Qual o problema do Limbo para a fé da Igreja



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Qual o problema do Limbo para a fé da Igreja?[1]

Maria Clara Lucchetti Bingemer

    Há poucos meses atrás, o povo católico se viu surpreendido com uma notícia onde era informado que o Papa Bento XVI anunciaria no dia 4 de outubro de 2006, uma sexta feira, que o limbo deixaria de existir oficialmente. Seria o fim de uma crença da Igreja Católica, que identificava o limbo como o lugar para onde iriam aqueles que não teriam recebido o batismo não por recusa da verdade, mas por ignorância, por falta de condições ou por impossibilidade.  Nesta chave se incluíam as criancinhas que morriam pouco após o nascimento e outros pagãos, homens e mulheres de boa vontade, que não tinham por que ir para o inferno e ser condenados eternamente, pois não se encontravam em pecado mortal.  Mas, como a salvação estava claramente ligada à recepção do Batismo, sacramento da Igreja e eles não o haviam recebido, também não poderiam ir para o céu.  O lugar intermediário encontrado para eles era chamado limbo.

Quando ainda era o cardeal Ratzinger, Bento xvi declarara: “Pessoalmente, eu aboliria o limbo, visto que ele foi sempre uma simples hipótese teológica”. Na sexta-feira em causa, muita gente suspendeu a respiração na expectativa de saber o destino das criancinhas não batizadas, beneficiárias por excelência do limbo. A definição que o dicionário Aurélio, inspirando-se no catecismo tradicional dá ao limbo é, na verdade, “lugar onde, segundo a teologia católica posterior ao séc. XIII, se encontram as almas das crianças muito novas que, embora não tivessem alguma culpa pessoal, morreram sem o batismo que as livrasse do pecado original.”.

O limbo no Cristianismo é, portanto,  o lugar para onde vão as almas que, sem ter cometido pecados mortais, estão para sempre privadas da presença de Deus, pois seu pecado original não foi submetido à remissão através do batismo. Vão para o limbo, por exemplo, as almas justas que viveram antes da existência terrana de Jesus Cristo.   A figura do limbo foi criada por São Gregório no século IV e depois aperfeiçoada por são Tomás de Aquino no século XIII com o fim de resolver o problema teológico das crianças que morriam sem ter sido batizadas e que, segundo a doutrina anteriormente vigente, eram enviadas ao Inferno. Alguns críticos atuais dão ao limbo nomes sarcásticos, como mezzanino do Inferno.

Já em 2005, o papa Bento XVI convocou cerca de trinta teólogos para que seja feita uma espécie de "reengenharia celestial" que  revise o conceito do limbo na teologia católica.  O limbo é mais um problema católico.  Já nas religiões Protestantes ou Evangélicas este conceito não existe, pois as crianças são consideradas puras, e vão direto para o Céu em caso de morte. Nestas religiões, o batismo é permitido somente para pessoas que já têm condições de renunciar, conscientemente, a viver em pecado, e aceitam que seus pecados foram remidos por Jesus Cristo.

Já o Catecismo da Igreja Católica afirma que “com respeito às crianças que morreram sem Batismo, a Igreja pode apenas assegurar-lhes a misericórdia de Deus, tal como o faz nos ritos funerários para eles. Na verdade, a grande misericórdia de Deus que deseja que todos os homens sejam salvos, e a ternura de Jesus com relação às crianças, que o levou a dizer: “Deixai vir a mim as criancinhas e não as afasteis”, nos permite esperar que haja um caminho de salvação para as crianças que morreram sem o Batismo. Tudo que é mais urgente é o chamado da Igreja a não impedir as crianças de se aproximarem de Cristo através do dom do santo Batismo”.

Como se vê e nas próprias palavras de Bento XVI, o limbo é um teologúmeno e não um dogma.  Uma hipótese teológica e não uma afirmação com força dogmática.  A palavra limbo não ocorre nas escrituras. Na história de Caim e Abel, aparece Nod, desterro de Caim, “lugar de miséria, de solidão e de afastamento de Deus”. Em Jó, essa terra desolada ganha o nome de Sheol, lugar escuro, de poeira e silêncio. É a morada dos que são esquecidos de todos. Lá, o martírio não é medido em intensidade, mas em distância. Os mortos estão longe de Deus. Dante instala seu limbo no primeiro círculo do inferno e se refere a ele como cego mundo. Seus habitantes sentem a oportunidade perdida e têm consciência de que, para eles, o essencial jamais se cumprirá. Não existe arrependimento, mas sentimento de predestinação: a dolorosa noção de que estão condenados porque nasceram, ou morreram, antes da hora; de que a sorte, não os atos, os condenou. O limbo é o lugar dos que sofrem os desencontros do destino.

Até o século v o limbo não tinha importância. A razão é que os antigos entendiam o pecado original de outra maneira. Para os teólogos pré-agostinianos, a queda de Adão maculava os homens pelo exemplo, não pelo mal. Diante do bem e do mal, Adão preferiu o segundo usando da liberdade que Deus lhe deu ao criá-lo. Com isso, introduziu a possibilidade de imperfeição. A passagem canônica do Novo Testamento que trata do tema é Romanos, capítulo 5, versículo 12: “Por isso, como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim a morte passou a todo o gênero humano, porque todos pecaram...”. O limbo nasce aqui — por uma escolha que pretende deixar claro que alguns não pecaram, mas também não foram incorporados à vida de Cristo por não terem sido batizados. 

Portanto, estes não têm culpa pessoal e não merecem ser penalizados.  Fiel a seu ensinamento que a recepção do Batismo é a porta de entrada para a filiação divina e a salvação e a pertença à Igreja, o magistério cria essa categoria de


 “limbo” para significar a misericórdia de Deus para com todos. Deus sabe que seres inocentes como as crianças não têm culpa porque morreram quando ainda não tinham uso da razão.  Da mesma maneira outras pessoas que nunca ouviram falar de Cristo, mas vivem uma vida reta e ética, coerente com sua própria escala de valores e com a Verdade suprema que é o amor.

É compreensível que Bento XVI ache que não tem mais razão de ser apresentar o limbo como solução para este problema.  O Concílio Vaticano II, com sua concepção de Deus como desejo salvífico universal estendido a todos os homens e mulheres sobre a terra desatrelou a salvação da recepção do Batismo.  Remetendo a Mateus 25, 31-46, onde os benditos do Pai não sabiam sequer que estavam fazendo isto ao próprio Cristo, e no entanto estão salvos, a Igreja não necessita mais aludir a um lugar intermediário para afirmar que os que morrem sem Batismo e são inocentes não irão para o inferno.  Isso pode ser deduzido claramente do ensino da mesma Igreja sobre a misericórdia infinita de Deus que deseja que todos sem exceção sejam salvos. 

Talvez ate mesmo por causa disto, o Papa tenha visto como não necessária à promulgação de um decreto afirmando o que já esta afirmado no Concilio. O decreto não veio. Bento xvi não se pronunciou.

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[1] Cf para muitas afirmações feitas aqui, o artigo de Joao Moreira Salles in Revista Piauí, N 2, 2006.

 

* Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio. É também autora de "A Argila e o espírito - ensaios sobre ética, mística e poética" (Ed. Garamond), entre outros livros.

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