Quinze dias em setembro



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Capítulo II
No almoço, o senhor Fernando, pai de Fefê, estava de cara amarrada. Fazia apenas meia hora que o filho chegara — ele escutara o cano dele entrar - e estava à sua espera à beira da piscina. Entretanto, Fefê não apareceu e só desceu de seu quarto quando Marialva foi chamá-lo para almoçar.

  • Por que não veio dormir em casa? — perguntou o pai.

  • Fiquei naquela festa até tarde e não quis pegar a estrada de ma­drugada — respondeu o rapaz. — Dormi na casa de um amigo.

Fernando não teve o que dizer. Ele mesmo já havia recomendado muitas e muitas vezes, tanto para Fefê quanto para seus outros dois filhos, Marina e Gilberto, que evitassem ao máximo voltar para casa muito tar­de e, quando isso se tornasse imprescindível, que procurassem dormir na cidade, nem que para isso tivessem de ir a um hotel.

No entanto, havia outros motivos para que ele estivesse de mau humor. E, com voz rascante, falou:



  • Ontem eu recebi os extratos dos seus cartões de crédito. E acho que as coisas estão indo muito mal...

Fefê olhou para o pai e resmungou:

  • Você não tem o direito de abrir a minha correspondência...

Foi o suficiente para Fernando explodir:

  • Como?! Como você tem coragem de dizer uma coisa dessas?! Então você acha que eu não tenho o direito de saber como e onde você anda gastando dinheiro?!

  • O dinheiro é meu! — retrucou Fefê, no mesmo tom. — Ganho com o meu trabalho! E eu tenho o direito de gastá-lo como bem entender!

Fernando respirou fundo. Parecia estar se controlando ao extremo e, depois de alguns segundos, disse:

  • Não é bem assim, Fefê. Você sabe muito bem que seu trabalho, na empresa, não mereceria mais do que dois salários-mínimos. Aliás, para levar documentos e apanhar recibos nas firmas dos clientes, eu poderia contratar um office-boy... Você recebe uma participação, um pró-labore, até elevada demais para o que você faz por nós. Portanto, filosoficamente, você recebe uma mesada! Nada mais do que uma mesada! E, como sou eu, no frigir dos ovos, quem lhe dá essa mesada, tenho todo o direito de saber como e onde você esbanja o que ganha!

Voltando a encarar o filho com expressão de raiva, acrescentou:

  • Não tem nenhum cabimento você gastar mais de mil dólares numa só noitada! Numa noite de boate com os amigos! E, na mesma semana, gastar outro tanto comprando roupas na butique mais cara do Brasil! E o mesmo aconteceu na semana anterior! E na outra!

Muito vermelho, Fefê ia abrindo a boca para se defender, mas o pai, com um gesto enérgico, acrescentou:

  • Você não tem argumento nenhum, Fefê! Pelo menos, tenho certeza de que nada do que você possa me dizer será bastante para me convencer! Você está errado e eu tenho a obrigação de colocá-lo na linha!

E, encerrando, Fernando alertou:

  • Este mês, acabou! E provavelmente o mês que vem também! Você já sacou da empresa muito mais do que o seu pró-labore! Portanto, nem pense em mais dinheiro! Secou a fonte, entendeu?

Furioso, o rapaz levantou-se para abandonar a mesa de almoço, mas o pai, segurando-o pelo braço, vociferou:

  • Fique aí! Nós estamos almoçando! E você vai ficar na mesa! E quieto!

Ainda com as palavras do pai ressoando em seus ouvidos, Fefê espi­chou-se sobre sua cama. Estava revoltado; não admitia ser tratado como criança; não suportava ouvir reprimendas de ninguém, nem mesmo de seu pai. E, para piorar as coisas, para derrubar ainda mais seu estado de es­pírito, tivera de ficar quieto — exatamente como ordenara Fernando — e ver que seus dois irmãos mal disfarçavam a satisfação de terem assistido àquela deplorável cena durante o almoço.

Fefê jamais conseguira esconder o ciúme que sentia dos dois ir­mãos. Para ele, o pai os protegia por serem mais velhos. Confiava neles e não acreditava no filho caçula.


  • Sempre serei a criancinha da casa! — resmungou para si mes­mo. — Posso fazer o que for, sempre serei considerado um moleque!

O que ele não conseguia enxergar, porém, era que tanto Marina quanto Gilberto trabalhavam, de fato, com o pai e não desempenhavam, como ele, apenas o papel de um office-boy de luxo. Gilberto cuidava de toda a área contábil da empresa, e Marina era a responsável pelo setor de relações públicas.

Certa vez, numa outra discussão pelos mesmos motivos, essa dife­rença de atividades e de importância de trabalho lhe fora jogada na cara. E Fefê, para se defender, alegara que tinha sido ele o responsável pela informatização da firma. Gilberto dera uma gargalhada, ressaltando:



  • Ora, moleque! Papai deixou você brincar com os computado­res durante uma semana. Depois, você disse que tudo estava pronto e funcionando. Daí, sumiu para Campos do Jordão. Lembra-se? Ninguém conseguiu usar o seu sistema, e tivemos de chamar um técnico para pôr tudo em ordem! Será possível que você se esqueceu disso?

  • Vocês é que não souberam usar as máquinas! — replicara o ra­paz. — São todos uns burros, incompetentes, incapazes de lidar com a modernidade! E eu não tenho culpa se não foram capazes nem mesmo de me achar! Não sabem nem usar um telefone celular! Não deixaram reca­do no correio de voz, não fizeram nada! O que estavam tentando era me prejudicar, fazendo aquela imagem bonita de mim para nosso pai! É fácil esconder a própria incompetência jogando a culpa em cima dos outros! E é isso o que vocês fazem o tempo todo comigo! Sou eu, sempre, o culpado de tudo, sou eu que faço as coisas erradas, não é mesmo? E vocês ficam aí, bonitinhos, recebendo os elogios, enquanto eu sou crucificado!

No entanto, ele sabia muito bem que a verdade não era essa, mas sim o que Gilberto lhe dissera. Fefê não tinha conseguido instalar o sis­tema corretamente, e deixara apenas uma das máquinas funcionando — ainda assim, parcialmente — então tratara de se fazer ao largo, indo para Campos do Jordão. Sabia que seu pai, não podendo ficar com a parte de informática do escritório parada, haveria de chamar um técnico e, depois...

Bem... Depois, Fefê simplesmente diria que eles foram incompe­tentes, que eles não conseguiram usar o sistema que ele instalara e mais uma porção de outras coisas. Como sempre, ele saberia enganar e se sair bem da enrascada.

Essa discussão, entre muitas outras, passou pela mente de Fefê en­quanto ele estava ali, deitado, as mãos cruzadas atrás da cabeça, remoen­do a raiva e o despeito. Sim... Ele era sempre a vítima, era sempre quem recebia os golpes. Tudo caía em cima de suas costas!

— Não consigo entender por que meu pai sempre defende esses dois e sempre me ataca! — rosnou. — Aposto que, se ele tiver de escolher um entre nós três, o último da lista serei eu!

Não lhe passou pela cabeça, naquele instante, que Marina e Gil­berto estavam sempre em casa, participavam intensa e ativamente dos problemas da empresa, mesmo porque de fato trabalhavam lá e levavam a vida de uma maneira muito mais próxima aos ideais e princípios dos pais. Não que eles não fizessem o que a maioria dos jovens faz, ou seja, ter seus momentos de diversão, freqüentar lugares, ir a festas, namorar... Ali­ás, Marina estava praticamente noiva de um americano que conhecera numa festa... Só que, para esses dois, assim como para Fernando e Ma­rialva, a diversão vinha depois da obrigação. Se eles tinham algo a fazer, primeiro cumpriam o dever e, depois, tratavam de se divertir.

Já Fefê era o oposto. Parecia-lhe que o mundo iria acabar no ins­tante seguinte e que, se ele não fizesse imediatamente o que queria, ja­mais teria qualquer oportunidade semelhante pela frente. A vida de Fefê era o imediatismo absoluto. O ter acima, muito acima, do conquistar. Ele precisava ter. Custasse o que custasse. Para o rapaz, vida era equivalente a diversão. E diversão não era mais do que esbanjar.

Fefê sentia uma necessidade doentia de estar rodeado por pessoas, de estar sempre polarizando as atenções. Precisava se sentir querido; não conseguiria admitir a possibilidade de, até mesmo, não ser uma presença desejada por aqueles que constituíam sua roda de amigos.

E era justamente essa necessidade que o fazia gastar tanto dinheiro. Aliás, ele se habituara a gastar e não via como continuar a ser o mesmo se, de repente, lhe fosse tirada essa possibilidade.

Ter dinheiro disponível... Esse era um diferencial muito importan­te para Fefê. Poder arcar com despesas inusitadas, gastar com extravagân­cias, isso fazia do rapaz aquele para quem não existia a palavra "impossí­vel" ou a locução "não posso".

Se ele tinha vontade de ir a algum lugar caro e queria a companhia dos amigos, simplesmente pagava a conta. Não se incomodava e não se restringia absolutamente com nada.



  • Vamos para a inauguração da boate do Juca, em Catanduva? — convidara, certa vez.

  • Mas é amanhã! — alguém do grupo argumentara. — E Catan­duva é longe!

  • E daí? Vamos de avião...

  • Ficou louco? Já viu quanto custa uma brincadeira dessas?

  • E você está incomodado com isso? — perguntara Fefê. — Se estou falando que vamos de avião, é porque nós vamos de avião. Eu pago.

E, assim, o grupo fora para Catanduva: Fefê, três amigos e as namoradas desses amigos. Ele, sem nenhuma moça como companhia.

Aliás, isso já era uma verdadeira rotina... Uma rotina que ele fazia questão de esconder de si mesmo.

Naquela tarde de revolta, porém, a lembrança da viagem a Catanduva batera-lhe na alma como uma chicotada. Ele acabara por se sentir terrivel­mente mal vendo os amigos se divertindo, trocando carícias com as namoradas, e ele — como Sempre — com um copo de vodca na mão e... sozinho.

Percebera, ainda que apenas subliminarmente, que os amigos ape­nas tinham ido para Catanduva. E, na verdade, não tinham ido para Ca­tanduva com ele. E tinha sido ele, Fefê, com sua carteira e seus cartões de crédito, que lhes havia proporcionado aquele fim de semana.



  • Se eu não os tivesse levado, jamais teriam podido ir... — mur­murou. — Foi graças a mim que eles passaram dois dias tão bons!

E era justamente essa sensação que fazia apagar todas as más re­cordações de Fefê. A sensação de ter sido mais do que os amigos, de ter podido mais. Era isso que lhe dava estímulo e que fazia o rapaz esquecer que era mais baixo, mais magro e menos atraente que os amigos, que não conseguia se aproximar normalmente de uma garota, que não conseguia fazer outra coisa, em festas e reuniões sociais, do que ficar isolado, toman­do copos e mais copos de vodca, até sentir coragem suficiente para come­çar a conversar — quase sempre com as mesmas pessoas, com o mesmo grupo — sobre o único assunto que apreciava: ele mesmo, as coisas que tinha, que fazia, que podia fazer. E que os outros não tinham, não faziam e que não podiam fazer.

E, mais uma vez, o pensamento imperativo do que ele teria de fazer durante a próxima semana fez com que sua mente bloqueasse qualquer possibilidade de maior lucidez quanto à sua vida e à maneira como a estava levando. Para ele, não havia nenhuma irresponsabili­dade em se comportar assim; não havia nada de ruim em querer viver da maneira como gostava, incluindo-se aí a presença dos amigos e sua hegemonia financeira.

Sim, ele tinha muito em que pensar, já a partir de segunda-feira! Havia, por exemplo, a festa do Gallery... E Amanda! Ele tinha de dar um jeito de levá-la!

Com um suspiro, olhou para o relógio, constatou que já eram quase cinco horas da tarde e, de um salto, levantou-se, apanhando o celular. Precisava combinar alguma coisa para a noite de sábado, era inadmissível ficar em casa!



  • Gustavo? — perguntou quando atenderam do outro lado da linha. — Vamos fazer alguma coisa esta noite? Como? Está duro? E isso tem alguma importância? Está certo... Nós nos encontramos na casa da Eliana... Tudo bem. Às nove da noite, assim dá tempo para um papo.

Passava um pouco de nove horas da noite quando Hafez con­seguiu se desvencilhar da insaciável Amina e, erguendo-se da cama, murmurou:

  • Preciso avisar Ibrahim e Mohamed...

  • Deixe para amanhã — disse a moça, estendendo os braços para ele e tentando agarrá-lo novamente. — Temos coisas melhores para fazer...

O árabe sorriu, acariciou de leve os seios de Amina e retrucou:

  • Não... Por hoje chega... Se deixar por sua conta, ficamos na cama a vida inteira!

  • Não me diga que você não gosta...

  • Não falei isso. Mas acontece que tenho coisas importantes para fazer. Preciso entrar em contato com Ibrahim e Mohamed ainda hoje.

Afastando-se dela, Hafez concluiu:

  • Se você quiser ir comigo, trate de se vestir.

Amina saiu da cama e, enquanto ligava as torneiras do chuveiro, ouviu seu companheiro marcar com Ibrahim um encontro no restaurante de Abdo Farid.

"Bem...", pensou ela, enquanto se ensaboava, "pelo menos vou co­mer alguma coisa boa... Terrível é ter de agüentar a conversa. Não suporto mais ouvir falar de Corão, de grande causa, atos terroristas e coisas assim! Principalmente por que tudo isso, para mim, não passa de conversa-fiada, de coisas de estudantes..."

Sentindo a água escorrer agradavelmente por seu corpo, lembrou do dia em que decidira ser médica. Sua família, apesar de não ser islâmica xiita, não achara nenhuma graça naquela sua decisão e, depois de uma séria discussão com o pai, Amina resolvera sair de sua casa. E assim o fizera. Deixara a casa paterna no Oklahoma e fora morar sozinha num apartamento em Nova York. A princípio, tudo lhe parecia impossível, até mesmo conseguir um emprego numa lanchonete, e ela muito depressa descobrira que, se queria trabalhar, não poderia mostrar ou mesmo dizer que era uma muçulmana. Assim, abandonara os trajes típicos, o modo de se comportar e, também muito depressa, percebera que, na realidade, jamais tinha sido feita para seguir a religião dos pais.

No entanto, sentia saudades da família e guardava dentro do cora­ção o desejo de, um dia, retornar. E ela, ainda que apenas subconscientemente, sabia que, se quisesse voltar a ver os pais, teria de estar unida a um muçulmano.

E essa, talvez, fosse uma das razões de se ter deixado apaixonar por Hafez Skandar. Obviamente, havia também o outro lado, o lado do prazer carnal que ele sabia tão bem lhe proporcionar...

Entretanto, também havia as manifestações de fanatismo islâmi­co que o rapaz tinha, principalmente quando estava junto dos amigos Ibrahim e Mohamed. Aí ele chegava a ficar insuportável, pois nenhuma conversa começava antes de falarem sobre religião por pelo menos quinze minutos. Era um quarto de hora de sacrifício para ela — assim como para Jamile, ela bem o sabia —, mas Amina considerava esse tempo perdido como o preço que tinha de pagar pelo privilégio de, um pouco mais tarde, ter Hafez entre seus braços.

Assim, ela suportava com a maior paciência possível ouvi-lo falar sobre a necessidade de defender o Corão contra o imperialismo norte-americano, sobre pegar em armas para difundir sua fé, de levar alívio para a miséria da maioria dos muçulmanos, nem que para isso tivessem de tirar à força esses recursos dos Estados Unidos e de outros países ocidentais ricos.

Apenas uma vez ela tentara, durante um jantar no restaurante de Abdo Farid, argumentar contra a teoria que Hafez expunha e di­zer que os povos muçulmanos estavam sendo traídos pelos próprios governantes que tinham abandonado os preceitos islâmicos por pura ambição pessoal. O resultado era a fome grassando nesses países, o subdesenvolvimento, o desamparo tecnológico e tudo o mais que a economia globalizada pede nos dias atuais. Amina tentara dizer que países islâmicos onde a religião não era levada ao fanatismo, estavam se desenvolvendo muito bem, controlando uma fatia importante da economia mundial — como é o caso dos países árabes produtores de petróleo — e que aqueles que estão realmente na miséria são os gover­nados por fanáticos, como é o caso do Afeganistão, dominado política e militarmente pelo Talibã.

Ela percebera a expressão de ódio e de desprezo no rosto de Hafez e ouvira um "cale-se!" tão intimidativo que nunca mais abrira a boca para contestar o que quer que ele, Ibrahim ou Mohamed dissessem.

"Será mais uma noite que terei de ouvir e calar...", pensou ela, en­quanto se enxugava. "Mas, um dia, ele cairá em si. Descobrirá que esteve enganado e, então, Hafez será só meu. Não terei mais de dividi-lo com a religião e a política!"

Vestiu-se — com roupas ocidentais, uma vez que se recusava a usar o xador — e, indo para perto do companheiro, disse:


  • Estou pronta, meu amor...

Hafez olhou para Amina e sorriu. Ela estava muito bonita, usando aquele vestido escuro que lhe moldava tão bem as formas. E não pôde deixar de pensar que ele a preferia assim a estar envolta num xador que só servia para escondê-la de todos, até dele mesmo.

Procurou afastar de si esses pensamentos pecaminosos e, apanhan­do as chaves do automóvel, murmurou:



  • Então vamos, Amina. Além de ter de falar com Ibrahim e Mo­hamed, estou morrendo de fome.


Capítulo III
Ao contrário do que Fefê imaginava, seu pai estava de ótimo humor naquela segunda-feira. Tanto que nem mesmo reclamou quando o filho chegou ao escritório já quase uma hora da tarde.

  • O que houve com ele? — perguntou o rapaz para a secretária, Clara, uma bela e elegante mulher, cerca de dez anos mais jovem que Fer­nando e que o acompanhava desde que ele abrira seu primeiro escritório, sendo, por isso mesmo, quase como se fosse da família. — Será que ele viu algum passarinho verde?

Clara deu uma risada e respondeu:

  • Seu pai recebeu um telefonema de Nova York agora há pouco. O negócio do escritório de lá está feito. Ele e sua irmã seguem amanhã para os Estados Unidos.

Em todos os sentidos, era uma boa notícia, inclusive e principal­mente para Fefê.

O escritório em Nova York, mais precisamente na torre sul do World Trade Center, em Manhattan, havia vários meses vinha polarizan­do as intenções e os investimentos de Fernando Henriques. Ciente da ne­cessidade de expandir seu campo de ação e aproveitando que o noivo de sua filha, Marina, era um americano cujas atividades estavam justamente focadas em comércio exterior, Fernando decidira montar a sucursal nova-iorquina e deixá-la sob os cuidados da filha e do genro.



  • Será ótimo — dissera ele para a esposa. — Marina vai se casar dentro de dois ou três meses e, com certeza, ficará muito feliz com a idéia.

Marialva concordara. Mesmo porque sabia que Tony, seu futuro genro, não tinha a menor intenção de se mudar para o Brasil e que Mari­na estava muito entusiasmada com a perspectiva de viver em Nova York. Fazer com que o jovem casal estivesse profissionalmente amarrado aos negócios da família era uma maneira simples e eficiente de mantê-lo sob suas asas. Mesmo com dez mil quilômetros os separando.

Entretanto, as negociações tinham sido um pouco mais compli­cadas do que Fernando imaginara. Adquirir um espaço no World Trade Center — e ele queria que fosse lá, nenhum outro local serviria — foi uma tarefa difícil que implicou inúmeras viagens de Marina aos Estados Unidos, duas das quais acompanhada por ele mesmo, para poder negociar o melhor preço e o melhor lugar. Depois disso, o local já devidamente em sua posse e domínio, era preciso cuidar da decoração e, o mais compli­cado de tudo, da regularização da empresa nos Estados Unidos. Durante lodo esse tempo, Tony desempenhou muito bem o papel de futuro e in­teressado genro, conseguindo evitar burocracias, apresentando pessoas, arrumando papéis e até mesmo levando Marina para comprar móveis e equipamentos em lugares bons e econômicos. Em resumo, o americano mostrou-se absolutamente digno do carinho e da consideração que Fer­nando e Marialva tinham por ele.



  • Teve sorte a Marina — comentara, certa vez o pai. — Tony é um rapaz excelente! Mostra possuir um alto nível de responsabilidade e, pelo menos até agora, só posso elogiá-lo.

Para Fefê, no entanto, Tony não tinha essa imagem. Em sua opinião, o cunhado não era senão mais um no âmbito familiar e na empresa. Mais um que ocuparia seu lugar. Bastava ver como seus pais o tratavam quando ele vinha ao Brasil. Só faltava o tapete vermelho para recebê-lo! E seu pai, todo cheio de atenções para com o americano, não tinha escrúpulos em discutir negócios com ele, nem mesmo se vexava em chamar a atenção dele — Fefê, seu filho! —, quando, no meio de uma conversa, ele arriscava um palpite:

  • Não fale isso, Fefê! Você está mostrando que não entende nada de negócios!

E, para azar do rapaz, o americano falava português muito bem, pois linha crescido no Rio de Janeiro...

Assim, a notícia que Clara acabava de lhe transmitir era excelente. Com o escritório de Nova York funcionando, a irmã e o cunhado ficando por lá, certamente ajudariam muito no progresso da empresa e, o que era melhor, não mais representariam uma ameaça ã sua posição junto ao pai. Além disso, sob uma perspectiva mais imediatista — e era justamente essa que deixava Fefê mais entusiasmado —, seu pai teria de viajar para o exterior no dia seguinte. Isso significava, nada mais e nada menos, que ele não teria de enfrentar a carranca de Fernando durante alguns dias. E, é claro, não estaria sob seu rígido controle financeiro.

Mas... havia o irmão, Gilberto. E, com certeza, seria ele que ficaria à testa da empresa durante a ausência de Fernando.

Fefê estava pensando em qual artimanha utilizar para poder en­ganar o irmão quanto às suas contas, quando o pai abriu a porta de seu escritório e disse:



  • Clara, providencie uma passagem também para o Gilberto. Vou precisar que ele assine alguns documentos lá em Nova York.

E, voltando-se para o filho caçula, acrescentou:

  • Vamos ficar fora só até sábado. Até lá, a Clara vai cuidar de tudo e vou deixar para você uma lista com as coisas que precisará fazer.

Fefê poderia, nesse instante, ter se insurgido contra o pai, recla­mando do fato de ele deixar o escritório nas mãos de uma secretária, preterindo-o a um segundo plano. Entretanto, a possibilidade de ficar sozinho durante uma semana — justamente aquela semana, quando ele tinha tanta coisa para fazer — fez com que ele ficasse quieto. Afinal de contas, seria muito mais fácil lidar com Clara do que com Gilberto, prin­cipalmente porque ela o vira crescer e, desde sempre, tivera um carinho maior por ele.
Fefê fez questão de levar o pai e os irmãos ao aeroporto e, assim que o avião em que eles estavam decolou, respirou aliviado. Teria quase uma semana de férias! Estaria sozinho, teria apenas uma pequena lista de obrigações que o pai lhe entregara na última hora e que ele ainda não se dera o trabalho de ler e, para completar sua alegria, só precisaria controlar a mãe e Clara. Coisa fácil de fazer.

Em vez de voltar diretamente para o escritório, como seria sua obri­gação, ele se dirigiu para a butique Daslu. Ainda era cedo, com certeza a loja estaria vazia e ele poderia fazer a compra que quisesse sem ter de se preocupar com possíveis comentários posteriores.



Tinha razão. A butique estava deserta; apenas duas vendedoras ali se encontravam, uma delas já era uma velha conhecida.

  • Do que você precisa hoje, Fefê? — perguntou a moça, anteven­do a comissão que ganharia, uma vez que ele era o típico freguês mão-aberta. — Vai levar um blazer para combinar com a calça e a camisa que eu lhe vendi na semana passada?

  • Não — respondeu ele. — Hoje eu preciso comprar uma roupa feminina.

  • Para sua mãe? — quis saber a vendedora. — Temos algumas coisas lindas para senhoras...

  • É para uma amiga — disse Fefê, imediatamente sentindo o sangue lhe subir às faces. — Quero comprar um vestido branco. Bem bonito.

A moça sorriu e, fazendo-o acompanhá-la a outra seção da loja, falou:

  • Tenho uns modelos exclusivos... Simplesmente lindos! E, como disse, únicos! Não tem perigo de a sua namorada, de repente, encontrar outra usando a mesma coisa.

Fefê, por muito pouco, não deixou escapar que o vestido não era para namorada nenhuma. Que namorada, se ele jamais tivera uma?! No entanto, como sempre acontecia quando o assunto era esse, ele se calou.

  • Veja este, por exemplo — disse a vendedora, mostrando um modelo de tafetá. — O tecido é importado e a assinatura é de Gurani...

Apanhando um par de sapatos, acrescentou:

  • Estes sapatos foram feitos para acompanhar o vestido. E esta bolsa também.

Fefê, fingindo-se de entendido, perguntou:

  • Mas esse vestido não é muito... fresquinho? Am... Ela pode sentir frio, assim, com os ombros de fora...

A vendedora, esperta, mostrou-lhe um xale feito à mão e disse:

  • Pois é para isso que serve este xale. Na hora de sair, sua namora­da joga-o sobre os ombros e, você pode imaginar, o efeito é maravilhoso!

O rapaz mandou embrulhar tudo para presente; não discutiu o va­lor da compra — algo que passava longe dos dois mil dólares — e deu o endereço de Amanda, dizendo:

  • Entregue para mim, por favor. E mande avisar que, se precisar trocar ou ajustar...

  • Não se preocupe com isso, Fefê — interrompeu a moça. — É claro que sua namorada pode ficar à vontade quanto a algum problema desse gênero.

E, com um sorriso, juntou:

  • Mas... eu duvido que ela queira trocar... Com o bom gosto que você tem...!

Da lista de obrigações que Fernando deixara para o filho, este con­seguiu, ainda naquele mesmo dia, resolver boa parte. Dois ou três docu­mentos para serem assinados, alguns papéis para desembaraçar cargas na alfândega, alguns poucos pagamentos. Fefê, às cinco horas da tarde, deci­diu encerrar seu dia. Estava cansado e tinha razões de sobra para isso. Suas tarefas fizeram-no ficar praticamente o tempo todo no trânsito e, por mais que seu carro tivesse ar-condicionado, um bom som e câmbio automático, poucas coisas são mais cansativas do que dirigir no trânsito caótico, sem­pre congestionado, de São Paulo. Pelo celular, Fefê ligou para Gustavo, convidando-o para um drinque no Pandoro. Gustavo recusou, alegando que estava do outro lado da cidade e que, depois do dia que tivera, não via a hora de chegar em casa e ligar para a namorada. Os outros três para quem o rapaz ligou deram desculpas semelhantes e, desistindo, Fefê resol­veu tomar o drinque sozinho.

— Azar deles! — exclamou, com uma ponta de decepção — Vou sozinho e está acabado! E, de qualquer maneira, com o trânsito que está, vou demorar mais de uma hora para chegar em casa.

Isso era uma verdade. Nas horas de rush, aqueles que moram em bairros mais afastados do centro — ou mesmo em cidades vizinhas, como era o caso de Fefê — preferem fazer um pouco de hora em seus escritórios ou em algum happy hour a enfrentar o martírio do final do expediente. Com isso, são inúmeros os bares e restaurantes finos que dedicam duas a três horas do fim do dia, normalmente entre cinco da tarde e oito horas da noite, para essas famosas e agradáveis horas de fim de dia, quando exe­cutivos se encontram num ambiente mais informal, para uma dose de uís­que ou uma cerveja, acompanhada de tira-gostos que, na verdade, fazem o diferencial entre um estabelecimento e outro. Assim, por exemplo, no Pandoro, na época um tradicional restaurante dos Jardins, os pasteizinhos sortidos eram o carro-chefe.

"Eu não deveria estar comendo isso", — pensou Fefê, enquanto metia na boca um pastel de queijo. "Com a gastrite que eu tenho..."

Entretanto, na verdade, ele jamais estivera preocupado em con­trolar essa tal gastrite. Para ele, era mais um motivo de chamar a aten­ção sobre si quando estava na roda de amigos, pois achava interessante queixar-se de dor no estômago e ouvir o comentário dos outros:


  • Também, com a quantidade de vodca que você toma... Não há ligado ou estômago que agüente!

E ele sorria, mudava o assunto e deixava a impressão de que era o exemplo do desprendimento, o tipo de homem que nada podia impedir de fazer o que bem entendesse. Nem mesmo a saúde.

Tomou um gole de vodca e, nesse instante, seu celular tocou.

Fefê adorava quando seu celular tocava em algum lugar público, r deixava sempre o sinal de chamada bem alto, para todos à sua volta ouvirem. Daí, ao atender, ele procurava falar baixinho ou se afastava, dando sempre a impressão de que o assunto era extremamente importante e confidencial.

Atendeu e ficou um pouco surpreso ao reconhecer a voz de Clara. Aquela hora, ela já deveria até ter ido embora do escritório e, no entanto, ali estava a boa e fiel secretária chamando por ele.



  • Acabo de receber uma ligação do gerente do banco — disse ela, com um tom de preocupação na voz. — Ele me pediu para avisá-lo que seu cheque especial está estourado e que você precisa fazer um depó­sito amanhã.

O rapaz fez uma careta de desagrado. Quantas vezes ele já tinha dito àquele gerente que não ligasse para o escritório, que não dissesse para ninguém a quantas andava sua conta!

Como se já adivinhasse o que passava pela cabeça de Fefê, Clara continuou:



  • Ele disse que tentou falar com você pelo celular hoje de manhã cedo várias vezes. O telefone estava desligado, e você não respondeu ao recado que ele deixou no correio de voz. Amanhã é o último dia. Se você não fizer o depósito, ele será obrigado a devolver um cheque que você deu...

Ela fez uma pausa e completou:

  • Na butique Daslu, na semana passada.

Ele deve estar de brincadeira comigo! — exclamou o rapaz. — Mi­nha conta está em ordem, não pode ter estourado!

  • Mas estourou, Fefê. Não esqueça que seu pai não mandou trans­ferir dinheiro para a sua conta ontem. Ele alegou que você já tinha sacado muito mais do que tinha direito...

Fefê mordeu o lábio inferior, com raiva, e, depois de alguns instan­tes, disse:

Está certo... Amanhã falo com ele.

Desligou o telefone, furioso, engoliu de um só trago a vodca que estava em seu copo e pediu para o garçom trazer mais uma dose.


  • Esse gerentezinho de merda! — resmungou. — O que ele está achando que é para me devolver um cheque?!

Entretanto, aquilo era um grande problema, e ele sabia disso. Não teria como arrumar o dinheiro para o dia seguinte e não poderia, jamais, permitir que um cheque seu fosse devolvido por falta de fundos. Ainda mais um cheque que ele dera na Daslu!

A Daslu! De repente, ele lembrou do cheque que tinha assinado naquela manhã. Outro cheque de valor alto! Não podia deixar que o apresentassem!

Ligou para a butique, mandou chamar a vendedora que o atendera de manhã e perguntou:


  • Aquela compra que eu fiz hoje cedo... Vocês já a entregaram?

  • Já deve ter sido entregue, Fefê! — respondeu a moça. — Man­damos despachá-la logo depois do almoço. Mas só posso confirmar ama­nhã à tarde, quando o entregador prestar contas. Por quê?

  • Por nada, só queria saber...

E, depois de uma breve pausa, criou coragem e indagou:

E o cheque que eu dei, era do Bradesco ou do Banco do Brasil?



  • Do Banco do Brasil, lembro bem — respondeu a vendedora.

  • Ai, meu Deus! — fez ele. — Vocês já depositaram?

  • Não. Isso vai ser feito amanhã.

Fefê ficou alguns momentos em silêncio e, com um suspiro, disse:

  • Bem... Não tem importância... Vou dar um jeito.

Com um tom preocupado na voz, a moça perguntou:

  • Aconteceu alguma coisa, Fefê? Você quer que eu segure esse cheque?

Era exatamente o que ele estava querendo ouvir. Sabia muitíssimo bem que ele tinha dado um cheque do Banco do Brasil — sua conta do Bradesco já havia mais de dois meses que estava no limite do cheque es­pecial —, mas ele tinha de manter as aparências.

  • É que eu me enganei de talão — respondeu o rapaz. — Deveria ter dado um cheque do Bradesco... Agora, vou ter de fazer uma transfe­rência e, com esse valor, a esta hora...

  • Você pode dar uma passadinha aqui e trocar o cheque, não tem problema nenhum. Ficamos abertos até dez da noite, você sabe disso.

  • Hoje será impossível. Tenho uma reunião importante agora à noite e, como meu pai está nos Estados Unidos, tenho de representá-lo.

E, antes que a moça dissesse qualquer coisa, acrescentou:

  • E amanhã estarei ocupado o dia inteiro... Se você puder segurar até quinta-feira, me faria um grande favor.

A vendedora pediu-lhe para aguardar um instante e foi consultar Mia gerente. Esta, quando soube de quem se tratava, imediatamente man­dou a jovem dizer que não haveria problema nenhum. Afinal de contas, Fefê já tinha feito mais de uma dezena de compras, nunca uma compra pequena, na butique e jamais acontecera qualquer tipo de problema.

  • Está certo, Fefê — confirmou a vendedora, retornando ao tele­fone. — Só vamos depositar na sexta-feira. Fica bem assim para você?

  • Fica ótimo. Na verdade, o depósito poderia ser feito na quinta... Mas sabe como são os bancos... De repente acontece um atraso. Sexta é bem melhor. Obrigado.

Desligou e, sacudindo a cabeça para afastar a imaginária mecha de cabelos de seus olhos, pensou: "Amanhã vou falar com esse gerentinho... E, se ele quiser criar caso, vou lhe dizer que, sendo assim, encerro a conta da empresa em sua agência!".

O banco mal tinha aberto as portas e Fefê já se encontrava diante da mesa do gerente, nervoso, torcendo as mãos.



  • Mas você não pode fazer isso comigo, Sansão! — disse ele, com expressão angustiada. — Tenho sido um bom cliente, nunca lhe dei trabalho...!

Sansão, um homem cuja reputação era de extrema severidade, re­trucou, com frieza:

  • Não é bem assim. Seu pai e sua empresa sempre foram ex­celentes clientes. Você é uma conseqüência. A partir do instante em que seu pai deu ordem de não transferir mais qualquer numerário para sua conta...

  • Mas uma coisa nada tem a ver com a outra! — protestou Fefê. — Eu sou uma conta, meu pai é outra, e a empresa é outra! Para o banco somos três contas diferentes, e você sabe disso!

  • Tem razão — falou o gerente. — Teoricamente, isso é verdade. Mas, pode acreditar, na prática a teoria muda.

Fefê teve vontade de dizer tudo aquilo que pensara na véspera. Ameaçar com o encerramento da conta da empresa, fazer um escân­dalo... Mas nada disso saiu de sua boca. Apenas conseguiu emitir um murmúrio súplice:

  • Por favor... Segure esse cheque que está pendurado por mais dois dias... Prometo que vou arranjar o dinheiro.

Sansão olhou para ele e, depois de refletir por alguns segundos, nquiesceu:

  • Está certo. Vou dar um jeito até quinta-feira ao meio-dia. Nem um minuto a mais.

O rapaz deixou o banco com os nervos à flor da pele e avistando apenas um horizonte negro à sua frente. Como poderia solucionar aquele problema? De onde arrancaria tanto dinheiro?

Entrando no carro, resolveu continuar as tarefas que o pai lhe ti­nha passado. Havia mais duas entregas de documentos e uma cobrança. Imito com essa cobrança, um bilhete de Fernando avisava que aquela importância deveria ser passada integralmente para Clara.

Fefê conhecia a empresa. Era uma metalúrgica idônea, na Lapa, mas que, vez por outra, era obrigada a fazer algumas importações... não muito regulares. E seu pai, amigo há muitos anos do proprietário, ajuda­va o nessas operações.

O rapaz viu que o valor que deveria receber era de mais de dez mil dólares. Uma importância significativa e perigosa de transportar assim, em dinheiro vivo.

Foi nesse momento que lhe surgiu a idéia. Aquela cobrança era a solução de todos os seus problemas!

Sem pensar duas vezes, arrancou rumo à Lapa, já telefonando para o doutor Mário, o proprietário da metalúrgica, avisando que estava indo receber o dinheiro.



  • Pode vir, Fefê — disse-lhe o homem. — Desde segunda-feira esse dinheiro está na minha gaveta esperando.

O rapaz, de tão entusiasmado ficara, nem mesmo percebeu o trânsi­to que teve de enfrentar até chegar à metalúrgica, bem no centro da Lapa, um bairro movimentado e, em muitos locais, perigoso.

Não teve qualquer dificuldade em receber o dinheiro e, quando disse que iria dar um recibo para o doutor Mário, este falou:



  • Este tipo de negócio não admite recibo. Esse dinheiro não existe, não pode ter nem mesmo aparecido; você já deveria saber disso.

Fefê se desculpou, alegou que estava distraído, que tinha falado do recibo automaticamente, apertou a mão de Mário e saiu.

Sabia muito bem que Mário, naquele instante, estaria ligando para Clara e avisando que já tinha dado o dinheiro para o rapaz e, assim, fez o mesmo. Ligou do celular para a secretária e disse:



  • Estou com o dinheiro do Mário na mão. Estou indo diretamente para o escritório, mas o trânsito está muito ruim. Pode ser que atrase um pouco e, por isso, é melhor você me esperar, não sair para o almoço.

No meio do congestionamento, e aproveitando que tudo estava paralisado, ligou para Gustavo.

Falou de banalidades, queixou-se do trânsito, disse para o amigo que ele tinha perdido por não ter ido ao happy hour do Pandoro na véspera.



  • Tinha duas meninas lá, rapaz... — mentiu ele. — De fechar o comércio! Se você estivesse comigo, nós poderíamos ter feito alguma coi­sa. Mas sozinho... De qualquer maneira, marquei com a Beatriz, uma das duas, de encontrar com ela hoje à noite. E ela vai sozinha.

  • Por que não marcou para encontrar com as duas? — perguntou Gustavo, em tom de protesto. — Eu iria com você!

  • Ora! Você estava cansado ontem à noite... Certamente também estaria hoje e eu não estou querendo perder outra oportunidade. Se você inventasse de não aparecer, eu iria ficar outra vez com as duas e daí...

O trânsito começara a fluir novamente, e Fefê, sempre segurando o celular, disse, desviando um pouco a boca do aparelho, como se estivesse se dirigindo a outra pessoa:

  • O que é? Você está pr...

Interrompeu-se, para logo em seguida gritar:

  • Mas assalto? Assaltar o quê, não tenho nada aqui comigo!

Do outro lado, Gustavo escutava as palavras do amigo, angustiado.

  • Alô! — exclamava ele. — Fefê?! O que está acontecendo? Você está. sendo assaltado?! Pelo amor de Deus, não reaja! Dê o que o assaltante quer!

Fefê sorriu, desligou o telefone e, aproveitando uma brecha no trá­fego, dirigiu-se para um posto de gasolina.

Desceu, caminhou até um telefone público e, discando a cobrar, ligou para Clara.



  • Clara, aconteceu uma desgraça! — disse ele, quase gritando, a certeza de ter sua voz abafada pelo ruído dos automóveis que passavam na avenida e, assim, ninguém poder ouvir o que ele estava falando. — Fui assaltado! Roubaram todo o meu dinheiro e o meu celular!

Ele pôde perceber a respiração ofegante da mulher e, com voz trêmula, ela perguntou:

  • Roubaram tudo? Mas como foi isso?

  • O trânsito está muito ruim, como eu lhe disse. Eu estava numa esquina. Estava falando com o Gustavo no telefone. Aí uma moça en­costou perto do vidro e bateu, para chamar a minha atenção. Estava bem-vestida e parecia estar aflita. Baixei o vidro para perguntar o que ela queria, ela podia estar em alguma dificuldade... Aí apareceu um homem segurando um revólver e disse que era um assalto! Ainda tentei dizer que não tinha dinheiro comigo, que estava duro... Mas o homem encostou o revólver na minha orelha e disse que queria a pasta. A pasta e o celular. Não tive outro jeito...

  • Mas... e o carro, eles levaram o carro, também? — perguntou Clara, aflita.

E, em seguida, disse:

  • Espere um instante. O outro telefone está tocando.

Fefê esperou e pode ouvir a secretária dizendo:

  • É... Parece que sim... Estou com ele na outra linha, e ele está me contando exatamente isso... Está certo... Ele fala com você depois. Obrigada, Gustavo.

Mais uma vez, o rapaz sorriu. Aquela ligação do amigo para Clara tinha sido providencial. Era a confirmação. E, conhecendo bem Gustavo, Fefê sabia que seu tom de voz e a maneira como tinha falado com a secretária jamais deixariam qualquer margem de dúvida.

Clara voltou ao telefone, dizendo:



  • Era o Gustavo. Disse que você estava falando com ele no mo­mento do assalto. Ele tentou ligar no seu celular, mas não conseguiu. E você não me respondeu. Roubaram também o carro?

  • Não, o carro não. E nem adiantaria, eles não iriam a lugar ne­nhum com o trânsito que está...

Fez uma pequena pâusa e perguntou, com desespero:

  • E agora, Clara? O que eu faço?

  • Venha imediatamente para cá. E trate de vir por outro caminho, tranque o carro, não abra a janela para mais ninguém!

  • Não tem mais o que roubar...

  • Tem você, idiota! — gritou a mulher. — Será possível que você nunca pensa num seqüestro?!

  • Mas não acha que eu deveria ir à polícia?

  • De jeito nenhum! O que é que você vai dizer? Que lhe roubaram dez mil dólares? Como é que você vai explicar a origem desse dinheiro?! Nada disso! Venha para cá e, depois que você chegar, vamos ver o que é possível fazer.

Fefê concordou e, com um sorriso de satisfação a lhe bailar nos lábios, voltou para o carro e tomou o rumo do escritório. Olhou para o relógio. Ainda teria tempo de fazer o que precisava.

Dirigindo com cuidado, foi para a agência do Bradesco onde ti­nha uma conta particular, tão particular que o seu cheque especial era pequeno e o banco não mantinha o menor contato com o escritório. Na verdade, o rapaz tinha certeza que seu pai nem mesmo se lembrava que ele ainda tinha aquela conta.

Depositou o dinheiro, reservando apenas o necessário para cobrir a conta do Banco do Brasil e o que precisaria para recuperar o cheque dado no dia anterior, para a butique Daslu. Do banco, voltou para o escritório sentindo a alma leve, ciente de ter resolvido seus problemas mais imedia­tos e de ainda ter deixado, na conta, uma reserva significativa.


  • Acabei de falar com seu pai — disse Clara, assim que Fefê en­trou no escritório. — Ele disse para não fazer nada. E nem mesmo para comentar com o doutor Mário que o dinheiro foi roubado.

  • Como ele ficou? — quis saber o rapaz. — Ficou muito bravo?

  • Não. Ele ficou preocupado com você, queria saber se realmente não aconteceu nada além do que você contou.

  • Como pode ver, não aconteceu nada — repetiu ele. — Fora o dinheiro, a pasta com documentos e o celular...

  • Graças a Deus! — exclamou Clara, erguendo os olhos para o alto. — Você correu um perigo imenso! Se tivesse reagido...

Discando um número ao telefone, ela falou:

  • Tome. Fale com seu pai. Ele me pediu que fizesse você ligar assim que chegasse.

Deu uma risadinha e acrescentou:

  • Para você ver como ele se preocupa... Disse que só sossegaria quando ouvisse a sua voz.

Fefê conversou o com pai por alguns minutos, tranqüilizou-o e, quando desligou, tinha a certeza de que seu golpe funcionara. Tanto que seu pai dissera que ele pegasse dinheiro na empresa e fosse comprar outro celular.

Naquela noite, na rodinha de amigos desta vez reunida por Gusta­vo, o rapaz teve muito que contar. E, é claro, fantasiou um bocado, inventou episódios adicionais. Repetiu tantas vezes a mesma história — conta­va tudo outra vez a cada um que chegava — que, quando se despediu dos amigos, já estava acreditando em sua mentira.

Evidentemente, nada falou sobre o dinheiro roubado; disse apenas que seu dinheiro tinha sido levado, bem como a pasta e o celular.


  • Mas são coisas materiais — disse ele. — Compra-se uma nova pasta, o celular já estou com outro e, quanto ao dinheiro... ganha-se outra vez!

Foi na manhã seguinte, depois de ter acertado a conta com Sansão, gerente do Banco do Brasil, ao passar na Daslu para resgatar o cheque, que ele teve uma péssima notícia.

Entrou na loja todo sorridente, já pondo a mão no bolso para tirar o dinheiro com que pretendia recuperar o cheque, quando a vendedora lhe pediu para acompanhá-la até o escritório.



  • Não sei como lhe dizer isso, Fefê — começou ela, cheia de cerimônia.

  • O que foi? — perguntou ele, já preocupado. — O cheque já foi depositado, é isso? Vocês não o seguraram como prometeram?

  • Não — disse a moça. — Não se trata disso.

Olhou para ele com uma expressão de pena e murmurou:

  • Ela nem abriu seu presente... E telefonou pedindo que lhe de­volvêssemos o dinheiro.

Fefê sentiu algo parecido com uma facada no coração.

  • C-co-como assim? — gaguejou ele. — O que está querendo dizer?

Respirando fundo, a moça respondeu:

  • A sua namorada... Ou sei lá... A moça chamada Amanda... Ela não quis receber a encomenda. Recusou-se terminantemente e disse para que devolvêssemos o seu dinheiro.

Apanhou o cheque de Fefê, que estava sobre a mesa, e, já inutiliza­do, entregou-o para o rapaz, dizendo:

  • Não faço idéia do que tenha acontecido, Fefê... Mas acho que ela precisou ter muita coragem para recusar um presente tão bonito e tão valioso!

O rapaz nada disse. Apanhou o cheque, rasgou-o, jogou os pedaci­nhos de papel na cesta de lixo e, em silêncio, deixou a loja.

Por que Amanda tinha feito aquilo? Por que recusara o vestido?



Pensou em ligar para ela, mas... Na verdade, não teria o que dizer e, depois dessa atitude da moça, seria muito pouco provável que ela o atendesse.


  • Recusou? — perguntou Hafez, contrariado — Mas qual o mo­tivo dessa recusa? Nós estamos pagando à vista, não estamos pedindo nenhum favor!

  • É, mas a empresa recusou — respondeu Ibrahim, um pouco sem jeito, como se a culpa fosse integralmente dele. — Apesar de tudo, ela re­cusou. Disse que não poderia fornecer esse material sem uma autorização expressa da Secretaria de Defesa.

Hafez respirou fundo, tentando conter sua raiva e decepção. Aqui­lo na um imprevisto com que não contava, absolutamente. Afinal, não poderia ser complicado comprar um pouco de ácido nítrico, tolueno e mais algumas outras substâncias, todas elas comumente encontradas no mercado de varejo.

  • Acho que cometemos um erro — comentou Mohamed. — E foi por causa disso que não quiseram fornecer as mercadorias.

Hafez olhou interrogativamente para o companheiro, e este, de­pois de refletir por alguns instantes, explicou:

  • Essas substâncias, separadamente, são perfeitamente inocentes. Porém, quando juntas, podem ser a base para a fabricação de explosivo plástico. Seria mais ou menos evidente que não queiram vender e, o que é pior ainda, acho que essa tentativa de compra serviu bem para levantar algumas suspeitas sobre Ibrahim...

  • Acho que isso não — contradisse este. — Não estive lá pesso­almente, fiz a consulta por telefone e tive o cuidado de usar um telefone público.

Com expressão ofendida, Ibrahim acrescentou:

  • Não sou tão estúpido assim, Mohamed! Não cometeria um erro desses!

Os três ficaram em silêncio por alguns instantes e, por fim, Hafez disse:

  • Bem... Não há o que fazer. No mínimo, a esta altura, essa empre­sa que você foi procurar já avisou o FBI que alguém está tentando adquirir material para a produção de explosivo plástico. Portanto, não devemos mais tentar por esse caminho. Não podemos correr riscos.

Como sempre, eles estavam numa mesa dos fundos no restaurante de Abdo Farid, acompanhados por Amina e Jamile, que, afastadas da conversa, comentavam entre si amenidades, tais como novas marcas de sabonetes e lingerie. As duas, contudo, não deixavam de prestar atenção ao que os homens diziam e, quando eles calaram, pensativos, tentando encontrar uma solução para aquele problema, Jamile esperou por alguns instantes e sugeriu, dirigindo-se diretamente a Hafez:

  • Por que vocês não compram o material já pronto?

Hafez olhou para ela com desprezo. Ele detestava que as mulhe­res dessem palpites na conversa dos homens; achava que elas deveriam permanecer quietas e em seus lugares, ainda que fosse obrigado a tolerar sua presença para não chamar demais a atenção. Sim, pois, se eles fossem sempre vistos num restaurante ou em outros lugares públicos, permanen­temente sozinhos, ou seja, sem companhia feminina, ele achava que isso poderia chamar a atenção. Assim, procurava fazer com que as duas esti­vessem o mais possível presentes, dando a impressão de que eles eram dois casais absolutamente normais. Árabes, sim, pois não havia como disfarçar esse fato, mas não muçulmanos radicais.

Sem se deixar impressionar pelo olhar de Hafez, Jamile continuou:



  • Há quem venda esse material. E pode apostar que esse vendedor terá total interesse em não denunciar ninguém. Ele estará tão incrimina­do quanto o comprador se, por acaso, a transação vier a ser descoberta.

Hafez foi obrigado a concordar com o que Jamile estava dizendo. Na realidade, a recomendação que recebera por parte de Al-Kayed era exatamente esta: comprar o explosivo pronto, quando recebera a ordem de providenciar toda aquela lista de materiais. Ninguém falara para ad­quirir os componentes e fabricar, ele mesmo, o explosivo. Isso tinha sido uma idéia sua, como químico que era, como forma de economizar alguns dólares, que, em vez de serem gastos com material comprado no câmbio negro, poderiam muito bem ser usados em outras coisas. Coisas como, por exemplo, um vestido novo para Amina...

  • Pode ser que você tenha razão — admitiu ele. — Só que não tenho a menor idéia de quem possa nos fornecer isso já pronto...

  • Não será difícil, Hafez — interferiu Mohamed. — Conheço um engenheiro especialista em demolições. Talvez, por ele, consigamos che­gar ao fornecedor. E tenho certeza de que poderemos encontrar alguém que nos venda o material sem fazer muitas perguntas...

  • Então, cuide disso — decidiu Hafez, dirigindo-se a Mohamed. — E com urgência. Precisamos estar com tudo pronto o mais breve possí­vel, pois não sabemos quando virá a ordem para agir.

Sentada ao lado de Hafez e acariciando sua coxa por baixo da mesa, Amina perguntou:

  • E onde você pretende guardar tudo isso? É perigoso deixar em casa, não acha? Perigoso em todos os sentidos. Primeiro, é material ex­plosivo, e não podemos afastar a possibilidade de um acidente. Segundo, porque basta uma denúncia, uma revista em casa, e todos nós estaremos limito bem arranjados...

  • Nunca tive intenção de deixar isso em casa — respondeu Hafez, com mau humor. — Não sou louco a esse ponto. Vamos alugar um armário público num desses guarda-volumes de estação e pronto. Lá ele estará em segurança.

Amina deu de ombros. Tinha dito aquilo pelo simples prazer de pôr mais um empecilho no plano de Hafez, mesmo porque ela não con­cordava nem um pouco com aquilo e, principalmente, porque gostaria ile ver o amante desistir de tudo por causa das complicações que esta­vam surgindo.

E não eram poucas as complicações e dificuldades que Hafez esta­va tendo de enfrentar desde que recebera aquele e-mail. Fazia já algum tempo que a mensagem chegara, e eles não tinham conseguido absoluta­mente nada da lista solicitada, e isso estava deixando o árabe a cada dia mais nervoso.

Amina, por diversas vezes, sugerira que ele passasse a obrigação para Ibrahim ou Mohamed e fosse com ela para um outro lugar qualquer, afastando-se definitivamente daquela história de terrorismo. Entretanto, Hafez respondera que aquela era sua vida, que ele não era nada além de um soldado do Islã e que jamais abandonaria a grande causa. E, na última vez que insistira sobre esse assunto, acabara por ouvir o que não queria:


  • Se você não quiser me acompanhar, nada a impede. Pode tratar de desaparecer. Durante muito tempo estive sozinho com meus ideais e posso muito bem voltar a ficar assim. Não preciso de ninguém, muito menos de alguém que fica tentando enfiar na minha cabeça que estou agindo errado. Eu sempre agi de acordo com as leis do Corão. Não vou trair minha fé por nada deste mundo! Nem mesmo por você!

Amina não insistira mais. Intimamente, porém, ela estava sempre torcendo para que as coisas não dessem certo, para que um dia Hafez per­cebesse que tudo aquilo jamais haveria de levar a alguma coisa.

"Não passa de entusiasmo juvenil", — pensava ela. "Eles estão um pouco velhos para isso, mas, no fundo, não passa de coisa de adolescente."



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