Quinze dias em setembro



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Capítulo I
Carolina, a dona da festa, estava radiante. Todos os convidados tinham comparecido. Havia até mesmo várias pessoas que não tinham sido cha­madas, mas que, nem por isso, estavam atrapalhando. Muito pelo contrá­rio, entre esses inúmeros penetras, a maioria constituída por rapazes, ha­via muita gente simpática e interessante. Como aquele baixinho, magro, de olhos muito azuis e cabelos escuros e rebeldes, que parecia polarizar as atenções de todo um grupo, ao lado da churrasqueira.

"Pena que ele seja tão pequenininho...", pensou ela, enquanto cumprimentava um jovem casal que acabara de entrar.



  • Não poderia deixar de vir, Carol — disse a moça recém-chega­da, beijando as faces da anfitriã. — Deixei de lado o estudo para o MBA e pedi para o Roberto, meu irmão, me trazer...

  • Pois fez muito bem! — exclamou Carolina. — Está cheio de gente bonita e interessante aqui! Aposto que é muito melhor do que ficar em casa, numa sexta-feira à noite, estudando marketing e coisas assim!

Levando o casal até a grande mesa de frios, mostrou, com um gesto discreto, o rapaz de olhos azuis e perguntou:

  • Você o conhece, Amanda? Ele parece ser muito simpático...

  • Acho que já o vi lá na faculdade — respondeu a moça. — Mas não sei quem é.

Amanda deu um sorriso malicioso e acrescentou:

  • Mas não será nem um pouco difícil descobrir...

  • Do jeito que você é, tenho certeza disso — falou Roberto, apa­nhando um copo de uísque com o garçom e afastando-se.

Carolina, permanentemente interessadíssima no irmão de Amanda, acompanhou-o, dando uma piscadela significativa para a amiga.

Amanda aceitou a taça de vinho que o garçom lhe ofereceu e, ven­do um conhecido no grupo onde estava o rapaz que despertara a curiosi­dade da amiga, dirigiu-se para lá.

Quando a moça se aproximou, o rapaz, que naquele instante estava falando sobre o curso de pós-graduação que estava fazendo, calou-se.


  • Continue — disse Amanda, com um sorriso — É interessante o que você estava contando...

O conhecido de Amanda, depois de cumprimentá-la, fez as apre­sentações:

  • Amanda, este é o Fefê, um colega de curso.

E, voltando-se para o amigo, explicou:

  • Amanda também está fazendo MBA lá na faculdade. Só que ela está fazendo em marketing.

Fefê sorriu, apertou a mão que Amanda lhe estendia e, esticando- se um pouco — a moça era pelo menos cinco centímetros mais alta —, beijou-lhe as faces, dizendo:

  • Muito prazer...

Bem que ele gostaria de falar algo mais, talvez dizer-lhe que, se a tivesse conhecido antes, com certeza teria mudado de curso, ou qualquer outra coisa do tipo. Entretanto, não o conseguiu e, a despeito de tentar se controlar ao máximo, sentiu que suas faces ficavam vermelhas.

Isso sempre lhe acontecia... Bastava precisar se dirigir a uma moça, ele corava, emudecia e parecia outra pessoa. Aquela vivacidade, aquele aspecto desinibido que mostrava junto aos amigos de­saparecia por completo, e Fefê ficava ali, quieto, ouvindo os outros falar, somente de quando em quando resmungando alguma coisa em assentimento.

Geralmente, nessas ocasiões, ele jamais discordava do que fosse dito: se discordasse, teria de falar, teria de expor suas idéias. E ele sabia que, na frente de uma moça, especialmente se a moça fosse bonita — e Amanda era muito bonita, com quase um metro e setenta de altura, cabelos loiros compridos, corpo escultural e um rosto que ficava entre a ingenuidade angelical e a malícia de uma mulher experiente —, ele não conseguiria sequer abrir a boca.

Naquele instante, como ele estava sendo, até então, o centro de atenções de todo o grupo, com seu súbito silêncio, criou-se um ambiente de ligeiro mal-estar e, depois de uma ou outra frase sem importância ter sido dita por outros participantes, cada um foi para um lado dando uma desculpa qualquer, e Fefê se viu sozinho com Amanda.

Mais para não ficar sem dizer nada, num silêncio constrangedor, o rapaz mostrou para Amanda um casal que estava a alguma distância, e perguntou:


  • Quem são eles? Não parecem brasileiros...

  • Ela é francesa, mas mora aqui no Brasil. É jornalista, está traba­lhando como correspondente de um jornal brasileiro, em Buenos Aires. Chama-se Natalie. Ele eu não sei. Mas parece que os dois estão juntos... Veja só como se olham...

E, com um sorriso que não escondia certo despeito, Amanda comentou:

  • Ela é bem bonita, não é mesmo?

Fefê apenas fez um gesto afirmativo com a cabeça e continuou a olhar para Natalie. De fato, ela era lindíssima. Dificilmente veria uma mulher mais bonita. Contudo... bastava ver o homem que a acompanha­va para perceber que Natalie jamais seria peixe para seu anzol. Nesse momento, a moça desviou o olhar de seu companheiro e fixou-o em Fefê. Este, como sempre muito tímido, rapidamente voltou a olhar para Aman­da e, com um movimento de cabeça, jogou para trás uma inexistente mecha de cabelos que, se existisse, estaria lhe caindo sobre a testa.

Um garçom passou com sua bandeja de bebidas e a jovem apa- uhou outra taça de vinho, enquanto Fefê aceitava mais uma generosa dose de vodca.



  • Não sei como você consegue tomar isso — comentou ela. — É álcool puro! Queima a boca e a garganta...

  • Não tomo outra coisa — disse Fefê, balançando a cabeça.

  • Mas é muito forte! — insistiu Amanda.

  • Até que nem tanto assim... — murmurou Fefê.

E, mais uma vez, apesar de querer continuar falando, não conseguiu e ficou quieto, remoendo a raiva que sentia de si mesmo, por ser assim.

Amanda, percebendo a timidez do rapaz e, querendo saber um pou­co mais sobre ele, falou:



  • Gostei dessa sua camisa... Combina com você, com seus olhos...

Um sorriso iluminou o rosto de Fefê. Aquele era um assunto que ele dominava e que jamais o inibiria. O esmero que tinha em se vestir, as roupas de marca que comprava mereciam ser comentadas, e ele ficava realizado quando alguém percebia que aquilo que estava usando era de boa e caríssima procedência.

E ele tinha realmente se produzido para aquela festa... Não conhe­cia Carolina, a anfitriã, mas ouvira alguns de seus amigos dizer que era uma moça riquíssima, finérrima e extremamente exigente consigo mesma e com os outros. Era uma dessas que são chamadas maldosamente de patricinhas, e ele sabia que, se quisesse ser ao menos considerado, teria de estar vestido de acordo. Ou seja, teria de ser um autêntico mauricinho. Assim, quando foi convidado para a festa, dez dias atrás, ele fora a uma das butiques mais caras de São Paulo e comprara tudo novo, desde a rou­pa de baixo até os sapatos.

Portanto, ele estava vestido com um traje cujo preço daria folgadamente para uma família inteira comprar mantimentos para seis meses...


  • Comprei na Daslu, como sempre faço... — admitiu ele, com fin­gida naturalidade, como se comprar roupas na butique mais cara do país fosse uma rotina até mesmo enfadonha.

Durante alguns minutos os dois ficaram conversando sobre moda e modelos, ou seja, futilidades sobre as quais Fefê conseguia conversar.

Em dado momento, o assunto se desviou para as baladas da noite paulistana, e Fefê comentou:



  • Sexta-feira que vem haverá uma bela festa no Gallery. Você vai estar lá?

  • Não — respondeu prontamente a moça. — Teria de mandar fazer um vestido branco e não vai dar tempo...

  • Ora! Compre um modelo prêt-à-porter — sugeriu Fefê. — Com o corpo de modelo que você tem, não encontrará dificuldades, e aposto que nem mesmo precisará de qualquer ajuste!

Amanda sorriu, agradeceu o lisonjeio e disse:

  • Um vestido assim, para ser bom, sai muito caro, Fefê... Eu não teria condições... Vivo do meu trabalho; meus pais não me dão essa liber­dade financeira.

  • Também vivo do meu trabalho — replicou o rapaz. — Sou sócio de uma empresa de exportação e importação.

  • Então, você deve ganhar bem. Para poder se vestir na Daslu...

  • É... — concordou ele. — Não posso me queixar...

Olhou o relógio de pulso, um caríssimo relógio suíço, de ouro, e acrescentou:

  • Ainda não é meia-noite, e eu estou morrendo de fome... E essas coisinhas que estão servindo não me agradam nem um pouco...

Juntando toda a coragem do mundo, convidou:

  • O que acha de irmos jantar? Depois, até podemos voltar...

Amanda olhou para ele com uma expressão maliciosa e, desejosa de conhecer mais a fundo aquele rapaz, respondeu:

  • Se você esperar eu encontrar meu irmão e lhe dizer que não preciso dele para voltar para casa...

Fefê, sentindo o rosto em fogo e as pernas um tanto quanto trêmu­las, mal conseguiu balbuciar um "fique à vontade, estarei aqui esperando por você".

Ele viu a moça se afastar, mexendo sensualmente os quadris e, pe­gando mais uma dose de vodca capaz de pôr abaixo a resistência de um cossaco, pensou: "Tenho de levar essa mulher ao Gallery! Desta vez não vou ficar sozinho numa festa!".


Afastando-se de Fefê, Amanda não foi apenas procurar o irmão, mesmo porque sabia que não havia nenhuma necessidade disso: Rober­to já estava mais do que acostumado a levar a irmã às festas e deixá-la voltar em companhia de algum amigo ou amiga. Na verdade, ela queria era encontrar Carolina.

Encontrou a amiga no meio de uma roda e, chamando-a para um canto mais isolado, disse:



  • O Fefê me convidou para jantar...

  • Ah, é? — exclamou Carolina, com expressão de surpresa. — E quando?

  • Agora...

  • Agora?! Mas... e a minha festa? Você mal chegou e já vai embora?!

  • Nós vamos voltar... Acho. Pelo menos, eu vou tentar voltar.

E, em voz mais baixa, indagou:

  • Soube mais alguma coisa sobre ele?

Carolina, que não achara graça nenhuma em ver a amiga se retirar tão depressa, respondeu:

  • Eu não deveria lhe contar, amiga-traíra... Mas, como não sou rancorosa...

  • Não sou traíra, Carol — defendeu-se Amanda. — Só estou curiosa... E é uma oportunidade, não é mesmo?

  • E muito boa, querida — afirmou Carolina. — Esse rapaz é podre de rico, bem-educado... De excelente família! Vale a pena o investimento!

  • Mas ele é tão baixinho...! Tão tímido...! Na verdade, não faz o meu gênero de jeito nenhum!

Carolina deu de ombros e disse:

  • Você é quem sabe, amiga... Se eu não fosse a dona da festa e não estivesse tão interessada no seu irmão...

Amanda deu uma risada e, beijando as faces da outra, falou:

  • Está bem. Você me convenceu. Vou jantar com ele e, quando voltarmos, eu lhe conto como foi.

  • Se você voltar... — murmurou Carolina — Coisa que eu acho que não vai acontecer.

  • Já lhe disse que ele não faz o meu gênero, Carol. Nós vamos voltar, sim. Pode acreditar.

  • De qualquer jeito, vou dizer para o Roberto não se preocupar com você. E, se você quiser dormir aqui, amanhã, peço ao motorista para levá-la em sua casa. Assim, nós poderemos conversar à vontade.

Amanda sorriu, soprou mais um beijo para a amiga e afastou-se, ru­mando ao encontro de Fefê, que, naquele instante, estava vendo Natalie e seu acompanhante saindo, também se despedindo de Carolina.

"Bem...", pensou Amanda, avistando-o com mais um copo de vodca na mão, "pelo menos acho que vou jantar bem. Ele tem razão... Essas coisinhas que estão servindo não valem nada. Nem sei como o Roberto, que come como um leão, ainda não se manifestou!"


Amanda já se impressionou ao ver o carro de Fefê, uma BMW do ano. Sentando-se e ajustando o cinto de segurança, ela perguntou:

  • Você não tem medo de andar com um carro desses? Não tem medo de ser assaltado?

  • O carro está no seguro — respondeu o rapaz, ligando o motor.

E eu acho que essa história de assalto é meio lenda.

Arrancando, ele completou:



  • E este carro é blindado. Estamos mais seguros aqui dentro do que em qualquer outro lugar do mundo.

Vendo que Fefê não punha o cinto de segurança, ela perguntou:

  • Você não usa o cinto?

  • Não gosto. Ele me incomoda e, de mais a mais, acho mais pe­rigoso usar essa porcaria do que não usar. Você não se lembra daquele acidente em que o motorista morreu enforcado no cinto?

Amanda lembrava. E lembrava também que o rapaz não se enfor­cara com o cinto, mas sim que ele, baixinho demais para o carro, tinha espremido a traquéia contra o cinto. Por causa da estatura do motorista, o cinto tinha ficado alto demais, pegando-lhe o pescoço.

E era, provavelmente, por esse motivo que Fefê se recusava a usar o cinto de segurança.

Falando sobre as vantagens de confiar apenas nos air bags do auto­móvel e em sua estrutura bem dimensionada e rígida, Fefê dirigiu-se para o restaurante Fasano, um dos mais caros e tradicionais da cidade.


  • Gosto daqui — disse ele, deixando o carro com o manobrista. — Venho sempre. Por isso, tenho certeza que não vamos ter de esperar vagar uma mesa.

De fato, assim que o casal entrou, o maitre se aproximou, cheio de sorrisos e mesuras, dizendo:

  • Boa noite, doutor Carlos. Vai jantar ou só vai tomar um drinque?

  • Vamos jantar — respondeu Fefê.

E, olhando o restaurante cheio, o bar repleto de pessoas aguardan­do mesas, juntou:

  • Quer dizer... Talvez... Parece que você não tem nenhuma mesa vaga...

O maitre inclinou-se um pouco, a fim de lhe falar ao ouvido, e disse:

  • Não é o seu caso, doutor... Sempre temos algumas mesas reser­vadas para personalidades...

Fefê sorriu, satisfeito, disfarçadamente pôs na mão do maitre uma nota que Amanda viu ser de cem dólares e, guiando a moça pelo braço, falou:

  • Vamos atrás dele, Amanda... Nossa mesa está esperando.

Para iniciar, pediram um coquetel de lagostas e uma garrafa de Chablis, safra especial e reservada.

  • Pensei que você só tomasse vodca — comentou Amanda.

  • Durante a refeição seria mal-educado — disse Fefê com um sorriso. — E eu também tomo vinho. Só que precisa ser um vinho muito bom!

  • E caro! — exclamou a moça. — Conheço esse vinho e sei que ele não é nada barato...

  • Isso jamais seria o problema — assegurou ele. — O prazer não tem preço. E o que é de bom gosto jamais é caro!

Amanda teve vontade de dizer que a vida não pode ser encarada apenas por esse prisma e que muita coisa que dá muito prazer custa quase nada... Mas preferiu ficar quieta e não entrar nesse campo de discussão, o que poderia até trazer alguma desarmonia para a mesa.

Mais desinibido por causa da quantidade de álcool que já ingerira e, naquele instante, misturando com o vinho, Fefê falava sem parar de sua vida, dos lugares que freqüentava, das festas a que ia, enfim, de seu mundo pleno de futilidades. Várias vezes Amanda teve de se controlar para não tecer comentários do tipo "mas isso é muito caro; esse seu modo de vida deve custar uma fortuna; você realmente deve ganhar muito bem; poucos podem fazer o que você faz...". Mas se conteve. Não queria mostrar surpresa com o que o rapaz lhe contava — achava até que já o tinha feito demasiado — e, também, não queria deixar transparecer curiosidade quanto ao modus vivendi de Fefê.

Pediram o prato principal — Fefê sugerira um javali com trufas, mas Amanda, que não estava disposta a ter de misturar vinho branco com vinho tinto, preferiu um haddock à beurre noire — e, enquanto aguarda­vam sua chegada, o rapaz disse:


  • Gostaria que você fosse à festa do Gallery!

  • É impossível — retrucou Amanda. — E já lhe expliquei o motivo.

  • Mas você não gostaria de ir? — insistiu Fefê. — Não gosta des­ses lugares?

  • É claro que gosto! — exclamou a moça. — E é claro que eu iria ao Gallery nessa tal festa. O problema é que, realmente, não vai dar.

Nesse momento o garçom veio servir o peixe, e o assunto entre eles mudou, recaindo sobre a festa de onde tinham acabado de sair.

  • Aqui está bem melhor, não é mesmo? — perguntou ele.

  • Não tenha dúvida — concordou Amanda. — E nós podemos conversar bem mais à vontade... Sem o perigo das línguas fofoqueiras.

Por um breve instante, passou pela mente de Fefê que ele bem justaria de estar na festa, polarizando a presença de Amanda ao seu lado, com todos os demais vendo-o acompanhado por aquela mulher tão bonita e desejável, com todos se mordendo de inveja... No entanto, ele estava plenamente consciente de que, lá na festa, ele jamais teria essa oportuni­dade. Primeiro, porque ele sabia que sua inibição acabaria por impedi-lo de segurar a moça ao seu lado e, segundo, porque ela, certamente, haveria de se interessar por outros ali presentes, mais altos, mais fortes, mais in­teressantes do que ele.

Aliás, ele ainda não conseguira descobrir de onde arranjara a cora­gem para convidá-la para jantar!

Por sua vez, Amanda já estava mais do que satisfeita quanto a ma­tar a sua curiosidade e não via a hora de voltar para a casa de Carolina. Já vira perfeitamente quem era Fefê; percebera que, definitivamente, ele não era o seu tipo e, por mais dinheiro que tivesse, jamais a interessaria a ponto de vir a acontecer alguma coisa além de um jantar.

Fefê, porém, não dava mostras de querer ir embora. Pediu sobremesa, depois café, depois um licor... E ficou ali, morgando uma conversa já meio sem pé nem cabeça, em que os assuntos morriam depressa, nenhum tema conseguia se expandir por mais do que meia dúzia de frases curtas e vazias.

Por fim, entregando os pontos, Amanda disse:


  • Estou começando a ficar com sono, Fefê... Vamos...

Interrompeu-se a tempo. Por pouco não ia dizendo "vamos voltar

para a festa da Carolina", mas, se falasse isso, não estaria justificando o sono e, pior, estaria, no mínimo, confirmando que a conversa e a compa­nhia de Fefê não a estavam agradando. E, isso, ela não queria fazer. Sua educação jamais permitiria maltratar, ou humilhar, quem quer que fosse. E até mesmo o pernóstico rapaz que se encontrava à sua frente era mere­cedor de alguma consideração.



  • Vamos... — continuou ela. — Você me leva para casa?

  • Mas... já?! — protestou o rapaz. — A noite ainda é uma criança!

  • Estou cansada, Fefê. E amanhã eu preciso estudar. Na verdade, esta noite eu não deveria ter saído de casa...

E, depressa, acrescentou:

  • Ainda bem que o conheci. Compensou de sobra eu ter deixado de completar meu trabalho de formatura... Você me proporcionou uma noite maravilhosa!

E, enquanto Fefê simplesmente assinava a nota que o maitre lhe trouxera, Amanda pensou:

  • Amanhã cedo eu ligo para a Carol e explico o que aconteceu. Ela vai me entender...

Amanda morava no Morumbi e, durante o trajeto até sua casa, os dois trocaram poucas palavras. Ela, porque de fato já não tinha mais nada a dizer para o rapaz, e este, porque seus pensamentos voavam longe dali.

Ele imaginava Amanda nua, ao seu lado, numa cama de motel... Imaginava-a carinhosa, enroscando-se a ele, ardente de desejo...

Entretanto, Fefê sabia muito bem que era um sonho impossível. E impossível principalmente porque ele jamais teria coragem de propor alguma coisa para aquela mulher.

Uma mulher tão linda, tão desejável... Não era peixe para seu anzol.

"É areia demais para o meu caminhãozinho...", pensou, cheio de tristeza, ao encostar o carro diante do magnífico prédio de apartamentos onde residia a moça.

Cavalheiro, ele desceu do carro para abrir a porta e, ao se despedir com dois castos e tímidos beijos no rosto, Fefê falou:



  • Farei contato durante a semana, Amanda. Para combinar a festa do Gallery.

Amanda queria dizer que não iria àquela festa, queria repetir os motivos que a impediam de comparecer a esse evento, mas desistiu. Se tentasse explicar mais uma vez tudo o que já tinha dito a Fefê, isso seria motivo para ele segurá-la um pouco mais, e ela já estava mais do que farta de sua presença. Assim, entrando no prédio, ela disse, apenas:

  • Está bem... A gente se fala, então... Boa noite, Fefê!

  • Boa noite, Amanda... Até amanhã!

Ele esperou até que ela entrasse no elevador e só então voltou para seu automóvel.

Olhou o relógio digital do painel e, com certa raiva, disse:



  • Ainda são três da madrugada... E, para variar, estou sozinho...

Do lugar em que se encontrava, no Morumbi, seria muito fácil ele pegar a rodovia Raposo Tavares e rumar para sua casa, na Granja Viana. Não era isso, porém, que Fefê tinha em mente. Ele estava agitado, excita­do, sabia que não conseguiria dormir. Pensou em voltar para a festa, mas chegar lá sozinho, depois de ter saído com Amanda, não seria de boa polí­tica. Certamente alguém perguntaria pela moça, e ele haveria de se sentir muito mal, explicando que ela teria voltado para casa porque precisaria estudar na manhã seguinte.

Assim, ainda com a imagem de Amanda gravada em sua retina, ele rumou para o bairro do Itaim, onde certamente encontraria um desses bares do tipo "fim-de-noite" aberto, para tomar mais uma dose de vodca e, quem sabe, encontrar alguém.

Estacionou diante do Rabo de Peixe, famoso ponto de encontro dos "desiludidos na noite". Como era de esperar, àquela hora tardia da madrugada, o bar estava praticamente deserto, com apenas três ou quatro mesas ocupadas por casais que ainda não tinham, certamente, decidido onde haveriam de terminar a noitada.

E havia aquela mulher sentada a uma mesa, sozinha, olhando com indubitável tristeza para um copo de uísque à sua frente.

Fefê ocupou uma mesa quase em frente à dela e pediu sua dose de vodca.

A mulher ergueu os olhos do copo e fitou o rapaz. Sorriu para ele. Ele, como sempre um pouco encabulado, retribuiu o sorriso. Ela não se fez de rogada. Levantou-se, pegou o copo e veio sentar ao seu lado.



  • Mas que noite fraca, benzinho... — disse ela. — Nenhum fre­guês até agora...

Fefê suspirou. Para ele, também, a noite não tinha valido a pena. Concordou com a mulher, resmungando:

  • Pois é... Tem noites em que a gente não devia sair de casa...

Olhou para ela com um pouco mais de atenção. Via-se claramente que era uma prostituta, uma dessas mulheres que as almas mais românticas chegam a chamar de "amantes profissionais". Não poderia dizer que era feia, embora mostrasse na fisionomia a vasta milhagem rodada, traduzida por al­gumas rugas, que a pesada maquiagem já não conseguia disfarçar, e pelo olhar cansado, desiludido, entristecido e, ao mesmo tempo, duro e frio.

  • Mas talvez ainda haja alguma esperança para nós dois... — disse ela, acariciando as costas da mão direita de Fefê.

Num primeiro instante, a reação do rapaz foi de tirar a mão, de impedir aquela manifestação de intimidade. No entanto, não o fez. Bem ao contrário, até achou excitante e agradável o contato. Percebendo que não houvera recusa, a mulher fez seus dedos subir pelo antebraço de Fefê, enquanto dizia:

  • A vida é uma troca, benzinho... Você salva a minha noite e eu salvo a sua... Garanto que não vai se arrepender...

E, enquanto roçava o joelho na coxa do rapaz, ela completou:

  • Pode estar certo que eu vou deixá-lo muito mais feliz do que se você fosse passar este resto de noite com uma dessas patricinhas com quem certamente está acostumado!

As palavras da mulher pareciam para Fefê que vinham do fundo ile um poço, de tanto que sua mente já estava embotada pelas inúmeras doses de vodca. Ele não discutiu, não argumentou, não disse nada. Pagou a consumação e foi embora, acompanhado pela mulher.

Acordou com o dia já alto, numa cama de motel, sentindo — além da língua saburrosa e uma formidável dor de cabeça — a desagradável sensação de ter alguém dormindo ao seu lado.

Teve de fazer algum esforço para se lembrar quem era aquela mu­lher que ali estava, ressonando, os cabelos desgrenhados espalhados pelo travesseiro, o hálito acre de alguém que, como ele, tinha bebido demais na véspera.

Notou que tinha dormido vestido, o que, em resumo, queria dizer que nada, absolutamente nada, acontecera entre eles dois.

"Melhor assim, apesar de tudo", pensou ele, levantando-se com cuidado para não acordá-la. "Pelo menos não vou ter de ficar preocupado com alguma doença venérea ou, pior ainda, uma possibilidade de ter contraído aids..."

Sempre sem fazer qualquer ruído, deixou sobre a mesinha de cabeceira duas notas de cem dólares e saiu. Ela que se arrumasse para ir embora.

Já a caminho de sua casa, lembrou-se de Amanda. Como era bonita aquela mulher! Como ele desejaria ter terminado a noite ao seu lado...

"Mas hei de conseguir!", pensou. "Amanda ainda há de ser minha!"




  • Haveremos de conseguir! — dizia a mensagem de e-mail recebida por Hafez Skandar. — Já estamos com nossa rede atuando em mais de sessenta países e contamos com recursos tanto financeiros quanto operacionais suficientes para alcançarmos a vitória! Nossos aliados também estão prontos e, de um momento para o outro, levaremos aos inimigos do Islã o terror e a desgraça. Portanto, fiquem alertas, mais do que nunca.

Hafez já recebera centenas de mensagem idênticas e estava ciente de que aquelas palavras eram dirigidas a todos os milhares de componen­tes da imensa rede do terrorismo islâmico. E cada um desses e-mails vinha de um remetente diferente, localizado numa cidade diferente, até mesmo de países diferentes.

Este, por exemplo, estava sendo remetido por alguém cujo nome era César Khalid, do Paraguai. Quanto ao e-mail ter sido enviado do Para­guai, era certo, pelo menos viável. Que seu remetente tivesse aquele nome, porém, Hafez sabia muito bem que a probabilidade era mínima, uma vez que os emissários de Al-Kayed sempre usavam identidades falsas.

A mensagem continuava por mais alguns parágrafos, exortando to­dos os muçulmanos a se juntar para combater os inimigos do Islã, numa verdadeira guerra santa e, ainda que Hafez já soubesse de cor todas aque­las palavras, ele as leu integralmente.

Por fim, vinha a parte da mensagem diretamente relacionada com ele:



  • Você receberá dentro deste mês as instruções relativas à sua festa. De imediato é necessário que você faça provisões de malfuf, homus, bourgol, kshak e kafta. Teremos muitos convidados e, assim, compre o su­ficiente para cem pessoas. Comunique aos outros que vão ajudar a orga­nizar o evento e diga que o dinheiro necessário já está sendo transferido para sua conta.

Hafez sentiu um súbito frio no estômago. Então, o grande dia se aproximava! O dia em que o Ocidente haveria de tremer diante do Islã!

Releu aquela parte da mensagem, anotou o que era preciso comprar e deletou o e-mail do computador, seguindo as ordens que, havia muito, recebera: ler a mensagem, memorizar seu conteúdo — se necessário, ano­tar com muita cautela — e deletá-la imediatamente.

— Vamos começar a agir! — disse para si mesmo, em voz baixa. — Afinal, vamos começar a fazer alguma coisa concreta!

De fato, Hafez já estava se aborrecendo com a lentidão das ações programadas contra os Estados Unidos e, especificamente, contra a ci­dade de Nova York, para onde ele tinha sido enviado havia já quase um ano. Durante esse tempo todo, ele seguira à risca todas as ordens vindas de Al-Kayed: matriculara-se num curso de química, permanecera discre­to, desempenhara o papel de bom cidadão, arrumara um emprego como auxiliar de laboratório numa fábrica de plásticos e — o que era parte im­portante da missão que lhe tinha sido atribuída — procurara, entre outros árabes, pessoas que pudessem ser úteis à grande causa.

Nesse aspecto, Hafez tivera muita sorte. Logo no segundo mês em que chegara a Nova York, conhecera Ibrahim Shehri e Mohamed Jarrahi, ambos técnicos em informática e apaixonados pela causa árabe. Conse­qüentemente, tomara conhecimento da existência de Jamile Haznawi, namorada — ou noiva — de Ibrahim. Simpatizara com o grupo, conver­saram bastante sobre religião e política e, em pouco tempo, Hafez ficara convencido de que eles poderiam ajudar a grande causa. Enviou, por e-mail, uma mensagem a seu chefe imediato sugerindo Ibrahim e Mohamed como parceiros e, após uma investigação que ele não tinha a menor idéia de como teria sido feita, recebera a aprovação. A partir daí, os três pas­saram a estar sempre juntos, logo se estabelecendo a linha hierárquica, com Hafez sendo o mais importante, imediatamente seguido por Ibrahim e Mohamed.

Ibrahim sempre estava acompanhado por Jamile e, no início, isso causava em Hafez certo constrangimento. Muçulmano radical, ele não achava que as mulheres pudessem, de alguma forma, participar das reu­niões entre homens, especialmente daquelas em que surgiam assuntos de religião ou política. As mulheres deveriam estar sempre afastadas do convívio masculino, estar cobertas com o xador. Entretanto, esse seu con­ceito teve de ser bastante alterado a partir do momento em que Jamile lhe disse que a ela também tinha sido atribuída uma missão, ou seja, a de servir aos homens que estariam lutando e dedicando a própria vida ao Islã. Justamente por essa razão — e por outras, bastante mais estratégicas, uma vez que estavam nos Estados Unidos —, ela se dispensava o uso do xador e se dava o direito de estar presente e participando de tudo quan­to Ibrahim tinha de fazer. Hafez reagira, achara ruim, dissera que assim não seria possível. Mas, ao perceber que perderia Ibrahim se decidisse ser rígido demais, acabou cedendo. E Jamile passou a fazer parte integrante e participativa do grupo. Hafez logo vira que não havia motivos de arre­pendimento. Jamile era inteligente, simpática, prestativa e, a despeito de ser muçulmana, morava em Nova York desde pequena e era formada em biotecnologia. Talvez tenha sido essa sua capacitação que fizera com que o próprio Kayed tivesse dito, numa mensagem, para Hafez aceitá-la no grupo, sem nenhuma restrição.

E foi justamente quando Hafez fora obrigado a aceitar a presença de Jamile, que esta lhe apresentara Amina.

— Você vai gostar dela — dissera a moça. — Além de muito bo­nita, ela é médica, especialista em traumatologia. Poderá ser muito útil à nossa causa.

Jamile estava coberta de razão — em parte. Amina era, de fato, muito bonita. Alta, esguia, com um corpo escultural, curvas perfeitas, um rosto de fazer sonhar até mesmo Harum Al-Rachid, gestos e fala cheios de sedução e uma inteligência muito acima da média, a moça tinha, con­tudo, um defeito: não era uma muçulmana fanática. Ou seja, ela não aceitava a maior parte dos preceitos do Islã, pelo menos nos pontos em que estes se referiam ao sexo feminino.

Assim, por exemplo, ela não achava que as mulheres tinham de estar sempre inteiramente cobertas — ao contrário, deveriam cobrir-se o mínimo possível —, não aceitava que elas não pudessem estudar ou trabalhar fora de casa — ela era médica e trabalhava num hospital como estagiária — e, principalmente, não aceitava que a mulher não tivesse direito aos prazeres físicos da vida, especial e principalmente aos prazeres sexuais.

Evidentemente, essas suas características de personalidade iam ab­solutamente contra tudo que Hafez pensava.

No entanto, Amina era tão linda...! Tão sedutora...! E Hafez era um homem tão carente, com a sexualidade tão à flor da pele...!

Logo no dia em que eles se conheceram, depois de uma tarde in­teira de conversa — durante a qual Hafez se convencera de que Amina jamais poderia fazer parte do grupo —, ela se deixara levar para o aparta­mento dele, e lá...

A moça não teve nenhuma dificuldade em convencê-lo de que a vida sem ela não teria a mínima graça e que ela, Amina, seria perfei­tamente capaz de se dedicar integralmente a um homem — não a uma causa. E ele sentia ser esse homem.

Portanto, no dia seguinte, quando Hafez enviou sua mensagem diária para o chefe, dando conta de suas atividades, não mencionou Amina. Não queria correr o risco de ver vetada a presença dela junto ao grupo.

Amina nem mesmo voltara para sua casa; apenas passava por lá para apanhar uma mala de roupas e... começara a fazer parte de sua vida, a ser um pedaço de si mesmo e, quanto aos preceitos do Islã... Ora! Ele es­tava nos Estados Unidos, muito longe de sua terra e, portanto, dos olhos fiscalizadores dos islamitas mais radicais.

De mais a mais, ele não sabia o que Al-Kayed lhe tinha programa­do. Talvez viesse a exigir que ele se transformasse num dos mártires da grande causa. Assim, ele se via no direito de aproveitar ao máximo toda e qualquer oportunidade que a vida, nesta dimensão, pudesse lhe oferecer. Também, em seu íntimo, não acreditava muito que o muçulmano mártir, aquele que morre na luta pelo Islã, vai diretamente para o céu, um céu maravilhoso com leitos feitos de ouro e com pedras preciosas, onde mui­tas jovens lhe dariam o amor carnal de todas as formas, embora permane­cessem eternamente virgens.

Mesmo não sendo tão radical assim sobre alguns preceitos do Corão, Hafez não deixava de ser um fervoroso adepto da grande causa. Para ele, era fundamental que os Estados Unidos fossem combatidos porque, em primeiro lugar, apoiam Israel. Em segundo, porque mantêm tropas no território santo da Arábia Saudita, o verdadeiro berço do islamismo. E havia, acima de tudo o mais, seu espírito aventureiro, o gosto pelo perigo e por coisas arriscadas. Ora, nada mais arriscado do que ser um terrorista árabe no seio dos Estados Unidos!

Só que, no entender de Hafez, seus chefes estavam demorando muito para tomar a decisão de uma ação qualquer. Ele já estava começan­do a ficar entediado com aquela espera, com aquelas mensagens de exor­tação e o eterno esperar. Por isso, quando recebeu o e-mail ordenando que "preparasse a festa", se sentiu aliviado. Finalmente, iria acontecer alguma coisa! Finalmente, entrariam em ação.

Deitada no sofá ao lado da mesa onde Hafez trabalhava com o lap-top, Amina percebeu sua excitação. Não era bem exatamente a excitação que ela gostaria que ele manifestasse, uma vez que, desde o instante em que chegara do hospital, já estava nua em pêlo, exibindo suas formas per­feitas e sedutoras. Passou os braços em torno do pescoço do companheiro e perguntou:



  • Alguma boa notícia?

  • Sim... A festa vai começar! E eles querem que eu organize algu­ma coisa... Até me mandaram comprar alguns materiais e já estão depo­sitando o dinheiro para isso.

A moça beijou-o, passou a ponta da língua no lóbulo de sua orelha esquerda e sorriu ao perceber que ele se arrepiava inteiro. Sim., era esse tipo de reação que ela queria, e não aquele entusiasmo por uma causa que — ela bem o sentia — não era a dela. Na verdade, ela estava ali por causa de Hafez, porque se apaixonara por ele, por sua maneira de amá-la e de lhe dar prazer. Por isso, quando o rapaz disse que a festa iria começar, ela sentiu uma pontada em seu coração. Evidentemente, disfarçou o melhor que pode, mas não conseguiu deixar de se preocupar. Entretanto, logo que Hafez, já não mais resistindo às suas carícias, enlaçou-a em seus braços, mais uma vez ávido pelos prazeres que Amina sabia lhe proporcionar, ela pôs de lado essas preocupações, pensando: "Ora... Será, novamente, algo que não levará a nada... Eles não são loucos de tentar alguma coisa aqui em Nova York!".

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