Quinze dias em setembro



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QUINZE DIAS EM SETEMBRO
Ryoki Inoue
Companhia Editorial Nacional

2008


Prólogo
O dia amanhecera bonito e, como era de costume, o senhor Henriques vestiu o calção de banho e rumou para a piscina de sua casa.

Fernando Henriques era um homem rijo e cuidava com muito ca­rinho de sua forma física. Com quase cinqüenta e cinco anos, tinha um corpo de fazer inveja a muitos jovens, e ele, claro, orgulhava-se disso. Havia mais de cinco anos que deixara de fumar e limitara seu consumo de álcool a apenas uma ou duas doses de conhaque por dia, sempre após o jantar. Dizia que pretendia viver até os cem anos, e com saúde. Tinha a convicção de que só valeria a pena ter uma vida longa se esta fosse saudável, se ele pudes­se aproveitar até o último instante tudo o que conseguira conquistar.

E ele, realmente, tinha conquistado muita coisa. Nascera de fa­mília humilde, trabalhara como um mouro escravo para poder estudar, uma vez que seus pais jamais teriam tido condições de lhe proporcionar mais do que o curso primário e, além de tudo, ainda precisavam de sua força de trabalho para completar a parca renda familiar. Começara, po­dia-se dizer, do nada. Ainda moleque, engraxara sapatos para ter alguns trocados no bolso sem ter de pedi-los ao pai, pois sabia que este nunca podia dispor de um centavo sequer sem que isso não viesse a fazer falta nos gastos obrigatórios do dia-a-dia. Mais tarde, já no ginásio, trabalha­ra fazendo entrega para um armazém e, nessa época, além de um pequeno salário, levava para casa boa parte dos mantimentos que a família consumia. Manuel, o proprietário do armazém, bem depressa descobriu que Fernando seria muito mais útil ajudando-o com as escritas da firma do que entregando, de bicicleta, as encomendas que recebia. Foi assim que o rapaz, de repente, se viu guindado a uma posição mais nobre: a de escriturado. Daí para se inclinar a fazer um curso técnico de con­tabilidade foi um pulo. E, da Escola de Comércio para a Faculdade de liconomia, foi apenas um passo conseqüente a muitas e muitas horas de dedicação ao estudo e a uma imensa força de vontade.

Durante o curso, conhecera Marialva, moça boazinha, mas sem-graça, com quem se casou um ano antes de se formar. Os dois lutaram muito, mesmo porque Marialva, ao subir os degraus do altar, já tinha em seu ventre o resultado de uma imprudência, numa noite em que ela e Fernando tinham ficado sozinhos no pequeno apartamento onde ela vivia com a mãe.

Desde sempre, a vontade férrea que Fernando tinha de prosperar e de, um dia, ser alguém na vida, fez com que ele vencesse todos os obs­táculos. Marialva ajudava bastante, claro, e jamais pedira uma emprega­da para ajudá-la na labuta doméstica, jamais desperdiçara um só grão de arroz e deixara de lado toda e qualquer vaidade, sempre pensando que o mais importante era juntar dinheiro. Juntar o máximo possível e o mais depressa que o casal pudesse.

Foi quando nasceu seu terceiro e derradeiro filho, Carlos Fernando, que a estrela da sorte brilhou sobre o lar dos Henriques.

Já fazia algum tempo que Fernando vinha dizendo à esposa que seu sonho era montar um escritório de comércio exterior. Ele vinha acompa­nhando a evolução dos relacionamentos comerciais do país com outras nações e pressentia que esse seria o caminho da fortuna.


  • Entre ficar trabalhando como um escravo, desenvolvendo ne­gócios para que outros fiquem ricos, é melhor pensar em fazer algo por mim e para mim mesmo — dizia. — E esse negócio, com certeza, está relacionado com o comércio exterior.

Uma bela manhã, ao chegar ao escritório, foi chamado por seu patrão.

  • Fernando, tenho uma má notícia. Vou ser obrigado a fechar a firma, e isso não demorará nem mesmo uma semana.

Na realidade, essa notícia não foi nenhuma surpresa para Fernan­do, que, absolutamente a par do que estava acontecendo na empresa, já previa que o senhor Goldmann saísse do mercado. Havia muito que o patrão estava fazendo gordos investimentos em outras áreas e enviando dinheiro para uma conta na Europa. Fernando já vinha percebendo que a empresa estava encolhendo, diminuindo seus investimentos, e o patrão estava preparando alguma coisa nefasta.

— Mas não fique preocupado, Fernando — dissera-lhe ele. — Você e todos os outros vão receber tudo o que têm direito.

De fato, Goldmann foi correto, acertou as contas, e Fernando, uma semana após aquela conversa com o patrão, viu-se com um cheque signi­ficativo nas mãos.

Era a oportunidade que estava esperando para abrir o próprio negócio.

Como, durante o tempo em que trabalhara para Goldmann, ele conseguira juntar uma porção de nomes de clientes e sempre se relaciona­ra bem com todos eles, Fernando não encontrou dificuldade em montar uma carteira própria e, muito rapidamente, passou a derivar suas atenções para o campo que sempre o atraíra, ou seja, o comércio exterior.

Graças à interferência de um desses clientes, conseguiu come­çar a intermediar importações de matérias-primas para a indústria química e exportações de produtos acabados ou semi-acabados. O trabalho passou a aumentar e o dinheiro entrava em quantidades cada vez maiores.

De um apartamento pequeno e humilde na Casa Verde, em São Paulo, a família Henriques mudou-se para uma casa em Perdizes e, de lá, para uma mansão na Granja Viana, transformando a casa de Perdizes na sede paulistana da Fernando Henriques Import & Export.

E era na piscina dessa mansão da Granja Viana que o respeitável senhor Fernando Henriques tinha acabado de mergulhar para dar as suas braçadas matinais.

Fernando nadou por cerca de trinta minutos e saiu da água, ves­tindo o roupão que a empregada, Marcy, tinha deixado sobre uma das espreguiçadeiras.

Entrou na casa pela porta do jardim-de-inverno e, vendo Marialva diante da televisão, começou a falar:



  • Tenho uma reunião importante em Campinas ao meio-dia... E já passa de dez e...

Marialva, com um gesto, interrompeu-o e, apontando para a tele­visão, disse:

  • Olhe... Olhe o que está acontecendo em Nova York...

Fernando pôs os óculos e o que viu fez com que a cor de suas faces, habitualmente coradas, tendesse para uma palidez quase cadavérica.

O repórter estava dizendo:

Vocês podem observar no replay, o segundo avião entrando, prati­camente entrando, no terço superior da torre sul do World Trade Center, um dos principais símbolos da cidade de Nova York! Poucos minutos depois de o primeiro avião ter entrado na torre sul, vemos agora outro golpe aos edifícios! Com isso, a suposição de que poderíamos estar diante de um acidente aéreo não parece ser mais razoável...

Fernando olhou o relógio. Eram dez horas e quinze minutos.



  • Meu Deus! — exclamou. — Meu Deus!

Marialva olhou estarrecida para o marido e disse, a voz sumida:

  • Ele tinha uma reunião na torre norte do World Trade Center às oito horas da manhã, horário de Nova York... E os outros dois já estavam no escritório...

  • Ele nunca foi de horários... Pode ter se atrasado...

  • Mas Tony e os outros jamais se atrasariam... — balbuciou Marialva.

Lutando para conter as lágrimas, Marialva meneou negativamente a cabeça e murmurou:

  • Ontem à noite, quando ele me telefonou, disse que não poderia perder essa reunião de jeito nenhum... E disse que sua namorada já tinha pe­dido ao serviço de telefonia do hotel para que o acordassem às sete horas...

Fernando correu para o telefone e discou um número. Enquanto ele aguardava a chamada se completar, o repórter, na televisão, fazia um retrospecto dos acontecimentos:

  • ...Às oito horas e quarenta e cinco minutos, horário local, nove horas e quarenta e cinco minutos, horário de Brasília, um Boeing 767-200 da empresa americana United Airlines, que havia decolado de Boston às 7h59 com destino a Los Angeles, com nove tripulantes e 65 passageiros, foi desviado de sua rota e chocou-se com a torre norte do World Trade Center, em Nova York. Era o vôo 175. Exatamente 18 minutos depois, às nove horas e três minutos, outro Boeing 767-200, da empresa American Airlines, que partiu de Boston às 8h10 no vôo 11, também com destino a Los Angeles, com 92 pessoas a bordo, atingiu a torre sul do World Trade Center, diante das câmeras de TV...

Fernando desligou o telefone e disse à mulher:

  • Está caindo na caixa postal... Ele não está atendendo... Vou ligar para o hotel.

Entretanto, a telefonista internacional avisou que nenhuma ligação estava sendo possível para a cidade de Nova York...

  • Meu Deus... — reforçou Marialva. — Tomara que eles tenham se atrasado!

E, não mais conseguindo se conter, Marialva começou a soluçar. Vendo o estado de nervosismo da esposa, Fernando passou-lhe o braço pelos ombros e disse:

  • Vamos aguardar... Eles certamente vão nos ligar...

Nesse momento, a empregada entrou no jardim-de-inverno trazen­do o desjejum, e o casal, muito mais para tentar disfarçar a angústia do que por apetite, sentou-se à mesa.

Começaram a comer em silêncio, ouvindo ansiosamente a repor­tagem. Fernando estava levando a xícara de café aos lábios quando o repórter disse:



  • A caba de desmoronar a torre sul do World Trade Center! É impressionante a quantidade de poeira e fumaça cobrindo tudo, impedindo enxergar qualquer coisa com nitidez'. Essa nuvem de pó certamente está sufocando as pessoas! Muitos dos bombeiros e policiais que estavam junto à torre devem ter sido soterrados!

Fernando olhou o relógio. Eram onze horas e cinco minutos.

  • Tudo era na torre norte... — murmurou. — A reunião... O nos­so escritório...

Olhando para Marialva, indagou:

  • Em que andar era a reunião, ele lhe disse?

Marialva balançou negativamente a cabeça e, com muito esforço, reprimiu um soluço.

  • Não, Fernando... Ele não disse nada. Disse apenas que tinha de estar na torre norte do World Trade Center às oito da manhã. Impreterivelmente.

Os dois continuaram em silêncio. Fernando ainda tentou ligar mais uma vez, porém sem qualquer resultado. O número do celular não aten­dia, e as ligações convencionais para Nova York estavam bloqueadas.

Eram exatamente onze horas e onze minutos quando o repórter anunciou que a torre norte do World Trade Center também tinha aca­bado de desabar.

Marialva rompeu num pranto convulso, e Fernando, tentando consolá-la, disse:


  • Fique calma, querida... Não podemos pensar no pior... Eles vão telefonar, você vai ver. Daqui a pouco eles vão telefonar...

João Antônio Dorini, naquela terça-feira, chegara ao escritório muito mais cedo do que habitualmente, tanto que o guarda surpreendeu-se ao ver que faltava um pouco para nove horas da manhã e ele nunca vira o patrão entrar antes do meio-dia. Preocupado, ele perguntou se ha­via acontecido alguma coisa.

— Não, Jeremias... Não aconteceu nada. Eu é que vim mais cedo para cá. Estou esperando um telefonema importante.

Subiu para seu gabinete, pegou o jornal que acabara de comprar e abriu-o no caderno de lazer. Não era seu hábito ler notícias políticas e muito menos as financeiras. Quanto a esse aspecto da vida, ele ti­nha — e pagava bem — quem o assessorasse. Já a parte de lazer era a sua área, a sua especialidade. Fazia já bem mais de dez anos que ele se dedicava a isso, e a cadeia de boates que controlava era prova cabal de seu sucesso.

João Antônio sorriu consigo mesmo, lembrando-se de como ini­ciara, com um barzinho absolutamente inexpressivo nas proximidades de uma faculdade particular das mais caras. Vendia cerveja, uma ou outra dose de uísque ou de vodca, alguns sanduíches e trabalhava como um condenado das nove horas da manhã às duas da madrugada, sem ver, realmente, uma compensação digna por tanto suor.

Até que um dia, perto da hora do almoço, aquele homem aparecera.

Era um indivíduo simpático, de boa aparência, e tinha desembar­cado de um automóvel de luxo, deixando-o aberto, sem fechar as janelas. Sentou-se numa mesa mais ao fundo, pediu uísque importado e, depois de alguns minutos, como o bar estava praticamente vazio, puxou conversa com o proprietário, falando sobre as dificuldades do comércio e a luta diária pela sobrevivência. Exatamente nessa manhã, João Antônio estava num daqueles péssimos momentos, em que parecia que todos os cobra­dores tinham escolhido para aparecer, e não pôde se furtar de expressar o seu desânimo:


  • Quando abri o bar, pensei que essa molecada cheia de dinheiro fosse me trazer algum lucro. Porém, eles vêm aqui, sentam-se, pedem uma cerveja para dividir entre quatro pessoas, ficam horas jogando conversa fora e nem sequer têm coragem de pedir um tira-gosto!

Conversaram mais algum tempo sobre as dificuldades de João An­tônio, até que o homem soltou:

  • Acho que você está vendendo a mercadoria errada...

João Antônio não era nada bobo e logo percebeu o que o com­panheiro de conversa estava querendo dizer. Menos de quinze minutos depois, eles já tinham combinado um esquema de fazer passar, para os estudantes, papelotes de cocaína e trouxinhas de maconha.

  • Não precisa se preocupar com nada. É só não vender demais abertamente — disse o homem. — A polícia já está controlada e, se alguma coisa acontecer, eu aviso antes, para você ter tempo suficiente de limpar a área.

Nos meses que se seguiram, João Antônio pôde perceber claramen­te que seu caixa estava muito melhor. O dinheiro entrava todos os dias numa quantidade que, por vezes, chegava a assustá-lo, e ele estava conse­guindo, pela primeira vez na vida, fazer um pé-de-meia.

A ambição, porém, é uma característica do ser humano, e a am­bição sem medida é característica daqueles seres humanos cujos escrú­pulos não estão muito bem cotados em suas escalas de valores. João Antônio não era diferente e, percebendo que ele era quem ganhava menos naquela cadeia de narcotráfico e quem corria, na realidade, os maiores riscos, começou a pensar seriamente em arrumar um esquema diferente e mais seguro.

Ora, ele sabia muito bem que, nesse ramo de atividade, os negócios não são nada convencionais, e as coisas funcionam de maneira diversa da­quela em que, por exemplo, a mercadoria transacionada é pão ou hambúr- guer. Nesses casos, quando se acha por bem, basta trocar de fornecedor. No narcotráfico, não é assim. Não se abandona um barco sem mais nem menos.

Era preciso encontrar quem lhe fornecesse a droga um pouco mais diretamente, ou seja, sem tantos intermediários, de forma que ele pudesse ganhar mais na venda ao consumidor.

Por causa da amizade que tinha conquistado com a rapaziada que lhe comprava a droga, não foi difícil saber onde mais encontrar a mer­cadoria e a preços muito mais convidativos. E, menos difícil ainda, fazer com que os novos fornecedores, por interesse próprio, dessem um fim ao primeiro intermediário, aquele que o iniciara no negócio. Assim, menos de seis meses depois daquela conversa discreta após a qual João Antônio tornara-se mais um dos incontáveis passadores de drogas em São Paulo, ele estava investindo na compra direta da mercadoria, em conjunto com um grupo pesado da região norte da cidade.

E o primeiro, o iniciador, simplesmente desaparecera do mapa.

Também foi por uma sugestão desse grupo que João Antônio de­cidira abrir sua primeira boate. Teria de ser uma boate tipo danceteria, bem popular, cuja principal fonte de renda seria a venda de drogas, e não qualquer outra coisa.

Daí à cadeia de boates se formar e ele se transformar num dos reis da noite pop de São Paulo, o passo foi extremamente curto. Assim como foi curto o passo que o levou de passador de drogas a fornecedor, respon­sável pelo abastecimento de crack, cocaína e maconha de muitas outras casas noturnas, bem como de incontáveis clientes, até mesmo da alta sociedade, que o procuravam para esse fim.

Obviamente, teve um respaldo absolutamente seguro da chamada banda podre da polícia.

Com o passar do tempo, as mercadorias que ele mandava vir para seu depósito passaram a ser mais sofisticadas. Quando surgiu o ecstasy, ele foi um dos primeiros a adotá-lo. É bem verdade que tive­ra alguns problemas com essa droga. Um fornecedor estrangeiro, por exemplo, cujo nome ele nem podia ouvir e que acabara por lhe dar o fim merecido, vendera-lhe um carregamento no qual metade dos comprimidos era composta de farinha e açúcar. Mais recentemente, a onda era heroína...

E era justamente sobre um carregamento de heroína cristalizada — uma forma hiperconcentrada da droga — o telefonema que ele estava esperando naquela manhã.

Olhou o relógio, viu que já eram quase dez horas e, ligando a tele­visão unicamente para encher o tempo, murmurou:



  • A esta hora, ele já entregou o dinheiro, e a encomenda estará sendo providenciada...

Foi nesse instante que ele percebeu que toda a programação televi­siva estava em rede e transmitindo o terrível atentado às Torres Gêmeas do World Trade Center.

Vendo as imagens, João Antônio empalideceu, suas mãos treme­ram de tal forma que ele mal conseguiu acionar o botão de volume do controle remoto.



  • Meu Deus! — exclamou ele. — Mas ninguém poderá escapar de uma tragédia dessas! E o meu dinheiro! Meu dinheiro está lá!

A noite tinha sido de loucuras, e ela estava exausta. Sentia todo o corpo dolorido pelos excessos praticados com ele e, ainda no torpor agra­dável do pré-despertar, sentira seu beijo de despedida, o carinho que ele lhe fizera nas costas nuas e, muito vagamente, lembrava-se de ter dito: — Não demore, meu amor... Quero você o dia inteiro, hoje... E ele saíra. Parecia apressado, falara qualquer coisa a respeito de estar atrasado, mas como poderia, se ela mesma tinha pedido à recepção do hotel para acordá-lo às sete da manhã?

Samira deu de ombros, virou para o outro lado e voltou a ador­mecer. Queria, realmente, poder descansar, queria estar em plena forma quando ele voltasse...

Não imaginava ser tão bom estar apaixonada, ainda mais quando só descobrira essa paixão pouquíssimo tempo atrás.

Foi arrancada de seu sono brutalmente por um barulho enorme, algo que parecia um estrondo de explosão imediatamente seguido por um inacreditável som de vidros se partindo, de coisas caindo...

Abriu os olhos, olhou pela janela aberta do quarto e, então, viu a fumaça.

Deu-se conta de que aquilo estava acontecendo a uns mil metros dali, exatamente numa das Torres Gêmeas do World Trade Center.

Correu para a janela.

Uma das torres estava pegando fogo, e a jovem, já completamente acordada, lembrou que ele estava indo para lá. Olhou o relógio e sentiu o coração bater descompassadamente. Eram oito horas e quarenta e cinco minutos. Ele já deveria estar lá havia algum tempo!


  • Não! — exclamou Samira. — Ele já saiu! Tem de ter saído! O que ele teria tanto a fazer por lá?

Com os olhos pregados na torre que ardia, ela começou a escutar o som das sirenes, o vozerio das pessoas, a confusão que se formava. Ligou a televisão e voltou a olhar pela janela, inconscientemente preferindo ver ao vivo e escutar o que se falava.

Foi nesse instante que ela ouviu o som do avião acelerando suas turbinas.

E viu. Viu o enorme Boeing literalmente entrar no terço mais alto da outra torre.


  • Meu Deus! — exclamou ela, sentindo um princípio de desfalecimento. — Meu Deus!

Segurou-se à borda da janela para não cair, seus joelhos ameaçando dobrar, seu coração parecendo querer saltar do peito. Controlando-se, murmurou:

  • Ele deve estar vindo para cá... Não é possível que não esteja!

Samira esperou. Cada segundo que passava parecia um século, cada notícia que escutava, na televisão, acabava um pouco mais com sua esperança.

E, quando ela viu as torres desabar, primeiro uma e depois a outra, entrou em completo desespero.

Sabia que não havia mais esperança alguma. Mais de duas horas depois de o primeiro avião ter batido na torre norte, ele não havia chega­do. E, por fim, as duas torres tinham vindo abaixo.

Não havia mais esperança. Com certeza ele estava morto. Assim como milhares de outras pessoas.


Hafez Skandar olhou para o prato de mijadra que estava à sua frente e, voltando-se para Amina, disse:

  • Isto não é comida para o café-da-manhã...

  • É o que temos — respondeu a moça, com um erguer de ombros. — Se não quiser comer...

Hafez resmungou qualquer coisa e, mesmo a contragosto, pôs um pouco de mijadra sobre um pedaço de pão.

  • Daqui a pouco este inferno vai acabar — consolou-o Amina. — Nós estaremos longe desta cidade e poderemos viver normalmente.

  • Pode estar certa disso — murmurou Hafez. — E não vejo a hora. Já estou muito cansado de tudo isso.

Amina suspirou e, acariciando os cabelos muito negros de Hafez, murmurou:

  • Não fique nervoso. Como você mesmo me disse, meia hora de­pois que Al-Kayed enviar o sinal, você estará definitivamente liberado.

Fez uma pequena pausa e, com expressão preocupada, falou:

  • Só o que não entendo é por que eu tenho de ir embora agora, antes de você. Se é por uma questão de poucas horas, por que não pode­mos ir embora juntos?

Hafez balançou a cabeça negativamente e respondeu:

  • Foram essas as ordens que eu recebi. Você deve partir imediata­mente para Paris e eu irei à noite. Nós nos encontraremos lá.

Pôs na boca outro pedaço de pão e perguntou:

  • Está com tudo? Pegou o dinheiro, seus documentos, o passapor­te? Sua mala está pronta, pegou tudo o que vai precisar?

  • Está tudo certo e pronto, Hafez — respondeu Amina, com um sorriso. — Só acho que você poderia ficar com mais dinheiro... Não...

—- Não vou precisar — interrompeu o árabe. — Além do mais, vou receber de Al-Kayed. E é melhor que você viaje com o dinheiro.

Amina não retrucou. Se era assim que Hafez desejava... Sentando-se à mesa, junto a ele, observou-o comer.

Ela gostava muito de Hafez. Com vinte e cinco anos de idade, era um árabe bonito, alto, musculoso, sem um grama sequer de gordura supér­flua. Lembrou-se da noite, das loucuras que ambos tinham feito, e sentiu, novamente, aquele calor a lhe tomar conta das entranhas. Numa tenta­tiva de afastar esses pensamentos — ela sabia muito bem que não era o momento adequado para uma reprise —, perguntou:


  • Você recebeu alguma outra mensagem?

  • Não e nem teria por que receber. As coisas já estão definidas. Sei o que é preciso fazer... Assim que tiver o sinal, terei de agir. Por isso, é melhor que você parta agora. Você não pode perder o vôo.

  • Estou preocupada, Hafez — confessou a moça. — Se pelo me­nos soubéssemos qual vai ser esse sinal...

O árabe sorriu e, segurando a mão de Amina por cima da mesa, falou:

  • Segundo a mensagem de Al-Kayed, o mundo inteiro perceberá esse sinal. Eu apenas terei de seguir as instruções que ele me deu.

Com uma súbita expressão de seriedade, ele juntou:

  • Minha responsabilidade é muito grande, Amina. Al-Kayed dis­se, em sua última mensagem, que dependerá de mim a continuidade de seu plano, principalmente agora que estou sozinho, que Al-Kayed afastou Ibrahim, enviando-o para outra missão.

O árabe dissera essa última frase com ênfase, embora em seu íntimo não fosse isso o que desejava que acontecesse. No entanto, depois de tudo ter dado tão errado, ele não poderia esperar outra coisa. Afinal, como Al-Kayed poderia ainda confiar nele? E a única maneira que Hafez tinha de pôr Amina em segurança — ou, pelo menos, em relativa segurança — era exatamente aquela.

Procurando não dar a perceber esses pensamentos, Hafez olhou o relógio e comentou:



  • Só não sei por que Al-Kayed disse que eu deveria estar com tudo pronto antes das sete horas da manhã e que precisaria estar assistindo à televisão. Nada acontece nesta cidade antes de nove horas!

  • Certamente o sinal de que ele falou será transmitido pela televi­são — arriscou Amina. — O terrível é não sabermos do que se trata!

Preparando o café, ela indagou:

  • Teremos alguma confirmação desse sinal? Quero dizer, alguma mensagem que nos mostre que, realmente, era esse o tal sinal?

  • Al-Kayed falou que o mundo todo perceberá o sinal, Amina. Imagino que nós também o percebamos muito claramente. Por isso, não estou esperando nenhum tipo de confirmação.

  • E essa continuidade do plano de Al-Kayed? — perguntou Ami­na. — Você nunca me falou nada a respeito! Do que se trata?

Hafez olhou torvamente para a moça e resmungou:

Tomaram o café em silêncio e, ao terminar, Hafez ordenou:

  • Vá se vestir. E não esqueça que deve usar roupas simples. Nós não podemos chamar a atenção de maneira nenhuma. E apresse-se. Você ainda tem de passar em seu apartamento e deixar seu carro na garagem.

Amina sorriu, ergueu-se da cadeira com movimentos sedutores — ela estava usando apenas roupas de baixo — e perguntou:

  • Tem certeza de que você quer que eu me vista?

Hafez deu uma risada, acariciou os seios fartos da moça e respondeu:

  • É preciso, Amina. Por mim, você ficaria assim para sempre. Po­rém, a grande causa exige...

Com um murmúrio de frustração, ela se retirou e foi para o quar­to. Vestiu-se em dez minutos, abraçou ternamente Hafez, apanhou a mala e disse:

  • Você sabe que eu preferiria ficar aqui com você, querido. E ain­da há tempo para desistir...

  • Não, Amina... — insistiu Hafez, beijando-a com paixão. — Você não pode ficar. Logo estaremos juntos outra vez e, então, sem ne­nhuma outra preocupação.

O árabe viu a moça se afastar pelo corredor do prédio e entrar no elevador.

Com um grande e triste suspiro, fechou a porta do apartamento e, apanhando mais um café, sentou-se diante da televisão.

Ele detestava televisão. E sabia que Al-Kayed condenava vee­mentemente esse aparelho e o que ele trazia para as pessoas. Como e por que ele dissera que teria de estar assistindo à TV justamente naquele horário?

Certamente Amina tinha razão. O sinal seria transmitido pela te­levisão. Mas... Qual seria esse sinal?

Levantou-se, foi até a cozinha pegar mais um café e, retornando para a sala, olhou o relógio e pensou:

-— Só mais uma hora e meia. Amina estará voando para Paris e para a segurança. Depois disso...

Acendeu um cigarro e, olhando para a tela do aparelho distraidamente, deixou-se levar pela imaginação, sonhando com a vida que poderia ter, na França ou em qualquer outro lugar. Seria uma vida maravilhosa...

Mergulhado nesses sonhos, nem sequer se deu conta do tempo que passava. Foi arrancado desses pensamentos pela voz de um jorna­lista que dizia:


  • Não há dúvida de que se trata do maior desastre jamais ocorrido nos Estados Unidos! Um golpe que cada americano está sentindo no corpo e na alma! Prestem atenção ao replay! O avião entrou no terço superior da torre sul do World Trade Center!

  • O sinal! Aí está o sinal! — exclamou Hafez.

Ouviu o repórter dizer que aquele replay era a imagem do segun­do atentado, o segundo choque contra as Torres Gêmeas e que ocorrera exatamente dezoito minutos após o primeiro. Isso significava que o sinal tinha ocorrido havia pelo menos vinte minutos e que ele teria apenas mais dez para desempenhar seu papel.

Apressado, Hafez apanhou uma valise que estava debaixo da cama, abriu-a e olhou para os explosivos que estavam ali dentro.

Com um suspiro, apressadamente, começou a se preparar.

Enquanto isso, já num táxi a caminho do aeroporto, Amina ainda estava arrependida de ter aceitado partir sozinha. Ela queria que Hafez estivesse ali, ao seu lado, devidamente convencido de que a vida seria muito melhor sem aqueles idealismos radicais, sem fanatismos... Ele ti­nha se adaptado tão bem e tão rapidamente às boas coisas que o dinhei­ro podia trazer...! Seriam felizes, sem dúvida nenhuma! E ele prometera que, depois de cumprir sua missão, não deveria mais nada a Al-Kayed. Por isso, somente por isso, ela aceitara ir sem ele, partir cerca de doze horas antes.

Nesse instante, no momento em que ela sorria intimamente so­nhando com uma nova vida ao lado de Hafez, o motorista do táxi aumen­tou o volume do rádio e, olhando pelo retrovisor, exclamou:


  • Ouça! Explodiram o World Trade Center!

Amina sentiu o coração bater descompassadamente. Na verdade, em seu íntimo, ela não acreditara que aquilo pudesse vir a acontecer e que, de alguma maneira, Hafez pudesse estar ligado a algo tão grande, tão monstruoso! Ao que tudo indicava, tinha sido aquela a missão que Al-Kayed destinara a Hafez! Mas não era possível! Desde sempre, ela achara que aquilo tudo não passava de um certo exagero por parte de Hafez, Ibrahim e Mohamed... Coisas de estudantes, animação juvenil, fantasias, enfim. Os acontecimentos dos últimos dias, porém, acabaram por convencê-la de que não se tratava apenas de mais uma estudantada. E, de repente, ela se dava conta de que ninguém estava exagerando e muito menos brincando. Ela acabara de ouvir, no rádio do táxi, o relato sobre o maior ato terrorista de todos os tempos.

Eles tinham começado a guerra, não havia dúvida nenhuma. Exa­tamente como Al-Kayed — que nem ela nem seus companheiros jamais tinham visto — dissera na última mensagem que Hafez a deixara ver:



  • Nós os destruiremos a começar por seus maiores valores: o poderio econômico e a hegemonia militar. Nós mostraremos ao mundo inteiro a sua fragilidade. Mostraremos e provaremos que eles não são invulneráveis!

Prestou um pouco mais atenção e soube que o atentado tinha sido cometido com a utilização de dois Boeings como se eles fossem mísseis. Hão fora usado explosivo. Portanto, o seu Hafez nada tinha a ver com aquilo. Pelo menos, não diretamente.

E, se ele teria alguma outra missão de demolição, o que ela sabia ser o mais provável, era sua obrigação tentar impedir.

Procurando manter a voz mais calma possível, ela disse para o motorista:

— Não vou viajar mais... Vamos para o Saint Lucas Hospital. Sou traumatologista. Acho que vão precisar de mim.

O motorista, já emocionado com o que tinha acabado de escu­tar pelo rádio e comovido com o espírito de dedicação profissional que aquela moça estava demonstrando, tratou de se livrar do trânsito e, por caminhos e ruas secundários, rumou o mais velozmente que podia para o Saint Lucas.

Enquanto ele virava esquinas, desviava-se de carros mais lentos e literalmente furava o tráfego que já começava a se engarrafar por toda a cidade, Amina pegou seu celular e discou um número.


Donovan não poderia estar mais feliz. Naquela sua segunda noite com Anne Marie ele confirmara que nenhuma outra mulher no mundo jamais haveria de conseguir substituí-la. Anne Marie parecia ter sido fei­ta para ele e — o melhor — ela lhe dissera o mesmo várias vezes durante as últimas horas.

Sorriu, pensando se conseguiria levantar da cama para ir trabalhar, tal o estado de exaustão em que se encontrava. Contudo, era um estado delicioso, talvez fosse exatamente assim o Nirvanah de que os budistas falam... Sentia dores musculares, sem dúvida. Não poderia esperar outra coisa depois de tudo o que fizera durante a noite...

Olhou para o lado, acariciou de leve o rosto de Anne Marie, bei­jou-a delicadamente, e pensou: "Minha vida não terá mais sentido sem esta mulher...".

Nesse instante, Anne Marie abriu os olhos e sorriu. Espichou os lábios pedindo um beijo e agarrou o pescoço de Donovan, puxando-o novamente para si.



  • Venha, Steve — sussurrou ela com a voz morna e aveludada — Quero senti-lo outra vez...

Steve Donovan suspirou e, desvencilhando-se dela, saiu da cama.

A mulher, na verdade, é sempre a vitoriosa. Depois de uma noite como aquela, Anne Marie ainda tinha disposição e... condições de querer mais. E ele... Bem, ele mal conseguia se agüentar de pé!



  • Tenho de ir trabalhar — falou Donovan, como uma desculpa. — E já estou um pouco atrasado...

  • Você bem que poderia ficar comigo — murmurou Anne Marie com entonação de criança mimada e contrariada. — Você não é o único agente do FBI em Nova York, sabia?

  • Sei disso, querida — retrucou Donovan. — Mas cada um tem seu serviço e suas obrigações. Eu também. Por isso, tenho de ir para o escritório.

Debruçou-se sobre a mulher, beijou-lhe os seios perfeitos e disse:

  • Bem que gostaria de ficar, você sabe disso... Mas vou pedir uma licença e, então...

Beijou-a apaixonadamente sobre os lábios e acrescentou:

  • O FBI dá quinze dias de licença matrimonial, sabia?

Anne Marie arregalou os olhos e, antes que ela pudesse dizer qual­quer coisa, Donovan disse:

  • A menos que você não queira se casar comigo...

A mulher abraçou-o com força e, rindo, perguntou:

  • E quem disse que não quero? Quis isso desde o primeiro momen­to em que o vi! E mesmo naquela situação horrível!

Saltando da cama, sem se preocupar em esconder sua maravilhosa nudez, Anne Marie juntou:

  • Vá tomar um banho, querido. Vou preparar seu café.

Donovan olhou para o relógio, na cabeceira da cama. Eram oito e vinte da manhã.

  • Não sei se dá tempo, querida... Eu sempre tomo café na rua...

  • Tomava, Steve — replicou Anne Marie, com energia. — Agora, eu estou aqui. E faço questão que você tome o café-da-manhã em casa.

Donovan sorriu, feliz como um adolescente, e foi para o banho. Saiu menos de dez minutos depois, enxugando-se e pensando que, ainda naquela manhã, passaria por uma joalheria e compraria um anel para Anne Marie. Vestiu-se e sentou-se à mesa, enquanto ela, a essa altura já vestida apenas com uma das camisas de Donovan, servia-lhe sua primeira refeição do dia.

Eram exatamente oito horas e quarenta minutos.

Donovan pegou o controle remoto da televisão e ligou-a para, en­quanto comia, assistir ao noticiário matinal.

E foi no instante em que estava passando geléia e manteiga em sua terceira fatia de pão que ele ouviu o jornalista confirmar, com voz altera­da, o primeiro choque contra a torre norte do World Trade Center.

Tanto ele quanto Anne Marie ficaram ali, estáticos, paralisados pela surpresa, ouvindo o jornalista e vendo as primeiras imagens do desastre.

E, então, veio o segundo ataque, muito mais impressionante do que o primeiro, mesmo porque foi transmitido ao vivo... O Boeing entrando na torre sul...

Donovan se levantou, acendeu um cigarro com as mãos trêmulas, olhou para Anne Marie e balbuciou:


  • Meu Deus... Isso é terrível! Não pode estar acontecendo!

Num gesto instintivo, Anne Marie abraçou-se ao agente e, sem desgrudar os olhos da televisão, começou a chorar.

Foi nesse momento que o celular de Donovan tocou.


Em seu apartamento no vigésimo segundo andar em TriBeCa, Mathew Jackson podia dizer que era um homem feliz. Na véspera, en­tregara ao editor do The Wall Street Journal a extensa reportagem sobre o estado da economia da Argentina e suas implicações nos investimentos programados para o Brasil, recebera o cheque do pagamento e as felici­tações pelo trabalho.

E o maior motivo de sua felicidade era Natalie estar ali, deitada ao seu lado, nua como viera ao mundo vinte e cinco anos atrás. Nua e bela, sensual, ardente, sedutora.

A natureza tinha sido pródiga para com Natalie — disso Mathew não tinha a menor dúvida. Primeiro, ela a fizera nascer na França, fruto de uma miscigenação ancestral de bretões, hispânicos — provavelmente mouros — e germânicos, que resultou numa morena de formas exuberan­tes, curvas maravilhosamente harmônicas, seios rijos e fartos, pernas bem torneadas e um rosto angelical, porém transparecendo permanente ma­lícia. Depois, fizera-a ir se desenvolver, criar essas formas e cor no Brasil, sob o sol límpido das praias e ao som do mar, do samba, do frevo. Além disso, dera-lhe uma carga de sensualidade e desejo que Mathew jamais vira em outra mulher. E, não satisfeita, dera-lhe uma inteligência privi­legiada, uma memória de computador e uma formidável capacidade de trabalho. Tanto que, apesar de formada em jornalismo havia apenas um ano, ela conseguira ser contratada pelo jornal O Estado de S. Paulo para fazer a cobertura de um importante evento que se realizaria na sexta-feira, na Bolsa de Valores de Nova York.

Assim, ela viera uma semana antes para aproveitar um pouco da vida nova-iorquina e, é claro, ficar com Mathew.

Acordado desde as sete horas da manhã, depois de ter despertado Natalie com mais carícias e ter sido devidamente retribuído, ainda ofegante por causa do esforço despendido nos exercícios amorosos, Mathew permaneceu deitado de costas, sentindo a cabeça da moça repousando sobre seu peito e ouvindo sua respiração compassada, suave, típica da mulher plenamente satisfeita.

Com um sorriso nos lábios, ele deu graças aos céus por ter aceitado, naquela noite em São Paulo, o convite para um jantar de confraterniza­ção de jornalistas correspondentes internacionais.

Foi nesse jantar que ele conheceu Natalie.

Conversaram bastante, e ela lhe contou que estava trabalhando como freelancer para um dos maiores jornais paulistanos e que havia rece­bido a tarefa de fazer uma grande reportagem sobre a crise na Argentina. Era uma coincidência das mais promissoras, e Mathew não perdeu tempo. Uma semana depois, ambos trabalhavam juntos no mesmo tema, trocan­do informações e... sentimentos. Daí até passarem a estar sempre juntos, dia e noite, foi uma conseqüência natural.

No entanto, Mathew tinha sido obrigado a voltar para Nova York havia quinze dias e, atabalhoado com a redação e a montagem de seu trabalho, nem sequer tivera tempo de telefonar para Natalie. Como ela, por seu lado, também fizera silêncio, ele acabara por se conformar e classi­ficar o caso como uma aventura inconseqüente que ela tinha vivido com ele. Nem mesmo se preocupou em perceber que, para ele, não tinha sido nada inconseqüente, tanto que não conseguia pensar em outra mulher. Portanto, foi indescritível sua satisfação e felicidade quando, na manhã de domingo, ela o chamara pelo celular e dissera:

— Estou em Nova York pelo menos por uma semana e pouco. E quero ver você.

Daquele momento em diante, Mathew passou a viver em função de Natalie e, até mesmo para levar o trabalho ao jornal, na segunda-feira à tarde, ele a arrastara junto.

E, naquele instante, depois de uma semana de autênticas loucuras de amor, vendo o céu muito azul pela janela aberta de seu apartamento e sentindo materialmente a presença de Natalie, ele tentava encontrar uma maneira de convencê-la a uma vida realmente a dois, casados, com a perspectiva de formar uma família, os dois juntos para sempre, ali em Nova York.

Seria a coroação de sua felicidade e o início de uma vida que sem­pre tinha desejado, mas jamais tinha encontrado alguém que mexesse dessa forma com seu coração.

E com seu corpo.

Olhou preguiçosamente o relógio, viu que já era bem hora de se levantar. Queria ele mesmo preparar o desjejum e, depois, levaria Natalie para passear pela cidade, uma vez que, desde que ela chegara, só tinham saído do apartamento para ele poder entregar sua reportagem na sede do The Wall Street Journal. Além do mais, a moça queria procurar uma amiga, uma modelo que conhecera em São Paulo havia já bastante tempo e com quem perdera contato.


  • Será bom reencontrar Samira — dissera Natalie. — Estou pen­sando em preparar uma matéria sobre a vida das top models e acho que ela tem muitas histórias para contar.

Assim, um dos programas para aquela terça-feira seria tentar en­contrar essa moça.

Estava pondo os pés para fora da cama quando ouviu o estrondo.

Pôs os óculos, correu para a janela e viu, paralisado pela surpresa, a torre norte do World Trade Center pegando fogo.


  • Natalie! — gritou. — Venha ver! Aconteceu um acidente terrível!

Com os olhos esbugalhados, eles viram a fumaça, as grandes laba­redas subindo, o terror acontecendo.

Abraçados junto à janela, dezoito minutos depois, o segundo avião atingiu a torre sul.

Não era mais possível pensar em acidente.


  • É a guerra... —- murmurou Mathew. — Estamos sendo atacados...!



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