Quinze dias em setembro



Baixar 1.77 Mb.
Página8/19
Encontro13.03.2018
Tamanho1.77 Mb.
1   ...   4   5   6   7   8   9   10   11   ...   19

Capítulo VIII
A morte de Erik causara certa apreensão em Fernando. Ele, conservador como era, não estava gostando nem um pouco do fato de um cliente de sua empresa ter sido assassinado; portanto, ficara bastante irritado quando a po­lícia veio lhe fazer algumas perguntas, pois encontrara, entre os documen­tos do holandês, referências de negócios com sua firma. Contudo, como nada havia que pudesse incriminá-lo ou à empresa, as perguntas limitaram-se àquelas de rotina, e a polícia se deu por satisfeita. Com toda a certeza, acreditava ele, aquele seria mais um dos muitos casos de assassinatos que ocorriam na cidade e que ficavam absolutamente sem solução.

Fernando atribuiu à mprte violenta do holandês o fato de o filho caçula ter se tornado, de repente, tão arredio e irritadiço. Para o pai, o rapaz tinha motivos para estar assim: a namorada estava no exterior, per­dera um cliente com quem estava se relacionando muito bem e, conse­qüentemente, perdera um pouco do rumo que estava começando a tomar. Penalizado com o estado de espírito de Fefê, ele propôs:

— Não quer tirar uns dias de descanso? Você poderia ir para os Estados Unidos, visitaria seus irmãos, conheceria o escritório no World Trade Center e aproveitaria para visitar sua namorada. E eu pago essa despesa. Sei que está meio sem dinheiro...

O rapaz exultou. Não poderia desejar outra coisa. Além disso, não poderia dizer para Fernando que dinheiro, pelo menos naquele instante, jamais seria impedimento. Como poderia explicar que estava com cem mil dólares à sua disposição?

Com uma nova expressão de ânimo no rosto, perguntou ao pai:


  • E quando posso ir?

  • Quando você quiser. Só deixe as coisas que está fazendo um pouco mais organizadas, compre sua passagem e vá.

Imediatamente, Fefê começou a programar a viagem. Não cabia em si de contentamento e, vendo-o assim, Fernando comentou com Clara:

  • Até parece outro... Vamos apostar que ele vai procurar a namo­rada antes de ir ver os irmãos?

Clara riu e, sacudindo negativamente a cabeça, respondeu:

  • Não quero perder uma aposta, Fernando. É mais do que natural que ele pense primeiro na namorada — e, com uma expressão preocupa­da, murmurou: — Só acho que ele deveria ter apresentado essa moça para a família...

  • Ora, Clara! — riu Fernando. — Até parece que você não co­nhece os jovens! Essa moça não passa de uma namoradinha, não é nada sério! Por isso é que ele não a quis trazer para dentro de casa. Porque ele sabe que, dia ou outro, esse caso vai terminar.

Mais sério, acrescentou:

  • Conheço meu filho. Sei muito bem que ele pretende casar com uma moça da sociedade, filha de uma boa família... Samira é um caso, como outro qualquer. Uma aventura. Nada mais que isso. Quan­do chegar o momento certo, Fefê irá se unir a alguém que realmente o mereça!

Clara não contestou. Podia ser que Fernando conhecesse muito bem o filho, uma vez que era seu pai. No entanto, ela também o conhecia. Ela o vira crescer, sempre estivera por perto, poderia até mesmo prever suas reações. E tinha quase certeza de que Fefê não estava encarando Samira como o pai dissera. Para o rapaz, era algo muito mais sério, e era dessa seriedade que Clara tinha medo.

Ela sabia que seria muito bom ele tirar alguns dias de férias, mudar de ares, trocar de preocupações, talvez até mesmo sentir saudades de casa. Mas, estando com Samira — e num outro país —, a situação poderia se agravar. Quem poderia garantir que, num momento de paixão, de loucu­ra, ele não resolvesse se casar com a moça lá nos Estados Unidos? Clara estava cansada de ver esse tipo de coisa acontecer nos filmes a que assis­tia, nos romances que lia... Fefê voltaria de lá rebocando uma esposa que ninguém da família conhecia!

Além do mais, Clara tinha notado muito bem a mudança no comportamento de Fefê desde que conhecera Samira. E sabia que esse tipo de modificação representava uma alteração de valores interiores muito maior do que estava sendo exteriorizado pelo rapaz. Ele mostrava estar pensando mais, agindo com mais prudência, mais responsabilida­de. E isso não era nada por causa de alguma exigência do pai ou mes­mo do serviço. Essas coisas jamais tinham preocupado Fefê. Ele estava mudando, simplesmente porque tinha conhecido alguém. Alguém que viera preencher um espaço ainda vazio em sua vida e que, portanto, representava um grande perigo.


  • Seria melhor que ele fosse para a China, em vez de ir para Nova York... — murmurou a secretária. — Fefê ainda é muito criança para se amarrar, para assumir a responsabilidade de tocar uma família!

Com um sorriso de enlevo, lembrou-se de alguns poucos anos atrás, quando Fefê vinha procurá-la para contar das brigas que tinha com os pais e os irmãos. Ela tinha sido sua confidente, sua amiga... Uma segunda mãe, poderia dizer. E a perspectiva de o rapaz ter efetivamente crescido e estar cor­rendo atrás de uma namorada que ela nem sequer tinha visto horripilava-a.

  • Gostaria de tê-la conhecido — disse, distraída, em voz alta.

Ouvindo-a e adivinhando o que a secretária e amiga de tantos anos estava pensando, Fernando riu e brincou:

  • Deixe de ser uma tia coruja, Clara! O menino tem o direito! Afinal de contas, nestes últimos tempos, ele tem trabalhado bastante e mostrado que é capaz de alguma coisa! Por que não podemos deixá-lo se divertir um pouco?

Clara teria gostado de ter coragem de dizer a Fernando que seu filho, desde que nascera, não fizera outra coisa que não fosse se divertir e, por isso mesmo, ainda não amadurecera o suficiente para poder enfrentar a realidade do mundo. Ela gostaria de ter dito ao patrão que estava mui­tíssimo preocupada com o futuro de Fefê, pois, até aquele momento — e a própria viagem que o pai estava lhe dando era uma prova —, ele sempre tivera o pai ou a mãe por trás, prontos para solucionar seus problemas.

Portanto, o menino ainda não amadurecera, principalmente por culpa dos próprios pais.

Na verdade, ela nada tinha a ver com isso; era um problema da família Henriques, e ela não fazia parte, efetivamente, do clã. Gostava de Fefê como se fosse um filho, mas não poderia interferir em nada, não poderia dar palpite.

Com um suspiro, perguntou a Fernando:



  • Faço então a reserva para o vôo e para o hotel em Nova York?

Nesse momento, ouviram tocar o telefone celular de Fefê, e ele, em sua sala, responder:

  • Diga, João! O que está pegando?

  • Como vai, parceiro? — perguntou João Antônio, com voz ale­gre. — Já se recuperou?

  • Estou me recuperando — respondeu Fefê, com uma ponta de desagrado por ter sido lembrado, ainda que subliminarmente, dos recen­tes acontecimentos. — Mas logo estarei novo em folha. Estou indo para os Estados Unidos amanhã.

Houve um breve silêncio do outro lado da ligação, e o rapaz ouviu o amigo dizer:

  • Pois acho que você terá de adiar essa viagem, parceiro. Preciso de você para um serviço especial.

O rapaz franziu as sobrancelhas e, agastado, retrucou:

  • Isso não será possível, João. Já estou com tudo pronto...

Tentando contemporizar, acrescentou:

  • Mas serão só dez dias. Quando eu voltar...

O tom de voz que João Antônio empregou fez com que Fefê sentis­se um calafrio percorrer seu corpo:

  • Você vai adiar a viagem, mocinho. E virá se encontrar comigo na boate esta noite.

Assim dizendo, João Antônio desligou o telefone, deixando Fefê com o celular na mão, olhando atarantado para o aparelho.

O tom de voz que ele usara... era o mesmo com que Erik falara com ele! A mesma autoridade, levando à mesma sensação de impotên­cia e de submissão!

Ouviu seu pai chamá-lo, informando:


  • Há dois vôos amanhã para Nova York. Acho melhor você em­barcar no vôo da noite, assim poderá almoçar com sua mãe.

Fefê olhou para o pai como se não o estivesse enxergando e murmurou:

  • Não vou amanhã, pai...

Fernando levou um susto. Com expressão preocupada, perguntou:

  • Não vai? Mas por quê?

O rapaz sacudiu a cabeça naquele seu gesto característico e, depois de pensar um pouco, continuou:

  • Desculpe, pai, eu estava longe... Você perguntou por que eu não vou amanhã, não é?

  • Sim... O que houve? Quem ligou? Aconteceu alguma coisa?

Fefê forçou um sorriso e respondeu:

  • Não, não aconteceu nada. É um novo cliente que acabou de ligar. Ele quer fazer uma importação e pediu para que eu o encontre esta noite. Já sei que não vou poder viajar, pois terei esse trabalho para fazer e não quero perder... mais um cliente.

Fernando respirou aliviado e, com um sorriso cheio de orgulho nos lábios, disse:

  • De fato, rapaz... Você está me surpreendendo a cada dia! Está mostrando uma responsabilidade que eu não imaginava que tivesse!

Fefê semicerrou os olhos, controlando a raiva que lhe causaram as palavras do pai e, muito sério, retrucou:

  • Sempre tive responsabilidade, pai. Você é que não queria enxergar!

Sentindo que acabara de pisar em terreno perigoso e não querendo discutir com o filho, Fernando tentou contemporizar:

  • Não quis dizer isso, Fefê. Mas, falando de outra coisa, eu não posso cuidar dessa transação? Ou outra pessoa da empresa?

  • Não. Pelo menos nessa fase inicial, preciso estar presente. O melhor é adiar a viagem. De qualquer forma, isso não vai me matar...

Por sua mente, ao dizer aquela última frase, o rapaz não pôde impedir que passasse a imagem de Erik. Ele morrera. Fefê não tinha provas, mas tinha a certeza de que aquele assassinato fora encomen­dado por João Antônio.

Deixar de ir para os Estados Unidos, realmente, não o iria ma­tar. Mas desobedecer a João Antônio ou — pior ainda — desafiá-lo, isso sim poderia significar a reserva de uma gaveta gelada no Instituto Médico Legal.

E, aí sim, teria também a certeza de nunca mais ver Samira...

João Antônio não parecia bravo ou aborrecido quando o rapaz en­trou em seu luxuoso escritório na boate. Muito pelo contrário, o homem parecia distendido, relaxado, bem-humorado e amistoso.



  • Temos outro negócio — disse ele. — Um negócio para você ganhar bastante dinheiro.

Fefê podia muito bem imaginar que tipo de negócio ele iria pro­por e já estava tomando fôlego para dizer que não queria mais partici­par de nada que fosse ilegal ou mesmo arriscado, quando João Antônio continuou:

  • Uma mão lava a outra, parceiro. Você precisou de mim, e eu resolvi o seu problema. Agora, sou eu que preciso.

Serviu uma dose de vodca para o rapaz e, sem lhe dar tempo de dizer coisa alguma, prosseguiu:

  • E não aceito negativas. Você sabe que posso tomar atitudes, digamos, pouco convencionais, para com as pessoas que me desagradam.

Fefê sentiu-se perdido. Contudo, dessa vez, não estava disposto a se mostrar fraco e acovardado. Aquilo que estava acontecendo, ele já deve­ria ter previsto quando viera procurar João Antônio em busca de ajuda. Assim, era obrigado a aceitar as regras do jogo. Pelo menos no início, depois arrumaria um jeito de se safar.

Com um sorriso forçado, o rapaz adiantou:



  • Ainda não falei nada... Quem disse que eu vou recusar? Já adiei a minha viagem, não é mesmo? Portanto...

João Antônio deu uma risada e, com expressão satisfeita, exclamou:

  • É assim que se fala, garoto! Você está mostrando que sabe das coi­sas! E eu gosto disso! Gosto de poder contar com um parceiro de verdade!

Fefê teve de se controlar para não deixar transparecer, em sua fisio­nomia, que a palavra "parceiro", tão usada por João Antônio, soava-lhe de forma muito desagradável aos ouvidos. Não se considerava parceiro dele, jamais poderia ser parceiro de um bandido; isso seria o mesmo que dizer que ele próprio era um bandido!

O outro, depois de tomar um gole de seu copo e voltar a encher com vodca o do rapaz, confidenciou:



  • Há certos serviços que não se pode dar a qualquer um. É preciso ter muita confiança, conhecer profundamente a pessoa. Eu conheço você e sua família. E confio em sua lealdade.

O coração de Fefê deu um salto em seu peito. Ele entendera muito bem o recado. "Conheço você e sua família..." Não havia uma ameaça explícita, mas, implicitamente, João Antônio simplesmente estava que­rendo dizer que, se as coisas não corressem exatamente como ele estava planejando, daria um jeito de envolver sua família.

Depois de uma breve pausa, durante a qual o rapaz permaneceu em silêncio, o proprietário da boate continuou:



  • Você é um menino inteligente e já percebeu que essa história de boates não passa de uma espécie de... isca. O dinheiro de fato, o dinheiro grosso, está no fornecimento de drogas. Como já tive oportunidade de lhe dizer, a molecada paga caro por um baseado, um papelote de cocaína, por um comprimido de ecstasy. Porém, há outras drogas, bem mais caras até mesmo que o superecstasy, e que são fornecidas para clientelas muito mais selecionadas. Portanto, que dão muito mais lucro.

O rapaz assentiu com a cabeça, acompanhando atentamente as pa­lavras de João Antônio. Ele já sabia disso, sabia que na alta sociedade, entre os grandes executivos, artistas famosos e até mesmo entre políticos de projeção, começava a grassar o uso de drogas mais pesadas e muito mais caras. Drogas que, por si só, por seu preço e dificuldade de aquisição, estabeleciam uma diferenciação hierárquica muito especial: o crack e a maconha são drogas usadas pela classe baixa, especialmente nas favelas; a cocaína, pela classe média assalariada; e essas outras, mais fortes, mais puras, pela classe média alta e pelos ricos.

João Antônio prosseguiu:

— Para podermos fornecer, aqui no Brasil, essa espécie de droga, lemos de ir buscá-la lá fora. Na verdade, não se trata de pegá-la e trazê-la no fundo falso de uma mala, por exemplo. Isso é coisa para amadores ou para profissionais pouco criativos. Nosso sistema é muito mais sofisticado e seguro.

Fixando o olhar em Fefê, ele explicou:

É o sistema que Erik tentou usar com você e que, no final das contas, conseguiu e provou que funciona. A droga entra no país no meio de uma carga absolutamente inocente. Mas é preciso ir comprá-la. Esse tipo de coisa não se pode adquirir por reembolso postal, via Internet ou por telefone, ainda que esses meios ajudem muito. É preciso ir lá, no fornecedor estrangeiro, entregar-lhe o dinheiro e... confiar. E necessário, então, nessa primeira fase, confiar em duas pessoas: no for­necedor, ou seja, ter a certeza de que ele vai entregar a mercadoria, uma vez que ele recebe adiantado, e no portador da mala de dinheiro que, se não for de confiança, pode desaparecer no mundo, com uma quantia muito grande.

Antes que Fefê perguntasse, João Antônio adiantou:



  • E não é possível fazer uma transferência desse porte assim, sem mais nem menos. O dinheiro tem de ser levado em mãos, notas vivas, de preferência notas velhas, que não mostrem perigo de serem rastreadas por sua numeração ou por marcadores magnéticos ou radioativos.

Tomando fôlego, ele continuou:

  • Depois de efetuada a transação, em nosso sistema de trabalho, e fundamental uma empresa idônea de importação e exportação para que a droga saia de lá sem problemas e entre aqui da mesma maneira. Nessa empresa, teremos de confiar em mais pessoas, ou seja, naquelas que cui­dam do embarque da droga no meio da carga e naquelas que vão cuidar do desembaraço da carga quando esta chegar.

Deu um sorriso para Fefê e completou:

  • E você é justamente a pessoa que me serve. É meu conhecido: conheço tudo sobre você, sei quem é, onde mora, quem são seus pais. E de confiança e, além disso, é sócio de uma empresa de importação e exportação, das mais respeitadas do país. Ninguém desconfia das cargas que vocês trazem.

  • Mas não conheço ninguém no exterior para cuidar do embar­que... — argumentou o rapaz, com a fugaz esperança de que isso poderia ser um fator impeditivo de sua participação.

  • Isso não tem importância. O fornecedor estrangeiro se respon­sabiliza pela parte do embarque. Preciso de você nas outras fases da ope­ração, ou seja, na parte que diz respeito à importação e ao desembaraço da carga quando ela chegar aqui e, o que é muito importante, para efetuar a compra no estrangeiro.

  • Mas eu não entendo nada desse assunto! — protestou Fefê. — Como vou poder fazer uma compra?

  • Isso também não é problema. Tudo estará resolvido daqui. Você nem mesmo verá a droga. Nem tocará nela lá no estrangeiro. Você será apenas o portador do dinheiro. Leva a maleta, entrega, espera o indivíduo conferir a quantia e pronto. Pode voltar. Sua parte está feita.

O rapaz coçou a cabeça. Parecia muito simples, muito fácil. Só havia um problema, que Fefê conhecia muito bem: como sair do país com uma grande soma em dinheiro? Ele já soubera de casos, inclusive de altos executivos, que tinham sido presos no aeroporto porque esta­vam tentando sair do país com algumas dezenas de milhares de dólares nos bolsos...

Mas, pelo jeito, João Antônio tinha pensado em tudo:



  • Você sacará o dinheiro lá. Levará um cheque, e o banco estará avisado que você vai sacar essa importância. O dinheiro não sairá daqui. É muito arriscado.

Intrigado, o rapaz indagou:

  • Mas por que o fornecedor não pega ele mesmo o cheque e saca o dinheiro? Não acha que seria muito mais seguro levar um cheque nomi­nativo e entregá-lo para quem vai enviar a droga?

Ele não pode aparecer. Você pode. Sacar uma grande soma implica informar nome, número de documentos e mais uma porção de coisas. E isso pode ser a ponta do fio que permitirá desembaraçar toda uma meada. Você terá documentos falsos, outro nome, outro passaporte... Poderá sacar o dinheiro, deixar essas informações e voltar para o Brasil, sem temer absolutamente nada. Não há o menor risco, pode acreditar.

Vendo a expressão aterrorizada de Fefê, João Antônio sorriu e procurou tranqüilizá-lo, dizendo:

Você viajará com seus documentos verdadeiros. Vai usar os falsos unicamente para sacar o dinheiro. Depois, não os usará mais.

O rapaz suspirou, coçou o alto da cabeça. Não estava gostando nem um pouco daquilo tudo. Entretanto, sabia que não tinha como recusar. Ele estava nas mãos de João Antônio e, pelo que já tinha visto acontecer, não poderia brincar com aquele homem, provavelmente muito mais perigoso do que o holandês Erik.

Deixando de lado o tom e a expressão de amizade que tinha mantido até aquele instante, João Antônio alertou:

- Você estará com uma grande soma em dinheiro nas mãos por um período de cerca de dezoito horas. Só quero lembrá-lo de que, pelo menos até você entregar o dinheiro para o fornecedor, haverá uma pessoa seguindo seus passos. E aqui, no Brasil, sua família também estará sendo vigiada. Um passo em falso pode trazer conseqüências muito desagradá­veis. E também quero lhe lembrar de que o mundo é pequeno demais para você se esconder de mim, caso resolva me enganar.

Fefê empalideceu, mas, controlando-se, fez uma expressão de descaso, como se o que João Antônio tivesse acabado de falar fosse algo completamente sem propósito, e perguntou:


  • Quanto vou levar nessa brincadeira?

O outro sorriu, vitorioso. Com a pergunta, Fefê estava dizendo que aceitava e, portanto, tinha-o em suas mãos.

  • Cem mil dólares — falou João Antônio. — Cem mil que eu posso depositar em sua conta neste instante. Eqüivalem a dez por cento da transação.

Fefê, mais uma vez, estremeceu. Um milhão de dólares! A ne­gociação seria de um milhão! E ele ficaria com todo esse dinheiro por dezoito horas!

Controlando-se para não deixar transparecer suas emoções, ele indagou:



  • E onde será esse... negócio?

  • Em Nova York. No septuagésimo oitavo andar da torre norte do World Trade Center. Na próxima terça-feira, às oito horas da manhã, horário local.

O rapaz sorriu. Então, era realmente apenas uma questão de adiar a viagem por menos de uma semana! E ele estaria indo para Nova York, para os braços de sua amada Samira!

Assumindo uma postura decidida, ele disse:



  • Muito bem. Deposite o dinheiro naquela conta de Samira. E explique um pouco melhor como será o processo depois que eu tiver efe­tuado o pagamento.

  • Não há segredo. Com o dinheiro na mão, o fornecedor en­contrará uma carga que possa ser utilizada como disfarce para a droga. Nesse caso, a carga já existe e, como estaremos trazendo heroína cris­talizada, ela pode ser facilmente disfarçada numa carga de bebidas e de artigos culinários variados, como temperos, açúcares aromatizados e outros ingredientes. E é essa a importação que eu estou fazendo pela sua empresa. Assim, o fornecedor vai plantar a mercadoria no meio da carga e despachá-la. E você vai recebê-la aqui e fazer com que chegue ao meu depósito.

  • E quanto tempo poderei ficar em Nova York? — perguntou Fefê. — Não esqueça que eu ia viajar para lá para ficar dez dias e seria inte­ressante que não ficasse menos tempo, principalmente para não levantar suspeitas em minha família e na empresa.

  • Não se preocupe quanto a isso. Entre você entregar o dinheiro e a mercadoria chegar aqui, teremos um prazo de pelo menos quinze dias.

Deu uma gargalhada e finalizou:

  • Você terá tempo de sobra para comer quantos quibes e esfihas quiser!

Steve Donovan olhou com uma expressão enojada para seu par­ceiro, Kirk Steinberg. Ele não conseguia aceitar a maneira como aquele homem devorava um prato com mais de dez esfihas e muito menos a su­jeira que fazia. Steinberg pegava uma esfiha, espremia quase meio limão em cima dela, dobrava-a e metia-a inteira dentro da boca, deixando que o caldo lhe escorresse sobre o queixo e fosse pingar sobre o jornal aberto em sua escrivaninha.

— Isto é uma delícia! — exclamou ele, com a boca cheia. — Você deveria comer uma pelo menos!

Donovan fez que não com a cabeça e ia abrir a boca para dizer ao companheiro que, depois de vê-lo comer esfihas daquele modo, prati­camente todos os dias, tinha adquirido um trauma e jamais conseguiria apreciar esse prato. Porém, nesse exato instante, o telefone tocou.

- Donovan — atendeu ele, com certa má vontade. — FBI, Nova York.

O agente escutou por alguns instantes, apanhou um papel sobre a sua mesa e anotou um endereço. Em seguida, perguntou:

- Quem está falando? Como posso saber que não é um trote?

No entanto, não obteve qualquer resposta; a pessoa do outro lado da linha interrompeu a ligação.

- O que foi? — indagou Steinberg, pondo mais uma esfiha em sua boca enorme. — Quem era?

— Uma mulher. Disse que há um pacote com explosivos plásticos no armário 346 da estação do Brooklin... Desligou quando eu perguntei quem estava falando.

- Mais um trote — resmungou Steinberg. — Nos últimos meses é o que mais tem acontecido. Denúncias falsas sobre bombas e coisas assim...

Acabou de engolir o que estava mastigando, enxugou a boca com um lenço de papel e perguntou:

- Você captou o número do telefone?

- Sim respondeu Donovan. — O sistema gravou a chamada e o número. Ela ligou de um telefone público do meio da First Avenue.



Compartilhe com seus amigos:
1   ...   4   5   6   7   8   9   10   11   ...   19


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal