Quinze dias em setembro



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Epílogo
- Não, Fernando — exclamou Clara, consternada. — Não há a menor sombra de dúvida. O corpo que encontraram é mesmo de Fefê...

Ajeitou os travesseiros de Fernando e prosseguiu:



  • Foi encontrado há quatro dias, o crânio completamente esmigalhado.

Fernando suspirou, seus lábios tremeram um pouco, uma lágrima escorreu por seu rosto e, com a voz embargada, imaginou:

  • Será que ele sofreu?

  • Não acredito — assegurou Clara, prontamente. — Ele nem deve ter percebido a morte! Segundo me disseram por telefone, sua cabeça foi praticamente destruída. A comprovação foi feita pelas impressões digitais.

Fernando não mais procurou conter o pranto e, entre soluços, gemeu:

  • Pobre Fefê... Logo agora que ele estava começando a aprender a trabalhar...!

Clara nada disse. Aliás, ela jamais diria para Fernando o verdadeiro teor do telefonema que recebera de Natalie, havia pouco mais de duas horas. Jamais contaria para ele que Fefê tinha morrido atropelado por um ônibus e que os documentos que encontraram em seu poder não eram de Carlos Fernando Henriques, mas sim de Ferdinando Ibanez. Também levaria para a sepultura a conclusão a que a tal jornalista, Natalie, tinha chegado: Fefê decidira assumir outra identidade e fugir. Fugir de alguma coisa que ninguém jamais saberia o que poderia ser. Tudo o que Fefê planejara tinha terminado no pára-choques de um ônibus, possivelmente poucos instantes de ele embarcar para essa fuga.

Clara pedira para Natalie não deixar a história chegar ao Brasil, ao conhecimento de Fernando Henriques.



  • Ele está muito doente, não vai suportar — declarara ela para Natalie. — E trazer a público toda a verdade não vai ajudar em nada... Deixe que o pai dele continue pensando que Fefê morreu no atentado.

Natalie relutara, protestara, dissera que a função de jornalista a obrigava a relatar a verdade, mas, depois de muitas súplicas e lágrimas de Clara, acabara por aceitar.

  • Na realidade — concluíra a moça —, ele já foi castigado pelo crime que cometeu. Um castigo até bem desproporcional... Não faria sen­tido castigar também o seu pai. Pode ficar sossegada. Além disso, depois de tudo o que está acontecendo aqui em Nova York, qualquer notícia que não esteja diretamente ligada a terrorismo tem uma imensa possibilidade de ser relegada a planos mais do que secundários. Basta não insistir, que a verdade sobre o Carlos Fernando será esquecida.

  • E a namorada dele, Samira? — indagara Clara. — Ele esteve com ela, não?

Natalie demorara um pouco, mas afinal respondera:

  • Sim... Eu também estive com ela. Samira percebeu que eu tinha reconhecido Carlos Fernando... E ele deve ter percebido, também. Acho que ele se apavorou, quis fugir e... houve o acidente.

  • E ela? Onde está?

  • Não se sabe. Depois que ela esteve comigo, numa tentativa de descobrir até onde eu estava sabendo ou, no mínimo, desconfiada, nunca mais a vi.

Depois de alguns instantes de silêncio, Natalie perguntara:

  • Vocês virão buscar o corpo?

  • Não! — quase gritara Clara. — Deixe que o enterrem aí mesmo. Depois, só me passe o número da sepultura e o local... Será muito melhor assim para o pai dele!

Enquanto Clara estava recordando a conversa com Natalie, Fer­nando parou de chorar e chamou-a.

  • Será que eles o puseram num caixão bonito? — perguntou ele.

Clara pensou um pouco e respondeu:

  • Vi, na televisão, que os caixões que a prefeitura de Nova York destinou para as vítimas do WTC são bem bonitos... Claro que são tristes, mas bonitos.

Fernando tomou um gole de água do copo que Clara lhe aproxima­va dos lábios e avaliou:

  • Não vou buscá-lo, Clara... Pelo menos, não agora... Seria pro­longar o meu sofrimento.

Com a ponta do lençol, enxugou uma lágrima e, segurando com força a mão de Clara, confessou:

  • Agora estou sozinho... E ainda não sei o que farei... Sem ne­nhum objetivo na vida...

Steinberg entrou na sala de Castells um pouco ressabiado. Não era do feitio do chefe chamá-lo para uma missão, sem que antes falasse com Donovan, seu parceiro e superior hierárquico.



  • Como vai sua vida? — perguntou Castells, fazendo-o sentar e oferecendo-lhe um cigarro.

  • Vai bem, obrigado... — respondeu Steinberg, cheio de des­confiança.

  • Preciso informar algo — avisou Castells. — Você foi transferi­do para outro setor do FBI... Um setor mais calmo, onde provavelmente você não vai ter como matar todos em que põe essas patas!

Steinberg mexeu-se na cadeira, incomodado, e Castells, muito sé­rio, explicou:

  • Donovan vai sair completamente da área "ação" e vai assumir a chefia de toda a área de pesquisa sobre terrorismo. E ele quer que você vá com ele.

  • Mas eu detesto a área burocrática! — reclamou Steinberg. — Essa história de ficar vendo papéis e arquivos de computador não é comigo!

  • Bem... — murmurou Castells. — É pegar ou largar... Pedir de­missão, quero dizer.

Steinberg refletiu por alguns instantes. Sua vontade era de pedir demissão, de se declarar injustiçado... Mas, ao mesmo tempo, sabia que essas determinações dentro do FBI nunca eram eternas. Mais dia, menos dia, Castells haveria de precisar dele novamente na área de campo, na "ação". Era uma simples questão de ter paciência.

Com um suspiro, o agente concordou:






  • Acho que ele não virá mais — disse Santiago, sem disfarçar o alívio. — Já estamos aqui há três dias além do prazo que você mesma estipulou, e esse seu... amigo... não apareceu.

  • Ninguém abandona um milhão de dólares assim! — protestou Samira. — Alguma coisa deve ter acontecido.

O casal Samira e Ruy Santiago tinha chegado à cidade de Vitória, capital do Espírito Santo, cinco dias atrás e, exatamente como ela tinha combinado com Fefê, hospedaram-se no Alice Vitória.

Durante os dois primeiros dias, ela ensaiara exaustivamente o que diria para Fefê no momento em que ele chegasse.



  • Não sei a razão de você se preocupar tanto — protestara San­tiago. — Basta dizer que tudo acabou e que ele pode pegar sua parte do dinheiro... É só fazer um cheque!

  • Ele vai espernear... — dissera Samira. — E eu gostaria de magoá-lo o menos possível!

  • Faça o que quiser — encerrara Santiago, um pouco ríspido. — Desde que não invente de voltar para ele e me abandonar...

Samira riu, abraçou o marido e garantiu:

  • Não tem esse perigo, meu amor... Posso ter demorado para en­contrar o meu homem. Mas encontrei! E esse homem é você! E eu só o abandonaria se você, e só você, desse motivo para isso!

Santiago retribuiu o carinho de Samira, forçou um sorriso e perguntou:

  • Quanto tempo mais você vai esperar?

Samira olhou intensamente para Santiago e pôde perceber que ele estava bastante agastado com tudo aquilo.

  • Não quero mais esperar, Ruy — respondeu ela. — Só acho que deveria dar uma satisfação. E devolver-lhe pelo menos a metade do dinheiro.

Santiago anuiu com a cabeça e, depois de alguns momentos, concluiu:

  • Ele deve ter sido apanhado pelo FBI, querida... Do jeito que você me contou que ele é, jamais teria conseguido disfarçar o nervosismo. E, daí a ser preso pelos federais, o passo é mínimo.

Inclinando-se um pouco, deu um beijo em Samira e convidou:

  • Vamos embora amanhã. Temos o Brasil inteiro para conhecer e esta terra vale a pena! Se ele tiver realmente interesse em encontrá-la, pode estar certa de que o fará. E, quanto mais tempo demorar, melhor!

Samira retribuiu o beijo e murmurou:

  • Você tem razão, querido... Não há por que ficar perdendo tem­po. E, se ele aparecer, saberei o que lhe dizer...

Donovan passou a se dedicar ao trabalho de análises das informa­ções que chegavam diariamente à sua mesa. Milhares de contas bancá­rias foram verificadas, e os dados dos correntistas foram checados, mi­lhares de pessoas foram investigadas, centenas foram detidas para mais averiguações.



Do trabalho intenso de Donovan e de mais cerca de quatro mil agentes do FBI e da CIA, o Pentágono e a Casa Branca elaboraram um plano de ação anti-terrorista — que, na verdade, deveria estar em execu­ção e funcionamento desde muito tempo atrás — e alianças internacio­nais, que culminaram com o ataque contra o Afeganistão, vinte e seis dias depois dos atentados contra as Torres Gêmeas e o próprio Pentágono.

As primeiras bombas caíram sobre Cabul no dia 7 de outubro de 2001, às nove horas da noite — uma da tarde, horário de Brasília — e sobre Kandahar, um pouco mais ao sul e principal base política do mulá Mohamed Omar, líder do Talibã.

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