Quinze dias em setembro



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Capítulo VII
Já na segunda-feira, três dias depois da partida de Samira, Fefê começou a notar que a intimidade e a amizade de Erik tinham desaparecido com­pletamente. O holandês transformara-se, de um momento para o outro, num indivíduo cruel, frio, calculista e exigente. Bastava ver o que tinha acontecido durante o almoço.

Passava um pouco de dez horas da manhã quando Erik ligou no celular de Fefê, dizendo que precisaria conversar com ele, com extrema urgência.

Ora, exatamente naquele momento, o rapaz estava tentando fazer contatos com seus conhecidos da alfândega e da Federal para conseguir desembaraçar a carga que chegaria até o fim da semana, sem qualquer espécie de vistoria. Assim, ele não poderia ir imediatamente ao encon­tro de Erik.


  • Mas precisa ser já! — dissera o holandês, com uma voz que transparecia irritação.

  • É impossível, Erik — retrucara Fefê. — Estou aguardando uma ligação importante. Não posso sair do escritório. E é uma ligação exata­mente sobre a sua carga! Vamos marcar para a hora do almoço. Almoça­mos juntos e falamos o que for preciso.

Erik resmungara, dissera que estaria muito ocupado entre meio-dia e duas horas da tarde, reafirmara que o assunto era de extrema urgência, mas acabara concordando.

  • Está certo — falara. — Se não há outro jeito, almoçamos juntos e conversamos.

Antes de desligar, recomendara, enérgico:

  • Mas esteja lá ao meio-dia. Não se atrase!

Entretanto, os negócios se complicaram para Fefê, e ele só conse­guira a ligação que estava esperando às onze e trinta. Falara com o ho­mem, conseguira resolver tudo e ter a garantia de que a carga estaria liberada assim que desembarcasse do avião.

  • Só que você precisará estar aqui pessoalmente para recebê-la — avisara o amigo. — A garantia de que não há contrabando dentro da embalagem é você, meu velho! Portanto, esteja aqui em carne e osso ou eu não libero coisa nenhuma!

Fefê sabia muito bem o que isso queria dizer. Era uma maneira mui­to pouco sutil que o amigo tinha de avisar que uma propina não apenas seria bem-vinda, como também necessária. Aliás, coisa já bastante roti­neira quando se precisava de alguma coisa que, de uma forma ou de outra, tivesse de fugir um pouco das regras estabelecidas.

Pelo fato de essa ligação só ter sido possível tão tarde, Fefê se atrasa­ra para o encontro com Erik. Ao ver que já era quase meio-dia e ele ainda estava saindo do escritório, concluíra que jamais conseguiria chegar no horário combinado. Por isso, telefonara, já a caminho, para o holandês, avisando que seria inevitável pelo menos vinte minutos de atraso.

Ouvira um grito do outro lado da ligação:


  • Mas eu lhe disse para ser pontual! Cancelei uma reunião para me encontrar com você ao meio-dia!

Por mais que Fefê tivesse tentado se justificar, por mais que tivesse afirmado que o atraso havia ocorrido em razão de um assunto de impor­tância fundamental para ambos, Erik não se acalmara.

E continuara de cara amarrada durante o almoço, praticamente em silêncio.

Foi só no final da refeição que o holandês perguntou:


  • Já conseguiu encontrar quem compre a mercadoria?

Fefê olhara espantado para ele. Seria possível que Erik estivesse falando sério?

  • Você só pode estar de brincadeira comigo! — exclamara o ra­paz. — É claro que ainda não tive tempo!

  • Jamais brinco com meu trabalho — retrucara o holandês, ainda de cara fechada. — Muito menos quando esse trabalho envolve um in­vestimento tão grande! Você já deveria ter na mão o comprador.

Com expressão furibunda, perguntara:

  • Ou você acha que podemos guardar cinqüenta quilos de superecstasy no bolso até que você encontre quem os compre?

Fefê engolira em seco. Pela expressão de Erik e pelo tom de sua voz, rle realmente não parecia estar brincando.

Depois de um grande esforço, o rapaz explicara:



  • Nós falamos sobre isso na quinta-feira. Na sexta, Samira viajou. Depois tivemos o fim de semana. Hoje, segunda-feira, passei a manhã toda resolvendo o problema do desembaraço automático da carga. Esta­mos na hora do almoço... E você queria que eu tivesse cuidado da venda dos comprimidos quando?!

Erik respirara fundo, tamborilara com os dedos sobre a mesa e, levantando-se, antes mesmo de tomar o café, alegara:

  • Você está ganhando uma verdadeira fortuna com esse negócio. Trate de ter até depois de amanhã as pessoas que vão ficar com a droga.

Já se afastando da mesa, completara:

  • Como você disse, hoje é segunda. Telefone para mim na quarta-feira à noite. Se você não entrar em contato dentro do prazo, pode ter certeza de que vai se arrepender. E, veja bem, o preço mínimo é de dois milhões e meio pelo lote todo!

Com essas desagradáveis lembranças em sua mente, Fefê chegou, às quatro horas da tarde, ao escritório de João Antônio, seu amigo e proprietário de uma rede de danceterias na periferia de São Paulo.

Segundo imaginara o rapaz, esse seu amigo seria a pessoa mais pro­vável para comprar o superecstasy e, por isso, teria de ser a primeira a ser procurada.

Não foi nem um pouco difícil para João Antônio perceber que Fefê estava vivendo um momento de verdadeiro pânico. E isso trans­pareceu no instante mesmo em que ele, muito nervoso, oferecera-lhe a mercadoria.

De perceber o estado de espírito do rapaz a pressentir a possibilidade de um grande lucro foi um passo.



Mandando a secretária trazer um balde de gelo, uma garrafa de vodca e dois copos, ele revelou:

  • Conheço o superecstasy. É uma droga excelente e pode alcançar bom preço entre a molecada.

Serviu a bebida, ergueu seu copo num brinde mudo e acrescentou, com uma risada:

  • Aliás, não apenas entre a molecada. Mas também entre os mais velhos, que estão precisando de um... estímulo.

Tomou um gole de seu copo, esperou que Fefê fizesse o mesmo e advertiu:

  • O problema é que o preço anda muito por baixo... Sabe como é... A polícia tem dado em cima, e a gente tem de dividir os ganhos. Não posso pagar mais do que cinco mil dólares o milheiro.

Um frio intenso passou pelas entranhas do rapaz. João Antônio estava oferecendo apenas um quinto do valor mínimo!

  • Você só pode estar de brincadeira comigo! — exclamou ele.

E, tomando mais um grande gole de vodca, afirmou:

  • Não posso vender por esse preço — murmurou ele. — O míni­mo é cinco vezes isso!

  • Cinco vezes?! — riu João Antônio. — Você é que está de brin­cadeira, Fefê! Onde acha que vai encontrar esse preço? Em Marte?!

Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos e, acendendo um cigarro, João Antônio perguntou:

  • Quem lhe forneceu a mercadoria? E por quanto?

Antes que o rapaz pudesse dizer qualquer coisa, ele completou, num tom de voz encorajador:

  • Olhe... Sei que nesse tipo de negócio ninguém conta o fornece­dor. Mas estamos entre amigos, Fefê... Você sabe que eu lhe quero bem. Sabe que eu jamais permitiria que alguém o pusesse numa situação difícil, e é isso que estou vendo acontecer. Você pode me dizer como conseguiu a droga. Não vou atravessar sua transação. Mas basta ver como você está nervoso! Parece até que está morrendo de medo!

E, realmente, os nervos de Fefê estavam à flor da pele, tensos como cordas de violino. Sentia que não conseguiria agüentar mais. Lembrou-se do tom ameaçador de Erik, do medo que sentira do holandês naquele instante, e decidiu:

  • Não comprei droga nenhuma, João. A mercadoria é de um cliente meu, um importador holandês...

  • Por acaso ele se chama Erik Jansen? — interrompeu o outro.

Fefê olhou aparvalhado para o amigo.

  • Você o conhece?

  • Sim. Já tive negócios com ele. Comprei esse mesmo comprimido, cerca de um ano, um ano e meio atrás.

Com expressão muito séria, João Antônio acrescentou:

  • Foi a primeira e a última vez. Ele me enganou muito bem, um terço dos comprimidos eram apenas de farinha e açúcar.

Havia ódio em sua expressão quando confessou, com a voz mais baixa:

  • Bem que eu quis pegá-lo de jeito... Eu lhe teria dado uma lição, por mais que ele tenha fama de ser extremamente perigoso! Mas o ho­mem sumiu! Simplesmente desapareceu do mapa!

Fefê respirou fundo e serviu-se de mais vodca. Mais do que nunca sentiu que estava precisando do apoio do álcool. Estava começando a entender por que Erik quisera que ele fosse o contato com os executivos da noite. Ele, o holandês, não poderia aparecer sob pena de, pelo menos, levar uma bela surra! Erguendo os olhos para João Antônio, perguntou:

  • Por que você diz que ele tem fama de ser perigoso?

  • Dizem que ele já eliminou uns dois ou três que ficaram lhe de­vendo dinheiro... E deve ser verdade; basta ver a cara desse gringo!

Mais uma vez, Fefê sentiu o coração lhe bater mais forte dentro do peito. Erik eliminava os devedores inadimplentes...! E ele, naquele instante, era um desses devedores!

Para piorar seu estado de espírito, João Antônio indagou:



  • Você se lembra do Pedrinho? Aquele maconheirinho que vivia me tomando dinheiro emprestado e que nunca me pagou?

Fefê assentiu com a cabeça, e o outro prosseguiu:

  • Certa vez, esse Erik deixou na mão dele uma boa quantidade de superecstasy. Queria que ele vendesse os comprimidos, naquela época, por trinta dólares cada um. O coitado do Pedrinho não conseguiu mais do que dez dólares e, graças a Deus, levou a droga de volta para o holandês. Este ficou tão furioso, que lhe deu uma surra homérica.

Servindo mais vodca para o rapaz, arrematou:

  • Você pode ver que, até hoje, Pedrinho manca da perna esquer­da, quebrada pelo holandês com um taco de beisebol.

Fefê balançou a cabeça, jogando o cabelo para trás e, enfiando o rosto entre as mãos, gemeu:

  • Então, estou perdido... Não vou conseguir vender esses malditos comprimidos e, além do mais, estou devendo quinze mil dólares para esse holandês!

João Antônio disfarçou um sorriso. O peixe estava fisgado. Levantando-se de sua poltrona, ele contornou a escrivaninha e, pousando a mão sobre o ombro de Fefê, disse:

  • Não fique assim, meu amigo... Nem tudo está perdido e, garan­to, muito menos você!

O rapaz ergueu a cabeça e, com expressão de absoluto desamparo, perguntou:

  • O que está querendo dizer com isso?

  • Estou dizendo que tenho uma saída para sua situação. Uma saída muito boa e que ainda poderá fazer com que você ganhe muito dinheiro!

Voltou para sua poltrona e, em voz muito baixa, revelou:

  • Só preciso que você responda honestamente às perguntas que vou fazer e, depois, siga direitinho as instruções que vou lhe dar.

— Acho que você forçou muito no preço, Erik — comentou He­len, entrando no carro e destravando a porta para o holandês. — Esse rapaz jamais vai conseguir vender a mercadoria por esse valor!

Erik deu uma risada e, sentando-se ao lado de Helen, replicou:



  • Talvez ele não consiga, mesmo. Mas isso será bom. Pelo menos vai ficar me devendo o favor de eu não acabar com a carinha dele. E estará nas nossas mãos!

Enquanto a mulher ligava o motor, ele explicou:

  • Nós já estaremos ganhando bastante se ele conseguir a metade disso. E é o que vai acontecer. Daí, ele levará uma boa surra e perderá alguns dentes. Depois, tudo voltará a ficar bem, quando ele receber alguns dólares. Claro que não vou lhe dar os dez por cento prometidos; afinal, ele não vai ter conseguido fazer a transação pelo valor combinado. Mas, para quem vive gastando rios de dinheiro e que, na realidade, só recebe uma mesada gorda do pai, dez ou doze mil dólares vão lhe adoçar a boca e fazer esquecer as dores da surra. De mais a mais, ele estará preso a nós. Poderemos usá-lo outras vezes, até que ele se torne perigoso. Então...

Fez uma pausa e, com expressão carregada, continuou:

  • De qualquer maneira, ele já vai levar uns bons tabefes assim que eu o encontrar. A carga chegou já faz mais de duas horas, e ele ainda não entrou em contato comigo! Tentei ligar uma porção de vezes, mas o celu­lar desse idiota deve estar desligado, pois a ligação cai no correio de voz!

  • Pode ter havido um problema no celular ou até mesmo no sistema — alegou Helen. — Você já deveria saber como funcionam mal os celulares aqui no Brasil...

  • Não é desculpa! — exclamou o holandês. — Existe telefone público! Se ele tivesse um pouquinho de bom senso, já teria ligado de qualquer orelhão!

Sem conter a raiva que estava sentindo, acrescentou:

  • Por causa disso é que ele vai apanhar um pouco. Só para apren­der! Imagine! Obrigar-me a fazer o trajeto até o aeroporto unicamente para ter a certeza de que não aconteceu nada com esse playboy imbecil e presunçoso!

Helen ficou em silêncio. Pessoalmente, ela não aprovava os méto­dos de Erik, mas como o chefe era ele... Nada teria a dizer. Além disso, ela tinha uma participação importante nesse negócio e, desta vez, iria ganhar um bom dinheiro, mesmo que o preço conseguido fosse baixo.

"Vou receber essa bolada e desaparecer!", pensou ela, parando o car­ro no semáforo da avenida Angélica com a rua Piauí. "Já estou farta de vi­ver assim, na corda bamba! Assim que puser as mãos no dinheiro, irei para qualquer lugar no mundo, e duvido que Erik consiga me encontrar!"

E Helen estava seriamente pensando em agir assim. Permanecera naquele negócio por muito mais tempo do que imaginara. Suportara Erik além de seu limite de paciência. Estava cansada. Tinha conseguido juntar dinheiro suficiente para viver muito bem em qualquer parte do mundo e, na verdade, já poderia ter abandonado o holandês bem antes. Mas havia a ambição. E havia também o poder de convencimento de Erik. Ele dissera que aquele golpe seria fabuloso e que eles conseguiriam ganhar uma verdadeira fortuna. E a mulher prometera a si mesma que seria a última vez.

"E será mesmo a última vez!", — pensou ela, olhando de lado para o companheiro. "Dentro de poucos dias estarei muito longe daqui e não terei mais de agüentar esse indivíduo! Terei a vida para mim, só para mim! Nunca mais precisarei me humilhar perante homens como Erik e muito menos presenciar ou participar de cenas de violência!"

Helen era frontalmente contra os métodos violentos do holandês, mas nada podia fazer. O caso de Fefê, por exemplo. Desde o início, ela soubera que Erik estava querendo cobrar demais pela droga. Sabia que o rapaz jamais conseguiria obter aqueles valores e que o holandês estava sim­plesmente forçando-o a uma escravidão. E, para consegui-lo, como se não bastasse envolvê-lo num ato criminoso, tinha obrigado Samira a atraí-lo.

Nervosa, Helen tamborilou os dedos sobre o volante do automó­vel, impaciente com o trânsito. O sinal já abrira por duas vezes e tudo continuava parado.

A lembrança de Samira fez a mulher suspirar. Acendendo um ci­garro, ela pensou: "Pobre menina! Tão cheia de sonhos! E acabou se dei­xando apaixonar por esse rapaz! Coitada! Será mais uma frustração...".

Não pôde evitar um esgar de arrependimento e de raiva de si mes­ma ao lembrar que ela própria tinha grande parcela de culpa no que se relacionava a Samira. Afinal, fora ela quem a apresentara a Erik, dizen­do-lhe que era uma menina precisando com premência de dinheiro para poder se manter em Nova York. E Erik soubera muito bem se aproveitar da oportunidade.

Triste, recordou que chegara a ter ciúmes quando o holandês passou uma noite com a moça e, com ódio, lembrou do tapa que recebera dele, pois, segundo Erik, entre eles dois não poderia haver esse tipo de coisa. Tudo tinha de girar em função de negócios, e o fato de ele ter dor­mido com Samira não era mais do que uma manobra para tê-la nas mãos. Helen fora obrigada a aceitar, o rosto ainda ardendo por causa da mão pesada do companheiro. Calara e acabara participando diretamente do envolvimento da moça na rede de crimes cometidos por Erik.

Por Erik apenas? Não! Por ela, também! Ela era tão culpada quanto ele...

"Mas está para acabar!", pensou, respirando aliviada e percebendo que o tráfego recomeçava a fluir. "Dentro de alguns dias..."

O carro da frente andou alguns metros e parou outra vez. E, nesse momento, Helen escutou a buzina estridente de uma motocicleta à sua direita. Já habituada com os motoqueiros de São Paulo, ela girou o vo­lante para a esquerda e andou o pouco que lhe era permitido, mas que era o suficiente para a motocicleta poder passar à sua direita, furando o congestionamento.

E, então, aconteceu.

A motocicleta parou ao lado da janela aberta de Erik, e ela viu a arma, uma pistola de grosso calibre.

Ainda teve tempo de gritar:

— Cuidado, Erik! É um assalto!

No entando, não se tratava de nenhum assalto. Sem dizer uma pa­lavra, o homem que estava na garupa da moto disparou. Foram três tiros, numa rapidez inacreditável. A primeira bala acertou o ombro de Erik, jogando-o para a esquerda, sobre o colo de Helen. A segunda acertou a mulher na cabeça, e a terceira, a fronte direita do holandês.

O automóvel, no instante em que Helen foi atingida, deu um salto para diante, chocando-se com o carro da frente. E o motoqueiro, acele­rando, passou pela direita, subiu na calçada e ganhou a avenida Angélica, desaparecendo no meio do trânsito congestionado.

Fefê estava voltando do aeroporto, transportando, numa Blazer, a grande caixa com a mercadoria.

Ele estava nervoso, com o estômago a lhe dar voltas e mais voltas, ardendo como se ele tivesse comido pimenta pura.

Sua tarde tinha sido difícil. Recebera o telefonema de Caleu, seu amigo da alfândega, avisando que a carga tinha chegado, e que ele teria uma hora para retirá-la, antes que ela fosse levada para o depósito, para a inspeção de rotina. Correra como um louco para poder chegar a tem­po. Conseguira desembaraçar a encomenda sem problemas, graças ao envelope com mil e quinhentos dólares que entregara disfarçadamente para o amigo.

O perigo, porém, não terminava aí. Era preciso transportar a cai­xa para São Paulo e, mais especificamente, para o local determinado por João Antônio. E, em hipótese alguma, ele poderia fazer contato com Erik.

Tomou o caminho de volta com cautela, dirigindo com extremo cuidado e, contrariamente a seus hábitos ao volante, obedeceu rigorosa­mente a todas as normas de trânsito.

Usou até mesmo o cinto de segurança, pois a última coisa que po­deria desejar era ser parado por um policial rodoviário por causa de uma infração imbecil e, por mero azar, cair diante de um desses militares caxias que inventassem de lhe revistar o carro. Por mais que a documentação da mercadoria estivesse regularizada e legal, sempre haveria a possibilidade de ser apanhado em flagrante.

E, se isso acontecesse, estaria absolutamente perdido. Mesmo que alegasse ignorar o conteúdo da caixa, as circunstâncias pesariam contra ele. Não teria como explicar a pressa no desembaraço da carga, não conseguiria explicar a razão de ter ido pessoalmente buscá-la, em vez de enviar um funcionário da empresa, não poderia justificar seu envolvimento direto no caso, uma vez que cuidou pessoalmente de tudo, absolutamente tudo, contrariando toda a sua rotina administra­tiva de executivo.

Esforçava-se, ainda que em vão, para se acalmar. Dizia a si mesmo que não havia nenhuma necessidade de ter medo; afinal de contas, estava nulo correndo bem, e ele estava agindo perfeitamente de acordo com o que lhe dissera João Antônio:



  • Não se preocupe com nada e procure manter a calma. Você vai buscar a carga e levá-la para este endereço. Eu estarei lá. E com o dinheiro. Dirija com cuidado e não cometa imprudência nenhuma.

  • Mas... E Erik? — perguntara o rapaz, angustiado.

  • Erik é um problema meu — respondera João Antônio. — Deixe que me entendo com esse bandido. Como já lhe falei, você não precisa se preocupar com nada.

"Você não precisa se preocupar com nada..."

Com essas palavras na cabeça, Fefê dirigiu-se para o local indicado pelo amigo, em Osasco, enfrentando o trânsito com o máximo de estoicismo e paciência que podia ter. Era preciso chegar lá, e bem... Nada poderia acontecer que fosse por sua culpa. O resto estaria por conta de João Antônio.

Contudo, ele não conseguia deixar de pensar no holandês. Certa­mente, ele já teria sido avisado, na véspera, do embarque da mercadoria. Era o óbvio. O fornecedor, lá na Holanda, obrigatoriamente o teria avi­ado. Portanto, Erik deveria saber muito bem que a carga tinha chegado, e que ele, Fefê, já deveria estar com ela.

Pensou em ligar o celular só para ver se o holandês tinha chamado, mas desistiu. Uma das recomendações de João Antônio tinha sido exa­tamente essa: desligar o celular e não fazer contato com ninguém, muito menos com Erik.

"Ele deve estar furioso...", pensou o rapaz. "Se tentou ligar para mim e não conseguiu falar..."

De repente, um súbito temor o assombrou: Erik poderia, ao ver que não conseguia um contato pelo celular, ir ao seu encontro! Afinal, ele sabia onde a carga chegaria e qual o caminho natural do aeroporto para a cidade e, uma vez dentro de São Paulo, ele conhecia muito bem o trajeto lógico até sua casa.

Fefê, sentindo o estômago doer ainda mais, olhou pelo retrovisor, olhou para os lados, tentando ver se estava sendo seguido, tentando loca­lizar o carro de Helen que, com certeza, Erik estaria usando.

Entretanto, nada percebeu e sentiu-se um pouco mais aliviado quando deixou a rodovia e entrou na cidade. A partir daquele ponto, ninguém mais o descobriria. Estaria rumando para Osasco, para um local completamente fora da rota aeroporto—cidade e, se realmente não tives­se sido seguido, estaria fora de perigo.

Pelo menos, estaria fora de um perigo chamado Erik...

Foi com um suspiro profundo que ele desligou o motor da Blazer, já dentro do depósito, no endereço indicado por João Antônio.

Cinco homens de aspecto sinistro cercaram o veículo, e um deles mandou Fefê destravar a porta de carga. O rapaz obedeceu, e a caixa foi retirada e levada para os fundos do depósito.

Alguns segundos depois, João Antônio apareceu e, batendo amis­tosamente no ombro de Fefê, convidou:



  • Venha para o escritório... Vamos tomar alguma coisa.

Deu uma risada e acrescentou:

  • Acho que você está mesmo precisando de um gole...!

O escritório de João Antônio, naquele depósito, era simples, mas nem por isso deixava de ter um aparelho de televisão, uma pequena ge­ladeira e uma secretária bonita e sensual, cujas funções, evidentemente, estavam além de digitar cartas e atender telefonemas.

Quando os dois entraram, a moça serviu-lhes vodca, deixou a gar­rafa e o balde de gelo sobre a mesa, ligou a televisão e retirou-se.

Exatamente naquele instante, começava um noticiário televisivo local.

Fefê, que nunca fora das pessoas mais interessadas por noticiários de televisão, ia abrindo a boca para falar, quando João Antônio o intenompeu:

— Escute... Quero que você ouça esse noticiário.

O rapaz obedeceu e, voltando-se para a televisão, viu aparecer a imagem do âncora, que informava:



  • Por volta de quatro horas ocorreu, na esquina da avenida Angé­lica com a rua Piauí, o assassinato de um casal, dentro do próprio veículo, testemunhas contaram para a polícia que o assassino disparou de uma motocicleta. Os culpados desapareceram no meio do trânsito engarrafado c ainda não foram encontrados. As vítimas são os empresários holandeses Helen Stocker e Erik Jansen. Não parece ter sido um assalto, mas sim um assassinato encomendado...

Fefê empalideceu, suas mãos tremeram, seu coração bateu fora de ritmo por alguns segundos. Com muito esforço, os olhos arregalados, pre­gados na tela, conseguiu erguer o copo e tomar todo o seu conteúdo de um só gole, enquanto o jornalista continuava:

  • A polícia não encontrou nada suspeito no interior do veículo...

João Antônio, acionando o controle remoto, desligou a televisão.

Servindo mais vodca para Fefê, ele assegurou:



O rapaz tentou dizer alguma coisa, mas a voz não lhe saiu da gar­ganta. Com uma expressão divertida, João Antônio ironizou:

  • Ora, rapaz! Não fique assim! Na verdade, o mundo ficou livre de um crápula! De um cancro!

Mostrou uma pasta de couro que estava sobre a mesa e exclamou:

  • Aqui está o seu dinheiro. São seiscentos mil dólares, muito mais do que você estava esperando ganhar!

Com uma expressão séria, prosseguiu:

  • Você está livre de Erik. Porém, suas preocupações devem se voltar para outro aspecto do negócio...

Fefê, ainda atordoado com a notícia que acabara de ouvir, ergueu o olhar para o amigo, e este explicou:

  • Conheço você, sei como é a sua vida e como você é levado à rédea curta, por seu pai. Assim, será muito difícil você explicar como conseguiu tanto dinheiro... Seiscentos mil dólares fazem um volume res­peitável. Você não poderá deixá-los escondidos embaixo de sua cama, por exemplo. E, depositá-los em sua conta corrente, com certeza levantará suspeitas sobre a origem de uma soma tão vultosa.

Já um pouco mais lúcido, Fefê continuou a olhar para João Antônio, e este perguntou:

  • Você não possui uma conta aberta fora do país? De preferência num desses paraísos fiscais?

O rapaz negou com um gesto de cabeça, e o amigo insistiu:

  • Não conhece ninguém que tenha uma conta fora?

Fefê fez um esforço de memória e lembrou, de repente, que Samira lhe tinha dado o número de sua conta, em Nova York. Esboçando um sorriso, respondeu:

  • Sim... Isso, sim. Poderei usar a conta de Samira.

  • E você pode confiar nessa mulher?

  • Vou me casar com ela... — disse Fefê, sem esconder certo orgulho.

  • Nesse caso, não acha melhor depositar nessa conta a maior par­te do dinheiro?

Embora não estivesse em perfeitas condições psíquicas de to­mar qualquer decisão, depois de alguns instantes de reflexão, o rapaz concordou:

  • Sim... Acho que é bem melhor. Só preciso avisar Samira. Posso telefonar para ela neste instante.

  • Então faça isso. Fique com um pouco de dinheiro e envie o resto para lá. Será mais seguro para você, e eu poderei fazer essa transferência agora mesmo. Você poderá conferi-la, e tudo estará perfeito.

Fefê fez a chamada usando o seu celular e, quando Samira atendeu, ele saiu da sala para poder conversar com ela com mais privacidade.

  • Que saudades! — exclamou a moça. — Tentei ligar para você esta tarde, mas seu celular não atendia...

  • Aconteceram algumas coisas, por aqui — falou ele, a voz um pouco trêmula. — E estou precisando de um favor seu...

Samira mordeu o lábio inferior, preocupada. O que poderia ter acontecido e qual o favor que Fefê iria lhe pedir? Seria alguma ques­tão de dinheiro? Disfarçando o melhor possível sua insegurança, ela disse:

  • Pois pode pedir, amorzinho...

Fefê sorriu satisfeito e explicou:

  • Preciso depositar um dinheiro na sua conta, aí em Nova York. É uma importância grande, quinhentos mil dólares...

  • Mas... é muito dinheiro! — espantou-se Samira. — Vão me fazer perguntas... Eu não terei o que responder! Não terei como justificar a origem de tudo isso!

O rapaz estremeceu. Samira era sua única esperança e, se ela estava pondo dificuldades... Do outro lado, porém, ela se apressou em dizer:

  • Será melhor enviar esse dinheiro para outro lugar, fora dos Estados Unidos. Aqui tudo é muito bem controlado. Não é possível es­conder uma quantia tão grande chegando assim, de repente e do nada, em minha conta.

Com desespero na voz, Fefê insistiu:

  • E como é que eu faço, Samira? Não posso ficar com tudo isso aqui!

A moça pensou um pouco e, com um tom de alegria na voz, revelou:

  • Olhe, acho que tenho a solução para você. Há algum tempo, eu precisei abrir uma conta aí mesmo, no Brasil. Aí, não há problema, ninguém tem meu endereço, ninguém vai fazer perguntas, pelo menos por algum tempo. E, com a bagunça que existe por aí, seria fácil alegar que eu recebi esse dinheiro por causa de algum ensaio fotográfico... Todos imaginam que as modelos ganham muito, e por fora... Vou lhe passar o número da conta e a senha. Assim, se você precisar, faz transferência pela Internet, sem problemas.

Fefê respirou aliviado. Anotou os dados da conta e já ia se despe­dindo, quando Samira perguntou:

  • E o que foi que aconteceu por aí? Você disse que aconteceram algumas coisas...

  • Foi o Erik — respondeu Fefê, em voz mais baixa. — Ele e a He­len foram assassinados esta tarde.

Samira ficou em silêncio por alguns instantes e, titubeante, depois de engolir em seco várias vezes, murmurou:

  • Era esperado... Um dia, ele haveria de encontrar quem o acertasse...

Nesse momento, João Antônio abriu a porta de seu escritório, e Fefê, despedindo-se de Samira, concluiu:

  • Depois eu ligo para você para comentar tudo isso com mais cal­ma. Obrigado pela conta, querida... Um beijo.

Voltando para dentro da sala, Fefê ditou o número da conta para o amigo, guardou a anotação com a senha em sua carteira e, já mais senhor de si, declarou:

João Antônio sorriu, assentiu com a cabeça e, pelo computa­dor, fez a transferência da importância. Mostrou para o rapaz que a operação tinha sido realizada, deu-lhe cem mil dólares em dinheiro e perguntou:

  • Quer conferir o saldo da conta que me deu? Assim, você ficará seguro quanto à operação...

Fefê por muito pouco não concordou. Entretanto, lembrou-se a tempo de que, para conferir o saldo, teria de digitar, no computador de João Antônio, a senha de Samira. E isso poderia ser perigoso. Quem po­deria garantir que João não tivesse um sistema que o permitisse, mais tarde, recuperar essa senha?

  • Não é preciso, você já me mostrou que a operação foi realizada com êxito. De mais a mais, João... Se eu não confiar em você, em quem mais poderia confiar?

O outro deu um sorriso, bateu carinhosamente nas costas de Fefê e agradeceu:

  • Fico feliz ao ouvir isso, meu amigo. E, agora, vá para casa. Não se preocupe com mais nada a não ser usar o seu dinheiro.

Acompanhou-o até a porta e, despedindo-se, acrescentou:

  • Vou lhe telefonar até o final desta semana. Não se esqueça de que, agora, somos parceiros!

Assim que Fefê saiu de sua sala, João Antônio chamou a secretária e ordenou:

  • Ligue para o Flávio e mande-o vir até aqui.

Alguns minutos depois, a vistosa moça fazia entrar no escritório do chefe um indivíduo simpático, forte como um touro, de cabelos escuros, já começando a mostrar alguns poucos fios prateados.

  • E, então, chefe? — indagou ele, sentando-se numa das poltronas diante da mesa de João Antônio. — Como foi que o moleque reagiu?

  • Foi perfeito. Ele está em nossas mãos.. Não precisaremos mais ter qualquer preocupação quanto a isso.

Acendeu um cigarro e, depois de soltar uma baforada de fumaça para o teto, João Antônio perguntou:

  • E a mercadoria? Chegou em ordem? Está completa?

  • Está tudo certo. É uma carga boa! Vai dar para ganhar um bom dinheiro com ela!

  • Sem dúvida. Mas isso é apenas o começo. Fefê será muito mais útil em outras tarefas, bem mais delicadas e nas quais precisamos de uma pessoa não só de confiança, mas que também tenha as costas quentes.

Flávio olhou interrogativamente para o chefe, e este explicou:

  • Fefê conhece muita gente no sistema aduaneiro e mesmo na Polícia Federal. Isso, por si só, já facilita muito as coisas; basta ver como ele conseguiu trazer essa carga para cá sem qualquer problema. Além dis­so, ele é de uma família boa, rica, com um nome a zelar. Isso quer dizer que qualquer deslize que cometa refletirá diretamente sobre a família. E Fefê morre de medo disso. Assim, temos mais um ponto onde segurá-lo. Ele vai querer trabalhar direitinho para que os pais, especialmente o pai, jamais fiquem sabendo de alguma coisa.

  • Isso é bom — admitiu Flávio, com um sorriso. — É um proble­ma quando temos de lidar com esses pequenos aventureiros que não têm nada o que temer. Eles podem fazer o que quiserem; o máximo que têm de cuidar é deles mesmos. Já alguém que tenha família...

  • Exatamente — concordou João Antônio. — Fefê tem muito a perder e não vai querer correr riscos. Ele jamais vai querer revelar que está envolvido com o narcotráfico. Muito menos que esteve envolvido com Erik, principalmente agora, que ele está morto.

Flávio soltou uma gargalhada e lembrou:

  • Foi muito mais fácil do que estávamos imaginando, João! Tive­mos a sorte de apanhá-lo bem no meio de um congestionamento... Foi uma simples questão de apertar o gatilho!

João Antônio aquiesceu com a cabeça e, depois de alguns segun­dos, enfatizou:

  • Muito bem... Pode ir preparando o próximo passo... Quero en­trar o mais depressa possível no mercado da heroína cristalizada, que pa­rece ser o grande futuro. E vamos usar esse moleque o mais que pudermos. Quando ele estiver começando a ficar queimado...



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