Quinze dias em setembro



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Capítulo VI
Depois daquela noite, Fefê não tinha cabeça — e muito menos coração — para outra pessoa que não fosse Samira. Ela passou a representar tudo para o rapaz, desde a companhia indispensável para um jantar, até mesmo o ideal e o objetivo de vida. Sua atração por Samira era tão grande que ele nem mesmo sentia mais necessidade de usar o supereestasy quando a encontrava: não se sentia inibido diante da moça, seu rosto não mais se afogueava e, quanto ao desejo... Bem, Samira, por si só, seria suficien­temente estimulante para fazer levantar um frade carmelita descalço e morto há muitos anos.

E, para fazê-la feliz, para recompensá-la pelos momentos agradáveis e inesquecíveis que ela lhe proporcionava, Fefê comprava-lhe roupas caras, pequenas jóias, enfim, gastava a rodo. Bem que ele gostaria de levá-la aos lugares da moda a que estava habituado a freqüentar, aos restaurantes caros, às boates... Ele adoraria estar acompanhado por ela, encontrar alguém de seu grupo e poder apresentá-la, envaidecendo-se:

— Samira, minha namorada...

A primeira namorada, na verdade! Mas disso, desse pequeno e ínfimo detalhe, ninguém no mundo precisaria saber...

Samira, porém, não queria saber desses programas. Alegava que preferiria ficar com ele em casa, cozinhar para ele, ser dele. No máximo, admitia ir a um motel, quando Erik e Helen ficavam no apartamento ou quando tinham alguma visita.

Com isso, com os presentes e noites em motéis — sempre os mais caros e sofisticados — o dinheiro de Fefê escoava como água por um ralo. E tão depressa que o dinheiro que lhe restava e o crédito que lhe sobrava em menos de um mês desapareceram.

Por sorte, nesse intervalo de tempo, ele recebeu sua parte na co­missão sobre a importação da empresa de Erik, e este, ainda, em sinal de agradecimento por tudo ter corrido tão bem, conforme lhe havia prome­tido, entregou-lhe um envelope com dois mil dólares, dizendo:


  • Não recuse, Fefê. Sei muito bem o que representa um dinheiro que não se espera. Ele deve representar para você o mesmo que a satisfa­ção que eu senti por ter meu problema tão eficientemente resolvido.

De fato, esse dinheiro, somado à comissão que recebera do pai, ajudara-o bastante a manter, pelo menos, o crédito no banco. Entretanto, o rapaz sabia que as despesas que tinha eram muito superiores às entradas que estavam programadas para o mês seguinte. Isso significava simples­mente que ele não teria mais crédito para lançar mão dentro de menos de trinta dias. Era preciso acontecer alguma coisa, era preciso fazer algo para garantir a boa impressão que estava transmitindo para Samira.

Sim, para Samira e apenas para ela, pois, desde que a conhecera, nem mesmo pelo grupo de amigos ele se interessava mais.

E ela fazia bem por merecer o empenho e a dedicação de Fefê. Era carinhosa, meiga, amante ardente e insaciável, tratava-o como se fosse o verdadeiro príncipe encantado de seus sonhos.

À noite, nas camas dos muitos motéis para onde ele a levava, ela mostrava ser a mulher inesquecível, insubstituível.

Essa mudança em sua vida alterou até mesmo o comportamento doméstico e profissional do rapaz. Ele ficava mais tempo em casa — se não estivesse com Samira, onde mais poderia estar? — trabalhava com mais afinco e, de repente, passou a mostrar muito mais responsabilidade dentro do escritório.

E essa impressão de homem sério que ele estava passando aumentou ainda mais quando levou para o pai outro contrato de importação de Erik.



  • Eu lhe disse que haveria mais — falou ele, sem esconder o orgulho.

Fernando sorriu, satisfeito, parabenizou o filho pelo trabalho que estava realizando e brincou:

  • Se eu soubesse que um prato de quibes e algumas esfihas teriam esse efeito sobre você, já teria dado um jeito de lhe apresentar uma árabe...

Ao contrário do que seria de se esperar, Fefê não levou a brincadei­ra para o lado ruim. Sorrindo, revelou ao pai:

  • Acontece que não são apenas quibes e esfihas que eu ando co­mendo, velho... Há também doces cheios de mel, sabia?

Fernando riu, assinou os documentos que o filho lhe tinha entrega­do e, devolvendo-os, continuou:

  • A vida é assim mesmo, Fefê. As coisas acontecem quando me­nos a gente espera. E pode estar certo de que eu fico feliz por você...

O rapaz já estava saindo da sala, quando o pai lhe perguntou:

  • E quando vamos conhecer essa sua odalisca?

  • Em breve, pai... — respondeu ele. — Assim que eu achar que está na hora.

Ao fechar a porta atrás de si, Fefê não pôde deixar de pensar que, por ele, a hora já tinha chegado havia muito tempo. O problema é que, quando sugerira a Samira, no meio de uma noite de amor desenfreado, um domingo em sua casa, com piscina, churrasco e a oportunidade de conhecer seus pais, ela recusara, alegando:

  • Ainda é cedo, amorzinho... Precisamos amadurecer um pouco mais a nossa relação.

A recusa de Samira deixara-o decepcionado. Essa decepção, po­rém, não durou mais do que alguns minutos, pois, logo em seguida, ela o levou, com suas carícias e seu amor, a viajar por sonhos dignos dos contos de Sheerazade...

  • E então? — perguntou Erik. — Como está a situação com Fefê?

  • Está bem — respondeu Samira, de forma evasiva. O holandês fez uma expressão contrariada e insistiu:

  • Que está bem dá para perceber. O que estou querendo saber é se você acha que ele está no ponto. E não me venha com respostas enigmá­ticas. Você já sabe o que acontece!

A moça respirou fundo e, depois de alguns instantes em que ela pareceu se controlar e procurar as palavras que iria usar, respondeu:

  • Acho que ele está apaixonado.

  • Isso é bom... — fez Erik. — Nesse caso, acho que já podemos dar continuidade ao plano.

Samira olhou intensamente para ele e, um tanto constrangida, pediu:

  • Não o prejudique, Erik. Ele não merece. E um rapaz de boa alma, muito complexado e recalcado. Cheio de problemas.

  • Não vou prejudicá-lo — disse o holandês, muito sério. — Vou lhe dar uma oportunidade, só isso. Caberá a ele saber aproveitá-la.

Semicerrando as pálpebras, ele continuou:

  • E também a você estou dando uma oportunidade. Falei hoje, pelo telefone, com a agência em Nova York. Eles vão entrar em conta­to com você e será uma oportunidade de ouro para que consiga o que sempre sonhou.

Samira sustentou o olhar de Erik e, depois de alguns instantes, perguntou:

  • Você vai manter a sua palavra, Erik?

  • Alguma vez deixei de cumprir o que prometi?

Ela poderia dizer, naquele momento, que uma coisa é cumprir a pro­messa feita e outra é cumpri-la, mas... sempre cobrando alguma coisa a mais. E era justamente isso que Erik costumava fazer. Ele sempre achava alguma coisa a mais para pedir, ou, melhor dizendo, para obrigá-la a fazer.

  • Você sabe o que eu quis dizer, Erik — insistiu Samira. — Estou perguntando se esta será a última vez.

  • Duvido que você não venha a me procurar, no futuro — respon­deu o holandês, com um sorriso maligno. — Acho que, cedo ou tarde, você vai voltar a me telefonar.

A moça não retrucou. Na verdade, ela gostaria de lhe dizer que não, nunca mais haveria de procurá-lo, que realmente aquela seria a úl­tima vez que ela se deixava envolver e, com isso, acabava sempre presa a ele, às suas vontades e às suas ordens. Entretanto, Samira já o conhecia de longa data e sabia o quanto Erik podia ser vingativo. Se ela o desagradas­se naquele momento, era muito provável que ele telefonasse para Nova York e desse um jeito de prejudicá-la.

E, para a moça, aquele contato — que certamente resultaria num contrato — era extremamente importante. Representava sua liberdade; bastava que ela soubesse administrar corretamente a oportunidade.

Assim, ela se limitou a sorrir e a murmurar:


  • Espero que não precise... Você sabe que estou cansada dessa vida. Quero poder sossegar um pouco e tentar seguir a carreira que escolhi.

O holandês pousou a mão sobre o joelho de Samira e alegou:

  • Já fiz a minha parte. Agora, falta apenas você fazer o restante da sua. Ele deverá estar em minhas mãos dentro de uma semana. Totalmente em minhas mãos. Basta que você saiba agir direito. Depois, estará livre para fazer o que quiser.

Sua mão subiu do joelho de Samira para sua coxa, provocando uma desagradável sensação de repulsa na jovem. Contudo, ela sabia que tinha de se controlar, tinha de aceitar e ficar calada; caso contrário...

  • Você sabe muito bem o que deve fazer — disse Erik. — E sabe, também, que é melhor que o faça. Não gosto de ser contrariado...

Inclinou-se para Samira, beijando-lhe o pescoço, enquanto sua ou­tra mão procurava abrir sua blusa para lhe tocar os seios. Samira perma­neceu estática, e o holandês declarou:

  • Sei que você não gosta de mim, que despreza minhas carícias, Samira. Mas sei, também, que tenho o direito. Foi esse o trato que fize­mos, está lembrada? Você seria minha quando eu bem quisesse... E, neste momento, eu quero!

A moça levantou-se do sofá, disfarçando um suspiro de infelici­dade. Sim, ela lembrava. Lembrava até com muita raiva daquela noite, em Nova York, quando ela estava sem um centavo e sem saber como passaria o dia seguinte. Lembrava-se de ter sido abordada, logo depois de seu número de dança do ventre, por aquele holandês que lhe sugerira passarem o resto da noite em seu hotel. A princípio, ela recusara. No entanto — algum tempo depois, ela descobriria por que havia ficado com ele —, Erik a fizera tomar um drinque e, então... Depois de alguns minutos, Samira passara a achar que aquele homem, e somente ele, seria capaz de satisfazê-la. Acabaram indo para a cama e, já no dia seguinte, ele começara a pressioná-la. Erik conhecia o proprietário do night club onde Samira se apresentava e simplesmente a ameaçara de fazê-la ser demitida, caso não concordasse com o que ele iria lhe propor.

E, dessa maneira, a moça caíra nas garras de Erik...

Primeiro, foram noites e mais noites de orgia, de uma orgia esti­mulada por um desejo que ela não conseguia entender, por uma paixão desenfreada e estranha, que durava enquanto ela estava perto dele. Por mais que Samira tentasse evitar, era sempre a mesma coisa: logo após o jantar, ela começava a desejá-lo, mas a desejá-lo tão intensamente que nem sequer conseguia se controlar. Depois, ela descobriu que ele a estava drogando, estava misturando, nos drinques que lhe servia, alguma coisa que a deixava daquele jeito. Ela estrilou, ameaçou, disse que iria à polí­cia... Mas Erik estava com todas as armas. Com um sorriso sarcástico, ele avisara que, se ela quisesse fazer alguma coisa contra ele, que estivesse à vontade. Só que, com certeza, iria incriminá-la e, como sua situação no Departamento de Imigração não estava regular, ela seria mandada embo­ra dos Estados Unidos e nunca mais poderia voltar. Entretanto, se a moça concordasse com ele, se se dispusesse a ajudá-lo, ele daria um jeito de regularizar sua situação e, além disso, ela ganharia um bom dinheiro...

Samira não tivera escolha e aceitara... Começara a fazer com que outras pessoas se envolvessem com Erik e se tornassem dependentes dele.

Naquele instante, porém, Samira estava pagando seus últimos dé­bitos com Erik. Dependeria, apenas, de fazer com que Fefê virasse mais um de seus escravos...

Com movimentos estudados, porém frios, ela começou a despir a blusa.

Estava para fazer um mês e meio desde que Fefê conhecera Samira quando, em uma noite de quarta-feira, encontrou-a chorando.

— Mas o que houve? — perguntou ele, aflito. — Por que essa choradeira?



Entre lágrimas e carinhos, a moça lhe disse que tinha acabado de receber uma carta de Nova York convidando-a para um ensaio fotográfi­co. E ela não tinha dinheiro para ir.

  • Seria a oportunidade de minha vida! — queixou-se Samira. — E eu vou perdê-la!

Sem raciocinar, Fefê adiantou:

  • Não, querida. Você não vai perder essa oportunidade. Pode dei­xar que eu arrumo as coisas para você.

Um sorriso iluminou o rosto da moça, e ela, ainda com os olhos cheios de lágrimas, indagou, ansiosa:

  • Verdade, Fefê? Você faria isso por mim? Você me emprestaria esse dinheiro?

E, abraçando-se a ele, continuou:

  • Seria por pouco tempo, querido... Vou ganhar bem com esse ensaio. Poderei lhe devolver o dinheiro assim que receber!

  • Você não precisa se preocupar com isso, Samira. Só precisa me dizer quando pretende ir, para que eu possa me programar.

Uma sombra de preocupação passou pelos belos olhos da moça, e ela murmurou:

  • Sexta-feira... Preciso estar lá no domingo...

Era um prazo bastante curto. Nem tanto por causa do dinheiro, uma vez que ele teria, obrigatoriamente, de usar o restante de seu crédi­to no banco. Fefê achava que era pouco tempo para ele poder ficar com Samira...

  • E quando você vai voltar? — quis saber ele.

  • Assim que receber o dinheiro do ensaio. Acho que, no máximo, quatro meses.

  • Quatro meses? — exclamou o rapaz, desconcertado. — Mas por que tanto tempo?

Segurando as mãos de Fefê, ela explicou:

  • Esse ensaio é para uma revista de moda. Normalmente, só as sessões de fotografias demoram mais de quinze dias. Depois, será preciso conferir tudo, e isso leva outro tanto de tempo. Portanto, cerca de um mês. Aí, vem o lançamento da revista, que é feito junto com o desfile e a apresentação dos modelos. Então, temos de esperar o pagamento, que demora, pelo menos, mais um mês ou um mês e meio.

  • Mas, se você só vai receber depois de tudo, como é que vai so­breviver em Nova York durante todo esse tempo?

  • Como sempre fiz... Vou dançar. Sei que Bill, o proprietário do night club onde me apresentava, guardou o meu lugar.

O rapaz empalideceu. Isso ele jamais poderia admitir! Samira, des­de que a conhecera, não poderia se apresentar para mais ninguém! Ela era dele, somente ele é que tinha o direito de vê-la nua, de tocá-la, de usufruir seu carinho e seu amor!

  • Isso não! — exclamou, com veemência. — Isso eu não vou permitir!

Samira olhou para ele com expressão de surpresa, e Fefê perguntou:

  • Quanto você vai ganhar nesse ensaio?

Ela sorriu. Balançou a cabeça negativamente e disse:

  • Sinto muito, meu amor... Sei o que está pensando. Mas isso eu não vou aceitar. Não é tanto assim pelo dinheiro que vou receber com o ensaio. Trata-se de minha vida, de minha carreira, daquilo de que eu gos­to de fazer. Meu sonho é ser uma modelo famosa, requisitada, ser capa de revistas, essas coisas... E, para realizar esse sonho, sempre estive disposta a qualquer tipo de sacrifício.

E era justamente isso que amedrontava o rapaz. Saber, ter certeza de que Samira poderia até mesmo se prostituir para poder chegar a estre­lar uma capa de revista.

Controlando-se para não mostrar o que lhe ia pela alma, Fefê explicou:



  • Não tenho nada contra você se tornar uma modelo famosa e ser capa de revista. Até acho que vou sentir muito orgulho disso. O que não concordo é você ir dançar num night club.

  • Mas eu preciso comer, não acha? — protestou a moça. — Preci­so comer, morar, me locomover... E isso não se faz sem dinheiro!

  • Sei disso. E talvez seja aí que eu possa fazer alguma coisa.

Abraçou-a com força, como se estivesse morrendo de medo de perdê-la, e suplicou:

  • Desde que você me prometa que não vai a nenhum night club, que vai se guardar para mim...

Samira riu, beijou apaixonadamente os lábios de Fefê e, num sus­surro, disse-lhe:

  • Mesmo que eu esteja dançando nua, estarei pensando em você, meu amor... Não tenha medo disso!

Fefê afastou-a um pouco e assegurou:

  • Isso não vai acontecer, Samira. Simplesmente porque você não precisará dançar nua em lugar nenhum. Você vai sair daqui levando o dinheiro necessário para ficar bem instalada e sem passar nenhuma ne­cessidade pelo tempo que precisar. E, depois, você voltará para mim, e aí nos casaremos...

A moça arregalou os olhos. Por um momento, pensou em dizer para ele que casar era coisa que não estava em seus planos, pelo menos pelos próximos dez anos... Mas decidiu calar. Experiente, conhecia muito bem os homens e sabia que as paixões, assim como a maioria das doenças, eram um mal que sarava. Fefê iria sarar. Iria se esquecer dela e, depois que ela voltasse — se voltasse —, ele estaria em outra, cercado de outros interesses e de outras mulheres. O que eles estavam vivendo era muito gostoso, mas ela sabia que cedo ou tarde haveria de terminar. E isso seria o certo. Ela poderia — como de fato estava acontecendo — gostar daquele rapaz. Mas já gostara de outros, já se sentira amada por outros, e sabia que l udo acabaria. Não, ela não queria casar, mas, por outro lado, sabia que não seria prudente dizer isso para ele.

Assim, mostrando-se feliz com a idéia, ela o abraçou sem dizer nada, ciente de que, em certos momentos, o silêncio é sempre a melhor das respostas.

Evidentemente, Samira proporcionou a Fefê uma noite absoluta­mente fantástica e, quando ele acordou, na manhã seguinte, ela lhe per­guntou:


  • Você acha que eu seria capaz de pensar em outro homem, Fefê? Acha que eu trocaria você por outro?

Era o que o rapaz mais queria ouvir.

Com o ego inflado, ele murmurou:



  • Vou morrer de saudades, Samira...

  • Telefonarei todos os dias... Não vou deixar você me esquecer. — garantiu ela.

  • Como poderia esquecê-la? Você é a mulher da minha vida! A minha mulher!

Samira não retrucou. Limitou-se a beijá-lo com sofreguidão e puxá-lo novamente para si. No entanto, em seu íntimo, ela não se sentia bem. Naquele instante, ela estava se achando uma traidora, uma hipócrita. Estava desempenhando um papel horrível, explorando a ingenuidade de Fefê... Mas o que ela poderia fazer, se era, realmente, obrigada a isso?

Fefê deixou o apartamento com o cenho franzido. Estava profun­damente preocupado com o lado financeiro de tudo aquilo. Precisaria arrumar cerca de quinze mil dólares e tinha de ser imediatamente, pois Samira embarcaria na sexta-feira, ou seja, no dia seguinte.

"Onde vou arranjar esse dinheiro?" — pensou, com desespero. A passagem não seria nenhum problema; ele até poderia comprá-la a prazo. Com certeza, a prestação nem pesaria em seu orçamento. Mas quinze mil dólares em dinheiro vivo...

Isso ele não tinha a menor idéia de como conseguir! Não tinha de onde tirar essa importância e jamais poderia pedir a seu pai. Tampouco tinha um amigo que o pudesse ajudar naquele apuro.

Foi no momento em que estava ligando o contato do carro que se lembrou de Erik.

Nas últimas semanas, a intimidade entre os dois vinha aumentan­do sensivelmente e já se permitiam até mesmo algumas confidências.

Uma delas era o relacionamento entre Fefê e Samira.

Erik mostrava-se muito feliz com o desenrolar dos acontecimentos e vivia entusiasmando o rapaz a sedimentar a relação. Fora o próprio Erik que, certa vez, sugerira que Fefê alugasse ou comprasse um apartamento para Samira e fosse morar com ela.

Ao lembrar do amigo, o rapaz não vacilou. Pegou então o celular e ligou para ele.


  • Precisamos conversar — disse ao holandês. — Trata-se de um assunto urgente e muitíssimo sério!

Marcaram um encontro à hora do almoço, e Fefê sentiu-se muito mais aliviado ao ouvir o amigo dizer:

— Você parece preocupado, rapaz! Mas não se deixe levar por pen­samentos negativos. Lembre-se de que só não é possível enganar a morte. O resto, por pior que possa parecer, sempre tem uma solução!

Erik escutou em silêncio a história de Fefê e, quando este termi­nou, lembrou:


  • Não sei com o que você está preocupado, amigo. Dentro de uma semana chega outra carga, o que significa que você vai receber uma boa quantia...

O rapaz mordeu o lábio inferior, balançou a cabeça naquele seu gesto de jogar o cabelo para trás e disse, a contragosto:

  • Não sou eu quem vai receber a comissão. É a empresa. Eu terei apenas uma pequena participação. Pouco mais de vinte por cento da im­portância que estou precisando.

Erik, muito sério, permaneceu em silêncio, e o rapaz continuou:

  • Se você puder me adiantar esse dinheiro... Eu poderei ir lhe pagando, acho que em três meses consigo liquidar o débito.

O holandês continuou calado por mais alguns segundos e, toman­do um gole de uísque, revelou:

  • Não vou lhe emprestar o dinheiro, Fefê. Vou fazer com que você o ganhe e, na verdade, muito mais do que isso...

O rapaz arregalou os olhos e, baixando a voz de forma que somente ele pudesse ouvir, Erik comunicou:

  • Essa próxima carga vai atrasar.

Antes de Fefê abrir a boca para protestar, garantindo que não ha­veria o menor motivo de atraso, o holandês fez um gesto com a mão, pedindo-lhe que aguardasse, e prosseguiu:

  • Ela vai atrasar porque vou mandar modificá-la um pouco.

Mais uma vez, Fefê ia dizendo que nesse caso, sim, a carga teria de atrasar por causa da burocracia, mas Erik o impediu, explicando:

  • E é justamente agora que eu vou começar a usar os seus conhe­cimentos sobre os donos da noite.

Uma vez que Fefê, sem conseguir entender o que o holandês estava querendo dizer, permanecia de olhos arregalados e boca aberta, Erik explicou:

  • Vou mandar incluir na carga cem mil desses comprimidinhos... superecstasy. Você compreende?

Mas é tráfico! — exclamou Fefê, com expressão de terror. — É uma loucura! Isso dá cadeia!

Erik sorriu e, balançando negativamente a cabeça, alertou:



  • Só dá cadeia para os imbecis. E nós dois não somos imbecis.

Sempre em voz muito baixa, ele continuou:

  • Seu trabalho será encontrar proprietários ou mesmo gerentes de casas noturnas que queiram adquirir esses comprimidos a preço de ataca­do. Depois, é só entregá-los e pegar o dinheiro. Cada comprimido, no va­rejo, vale cinqüenta dólares. Ou seja, dez vezes mais do que o comprimido de ecstasy comum. A maioria já o conhece, só não tem acesso ao produto. Por isso, será fácil vender. E nós podemos vender a vinte dólares cada um. Você teria dez por cento da operação.

Fefê fez as contas de cabeça. Cem mil comprimidos de superecstasy renderiam nada menos que dois milhões e meio de dólares. E ele recebe­ria, portanto, duzentos e cinqüenta mil. Era um bom dinheiro.

  • Mas... — fez ele. — E o risco? Se alguém descobrir?

  • É para que isso não aconteça que você entra na história — respondeu Erik. — Você conhece as pessoas na alfândega e na Polícia Federal. Você tem, portanto, condições de desembaraçar essa carga sem maiores verificações. Além disso, você conhece as pessoas da noite... Será fácil, como já disse, encontrar os compradores. Em menos de trinta dias, você terá duzentos e cinqüenta mil dólares no bolso!

Se tudo fosse exatamente como Erik estava dizendo, realmente, a transação seria altamente lucrativa. E, de fato, ele conseguiria desembaraçar a carga sem perguntas e sem problemas, por intermédio de seus conhecidos.

De qualquer maneira, você não precisa mais se preocupar com o dinheiro para Samira. Eu o tenho aqui no bolso, por mera coincidência — encerrou Erik.

Assim dizendo, pôs diante dos olhos esbugalhados de Fefê um maço com cento e cinqüenta notas de cem dólares.

Mohamed olhou entusiasmado para o monte de notas de cem dó­lares que estavam sobre a mesa em seu quarto de hotel.



  • Setenta e cinco mil! — exclamou ele, com um sorriso de felici­dade. — Mais vinte e cinco mil e poderei desaparecer!

  • Você irá sem mim? — perguntou Esther, acariciando-lhe a nuca.

- Você partiria sem me levar?

Mohamed puxou-a para seu colo e, cobrindo-lhe os lábios com um beijo, assegurou:



  • É claro que não, Esther! Você teria de vir comigo mesmo que não quisesse, pois é a única pessoa que sabe do meu segredo!

A moça sorriu e, desabotoando a camisa de Mohamed, passou os dedos sobre seu peito peludo.

O árabe olhou para ela e, enfiando a mão sob sua blusa, acariciou- lhe os seios túrgidos, fartos e bem-feitos.

Esther era muito bonita... Realmente, Mohamed jamais tinha co­nhecido uma mulher como ela, que, além de bonita e sensual, sabia tão bem satisfazer seus caprichos e torná-lo feliz.

Não... Ele não a deixaria, em hipótese alguma. E ele estava pouco se incomodando que Esther fosse judia.

Sim, judia! Uma judia bonita, muito loura, alta, com o corpo escultural e com uma sensualidade que chegava a tocar as raias da loucura!

Por isso ele a escondera, por isso ele jamais a apresentara aos ami­gos e, na medida do possível, evitava sair com ela, pois não queria correr o risco de encontrar outro árabe, especialmente se fosse muçulmano, quan­do em sua companhia.

Fora por sugestão da própria Esther que ele acabara por aceitar fa­zer parte da célula de Hafez. E fora por ela, pelo sonho de poder tê-la para sempre, que ele tivera a idéia de roubar, literalmente roubar, de Hafez todo aquele dinheiro.

Ele encontrava perdão para seus atos afirmando para si mesmo que, afinal de contas, não era um terrorista e nem mesmo um muçulmano como deveria ser. Tanto que estava apaixonado por uma judia! Tanto que estava apenas esperando a oportunidade para fugir com ela!

Tudo começara com aquela primeira compra de explosivo plástico. A facilidade com que conseguira enganar Hafez no que se referia ao valor da transação animou-o. E mais animado ficou quando descobriu — em virtude de um descuido do próprio Hafez que, num momento de distra­ção, deixou-o ler uma das mensagens que recebia dos intermediários de Al-Kayed — como poderia arrancar mais dinheiro de seu amigo.

Bom técnico em informática e hacker habilidoso, não foi nem um pouco difícil usar a conta de Hafez e transferir, para várias contas suas, pe­quenas importâncias de forma esporádica. Mohamed agiu com segurança e a certeza de jamais ser descoberto, uma vez que sabia quanto Hafez estava gastando com Amina e que Al-Kayed nunca haveria de pedir uma prestação de contas sobre o dinheiro que enviava. Era importante que houvesse numerário suficiente para ser usado de imediato numa operação qualquer, e era por isso que ele não transferira, nenhuma vez, importância maior do que cinco mil dólares.

Assim, aos poucos, ele tinha conseguido juntar nada menos que setenta e cinco mil dólares!


  • Falta só mais um pouco — disse ele para Esther. — E poderemos sumir neste mundo!

Esther beijou-o apaixonadamente e murmurou:

  • Queria ser uma mosca para ver a cara de Hafez quando ele per­ceber a falta do dinheiro...

Como Mohamed nunca sequer tinha comentado sua existência e muito menos pensado em deixar que Ibrahim e Hafez a conhecessem, não lhe foi possível assistir à cena. Mas Mohamed presenciara tudo.

Hafez chegara certa noite ao restaurante de Abdo Farid com cara de quem tinha visto um fantasma. Até mesmo Amina, indefectivelmente em sua companhia e sempre sorridente, estava com um aspecto terrível.

Quando Ibrahim, mais íntimo de Hafez, perguntara-lhe o que ha­via acontecido e por que ele estava com aquela expressão preocupada, o árabe não respondera diretamente; dissera que estava indisposto, que tinha comido alguma coisa que lhe fizera mal. Entretanto, alguns minu­tos depois, quando Abdo Farid servira o jantar — kafta com mijadra e malfuf, pratos que não podem ser considerados leves —, e Hafez comera como um leão, ficara muito claro que ele mentira. Fora somente depois de muito insistir e de garantir que amigos são também para os momentos difíceis, que ele acabara por contar que estava muito preocupado com os gastos que vinha tendo e não sabia explicar de que forma o dinheiro estava escoando daquela maneira.


  • Mais de sessenta mil dólares em tão pouco tempo! — exclamara Ibrahim, espantado, quando Hafez dissera o montante gasto. — Deve estar acontecendo alguma coisa, ou algum problema no banco... não é possível!

  • Por que você não solicita uma verificação em sua conta? — su­gerira o próprio Mohamed.

  • Não posso fazer isso — respondera Hafez, desanimado. — O banco poderia questionar a origem do dinheiro. E aí? O que eu poderia responder?

  • O banco não tem o direito, nem interesse, de fazer tal pergunta insistira Mohamed, procurando não mostrar seu alívio.

  • Pode ser — explicara Ibrahim. — Mas, como um pedido de verificação soaria ao banco como uma acusação, meramente como reta­liação, este poderia encaminhar ao Tesouro uma notificação de suspeita. E do jeito que as coisas estão, hoje em dia, uma conta alta, de um árabe, em que a origem do dinheiro não se justifica...

  • Pois é... — concordara Hafez. — O perigo é exatamente esse. Por isso, não posso fazer nada a não ser tratar de economizar o máximo possível para ter dinheiro em caixa, disponível, caso Al-Kayed me dê alguma missão!

Olhando para Esther com um sorriso divertido, Mohamed contou o que acontecera naquela noite, e completou, levando a mulher nos bra­ços para a cama:

  • Desde aquele dia, parei de fazer essas transferências. Achei mais seguro. Mas, dentro de mais alguns dias, ele deverá receber uma grande bolada. Aí, farei a última transferência e...

  • Iremos para o Brasil, não é mesmo?

  • Sim... Acho que lá ninguém vai nos descobrir, nem poderá nos atormentar...!

Exatamente às dezoito horas da sexta-feira, o Boeing 747 da Varig decolou rumo a Nova York, levando Samira com a bolsa cheia de dólares, a mente cheia de esperanças e o coração carregado de pesar.

Nos últimos dias, ela tinha realmente aprendido a amar aquele ra­paz, passara a entendê-lo e, no fundo, a ter muita pena dele. Fefê mostra­ra-lhe a ingenuidade de uma criança, a carência de um homem solitário e a dedicação de um apaixonado.

E ela levara-o a um tal estado de desespero com sua partida... Ele não merecia isso! Mas, enfim, o que ela poderia fazer? Como mudar a trajetória do destino? Do seu destino?

Entretanto, precisava alcançar suas metas. Era necessário, impres­cindível mesmo, que ela passasse por cima de qualquer obstáculo, até mesmo de um grande amor — ou do amor-próprio.

"Não tenho o direito de ter amor-próprio!", pensou Samira, sen­tindo os olhos se encherem de lágrimas. "Preciso ser objetiva, determi­nada. Só assim conseguirei chegar a ser uma modelo internacionalmen­te conhecida!"

Para agravar a situação, havia a proposta de casamento feita por Fefê. Para qualquer mulher, seria irrecusável. Afinal, apesar de baixinho e mirrado, ele era um excelente partido, um rapaz rico, de boa família, esta­bilizado na vida... O sonho da maioria das moças em idade de casar. Mas o sonho de Samira era diferente. Sempre fora, e ela não o poderia mudar.

A comissária de bordo passou por entre as poltronas enquanto o avião nivelava seu vôo, oferecendo jornais e revistas, distribuindo sor­risos e atenções. Samira enxugou os olhos, retribuiu o sorriso da moça, aceitou uma revista de moda e, acomodando-se melhor na poltrona, pensou: "Tenho tempo para resolver esse problema. Até eu voltar, estou certa de que Fefê já terá me esquecido ou, no mínimo, terá pensado melhor. Ele veio com essa história de casamento no calor do desespero, por causa dessa minha viagem. Foi isso. Na verdade, ele também não quer se casar tão cedo".

Recriminou-se mais uma vez ao lembrar que o rapaz lhe tinha arrumado não apenas a passagem, mas, principalmente, o dinheiro mais do que suficiente para que ela pudesse passar quatro meses em Nova York vi­vendo bem e sem qualquer espécie de preocupação financeira. E, quando ela repetira que lhe enviaria o dinheiro assim que recebesse, ele recusara, alegando que, como sua futura esposa, ela não poderia encarar aquilo como um empréstimo.

— Esse dinheiro é seu. Como vou me casar com você, ele também é meu. Nossos universos se completam, Samira. Fomos feitos um para o outro — declarara ele, já no portão de embarque para o vôo.

Folheando a revista, a moça viu um artigo sobre a vida das modelos em Paris, na Itália, nos Estados Unidos. Sorriu, com amargura, perceben­do que a jornalista que redigira a matéria relatava um mundo cor-de-rosa, rico, bonito, cheio de emoções e mesmo de amores incríveis. Na matéria, era citado o caso de uma modelo que se casara com um príncipe, de outra que tinha se unido a um grande industrial, descrevia uma vida social intensa e invejável. Samira sabia muito bem que aquilo que estava im­presso nas páginas da revista refletia única e exclusivamente as exceções. A grande maioria das moças que se aventuravam por essa árdua trilha não chegava sequer a ser modelo. Ela mesma era um exemplo. O máximo que conseguira fora ser modelo fotográfico... Jamais pusera os pés numa passarela; nunca estivera num desfile de modas.

Sentiu, de repente, uma pontada no estômago. Mais uma vez, ela mentira para Fefê. Dissera-lhe que seria modelo num ensaio sobre moda, mas isso estava um bocado longe de ser verdade. A menos que a moda, a partir daquele instante, passasse a ser andar nua... Seu ensaio era para uma revista masculina e, ainda por cima, das de menor circula­ção. Fora apenas aquilo que Erik tinha conseguido para ela. Na verdade, uma bela porcaria!

Samira, porém, tinha sido obrigada a aceitar... Era isso, ou voltar para os Estados Unidos sem qualquer outra perspectiva. Posando nua para aquela revista, pelo menos ela teria uma chance de ser vista por outro produtor, por um caçador de talentos, por alguém que vislumbrasse em suas formas e em seu rosto a possibilidade de sucesso futuro.

"Fiquei quase dois anos em Nova York e não consegui mais nada, além de ser dançarina de night clubs...", pensou.

Essa era outra mentira com que a moça, permanentemente, procurava enganar a si própria. Ela tinha conseguido outras coisas... Principal­mente no início, quando chegara à grande metrópole sem nada além dela mesma. De seu corpo. E a prostituição foi a única saída que encontrara.

Pelo menos, tinha sido assim até conhecer Erik.

Sacudiu com energia a cabeça, como se esse movimento fosse sufi­ciente para afastar de si essas lembranças.

"Não!", ponderou, respirando fundo. "Não quero me lembrar dessa parte de minha vida! Não posso me lembrar!"

Fechando os olhos, procurou adormecer. Na verdade, estava sen­tindo cansaço. Mexera-se o dia inteiro arrumando suas coisas para a via­gem e, na noite anterior, Fefê não a deixara dormir.

Sorriu, já sentindo a agradável modorra que antecede o sono. Lembrou-se que não tinha sido exatamente assim... Fora dela a idéia de compensar, da melhor maneira que sabia, o amor, o carinho e a dedicação do rapaz.



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