Quinze dias em setembro



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Capítulo XIII
Mathew e Natalie passaram praticamente a noite toda trabalhando e, por isso, acordaram perto de onze horas da manhã naquela sexta-feira.

Durante o café-da-manhã, Mathew comentou:



  • Esses ataques terroristas contra o World Trade Center e contra o Pentágono inauguram um novo tipo de conflito mundial. Não se trata mais de um embate entre nações com a utilização de aparatos bélicos mais ou menos convencionais. Trata-se de um confronto de um Estado contra grupos esparsos de terroristas, com as mais diversas nacionalida­des, fazendo uso dos meios mais surpreendentes como forma de ataque. E o pior é que os terroristas não são profissionais, são fanáticos que não se incomodam com a morte.

  • É verdade — admitiu Natalie. — E esse fanatismo não deve ser atribuído apenas a questões religiosas ou étnicas. Há um ódio fa­nático. Ódio contra o Ocidente, talvez... Ou contra as instituições ocidentais.

Natalie ergueu os olhos para fixá-los em Mathew e continuou:

  • Numa época em que se busca a globalização e maior integração entre os povos, esses atentados modificaram tudo. Eles criaram um am­biente geral de desconfiança que poderá levar a um sensível aumento da xenofobia. Com isso, tudo ficará prejudicado, a começar pela economia mundial, pois os investidores, principalmente os americanos, não terão nenhum tipo de incentivo em pôr dinheiro em outros países, uma vez que não podem garantir que haverá retorno. Muito pelo contrário, eles esta­rão com medo de receber como troco exatamente o que aconteceu com o World Trade Center. No lado político e militar, se Bush realmente passar a agir como vem advertindo nestas últimas quarenta e oito horas, que vai intervir em todos os lugares onde houver terroristas, ele estará declarando guerra a todos os países do mundo!

  • É um risco que o planeta está correndo: saltar do fundamentalismo religioso e étnico para o fundamentalismo econômico e cultural norte-americano... — ironizou Mathew, em tom jocoso.

  • Estou falando sério! — protestou Natalie. — Você pode ver nas notícias e informações que obtivemos pela Internet! Em todos os países, inclusive nos ditos aliados aos Estados Unidos, há quem insis­ta que os americanos são, basicamente, os maiores culpados pelo que aconteceu.

Impedindo com um gesto que Mathew a interrompesse, Natalie prosseguiu:

  • Não estou defendendo essa idéia; muito pelo contrário. Estou apenas dizendo que há quem pense assim e não são poucas pessoas! Afir­mam, por exemplo, que o isolacionismo e o endurecimento de George W. Bush com relação a tratados internacionais que ele se recusou a apoiar, como o Tratado de Kyoto, levaram à exacerbação de um espírito anti-americano em muitos países. Você falou de um fundamentalismo norte-americano. Pois saiba que, para muitos analistas de política internacio­nal, você está absolutamente certo!

Tomando fôlego, ela acentuou:

  • Ontem, no Salão Oval, Bush deixou muito clara a política agres­siva que pontuará os relacionamentos internacionais dos Estados Unidos a partir de agora. Ele declarou que não vai apenas perseguir, encontrar e eliminar os terroristas que atacaram as Torres Gêmeas e o Pentágono, mas também que vai acabar com os Estados que patrocinam o terrorismo. Na minha opinião, isso tem o peso de uma declaração de guerra à maioria dos países do Oriente Médio. Em resumo, Bush disse que a partir de agora o governo americano vai intervir militarmente onde quer que haja sombra de terroristas... E Colin Powell, que, apesar da Guerra do Golfo, sempre man­teve uma postura mais branda, menos agressiva, garantiu que a ação militar norte-americana não vai se limitar a um grupo de terroristas, mas vai se am­pliar e estender a um combate generalizado contra o terrorismo, em âmbito global. Com tudo isso, não é à toa que muitos cientistas políticos estejam interpretando a atitude americana como um verdadeiro fundamentalismo!

Mathew balançou afirmativamente a cabeça e, em tom preocupa­do, destacou:

  • Nós, americanos, desde sempre nos baseamos e muito na Cons­tituição. Para tudo. Inclusive e, principalmente, o presidente. Assim, para uma declaração de guerra, segundo a Constituição é preciso o pre­sidente pedir autorização ao Congresso. Também diz que é preciso haver um Estado confrontante para que haja guerra. Porém, o terrorista é apátrida. Numa guerra contra o terrorismo, não há um Estado contra quem declarar uma guerra. Daí, muito provavelmente, o presidente Bush ficará de rédeas soltas. E nós estaremos lutando contra um inimigo oculto, sem bandeira, sem regras para guerrear. Portanto, se o inimigo não se atém a regras, os americanos também poderão fazer o mesmo. Imagine, por exemplo, se ficar provado que o grande culpado é mesmo Bin Laden. O que impede o presidente Bush de comparar o estrago feito no World Trade Center e no Pentágono, em termos de destruição e número de vítimas, a um ataque nuclear restrito? E, conseqüentemente, o que o impediria de ordenar o lançamento de um míssil com ogiva nuclear, um desses que chamamos de armas nucleares táticas, com alcance de cinco mil quilôme­tros e capacidade de destruição localizada, sem o comprometimento de toda a atmosfera de um país e de seus vizinhos?

  • E quem garante que essas armas funcionem realmente assim? — discordou Natalie. — Será possível que esses técnicos e estrategistas que afirmaram uma tal barbaridade nem sequer tenham pensado que pode existir um fenômeno natural chamado vento? E que esse vento, com cer­teza, arrastará as partículas radioativas em suspensão na atmosfera para lugares bem distantes do alvo em si?

— Como o Iraque poderia saber que o prédio de sua embaixada, em Washington, estaria correndo risco de ser destruído? — perguntou

Donovan a Castells ao entrar em sua sala, por volta de dez horas da manhã.



Castells olhou para ele com expressão de quem não estava enten­dendo nada, mas Donovan explicou:

  • O imóvel da P Street, 1.801, em Washington, pertence ao governo do Iraque. Ali funcionava a embaixada desse país. Há qua­tro meses, um alto funcionário do governo iraquiano tentou fazer um seguro de cerca de oitocentos milhões de dólares sobre o imóvel. No entanto, o prédio, com tudo o que ainda resta lá dentro, não vale mais de dez milhões. O negócio quase saiu! A seguradora, alegando que o embargo contra o Iraque a impedia de realizar qualquer tipo de transa­ção com esse país, consultou o Departamento de Estado, que a liberou para negociar. E a operação só não foi efetivada porque aconteceram os ataques...

Castells continuou a olhar aparvalhadamente Donovan, que finalizou:

  • Está percebendo? A P. Street fica perto da Casa Branca. Se o alvo de um desses aviões fosse a Casa Branca, com certeza a onda de destruição atingiria essa rua e a ex-embaixada do Iraque! Eles sabiam que os atentados iriam ocorrer! Portanto, fica muito clara uma conexão entre Bin Laden e Saddam Hussein no que se refere a esses ataques!

Castells coçou o alto da cabeça e murmurou:

  • O que você está afirmando é grave, Donovan... Até agora, todas as atenções estão voltadas para Bin Laden. Saddam, apesar de suas decla­rações anti-americanas, parecia estar fora desses atentados...

  • Veja bem, chefe — argumentou Donovan. — Por mais dinhei­ro e capacidade técnica que Bin Laden possa ter, ele jamais conseguiria montar todo o aparato necessário para atos terroristas desse porte sozi­nho. Para começar, temos de nos dobrar à realidade: Bin Laden comanda a Al-Qaeda, que, no fundo, não passa de uma grande quadrilha de ban­didos. Eles não possuem nem sequer cultura para desenvolver um plano tão bem engendrado e tão bem orquestrado. O Talibã, que controla o Afeganistão, não dispõe nem mesmo de uma força aérea! O país, em si, não tem recursos para comprar comida. Povo miserável, governo também miserável. Era preciso, pois, que houvesse outro cofre financiando toda essa operação. Bin Laden entraria com a mão-de-obra, e Saddam, com o dinheiro. Pelo menos com uma parte importante dessa soma.

  • Com isso, você está concordando com a opinião de muitos — observou Castells. — Você está dizendo que a guerra contra o terror não deve se restringir ao Afeganistão, mas deve alcançar o Iraque. É uma con­sideração muito perigosa, especialmente nestes dias, em que as diretrizes para a retaliação deverão sair justamente de nossas análises...

  • Pessoalmente, não concordo com guerra nenhuma — retrucou Donovan, enérgico. — Mas sou obrigado a admitir que uma retaliação é necessária. Ao lado disso, também sou obrigado a admitir que essa reta­liação, se for restrita, só servirá para incrementar o terror. Elimina-se Bin Laden, mas não se elimina o terrorismo. Acaba-se com Saddam Hussein, mas não se acaba com o terrorismo. Israel continuará a sofrer ataques ter­roristas dos palestinos, e assim por diante. Extirpar o terrorismo do mun­do é uma missão, a meu ver, impossível. Porém, acho que os americanos, que vestem a imagem de protetores da humanidade, da liberdade e da democracia, têm de forçar a diminuição dos atos terroristas. Pelo menos têm de eliminar a possibilidade de acontecerem atentados tão bem orquestrados e que só são possíveis com a interferência de outros governos, como é o caso do Iraque!

  • Isso parece ser um saco sem fundo — avaliou Castells, desani­mado. — Ou você acha que cada um desses líderes extremistas não tem seu sucessor? Ou sucessores?

  • É claro que eles têm! Mas, se diminuirmos seu raio de ação e acabarmos com a possibilidade de enviarem dinheiro para sustentar ati­vidades terroristas, contribuiremos, e bastante, para a paz.

  • Ou seja, para que exista a paz, é preciso fazer uma guerra de proporções monstruosas, suja, sem quartel, sem regras... — retrucou Castells.

  • Infelizmente, sim — admitiu Donovan. — E talvez essa seja a mais difícil e terrível missão que os americanos estão se impondo.

Steinberg acordou com o corpo dolorido por ter dormido no sofá da sala do apartamento de Amina, pequeno demais para seus quase dois metros de altura. Entretanto, além das dores musculares em virtude da má posição em que adormecera, ele acordou porque ouviu ruídos muito raros em sua rotina: som de água correndo, barulho de fritura numa frigideira e... cheiros! Havia um delicioso cheiro de comida no ar e, a despeito da dúzia de esfihas que ele comera antes de dormir, Steinberg sentiu que seu apetite de leão acordava também.

Levantou-se, foi até a diminuta cozinha e viu Amina preparando o café-da-manhã. E ele viu Amina... Realmente... Ela estava usando um robe em estilo oriental, quase transparente, de seda, que lhe mol­dava espetacularmente as formas e faria pecar até mesmo o mais santo frade carmelita.

Vendo que ele se aproximava e percebendo que seu olhar revelava claramente o nível de pensamentos que lhe iam pela cabeça, Amina sor­riu e explicou:


  • Não me olhe assim, Kirk! Não tenho nenhuma outra roupa mais decente para ficar em casa... Além do mais, estou em minha casa!

  • Não estou reclamando — murmurou Steinberg. — Muito pelo contrário! O problema é que tive a impressão de que havia morrido e que estava no céu, com um anjo por perto...

Sentando-se numa cadeira muito perto de Amina, ele indagou:

  • A que horas você tem de entrar no hospital?

  • Recebi um telefonema de lá — respondeu a moça. — Eles estão com excesso de voluntários e só precisarão de mim à noite. Tenho o dia todo de liberdade...

O agente franziu as sobrancelhas, intrigado. De fato, ele lembrava de ter ouvido, ainda bem cedo, o telefone celular de Amina tocar; ouvira-a responder alguma coisa, como "então está ótimo, assim poderei descan­sar um pouco mais", e desligara. No entanto, ele estava ao lado de Amina quando, na véspera, ela se despedira do chefe de plantão, e este dissera que ela deveria entrar em serviço às oito horas da manhã... Além disso, ele sabia que o serviço dos voluntários estava concentrado nos hospitais mais próximos à área do desastre.

Steinberg olhou o relógio, constatou que passava pouco de seis e meia da manhã e perguntou:



  • Tem certeza que esse telefonema foi dado do hospital?

  • Por que está perguntando isso? — quis saber Amina, ficando subitamente muito séria. — Por que não teria sido o hospital?

  • Alguém pode estar interessado em que você fique em casa... Ou que, pelo menos, não esteja num local excessivamente vigiado — respon­deu o agente.

Amina empalideceu. Com voz trêmula, indagou:

  • Você acha que Ibrahim...?

  • Não podemos afastar essa possibilidade, Amina — advertiu Steinberg. — E, aliás, acho que é muito possível que tenha sido ele.

Olhando com gula para o prato de panquecas que a moça punha sobre a mesa, ele continuou:

  • Vamos analisar a questão. Ibrahim sabia de sua existência. Sabia que você deveria viajar e que não foi. Provavelmente supôs que Hafez tenha sido denunciado por você. Ele não conseguiu sair de Nova York; portanto, está escondido por aqui. Sabia que você, uma vez que continuava em Nova York, poderia ter ido ao hospital em que sempre trabalhou. Seria muito simples telefonar durante a noite para lá e ficar sabendo que você estaria entrando em serviço às oito horas da manhã. Por outro lado, ele pode ter estado vigiando o hospital e viu que eu estava com você. Pode ser que ele tenha imaginado que, se você não fosse trabalhar durante o dia inteiro, hoje, eu não teria por­que ficar aqui. O que o impede de tentar matá-la depois que eu saísse de seu apartamento?

Sem dar tempo para Amina comentar, Steinberg continuou:

  • Ele tem pelo menos dois motivos. Primeiro, ele pode estar sim­plesmente querendo vingar o que aconteceu com Hafez. Segundo, ele pode até achar que você é uma agente infiltrada no grupo e que, só por isso, deve morrer.

Mostrando o aparelho de telefone, o agente pediu:

  • Ligue para o hospital e confirme seu horário. Não custa nada verificar...

Amina não se fez de rogada. Ligou para o hospital e, ao desligar, olhou com terror para Steinberg, confirmando:

  • Não houve qualquer alteração de horário na escala de plantonistas... Eles não ligaram para mim...

O agente meneou a cabeça, cheio de preocupação, e murmurou:

  • Se não fosse tão perigoso, poderíamos aproveitar a oportu­nidade...

Amina fixou os olhos em Steinberg e, enérgica, provocou:

  • Pois vamos aproveitar, Kirk! Não tenho medo de servir de isca! E, se isso pode facilitar para o FBI apanhar Ibrahim...

  • Você não é obrigada a nada disso — advertiu Steinberg. — E você não tem culpa de ter se apaixonado por um terrorista.

  • Não me lembre disso! — pediu Amina. — Quero esquecer que um dia me relacionei com Hafez! Se pudesse voltar o tempo...

Steinberg calou. Ele podia entender o que Amina estava sentindo, uma mistura de frustração e ódio, de decepção e arrependimento. E não poderia fazer muita coisa para ajudá-la. O tempo seria, realmente, o me­lhor remédio.

Foi arrancado de seus pensamentos pela pergunta da médica:



  • O que vamos fazer?

O agente refletiu por alguns instantes e respondeu:

  • Vamos dar a ele a oportunidade de atacá-la. Eu irei embora...

  • Não! — quase gritou Amina, segurando com desespero o braço de Steinberg. — Não me deixe sozinha! Morrerei de medo!

Steinberg sorriu e explicou:

  • Não estarei longe, Amina. Apenas quero que ele saiba que não estarei aqui dentro. Nem você. Assim que eu sair, você também sai­rá. Irá fazer algumas compras, andará sem rumo certo. Com certeza ele aproveitará a oportunidade. Mas eu estarei vigiando. E, quando Ibrahim tentar agir...

  • E se ele me alvejar de longe? Quem garante que não vai tentar algo assim? Você nem mesmo verá quem atirou... No entanto, se eu ficar aqui em casa, ele terá de entrar em meu apartamento para fazer alguma coisa. E terá de passar pela porta da frente do edifício.

  • Não é uma boa idéia — retrucou o agente. — Ele já pode estar dentro do prédio e...

Amina se levantou da cadeira em que estava sentada e foi até o fo­gão apanhar a chaleira de café. Ela estava estendendo a mão para pegá-la pela alça quando a porta de serviço do apartamento se abriu com violên­cia e um homem surgiu, empunhando uma pistola.

  • Ibrahim! — gritou Amina.

Foi a última palavra que a médica pôde pronunciar.

O estampido seco da pistola calibre 9 mm de Ibrahim se fez ouvir, e a moça, atingida em pleno rosto, foi arremessada para trás, de encontro à pia, caindo já morta, no chão.

Com a agilidade de um gato e a força de um leão, Steinberg se er­gueu e empurrou a mesa contra o intruso, desequilibrando-o. No instante seguinte, antes que Ibrahim pudesse se recuperar da surpresa, a pesada mão do agente já batia contra seu rosto, com a violência de um coice de mula. Ouviu-se um ruído choco, como o barulho que faz um pote de barro ao se quebrar, e Ibrahim foi arremessado contra a parede, batendo nela com a nuca. Dali, com os olhos esbugalhados, escorregou lentamente para o chão, soltando a arma que empunhava.

Steinberg olhou para o árabe estendido no chão da cozinha. Agarrou-o pela gola do paletó com a intenção de lhe fazer algumas per­guntas. Porém, logo percebeu que Ibrahim jamais poderia responder a qualquer questão... O sangramento que lhe saía pelos ouvidos era sinal mais do que evidente que seu cérebro, destroçado pela potência dos im­pactos, primeiro pelo soco que lhe dera o agente e logo em seguida pela pancada contra a parede, tinha ficado grande demais para o tamanho de sua caixa craniana...



  • Morto! — exclamou Steinberg, decepcionado. — Está morto! Não agüentou a pancada...

Ergueu-se e voltou-se para o cadáver de Amina.

  • Maldição! Afinal, ele conseguiu... E por minha culpa!

Samira teve muito trabalho para convencer Fefê a ficar no aparta­mento enquanto ela ia entregar as fotografias para Yussef. O rapaz estava extremamente desconfiado — a idéia de que Samira estivesse realmente ligada a uma célula terrorista, ou mesmo a João Antônio, voltara-lhe com o raiar do dia e, para piorar seu estado de espírito, a moça se recusara a dar qualquer informação sobre como conseguiria tão facilmente os novos documentos — além disso, ele estava ficando muito entediado, sem nada para fazer ali a não ser ver televisão. E pensar bobagens. Entretanto, com a ameaça de que, se ele continuasse a insistir, ela não iria a lugar nenhum e, dessa maneira, ficariam sem os tão desejados documentos, Samira aca­bou por fazê-lo desistir.

— Tenha um pouco mais de paciência, querido — pediu ela. — Dentro de mais dois ou três dias, nós poderemos deixar os Estados Uni­dos, e você poderá voltar a circular à vontade.

Pôs na bolsa os dez mil dólares que Yussef lhe pedira e, renovando as recomendações de Fefê não mostrar que estava vivo, saiu.

Desde o início da noite anterior chovia e ventava muito em Nova York, tornando ainda mais difícil o trabalho dos inúmeros grupos de voluntários e dos mais de mil e quinhentos homens da Guarda Na­cional que permaneciam na tentativa quase impossível de encontrar sobreviventes nos escombros do World Trade Center. A área do desas­tre estava totalmente isolada; somente os socorristas estavam autori­zados a entrar, e os jornalistas continuavam sendo mantidos a vários quarteirões de distância.

Contudo, os nova-iorquinos concentravam seus esforços na tenta­tiva de retomar a vida normal e, assim, Samira já podia ver mais pessoas andando nas ruas e mais estabelecimentos comerciais abertos.

Passava um pouco de dez horas da manhã quando, já a dois quartei­rões de seu apartamento, ela conseguiu, com relativa facilidade, um táxi e, informando ao motorista apenas a direção de onde desejava ir — em hipótese alguma ela queria deixar alguma pista —, afundou-se no banco traseiro do automóvel, mergulhando em seus pensamentos.

As coisas estavam evoluindo bem e, se Fefê não cometesse ne­nhum erro, havia muitas possibilidades de tudo dar certo. De posse dos documentos, eles poderiam ir para o México e fazer um pouco de turis­mo até que o ambiente nos Estados Unidos melhorasse e, o que era mui­tíssimo importante, até que eles se acostumassem perfeitamente com as novas identidades.

Na véspera, Yussef chegara a sugerir que eles voltassem direta­mente para o Brasil, uma vez que não poderiam continuar nos Estados Unidos. Porém, Samira dissera que não, que achava melhor que fossem para o México ou para qualquer outro país latino-americano, mas o Brasil também seria perigoso para o namorado.



  • Lá ele estaria correndo o mesmo perigo — explicara a moça, sem entrar em mais detalhes. — Não podemos, pelo menos por enquan­to, ir para lá.

No entanto, no noticiário televisivo da manhã, ela vira que a fron­teira com o México ainda estava sendo muito vigiada, e isso não era bom. Ansioso como era, Fefê poderia não suportar a pressão e, de repente, pôr tudo a perder.

"Talvez seja melhor ficar algumas semanas aqui mesmo, nos Esta­dos Unidos", pensou ela. "Desde que estejamos bem longe de Nova York, acho que não correremos perigo. Depois que ele já estiver mais calmo e mais habituado com o novo nome, então poderemos sair do país."

Sorriu interiormente, lembrando-se que tinha achado o rapaz um tanto quanto estranho pela manhã. Parecia arredio, cheio de medo e des­confiança. Quando ela lhe pedira os dez mil dólares para pagar Yussef, Fefê chegara a vacilar, e ela lhe perguntara se ele, depois de tudo o que aconte­cera, ainda não confiava nela, se achava que ela iria fugir com o dinheiro.


  • Se minha intenção fosse essa, Fefê, eu poderia muito bem ter aproveitado enquanto você estava dormindo ou tomando banho para pe­gar essa sua maleta e simplesmente desaparecer — defendera-se Samira, mostrando-se ofendida.

Saltou do táxi a três quadras de distância da casa de Yussef e, pu­xando a gola do blusão para se proteger do vento que açoitava a cidade, caminhou até lá, sempre olhando para trás e para os lados, verificando cuidadosamente se não estava sendo seguida ou se, por azar, o taxista que a trouxera não a via parada diante da porta de Yussef.

Nada disso aconteceu, porém. As pessoas que passavam por ela, na rua, caminhavam apressadas para fugir da chuva e ainda pareciam alheias a tudo, preocupadas apenas com a própria segurança, que, àquela altura, todos achavam ser muito precária. O medo estava estampado em suas fisionomias e bastava o som de um avião no céu da cidade para que todos olhassem instintivamente para cima. Nova York ainda demoraria muito para voltar a ser o que era até a manhã daquela fatídica terça-feira.

Yussef recebeu-a com o sorriso de sempre, apanhou as fotografias e o dinheiro, explicando que não era para ele, jamais cobraria um centavo sequer de Samira, mas era para o falsificador.


  • Você sabe como são essas pessoas — ilustrou ele. — Não fazem nada sem antes ver o dinheiro.

Samira sorriu, fingiu acreditar no que dizia o velho árabe e per­guntou:

  • Quando os documentos ficarão prontos?

- Segunda-feira ao meio dia — respondeu Yussef. — Quer que man­de entregar em sua casa?

  • Não. Virei apanhá-los. Prefiro assim.

Yussef assentiu com um sinal de cabeça e, depois de examinar aten­tamente as fotografias de Fefê, aconselhou:

  • Não simpatizei com ele. Espero que você saiba o que está fazendo...

Samira sorriu e, prontamente, retrucou:

- Sim, Yussef. Eu sei o que estou fazendo. Ele quer se casar comigo; é um homem que tem muito dinheiro e, acima de tudo, gosto dele. Sei que serei feliz. Sei que nunca mais vou precisar fazer o que fiz para poder sobreviver!



  • Já conversamos sobre a vida que você levou, Samira — ponderou o árabe, com expressão severa. — E você sabe muito bem qual é a minha forma de pensar. Havia outras maneiras de sobreviver, só que nenhuma delas dar-lhe-ia chance de se projetar no mundo das modelos. E, além disso, você sempre quis ter uma vida... muito confortável. Isso não é simplesmen­te sobreviver. E tem preço, quase sempre um preço muito alto.

Samira corou um pouco, mas não replicou. Em seu íntimo, sabia que Yussef estava com a razão. Ela poderia ter sido balconista, garçonete, faxineira... Nova York sempre ofereceu, a quem estivesse disposto, um vasto mercado de trabalho. Entretanto, como ele dissera, essas atividades, além de permitirem somente sonhos muito rasos, estariam afastando-a de seu objetivo. Como uma faxineira ou uma babá poderia ter oportunidade de se aproximar de um caçador de modelos? E, como poderia chamar a atenção de alguém de fato interessante, se não estivesse bem-vestida e produzida? Sim, Yussef estava certo, mas ela não se arrependia do que tinha feito até aquele momento!

  • Você está se tornando cúmplice de um crime muito sério — ad­vertiu Yussef. — E eu só posso lhe pedir, mais uma vez, que tome cuidado e que pense muito bem.

Devolveu-lhe cinco mil dólares e ordenou:

  • Você não deve falsificar seus documentos. Por mais que os ára­bes e muçulmanos estejam passando por maus bocados aqui nos Estados Unidos, todos sabemos que isso é apenas temporário. Em pouco tempo, as pessoas vão entender as diferenças que existem entre árabes, muçulmanos e terroristas, e as coisas voltarão ao normal.

Com um sorriso, acrescentou:

  • E, além do mais, de que adianta eu lhe arrumar documentos com outro nome? Com o rosto que você tem, com esses olhos, essas so­brancelhas... Qualquer um percebe que você é árabe!

Voltando a ficar sério, finalizou:

  • Não vou falsificar documentos para você. Para seu namorado, sim. Mas, para você, não!

Ao contrário de como achava que seria a própria reação, Samira sentiu-se intimamente bem com a recusa de Yussef. A princípio, ela ti­nha achado que seria uma ótima idéia ter documentos novos, com outro nome, até mesmo com outra nacionalidade. No entanto, à medida que o tempo ia passando, mais e mais ela se convencia do risco inútil que estaria correndo. Na verdade, ela não precisava desaparecer e não tinha nenhum motivo para se esconder de quem quer que fosse. Além disso, quem poderia garantir que Fefê não a abandonaria de um momento para o outro, não desapareceria também para ela? Talvez ele a amasse, naquele instante. Mas... seria esse amor definitivo? E o amor que ela sentia pelo rapaz? Seria definitivo? Teriam sido os dois, realmente, feitos um para o outro? Ou tudo aquilo não seria, como ela mesma já dissera, apenas uma paixão que desapareceria com o tempo?

  • Não se deve esquecer a possibilidade de alguma coisa sair erra­do — prosseguiu o árabe. — Se o seu namorado for apanhado, você pode ser levada de arrasto. Será muito mais simples você se livrar, dizendo, por exemplo, que não sabia de nada. Mas, se você também estiver com documentos falsos, tudo será muito mais complicado. Hoje em dia, para um árabe, isso é encrenca para muito tempo!

Samira procurou afastar esses pensamentos de sua cabeça e, agra­decendo a Yussef todo o carinho que ele estava manifestando e por toda a sua preocupação por ela, despediu-se e saiu.

A sorte estava lançada. Dentro de três dias, Fefê começaria uma vida totalmente nova e ela...

Bem... Ela o estaria acompanhando. Pelo menos, por enquanto. E continuaria a ser Samira.

Quando, por fim, chegou ao seu apartamento, ela encontrou Fefê muito nervoso e impaciente. E esse seu estado piorou ainda mais quando Samira lhe disse que os documentos, realmente, só ficariam prontos na segunda-feira e que só haveria documentos falsos para ele.



  • O diabo é ter de esperar até segunda-feira! — exclamou ele, cheio de raiva. — Isso quer dizer, esperar aqui, trancado neste apar­tamento!

Caminhando de um lado para o outro, como um leão preso numa jaula, ele rosnou:

  • Não vou agüentar! Preciso sair, preciso de ar!

Voltando-se para Samira, perguntou com raiva:

  • E por que você não quis documentos falsos, como eu?

Samira refletiu por alguns instantes e respondeu, procurando man­ter a calma:

  • Porque não quis. Não acho que seja necessário. Eu não tenho nenhum motivo para me esconder, além do fato de estar dando guarida a você. Além disso, já lhe disse qual é o meu objetivo de vida. Quero ser uma modelo famosa e, quando isso acontecer, quero que seja com o meu nome verdadeiro. Foi por isso que não quis documentos falsos para mim. Eu não morri, não desapareci. Não sou procurada ou perseguida por ninguém.

O rapaz fez um gesto de impaciência e, recomeçando a caminhar pela sala, repetiu:

  • Não vou agüentar! Sei que não vou agüentar! Preciso sair um pouco, ou vou explodir aqui dentro!

  • Você precisa é ter paciência, Fefê — aconselhou Samira, agastada. — A idéia foi sua, eu estou procurando ajudá-lo até mesmo além do que seria minha obrigação... Você terá de agüentar, terá a paciência necessária!

Pondo o almoço diante do rapaz, concluiu:

  • Já está na hora de você entender que nem tudo acontece como você quer que aconteça! Nem todo mundo tem de se curvar e se matar para fazer as vontades do senhor Carlos Fernando!

Irritada, ainda acentuou:

  • Se você acha que vai explodir, se quer começar a gritar e a chamar a atenção dos vizinhos, pode pegar sua maleta e ir embora! Se você quiser pôr tudo a perder simplesmente por não ter paciência por um final de semana, pode sumir de minha vida! Eu não estou disposta a me arriscar por alguém que seja tão infantil! Que segurança poderei ter? Você acha que é apenas o dinheiro que você tem na maleta que está me atraindo?

Sentindo que ia começar a chorar e não querendo que Fefê a visse assim tão abalada, Samira foi para o quarto.

O rapaz foi atrás dela e, segurando-a pelos ombros, lamentou:



  • Desculpe-me, Samira... Estou muito nervoso; compreenda. Não fique assim comigo, por favor.

Incapaz de conter o pranto, Samira encostou a cabeça no ombro de Fefê e, aos soluços, admitiu:

  • Também estou nervosa, pode acreditar. Isso tudo tem sido muito pesado! E estou preocupada com você. Sei que é difícil ficar prisioneiro, não poder sair, não poder telefonar, não poder mostrar que está vivo. Entendo seu estado de espírito, Fefê. Mas, por favor, entenda o meu!

Acariciando os cabelos da moça, Fefê sussurrou ao seu ouvido:

  • Acalme-se, querida. Não chore mais. Terei paciência. Vou ten­tar me acalmar. Você tem razão. Serão só mais três dias e pronto. A partir daí teremos a vida toda pela frente!

Depois do almoço, sentados diante do aparelho de televisão, os dois começaram a conversar sobre o que fariam a partir do instante em que estivessem com os documentos de Fefê nas mãos.

  • Quer dizer que você acha melhor não irmos para o México? — perguntou o rapaz.

  • A inspeção e a revista na fronteira estão muito severas — respon­deu Samira. — Acho que você, nervoso como está, vai deixar transparecer alguma coisa. E, aí, sim, tudo pode se complicar. Estou imaginando que será muito melhor irmos viajar um pouco pelos Estados Unidos, assim meio sem rumo, para que você se acostume com a nova identidade e até que fique mais calmo. Teremos de passar a fronteira como se isso fosse a coisa mais natural do mundo e não como se estivéssemos fugindo. Isso, sim, pode ser muito perigoso. Os fiscais e os agentes do FBI têm muita experiência com pessoas que estão escondendo algo. Já imaginou se desconfiarem de você?

Fefê foi obrigado a admitir que Samira estava certa. Com o clima de nervosismo que imperava em todo o país — na realidade, em todo o mundo — depois dos atentados da terça-feira, era de se esperar que os estrangeiros que estivessem deixando o país seriam investigados a fundo. Qualquer um poderia ser terrorista e, seguindo essa teoria, a fiscalização estaria sendo feita, realmente, de forma muito rigorosa. E, se descobris­sem a maleta com o dinheiro então...

  • E a maleta de dinheiro? — perguntou Fefê, cheio de aflição. — Não podemos ficar andando com ela por aí!

  • Podemos deixá-la num guarda-volumes. Já vi muitos filmes em que isso acontece — respondeu Samira, em tom de brincadeira.

E, vendo a expressão de espanto do rapaz, esclareceu:

  • Mas é claro que uma solução vista em cinema pode não valer para a vida real. Você põe a mala num guarda-volumes e, de repente, acontece uma denúncia de bomba, coisa que pode ser muito possível num momento como este, e daí a polícia revista todos os armários... Encontram a maleta com um milhão de dólares! O que vai acontecer? Simplesmente vão atrás do dono da maleta nem que tenham de procurar no inferno, pois terão certeza de que ele está envolvido em alguma coisa errada!

  • Podemos pôr o dinheiro num cofre de banco — sugeriu Fefê.

  • Também não funciona, querido. Você terá de mostrar o conteú­do da maleta. Podem surgir dúvidas, podem fazer perguntas... É perigoso.

Depois de refletir por alguns momentos, Samira avaliou:

  • Acho que o melhor será abrir várias contas pequenas, em vários bancos. Assim, você não despertará suspeitas. Depositar um milhão de dólares sempre pode levantar curiosidade. Mas você abrir vinte contas de cinqüenta mil dólares, não. E abrir contas aqui nos Estados Unidos é bem mais simples do que no Brasil...

Fefê concordou com um sinal de cabeça e murmurou:

  • Não vou depositar nada em meu nome, meu novo nome, por enquanto. Se houver alguma encrenca, isso significa perder todo o di­nheiro. Vamos depositar tudo em seu nome, menos o que vamos levar para a viagem.

  • Não quero que você ponha dinheiro em meu nome! — protes­tou Samira. — Seria uma loucura! Meu nome é árabe, já imaginou o que poderiam pensar? O FBI imediatamente estabeleceria uma investigação e, mesmo que jamais consigam provar que eu tenha ligação com os terro­ristas, minha vida estará acabada! Você sabe muito bem que é fácil acusar e destruir, mas é praticamente impossível você reconstruir o nome, mes­mo que seja absolutamente inocente.

Os dois se calaram mais uma vez e, imersos em seus pensamentos, olharam para a televisão onde, nesse instante, um jornalista confirmava que o FBI já tinha uma lista com os nomes de todos os terroristas. Não era uma notícia nova; já na véspera, os noticiários tinham falado sobre isso, mas sem fornecer números nem outros detalhes. Algumas outras informa­ções, porém, estavam sendo divulgadas como, por exemplo, a já certeza que o FBI tinha de que os terroristas tinham agido em grupos de três a seis para assumir o controle dos Boeing usados na operação.

Outro comentário do jornalista fez com que Samira se inclinasse, interessada, para a televisão e pedisse, com um gesto, que Fefê a deixasse escutar. O jornalista afirmava que a identificação dos suspeitos tinha sido o resultado de uma fantástica operação de coleta de informações em qua­tro Estados da União. Muitas pessoas de origem árabe tinham sido detidas para interrogatório e contas bancárias estavam sendo investigadas.



  • Eu estou certa — murmurou Samira. — Esse dinheiro é uma verdadeira bomba! E não pode sair daqui!

O jornalista declarava que, segundo informações de fontes fide­dignas, alguns dos suspeitos do seqüestro do vôo 11, da American Air­lines, de Boston a Los Angeles, que atingiu o World Trade Center, ti­nham entrado nos Estados Unidos pelo Canadá e organizado a operação a partir de uma célula de militantes terroristas na cidade de Springfield, em Massachusetts. Assim, com o objetivo de localizar as outras pessoas envolvidas, o FBI estava passando um pente-fino em todas as estradas, numa fiscalização rigorosíssima, especialmente depois que a polícia de Boston encontrara, logo no dia 12, nesta quarta-feira, um Nissan Altima prateado da locadora Alamo, na área de estacionamento do aeroporto da cidade. Nesse carro foi encontrada uma mala com um guia de pilotagem de avião em árabe, uma tabela de cálculos de consumo de combustível para aviões e uma cópia do Corão. Uma investigação feita na locadora revelou que quem alugara o veículo exibira carteira de motorista do Es­tado de Nova Jersey.

  • Estou preocupado — disse Fefê, torcendo as mãos. — Será que não vai ser perigoso circular pelo país, com toda essa fiscalização?

  • Acho que sim — respondeu Samira, também apreensiva. — Se formos apanhados com todo esse dinheiro, não teremos como explicar coisa nenhuma. Seremos suspeitos de qualquer jeito...

Mais para si mesma, comentou:

  • Talvez o melhor seja não fazermos nada. Acho que aqui em casa estaremos mais seguros. Nós e o dinheiro...

Antes que Fefê pudesse protestar, ela explicou:

  • Poderemos sair. Basta que fiquemos longe de locais onde possa haver qualquer tipo de confusão. Nova York é uma cidade imensa, Fefê, e é mais fácil estar escondido no meio da multidão do que num deserto, concorda?

O rapaz deu um resmungo afirmativo, e Samira continuou:

  • Ninguém está nos procurando, e há todas as indicações de que você realmente esteja entre os escombros das Torres Gêmeas. Portanto, não há qualquer suspeita que leve o FBI a buscá-lo em outros lugares.

Sorriu da expressão de desagrado que o rapaz fez quando ela men­cionou seu cadáver soterrado e enfatizou:

  • E agora, que você, além de tudo, já está com outro visual, fica menos provável que alguém o reconheça.

Fefê levantou da poltrona e foi se olhar ao espelho, recolocando a barba e o bigode postiços. De fato, ele ficava bastante diferente e, dentro de mais alguns dias, poderia dispensar o disfarce, pois já estaria com o rosto completamente coberto pela própria barba.

  • Bem... Se você acha mais seguro... — murmurou ele, voltando para o sofá. — Então ficaremos aqui.

Baixando voz, perguntou:

  • Mas... e os vizinhos? Não vão fazer perguntas, não vão achar suspeito?

  • O que pode haver de suspeito em eu ter o meu namorado aqui em casa? — retrucou Samira. — Ou o meu marido? Ninguém tem nada a ver com a minha vida! Além do mais, você não tem nada de árabe, não vamos receber absolutamente ninguém; vamos estar sozinhos aqui dentro ou passeando. Não há o que temer, pode ficar descansado.

Abraçando o rapaz, Samira finalizou:

  • Nós teremos a nossa lua-de-mel um pouco diferente... Mas, nem por causa disso, ela deixará de ser inesquecível!

Pela Internet, já perto da hora do jantar, Fefê ficou sabendo que sessenta e oito brasileiros, de todos os que estavam com paradeiro desco­nhecido após os atentados terroristas, tinham sido localizados. Segundo a informação do Itamaraty, havia ainda muitos que não tinham entrado em contato com suas famílias no Brasil ou com o Consulado, em Nova York, e que estavam sendo diligentemente procurados. Várias equipes de funcionários do Consulado estavam trabalhando para esse fim, recebendo informações por telefone e pela Internet, analisando listas divulgadas pe­las autoridades americanas, visitando hospitais e locais onde havia iden­tificação de corpos e telefonando para pessoas amigas ou que tivessem alguma relação com os desaparecidos.

  • É estranho que ninguém telefone para você — disse Fefê, lem­brando que, desde sua chegada ao apartamento de Samira, o telefone não tinha tocado uma só vez.

  • Não há por que alguém ligar — ponderou a moça. — Eu nunca tive qualquer relação com o World Trade Center... Nunca trabalhei lá e, para dizer a verdade, só estive lá uma única vez, já faz bastante tempo, como turista.

Sem conseguir disfarçar certo constrangimento, confessou:

  • E, no meio em que tento trabalhar, as amizades são muito di­fíceis de acontecer. O mais comum é justamente o contrário, ou seja, um clima de intensa rivalidade e, se uma menina puder prejudicar outra, pode estar certo de que o fará! Por isso, não tenho amigas ou amigos... Nem parentes. Na verdade, não tenho ninguém que se interesse em ligar para saber como estou.

Por um breve momento, Fefê se lembrou de seus pais, que estariam sofrendo imensamente com a perda de toda a prole de uma só vez. No en­tanto, jogando a cabeça para trás com seu velho gesto de afastar a mecha imaginária de cabelos, pensou: "Não posso me preocupar com eles. Não agora. Um dia, quando tudo estiver assentado, eles vão me reencontrar... E aí, quem sabe, conseguirão entender o que fiz e por quê. De qualquer maneira, três dias já se passaram, e eles terão de se conformar."

Com uma ponta de raiva contra si mesmo, lembrou que, se não fosse por causa de Erik, ele não teria se envolvido com João Antônio e, conseqüentemente, não precisaria estar se escondendo. Voltaria para o Brasil e, então, oficialmente e sem que o pai pudesse ter qualquer al­ternativa, assumiria o lugar do irmão, herdaria a empresa, enfim, ficaria com tudo. Com João Antônio no circuito, porém, isso seria impossível. Ele o escravizaria, daria um jeito de tê-lo nas mãos, faria de sua vida um inferno. E ele jamais teria como explicar para o pai. A atitude que estava tomando, o caminho que escolhera, sem dúvida nenhuma, seria cruel para sua família, e ele estava consciente disso. Mas, em sua opinião, esta era a única solução.

Sentado diante da televisão, olhando sem ver o que se passava no vídeo, ele escutou Samira acabando de preparar o jantar e se deu conta de que, desde os dezoito anos de idade, jamais tinha ficado tanto tempo dentro de casa, sem ir a um restaurante ou a uma boate. E sentiu saudades de São Paulo, do grupo de amigos, especialmente de Gustavo.

"Como ele terá reagido?", pensou. "O que eles todos estarão fazen­do hoje, uma sexta-feira à noite?"

Ouviu Samira chamar, avisando que ia servir a mesa, e, com um suspiro, levantou-se do sofá e dirigiu-se para a cozinha.

Jantaram em silêncio, ouvindo as notícias, preocupados com o avizinhar-se de uma nova vida.

O mundo todo também parecia estar começando uma nova era, caracterizada pela insegurança das pessoas e pelo medo com relação ao futuro. Os atos terroristas da terça-feira tinham marcado muito profun­damente, e não havia quem não estivesse tenso. As últimas notícias da­vam conta de cinco mil desaparecidos nos escombros das Torres Gême­as. Eram cinco mil pessoas que não estavam em nenhuma outra guerra que não fosse a luta pela sobrevivência, talvez até mesmo pela hegemo­nia financeira. De qualquer forma, porém, as armas que brandiam eram seus computadores, seus talões de cheques e seus cartões de crédito. E foram diretamente atingidas por um ato da suja guerra do terrorismo. Desses cinco mil desaparecidos, centenas eram bombeiros, policiais e paramédicos que tinham sido atingidos pelo desmoronamento da torre sul. Eram pessoas que ali se encontravam para tentar salvar as outras. Sua guerra era contra o tempo, contra o terrível inimigo chamado fa­talidade. E todas elas tinham em comum o fato de que, ao deixarem suas casas nas primeiras horas da manhã do dia 11, tinham a certeza e a segurança de que, ao anoitecer, estariam de volta a seus lares, reunidas com suas famílias. E isso não aconteceu.

Ao lado de toda essa tragédia e dos atos de verdadeiro heroísmo das equipes de resgate, o povo norte-americano clamava por uma reta­liação. O The New York Times cobrou abertamente do presidente Bush uma posição forte de liderança diante do desafio feito contra a nação. Houve sérias críticas com relação às primeiras ações do presidente, que denotavam uma grave e preocupante impressão de indecisão. George Bush, porém, se emocionou e emocionou o povo. Na visita que fez ao que restara do World Trade Center, no meio dos escombros, com uma bandeirinha dos Estados Unidos na mão e um megafone na outra, o pre­sidente discursou aos bombeiros, policiais e voluntários que trabalham no resgate, instigando seu patriotismo e sua coragem, e prometeu vingança aos que humilharam o sistema de defesa e causaram tanta dor ao país. Falou de guerra, assegurando claramente retaliação e desforra. Prometeu ataque militar aos responsáveis pelo ato de terror. Afirmou que não veria fronteiras e quem não estivesse ao lado dos Estados Unidos estaria com os terroristas e, como tal, seria tratado como inimigo. Não se incomodou com algumas advertências públicas feitas por dirigentes de outras nações, como a Rússia, por exemplo. Começou a montar seu plano de batalha, deu satisfações ao Congresso e ao povo. E as maiores redes americanas de televisão adotaram um tom patriótico na cobertura dos acontecimentos que haviam marcado a história da nação, com vinhetas que revelavam co­ragem, resistência e guerra, ajudando a criar um clima de união nacional. Via-se patriotismo por toda parte. Bandeiras norte-americanas estavam desfraldadas em todos os lugares, e as fábricas não estavam dando conta dos pedidos. E, ao lado das bandeiras, muito freqüentemente, viam-se cartazes e faixas exultando o espírito de luta e coragem dos americanos.

Também havia cartazes e pessoas apregoando idéias xenofóbicas e racistas, principalmente contra os árabes e os muçulmanos.

Não era possível dizer que o povo norte-americano estava contra os árabes e muçulmanos. A maioria não estava e era perfeitamente ca­paz de fazer a distinção entre árabes, muçulmanos e terroristas, da mes­ma maneira que faria essa distinção entre terroristas e não-terroristas. No entanto, havia aquela minoria xenofóbica fanática que estava se aproveitando dos acontecimentos e da comoção popular. Mesquitas es­tavam sendo apedrejadas; cidadãos americanos, porém muçulmanos ou de origem árabe, estavam sendo hostilizados; e até mesmo pessoas que não eram nem árabes, nem muçulmanos, como alguns hindus, estavam sofrendo discriminações. Um hindu, proprietário de um posto de gaso­lina, havia sido assassinado por um fanático norte-americano. E, apesar dos esforços da polícia e do próprio presidente, as pessoas com raízes no Oriente Médio e ligadas à religião muçulmana estavam se sentindo cada vez mais ameaçadas.

Essas notícias, principalmente as que denunciavam o comporta­mento antiárabe e antimuçulmano que estava se formando, preocupavam sobremaneira Samira e Fefê. A jovem, apesar de não querer demonstrar, estava com medo. Sabia que não poderia ficar trancada em casa eterna­mente. Na segunda-feira, por exemplo, deveria ir buscar os documentos de Fefê. Roendo-se interiormente, ela se perguntava por quanto tempo aquela hostilidade iria continuar. Já Fefê preocupava-se com seu lado apenas, nem sequer percebendo a conotação egoísta de seu pensamento.


  • E se seu amigo for apanhado com as minhas fotografias? Estarei perdido! — desabafou, desesperado.

Samira olhou para ele e admitiu:

  • Pode apostar que não estará mais perdido do que ele mesmo, Fefê... E, na verdade, sou capaz de apostar que ele engoliria todas as fo­tografias que estiverem em sua casa unicamente para não comprometer ninguém!



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