Quase não acreditei quando a editora de livros ligou



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CIDA A EMPREGUETE
Quase não acreditei quando a editora de livros ligou.

- Maria Aparecida dos Santos?

- Sirn, eu mesma.

- Li seu diário de ponta a ponta, sem parar nem para beber água. Quero publicar!

- Meu diário? - perguntei feito uma boba. Se eu mesma encaminhei os originais dc diário para a editora, o que mais poderia ser?

Animada, a editora continuou:

- Vamos marcar uma reunião para discutir os detalhes do contrata.

Sim, sim - eu repetia. Confesso que nem ouvia direito.

Para mim, o que interessava era ver o Diário da Cida virar um livro! O diário da menina que viveu na casa dos patrões até os 19 anos, ficou famosa com um trio musical depois aprendeu que seu verdadeiro sonho era ser escritora. Quem diria, hein, Maria Aparecida! - uma voz interior dizia. Maria Aparecida, criada no quartos dos fundos, arrumadeira desde criança para compensar o imenso favor de ter sido alimentada e protegida por um teto.

- Então combinado: segunda-feira, no escritório - propôs a editora. - Parabéns, Maria Aparecida. Seu diário é valioso

- Obrigada - respondi baixinho, como sempre faço quando a garganta fecha e o olho arde.

- Meu Deus! Falei para mim mesma, ao desligar o telefone. . Nem parece que fui eu que escrevi aquilo tudo! E agora? Todo mundo vai saber a minha verdadeira história?


Prólogo
Não gosto do meu nome de batismo, até porque não sou nada "aparecida". Ao contrário, sempre fui um pouco tímida e prefiro que me chamem de Cida: é menor, mais simples e fácil de falar.

Mas, toda vez que penso no meu nome, entendo que apareci na vida fazendo uma grande confusão!

Minha mãe se chamava Dolores, e trabalhava como arrumadeira na casa da família Sarmento - o famoso advogado. Ela morava lá, num quartinho com minha Madrinha, cozinheira da casa.

De repente, descobriu que estava grávida do motorista - outro pobre coitado que tinha vindo tentar a vida no Rio de Janeiro. Namoro recente.

O que a dona da casa, por mais que gostasse de minha mãe como empregada, ia achar daquela gravidez fora de hora? No mínimo, um complô dos empregados! Mais uma boca para alimen- tar, mais uma criança para fazer barulho, além das duas meninas Sarmento que já movimentavam o suficiente aquela mansão!

"Um bebê nos fundos da casa! Uma empregada sem trabalhar no próximo verão! E um casal namorando escondido dentro da minha propriedade!", a patroa deve ter pensado. Fico imaginando

minha mãe, minha Madrinha e o meu jovem pai - todos atrapalhados com a situação, confabulando na lavanderia. Não teve outro jeito. A família Sarmento acabou aceitando a Cida.

Um dia perguntei para a Madrinha como é que a D. Sônia (é o nome da dona da casa) não botou todo mundo de mala e cuia para fora da mansão? A Madrinha explicou que d. Sônia tinha aquele

jeito de durona, mas, no fundo, ficou com pena da Dolores. Além disso, Dolores fazia às vezes de babá para as duas meninas Sarmento. Choronas como eram, se Dolores saísse do dia para a noite, o prejuízo seria ainda maior.

Para aumentar a dor da minha mãe, meu pai sofreu acidente na Serra, voltando da casa que os patrões tinham em Teresópolis. Chovia muito, um aguaceiro de verão daqueles que trazem o morro inteiro abaixo... O morro engoliu tudo. Até a alegria de viver da minha mãe, que desde então passou a me deixar cada vez mais aos cuidados da Madrinha. Ainda hoje, nas enchentes do verão, a Madrinha fica igual a uma maluca, de um cômodo para outro, fechando as janelas e as portas.


PODE NÃO PODE!
Quem não gosta de brincar dias e dias inteiros quando se é criança?

Ariela e Isadora, as filhas dos patrões, são um pouco mais velhas do que eu. Ariela é morena e baixinha. Isadora é loira e alta. Nós três vivíamos inventando coisas. E foi um bocado difícil entender as regras da casa: a Cida é amiguinha? Sim! Pode brincar na sala, nos quartos, ou quando tem outras crianças para brincar? Não! Em compensação, a Cida pode brincar à vontade no quintal, e no quartinho dos fundos com a Madrinha. Pode, sim ficar no quarto, dentro da casa, se uma das meninas estiver doente ou chorando de medo, né, Isadora?

Infância é pura desordem. E por mais que a Madrinha e a d. Sônia repetissem as regras, a gente vivia fazendo bagunça. Isadora gostava de dormir no quartinho dos fundos; desejava os presentes que minha mãe me trazia do mercadinho e, às vezes implorava, aos prantos, para que eu os trocasse com ela. Um celular de plástico do camelô por uma roupa de Barbie que ela tinha acabado de ganhar. Uma canetinha que brilha por um álbum novinho, cheio de figurinhas de princesa para colar. Nessas, eu quase sempre saía ganhando!

Já Ariela costumava se arrepender um minuto depois por ter me dado qualquer coisa. Fazia questão de pedir de volta na frente de todo mundo, falando bem alto - mesmo que a Madrinha explicasse que a patroa tinha me dado, porque já não servia mais para ela ou por estar fora de uso.

Quer saber? O mais chato de tudo era interromper a brincadeira quando chegava alguém de fora. E ter que sair correndo. "Lá pra dentro" como fugitiva!

Fora isso, a minha lembrança da infância é só alegria e correria em volta daquela piscina gigante. E quando os patrões viajavam: tíbum na água fria para refrescar.


A PEQUENA NA BORRALHEIRA
A vida mudou muito quando as meninas Sarmento entraram na escola americana em período integral. O motorista levava as duas bem cedo, eu nem havia terminado o café, e só voltavam à

noitinha. Elas chegavam nervosas e cansadas. parecia que não gostavam mais de brincar. parecia que nem eram mais crianças.

Para mim a vida também ficou mais chata. Passava o período da manhã na escola pública, a uns doze quarteirões da mansão, e quando voltava quase já não tinha tempo de fazer mais nada:

ajudava a Madrinha com a mesa do almoço, depois com a louça; arrumava as compras do supermercado; cuidava do meu uniforme; dobrava as roupas que saíam da secadora e mais uma porção de tarefas para ajudar minha mãe. Depois, jantava bem cedo para sobrar tempo de fazer as lições de casa. Ficava semanas quase sem ver direito os patrões. E se não fosse a Isadora ser tão birrenta, d. Sônia evitava cada vez mais que as filhas visitassem os quartos dos fundos.


O dia D
Aquela terça-feira prometia se tornar especial para mim. Era o anúncio do resultado do concurso de melhor redação da escola.

Sétima série em peso participando! Eu tinha caprichado, criando uma história de terror sobre o sumiço de uma estátua de bronze. Se fosse escolhida entre as melhores, podia concorrer a uma coleção de livros! Estava torcendo, e no fundo acreditava na vitória.

A professora entrou na sala:

- Maria Aparecida? - Dirigiu-se na minha direção, comovida.

- Levantei, preparando um sorriso...

Mas a professora me olhou com olhos de pavor. Uma sombra esquisita atravessou a porta.

- Acompanhe-me, por gentileza...

Pegou na minha mão e, em seguida, outras pessoas chegaram: a diretora, a coordenadora, a orientadora da escola. Credo!, pensei. "Vou receber um prêmio ou vamos para um velório?"

As mulheres foram me conduzindo para outra sala, como se eu não estivesse cansada de conhecer o caminho. Silêncio. Dava até para ouvir o teque-teque do tamanco da diretora pelo corredor. De

vez em quando, algumas cabeças de meninos curiosos surgiam nas portas das salas, agitados por aquela estranha caminhada.

Na salinha da coordenação, a tia do café veio me receber com um copo de água com açúcar, e foi então que comecei a ouvir o coro de vozes, um pouco desencontradas:

- Sua mãe, Maria Aparecida... - dizia uma.

- Infelizmente, Maria Aparecida... - outra voz.

- Um infarto, Maria Aparecida, na esquina da padaria...

- Maria Aparecida, o coração parou, minha filha...

Eu repetia "quero a minha Madrinha,,, chorava muito e enfiava a cabeça no meio dos joelhos. Minhas amigas, em pouco tempo, foram chegando, me rodeando, como um bando de passarinhos tristes. Alguém disse baixinho:

- O sapato da mãe dela ainda está Ìá, na calçada da padaria.

Num "segundo compreendi tudo: minha mãe tinha morrido! Não era preciso dizer--me. Dei um grito de desespero e senti-me só no mundo.



Os livros, que minha mãe me ensinou a amar, foram meus verdadeiros companheiros.

Pode ter herança mais bonita? Uma pequena biblioteca toda minha.


Gostar desse momento. Gostar dessa emoção tão cheia de riquezas íntimas.

Pensar nos livros que a gente já leu, nas alegrias dos livros lidos.


COMO NASCEU DO DIÁRIO DE CIDA
Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém , provavelmente a minha própria vida.
Saudade. Essa palavra me levou até o caderno, dias depois do "Dia D". O olho pesava. A mão tremia. O diário da Cida foi o jeito que encontrei de contar tudo a minha mãe, de dizer que a vida dela continuava na minha. E que uma pessoa tão linda assim não ia me abandonar sozinha, nem ia deixar de saber cada um dos meus passos daqui em diante. Enquanto ela me guiava, eu escrevia para me salvar.
Daqui para a frente vocês vão conhecer a minha história pelas páginas do meu diário. Só assim terão uma idéia de quantos acontecimentos preparam um sonho!
Cida, empregadinha
Uma semana depois da morte
Mãezinha, nem preciso dizer que os últimos dias foram os mais tristes dos meus 12 anos de vida. No começo, muita gente do meu lado, meus professores, minha turma da escola, a Madrinha.

Dr. Sarmento cuidou dos papéis e dessas coisas chatas, e d. Sônia insistiu para eu ficar descansando no quarto. Mas agora, Mãezinha, só de olhar para a cara da Madrinha dá para ver a aflição: o que é que vão fazer comigo?


Orfanato?
Ontem escutei a Isadora chorando, pedindo para a d. Sônia não me mandar para o orfanato. D. Sônia explicou que a madrinha não pode cuidar de mim se não tiver a guarda, ou seja, se não

assinar os papéis direitinho, dizendo para o juiz que cuidará de mim até que eu fique maior de idade. D. Sônia também explicou que eles terão que gastar mais dinheiro com uma nova empregada. E como vai caber tanta gente assim num quartinho só?

Foi então que eu pensei: o salário da Madrinha mal dá para ela... Quem vai pagar minhas coisas? Onde é que eu vou ficar se eu não puder ficar no quartinho com a Madrinha? Será que a nova empregada não pode dormir naquele quarto sempre vazio do salão de jogos?

Mais sobre orfanato
Tive um pesadelo, Mãezinha. Eu morava num internato, na Inglaterra, como a Sara Crewe, da história da Princesinha; e a malvada da senhorita Minchin já tinha descoberto quem meu pai tinha morrido e perdido toda a fortuna. A bruxa me perseguia dia e noite com suas ordens! Em vez de brincar naquele quarto lindo que antes era só meu, eu lavava e encerava as escadarias do prédio. Meus joelhos doíam, minhas costas doíam... e quando acordei a

Madrinha me trouxe a boa notícia. De tanto que a Isadora pediu para o dr. Sarmento, não é que ele conseguiu que o juiz desse aminha guarda Para a Madrinha?

E tem mais: ela me prometeu nunca sair de perto de mim.

- Nós duas juntas podemos muito bem fazer o trabalho da casa sem ter que botar outra pessoa no quartinho! - disse com satisfação. - Você já é uma mocinha - afirmou, arrumando a gola do meu pijama. - É forte e prendada para fazer o serviço de arrumadeira. E eu, minha filha, darei conta do resto! - anunciou feliz por me ver livre do orfanato.

Nossa, Mãezinha, que alívio! A Madrinha e eu nos abraçamos tanto que as minhas costas ficaram como se eu tivesse mesmo lavado a escadaria inteira do internato inglês.

Bom dia!
Passei a dormir na cama que era sua, a usar o seu criado-mudo, e botei lâmpada no abajur de louça pintado de flores azuis. Assim posso ler Jane Eyre até dormir...

Ouvir o barulho da máquina de lavar, sentir o cheiro de café bem cedinho, e esperar o momento em que a Madrinha vem me tirar da cama - tudo isso me faz sentir como se você ainda estivesse por perto e como se aqui fosse para sempre a minha casa.


Que raiva!
Tenho feito o possível para me apresentar mais à d. Sônia e ao dr. Sarmento para as tarefas da casa. Sirvo o café da manhã, embora com medo de derrubar suco na mesa; abro o portão da garagem para o dr. Sarmento e aproveito para levar o lixo na calçada. E nem acredito quantas vezes subo e desço as escadas para arrumar coisas no quarto das meninas. As duas foram viajar para a Serra com os avós.

D. Sônia me olha como se eu tivesse me tornado um problema: desajeitada para fazer as coisas e incapaz de entender o que ela quer. Reclama o tempo inteiro da desordem na casa, mas não tem paciência de explicar até o fim o que é que há de errado! Age como se você, Mãezinha, tivesse abandonado o serviço, sem mais nem menos. Eu a ouvi dizer outro dia, ao telefone: "A empregada inventou de enfartar na esquina". Quando ela me viu, disfarçou, lamentando-se: "Olha, a Bolores foi a melhor empregada que tive­mos em décadas. Estou sem chão."

Claro que fui chorar, cheia de raiva e tristeza, no ombro da Madrinha. Mas ela sempre se conforma com tudo! Parece que é normal que eu ocupe o seu lugar nos serviços domésticos, Mãezinha. Parece que é normal ser filha de doméstica, neta de domés­tica. Normal ter uma família inteira a serviço de outra família. Madrinha vive repetindo:

- Bote as mãos para o céu, Cida, e agradeça por ter um lugar ao sol.

Lugar ao sol, Mãezinha? Será?
[...] pois Bessie agora frequentemente me usava como uma espécie de criada assistente do quarto das crianças, para arru­mar o quarto, empanar as cadeiras e coisas assim.
Jane Eyre

Charlotte Bronte




Presentes de Natal
OÌha só, Mãezinha. Dessa vez, Isadora resolveu despejar o armário dela no meu quarto. Isso mesmo. Ganhei um verdadeiro guarda-roupa novo para o próximo ano. Isa está radiante porque vai fazer seis meses de inglês em Londres. Inventou que será uma garota completamente diferente: mais alegre, mais adulta. primeira providência (ainda bem!!!), se livrar das roupas "velhas" e "de menininha".

Você sabe, de veÌhas não têm nada, e a nossa fada Madrinha há de reformar tudo para o meu tamanho em dois domingosl!!

Ai. Mãezinha, sabe aqueÌa saia xadrez que eu amo/ Então, agora é minhal Muitas bÌusinhas curtas e com rendas. Sapatos quase novos, sandálias de todos os saltos, e até umas bijus lindas, só precisando de umas pecinhas. É verdade que o estojo de maquiagem está meio caído. E daí? Dá para aproveitar três sombras e um blush quase inteiro. Como diz a Madrinha:

- Sempre dá pra aproveitar, Cida!

Nessas horas eu penso: Isadora é mesmo a irmã que eu não tive.
O que é que eu digo na escola?
Tenho vontade de apagar este ano inteirinho da minha vida! A senhora bem sabe, Mãezinha, a escola sempre foi tudo para mim.

Lá, ao menos, eu fico com minhas amigas, aprendo coisas novas todos os dias, e ainda posso me divertir no recreio. Só que passei a ter auìas de inglês com uma professora daquelas que não quer saber se não tive tempo de fazer Ìição porque estava arrumando as gavetas da ArieÌa! Ela me deu uma nota vermelha por eu não ter ido ao cinema com a cÌasse para treinar o inglês...

- Acha que eu não fui ao cinema à tarde porque não quis, Mãezinha?

D. Sônia não deu autorização para eu sair, porque dr. Sarmento ia trazer - justamente naquele dia - uns políticos para jantar. Resultado: passei a tarde correndo de Ìá pra cá atrás de d. Sônia, lustrando colheres de prata, cortando cabinho de flores para fazer arranjos de mesa, polindo taças!

Ela me olha sem paciência e diz:

- Você não sabe mesmo o trabaÌho que dá organizar um jantar sentado, né, Maria Aparecida?

Pois é, Mãezinha. Agora não me chama mais de Cida - só de Maria Aparecida!

E enquanto eu aprendo a dobrar guardanapos com encaixe para os talheres, perco pontos no inglês, falto na reposição de matemática. Tenho medo, um medo enorme de perder o ano e não me formar com a turma. Cheguei a sonhar que meu diploma caía num buraco bem fundo, no morro, atrás da escola. Todo mundo olhava com pena! O diretor balançava a cabeça, desanimado:

- Ah, Maria Aparecida, perdeu sua chance...

Acordei com febre.



Laralalararará...
Acabei me conformando de não participar do baile de formatura no final do ano, pois a comissão organizadora cobra um dinheiro à parte.

- Nem pensar em pedir quaÌquer quantia para o dr. Sarmento - advertiu a Madrinha.

Ela decidiu que devo me concentrar nos exames, iá que continuo na corda bamba tanto em inglês como em matemática. E prometeu arrancar umas folgas para que eu possa me preparar melhor.

Confesso que, num primeiro momento, me senti o último dos mortais. Mas, depois, a comissão de formatura veio com a ideia de montar um coraÌ para o dia da entrega do dipÌoma. Resolvi deixar a história do baile pra 1á, e estou participando loucamente dos ensaios!


Passei, passei raspando, mas passei!
Passei os últimos tempos na maior correria. E só agora eu volto a escrever no diário. Mas tenho um forte motivo, Mãezinha: acabei de chegar da minha colação de grau. A Madrinha ficou tão radiante, que parecia ter vinte anos a menos. Sentou na primeira fila do auditório, sorrindo o tempo inteiro. Só tinha olhos para mim.

- Quando a Bolores, sua mãe, ia imaginar esse dia! - comemorava.

- É só o primeiro diploma - eu disse, na hora em que d. Graça, a coordenadora, me deu o canudo (Vazio, né? Porque o papel pra valer tem que ser retirado na secretaria da escola). Estou mesmo resolvida a fazer Jornalismo, porque gosto de escrever - e queria que você, Mãezinha, fosse a primeira pessoa a saber.

Hoje cantamos "Será", uma música linda do Legião Urbana — com coreografia inspirada no filme Mudança de Hábito. Todo mundo riu e chorou de emoção. No final, surpresa! Uma chuva de papel picado caiu no anfiteatro.

Esse é o dia mais feliz da minha vida.
Meu primeiro amor
12 de outubro. O dia dos meus 15 anos, Mãezinha. Meu corpo ganhou cintura, meu cabelo cresceu e já não me sinto a menini-nha de antes. Até os garotos mais velhos começaram a me olhar de um jeito diferente...

Como caiu num sábado, que é quando tenho folga depois do almoço, saí para comer hambúrguer com minhas amigas mais queridas da classe. Então, então... ENTÃÃÃÃÃOOO... Você nem imagina o que aconteceu! Um garoto da mesa ao lado botou os olhos azuis o tempo todo em mim. Meio moleque malcriado, meio bichinho abandonado. Lindo.

Na hora de cantar parabéns, teve a ousadia de se meter na nossa mesa, dizendo que também havia nascido no mesmo dia, que estava comemorando 17 anos e não tinha ninguém para soprar velinha com ele.

- Pobrezinho... - as meninas zombaram em coro, achando que era uma cantada daquelas bem esfarrapadas. Eu, muito tonta, até acreditei!

Elas foram tão inflexíveis que a criatura teve que mostrar a identidade Para a gente.

Pois estava lá: Rodinei Maximiliano de Lima. Data de nascimento: 12 de outubro. Não é que era verdade mesmo?

Depois da revelação, eÌe veio com um papinho para o meu lado de que éramos almas gêmeas e precisávamos nos conhecer melhor. Perguntou se a gente não podia comemorar juntos em outro lugar e blábláblá'..

Despistei o que pude, mas deixei que me acompanhasse até a mansão.

Um segundo antes de eu entrar, ele me roubou um selinho. E eu, muito boba, fiquei vermelha, sem fala, e ainda menti dizendo que o dr. Sarmento, meu patrão, estava na janela, me chamando.

Como é que pode, Mãezinha? Aos 15 anos ser tímida como uma menina de 9?


Teste de múltipla escolha
Descobri muitas coisinhas do Rodinei pelas minhas amigas. Ele é o tipo de menino revoltado. É órfão (que palavra feia!) e até pouco tempo passava quase o dia inteiro pichando muro de "gen­te bacana" e correndo da polícia com as latinhas de spray na mão. Se não fosse seu Messias, dono da mercearia aqui perto, já o te­riam levado para uma dessas prisões de meninos pobres. Mas seu Messias gosta dele como um pai. Ele o contratou para trabalhar na mercearia e passou a ir até às reuniões da escola. Aos poucos, segundo me contaram, ele está tirando o Rôdi da rua.

Mãezinha, a senhora deve estar pensando "Por que é que a Cida está tão interessada nesse garoto?"

Me ajuda, Mãezinha! Será que aceito ser alma gémea dele por um tempinho?

Vou fazer uma lista de pontos positivos e negativos do Rodi­nei para você me ajudar a decidir!



Qualidades do Rôdi

  • Olhos azuis lindos e jeitinho de filhote abandonado.

  • Ajuda em tudo: carrega peso, lixo, o que for preciso para eu me livrar mais cedo do serviço de casa.

  • Gosta de andar do meu lado, puxando a bicicleta...

  • Desenha que é uma maravilha!

Defeitos do Rôdi

  • Tem passagem na polícia por causa de pixo.

  • Fala o tempo todo que o mundo dos ricos é podre!

  • Puxa briga com meninos arrumadinhos na saída da esco­la. Diz que é "tudo playbinha".

  • Usa um gorro bem encardido e calças sempre sujas de tinta.

E então, Mãezinha, aceito namorar esse "malcriado dos olhos azuis"?

Brincadeira sentimental

Cada letra da palavra SEITA equivale a um sentimento: S quer dizer Saudade; E - Esperança, I - Indiferença; T - Ternura; e fi­nalmente o que mais se espera ao final do jogo: a letra A, de Amor!



Como jogar SEITA - escrever por extenso: o dia, o mês, seu nome completo e o nome completo do seu amado - na linha ho­rizontal. Não pode repetir letra! (Para ficar mais fácil, coloque as letras repetidas na vertical) No final, é só contar as letras que não se repetiram e buscar o número correspondente na SEITA. Quan-
do o número final for maior do que 10, faça da seguinte maneira: 15 = 1+5 = 6 = Saudade, e assim por diante.
Doze de outubro Maria Aparecida dos Santos Rodinei Maxi-miliano de Lima


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* Pode ser qualquer dia de qualquer mês em que você queira testar os sentimentos de alguém.

Os desastres de Isadora


Mãezinha, foi só eu começar a namorar o Rodinei para Isado­ra mudar completamente o jeito dela comigo. Antes nós trocáva­mos segredos de amigas, agora ela vive ameaçando contar para d. Sônia que estou saindo com um "bandidinho". Por mais que eu explique que o Rôdi está mudando, ela diz que um tipo como ele é uma ameaça para a família inteira.
A Madrinha disse para eu não dar hola às criancices da Isado-ra. Como criancice, Mãezinha? Ela é mais velha do que eu, e deu para me tratar como se fosse a patroa?

A senhora acha que Isa está com ciúme?

O Rôdi vive metendo na minha cabeça que eu sou muito mais bonita do que elas:

- Não tem comparação, Cida. Não há dinheiro que pinte os


olhos mais negros do que os seus, o cabelo mais macio, nem pele
mais delicada...

Isadora percebeu que o Rôdi não cai nessa de família-postiça, de quase irmãs. Para ele, servir lanchinho para as filhas do dr. Sarmento desde menina só tem um nome: trabalho infantil.

Eu já expliquei que, se não fosse o dr. Sarmento, d. Sônia e as meninas me aceitarem nesta casa, onde é que eu estaria a essa hora?

- No meu cafôfo - o atrevido responde, tentando me atrair


para o quarto dele, no Borralho, a comunidade do bairro de onde
vem a maioria das domésticas, porteiros e babás do condomínio.
Não entre aí, Sofia, não prove esses frutos que parecem tão bons, e que nada mais são do que amargos e envenenados. O jardim é o jardim do mal.

Os desastres de Sofia

CONDESSA DE SÉGUR



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