Pássaro junino: alguns aspectos dramatúrgicos



Baixar 27.74 Kb.
Encontro26.02.2018
Tamanho27.74 Kb.

PÁSSARO JUNINO: ALGUNS ASPECTOS DRAMATÚRGICOS



Cantando está o Guará formoso nesta praça

Abrindo o bico para um peixinho pegar...

(Canção de entrada do Pássaro Guará que vi, aos

dez anos, na cidade de Macapá –AP, onde nasci)

Mês de junho. Da imaginação dos poetas voam pássaros. Aves raras, brilhantes e multicoloridas, bordadas de sonhos e fantasias, dramas, tramas, canções, danças e risos. Cantam e encantam, provocam lembranças e re-lembranças, convocam ao sonho, ao prazer de um mundo onde tudo é possível: imperadores e imperatrizes, barões, duques e duquesas, damas de honra, coronéis, capatazes, fadas e feiticeiras, índios e matutos, músicos e bailarinas. Todos, juntos, convivendo no mesmo espaço imaginário amazônida, entre rios, florestas e seres encantados. Todos fazendo parte de um teatro popular que sobrevive há mais de cem anos, mantendo a tradição de colorir os céus juninos, louvando seus santos – Antonio, Pedro e João.


Os pássaros juninos de Belém do Pará se apresentam de duas formas. Os chamados cordões ou pássaro meia lua, que se organizam em semicírculo e têm feição mais rural e, com característica mais urbana, o pássaro melodrama fantasia, que absorveu elementos das óperas e operetas, revistas e burletas, apresentadas na cidade à época do fausto da borracha, a belle époque paraense, quando se deu a construção do Theatro da Paz. Este incorporou ainda elementos do palco – a cortina, a iluminação, os bastidores, a cena frontal do palco à italiana e até o extinto “ponto” (não há preocupação demasiada com ensaios, poucos brincantes decoram todo o texto). É chamado também de ópera cabocla.

É o pássaro melodrama fantasia que pretendemos destacar neste texto, centrando nossa investigação nos personagens cômicos, denominados matutos. Este grupo de personagens, a matutagem, é formado pelos matutos paraenses – um casal, seu filho, seus compadres e a filha destes –, o matuto cearense, um cabo ou um soldado. Eles são responsáveis por toda a comicidade do pássaro, ora participando diretamente, ora não do enredo, através de skecthes, quase sempre de tom jocoso e libidinoso.

Os pássaros possuem um enredo central – caçada, morte e ressurreição de uma ave –, ao qual se agregam outros, envolvendo dramas e sofrimentos de uma família de nobres, transplantados para a Amazônia, ou coronéis fazendeiros ou seringalistas, “costurados” por tramas de suicídio, morte, vingança, traição e incesto. Neste escrito, queremos destacar alguns aspectos de sua dramaturgia, ressaltando elementos da linguagem dos matutos.
O pássaro nada mais é que a ópera cabocla, escrita e representada por trabalhadores. A encenação do folguedo, que traz no seu desenrolar um motivo ecológico, apresenta uma série de quadros em que se entrecruzam uma série de elementos da etnia brasileira. Há um núcleo dramático protagonizado pela família imperial, o que configura a presença do europeu; há a maloca, corporificando o elemento nativo, e há ainda a feiticeira, que desenvolvendo os rituais da umbanda, traz as marcas da cultura africana. Afora esses elementos constitutivos da estrutura dramática da encenação, existe um quadro, o da matutagem, composto pelos caboclos, ou seja, por aqueles que já sofreram o processo de mestiçagem. Esse quadro, faz-se necessário ressaltar, é desvinculado da encenação trágica, e ocorre paralelamente.A matutagem é a responsável pelo riso, elemento capaz de aliviar as tensões do público ante a tragicidade contida no enredamento da peça. (FARES, 1992, p.1).

Segundo Patrick Pavis, o melodrama (drama cantado, de acordo com a etimologia grega) “é um gênero que surge no século XVIII, aquele de uma peça – espécie de opereta popular – na qual a música intervém nos momentos mais dramáticos para exprimir a emoção de uma personagem silenciosa” (PAVIS, 1999, p. 238). É uma peça de apelo popular, “mostrando os bons e os maus em situações apavorantes ou enternecedoras”, que objetiva emocionar, comover o público, dando ênfase nos efeitos cênicos. Surge no fim da Revolução Francesa, por volta de 1797, e tem seu auge nos primeiros anos do século XIX. Sua estrutura dramática tem raízes na tragédia clássica familiar de Eurípedes, em Shakespeare, Marlowe e no drama burguês.

O melodrama é a finalização, a forma paródica sem o saber, da tragédia clássica, cujo lado heróico, sentimental e trágico teria sido sublinhado ao máximo, ao multiplicar os golpes do teatro, os reconhecimentos e comentários trágicos dos heróis. A estrutura narrativa é imutável: amor, infelicidade causada pelo traidor, triunfo da virtude, castigos e recompensas, perseguição como eixo da intriga. (PAVIS, idem).

No pássaro junino “Amor Proibido ou Sangue do Meu Sangue”, de Lourival Pontes e Souza (2001), texto que deu o campeonato ao pássaro Rouxinol, em 1997, a estrutura trágica é levada às últimas conseqüências. A trama principal é a seguinte: o filho de um casal de nobres, o imperador João das Oliveiras e a imperatriz Creuza Valença, perde-se na floresta, deixando seus pais e sua irmã, a princesa Lucicleide, inconsoláveis. Estes são advertidos pela fada Lucimar de que “brevemente irá reinar muita alegria” no palácio, porém “ao mesmo tempo tristeza e muitos desgostos”. O príncipe Josimar, agora um marquês, retorna após 16 anos e, ao encontrar a princesa na floresta, apaixona-se por ela, sendo imediatamente correspondido. Ao ser levado à presença do imperador e da imperatriz, descobre ser o filho desaparecido do casal, irmão, portanto, de sua amada. Esta, diante do amor proibido, entrega-se ao vício da cachaça, matando-se em seguida. A mãe morre de desespero. O irmão mata-se com um tiro no ouvido. E o pai enlouquece, vindo também a falecer. “Como é triste desaparecer uma família de nobres”, sentencia a fada Lucimar, ao final.

Nem sempre é assim. Em geral, é o final feliz que impera nos pássaros juninos. A virtude é recompensada e o mal, após longo domínio, é punido. Ao lado deste, quase sempre está a feiticeira, “triplamente estigmatizada como mulher, negra e mãe-de-santo”, segundo Marcondes (1999, p. 151). Ao lado do bem, está a fada e os pajés e índios, que protegem e atuam na cura ou ressurreição do pássaro. Esta relação maniqueísta é uma característica estrutural do melodrama, evidenciada por Huppes:
Em termos estruturais o melodrama é uma composição muito simples. Bipolar, estabelece contrastes em nível horizontal e vertical. Horizontalmente, opõe personagens representativas de valores opostos: vício e virtude. No plano vertical, alterna momentos de extrema desolação e desespero, com outros de serenidade e euforia, fazendo a mudança com espantosa velocidade. Em geral, o pólo negativo é mais dinâmico, na medida em que oprime e amordaça o bem. Mas, no final, graças à reação violenta, que inclui duelos, batalhas, explosões etc., a virtude é restabelecida e o mal conhece exemplar punição. (HUPPES, 2000, p. 27)

Em meio às tramas e dramas dos nobres ou coronéis fazendeiros, a história do pássaro muitas vezes perde relevância, aparece e desaparece, por vezes, sem uma razão muito óbvia. Sua morte ou ferimento – atualmente, em virtude da propalada conscientização ecológica, vem se abolindo a morte do pássaro nas peças – é provocada por um caçador. Na peça já referida, este personifica o mal, ao lado da feiticeira, ambos apaixonados. Satisfazendo o desejo de sua amada, Maria Helena, que quer para si o Rouxinol, o caçador Everaldo canta o Canto da Caçada:


Rouxinol vais pagar.

De me fazeres infeliz

Uma jovem, que eu amava,

Por tua causa não me quis.

Vou fazer a pontaria,

Quero assim te prevenir,

Nas asas vou te ferir.

Coro

Toma cuidado caçador

Não faças essa tentação

Se matares o Rouxinol

Sentes temor no coração

(SOUZA, 2001, p. 43)

Em seguida, fere a ave, presenteada à princesa Lucicleide pela fada Lucimar. Maria Helena foge com o pássaro ferido, mas Everaldo é preso pelos índios, liderados pelo Tuxaua. Os nobres chegam e ficam sabendo, pelos índios, do acontecido. O caçador é ameaçado pelos nobres indignados, mas envergonhado do que fez, entoa um canto de perdão. A feiticeira aparece trazendo o pássaro, que é devolvido à princesa. O mal, arrependido, é perdoado e vai embora.

O pássaro, em torno do qual gira todo o enredo, é representado sempre por uma criança, em traje de tecido fino, ricamente bordado com lantejoulas e vidrilhos. Ela leva a ave empalhada acima da cabeça, em arranjo minuciosamente elaborado com pedrarias e plumas. O figurino lembra muito uma fantasia carnavalesca, do tipo daquelas postas em destaque nas escolas de samba ou participantes de concursos de salão.

Não poderíamos deixar de observar – e por isso fizemos questão de sempre grafá-los – que os nomes dos personagens evidenciam uma realidade amazônica que, entretanto, no caso dos nobres, parece não combinar com suas titulações. Este dado é evidenciado por Fares, para quem o fato “configura a desconstrução e a desmistificação da cultura e da religião do branco colonizador”:

Antes mesmo que se proceda a síntese do enredo da peça e o conseqüente envolvimento dos grupos que a compõem, lançamos um olhar sobre os nomes com que o artista nomeou suas personagens. No bloco dos fidalgos, por exemplo, a princesa se chama Lucicleide e o marquês, Josimar. Essas duas nomeações, creio, quebram o status da fidalguia, as duas personagens têm nomes muito mais comuns entre os caboclos. Este pequeno detalhe, que nos pode parecer insignificante, é uma mostra da fusão de culturas diferentes.

Entre os componentes da maloca, a filha do tuxaua chama-se Míryam – grafado na forma hebraica – que é Maria, figura singular da cultura judaico-cristã. A feiticeira, além de Maria, é Helena, personagem da guerra de Tróia. (FARES, 1992, p 4).

O tom melodramático do pássaro é quebrado quando entra em cena a matutagem, utilizando o falar caboclo, numa linguagem repleta de licenciosidade, utilizando “metáforas nem tão obscuras” (MARCONE, 1999, p. 152). Referências constantes, mesmo que de forma indireta, aos órgãos sexuais, ao corpo e aos baixos do corpo, lembram o cômico medieval e renascentista apontado por Bakhtin, em seu estudo da obra de François Rabelais. O estabelecimento de um jogo verbal entre casais, pais e filhos, compadres e comadres, que não respeita diferenças ou hierarquias. Como afirma Bakhtin (1999, p.15), referindo-se aos acontecimentos da praça pública medieval, “... as grosserias são um gênero verbal particular da linguagem familiar”.

Em meio à tensão do drama, a comicidade popular, através da matutagem, invade o palco e instaura o riso, “capaz de aliviar as tensões do público ante a tragicidade contida no enredamento da peça”, conforme ressalta Fares (1992, p1). E provoca, segundo Marcondes (, um “outro tipo de catarse: o riso e o gozo provocado pela irreverência, pela malícia, pela obcenidade”.

É possível se fazer uma analogia do matuto com o bobo presente no melodrama tradicional, personagem de “falar tosco, modos freqüentemente atrapalhados, ardis canhestros, etc.” (HUPPES, 2000, p.87). A autora ressalta a função do bobo no melodrama, que se assemelha ao que já se disse dos personagens matutos: “o melodrama explicita a pretensão de entrecruzar pólos opostos. Aproxima o grotesco e o elevado, o heroísmo e a vilania, o tom grave e o ridículo, na forma de um conjunto suficientemente dinâmico para manter a platéia atenta do começo ao final.” (HUPPES, 2000, p.88).

Os matutos, participando diretamente do enredo ou não, sempre estão envolvidos em situações engraçadas em que a força verbal é uma constante. Atuam colaborando com seus senhores na resolução de problemas, mas sempre provocando o riso a cada relação estabelecida. Expor seus pares e companheiros ao ridículo é uma prática constantemente observada. Entre os casais, até mesmo entre os adolescentes – caso do filho do casal de matutos paraenses e da filha de seus compadres –, estabelece-se um jogo de sedução sexual, em que os órgãos sexuais são referidos de várias maneiras. Em Os Longos dias de Vingança, de Laércio Gomes, vemos o seguinte diálogo:
Puqueca – Vou te fazer uma pergunta

Pra responderes a altura

Se tu gostas de macaxeira

Um pouco Mole ou bem dura



Priscila – Esta tua macaxeira

Uma vez eu já pruvei

Mas é que tava tão mole

Que eu comi e não gostei



Puqueca – Veja só se tu gostasse

O que seria de mim

Sem gostar comeste tanto

Que não queria mais ter fim



Priscila – Eu não queria mais ter fim

Eu vou já te explicar

É que macaxeira mole

É difícil de eu gostar


São esses jogos verbais, reforçados por posturas corporais que mais e mais acentuam o tom libidinoso dos diálogos, além de outras peripécias ardilosas, promovidas pelos matutos, que seduzem a platéia a se entregar ao riso. E assim o pássaro junino cumpre sua função de folguedo popular que investe no imaginário e, como observa Huppes (2000, p. 88-89), referindo-se ao bobo do melodrama, estabelece a ponte com a realidade através do jogo cômico, mostrando que “o mundo não é apenas feito de suspiros, de vênias e de gestos sublimes ou criminosos”.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAKHTIN, Makhail. A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento –O contexto de François Rabelais. São Paulo: Hucitec; Brasília: Edunb, 1999.

FARES, Josse. Pássaro Junino: cordão e entre-lugar do discurso amazônico. Belém: Revista Asas da Palavra, EdUnama, 1992.

HUPPES, Ivete. Melodrama - o gênero e sua permanência. São Paulo: Ateliê Editorial, 2000.

LOUREIRO, João de Jesus Paes. Cultura Amazônica: Uma Poética do Imaginário. Belém: Cejup, 1995.

MOURA, Carlos Eugênio Marcondes de. O Teatro Que o Povo Cria. Belém: Secult, 1997.

REFKALEFSKY, Margaret. Pássaros... Bordando Sonhos: Função Dramática do Figurino no Teatro dos Pássaros em Belém do Pará. Belém: Instituto de Arte do Pará, 2001. (Caderno IAP).

SOUZA, Lourival Pontes e. Amor Proibido ou Sangue do Meu Sangue. Belém: Instituto de Arte do Pará, 2001. (Caderno IAP 14/Teatro Popular).






Compartilhe com seus amigos:


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal