, só sabemos quem somos, quando conhecemos a nossa própria sexualidade.

Foucault (1977) chega a dizer que vivemos sob uma "austera monarquia do sexo", o que nos leva a "votar-nos à tarefa infinita de forçar seu segredo e de extorquir a essa sombra as confissões mais verdadeiras." (p. 149) Otimista, Foucault (1979) vê chegar "o fim deste morno deserto de sexualidade, o fim da monarquia do sexo" e acredita ouvir um "sussurro anti-sexo" (p. 235). Finalmente, após escrever três volumes sobre a História da Sexualidade, conclui: "devo confessar que estou muito mais interessado pelos problemas concernentes às técnicas de si mesmo que pelo sexo ... O sexo é enfadonho." (Escobar, 1984, p. 31).

Desta forma, Foucault, ferrenho crítico da prática psicanalítica - que, segundo sugere, teria apenas criado cem "circunspeção" e "prudência médica" (1977, p. 11) um lugar privilegiado, o divã, no qual clientes poderiam discursar a respeito de sua própria sexualidade - e também crítico dos tímidos "arrebatamentos de 'Reich" (l971, p.11), aproxima-se daquela primeira visão freudiana da psicanálise - o desejo impossível de ser satisfeito. Foucault rebate a hipótese repressiva e demonstra que a história dos últimos séculos nas sociedades ocidentais não mostra uma atuação de um poder essencialmente repressivo (1977, p. 79). Há antes uma proliferação do discurso sobre a sexualidade. Chega então à formulação de que "a liberação sexual passa pelo abandono da perspectiva do desejo"; "é o discurso da sexualidade e o objeto desejo que precisam ser abandonados".

Aqui, não se trata mais de liberar o desejo sexual para se chegar à libertação.

A perspectiva do desejo tem-nos levado sempre para os caminhos da repressão ou da libertação e entre estes dois opostos apenas produzidos discursos normativos. Toda a discussão sobre a sexualidade, atendo-se ao plano do intelecto e caindo na oscilação entre opostos leva apenas a descrição e argumentos. O sexo vivo, tal qual se dá, permanece fora do alcance do intelecto. Está também fora do alcance do discurso pois este é necessariamente ligado à convenção da linguagem. O sexo é para ser percebido e sentido e não abstraído conceitualmente.

A verdadeira libertação seria a do não-desejo. Não me refiro à temperança grega, tão bem estudada por Foucault (1984), no segundo volume de sua História da Sexualidade. Refiro-me antes a um trabalho subjetivo e consciente de suspender e controlar o próprio desejo. o que exige, como a ascese grega, treinamento. Não exi-

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ge repressão, mas requer uma mente tranqüila. Uma vez que o desejo esteja presente, a sua satisfação gera enorme felicidade. Mas não convém que nos apeguemos a ele, procuremos sempre mais e mais satisfação. O desejo primeiro nos toma, depois somos inteiramente tomados por ele. Se não é satisfeito, traz dor e sofrimento. Uma vez satisfeito, pode levar à busca de novas intensidades de experiência e, em conseqüência, à insaciedade, um gosto amargo na boca. A busca constante de renovação da satisfação nunca se completa e pode escravizar o sujeito desejante. Para terminar o sofrimento decorrente desta insastifatoriedade, seria necessário suprimir-lhe a causa, cessando com o próprio desejo: não desejando matar o pai primeiro, nem erigindo uma sociedade fundada na proibição.



Neste nível de análise, as instituições tem muito pouco a ver com a sexualidade. Tem apenas a ver com o discurso que elas próprias produzem sobre a sexualidade. Não somos convidados para falar sobre temas equiva1entes tais como "a respiração e as instituições", "o caminhar e as instituições", "o comer e as instituições", "o dormir e as instituições". Não fazemos sexo com as instituições. Baudrillard (1984) conta-nos que Barthes dizia sobre o Japão: "Ali, a sexualidade está no sexo e em nenhum outro lugar. Nos Estados Unidos, á sexua1idade está em toda parte, me­nos no sexo" (p. 23). Usamos, talvez em excesso, a lente americana.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Baudrillard, J. Esquecer Foucault. Rio de Janeiro: Rocco, 1984.

Escobar, C.H. A geneanologia (Foucault) ou os "leninismos" na materialização de uma política nietzchiana. In Foucault, M. O Dossier. Últimas entrevistas. Rio de Janeiro: Taurus, 1984.

Ewald, F. O cuidado com a verdade. In Foucault, M. O dossier. Últimas entrevistas.

Rio de Janeiro: Taurus, 1984.

Foucault , M. História da Sexualidade. I. A vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1977.

Foucault, M. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979.

Foucault, M. História da Sexualidade. II. O uso dos prazeres. Rio de Janeiro: Graal, 1984.

Foucault, M. e Sennet, R. Sexuality and solitude. Londonl Review of Books, 21, May 3 June, 1981. pp.4-7.

Freud, S. Totem e Tabu (1913). Rio de Janeiro: Imago, 1974.

Poster, M. Teoria crítica da família. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.

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VIAGEM ÁS UTOPIAS: CRISE NO IMAGINÁRIO SOCIAL



Lúcia Afonso(*)

Introdução ao Código de Vôo

Pois, sendo a minha máquina-do-tempo montada em palavras, a leitura é o convite para o vôo. Simples guia de turistas, vou mostrar ao leitor alguns cenários, idéias, instituições, cartões postais. Seguindo o catálogo de viagens 1,visitaremos lugares virtuais, utopias, parábolas que escritores narraram corno intérpretes privilegiados não (apenas) de sonhos individuais mas daqueles desejos que latejaram no tique-taque de conjunturas e épocas diversas. Finda a viagem, repassamos as fotos, as memórias, os tropeços. Refletimos: vivemos uma crise no imaginário social2.

Partiremos agora e daqui para o ano de 1518, no país da utopia. De Ia, faremos um breve "tour" aos seus vizinhos, Nova Atlântida e Cidade do Sol. Traçando no vôo uma visão panorâmica do tempo em que tais lugares foram projetados, entra­remos novamente em nossa nave e daremos um salto de quatro séculos, para aportar no hemisfério onde se encontram o Admirável Mundo Novo e Farenheit 451. Após, visitaremos o país d'A Laranja Mecânica e a sombria Los Angeles d'O Macaco e a Essência. Então, fugiremos por alguns dias para O Planeta dos Macacos e, de lá, faremos nossas últimas viagens ao país d'Os Despojados até O Despertar dos Deuses, e, finalmente, ouviremos esse mago do imaginário, que é Bradbury, nos relatar as Crônicas Marcianas.

Voltaremos, então, ao nosso ponto de partida. Lamento informar ao leitor que a excursão não autoriza os passageiros a ficarem no meio do caminho, nem se respon-

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(*) Professor de Psicologia Social. departamento de Psicologia. UFMG
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sabiliza por seus extravios. Sequer nos responsabilizaremos pelos desejos insatisfeitos. Este é apenas um roteiro de viagem entre os muitos possíveis. Voltando ao nosso tempo e lugar, pretendemos servir nossas conc1usões no coquetel de despedidas, dizendo que há uma crise na razão e, que esta é, também, a crise do imaginário. Ao contrário da ilusão de uma volta, não regressamos nunca da Utopia.

Por fim, espero, se as reflexões deste artigo forem insuficientes para trazer ao leitor um proveito, teórico, que as paisagens lhe sejam agradáveis.

DIÁRIO DE VIAGEM

Ao futuro do Passado

Ilha da Utopia: uma terra agrícola, onde os habitantes se revezam no trabalho do campo e onde a propriedade é comunal. É governada por um príncipe, o qual poderá ser retirado do poder caso se revele um tirano. Magistrados são renovados anual­mente e o grande apreço e interesse pela ciência e pelo saber faz com que estejam intimamente ligados ao poder. As autoridades são eleitas dentre aqueles que se dedicam às ciências e às artes, de forma que seu governo seja iluminado pela sabedoria. Cada habitante da ilha trabalha por 6 horas e utiliza o resto de tempo diurno para o lazer, a educação, a música, a aprendizagem de novos ofícios e os jogos.

A ilha da Utopia vive em harmonia, evitando guerras, procurando a maneira mais racional de organizar a sociedade, e o povo é feliz. Entretanto, para nós, visitantes de outro tempo, é surpreendente que, neste sistema onde os cidadãos sentem-se felizes, certos traços sociais existam e que eles sejam integrados numa mesma racionalidade. A escravidão permanece como instituição, sendo os escravos obriga­dos a executarem os trabalhos mais sujos e penosos. Embora a propriedade seja comunal, um sistema hierárquico persiste. Aqueles que se dedicam ao trabalho intelectual são dispensados do trabalho no campo e constituem o grupo do qual sairão eleitos os governantes. "As mulheres servem aos seus maridos; as crianças aos seus pais e mães, os mais jovens aos mais velhos”. “Meninos e meninas ... comem o que lhes é dado pelos que estão à mesa e não têm outro momento para fazer suas refeições”. Assim, formas hierárquicas e de subjugação são admitidas e, até mesmo, cultivadas. Ao menos, diante de nossos olhos no século XX. .

Aquele que discutir assunto político fora do Senado ou da Assembléia é passível de pena de morte. O Estado dita a educação dos indivíduos, orienta os casa­mentos, e interfere na vida dos cidadãos. Entretanto, diz Morus, "cada um continua­mente exposto ao olhar de todos se sente na feliz contingência de trabalhar e de re­pousar conforme a lei e os costumes do país".

Como entender este argumento? Passemos rapidamente pelas terras irmãs, da Cidade do Sol e da Nova Atlântida. Aqui, vamos encontrar traços semelhantes na organização social. O príncipe é um sábio que, assim o sendo, não poderá jamais ser cruel. Aqui, encontramos a fé na ciência e na técnica aliada a uma ordem racional do

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Estado. A felicidade humana depende deste reinado racional A razão está apta para designar à sociedade o seu "dever ser" e a felicidade de todos está em seguir este "de­ver ser" "Esfuerzanse en desterrar de su ánimo el miedo, infligiendo severos castigos a Ias que cometen actos de cobardía" "Tarnpoco dejam de atacar a los que, por rebelarse contra Ia razón, no merecen trato de hombres" A felicidade é a ordem e a obediência a uma lei justa, cuja justiça se apóia na racionalidade. Para nós, viajantes, é possível entender a fé neste poder da razão numa época onde a fé nas divindades externas ao ser humano legitimava arbitrariedades do poder, promovia a Inquisição, sufocava a produção de Galileu, Descartes, e que, por fim, ajudou o tirano da Inglaterra, Henrique VII, a executar Thomas Morus. Como assinalaram Horkheimer e Adorno 3). O Iluminismo buscava uma racionalidade absoluta à qual a sociedade de­veria se conformar e propiciou uma simpatia para com a coação social. O indivíduo é pouco importante. Pelo contrário, o ideal do Iluminismo é o sistema social.



A crítica ao arbítrio ataca a natureza irracional, mas não o exercício absoluto do poder. Assim, passageiros do século XX, antes que sua crença no indivíduo esteja tão seriamente abalada que a viagem lhes produza vertigem, amarrem os cintos de segurança. Fugindo aos sábios inquisitoriais, chorando não poder trazer conosco Ga­lileu, vamos zarpar e de um único fôlego, reencontrar uma ordem racional converti­da ao poder no século XXI. Na perspectiva do tempo, convido os passageiros a olhar pela janela e, no hiato dos séculos intermediários, veremos inúmeros lugares, pessoas que tentam agarrar nave, para com ela seguir a viagem arriscada da imaginação, Apaixonadamente.

Descartes consente na publicação de sua obra, e com ela nos acena a fé na razão humana, pecaminosa crença em época de Inquisição Católica. Rousseau nos chama escandalosamente, pedindo que lhe enviemos, dos séculos subseqüentes, algum Emilio cunhado nos ideais de uma nova educação. As utopias políticas de Marx, Proudhon, Lafarque, formam densas nuvens de ideais que devemos atravessar, canalizando as crenças na Razão humana e na construção de Sistemas Sociais justos. Des­crente nos sistemas e atento aos silêncios que irrompem e desviam nossas palavras, Freud concebe uma das maiores dúvidas da história: a de que não sabemos o que pensamos quando pensamos, a de que nossos sentimentos têm formas ilusórias e que um mundo de signos mais escondem do que revelam o que somos diante de nós mesmos.

Ao Passado do Futuro

Devagar no vôo noturno, as luzes de um Admirável Mundo Novo surgem abaixo. A geometria das linhas e a arquitetura são belas mas inquietantes. É tudo muito limpo e igual. E é aos poucos que, andando pelas ruas, vamos percebendo que uma equalização sem precedentes na história homogeneíza grupos de pessoas, desde suas características físicas até os seus mais profundos sentimentos e emoções. Basta-nos

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estender os olhos a esse novo mundo e ver que tudo é resultado de um cuidadoso planejamento. As pessoas se têm por felizes, sendo condicionadas desde a fase de embrião. Um vasto conhecimento técnico possibilita altos níveis de conforto, higiene. saúde e segurança. A ordem é total e inclui uma insistência no prazer físico. Note-se, entretanto, que o principado é o mesmo. Agora o príncipe sábio é substituído pelo cientista, técnico e, até certo ponto, também filósofo, numa sociedade que abdicou da filosofia. Mas, seu poder de governar e regular é intrinsecamente o mesmo, tornado apenas maior pelo avanço tecnológico. A felicidade está, novamente, na ordem, segurança, saúde, previsão. Embora fortaleça o poder, o saber não edifica a Justiça. Saber e técnica revelam sua face perversa. Felizes na Utopia, felizes no Admirável Mundo Novo, os seres humanos suspeitam de si mesmos. A felicidade revela uma face duvidosa e contraditória. Não mais a medida das coisas, desprovida da razão, sua natureza e veracidade são postas em dúvida. Como e quando somos felizes?



Necessário fugir desse país de autômatos. Vamos a Farenheit 451, um país onde respostas se insinuam, pronunciadas contra os ditames de uma autoridade central. Aqui, o saber técnico, convertido em baluarte do poder, se opõe ao saber crítico cultivado por dissidentes. Livros são proibidos e bibliotecas inteiras agonizam sob as chamas dos "bombeiros", polícia especial do controle central para perseguir e reprimir dissidências. É a consciência que está, mais uma vez, em pauta. As pessoas nunca ultrapassam os costumes estabelecidos e, diariamente, postam·se por horas a fio diante de um imenso telão de TV, onde desfIlam ídolos com os quais conversam e programas que suscitam reuniões de amigos. A família está na TV. A impressão que esta consciência teleguiada nos deixa é a de que, para além da repressão do po­der político, as pessoas deixam-se tomar pela alienação. Ao invés de suscitar aqui a velha discussão sobre meios, (livros ou TV?), a ênfase recai no processo: a consciência pode, de certa forma, desejar a alienação. E esta é feita de recusa, recusa de querer saber, de querer ousar, de retomar o fio da hist6ria, das instituições, de querer querer. Um grupo dissidente toma como sua a tarefa de memorizar livros inteiros, para evitar sua perda na história, e a trama aí é feita de pura opção. Trata-se da liberdade de optar. No entanto, a opção é ainda evitar. Evitar um modo alienante e destrutivo de vida. A consciência alienada não é confiável, e nosso problema é re­conhecer a ilusão dentre nossas ilusões.

O tema da consciência alienada reaparecerá ao descermos no aeroporto do país d'A Laranja Mecânica. O terror aumentará para nós: A laranja não concede lugar a dissidências. A própria dissidência está entranhada em seus veios, mecanicamente adicionada ao sumo, resumo de um universo mecânico.

Andemos, invisíveis, pelas ruas de uma cidade que parece apenas, e talvez seja, usual. Famílias, velhos, jovens, estudiosos, escritores, vendeiros, todas as categorias urbanas estão presentes nesta fábula da violência. Adolescentes, animados por suas confusões mentais, anomia e falta de referência, saem de noite para realizar atrozes violências, espancamentos, estupros, assassinatos. Membro de uma família medíocre e emocionalmente fraca, o líder do bando tem duplas relações chantagis-

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tas com seu país. Ao ser preso é entregue a um grupo de psicólogos que iniciam uma lavagem cerebral, recondicionamento de seus gostos, valores e comportamentos Entretanto, a violência a que é submetido é comparável à violência que originou sua prisão.



A Violência é a mesma, parta de que lado for. mesmo os pseudodissidentes, que clamam pelo des-condicionamento do jovem, querem utiliza-lo em seus propósitos. Sombrio, A Laranja Mecânica não deixa opções senã0 a da submissão ao Sis­tema. Como no Iluminismo o Sistema é outra vez todo poderoso, mas, desta vez, cruel. O indivíduo, c1audicante nas páginas da história, tudo perde dentro dele.

Tristes leitores, a viagem tem os seus túneis escuros, figuras de horror. Leve­mos um pouco mais adiante este trem fantasma e vamos partir para a sombria Los Angeles descrita em O Macaco e a Essência.

Hux1ey descreve uma sociedade baseada no medo, dominação e violência, localizada em Los Angeles, em ruínas, no século XXII, após a terceira guerra mundial. Ali, o culto ao mal se mistura às estruturas de poder, as pessoas são impedidas de desenvolverem sentimentos amorosos e levarem a frente ligações pessoais. Descrevendo aquilo que deveria ter sido um roteiro para um filme, certa vez menosprezado pelos produtores, Hux1ey filosofa sobre a essência do homem e faz contracenar as necessidades humanas, a vontade de criar, amor e desamor. Significativamente, a única maneira de se livrar dos defeitos desta sociedade (o sistema ainda é todo poderoso) é a fuga.

Nesse espaço infinito e virtual de fuga, podemos mover para ainda mais longe a nossa nave. Nas anti-utopias do nosso século há mais desesperança do que nos quatrocentos anos anteriores. Portanto, viajemos ainda em uma fábula,em busca das essências que nos movem, justificam e criam a ordem socia1.

Saindo em missão espacial da Terra no século XXI, três astronautas se perdem no espaço e, finalmente, conseguem chegar a um planeta desconhecido. Neste, descobrem que a raça humana não desenvolveu sequer uma estrutura de linguagem, vi­vendo primitivamente. Ao contrário, os chimpanzés, gorilas e orangotangos constituem as raças evoluídas, formam governos, organizam a produção, o poder, a ciência, a literatura e as artes. Eventualmente, expedições de caça organizadas pelos ma­cacos matam e capturam alguns humanos para que sirvam de cobaias de experimentos, que irão contribuir para o progresso do Planeta dos Macacos.

Capturados, os astronautas da Terra seguem rumos diferentes. em é morto, imbeciliza-se o outro e um terceiro consegue, após longo tempo de cativeiro e duros esforços, fazer-se comunicar com chimpanzés estudiosos da psicologia humana. Através deles consegue, enfIm, fugir d'O Planeta dos Macacos. A fuga está presente, outra vez. Só que, agora. a sociedade não aparece mais sendo tiranicamente controlada por um grupo de alta tecnologia. Pelo contrário, trata-se de um complexo de instituições, com suas contradições e normas, das quais muitos partilham e muitos divergem, no processo da história.

Entretanto, a essência da crueldade permanece. Visitemos, por exemplo, o la-

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boratório em que se levam a cabo experimentos com seres humanos, para o bem da ciência e da saúde dos macacos. Diante dessas cenas simples, desse espelho cruel, vemos nossa imagem invertida e enxergamos a crueldade a que, com ou sem justificativas, paliativos e bons fins, submetemos outros seres vivos. O ser humano só enxerga a sua crueldade quando, diante desse espelho mágico, ela se volta contra ele trazendo auto-destruição. Violência e sadismo estão na base do poder sobre a natureza e a sociedade está intrinsecamente ligada à essa essência humana, além dos senti­mentos de solidariedade e compaixão.

Uma nova forma de conceber o sistema social e a natureza humana aparece n'O Planeta dos Macacos. O planejamento racional não é jamais absoluto. É a própria natureza humana que lhe impõe limites. Os desejos, as paixões, provocam-lhe rupturas, desviam os caminhos, irrompem por fendas inesperadas e refazem o projeto em outras dimensões.

Mas é hora de decolar novamente; As cenas do país d'Os Despojados nos aparecerão mais suaves. Antes, entretanto, amarrem os cintos de segurança. Examinem os equipamentos de emergência. Vamos proceder a algumas informações de bordo, repassando idéias que foram sustentadas nos já longínquos séculos XIX e XX.

Socialistas utópicos e outros utopistas do século XIX, tais como Saint-Simon e Fourier defenderam que um novo sistema moral era necessário para que a ciência auxiliasse o funcionamento justo da sociedade industrial. Proudhon advoga a abolição da propriedade privada e da submissão do ser humano à máquina, prevendo maior liberdade individual e educação para todos4.

Durante o século XIX várias experiências de comunidade na Europa e nos EUA foram empreendidas. No Brasil, re1atam-se algumas experiências, tais como a Colônia Cecília, inspirada no anarquismo. Os anarquistas somavam, em suas idéias, aspectos variados do cotidiano, da desobediência civi1, da educação universal (e obrigatória) e da liberdade do indivíduo. Idéias que nem sempre estão em perfeita concordância entre si. Entretanto, plantaram na Utopia a concepção de que a liberdade individual é um elemento básico para uma ordem justa e que essa mesma ordem deve ser igualitária. Aquilo .que aparece como paradoxo em HuxIey, Morus. Campanella ou Burguess é apenas uma questão de lógica-dialétíca para o anarquista. Como filosofia e tendência política, o anarquismo continuou fecundo no século XX quando veio a inspirar movimentos alternativos, hippies, de comunidades, que criticavam a cultura capitalista e ocidental e buscavam formas de organização em que o corpo e a consciência se liberassem de repressão e alienação. A fragmentação desses núcleos não apareceu entretanto como forma geral de projeto de sociedade.

Preparar, pois, para o desembarque. Vamos conhecer uma sociedade anarquista do século XXI. O mundo desta história é composto por dois planetas, Anarres e Urras. Não será difícil para nós reconhecer em Urras muitos dos nossos costumes, instituições, contradições: guerras, pobreza, exploração econômica e política, somadas a um.elevado grau de desenvolvimento tecnológico. Anarres, ao contrá-



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rio, é um planeta pobre onde os grupos se organizam em cooperativas anarquistas, buscando garantir a produção, a educação, a ciência, a guarda das crianças, com a distribuição de bens para todos. É um planeta de natureza agreste, sem a pro­fusão de áreas verdes e de água potável de Urras. A produção é penosa e os períodos de escassez são freqüentes. A manutenção da organização social e da liberdade individual está ligada a um permanente esforço de reconstrução. Os valores da co­operação e autonomia constituem a base da educação em Anarres, o país d'Os Despojados. "Não egoízes "é o lema educacional e é justamente essa vontade de cooperação que acaba por restringir a liberdade do indivíduo. Em Anarres, a cooperação mútua, para garantir uma ordem igualitária e justa, bem como a liberdade dos indivíduos para traçar os seus próprios caminhos, geram uma tensão constante, que se desenrola ao longo da história, como elemento inerente à constituição social e força de mudança. Ao se rebelar contra a organização de uma das várias cooperativas de produção científica, o herói da história contesta uma crescente hierarquia e elitização da cooperativa. Não critica a sua existência, mas a sua conversão em mecanismo de poder por parte de alguns líderes. Critica ainda que se faça um uso capcioso dos ideais do cooperativismo, estigmatizando-se como "egoístas" aqueles que se negam a cooperar com chefes autoritários. Assim, critica que" ...a consciência social domina completamente a consciência individual, em vez de se equilibrarem. Nós não cooperamos, ... nós obedecemos. Temos receio de sermos banidos, de que nos chamem preguiçosos, disfuncionais, egoizadores. Temos receio da opinião do vizinho mais do que respeito pela nossa liberdade de escolha ... " Colhido por uma contradição inerente à sociedade, o herói não poderia acreditar mais no sistema social do que na consciência humana, ou vice-versa. A liberdade não se opõe à justiça, mas vive com ela um processo de constante e mútua interpelação. A cristalização das estruturas, e o abuso do poder dentro delas, emperra esse processo. Longe, no espaço, fica Anarres e as divagações sobre o poder. Nós, passageiros, continuamos a nos perguntar sobre novos planetas.

"Contra a Estupidez os próprios deuses disputam em vão?" pergunta Isaac Asimov em seu O Despertar dos Deuses. Nessa nova paragem, o sistema social já não é o que está em jogo. Sequer merece, da parte do autor, uma descrição. Estão em relevo a consciência e os valores humanos, nas escolhas que fazemos a respeito da nossa organização e vida. Na esperança de que "a luta contra a estupidez seja finalmente vitoriosa", Asimov nos leva a visitar dois universos que estão um para o outro como universos paralelos. Em um deles vivemos, como sociedade altamente tecnificada, confortável, dependente da produção de energia da Bomba Eletrônica, que gera energia entre os dois universos, através da troca de matéria de um para o outro. O único problema com esta troca, insistentemente ignorado pelos poderosos, é o de que, com o aumento acelerado de energia, nosso sol poderá vir a explodir de um momento para o outro.

De uma maneira geral, os terrestres preferem não encarar esta possibilidade ­esta, a estupidez - a ter de criar alternativas para conseguir energia ou organizar

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a vida, ou para relacionar-se com os verdadeiros controladores da bomba: os para-ho­mens no para-universo.



Assim, independente do seu quociente de inteligência, os terrestres estão empacados em sua própria estupidez. Poucas são as pessoas, neste e no outro universo, que se preocupam com o problema e tentam saná-lo. A lucidez não advém só da inteligência, mas ainda da sensibilidade, dos valores, da coragem para compreender. Por esta dimensão passam os seres que conseguem encontrar uma solução, que não vem a ser aceita de maneira generalizada mas que garantiria, em caso de excesso de energia e explosão de nosso universo, a sobrevivência dos habitantes da lua, trans­portados para uma outra galáxia. Estando em questão o saber, a técnica, os mecanismos de poder, a razão, e a própria consciência, a fuga aparece, mais uma vez, como saída. Dessa vez, como única alternativa à estupidez. Escreve Asimov que "Em to­do caso, não há finais felizes na história, apenas crises superadas" (p. 271). Analogia ao "outro lado de vida", ao qual estamos cegos, aos nossos para-universos, nossas tensões não reconhecidas, nossas possibilidades de explosão, nossas crises de energia, aos vários significados de nossas ações, aos múltiplos efeitos de uma prática, universos paralelos dentro de nós?; Seria esta a estupidez fundamental, o não-reconhecimento da sensibilidade. o apreço ao status mais do que à vida?

Sem respostas, nesta viagem procurando despertar a nossa imaginação, a qual podemos ver agora mais claramente corroída pela técnica, assombrada por fantasmas, emperradas pelas engrenagens da vida moderna, vamos passar pela última estação espacial.

Reservamos aos senhores passageiros estas últimas e maravilhosas paisagens de Marte, que afloram em toda a sua beleza nas páginas das Crônicas Marcianas.

''Nas ga1erias de pedra, o povo se aglomerava em bandos, e grupos penetravam nas sombras das colinas azuis. As estrelas e as duas luas de Marte derramavam sobre eles a luz suave do entardecer. Além do anfiteatro de mármore, na distância e em meio a sombras, havia aldeiotas e vilas. A água prateada dos reservatórios estava imóvel e os canais tremeluziam de um horizonte ao outro, Ela uma noite de verão no plácido e temperado planeta Marte. Barcos delicados como flores de bronze vagavam para lá e para cá nos canais de vinho verde. Nas longas e infindáveis habita­ções que superavam como cobras tranqüilas entre as colinas, os amantes jaziam em seus frescos leitos noturnos, falando em surdina, Algumas crianças ainda brincavam nas alamedas iluminadas por tochas, levando nas mãos aranhas douradas que soltavam filamentos trançados. Aqui e ali uma ceia tardia era preparada em mesas onde a lava prateada borbulhava e chiava. Nos anfiteatros de centenas de cidades do lado oculto de Marte, o escuro povo marciano, de olhos redondos como moedas de ouro, calmamente se reunia e fixava a atenção nos palcos onde músicos faziam uma música serena fluir, como perfume de lírios no ar parado".

Esta paisagem logo será invadida pelos terrestres que iniciarão. em Marte aquilo que, na própria Terra, por muitos séculos, chamou-se "colonização". A civilização marciana vai sendo aos poucos destruída. O desejo de conquistar aparece misturado

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à destruição. Mutantes, os marcianos resistem das mais diversas formas à invasão terrestre, principalmente através da manipulação dos nossos desejos, sonhos e ilusões, provocando em nós, invasores, alucinações e fantasmagorias várias.

Essa batalha pela vida entre urna e outra civilização vai desnudando a natureza terrestre e a Marciana que, em certa medida, se encontram (alucinação sobre um possível universal?). Apesar de tão agrilhoados aos nossos próprios pensamentos, desejos e ilusões, também somos mutantes. Conquistada Marte, somos nós os marcianos. Apenas, a nossa falta de lucidez sobre esse processo é tão marcante, que levamos a Terra para a destruição. São poucos aqueles que - combinando o universal e o particular - animados pela preservação da vida e prontos a mudar por ela - fogem desse movimento de destruição e vão...para Marte. Ali, o recomeço, que é eterno, o reencontrar das rupturas que nos fragmentam e têm de ser a todo momento reuni­das. Da nave em que viajamos, Podemos ver uma faml1ia de terrestres que passeia pelos canais de Marte e, como Narcisos dos séculos vindouros, procuraram por sua natureza fugitiva que dança nas águas. Entre a imagem (natural) na água e a consciência (social) que dela ternos, uma ruptura essencial entre natureza e cultura, paixão e razão, planos diversos que se sustentam corno elementos de um mesmo segredo, que precisa ser continuamente recriado, corno a natureza mutante de nós, marcianos.

“Eu sempre quis ver um marciano - disse Michael - Onde estão eles, papai? Você prometeu.

- Estão aí - disse o pai.

Colocou Michael nos ombros e apontou para baixo. Os marcianos estavam ali - no canal - refletidos na água. Timothy, Michael, Robert, mamãe e papai. Da água ondulante, os marcianos ficaram olhando um tempo enorme para eles ...”

Regresso ao Agora:

São apenas livros, dirão os passageiros no regresso ao tempo de onde há pouco saímos. Criações individuais de homens e mulheres de grande sensibilidade. Por mais que expressem as preocupações de seu tempo, não podem lhes ser fiéis. Os partidos políticos continuam, as religiões e os dogmas teóricos persistem. E eles são diferentes das histórias que encontramos nos romances das Utopias 5.

Mas, corno guia turístico, eu creio na beleza e na verdade dos lugares visitados.

Não são alegoria de um nada, mas a alegoria daquilo que se passa fora dos livros e mesmo das palavras. No princípio desta viagem eu insisti que ela seguiria um roteiro turístico corno poderia seguir qualquer outro. A escolha da analogia é do poeta, que se perde ou não nela.

Para nosso prazer ou desprazer, voltamos ao século XX , embora este vôo virtual no tempo nos traga para um outro século XX, porquanto o vemos com outros

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olhos. OLhos da maresia da viagem, de quem foi atrás e adiante, sem nunca ter saído do aqui e agora.

Neste momento de maresia, gostaria de apresentar nossos últimos folhetins de desembarque.
A Nave Pousa

Em que chão pousamos ? Aonde repousam nossos sonhos de hoje? Na Utopia de Morus e no Admirável mundo novo diluímos nossa fé no discernimento de uma razão clara e sem enganos. Aprendemos a desconfiar, ao mesmo tempo, de nossa sensação de felicidade. Os Sistemas já não nos tentam e, assim, sabemos desde já que os projetos são desconfiáveis.

Seria possível ainda fazer planos em comum? Comungar dos sonhos? As fragmentações que vivemos na sociedade, às vezes confundidas com um pluralismo de ideais, circulam conosco na desorganização urbana ou no esvaziamento do político. O projeto, tal como o conhecemos certa vez, unificado, dirigente, carece de sentido. Nos séculos precedentes, projeto aprece como metáfora dos sonhos para o futuro. Forma organizada de falar de parte do imaginário social. Neste século, as utopias vêem destruir tais sonhos mais do que os traçar.

Insistentemente se desmistifica a produção da técnica, do saber, do poder, da própria idéia de sistema e da racionalidade. Releva-se uma natureza humana que, mutante, não poderá jamais ser como um robô. A crise na nossa racionalidade é também a crise no nosso imaginário. Insiste-se na desorganização, como um espaço verde, onde ainda se pode resistir, respirar, esperar por novas proposições. Enquanto isso, o projeto enquanto Projeto de Sociedade vai desaparecendo. O imaginário se dispersa em tomo de si mesmo.

É certo que essa descrença não é feita de desespero, mas de uma certa melancoLia mais referente à ausência de um projeto do que a sua negação. Nas faces marcianas procuramos reconhecer a nossa natureza, acreditada, negada, em busca de urna nova. articulação entre razão e desrazão. O projeto como uma construção racional é, hoje, uma grande ferida, que nos faz desconfiar de nossos sonhos, temer sonhar conjuntamente e fabricar algo mais terrível que a realidade. Não sou a única a dizer que a razão (e não meramente os seus conteúdos) sofre uma crise. É possível vê-Ia nessa delicada passagem ao imaginário da sociedade. Nossos sonhos não nos dizem mais do futuro, como os antigos oráculos, ou as utopias dos séculos anteriores, mas nos decifram interminavelmente o passado. O passado de uma razão triste, cuja crise pode ser vista e sentida nessa outra crise que é a da imaginação. Está aberta a porta da nave, e esta é a última pergunta que fica: Não vem, nesse horizonte, voando em nossa direção, uma crise no imaginário social?

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NOTAS BIBLIOGRÁFICAS

  1. Catálogo de Viagens: Os lugares a serem visitados podem ser encontrados nos seguintes livros:

Thornas MORUS. A Utopia. Trad. e Notas de Luís Andrade. Coleção Os Pensadores, vol. X, Victor Civita Ed., Abril SA, SP. 1972 Data de 1518.

F. BACON, Nova Atlântida. Coleção Os Pensadores, vol. XlII, Abril SA, SP, 1973. Data de 1627.

T. CAMPANELLA. La Ciudad deI SoL trad. Agustín C. Roberto. Aguilar edl, Madrid, 1979. Data de 1602.

A. HUXLEY. Admirável Mundo Novo. Trad. Felisberto Albuquerque, Abril Cultural , São Paulo, 1982. Data de 1932.

R. BRADBURY. Farenheit 451. Apanther Book, Granada Publ., London,

1982. Data de 1951.

A. BURGESS. A Laranja Mecânica, Trad. Nelson Dantas, Ed. Artenova, Rio

de Janeiro, 1972. Data de 1971.

A HUXLEY. O Macaco e a Essência. Trad. João G. Iinke, Ed. Civilização

Brasileira, RJ, 1971. Data de 1948.

P. BOULE. O Planeta dos Macacos.Trad. Calado Trindade, Ed. Associados,

livros Unibolso/Ed. Ulisséia, 1963. Data de 1963.

U. LE GUIN. Os Despojados: Uma Utopia Ambígua. Vols. 1 e 2, Publ. Eu·

ropa-América, Portugal, 1974.

I. ASLMOV, O Despertar dos Deuses. Irad. Edith C. Negraes, Hemus livr.

Ed. SP, 1972.

R. BRADBURY. As Crônicas Marcianas.Trad. José Sanz, livraria Francis-

co Alves Ed., RJ, 1980. Data de 1946.


  1. As utopias aparecem, aqui, como uma das formas metafóricas utilizadas pelo pensamento social para organizar o conteúdo da experiência da natureza e da sociedade. Apesar de aparecer como fama simbólica, a utopia se sustenta basicamente no imaginário. O imaginário é produzido pelo simbólico e através dele. Um não existe sem o outro. Com diz Rosaria Micela, "de resto, a natureza das relações de produção e de todas as relações sociais não pode ser lida diretamente em sua trama invisível: as instâncias psíquicas e culturais que atuam no nível simbólico pertencem a um imaginário que atravessa todo sis­tema social" (Rosaria MICELA. Antropologia e Psicanálise: Uma introdução à produção simbólica, ao imaginário, à subjetividade. Brasiliense, SP, 1984,

p.73).

Falar sobre uma crise no imaginário equivale a falar sobre a produção de uma desorganização sistemática e profunda nas instâncias psíquicas e culturais, nas crenças e nas ilusões que uma sociedade tece sobre si mesma.

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3. M. HORKHENER e T. ADORNO. O Conceito de Iluminismo. Coleção Os Pensadores, vol. 48, Abril Cultural, 1975.



  1. TEIXEIRA COELHO. O que é Utopia. Brasiliense, SP, 1985.

  2. Por fim, deixo um convite para outras viagens, em que possamos analisar também as obras utópicas produzidas nos países pobres. Com especial interesse, sugiro uma revisão dentro da literatura latinoamericana.

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