Quinze dias em setembro



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Capítulo V
Não foi preciso mais do que cinco minutos, e Fefê começou a sentir uma incrível e deliciosa euforia. Tudo para ele parecia ser maravilhoso; tudo ao seu redor era fantástico; qualquer coisa que Erik ou as moças dis­sessem era engraçado, divertido, agradável de ouvir.

E o melhor era que, a cada vez que a ruiva lhe tocava o braço, parecia que um choque elétrico passava por seu corpo, um choque cuja sensação era deliciosa e erotizante. E ele estava perfeitamente lúcido, até parecia que seu raciocínio estava mais rápido, suas palavras mais espirituosas.

Por seu lado, Erik apresentava um comportamento semelhante. Grandalhão e divertido, seus gestos eram sempre amplos, sua voz, de um baixo profundo, ressoava sem, contudo, desagradar.

As duas moças, imediatamente, perceberam que seus companhei­ros não estavam agindo normalmente, e a morena perguntou:



  • Mas o que foi que vocês tomaram? Andaram cheirando pó?

Em vez de responder, Erik lhe deu um de seus pequenos comprimi­dos e entregou outro para a ruiva.

  • Tomem, meninas — ofereceu ele. — E verão que esta noite será inesquecível!

As duas mulheres não vacilaram e engoliram os comprimidos.

Nesse exato momento, a música parou, os pares que estavam na pista de dança voltaram para suas mesas e, de repente, tudo ficou escuro.

Ouviu-se um rufar de tambores, como acontece nos circos antes de uma apresentação especialmente arriscada dos trapezistas, e um foco de luz se acendeu iluminando o meio da pista.

Ali, uma mulher lindíssima, vestida de odalisca, começou um show de strip-tease.

Enquanto ela, com movimentos sensuais que imitavam uma dança do ventre extremamente erótica e excitante, tirava um a um os véus que constituíam sua já reduzida indumentária, Fefê perguntou a Erik:


  • O que são esses comprimidos?

Por que quer saber? — indagou, por sua vez, o outro. — Não está se sentindo bem?

Pelo contrário! — exclamou o rapaz. — Acho que nunca me senti tão bem quanto agora! Por isso quero saber. Para poder comprar mais!

Você não precisa comprar nada — disse o holandês. — Posso lhe arrumar quanto quiser.

E, quase cochichando ao seu ouvido, confidenciou:

É um comprimido que só existe, por enquanto, na Holanda. Nós o chamamos de superecstasy.

Pois é maravilhoso! — afirmou Fefê. — Estou me sentindo um verdadeiro leão!

O holandês deu uma risada e explicou:

O ecstasy normal, esse que é vendido em qualquer lugar, apenas faz com que você fique excitado, com todos os sentidos mais alertas. Este, além de ter esse efeito, proporciona uma excitação sexual intensa. E você vai poder comprovar o que estou dizendo daqui a pouco...

Mas não faz mal à saúde? — quis saber Fefê. — Há vários casos registrados de morte por causa de ecstasy...

Este não faz nada além de deixá-lo alegre, sensível e... um verda­deiro touro! Pode acreditar! Você acha que eu tomaria se fizesse mal? E olhe que já não sou nenhum moleque...!

O rapaz não teve o que dizer. Na verdade, não teve nem mesmo tempo de pronunciar mais qualquer coisa, pois a ruiva, ronronando como uma gata no cio, já o estava agarrando, beijando-o com volúpia e arrastando-o para fora da mesa, seduzindo-o:


  • Venha, benzinho... Venha apagar esse fogo que você acendeu em mim...

Fefê ficou agradavelmente surpreso, na manhã seguinte, ao acor­dar bem-disposto, apenas com mais sede do que o habitual. Ao contrário do que acontecera quando experimentara um comprimido de ecstasy, em outra ocasião, e quando sentira-se mal no dia seguinte, parecia-lhe desta vez que o mundo era todo cor-de-rosa... Nem mesmo estava com dor de cabeça, apesar de todo o álcool que ingerira.

As três horas da tarde, Erik telefonou dizendo que gostaria de en­contrá-lo para combinar a importação.


  • Estou com pressa — disse-lhe o holandês. — A empresa im­portadora está me pressionando; eles precisam dessa mercadoria o mais rápido possível.

O rapaz anotou os dados burocráticos que Erik lhe forneceu e ga­rantiu que, no final do expediente, tudo estaria pronto, e só precisaria que o representante legal da empresa importadora assinasse os papéis.

  • Depois disso, é só uma questão de agilizar as coisas — garantiu Fefê. — E, em menos de uma semana, estará tudo pronto, bastando pro­videnciar a remessa da mercadoria e o desembaraço aqui no Brasil. E isso, pode acreditar, será a parte mais fácil.

  • E como você está? — indagou Erik, com um tom de sorriso na voz.

  • Melhor do que nunca! — respondeu o rapaz. — Aquele troço é sensacional! Você precisa me arrumar um pouco mais...

  • Não se preocupe quanto a isso. Já lhe disse que você terá quanto quiser.

Fez uma pequena pausa e finalizou:

  • Mas, por enquanto, a prioridade é essa importação. Você pre­cisa conseguir resolver tudo o mais depressa possível. Dessa sua agilidade vai depender a continuidade das operações e, como conseqüência, muitos grandes negócios que teremos pela frente!

Garantindo, mais uma vez, que isso não seria problema, Fefê des­ligou.

Foi nesse momento que ele começou a sentir o cansaço pela noite de extravagâncias que tivera.

Levantou-se, tomou um café, caminhou um pouco pelo escritório e, controlando-se para não se debruçar sobre a escrivaninha e dormir, tratou de cuidar da documentação que a importação exigia.

Evidentemente, ele não poderia fazer tudo sozinho, primeiro por­que não tinha conhecimento de todo o processo — ele jamais se pre­ocupara em aprender — e, segundo, porque as assinaturas tinham de ser de seu pai ou de seu irmão, Gilberto, que se encontrava nos Estados Unidos — e ele não tinha uma procuração da empresa para poder assi­nar em seu nome.

Assim, depois de ter preenchido todos os formulários, foi levar para o pai assiná-los. Fernando olhou surpreso para o filho caçula e perguntou:


  • O que é isso? Não me lembro de ter iniciado qualquer negocia­ção com essa firma!

  • É um cliente novo, que eu consegui — respondeu Fefê. — Um bom negócio, mas que precisa ser feito depressa.

Fernando avaliou toda a documentação que o filho lhe trouxera, deu um sorriso e disse:

  • Está tudo certo, Fefê! Parece que você, finalmente, está vestin­do a camisa de nossa empresa!

O rapaz nada respondeu, e o pai prosseguiu:

  • É uma importação pequena, mas de bom valor. Se houver continuidade...

Assinou os papéis, devolveu-os para o filho e disse:

  • Peça para a Clara lhe dizer o que é preciso fazer de agora em diante.

  • Já sei, pai. Daqui a pouco vou apanhar as assinaturas do repre­sentante da empresa e, amanhã cedo, já estarei cuidando do restante.

Fernando anuiu com a cabeça e, com um sorriso feliz, admitiu:

  • Fico muito satisfeito vendo esse seu progresso, Fefê. É muito bom ver que você também é capaz de captar clientes para nós!

Ao contrário do que se deveria esperar, o rapaz não deixou a sala do pai entusiasmado com suas palavras. Muito pelo contrário, ele teve de se controlar para não manifestar qualquer sentimento da revolta que, mais uma vez, sentia.

"Então, ele achava que eu jamais seria capaz de fazer alguma coisa mais séria...", pensou Fefê, ao dar as costas para o pai. "Mas ele não perde por esperar... Não perde mesmo!"

O início da reunião com Erik foi um imenso sacrifício para Fefê. Sentia-se cansado, com muito sono, parecia-lhe que o holandês falava com ele de muito longe, suas palavras chegando-lhe aos ouvidos como se viessem do fim de um túnel. Já tinha sido difícil chegar dirigindo ao Pandoro, e por vários momentos quase adormecera nos momentos em que o trânsito, sempiternamente pesado e engarrafado, se estagnava.

Pediu um café bem forte e, quando o holandês chegara, estava qua­se dormindo.



  • É o efeito do comprimido — explicou Erik. — Nas primeiras vezes em que se toma, ele faz isso. Depois, você aprende a combater esse efeito colateral e se acostuma.

Pediu para o garçom trazer uma dose de vodca para o rapaz e um uísque para ele, aconselhando:

  • Neste instante, o melhor remédio é um bom copo de álcool. Você vai ver como melhora.

Erik estava certo. Dez minutos depois de ter tomado, de um só tra­go, a dose de vodca, Fefê já estava bem melhor, mais desperto e conseguiu entregar a papelada para o holandês, explicando-lhe onde o representan­te da importadora tinha de assinar.

Para sua surpresa, foi o próprio Erik que assinou os papéis.



  • A empresa é minha — explicou ele. — Tanto aqui como na Holanda.

E, entregando-lhe os documentos, perguntou:

  • Você estará livre amanhã à noite? Temos um programinha, se você quiser...

Fefê sorriu. Mesmo que estivesse comprometido até a raiz dos cabelos, ele daria um jeito. Já fazia uma idéia do tipo de programa que o novo amigo proporcionava e não perderia aquela oportunidade de jeito nenhum!

  • O que você tem em mente? — indagou, com o intuito de não se mostrar ansioso.

  • São duas amigas — respondeu Erik. — Chegaram anteontem dos Estados Unidos e...

Fez uma expressão bastante significativa, e Fefê adiantou:

  • Tudo bem... Darei um jeito de estar livre. Apanho você no seu hotel.

  • Não estou mais no hotel. Com a chegada das meninas, estou no apartamento delas.

No guardanapo, escreveu um endereço e entregou-o para Fefê, complementando:

  • Chegue cedo. Marquei com as meninas às nove da noite. Samira, a que mora nos Estados Unidos, quer preparar o jantar. E ela é uma grande cozinheira. Pode acreditar!

Na verdade, Fefê não estava nem um pouco interessado nos dotes culinários da moça, mas sim em outras "habilidades" dela.

  • O que ela faz nos Estados Unidos? — perguntou.

  • Ela é modelo fotográfico — respondeu Erik. — Não teve muito sucesso; você sabe como as coisas são. Para sobreviver, ela se apresenta como dançarina em night clubs. Conheço melhor a amiga dela — já tra­balhou para mim, na Holanda. Atualmente, ela está vivendo no Brasil e, como representante de vendas, às vezes precisa ir aos Estados Unidos. O apartamento é dela.

  • Então a tal Samira é dançarina... — indagou o rapaz, com ex­pressão sonhadora, já imaginando a moça. — Ela é bonita?

  • Muitíssimo! Aquele tipo de árabe que tem uma sensualidade à flor da pele... Você precisa vê-la apresentando a dança do ventre ou a dos sete véus...!

Fefê sorriu. Ele bem podia imaginar, e a imagem de uma odalisca volteando ao seu redor surgiu em sua mente.

Guardou o endereço na carteira e garantiu:



  • Estarei lá, Erik. Você já conseguiu me deixar muito mais do que curioso!

O holandês se levantou e, estendendo a mão para o rapaz, salientou:

  • Estou um pouco apressado, hoje. Preciso chegar cedo ao aparta­mento, pois tenho algumas coisas a tratar com Helen...

  • Helen? — indagou o outro, com expressão interrogativa. — É esse o nome da amiga da Samira?

  • Sim — respondeu o holandês. — E eu não devo deixá-la espe­rando. Você entende, não?

Fefê sorriu maliciosamente. Sim, ele entendia. Ou, pelo menos, pen­sava que entendia. E sentiu, em seu íntimo, uma grande inveja de Erik. Ele, pelo menos, tinha alguém que o estava esperando, alguém que lhe abriria a porta de seu apartamento e, possivelmente, as portas do coração. Deveria ser muito agradável essa sensação de ser esperado, de chegar em casa e al­guém beijá-lo, abraçá-lo, mimá-lo... Erik era um homem feliz.

E ele? Quem o esperaria? Algum dia teria alguém a esperá-lo, com saudades e carinho?

Fefê pagou a conta e, começando outra vez a sentir cansaço, foi para casa, onde ninguém, nem mesmo sua mãe, o estaria esperando.

"Também, ela já está tão acostumada com as minhas chegadas de madrugada... Esperar por mim para quê?", pensou ele, já se dirigindo para a rodovia Raposo Tavares. "Hoje, até é bem capaz que ela se assuste ao me ver chegar para o jantar!"

Nesse momento, o telefone celular tocou. Era Marialva, mãe de Fefê, que o elogiou:


  • Seu pai me contou do novo cliente que você conseguiu, meu filho. Fiquei muito feliz! Eu sempre soube que você, um dia, haveria de ser um grande executivo!

E, sem dar tempo para que o rapaz dissesse qualquer coisa, ela completou:

  • Eu gostaria que você viesse jantar em casa, hoje. Estou pre­parando aquela peixada que você gosta tanto, e seu pai quer abrir uma garrafa de champanhe...

Fefê aquiesceu, sorriu intimamente, embora a idéia daquele jan­tar, no fundo, o desagradasse. Mais uma vez, seus pais estavam mostrando que era absolutamente surpreendente o fato de ele ter conquistado um cliente para a empresa. Tão surpreendente que seu pai comentara em casa, e o fato merecera um jantar especial, regado a champanhe.

Explicando à mãe que ele já estava a caminho de casa, desligou o telefone e pensou: "Só espero que esse entusiasmo todo possa repre­sentar algum dinheiro a mais para o meu bolso... Estou quase a zero outra vez e, se amanhã eu precisar gastar alguma coisa, terei de entrar no cheque especial!".


O jantar transcorreu às mil maravilhas, e Fefê chegou a se surpreen­der com o apetite que sentia. Fazia, realmente, muito tempo que ele não comia com tanta vontade e, melhor ainda, conseguindo apreciar o sabor. É verdade que estava mais do que acostumado a pratos finos, a verdadeiras obras de arte de chefs de cozinha dos melhores restaurantes de São Paulo. Entretanto, era pouco provável que, efetivamente, conseguisse sentir o paladar daquilo que comia. Havia sempre aquela gastrite para atrapalhar, havia sempre um senão qualquer que o irritava e, no fundo, sempre esti­vera muito mais preocupado com o preço — quanto mais caro, melhor — daquilo que mandava vir para a mesa, do que com o verdadeiro prazer de comer. Já aquela peixada, feita com carinho e temperada com o orgulho da mãe, pareceu-lhe um manjar dos deuses.

Só houve um momento, durante toda a refeição, que o decepcio­nou. Foi quando Fernando, muito sério, disse:

— Quando recebermos a comissão sobre essa transação, mandarei depositar em sua conta bancária o valor de sua parte no negócio. É assim que acontece com seus irmãos e é assim que será com você.

O rapaz nada disse. Sabia que seria inútil argumentar e que, afinal de contas, o pai até estava sendo bastante magnânimo. Ele poderia ter dito que lançaria essa importância em sua ficha de conta corrente na empresa, o que significaria que ela desapareceria de imediato na subtração de seu débi­to. E ele tinha dito que depositaria o dinheiro em sua conta. Logo, seria um dinheiro que o próprio pai estava considerando extraordinário.

Com isso, portanto, sua situação financeira não se resolveria, pelo menos de imediato. E ele estava precisando tanto de dinheiro!

Fefê disfarçou um suspiro de desalento e, para mudar o assunto, perguntou:



  • E o Gilberto? Quando vai voltar?

  • Ele vai demorar um pouco mais do que prevíamos — respondeu o pai. — Marina só vai se casar em dezembro, e ele precisa estar lá para ajudar a pôr em ordem o escritório e a carteira de clientes. Com isso, você terá de ficar no lugar dele por mais algum tempo.

Sorrindo, deu uma palmada amistosa no ombro do filho e acres­centou:

  • Mas isso não tem importância nenhuma! Você está desempe­nhando bem, agora! E tenho certeza de que ainda vai ficar bem melhor!

Servindo mais champanhe para si e para o rapaz, indagou:

  • Como você conheceu esse holandês?

  • Fui apresentado a ele num happy hour — explicou Fefê. — Disse-lhe que trabalhava com importação e exportação.

Modificando um pouco a verdade, a seu favor, o rapaz continuou:

  • Ele estava com dificuldades para realizar essa importação em tempo hábil e eu lhe disse que, para nós, seria fácil conseguir o prazo que ele precisava.

O pai assentiu com a cabeça e ressaltou:

  • Mas é realmente difícil conseguir tudo em tão pouco tempo. Graças a Deus que nós temos uma porção de conhecidos na alfândega e na Receita Federal... Se não pudéssemos contar com essas pessoas, certa­mente estaríamos nas mesmas condições das outras empresas.

E, olhando intensamente para o filho, disse:

  • Para que as coisas andem mais depressa, será preciso que você ajude, Fefê. Você terá de ir pessoalmente levar a documentação e destravar a máquina burocrática. E é uma coisa que dá bastante trabalho e aborrecimento...

  • Não se preocupe, pai — retorquiu o rapaz. — Essa conta é mi­nha. Sei que haverá muitas outras transações a serem feitas com o Erik. Vou cuidar de tudo; pode deixar.

E foi, efetivamente, o que ele fez. Já no dia seguinte, bem cedo, Fefê estava de pé, engravatado e pronto para iniciar a peregrinação, por incontáveis departamentos e repartições públicas, necessária à agiliza­ção de um processo que, normalmente, levaria cerca de um mês para estar pronto.

Ao vê-lo assim vestido e arrumado à mesa do café-da-manhã, coisa que jamais acontecia, pois Fefê não costumava acordar antes de onze ho­ras da manhã, Marialva sorriu e disse:

— Você está bonito, Fefê! Até parece um alto executivo!

O rapaz mordeu com raiva o lábio inferior, mas não retrucou. Ape­nas esboçou um sorriso, tomou seu café e, explicando à mãe que teria um dia muito cheio, saiu.

Trabalhou — talvez, realmente, pela primeira vez na vida — com uma dedicação surpreendente e, no fim do dia, ao voltar para o escritório, sentia-se bem, com a sensação do dever plenamente cumprido.

Durante todo o tempo, porém, seu pensamento não se afastou da combinação que tinha feito com Erik. Não deixou de pensar no programinha especial que deveria começar um pouco antes do jantar e não deixou de sonhar com Samira dançando só para ele...

O prédio em que se localizava o apartamento de Helen era um edi­fício antigo e bonito, em Higienópolis, um dos bairros residenciais mais sofisticados de São Paulo, um desses edifícios tipicamente de classe média alta, no qual seria difícil imaginar a existência de um apartamento onde se pudesse fazer uma farra.

— Só falta essas duas serem duas meninas daquele tipo que não faz nada... — murmurou Fefê, já no elevador.

Sacudiu a cabeça, naquele seu gesto de jogar para trás a imaginária mecha de cabelos, e tentou afastar de si esses pensamentos.

"Absurdo pensar isso! Só o fato de serem amigas do Erik já teria de ser suficiente para que eu soubesse quem elas são e o que podem fazer!"

Mais uma vez, a imagem de uma odalisca dançando passou por sua mente, e ele respirou fundo quando o elevador parou no décimo segundo andar.

Não precisou tocar a campainha, pois Erik já estava abrindo a por­ta do apartamento e exclamando, com seu vozeirão:



  • Entre, Fefê! Sinta-se em casa!

Justamente o que era extremamente difícil para ele... Assim que transpôs a soleira da porta, o rapaz começou a sentir aquele característico calor no rosto, a voz que parecia presa na garganta e as pernas um tanto quanto trêmulas.

E ficou ainda mais inibido ao ver, sentadas no sofá, as duas moças.

Erik apresentou-as, mencionando:


  • Helen, amiga de muitos anos, companheira de muitas venturas e desventuras... E Samira, a nossa dançarina...

Muito vermelho e encabulado, Fefê cumprimentou-as e sentou-se na poltrona próxima do canto do sofá onde estava Samira.

Enquanto Helen ia buscar as bebidas, ele procurou observar me­lhor a moça que estava ao seu lado, inclinada para a frente, arrumando espaço na mesa de centro.

Era, realmente, muito bonita. Morena, com longos cabelos negros e lisos emoldurando um rosto de linhas suaves e harmoniosas, Samira não disfarçava suas origens árabes. Seus olhos, escuros, grandes e profundos, pareciam ler os pensamentos que estavam passando pela cabeça de Fefê. E esses pensamentos tornaram-se ainda mais libidinosos quando o rapaz desviou o olhar para o corpo da jovem, mal escondido sob uma roupa marroquina, semi-transparente.

Samira percebeu para onde se direcionavam os olhos do rapaz e, com um sorriso, esclareceu:



  • Esta é a roupa que eu uso, em Nova York, nos meus números de dança do ventre...

Se Fefê já estava vermelho, ao ouvir aquela frase, ficou mais rubro ainda. Gaguejou alguma coisa elogiando a indumentária da moça e, nesse instante, Helen entrou na sala, acompanhada por Erik, trazendo a ban­deja com uma garrafa de vodca, outra de uísque, um balde de gelo, copos e... o tubinho de comprimidos do holandês.

Fefê teve de se controlar para não estender a mão em busca da droga. Entretanto, procurando a todo custo manter uma aparência comedida, ele não o fez. Foi Erik que, com um sorriso, depois que Helen tinha servido bebida para todos, apanhou o tubo e entregou um comprimido para cada um, anunciando:



Erik, Fefê e Helen tomaram, mas Samira deixou o comprimido que o holandês lhe tinha dado num cantinho da mesa e, sentando-se no chão, perto de Fefê, perguntou-lhe:

  • Já tinha tomado isso antes?

  • Sim — respondeu ele. — E achei maravilhoso!

  • Pode ser maravilhoso — disse a moça. — Só que apresenta um grande perigo...

Fefê olhou para ela, olhou para Erik com uma expressão interrogativa e surpresa, e este se apressou em explicar:

  • O superecstasy pode despertar paixões... E as paixões sempre tra­em perigos e problemas...

O rapaz sorriu, já começando a sentir a euforia provocada pela dro­ga, e disse:

  • Pois eu acho que uma paixão, de vez em quando, até que é muito bom!

Olhando para Samira, completou:

  • Principalmente quando a paixão é por uma mulher bonita...

Samira sorriu, pousou a mão sobre o joelho de Fefê e provocou:

  • No meu caso, por um homem tão simpático e atraente...

Em seguida, levantou-se, pegou o comprimido na mão e, puxando fefê pelo braço, convidou:

  • Venha comigo... Vou acabar de preparar o jantar e será bom tê-lo ao meu lado.

Com um olhar, mostrou Erik e Helen, que estavam se beijando, e concluiu:

  • E, assim, podemos deixar esses dois sozinhos por um momento.

Fefê acompanhou Samira de bom grado. Primeiro, porque estava se sentindo terrivelmente atraído por ela e, segundo, porque, se ficasse na sala, o máximo que conseguiria fazer seria ficar olhando o outro casal trocando carícias na sua frente. E, de cenas desse tipo, ele já estava mais do que farto.

Chegando à cozinha, Samira mostrou-lhe o fogão, sobre o qual, em fogo brando, as panelas trepidavam na fervura. Aproveitando que o rapaz estava olhando o interior das panelas, disfarçadamente ela jogou, no ralo da pia, o comprimido que ainda estava segurando e abriu a torneira.



  • Já comeu um cuscuz marroquino? — perguntou ela.

O rapaz fez que não com a cabeça, e Samira explicou:

  • É um prato árabe típico, à base de semolina, temperos e carne de carneiro. Eu trouxe os ingredientes principais de Nova York porque, na última vez que quis prepará-lo aqui, não consegui encontrar semolina pura, de boa qualidade.

Fefê estava muito perto dela, ouvindo-a falar sobre culinária, vendo-a mexer nas panelas com uma colher de pau. Samira percebeu seu olhar, virou-se, deu-lhe um rápido beijo sobre os lábios e arriscou:

  • Você nunca cozinhou nada em sua vida, não é mesmo?

E, antes que ele pudesse responder, ela completou:

  • Pois você vai ver que um prato como esse, que já por natureza pode ser bastante afrodisíaco por causa do tempero forte, fica ainda me­lhor quando é feito a dois...

Samira tinha razão. Depois do cuscuz, de alguns doces carregados de gergelim e mel e da dança do ventre magistralmente executada pela moça, durante todo o resto da noite, até o amanhecer do dia, Fefê sentiu-se um verdadeiro sultão de uma só odalisca. No entanto, era uma odalisca que valia por uma dúzia delas ou mais.

  • Você é o meu sultão... — disse Amina, abraçando-se a Hafez, novamente cheia de desejo. — E eu serei sempre a sua odalisca...

  • Um sultão tem direito a mais de uma esposa — brincou o árabe.

  • Lá nas Arábias! — exclamou a moça, beijando-o. — Estamos nos Estados Unidos e aqui a poligamia é proibida!

Afastou-se um pouco de Hafez para poder fixar seu olhar e acrescentou:

  • E, comigo, mesmo que estivéssemos em Bagdá, você seria só meu, e eu não admitiria que houvesse outra mulher!

  • Não é assim que reza o Corão — replicou Hafez, sério. — E você tem de ser uma mulher muçulmana. Uma esposa muçulmana!

Amina suspirou e nada disse. Sabia que havia chegado o momento de agir, em vez de responder, pois Hafez contra-argumentaria durante a noite toda, e essa conversa não levaria a lugar nenhum. Era melhor apro­veitar o tempo, e ela bem sabia como fazê-lo.

Puxando o árabe mais uma vez para si, ela murmurou:



  • Está certo, meu amor... Mas, por enquanto, estamos na América, e você está cansado de saber que eu sou muito mais americana do que muçulmana... E o engraçado é que eu tenho certeza de que você gosta de mim justamente por causa disso!

Hafez não teve o que dizer. Era bem verdade que ele adorava as liberalidades de Amina, apaixonara-se pela sua maneira de fazer amor e dificilmente haveria de trocá-la por qualquer outra mulher no mundo. Entretanto, também sabia que não deveria se deixar levar por essas fra­quezas. Ele tinha de ser um muçulmano, e um bom muçulmano, radical, seguidor dos preceitos do Corão.

Isso, porém, estava se tornando a cada dia mais difícil. Mesmo completamente contra sua vontade, ele estava percebendo que se americanizava, que passava a apreciar o famoso american way of life e que seus ideais religiosos estavam sendo substituídos por outros, muito mais ocidentais e mais consumistas.

Não tinha sido justamente por causa de uma idéia consumista que ele tentara economizar produzindo ele mesmo o explosivo plástico? E qual tinha sido essa idéia consumista? Simplesmente comprar um vestido — obviamente ocidental e bastante indecente — para Amina... E ele acabara por comprar o tal vestido, já pensando que daria um jeito de lançar o valor na relação de despesas obrigatórias com os preparativos para o ato terrorista que ele imaginava ter de praticar dentro de pouco tempo. Inventaria qualquer coisa, afinal de contas todo aquele material que estaria sendo adquirido não teria qualquer espécie de recibo!

Era bem verdade que os emissários ou intermediários de Al-Kayed, com quem ele mantinha contato, principalmente por e-mail, jamais lhe tinham solicitado uma prestação de contas. Tudo era na base da confiança e nem poderia ser de outra maneira. Al-Kayed sabia que poderia confiar em seus homens, mesmo porque eles não tinham outra coisa em mente que não fosse a guerra santa. E ele era um dos homens de Al-Kayed. Um dos homens de extrema importância para seus planos, segundo imagina­va, uma vez que lhe tinha sido dada a missão de encontrar correligioná­rios e, por fim, a de preparar o material para um ato terrorista.

Até encontrar Amina, ele tinha cumprido à risca seu papel. Depois que a moça surgira em sua vida, contudo, as coisas começaram a se mo­dificar um pouco, e Hafez passou a ponderar sobre a validade de alguns dos preceitos que ele vinha tão ferrenhamente defendendo. Assim, por exemplo, questionava a história de a mulher não poder se mostrar e não poder sentir prazer. Ora, uma das coisas que mais o realizava era justa­mente sentir os olhares de todos se voltando para Amina e, conseqüente­mente, para ele mesmo, o felizardo que a estava acompanhando. E a outra coisa era sentir o quanto Amina conseguia ter prazer com ele.

Exatamente como tinha acabado de acontecer naquele instante.

Hafez acariciou os seios de Amina, sorriu ao vê-la se aproximar novamente, e murmurou:


  • Não adiantaria ter outra mulher, Amina... Você nunca deixa sobrar nada de mim para mais ninguém!

Nesse exato momento, o telefone tocou, e Hafez, com uma expres­são de profundo desagrado, atendeu.

  • Localizei o homem do explosivo — contou-lhe Mohamed do outro lado da linha. — Deu trabalho, precisei ter muita paciência, mas consegui. Ele pode se encontrar conosco amanhã às duas horas da tarde.

Hafez refletiu por alguns instantes e, por fim, avisou:

  • Você estará sozinho, Mohamed. Não há necessidade de eu estar junto nessa negociação, e é melhor mesmo que eu não apareça, que ele não saiba, sequer, de minha existência.

  • Mas há o problema do dinheiro. Você precisará assinar o cheque...

  • Cheque?! — exclamou Hafez, subitamente colérico. — Mas, como assim, cheque?! Você acha que um negócio desses se paga com che­que? Para deixar todas as pistas possíveis?

Mohamed resmungou alguma coisa, e Hafez continuou:

  • Você vai pagar em dinheiro. Dinheiro vivo e, de preferência, notas velhas!

  • Mas não tenho essa importância! — protestou Mohamed. — São vinte e cinco mil dólares!

Hafez teve a impressão de que o mundo caía sobre sua cabeça. Vinte e cinco mil dólares! Era muito dinheiro!

Procurando se controlar, o árabe indagou:



  • Mas por que tão caro? O plástico é produzido com urânio enri­quecido, por acaso?

  • E um produto muito controlado, você sabe disso — respondeu Mohamed, depois de alguns segundos de silêncio. — Esse engenheiro meu amigo teve muita dificuldade em convencer o vendedor. Nós não estaremos pagando simplesmente o material, mas o risco que ele correu para consegui-lo.

E, com um tom de voz aborrecido, concluiu:

  • Agora... Se você acha que é muito caro, posso dizer que não interessa. E vamos procurar outro fornecedor.

Hafez pensou seriamente em dizer que era exatamente isso que de­veria ser feito. Entretanto, ao refletir um pouco melhor, se ele recusasse, teria de procurar outro que arrumasse o explosivo. Ele não tinha a menor idéia de quem pudesse fazer isso, tampouco vontade de pedir esse tipo de informação a qualquer dos intermediários de Al-Kayed. Em seu enten­der, seria o mesmo que confessar sua incompetência, e isso ele não faria de jeito nenhum. Além disso, tendo em vista que havia sido depositada na sua conta a importância de cento e cinqüenta mil dólares para essa operação, os escalões superiores deveriam ter idéia de que o explosivo era muito caro. O problema é que ele pretendia desviar o máximo possível para uso pessoal.

Com um suspiro, Hafez concordou:



  • Está certo... Passe aqui amanhã de manhã, e eu lhe darei o dinheiro.

Em tom ameaçador, alertou:

  • E cuide para que o material seja entregue o mais depressa pos­sível! E que seja de boa qualidade; caso contrário, você será responsabi­lizado e punido!

Mohamed desligou o telefone e sorriu, satisfeito, para o homem que estava ao seu lado.

  • Está tudo certo, Ramón... Ele vai dar o dinheiro — disse ele.

O homem a quem Mohamed chamara Ramón, um indivíduo atarracado, de cabelos muito negros e com todo o aspecto latino-americano, retribuiu o sorriso e comemorou:

  • Ótimo! Você fica com dez mil dólares e eu com quinze mil... Como combinamos!

Apertaram-se as mãos e separaram-se. Ramón desapareceu no meio da multidão, que, ali em Downtown, ainda circulava pelas ruas, e Moha­med tomou o caminho em sentido contrário, rumo ao estacionamento onde deixara seu carro.

Estava mais do que satisfeito. Conseguira ganhar uma bela bolada e, ao mesmo tempo, satisfazer as exigências de Hafez. Cinco quilos de explosivo plástico! O suficiente para fazer voar pelos ares a Estátua da Liberdade!

A única coisa ruim em tudo aquilo era ter de dividir sua parte com Peter, seu amigo engenheiro, que providenciara seu contato com Ramón.

Já deixando o estacionamento e dirigindo-se para a ponte do Brooklin, Mohamed pensou: "Bem... Acho que não será a única compra. Numa outra, dou um jeito de descontar. Além disso, é preciso saber dividir para conseguir multiplicar! E, de multiplicação em multiplicação, quando estiver com cem mil dólares, desaparecerei! E eles que se arrumem com toda essa história de terrorismo, de Al-Kayed e tudo o mais! Eu quero é sumir no interior do Brasil e viver sossegado o resto de meus dias!"



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