Quinze dias em setembro



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Capítulo IV
A abertura do escritório da empresa em Nova York, como não poderia deixar de ser, tornou-se um marco na história, não apenas da firma, mas principalmente na história da família. Conseqüentemente, na his­tória de Fefê.

O senhor Fernando voltou dos Estados Unidos sozinho: Marina ficara — como já estava decidido — e Gilberto também, uma vez que ha­via muita coisa para fazer; e a irmã, preocupada também com o casamen­to que se aproximava e que seria lá, não daria conta de tudo sozinha.



  • Gilberto terá de ficar pelo menos três meses por lá — avisou Fernando. — No mínimo até Tony e Marina voltarem da lua-de-mel. Enquanto isso...

Olhou para o filho caçula e disse:

  • Você vai precisar assumir o lugar de seu irmão.

Na verdade, o rapaz não sabia se ficava ou não feliz com a notí­cia. De fato, sempre quisera ficar com a cadeira de Gilberto, com uma posição de chefia, com a importância que ele mesmo julgava merecer. Entretanto, ao mesmo tempo, isso significava que teria muito mais res­ponsabilidades, muito mais trabalho e... logicamente, menos tempo para si mesmo.

Suas saídas, fazendo o papel de office-boy de luxo, sempre lhe per­mitiam uma liberdade de ação fantástica. As desculpas que encontrava no trânsito carregado, nas esperas a que seria obrigado em cada firma que visitava, proporcionavam a Fefê várias horas de ócio, que ele apro­veitava para encontrar os amigos, tomar um drinque, almoçar com toda a calma, ou seja, coisas que nem mesmo um executivo de altíssimo nível se dá o direito. Com a alteração no esquema, com a permanência de Gilberto nos Estados Unidos, por, no mínimo, três meses, isso mudaria. Ele teria de ficar por mais tempo no escritório, precisaria estar mais perto do pai e aprender muito da rotina com que até então jamais tinha se preocupado.

E havia, no final das contas, um pormenor que, ainda que muito rapidamente lhe tivesse passado pela cabeça, não deixara de atormentá- lo: Gilberto acabaria por voltar dos Estados Unidos... E, já simplesmente pelo fato de ter estado por lá, negociando, treinando seu inglês e apren­dendo muito mais do que se tivesse ficado no Brasil, regressaria preparado para assumir definitivamente o lugar do pai.

Fato, aliás, que já vinha sendo comentado havia algum tempo. Fer­nando estava começando a ficar muito cansado de tanto trabalho e estava querendo se aposentar. O casamento da filha no estrangeiro, Gilberto apto a gerenciar completamente a empresa e a idade que começava a se lazer notar estimulavam-no a apressar um pouco o tão desejado dia de parar de trabalhar.



  • Vou comprar uma casa na praia e ficar deitado na rede o dia inteiro! — brincava Fernando.

Assim, com a perspectiva de ter de trabalhar mais e se divertir menos, Fefê acabou por não achar muito boa a idéia de ficar no lugar do irmão.

E o velho sentimento de revolta ressurgiu com toda a sua força quando ouviu o pai dizer para a secretária:



  • Com o Fefê tendo de ficar mais tempo aqui dentro, vamos pre­cisar contratar um office-boy...

Fefê sentiu um aperto no coração, o orgulho mortalmente ferido. Então era essa a sua função, realmente! Para que ficar tentando disfarçar, tentando dizer a si mesmo que seu cargo era de diretor de informática e comunicações? A verdade, nua e crua, era essa: ele não passava de um menino de recados, de um office-boy de luxo...

Entretanto, ele nada falou, nada manifestou. Em seu íntimo, a amargura de sentir-se eternamente relegado a um plano inferior vinha se transformando em ódio. E ele já escutara de alguém — jamais haveria de lembrar quem — que quem odeia sabe esperar.

Fefê estava esperando. E talvez estivesse chegando o momento de mostrar quem, realmente, ele era.

Vendo que o rapaz começava a arrumar suas coisas na mesa de Gil­berto, Clara deu uma risadinha e falou:



  • Você vai se assustar, Fefê... Se achava que seu irmão não fazia nada, vai perceber bem depressa que estava enganado!

  • Isso não me mete medo, Clara — retrucou o rapaz, empinando o nariz. — Nunca tive medo do trabalho. Acontece que nunca me deram oportunidade de mostrar do que sou capaz!

  • Pois a oportunidade está diante de você, Fefê — disse Clara. — E pode ir se preparando. Como o Gilberto ficou por lá, tem uma mon­tanha de serviço atrasado que precisa ser posta em dia. E rápido, se você não quiser ouvir seu pai gritar!

O rapaz fingiu não ter ouvido e, com toda a pachorra, continuou a arrumar a mesa.

"Vocês estão rindo...", pensou ele. "Mas não vão rir por muito tem­po. Daqui a pouco vão ver como as coisas estarão mudadas e como vocês terão de me tratar com respeito!"

A maioria dos seres humanos tem a característica de se adaptar a situações adversas. Fernando não era diferente e, assim que percebeu que o filho caçula, realmente, não conseguia dar conta nem da me­tade das coisas que o irmão mais velho fazia, foi transferindo tarefas para outros funcionários, foi assumindo pessoalmente outras tantas e, em menos de duas semanas, Fefê estava praticamente de volta à sua antiga função.

Evidentemente, ele percebera muito bem o que estava acontecen­do, mas, esperto, conseguia agir de uma maneira que chegava a despertar a piedade tanto do pai quanto de Clara.

— Tenha dó, Fernando! — dizia esta. — O menino não está acostumado. Ele ainda não sabe. Dê alguma coisa mais simples para ele fazer. Que diabo!

Fernando, a princípio, achara descabido esse tipo de protecio­nismo, mas, vendo o filho atabalhoado, parecendo perdido diante de uma pilha de documentos, acabava ficando com pena, e, é claro, Fefê se aproveitava.

À noite, o rapaz continuava a se encontrar com os amigos, conti­nuava a trocar a sala de aula, onde deveria estar cursando o MBA, pelas mesas dos barzinhos da moda e os restaurantes caríssimos.

E, obviamente, continuava a gastar a rodo, talvez até confiante de que o saldo que lhe tinha sobrado na conta jamais terminasse.

Ficou extremamente satisfeito ao perceber que tanto seu pai quanto Clara nunca tocaram no assunto do dinheiro roubado. Era um dinhei­ro que não poderia ser contabilizado e que, portanto, era melhor que fosse esquecido. A empresa assumira o prejuízo e nem mesmo o doutor Mário ficaria sabendo do ocorrido.

No entanto, tudo o que sai, sem que haja algum tipo de reposição, acaba chegando ao fim. E, algumas semanas depois, Fefê viu que, se não providenciasse com urgência uma entrada de recursos, ficaria sem dinhei­ro outra vez. Principalmente porque?, desde aquela discussão com o pai e com o conseqüente bloqueio de suas retiradas da empresa, ele deixara de usar seus cartões de crédito, e tudo quanto gastava — e não era pouco! — era pago em dinheiro ou, no máximo, em cheques do Bradesco, conta à qual somente ele tinha acesso.

Fefê não era estúpido a ponto de ignorar ser impossível aplicar outro golpe semelhante no pai. Assim, estava descartada a possibilidade de alegar que tinha sido assaltado e sumir com outra bolada. Também era absolutamente impossível uma retirada de numerário do caixa da empre­sa sem que isso fosse imediatamente percebido pelo rigoroso sistema de controle que existia.

O rapaz começou a ficar nervoso outra vez. Precisava dar um jeito e não sabia como fazer. A única coisa que realmente sabia e que o atri­bulava o tempo inteiro era que não poderia deixar transparecer aos seus amigos que estava em dificuldades financeiras e que não mais poderia continuar a arcar com as formidáveis despesas a que estava acostumado. E deixar de lado o seu esquema de vida, isso Fefê jamais faria.

Num fim de tarde, reunido com os amigos num happy hour, que pai a ele não estava sendo nem um pouco happy, pois acabara de verificar seu saldo no banco, e este se encontrava já num nível perigosamente baixo, ele foi apresentado a um holandês.

A princípio, deprimido e preocupado como estava, Fefê não lhe deu maior atenção do que a que a boa educação obriga: cumprimentou-o, sorriu e trocou algumas palavras com o recém-chegado. Estava tão distraído e ensimesmado, que nem mesmo percebeu que o homem falava perfeitamente português, apenas com um leve sotaque.

Foi cerca de quinze minutos mais tarde, quando o holandês per­guntou a Gustavo se este conhecia alguns proprietários de boates ou casas noturnas badaladas — e ele usou esse termo, badaladas —, que Fefê se viu obrigado a participar mais da conversa.


  • Quem conhece todo mundo nesse meio é o Fefê — disse Gustavo.

O holandês voltou-se para o rapaz e repetiu a pergunta:

  • Você conhece proprietários de casas noturnas e boates aqui em São Paulo?

Fefê olhou, um tanto quanto intrigado, para Erik. Era um homem de cerca de quarenta anos, simpático, com aparência séria. Na verdade, ele até deveria estar meio deslocado naquela mesa, composta de jovens, tendo o mais velho deles menos de trinta anos. No entanto, Erik parecia estar perfeitamente à vontade, conversando e rindo com todos e como todos.

Já com quatro doses de vodca na corrente sangüínea, além de todas as suas preocupações com o estado de sua conta bancária, Fefê não conse­guia lembrar como aquele indivíduo tinha chegado à mesa.

Entretanto, como ele estava lhe perguntando sobre um assunto que realmente era de seu domínio e, como aquela era uma excelente oportu­nidade de mostrar sua importância, o rapaz relegou para segundo plano os motivos que teriam trazido o holandês para seu grupo e respondeu:


  • Não só em São Paulo, meu amigo... Mas conheço gente no Bra­sil todo. Sei quem possui as melhores casas noturnas e boates de Porto Alegre a Manaus!

  • É mesmo? — fez o holandês, mostrando-se impressionado. — Você é do ramo?

  • Não — respondeu Fefê. — Tenho uma empresa de exportação e importação. Conheço essas pessoas porque sou um bom freqüentador...

O interlocutor assentiu com um sinal de cabeça, molhou os lábios no copo de uísque que estava à sua frente e indagou, como se o fizesse apenas para continuar a conversa:

  • E sua empresa faz que tipos de importação? Ou de exportação?

  • Trabalhamos principalmente com produtos químicos — disse o rapaz. — Importamos matérias-primas para a indústria química e expor­tamos produtos acabados, principalmente para a Europa.

Um sorriso iluminou o rosto de Erik, e este, entregando-lhe um cartão, falou:

  • Posso procurá-lo amanhã? Acho que teremos negócios a tratar...

Fefê arregalou os olhos, surpreso. Era a primeira vez que ele via acontecer, com ele, aquilo que sempre ouvira dizer ser uma das razões principais para a existência dos happy hour, ou seja, o encontro de execu­tivos com a possibilidade do surgimento de negócios.

De fato, era também a primeira vez na vida que alguém se dirigia a ele considerando-o um verdadeiro executivo...

Fefê não tinha cartão de visitas pessoal. Andava sempre com al­guns cartões da empresa, mas, com seu nome, jamais tivera algum. Para quê, afinal de contas? Jamais ele precisara! Pelo menos, não até aquele momento.

Um pouco desenxabido, pegou um desses cartões, rabiscou seu nome e seu celular no verso e entregou-o ao holandês, dizendo:



  • Prefiro que me ligue no celular. É difícil me encontrar na empre­sa, com todas as reuniões a que sou obrigado a comparecer...

  • Não quero atrapalhá-lo — alegou Erik. — Mas podemos... Tal­vez seja mais fácil para você se almoçarmos juntos, amanhã...

- Ótimo! — exclamou Fefê. — Podemos marcar à uma da tarde, aqui mesmo no Pandoro.

Erik se levantou, estendeu a mão para Fefê e disse:



  • Então está marcado. Amanhã, aqui, à uma hora.

Despediu-se de todos os demais e saiu.

Um breve silêncio pesou sobre a mesa, até que Fefê perguntou, sem se dirigir especificamente a nenhum dos amigos:



  • Quem é ele? De onde surgiu?

Foi Gustavo que respondeu:

  • Eu o encontrei ontem à noite, no Piola. Passei por lá para comer alguma coisa antes de dormir e o conheci por acaso. Pareceu-me simpático, tinha uma boa conversa. Foi também por acaso que comentei que a gente sempre se encontra aqui, no happy hour. E ele veio!

Deu uma risadinha e acrescentou:

  • Parece que você deu sorte, Fefê! Vai ver que você vai conseguir alguma coisa com esse holandês!

Fefê, sempre pessimista, balançou a cabeça, jogando para trás sua imaginária mecha de cabelos sobre a testa, e murmurou:

  • Sei lá! Ele me perguntou sobre o pessoal da noite... O que ele pode estar querendo com donos de boates?

  • De repente é um grande investidor — falou um dos outros que estavam à mesa. — E pode estar procurando onde despejar alguns mi­lhões de dólares!

Por muito pouco, Fefê não argumentou que, nesse caso, o holandês jamais viria procurar alguém como ele ou qualquer outro daquela turma. Entretanto, ele sentia que aquela era, realmente, uma oportunidade de se posi­cionar num pedestal ainda maior do que aquele em que habitualmente fazia questão de se colocar e, com um sorriso cheio de superioridade, falou:

  • Se for essa a intenção do gringo, ele achou a pessoa certa... Nin­guém conhece a noite melhor do que eu!

Clara estranhou ver Fefê chegar ao escritório antes das dez horas da manhã, sendo que ele jamais aparecia antes do almoço, mesmo depois que assumira as obrigações do irmão.

  • O que foi? — perguntou ela, surpresa. — Caiu da cama ou seu pai lhe arrancou as cobertas?

Fefê não respondeu. Aquela pergunta era mais uma manifestação evidente do conceito que todos faziam dele e, se fosse responder, cer­tamente acabaria se irritando. Assim, limitou-se a esboçar um sorriso e começou a trabalhar.

Por volta do meio-dia, ele avisou que iria almoçar com um amigo e, sem maiores explicações, saiu.

Dirigiu-se para o Pandoro, lá chegando quinze minutos antes da hora marcada.

Mal conseguia esconder, de si mesmo, o nervosismo. Era o seu pri­meiro almoço de negócios! Era a primeira vez que alguém, mais velho e com aspecto respeitável, o tratava como um executivo, dando-lhe a importância que sempre quisera ter!

Sentando-se a uma mesa do terraço, ele pensou em pedir uma vodca, mas logo afastou essa idéia. Não, ele não poderia dar mostras de qualquer tipo de irresponsabilidade. Beber num happy hour era normal e permitido. Entretanto, um almoço de negócios devia ser diferente; as pessoas envolvidas tinham de estar donas de todas as suas capacidades de raciocínio, de reflexos, de atenção. Pediu um suco de laranja.

Erik apareceu exatamente à uma da tarde, e Fefê não pôde dei­xar de imaginar que o holandês tivesse ficado escondido em algum lugar ali perto, de maneira a mostrar a pontualidade, chegando em cima da hora.



  • Como passou a noite? — perguntou ele. — Muito trabalho esta manhã?

  • Sim... — respondeu o rapaz, com expressão fatigada. — Essas reuniões me matam... É uma atrás da outra e raramente são produtivas.

Erik deu um sorriso e, contrariando a decisão que o rapaz se impusera pouco antes, de não tomar bebidas alcoólicas durante um almoço de negócios, pediu ao garçom que se aproximava uma dose de uísque.

  • Pois pode acreditar que nossas reuniões jamais serão improdu­tivas! — falou o holandês. — E também acredite que esta é somente a primeira, meu amigo! Tenho certeza que seremos parceiros!

Fefê olhou intrigado para o homem que estava à sua frente. Como ele podia afirmar aquilo assim, com tamanha certeza? O que ele estava querendo propor? O que estava querendo dizer quando falava de parceria?

O garçom trouxe o uísque encomendado por Erik, e Fefê, achando que também poderia beber, já que o companheiro estava tomando álcool, pediu sua já tradicional dose de vodca.



  • Trabalho com produtos químicos — disse Erik. — E o fato de você ter uma empresa de importação e exportação intimamente ligada ao meu ramo, pode ser muito interessante para nós dois.

Aquela frase foi como um balde de água fria sobre Fefê. Então, o ho­landês estava interessado, no final das contas, no trabalho da empresa e não nele, pessoalmente. Seria mais um negócio para seu pai, não significaria nada para ele além de, no máximo, um elogio vindo de Fernando, surpreso pelo fato de o filho caçula ter, afinal, feito alguma coisa que implicasse re­ceita para a firma e não apenas em despesas, como era a rotina.

Antes que Fefê pudesse dizer alguma coisa, Erik prosseguiu:



  • E o fato de você conhecer o meio empresarial da noite vem a calhar.

O rapaz olhou para seu interlocutor e perguntou:

  • Mas como assim? Como uma empresa de produtos químicos pode se interessar pelos empresários da noite?

  • Isso, ainda não posso dizer — replicou o holandês. — Mas, den­tro em breve, você saberá. Por enquanto, o que preciso saber é se seria possível sua empresa fazer uma importação pequena, coisa de cem quilos, de um produto químico que venha da Holanda.

  • Não creio que haja dificuldades — falou Fefê, procurando as­sumir uma aparência de quem detém o conhecimento. — Dependendo do valor, cem quilos de uma mercadoria pode ser equivalente a muitas toneladas.

Tomou um gole de vodca e prosseguiu:

  • Por outro lado, também depende muito de como essa mercado­ria vai chegar ao Brasil, se de avião ou por via marítima.

  • Terá de ser de avião. Há muita pressa no recebimento — dis­se Erik. — A empresa importadora precisa desse componente dentro de quinze dias.

Por mais alienado quanto à essência dos negócios da família, Fefê tinha, ao menos, uma mínima noção do que era imprescindível para tra­zer alguma mercadoria, legalmente, do exterior. Assim, ele falou:

  • Bem... Se já existe o comprador aqui no Brasil, as coisas ficam muito mais fáceis. Principalmente, se esse comprador estiver em São Pau­lo ou no Rio de Janeiro.

  • A empresa importadora é de São Paulo. Assim, o que vai, real­mente, influir é a agilidade no desembaraço da mercadoria no aeroporto.

  • Isso será o mais simples — afirmou o rapaz, categoricamente. — Nós conhecemos muitos agentes alfandegários e poderemos agilizar essa burocracia.

Erik sorriu, assentiu com a cabeça e Fefê perguntou:

  • Qual é a mercadoria? Trata-se de um produto químico perigoso?

  • De forma nenhuma! — exclamou o holandês. — É um deriva­do polimerizado, imprescindível para a produção de plásticos especiais. Trata-se de um produto muito caro, pois apenas cem gramas dele possibilitam a produção de mais de uma tonelada de produto acabado.

O rapaz continuou olhando interrogativamente para Erik, e este prosseguiu:

  • Esses cem quilos de material valem cerca de duzentos mil dólares. E é claro que, uma vez que esta primeira importação seja feita com êxito e sem reclamações, teremos muitas outras. No mínimo, uma por mês.

Fefê não pode deixar de pensar que, sem dúvida nenhuma, seria um bom negócio para a empresa de seu pai. Mas e ele? Como poderia ganhar alguma coisa em cima da transação?

Como se estivesse lendo os pensamentos do rapaz, Erik continuou:



  • Haverá, evidentemente, a comissão de sua empresa e... a minha gratidão pessoal a você.

Deu uma risadinha e completou:

  • E pode acreditar que eu sempre soube manifestar adequadamen­te essa gratidão.

A esta altura da conversa, um verdadeiro executivo e sócio — de fato e não apenas de direito, como era o caso de Fefê — teria dito que não haveria o que agradecer, pois sua empresa já estaria ganhando com as comissões de praxe. Entretanto, o rapaz calou, e seus olhos brilharam já imaginando o que Erik haveria de lhe oferecer.

  • Espero que você não esteja ocupado demais esta noite — falou o holandês, enquanto o garçom servia o almoço que tinham pedido. — Gostaria de convidá-lo para um programa.

Sorriu, maliciosamente, e acrescentou:

  • Acho que será, no mínimo, um programa diferente.

Fefê não parecia estar nem um pouco satisfeito ou entusiasmado. Ele fora buscar Erik no Hotel Maksoud Plaza, e este lhe dera um endereço no Morumbi, ao entrar na BMW do rapaz.

  • É uma casa particular — falou. — A proprietária, uma conter­rânea minha amiga, organiza umas festas espetaculares.

Dando uma risada, juntou:

  • Aposto o que quiser que dentro de pouco tempo você terá dei­xado de lado essa cara de Quarta-feira de Cinzas...

Fefê se defendeu, alegando que só estava um pouco cansado por causa do dia corrido que tivera e que sua expressão não era nada mais do que o reflexo de todas as preocupações de alguém como ele, obrigado a lidar com situações de altíssimo nível de responsabilidade.

  • Como você queria que eu estivesse, Erik? São milhões de dóla­res em negócios, toneladas e mais toneladas de mercadorias chegando e partindo... Acho que tenho o direito de estar cansado, não?

  • Claro que tem — contemporizou o holandês. — E é claro, tam­bém, que tem o direito de se divertir um pouco.

Durante a tarde, depois que Erik lhe tinha dito a respeito de fazer um "programa diferente" naquela noite, Fefê ficou um pouco preocupado.

Afinal, mal conhecia aquele homem; sabia apenas o que ele contara e, assim mesmo, sem nenhum motivo maior, sem qualquer intimidade que justificasse o convite para uma noitada... E diferente... O que ele estava querendo dizer com esse adjetivo? Por algum tempo, o rapaz pensou se­riamente em telefonar para Erik e dizer que havia surgido um imprevisto e que não poderia ir. Acima da curiosidade, porém, havia o receio de que uma recusa pudesse pôr abaixo o conceito de homem independente e maduro que o holandês parecia fazer dele. E isso era algo que Fefê não podia admitir! Erik o havia tratado como um igual, e ele era, no mínimo, quinze anos mais velho, era estrangeiro e parecia ser extremamente bem preparado no campo de comércio exterior. Isso o rapaz pudera perceber pela conversa durante o almoço.

Não! Ele não desistiria! Iria em seu carro e, se algo o desagradasse, aí sim, seria político o bastante para arrumar uma desculpa e se retirar.

E, naquele instante, sentado no carro ao seu lado, Erik estava di­zendo que o tal programa diferente era uma festa numa casa particular...

Fefê conhecia muito bem esse tipo de festa; já tinha ido a várias e sempre se desiludira.

Esses eventos, organizados por alguém e para uma lista de convi­dados "muito especiais", não passavam de orgias disfarçadas, nas quais, além de muitas mulheres disponíveis, muito álcool e muitas drogas cir­culavam livremente. Ora, Fefê não era adepto de drogas. Experimentara, muito mais por espírito de imitação do que por qualquer outro motivo, maconha, cocaína e ecstasy. Não gostara. A maconha tinha de ser fu­mada, e ele não conseguiu engolir a fumaça, que lhe ardera na garganta, engasgara-o e o fizera passar um grande vexame. A cocaína deixara-o com o coração parecendo que queria sair pela boca; sem contar que, no dia seguinte, ele teve vontade de morrer. Já o ecstasy não lhe fizera nenhum efeito. Disseram-lhe que o tal comprimido iria despertar desejos incríveis, estimular-lhe a libido de forma fantástica... Pois nada disso acontecera, além de uma sede de andarilho do Saara e uma dor de cabeça homérica algumas poucas horas depois.

Com base nessas experiências frustrantes, Fefê decidira que não usaria drogas. Preferia ficar com seu copo de vodca e... sua inibição. Aliás, esse era o motivo principal de ele não gostar daquele tipo de festinha: sua inibição e timidez faziam-no ficar isolado de todos os outros, vendo-os participar da orgia, vendo-os rir e se divertir, e ele, enquanto isso, ficava apenas bebendo, encostado no balcão do bar ou em um canto de parede. Fefê não conseguia se aproximar de ninguém, não conseguia ficar com nenhuma das muitas mulheres que ali se encontravam. No máximo, con- ' seguia beber. Sempre a bebida, a vodca e nada mais.

Arrependeu-se de ter aceitado o convite de Erik. Seria mais uma noite perdida, mais uma frustração e, possivelmente, ao ver como ele se comportava durante a festa, o próprio holandês poderia se desinte­ressar de qualquer tipo de relacionamento, até mesmo um relaciona­mento comercial.

"Um farrista depravado jamais consegue se relacionar com um puritano, e é exatamente isso que ele vai imaginar que eu sou...", pen­sou o rapaz.

Ele estava tentando arrumar uma desculpa que justificasse sua ma­neira de agir — dizer que estava tomando remédios, que estava muito cansado, ou qualquer coisa do gênero —, quando Erik adiantou:

— Chegamos. Pode entrar pelo portão, o manobrista cuida do carro.

Como muitas outras casas do Morumbi, essa também era espetacu­lar. Situada na parte mais elevada de um terreno de mais de um hectare, a mansão dominava o panorama. O jardim era iluminado por inúmeras lanternas japonesas, cuja luz diáfana permitia enxergar os canteiros de flores e alguns caramanchões de buganvílias e brincos-de-princesa. Um pequeno lago, atravessado por uma ponte de madeira em arco, ficava ao lado esquerdo do corpo principal da enorme casa em estilo neoclássico.

Fefê parou junto à porta de entrada, e um manobrista, uniformiza­do e de luvas brancas, apressou-se em abrir-lhe a porta, lembrando:

— Pode deixar comigo, doutor.

Outro empregado, este vestido com um uniforme que lhe dava um aspecto de general latino-americano, tal a quantidade de galões e penduricalhos, abriu a porta de Erik e fez sinal para que os dois o acompanhassem.

Fefê e Erik subiram os três degraus de mármore do alpendre, e a porta se abriu, com outro empregado. Este — com uniforme e aspecto de marechal — sorriu-lhes, exclamando:



  • Sejam bem-vindos! E divirtam-se!

Exatamente como o rapaz já vira em outras festas do gênero, jun­to à chapelaria, havia um grande vaso de porcelana onde os convidados punham dinheiro. Ninguém estava ali para conferir quanto cada um punha e, provavelmente, jamais o funcionário grandalhão que estava de pé a pouco mais de dois metros de distância, haveria de chamar a atenção de algum mais mesquinho que pusesse no vaso menos do que o mínimo esperado. Certamente, depois de entrar no recinto da festa e de ver o que estava acontecendo ou por acontecer ali, esse convidado seria gentilmente escoltado até a saída ou, quem sabe, convencido a ser um pouco mais generoso.

Fefê já ia pondo a mão no bolso para tirar pelo menos duzentos dólares, quando Erik o impediu com um gesto, acrescentando:



  • Não se preocupe com isso. Você é convidado, e já está tudo cer­to com a proprietária. Aqui, você não terá nenhuma despesa.

Fefê deu de ombros e, já começando a sentir a famosa inibição a lhe corroer as entranhas, acompanhou o holandês em direção ao amplo salão de festas.

Via-se perfeitamente que a mansão — que outrora deveria ter sido a residência de um grande milionário — tinha sido completamente refor­mada para bem se adaptar à finalidade de destino. Praticamente todas as paredes divisórias do andar inferior tinham sido abertas de maneira a for­mar vários ambientes. Portas, somente duas: uma que dava acesso à copa e outra, discretamente oculta atrás de um imenso biombo de plantas, por onde se ia aos banheiros.

A decoração era esmerada, com móveis antigos, poltronas confor­táveis em cantos com iluminação suave e indireta, muitas plantas e várias obras de arte.

Fefê estava admirado. As outras festas especiais a que tinha comparecido nem de longe se assemelhavam àquela. Pelo menos, no que dizia respeito ao ambiente.

E, quanto às mulheres que estavam por ali, então...

Era cada uma mais linda do que a outra, todas mostravam uma classe fora do comum. Ele viu uma modelo famosa passar abraçada a um senhor de meia-idade, calvo, cuja fisionomia não lhe era estranha, viu uma garota-propaganda, cujo rosto já aparecera em incontáveis outdoors pela cidade, viu dois políticos famosos, vários executivos que ele conhe­cera — mas que, evidentemente, jamais se lembrariam dele — e... muita gente bonita, bem-vestida, bem-educada.

Uma jovem loura passou por eles, sorriu e continuou. Um garçom se aproximou trazendo bebidas e, logo depois outro, com uma bandeja de canapés de fazer páreo com os de qualquer banqueteiro da cidade.

Fefê aceitou um copo de vodca, pescou um canapé e, olhando abis­mado ao seu redor, comentou:



  • Formidável, Erik! Estou realmente impressionado!

O holandês riu e, guiando o rapaz para uma das mesas, sentou-se e falou:

  • Ainda é cedo, Fefê. A festa, realmente, ainda não começou. Você vai ver daqui a pouco, quando as luzes baixarem um pouco e a mú­sica começar...

Baixando um pouco a voz, ele disse:

  • Como eu lhe disse, você não vai se arrepender de ter vindo!

Talvez fosse verdade, se Fefê fosse outra pessoa. Entretanto, ele já de antemão sabia que tudo seria um desastre. Ele ficaria ali, sentado e se enchendo de vodca, enquanto as outras pessoas estariam dançando e se divertindo de todas as maneiras possíveis e imagináveis. Erik, inclusive, era óbvio.

Mas ele... Ele veria as mulheres se aproximar, ficaria vermelho como um pimentão, não saberia o que dizer, não teria a menor idéia de como entabular uma conversa, ou de como começar um relacionamento. Ali, naquela festa — e aliás como nas outras parecidas em que estivera —, as moças não eram movidas pelo dinheiro do cliente; o que vale di­zer que elas não estavam desempenhando à risca o papel de prostitutas.

Assim, a única arma de que poderia dispor, o dinheiro, não poderia ser mostrada. Não era possível agir como nos cabarés da boca-do-lixo em que costumava ir depois de passar uma noite inteira sozinho. Não poderia mostrar uma nota de cem dólares para uma garota e fazê-la vir sentar-se à sua mesa. Não... Ele sabia muito bem que aquelas mulheres receberiam da dona da festa uma porcentagem sobre o lucro do evento e não poderiam cobrar um centavo do homem com quem ficassem como companhia. Aliás, companhia para o que desse ou viesse.

Foi com esse pensamento na cabeça que Fefê viu as luzes começarem a baixar, e uma música suave e romântica tomou conta do ambiente.

Alguns pares começaram a se formar no meio do salão e logo uma vistosa morena se aproximou da mesa em que eles se encontravam e, sem a menor cerimônia, chamou Erik para dançar.

Fefê não conseguiu esconder uma expressão de desagrado e, to­mando um gole de vodca, pensou: "Pronto! Agora ele vai ficar com essa morena a noite inteira, e eu..."

Foi interrompido em seus pensamentos pela aproximação de uma jovem ruiva que, com um sorriso, perguntou:


  • Posso lhe fazer companhia? Você parece tão sozinho...

Sem esperar pelo consentimento, a moça sentou-se ao lado de Fefê e acrescentou:

  • Não queremos ver ninguém desacompanhado, aqui...

O rapaz, imediatamente, sentiu o sangue lhe subir às faces. Era automático, terrível, desmoralizante. E era inevitável. Bastava que uma mulher se aproximasse, bastava que ela lhe dirigisse a palavra, e pronto! Ficava imediatamente vermelho, as mãos começavam a suar, a dor de estômago aparecia...

Fefê quis dizer para a moça que ele estava com um amigo, mas as pala­vras não saíram. O desagradável silêncio que se seguiu foi intenompido pela chegada do garçom, que serviu vinho branco à moça e mais vodca a ele.



  • É a primeira vez que vem aqui, não é? — perguntou a jovem.

Com muito esforço, ele conseguiu balbuciar uma resposta afirmati­va. Logo em seguida, porém, recuperando-se um pouco, sacudiu sua ima­ginária mecha de cabelo da testa para trás, e adiantou:

  • Já estive em outras festas como esta...

Experiente e esperta, ela não perdeu a oportunidade e, mostrando-se interessada, passou a fazer perguntas a Fefê, querendo saber onde ele tinha ido, com quem tinha ficado, se as festas a que ele se referia tinham o mesmo padrão daquela.

O rapaz, na medida em que conseguiu falar de si e das coisas que fazia, começou a se desinibir um pouco. Tanto que, em determinado mo­mento, a jovem achou que era chegada a hora de levá-lo para a pista de dança.



  • Vamos dançar? — convidou.

Mais uma vez, o castelo de Fefê desmoronou.

Rubro como um tomate maduro, ele resmungou:



  • Não danço. Não gosto de dançar

E, em voz baixa, olhando para o copo de vodca, disse:

  • Prefiro ficar conversando...

Quantas vezes, ao ouvirem essa frase, as moças com quem estivera levantaram-se e, dizendo "pois eu prefiro dançar; vim aqui para dançar", já o deixaram plantado...!

Mas, desta vez, aquela ruiva simpática e bonita não agiu assim. Com um sorriso meigo, ela segurou a mão de Fefê e concordou:



  • Então vamos conversar, querido... O que importa é que você se sinta bem.

Nesse momento, Erik e a morena com quem estivera dançando aproximaram-se, e esta pediu à ruivinha que a acompanhasse até o toalete, com a tradicional desculpa de retocar a maquilagem.

  • O que foi? — perguntou Erik ao rapaz. — Por que você está tão vermelho? Será que foi excesso de vodca?

Fefê ficou ainda mais vermelho e, embora tentasse arrumar uma desculpa, foi em vão. Erik deu-lhe uma palmada no joelho e, em meio a uma risada divertida, confortou-lhe:

  • Não fique assim, rapaz! Isso é absolutamente natural!

Inclinando-se na direção do companheiro de noitada, admitiu:

  • Quando eu era jovem e tinha a sua idade também me atrapalha­va com as mulheres muito bonitas... Só que, naquela época, eu não podia contar com nenhum auxílio, e você, pelo menos hoje, pode!

Fefê franziu as sobrancelhas, intrigado, e Erik, tirando do bolso um tubinho de alumínio, destampou-o, pôs na palma da mão um diminuto comprimido azul e continuou:

  • Tome um. Com vodca. Vai ver como tudo muda...

Fefê fez um gesto de recusa, alegando:

  • Obrigado... Não uso drogas.

  • Não é uma droga, meu amigo. É um... aditivo. Um potencializa­dor. Tome! Não vai se arrepender!

E, com expressão séria, insistiu:

  • Você não pode imaginar que eu, que vou fazer negócios tão im­portantes com você, haveria de querer lhe impingir uma droga, não acha? Temos todo um futuro de grandes transações pela frente!

E, para dar mais confiança ao rapaz, engoliu o comprimido que estava oferecendo para ele. Pondo outro diante de Fefê, disse:

  • Tome logo, antes que as moças cheguem... E, depois, faça a ruivinha engolir um também...

O rapaz não teve mais forças para recusar. Apanhando o comprimi­do, meteu-o na boca e, com a ajuda de um gole de vodca, engoliu-o.

Erik sorriu, satisfeito. As coisas estavam sendo mais fáceis do que imaginara. Fefê estava caminhando a passos largos para sua mão, e ele, por sua vez, não poderia se queixar da sorte.

Era bem verdade que o holandês tinha forçado um pouco essa sorte. Fefê não aparecera por simples obra e capricho do acaso, mas sim por­que Erik tinha pesquisado e procurado no ambiente certo. Ele precisava de alguém, de um jovem exatamente como Fefê, e esse tipo de pessoa só poderia ser encontrado em determinado meio.

Queimado como o holandês se encontrava entre os proprietários de casas noturnas — por causa de alguns golpes que aplicara, por exem­plo, entregando mercadoria sem qualidade — ele jamais conseguiria novos negócios. Assim, necessitava de um intermediário. E esse inter­mediário precisaria ser alguém que quisesse sempre parecer ser mais do que os outros, alguém ambicioso, alguém como Fefê, que acreditava ser o que não era.

Assim pensando, Erik fora buscar esse intermediário entre um grupo de jovens de classe média alta e procurando colimar aqueles mui­to adequadamente classificados como novos ricos. Estes seriam seus al­vos prediletos, uma vez que gostavam de ostentar, sentiam necessidade de se impor pelo dinheiro e — o mais importante — dificilmente teriam preparo de vida suficiente para perceber que estariam sendo vítimas de uma armadilha.

E, se o alvo fosse um rapaz complexado, melhor ainda.

Foi justamente nesse aspecto que a sorte do holandês se manifestara.

Ele encontrara Gustavo por acaso — de fato, esse acaso já tinha sido bastante dirigido, pois Erik sabia que o Piola era um restaurante fre­qüentado por jovens do tipo que ele buscava. Trocara algumas palavras com Gustavo e, percebendo que este, especificamente, não seria o ver­dadeiro alvo de suas buscas, resolveu investigar um pouco mais a fundo o grupo com que se relacionava. Tinha a esperança de que, entre os amigos de Gustavo, pelo menos um poderia ser manipulado por ele.

Por isso, no dia seguinte, apareceu no happy hour do Pandoro, local onde Gustavo dissera que sua turma habitualmente se encontrava.

E foi assim que ele descobriu Fefê, um rapaz que aparentava grande poderio econômico, que mostrava total independência de ação, mas que, no fundo, dependia intrinsecamente do pai, de uma mesada e das aparên­cias. Não tinha sido nem um pouco difícil para Erik, homem experiente e esperto, perceber que Fefê era um autêntico poço de complexos.

Daí a alimentar um pouco mais o ego do rapaz, fazer com que ele se imaginasse um grande e respeitado executivo, fora um passo muito curto e rápido. Depois, perceber que um dos maiores complexos de Fefê era justamente com relação às mulheres fora uma banalidade. Bastava ver a maneira como o rapaz falava e confrontar com seus modos no instante em que uma mulher se aproximava.

Para cumular, Fefê possuía — ou melhor, sua família possuía — uma empresa de exportação e importação que lidava principalmente com produtos químicos. Era juntar a fome com a vontade de comer! Erik tinha encontrado sua mina de ouro e não a desprezaria por nada no mundo.

Bastaria, apenas, fazer com que Fefê, de um momento para o outro, passasse a depender dele muito mais do que de qualquer outra pessoa.

E um dos caminhos mais fáceis para conseguir isso seria exatamen­te aquele que estava trilhando naquele instante — fazendo o rapaz ingerir aquele estimulante para, dentro de alguns minutos, estar se sentindo um verdadeiro super-homem...




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