Quinze dias em setembro



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  • Isso não leva a nada... É o tipo da informação inútil! — ponde­rou Steinberg.

Acendeu uma cigarrilha, cujo cheiro Donovan achava tão insupor­tável quanto a maneira de comer do companheiro, e perguntou:

  • Como era a voz dela?

Em vez de responder, Donovan apertou o botão de reprodução da conversa e Steinberg, aproximando-se de sua mesa, pode ouvir:

  • Estou ligando para informar que há um pacote com explosivos plásticos no armário 346 da estação do Brooklin.

Em seguida, ouvia-se a voz de Donovan perguntando quem estava falando e o ruído de desligar.

Os dois agentes escutaram mais duas vezes as palavras da mulher e, sentando-se na beirada da mesa de Donovan — outra mania irritante do companheiro —, Steinberg comentou:



  • Ela parecia apressada e nervosa. Você notou como a voz estava um pouco trêmula?

  • Notei. E isso me faz pensar que não seja trote. Além disso, não era uma voz de criança ou de adolescente. E outra coisa: era uma mulher adulta; a maior parte dos trotes passados por adultos é feita por homens.

Steinberg soprou uma baforada de fumaça para o teto e, depois de refletir alguns instantes, sugeriu:

  • O que acha de chamarmos o esquadrão anti-bomba e irmos até lá com eles?

Donovan fez um sinal afirmativo com a cabeça e, apanhando no­vamente o telefone, discou para seu superior. Explicou o que acabara de acontecer e, ao desligar o aparelho, avisou:

  • Vamos para lá. O esquadrão já está sendo acionado. Com certe­za chegarão antes de nós.

Steinberg sorriu. Era disso que ele gostava! Ação! Movimento! In­vestigação direta! Tinha sido para isso que ele estudara e se preparara e não para ficar lendo e fazendo relatórios burocráticos, sentado atrás de uma escrivaninha!

Com uma agilidade surpreendente para um homem com quase dois metros de altura e pesando, no mínimo, cento e vinte quilos, ele saltou da ponta da mesa de Donovan, vestiu o paletó e, antes mesmo que seu companheiro tivesse tido tempo de dar a volta à sua escrivaninha, ele já estava abrindo a porta da sala.

Donovan não pôde deixar de rir. Quando se falava em alguma coisa para fazer fora do escritório da agência do FBI, Steinberg parecia um adolescente excitado.

Vamos! — insistiu este. — Não quero chegar lá e ver que o esquadrão já fez tudo! Daí, só vai sobrar para nós a parte desagradável de redigir o relatório!

Quando se trata de uma denúncia de bomba, com ou sem a possibilidade de se tratar de uma brincadeira de mau gosto, o FBI é extrema­mente rápido e eficiente. Assim, quando os dois chegaram à estação do Brooklin, esta já estava isolada, e o pessoal do esquadrão já havia retirado do armário o pacote. Um enxame de jornalistas rodeou os dois agentes, todos fazendo perguntas ao mesmo tempo.


  • Como o FBI soube dessa bomba?

  • Quem avisou? Foi uma denúncia anônima?

Donovan e Steinberg responderam às perguntas de acordo com as orientações que já havia bastante tempo tinham recebido: não dar ne­nhuma informação precisa, não comentar sobre denúncias anônimas e dizer apenas que o FBI, há semanas, já vinha seguindo uma pista que acabou levando à localização do pacote de explosivos.

Depois que conseguiram se livrar dos repórteres, os dois agentes foram cuidar da investigação propriamente dita, ou seja, ver o explosivo, tentar localizar sua origem, tentar descobrir quem tinha alugado o armário e por quanto tempo.



  • Trata-se de um explosivo plástico de altíssimo poder destrutivo explicou o chefe do esquadrão anti-bomba a Donovan e Steinberg. — A explosão desse pacote poderia fazer ir pelos ares um edifício do tama­nho do Empire State.

  • E a origem? — quis saber Donovan.

— Impossível determinar de imediato. Esse tipo de material é nor­malmente utilizado em demolições. Em implosões, mais especificamente. O exército também o utiliza. E há até quem o fabrique domesticamente; não é uma composição das mais complicadas ou de manipulação perigosa. Não é como a nitroglicerina, que basta chacoalhar para explodir. Para funcionar, esse material necessita de detonadores.

Mostrou outro pacote e acrescentou:



  • Como estes aqui.

  • Isso quer dizer que eles não estavam tencionando explodir a estação — concluiu Donovan. — Quem guardou esses pacotes estava esperando algum momento especial para explodir outro lugar...

Steinberg, que tinha ido conversar com a administração do guarda-volumes, aproximou-se de Donovan com uma expressão desconcertada.

  • Nem adianta procurar por quem alugou esse armário — disse ele. — Em Nova York há pelo menos um milhão de homens com o nome de John Smith.

Antes que Donovan perguntasse, Steinberg comentou:

  • Claro que tentei descobrir como é o aspecto físico de quem alugou. Mas a garota que estava no guichê naquele dia não consegue se lembrar de nada. Ela disse que alugou pelo menos duzentos armários e que jamais presta atenção em quem aluga...

Com um suspiro, finalizou:

  • Em resumo, não temos pistas...

  • Teremos de nos basear nos resultados do laboratório — con­cluiu Donovan. — Talvez consigamos algumas impressões digitais no invólucro. Talvez alguma coisa específica na composição do próprio explosivo possa nos dar alguma indicação de sua origem e, a partir daí, com um pouco de sorte também, poderemos chegar à pessoa que o pôs ali dentro.

Hafez estava furioso. Soubera que os federais tinham encontrado os explosivos pelo noticiário televisivo do fim do dia.

— Mas como foi que eles descobriram? — perguntou, dirigindo-se mais a si mesmo do que a Amina, que acabara de chegar do hospital. — Como eles puderam ir diretamente ao nosso armário?



  • Pode ser que eles tenham feito uma revista em todos os armários da estação e descobriram os pacotes... — presumiu a moça, despindo-se e dirigindo-se para o banheiro. — De vez em quando eles fazem isso.

  • Não — resmungou Hafez. — O repórter não mencionou qual­quer revista. Tive a impressão de que o FBI foi diretamente ao nosso armário, como se soubesse que ali iria encontrar alguma coisa!

Já nua, Amina se aproximou do árabe e, abraçando-se a ele, comentou:

  • Bem, querido... O FBI já pegou os explosivos e, portanto, não há nada que você possa fazer. Que tal vir me esfregar as costas no banho? Tive um dia terrível no hospital...

Hafez sorriu, acariciou os seios nus de Amina e insinuou:

  • Vá entrando no banho... Vou ligar para Mohamed e, depois...

Ouvindo Amina abrir as torneiras, ele ligou para Mohamed:

  • Você viu o noticiário?

  • Sim — respondeu Mohamed. — E isso é um problema dos mais sérios...

  • Sem dúvida. Mesmo porque precisamos repor a mercadoria.

  • Duvido que consiga com a mesma fonte — retrucou Mohamed. — Vou ter de procurar outra pessoa.

  • Não! — exclamou Hafez, com energia. — Não sabemos quando Al-Kayed vai precisar que usemos isso. Portanto, não temos tempo a perder. Dê um jeito de conseguir o material ainda hoje. No máximo, amanhã!

Mohamed sorriu interiormente e lançou um olhar para Esther, que estava espichada no sofá, ao seu lado. Disfarçando o súbito entusiasmo que o invadia, ele salientou:

  • Vou tentar, Hafez. Mas acho que isso vai custar caro... A minha fonte, com certeza, vai dizer que o risco aumentou muito e, se aceitar fornecer mais, isso vai custar bem mais caro.

Hafez soltou um palavrão em árabe e, tentando se acalmar, desabafou:

  • Dê um jeito, Mohamed. Você sabe que não estamos com muito dinheiro... E sabe que não posso enviar uma mensagem pedindo mais. Os representantes de Al-Kayed não sabem que o material que foi confiscado é o nosso. Eu não disse onde o guardaria. E acho que é bom que eles não saibam disso jamais! Portanto, é de suma importância que o material seja reposto o mais breve possível. Mesmo que seja mais caro. Só lhe peço para negociar o menor valor possível, entendeu?

  • Está certo — disse Mohamed, satisfeito com o que acabara de ou­vir. — Vou ver o que posso fazer e ligo para você dentro de alguns minutos.

Desligou o telefone e, acariciando as costas nuas de Esther, co­mentou:

  • Não faço a menor idéia de como o FBI descobriu esse armá­rio, Esther... Mas sei que esse incidente é o nosso passaporte para a liberdade!

A moça virou de frente para ele, permitindo assim que, mais uma vez, ele se deslumbrasse com a plástica perfeita de seus seios, e perguntou:

  • Como assim? Como é que isso pode ser bom para nós?

  • Simplesmente porque não vou comprar explosivo nenhum — respondeu Mohamed. — Vou pegar o dinheiro de Hafez, os vinte e cinco mil que estão faltando para nós e...

Beijando apaixonadamente os lábios de Esther, arrematou:

  • Amanhã já estaremos no Brasil!

Enquanto os dois se amavam como se tivessem medo que o mundo fosse acabar no dia seguinte, Hafez e Amina se abraçavam sob o chuveiro.

  • Não fique assim, querido — disse Amina, cheia de carinho. — Tenho certeza de que você vai conseguir dar um jeito na situação...

  • Já mandei Mohamed providenciar mais explosivos — explicou Hafez. — O problema é que isso vai custar muito caro... E nosso dinheiro já está no fim! Restam pouco mais de quarenta mil dólares...

  • Isso, se não houve mais encrencas no banco — murmurou Amina.

  • Não há perigo — replicou Hafez, com um sorriso. — Esse di­nheiro está aqui em casa, comigo. Depois daquela história de sumir di­nheiro de minha conta, decidi retirar quase tudo e guardar aqui em casa.

Beijando a moça, afirmou:

  • Sei que você não me roubaria, Amina. Mas o banco...

Amina retribuiu o beijo, anunciando:

  • Se nós fôssemos um pouco mais espertos, sumiríamos com esse dinheiro todo e esqueceríamos essa história toda de guerra santa, islamismos e tudo o mais...

Por um breve instante, passou pela mente de Hafez a visão de uma vida em outro país, longe de tudo aquilo, uma vida em que sua única preocupação seria fazer amor com Amina... Entretanto, afastando essas idéias da cabeça, ele ponderou:

  • Não, Amina... Sou um guerreiro. Um soldado da jihad. Não pos­so trair Al-Kayed e a grande causa!

Eles estavam saindo do banho quando Mohamed telefonou.

  • Vai custar trinta e cinco mil — disse ele. — E vou precisar des­se dinheiro agora. O homem do material está com medo e viajará hoje à meia-noite para fora do país. Ele ainda tem uma boa quantidade de material em sua casa e quer se desfazer dele. Mas quer ganhar com isso, é claro.

  • É muita coisa! — exclamou Hafez, com desespero — Você não conseguiu...

  • Ele disse que é pegar ou largar — interrompeu Mohamed. — Não há outra possibilidade.

Ficou em silêncio por alguns segundos e desfechou o golpe de misericórdia:

  • Não esqueça que esse homem pode muito bem ser encontrado pelo FBI, até mesmo na hora de embarcar, e nos denunciar. Por isso, vou comprar o material dele e vou eliminá-lo assim que tiver a mercadoria na mão. Por uma questão de segurança... E, daí, o dinheiro volta para nós. Só que eu preciso estar com o dinheiro na mão, ele precisa apanhá-lo, contá-lo, ver que é verdadeiro. Assim que ele me entregar o material...

Hafez deu um largo sorriso.

  • Está certo... É uma boa idéia. Venha pegar o dinheiro agora.

Menos de uma hora depois, enquanto Hafez e Amina davam va­zão a toda sua sexualidade exacerbada pela tensão que estavam vivendo, Mohamed e Esther, com o dinheiro nas mãos, embarcavam num vôo para Dallas. Dormiriam nessa cidade e, no dia seguinte, iriam para o Brasil. Nenhum dos dois estava usando identidade falsa, uma vez que, no que dizia respeito a Esther, judia, ninguém poderia ter qualquer desconfiança. Quanto a Mohamed, ele tinha a certeza de não ter seu nome envolvido em nada que pudesse incriminá-lo, pois as únicas pessoas que sabiam al­guma coisa a seu respeito eram Ibrahim e Hafez e, mesmo para esses dois, ele tinha dado um sobrenome que não era o seu.

  • Mas por que Mohamed não veio trazer o material até agora?

  • perguntou-se Hafez, nervoso e preocupado. — Será que aconteceu alguma coisa?

  • Como posso saber? — retorquiu Amina, penteando-se. — Vai ver que ele terminou a negociação muito tarde e não quis incomodar durante a madrugada.

  • Ele não ficaria com o material em seu poder — ponderou o árabe. — E jamais teria esse tipo de escrúpulo de não querer incomodar... Imagine!

  • Ligue para ele — sugeriu a moça, vestindo-se para ir para o hospital. — Só existe...

  • Já fiz isso enquanto você estava tomando banho — interrompeu Hafez. — Ninguém responde em sua casa e o celular está desligado.

Caminhando nervosamente pela sala do apartamento, ele res­mungou:

  • Vou ter de ir até lá. Não há outra maneira.

  • Tenha cuidado — recomendou Amina, com expressão preocu­pada. — Se aconteceu alguma coisa, e ele foi preso, é muito provável que o apartamento dele esteja sendo vigiado. E a última coisa que poderia acontecer, agora, é você se ver envolvido com o FBI...

Hafez garantiu que tomaria o máximo cuidado, que olharia muito bem as imediações do apartamento de Mohamed antes de entrar lá, pois ele também sabia que estaria correndo um sério risco.

  • Talvez ele tenha saído para tomar o café-da-manhã — disse.

  • Vou tentar daqui a meia hora e, se não conseguir nada ou se ele não aparecer por aqui, terei de ir até sua casa.

Amina deu de ombros e, estalando um beijo no companheiro, lem­brou que já estava em cima da hora de ir para o hospital.

  • Se eu fosse você — arrematou, já abrindo a porta para sair —, pegaria um táxi; não iria com meu carro. E desceria do táxi longe do apartamento dele.

Hafez sorriu, nervoso, e confirmou:

  • É exatamente o que pretendo fazer, Amina. Vou deixar seu car­ro na garagem e pegar um táxi. Sei muito bem que é mais seguro; pode ficar descansada.

Amina saiu, avisando ainda que estaria de plantão até sete horas da noite e que, portanto, ele não a esperasse para o almoço.

Hafez aguardou por três quartos de hora que Mohamed se manifes­tasse e, como não conseguira se comunicar com ele pelo telefone, decidiu ir até sua casa. Irritado, nervoso e muito preocupado, ele se vestiu e, res­mungando que haveria de dar um chacoalhão em Mohamed, partiu.

Caminhou por alguns quarteirões para se distanciar de seu apar­tamento, entrou num café, comprou o jornal — que folheou ansioso, imaginando encontrar alguma notícia dando conta de que Mohamed tinha sido preso com um enorme pacote de explosivos —, e, assim, tomou um táxi, fornecendo ao motorista um endereço a três quadras da casa do companheiro.

Desceu do carro e caminhou pela calçada, a princípio no sentido contrário ao que deveria seguir, deu a volta no quarteirão e rumou para o endereço certo, sempre dando voltas e caminhando devagar, como se não tivesse pressa nenhuma e nem mesmo um destino estabelecido. Prestou atenção às pessoas com quem cruzava, nas que estavam nos bares das imediações, assegurou-se de que nada havia de suspeito diante do prédio de apartamentos onde residia Mohamed e, por fim, apertou o botão da campainha do apartamento do companheiro.

Não obteve nenhuma resposta, apesar de ter insistido por mais de dez minutos. Novamente, pelo celular, tentou falar com ele, mas em vão.

Apertou, então, a campainha do zelador do edifício e, depois de mais alguns minutos de angustiante espera, surgiu um homem vestindo um ma­cacão de faxina, que lhe abriu a porta perguntando o que desejava.



  • É sobre o morador do apartamento 116 — respondeu Hafez. — Mohamed é meu amigo e deveria estar em casa. Como ele não está aten­dendo à campainha nem ao telefone, estou com medo que lhe tenha acon­tecido alguma coisa... Ele pode estar doente, ter sofrido um ataque...

O zelador abriu um amplo sorriso e brincou:

  • Se ele sofreu algum, só pode ter sido da loura que estava com ele e que vem sempre aqui...

Hafez nem de longe imaginava que Mohamed tivesse caso com al­guma mulher — ele jamais falara sobre isso — e, especialmente, com uma loura. Vendo a expressão de espanto do árabe, o zelador explicou:

  • Seu amigo não deve estar doente... Pelo menos, ontem à noite, não estava. Eu tive de substituir o porteiro da noite porque este faltou e vi quando ele saiu do elevador acompanhado por essa loura. Eles estavam carregando malas de viagem. E pode acreditar que estavam muito alegres!

Hafez sentiu uma pontada no estômago e percebeu que o sangue lhe fugia das faces. Com muita dificuldade, conseguiu balbuciar:

  • Viajar? Mas ele foi viajar? A que horas ele saiu?

  • Por volta de nove e meia da noite — respondeu o zelador. — E ouvi quando ele perguntou à mulher se ainda daria tempo de pegar o avião...

Ainda zonzo com a notícia e com o que ela poderia significar, o árabe indagou:

  • Avião? E para onde?

  • Isso não sei informar... Só sei que ele perguntou se daria tempo de pegar o avião. Para onde, ele não disse.

Procurando se controlar, Hafez forçou um sorriso e insistiu:

  • É que ele tinha de me entregar uns documentos... Um traba­lho científico sobre informática. Deve ter esquecido e foi viajar. Será que o senhor poderia abrir o apartamento dele para que eu pegue esses documentos?

O zelador balançou a cabeça negativamente e lamentou:

  • Sinto muito... Isso não posso fazer. Não tenho cópia da chave e, mesmo que a tivesse, ele não deixou nenhuma instrução de que alguém poderia vir aqui buscar alguma coisa...

Hafez não insistiu mais. Era mais do que óbvio que aquele homem tinha a cópia da chave, mas simplesmente não queria abrir a porta do apartamento de Mohamed para um desconhecido. Sim, pois Hafez jamais tinha ido à casa do companheiro...

O árabe agradeceu e foi embora.

Estava à beira de uma crise de nervos e, entrando no primeiro bar que viu, pediu uma dose dupla de uísque, até mesmo se esquecendo de que o bom muçulmano não deve beber álcool. Pelo menos, em público.

Já um pouco mais refeito, conseguiu pensar: "Não há dúvida ne­nhuma... Mohamed fugiu! Fugiu com o dinheiro que eu lhe dei para com­prar o explosivo! E, agora, tenho de descobri-lo! Mas onde? Onde pode estar esse bandido?"

Jurando a si mesmo que quando o encontrasse haveria de lhe cor­tar a mão direita pessoalmente, Hafez lembrou que o zelador dissera que Mohamed estaria indo para o aeroporto. Era uma pista muito débil, mas era a única que tinha e, então, decidiu explorá-la.

Telefonou para Ibrahim, contou-lhe o que tinha acontecido e instruiu:



  • Vamos procurar nas companhias aéreas. Vamos verificar as listas de passageiros. E, quando o encontrarmos...

Ibrahim esperou que Hafez acabasse de dizer tudo o que ele iria fazer com Mohamed — desde lhe cortar a mão direita, castrá-lo, arrancar-lhe as unhas dos pés e, por fim, cozinhá-lo em azeite quente — e comentou:

  • Sinto muito, Hafez... Mas acho que você não vai fazer nada disso. Pelo menos assim como você está falando.

Hafez franziu as sobrancelhas e retrucou:

  • E por que não? E só descobrir onde ele está metido que eu...

  • Você acha que alguém de qualquer companhia aérea vai lhe possibilitar ver as listas de passageiros? Ou vai lhe dar qualquer informa­ção sobre um árabe que tenha embarcado num de seus vôos? O que você vai conseguir é fazer com que o FBI seja alertado e então...

Hafez foi obrigado a admitir que o companheiro poderia estar certo. Depois que tinha sido encontrado um pacote com explosivos e outro com detonadores, e sendo os árabes sempre os primeiros suspeitos de qualquer ato terrorista, seria a mesma coisa que telefonar para o FBI e confessar que eles estavam metidos em alguma coisa muito séria.

  • Você tem de entrar em contato com um dos representantes de Al-Kayed — aconselhou Ibrahim. — Eles dispõem de meios para locali­zar Mohamed. Meios que não estão ao nosso alcance.

  • Mas, se eu fizer isso, terei de dizer por quê! E é justamente isso que não quero!

Depois de alguns instantes de silêncio, Ibrahim insistiu: — Não há outro jeito, Hafez. E você sabe disso. O que talvez possa fazer é não contar sobre os explosivos perdidos. Pode dizer que Mohamed simplesmente desapareceu e que você precisa encontrá-lo, uma vez que ele sabe muita coisa sobre nossas atividades...

  • Está certo — concordou o árabe, depois de refletir um pouco. — Acho, também, que não há outra saída. Vou para casa e enviarei um e-mail para Al-Kayed. Vamos ver o que acontecerá...




  • Vamos ver o que acontecerá — disse Harry Castells, subdiretor da agência do FBI em Nova York. — Vamos investigar com cuidado essa empresa de demolição e vamos ver no que dá.

Voltando-se para Donovan e Steinberg, acrescentou:

  • Acho que vocês dois devem cuidar desse caso. Afinal, Donovan é que foi alertado da existência desse pacote. E, para falar em sua mesa, em seu ramal, ela tem de ter falado primeiro com a Central de Telefonia e pedir para contatar Donovan. Logo, ela o conhece ou, pelo menos, sabe seu nome. Não podemos afirmar que essa mulher que telefonou não o faça outra vez. Assim, fiquem de ouvidos atentos e olhos bem abertos. No que diz respeito a terrorismo, cada segundo é precioso. Nunca poderemos adivinhar onde e quando eles vão atacar.

Entregando aos dois agentes uma cópia do relatório laboratorial feito sobre os pacotes e seu conteúdo, afirmou:

  • Nosso laboratório não teve dificuldade em descobrir que esse ex­plosivo plástico foi produzido pela Morrison Chemical. Por sorte, o conteúdo do pacote tinha sido produzido com uma fórmula especial para aumentar a capacidade de expansão de gases, a pedido da American Demolition Co. Portanto, já sabemos que o explosivo saiu de lá. Agora, só nos resta desco­brir como foi que saiu. Pessoalmente, conversei com o CEO da empresa, Jeremy Bollen, que nos disse ser impossível haver qualquer tipo de desvio de material explosivo. Ele não teve como responder quando afirmei que os dados de laboratório não podem se enganar... E prometeu...

  • O explosivo pode ter sido desviado na própria Morrison Chemi­cal — argumentou Donovan. — O que o faz pensar que ele tenha saído da demolidora, e não da fábrica?

  • Na verdade, nada — admitiu Castells. — Mas é mais compli­cado um desvio na fábrica, onde o controle é extremamente rigoroso, do que numa empresa de demolição, onde o material é usado e, portanto, destruído. Um engenheiro pode dizer que usou cinqüenta quilos de ex­plosivo, quando, na realidade, usou apenas vinte. Ou quarenta. O resto ele deu um jeito de esconder.

Donovan foi obrigado a concordar, e Castells prosseguiu:

  • Minha sugestão é que vocês concentrem esforços sobre a de­molidora, justamente porque as probabilidades de ser lá que aconteceu o desvio são maiores. Além disso, como já falei, quando lidamos com terrorismo, não podemos perder tempo. E eu detestaria trilhar uma pis­ta falsa, perder tempo nela e, enquanto isso, uma explosão acontecer, tirando dezenas ou mesmo centenas de vidas inocentes. Assim, vamos ver no que dá, partindo do princípio do mais provável. Já ordenei que todas as ligações destinadas a qualquer um de vocês dois sejam transferi­das diretamente para seus telefones celulares. Assim, não ficarão amar­rados ao escritório.

Castells esboçou um sorriso e finalizou:

  • Agora, vão trabalhar, rapazes... E com rapidez! Não se esqueçam de que uma explosão não demora mais que algumas poucas frações de segundo e que, nesse curtíssimo espaço de tempo, muitas vidas poderão ser desperdiçadas!

Os dois agentes deixaram a sala de Castells com expressão sombria. Ainda que ambos preferissem estar em campo fazendo uma investigação, aquela em especial trazia em seu bojo uma imensa carga de responsabili­dade. Eles tinham de achar os terroristas, e o mais depressa possível.

  • Por onde vamos começar? — perguntou Donovan.

  • Pelo óbvio — respondeu Steinberg. — Vamos ver quais são os fun­cionários dessa demolidora que possam ter qualquer relação com árabes!

  • Você está sendo radical — repreendeu Donovan. — A troco de que você imagina que esses terroristas sejam árabes? Por que não podem ser irlandeses ou espanhóis? Ou mesmo americanos?

  • Você ouviu as palavras do chefe... Ele disse que devemos seguir o princípio do mais provável. Assim, acho que militantes do IRA ou do ETA teriam pouco interesse em praticar um ato terrorista aqui nos Esta­dos Unidos. Já os árabes ou palestinos...

  • É um grupo radical norte-americano?

  • Também é possível — concordou Steinberg. — Mas não é o mais provável. Por isso, vamos tratar de procurar árabes.

Donovan deu de ombros. Conhecia muito bem seu parceiro e sabia que ele era teimoso como uma mula empacada. Portanto, de nada adian­taria querer interferir em seu julgamento. Além disso, ele também achava que o mais provável é que o grupo de terroristas fosse islâmico.

  • Pelo que imagino, esse grupo não deve ser muito experiente — ponderou ele. — E nem deve possuir uma grande infra-estrutura. Para guardar um pacote desses num armário público...

  • Concordo com você — admitiu Steinberg. — Mas, às vezes, esses grupos de fanáticos sem qualquer preparo são mais perigosos do que outro, de veteranos. Os novatos e inexperientes podem precipitar suas ações por medo ou pelo próprio fanatismo. Assim, não pensam, não avaliam os riscos que podem correr e, muito menos, as conseqüências do que vão fazer.

Enquanto Steinberg opinava, Donovan pegou o telefone e ligou para a empresa demolidora, pedindo para falar com o senhor Bollen, in­formando à telefonista da companhia que era do FBI.

Quando Bollen atendeu, este disse:



  • Estava para ligar para o senhor Castells neste instante. Preciso conversar com alguém do departamento o mais depressa possível.

  • Pode dizer do que se trata? — inquiriu Donovan.

  • Não pelo telefone — respondeu Bollen, — Creio que o melhor será marcarmos um encontro em algum lugar.

Marcaram de se encontrar em meia hora, num restaurante que fi­cava a meio caminho entre a empresa e o escritório do FBI e, desligando o telefone, Bollen ordenou à sua secretária:

  • Ponha esses relatórios numa pasta. Vou levá-los.

  • A moça aquiesceu com um sinal de cabeça e, enquanto seu chefe cuidava de adiantar algumas outras coisas que teria de fazer, ela aconselhou:

  • Não temos cópias desses documentos, senhor. Não acha melhor mandar xerocopiá-los?

Preocupado com o que tinha sobre sua mesa e sabendo que o en­contro com os agentes do FBI poderia fazê-lo perder o resto do dia, Bollen nem ouvira direito o que a secretária lhe disse e apenas concordara com um resmungo.

Dez minutos depois, a moça voltava trazendo uma pasta e um maço de cópias, comunicando:



  • Pronto, senhor. Nesta pasta estão os documentos que me entre­gou. E aqui estão as cópias que mandei fazer. Depois do almoço, colocarei tudo em seus lugares, no arquivo.

Bollen sorriu, elogiou a eficiência da moça, apanhou a pasta que ela lhe entregara e saiu do escritório. Dirigiu-se ao pátio de estaciona­mento, localizou seu automóvel e abriu-lhe a porta.

Uma explosão monumental arremessara Bollen a vários metros de distância, destruindo completamente o veículo e dois outros que estavam próximos.

Da janela do escritório, estarrecida, a secretária Anne Marie viu a explosão. Viu o corpo mutilado do patrão estendido no chão a mais de dez metros de distância.

Durante quase um minuto, ela ficou ali, junto à janela, petrificada, as mãos sobre a boca, segurando um grito. E, de repente, caiu em si.

Anne Marie sabia que o patrão estava indo se encontrar com alguém do FBI chamado Donovan, pois fora ela mesma que passara a ligação para a mesa de Bollen. E sabia que o patrão estaria levando para o FBI aquela pasta com documentos. Documentos que ela mesma tinha ido buscar no arquivo e que, portanto, tinha tudo para saber do que se tratava.

E, se o patrão fora morto — sim, assassinado; aquilo não poderia jamais ser um acidente —, quem poderia garantir que ela não seria a próxima vítima?

Trêmula, ela discou para o FBI. Com certeza, eles seriam os únicos a poder lhe dar um mínimo de segurança...

Donovan desligou o celular e pôs na capota do carro a lâmpada intermitente da sirene. Passou uma marcha mais forte e o automóvel deu um salto para diante, a sirene uivando.



  • Mas que diabo aconteceu?! — quis saber Steinberg, assustado.

  • Que telefonema foi esse?

  • Era Anne Marie, a secretária de Bollen — respondeu Donovan.

  • Ele acaba de ser assassinado. Segundo ela, Bollen estava entrando em seu carro para vir ao nosso encontro. O automóvel explodiu. Não sobrou grande coisa...

Steinberg fez uma careta e murmurou:

  • Numa empresa de demolição, assassinar alguém usando explosi­vo é um pouco falta de imaginação...

Donovan não respondeu, preocupado que estava em dirigir, se­guindo em alta velocidade em direção à empresa de Bollen, desviando-se dos outros automóveis, forçando passagem, furando os sinais vermelhos e fazendo perigosas conversões à esquerda ou à direita, confiando em sua habilidade e na civilidade dos outros motoristas, que, pelo menos teorica­mente, deveriam parar ao ouvir uma sirene se aproximando.

  • A moça está simplesmente apavorada — comentou Donovan, num instante em que o tráfego, um pouco mais folgado, permitiu-lhe des­contrair um pouco. — Ela acha que pode ser a próxima vítima.

Chegaram à empresa quando a polícia e os bombeiros também estavam chegando. Donovan orientou Steinberg a colher informações quanto à explosão com o pessoal dos bombeiros e da polícia técnica, en­quanto ele ia conversar com Anne Marie.

Encontrou a jovem trancada dentro do escritório do patrão e teve de se identificar muito claramente para que ela abrisse a porta. Ele entrou e, imediatamente, Anne Marie fechou novamente a porta, dando duas voltas à chave.

Olhando fixamente para Donovan, ela murmurou:


  • Ele vai me matar... Sei que ele vai me matar!

  • Quem? Quem vai matá-la e por quê? — perguntou Donovan, ansioso.

  • Munoz — respondeu a moça. — Foi ele que provocou a ex­plosão do carro do senhor Bollen... E eu estou com medo... Com muito medo!

  • Não precisa mais ter tanto medo — assegurou Donovan, ten­tando acalmá-la. — A polícia e os bombeiros estão aqui, e nós estamos aqui também... Você está protegida, fique sossegada!

Anne Marie deu um suspiro, sentou-se numa das poltronas diante da mesa de Bollen e, pondo o rosto entre as mãos, começou a chorar.

Donovan deixou-a chorar. Sabia que a melhor terapia para um choque tão grande quanto o que ela acabara de sofrer era justamente chorar.

Depois de alguns minutos, ele a tomou carinhosamente pelos om­bros e disse:


  • Muito bem, Anne Marie... Agora tente se acalmar um pouco para poder me contar por que está com tanto medo.

A moça enxugou os olhos, conteve o melhor que pôde os soluços e falou:

  • Logo de manhã, quando o senhor Castells, do FBI, ligou para o meu chefe, este me pediu para procurar os relatórios das implosões que fizemos neste ano. Ele me disse que, se houvesse alguma coisa errada, a única maneira de descobrir seria analisando esses relatórios. Não tive ne­nhuma dificuldade em encontrá-los, mesmo porque sou eu mesma quem os classifica e arquiva. Entreguei esses relatórios ao senhor Bollen, que passou seguramente umas duas horas estudando-os. Depois, ele me man­dou ligar para o FBI e afirmou que achava ter descoberto onde estava o erro. Lembro que ele comentou que algumas implosões necessitaram de mais explosivos do que o que estava programado.

A moça levantou-se para tomar água e ofereceu um drinque para Donovan que, de bom grado, aceitou um bourbon.

Enquanto bebericava o drinque, o agente pôde observar melhor Anne Marie. Sem dúvida nenhuma, era uma mulher belíssima. Teria per­to de trinta anos de idade e estava no auge de sua beleza. Alta, com lon­gos cabelos louros a lhe escorrer para os ombros e emoldurando um rosto de fazer inveja a muitas atrizes do cinema, Anne Marie tinha um corpo escultural, com curvas generosas, seios avantajados e pernas magnificamente bem torneadas. Donovan, involuntariamente, observou que ela não estava usando aliança.

"Menos mal...", pensou, imediatamente procurando afastar os pen­samentos libidinosos que lhe ocorriam num momento tão impróprio.

Já mais calma e controlada, Anne Marie prosseguiu:



  • Fiz cópia dos relatórios porque o senhor Bollen disse que iria levá-los para o FBI, e eu poderia, por alguma razão, perder esses documentos.

Mostrou um maço de papéis que estava sobre sua mesa e declarou:

  • Não os li, mas o senhor Bollen disse que todas as implosões que precisaram de maior quantidade de explosivo, ou mesmo de uma segunda carga, estavam sob a responsabilidade de um mesmo engenheiro, o se­nhor Peter Munoz.

Anne Marie fez uma pausa e, depois de servir mais uma dose de bourbon para Donovan, continuou:

  • Na verdade, esse fato de algumas implosões estarem dando er­rado fez com que o senhor Bollen, há cerca de dois meses, encomendasse à Harrison Chemical um explosivo especial, mais potente. Mas ele não estava desconfiando de nada.

Com um sorriso amargo, ela disse:

  • Acho que ele tinha tanta coisa na cabeça, tantos problemas para resolver, que não lia direito os relatórios de implosão. Por isso, não percebeu que só as operações de Peter não davam muito certo.

Donovan terminou seu drinque e, recusando uma terceira dose, avaliou:

  • Pode ser que não seja nada, pode ser que seja apenas uma supo­sição de sua parte, mas é algo que merece ser investigado. Vamos começar chamando esse tal de Peter Munoz para lhe fazer algumas perguntas.

Anne Marie fez um sinal afirmativo com a cabeça e pegou o telefo­ne para mandar localizar o engenheiro. Donovan percebeu que ela ficara pálida e, ao desligar, a moça comunicou:

  • Ele não está na empresa. A telefonista informou que ele saiu logo no início do expediente. Ou seja, cerca de duas horas e meia antes da explosão do carro do senhor Bollen...

  • Munoz tinha algum trabalho fora da empresa para realizar? — quis saber Donovan.

  • Não. Não havia nada marcado para hoje que o obrigasse a sair da empresa. Ele deveria estar aqui.

  • Você tem o número do celular dele?

Anne Marie, em resposta, abriu uma pequena agenda e discou um número pela linha direta de sua mesa.

  • Cai no correio de voz — disse ela, depois de tentar três vezes. — Ou o telefone está desligado, ou ele simplesmente não quer atender.

Donovan fez uma careta de desagrado e pediu:

  • Mande o departamento pessoal separar a ficha desse engenhei­ro. Preciso de informações sobre ele e de uma fotografia. Se ele já não es­tiver mais onde reside, o que é muito provável, nós emitiremos um alerta vermelho. Vamos achá-lo custe o que custar!

Fora por um mero acaso que Peter Munoz vira Anne Marie na sala de arquivo, naquela manhã, logo após ter chegado à empresa. Como ele sempre sentira uma forte atração pela moça e era muito difícil encontrá-la fora das dependências da diretoria, não quisera deixar escapar a oportu­nidade de tentar uma aproximação. Assim, ele perguntara-lhe: — O que está procurando? Posso ajudar em alguma coisa?

  • Não, obrigada — respondera ela, com um sorriso. — Estou ape­nas recolhendo os relatórios das demolições deste ano, a pedido do se­nhor Bollen.

Munoz franzira as sobrancelhas e indagara:

  • Mas para que ele quer isso?

Inocentemente, Anne Marie respondera:

  • Não sei, exatamente... Mas ele recebeu um telefonema do FBI. E, depois, pediu-me esses relatórios.

Munoz sentira o sangue congelar em suas veias. Quando soubera, pelos noticiários, que o FBI tinha encontrado um pacote com explosivos numa estação do Brooklin, e estava atribuindo isso a um grupo terro­rista, já ficara extremamente preocupado. E, agora, com aquela notícia que Anne Marie lhe dera, ficara absolutamente tomado pelo pânico. Ele seria descoberto! Não haveria como esconder ou como justificar todos os desvios de explosivos que ele vinha praticando. E ele estaria envolvido com terroristas!

O método que ele vinha utilizando era simples e, para ele e Ramón, o responsável pela venda dos explosivos desviados, era absolutamente seguro: bastava não pôr todo o explosivo solicitado e pronto; aquilo que sobrava era meticulosamente guardado e levado para sua casa. Depois, Ramón vendia.



  • Ele me disse que vendia para outras demolidoras... Nunca me falou em terrorismo! — murmurara Munoz enquanto caminhava, às pres­sas, para o parque de estacionamento. — Agora, tenho de impedir que Bollen chegue até o FBI! De qualquer maneira!

Alucinado de pavor, Munoz só conseguia enxergar uma maneira de impedir Bollen de contatar o FBI e, conseqüentemente, de acusá-lo: era preciso matá-lo.

Rapidamente, do porta-malas de seu automóvel, tirou um pacote de cerca de um quilo de explosivo plástico e grudou-o ao chassis do carro de Bollen, o que acionaria o detonador quando a porta fosse aberta. Em seguida, retornou à sua sala, pegou sua pasta e voltou para o pátio de estacionamento para apanhar seu carro. Nem sequer respondeu quando a recepcionista e telefonista lhe perguntara aonde ia. Apressado, entrara em seu automóvel e deixara a empresa. Não queria estar por perto quando o carro de Bollen explodisse.

a caminho de sua casa, onde pretendia passar rapidamente ape­nas para pegar algumas roupas e o dinheiro que mantinha escondido den­tro de um cofre, ligara para Ramón e contara-lhe, com a voz trêmula e o medo chegando a lhe travar a língua, o que acontecera e o que fizera para impedir Bollen de chegar aos federais.

Ramón escutara em silêncio e, quando Munoz terminara de falar, dissera apenas:



  • Estou indo para sua casa, Peter. Espere-me chegar; temos de traçar um plano.

E Ramón desligara, não dando tempo para Munoz contestar, dizer que estava com muita pressa e que não iria esperar por ele.

Com raiva, o engenheiro fechara o celular e deixara-o sobre o ban­co do carona, resmungando:



  • Se ele chegar enquanto eu ainda estiver lá, muito bem... Caso contrário, não vou esperar! Depois que o carro de Bollen explodir, terei pouco tempo para fugir. Preciso estar num avião rumo ao México dentro de, no máximo, duas horas... E isso, se eu tiver todo esse tempo, se os federais não descobrirem imediatamente que sou o culpado...

Arrependera-se por não ter tido controle suficiente para dar um jeito também em Anne Marie. Mas, em seu íntimo, duvidava que tivesse coragem para tanto. Afinal, era uma moça tão bonita... Tinha de confiar na sorte, tinha de acreditar que ela não desconfiara dele... E, principal­mente, que ele teria tempo suficiente para se pôr a salvo do FBI.

Chegou ao prédio onde residia, já perto de White Plans, cerca de vinte minutos depois. Pôs o automóvel na garagem e subiu, pelo elevador de serviço, para o seu andar.

Foi ao abrir a porta que se lembrou de Ramón.


  • Não vi o carro dele estacionado diante do prédio — murmurou. — Não deve ter chegado ainda.

Empurrou a porta e surpreendeu-se ao ver Ramón na cozinha, sen­tado à mesa. E ficou infinitamente mais surpreso ao perceber que o amigo estava empunhando uma pistola munida de silenciador.

Ramón não disse uma só palavra. Apenas acionou o gatilho da arma duas vezes. Munoz ainda teve tempo, antes de mergulhar nas trevas da mor­te, de ouvir o som abafado do primeiro disparo, um som que mais parecia o ruído de um livro pesado caindo sobre um carpete espesso...

Assim que a funcionária do departamento pessoal da empresa trou­xera ficha de Peter Munoz, Donovan telefonou para Castells, avisando que estaria indo para a residência do engenheiro.


  • Acho muito difícil que ele não seja o culpado, chefe — disse ele. — Vou buscá-lo para um interrogatório. E acho bom providenciar um mandado de busca. De repente, esse indivíduo tem explosivos dentro de casa ou outras coisas que possam servir de prova...

Castells consentiu, disse que faria contato com um promotor para cuidar do mandado de busca e desligou.

Donovan olhou para Anne Marie e já ia abrindo a boca para se despedir, quando ela declarou:



  • Vou com você. Não vou ficar aqui de jeito nenhum!

O agente ainda pensou em recusar, dizer para ela que não poderia ser, que não era permitido acompanhar uma busca e uma possível prisão, mas acabou desistindo. Era compreesível que estivesse extremamente chocada e com medo de que Munoz decidisse voltar para matá-la. Dando de ombros, ele concordou:

  • Está bem. Venha. Nem sei por que estou permitindo isso; não há a menor necessidade... Mas, venha...

  • Não vou atrapalhar, pode estar certo... — assegurou Anne Ma­rie. — Mas é que estou com tanto medo... E sei que vou me sentir segura ao seu lado.

Encontraram com Steinberg no pátio de estacionamento, e este não escondeu um sorriso maroto ao ver o companheiro ao lado da bela secretária.

  • Conseguiu alguma coisa? — perguntou Donovan, esforçando-se para ignorar a expressão divertida de Steinberg.

  • Nada além do já esperado. Foi usado um explosivo de alto poder destrutivo. O detonador certamente foi acionado quando Bollen abriu a porta do automóvel... E mais nada.

  • Nós já temos um suspeito e que, muito provavelmente, é o nos­so homem — garantiu Donovan, abrindo a porta traseira de seu carro para que Anne Marie pudesse entrar. — E vamos à casa dele agora.

Durante o trajeto, Donovan pôs Steinberg a par de tudo que Anne Marie tinha lhe contado, e esta lhe entregou as cópias dos relatórios de implosões para que o agente os visse. Steinberg folheou rapidamente o maço de folhas e observou:

  • E tudo muito técnico para mim... Mas, de qualquer maneira, acho que entendi. Esse tal de Munoz vinha roubando explosivos. Uma parte desse roubo já encontramos na estação do Brooklin. Agora, resta saber para quem mais ele andou vendendo e quanto.

  • Exatamente — concordou Donovan. — E, para obter essas in­formações, teremos de levar Munoz a interrogatório.

Com um tom pessimista, acrescentou:

  • Isso, é claro, se conseguirmos alcançá-lo. Ele tem mais de duas horas de vantagem sobre nós. Tempo suficiente para ter tomado um avião e já estar voando para muito longe...

  • Também não acredito que ele esteja esperando por nós — co­mentou Steinberg. — Mas o mínimo que podemos fazer é passar a casa dele por um pente-fino. Talvez ele tenha deixado alguma indicação de seus clientes. E, no fundo, neste instante, é o que mais nos interessa.

Voltando-se para Anne Marie, explicou:

  • Esse homem já está descoberto. Mesmo que fuja agora, não es­tará mais em ação e, cedo ou tarde, será apanhado. Porém, se ele vendeu explosivos a algum grupo terrorista, este, sim, temos de encontrá-lo o quanto antes para evitar que uma tragédia aconteça.

Fixando atentamente os olhos da moça, prosseguiu:

  • Por isso, precisamos saber, de você, tudo o que possa informar sobre ele. Se você conheceu algum de seus amigos, se ele tinha atitudes suspeitas, se recebia telefonemas estranhos... Qualquer coisa que você possa nos dizer pode ter extrema importância.

Anne Marie balançou negativamente a cabeça e admitiu, com uma expressão consternada:

  • O que sei sobre esse homem não é muito mais do que está em sua ficha. Ele é um indivíduo fechado, de pouca conversa. Nunca soube de nenhum amigo dele e, como ele possui um ramal telefônico direto, em sua sala, não temos controle sobre os telefonemas que recebe.

Fez uma pausa e, depois de refletir um pouco, Anne Marie acrescentou:

  • Somente uma vez atendi uma ligação para ele, por acaso. Eu estava em sua sala esperando que me entregasse um projeto de demolição, e o telefone tocou. Atendi automaticamente e passei o aparelho para ele. Era um indivíduo que se identificou por Mohamed.

Steinberg arregalou os olhos, cheio de interesse, e perguntou:

  • Mohamed? Ele informou o sobrenome? Quando foi essa ligação?

  • Não faz muito tempo. Talvez um mês e meio ou dois. O homem se identificou apenas como Mohamed e disse que Munoz sabia quem era.

  • E como reagiu Munoz? — perguntou Donovan, olhando para a moça pelo espelho retrovisor do automóvel.

  • Com toda a naturalidade. Cumprimentou-o, disse que estava ocupado naquele instante e pediu para que ele ligasse na hora do almoço. Tive a impressão de que se tratava de uma típica conversa entre dois ami­gos, sem qualquer relação com negócios ou trabalho.

  • E você não sabe se esse tal Mohamed voltou a ligar?

  • Não sei. Mas pode ser que a telefonista tenha atendido alguma outra ligação dele, se, por acaso, esse Mohamed ligou para o sistema de PABX, em vez de ligar para o ramal direto de Munoz. Se vocês acham que é importante, posso perguntar agora para ela.

Donovan pediu-lhe que o fizesse, e Anne Marie, pelo celular, en­trou em contato com a telefonista da empresa, que garantiu jamais ter recebido qualquer chamado externo para Munoz.

  • É como eu disse — argumentou a moça, ao desligar o telefone. — Ele tem um ramal pessoal. Seria muito difícil que quem ligasse para ele o fizesse pela central telefônica. Além do mais, ele estava sempre com o telefone celular...

Os dois agentes suspiraram, desconcertados, e Donovan comentou: — Bem... De qualquer maneira, seria fácil demais... E, para nós, parece que tudo tem de acontecer pelo caminho mais complicado!

Não houve o que convencesse Anne Marie a esperar no carro en­quanto os dois agentes foram se informar, com o porteiro do edifício, sobre o paradeiro de Munoz.



  • Pode ser perigoso — advertiu Donovan. — E você poderá nos atrapalhar.

  • Não. Vou com vocês. Só estarei segura ao seu lado.

Por fim, embora a contragosto, os três desceram e dirigiram-se ao porteiro.

  • Sim, ele está lá em cima — respondeu este à pergunta feita por Steinberg. — Vi quando ele chegou e pôs o carro na garagem. Subiu pelo elevador de serviço. E está sozinho, pois o amigo que o estava esperando já foi embora.

Os dois agentes se entreolharam e Donovan indagou:

  • O que quer dizer com isso? Ele mora com algum amigo?

  • Não — respondeu o porteiro. — Há um amigo dele, senhor Ramón, que vem sempre visitá-lo. Ele tem a chave do apartamento. Hoje, ele veio para cá há cerca de duas horas e subiu. Disse que iria esperar pelo senhor Munoz lá em cima. Depois de uns dez minutos que o senhor Munoz chegou, esse amigo desceu e foi embora.

Sem vacilar, os dois agentes correram para o elevador de serviço, acompanhados por Anne Marie, que, para maior garantia, aferrou-se ao braço de Donovan.

  • Acho que estamos chegando tarde — murmurou Steinberg.

Nada mais disseram até chegarem ao andar de Mufíoz e, quando o elevador parou, Donovan pediu a Anne Marie:

  • Fique aqui e segure o elevador para nós. Aperte o botão do térreo e mantenha a porta aberta. Não saia. Caso escute qualquer coisa anormal, feche a porta, desça e ligue imediatamente para o FBI.

A moça tentou protestar, quis dizer que preferia ficar ao lado deles, mas o olhar enérgico e determinado de Donovan desencorajou-a. Assim, resmungando uma afirmativa, ela obedeceu, e os dois agentes dirigiram-se para a entrada do apartamento de Munoz.

A porta estava trancada, e ninguém atendeu à campainha. Stein­berg olhou para Donovan, e este simplesmente acenou positivamente com a cabeça.

Bastaram duas arremetidas do pesado ombro de Steinberg para que a fechadura cedesse e eles pudessem entrar.

Munoz estava estirado no chão, em meio a uma poça de sangue, com um orifício de bala na altura do coração e outro no meio da testa.

— Reviste o apartamento — ordenou Donovan ao companheiro. — Vou ligar para Castells.

Assim dizendo e já com o celular na mão, Donovan virou-se para sair e avisar Anne Marie para que ela liberasse o elevador. A moça, po­rém, já estava ali, encostada ao batente da porta, os olhos muito arregala­dos e com as duas mãos sobre a boca, como se tentasse abafar um grito.

As mãos de Hafez estavam bastante trêmulas enquanto ele digi­tava, em seu laptop, o e-mail para Al-Kayed. Ele sabia que a mensagem não seria respondida pelo próprio Kayed e sim por um de seus represen­tantes, mas, mesmo assim, estava extremamente nervoso e humilhado. Detestava ter de confessar um erro, odiava ter de admitir que tinha sido puerilmente enganado por um subordinado. E tinha medo da mensagem que viria em resposta.

Terminou de redigir o e-mail, enviou-o e suspirou, profundamente infeliz e cheio de dúvidas. Tudo parecia estar indo tão bem... Por que, de repente, as coisas viraram do avesso? Por que tudo começara a dar errado? Teria sido o próprio Mohamed que denunciara ao FBI a existência do pacote com explosivos guardado na estação do Brooklin? E, se Mohamed fora capaz de traí-lo, Ibrahim não poderia fazer o mesmo? Por que ele su­gerira que não comentasse nada sobre os explosivos perdidos?

"Não", ponderou Hafez, tentando afastar pelo menos essa dúvida. "Ibrahim está engajado completamente com a grande causa. Ele não faria uma coisa dessas e a sugestão que me deu foi para nos proteger."

E Hafez seguira-a, nada dizendo, no e-mail que acabara de en­viar, que o FBI tinha descoberto a carga de explosivos. E isso era ou­tro motivo de grande preocupação para ele. Como faria para arrumar mais explosivos plásticos se não fazia a menor idéia de onde poderia consegui-los e, além do mais, com o pouco dinheiro que lhe restara? E se Al-Kayed ordenasse uma ação de demolição imediata? Como ele se desincumbiria dela?

Já era quase três horas da tarde quando chegou a resposta, e Hafez estremeceu ao ler o que aparecia na tela de seu laptop:

Nas últimas vinte e quatro horas partiram por avião, de Nova York para diversos lugares, apenas oito pessoas com o nome de Mohamed. Dessas oito, cinco embarcaram em vôos internacionais e tinham passagens reservadas há mais de quinze dias. Todos esses Mohameds são casados e embarcaram com as respectivas esposas. Nenhum tinha menos de quarenta anos. Portanto, nenhum deles pode ser o seu homem. Dos outros três, solteiros, com menos de trinta anos, dois embarcaram para Boston e um para Dallas. Nenhum deles era Mohamed Jarrahi. Pode ser que seu homem esteja usando um nome falso. Contudo, já mandamos nossos agentes investigar esses três. Temos uma fotografia de Mohamed Jarrahi que você enviou quando o admitiu no grupo. Não será difícil encontrá-lo. Até o final do dia teremos mais informações e a decisão do que você deve fazer a partir desta noite.

Portanto, Hafez teria mais algumas horas de angústia. O terrível era não saber o que viria em seguida, ignorando completamente o que Al-Kayed tinha determinado como seu destino.

No entanto, uma coisa era absolutamente certa: teria de estar prepara­do para uma ação qualquer e que não deveria tardar muito. O emissário tinha sido claro: "Até o fim do dia teremos mais informações e a decisão do que você deve fazer a partir desta noite". Logo, ele podia muito bem esperar que algo fosse acontecer nas próximas horas. E ele precisava dos explosivos!

Completamente desamparado e perdido em seus pensamentos, mesmo sabendo que não deveria fazer isso, ligou para Ibrahim. Precisava ter alguém ao seu lado, com quem pudesse partilhar seus problemas e, acima de tudo, que o ajudasse a pensar.



  • Como faço com os explosivos? — perguntou Hafez, com a voz traindo seu desespero. — Onde vou arrumar explosivos plásticos agora e com tão pouco dinheiro?

Depois de alguns instantes de silêncio, Ibrahim respondeu:

  • Há uma solução. Se você receber alguma ordem de demolição, use dinamite. É muito mais barato do que explosivo plástico e mais fácil de conseguir.

Um sorriso iluminou o rosto de Hafez, quando lembrou:

  • Isso nem preciso comprar! Tinha me esquecido! Tenho uma valise com cerca de dez quilos de dinamite! Desde que não seja para fazer saltar o Empire State, acho que dá para um bom barulho!

  • Dez quilos é pouco, Hafez. É melhor termos pelo menos o dobro disso.

Era um problema. Hafez teria de dar um jeito de comprar mais dinamite, e sabia que isso traria riscos muito sérios. E detestava correr esse tipo de risco. Não que Hafez tivesse medo de ser preso. Apenas não queria pôr em perigo toda uma operação — que, aliás, nem mesmo sabia qual poderia ser. Se Hafez fosse preso, toda a parte do plano de Al-Kayed relacionada a ele iria por água abaixo.

  • Não sei como fazer, Ibrahim — desabafou o árabe. — Não posso sair daqui porque estou esperando uma resposta de Al-Kayed.

  • Não se preocupe — retrucou o companheiro. — Vou cuidar pes­soalmente disso. Tenho dinheiro suficiente para comprar cerca de trinta quilos de explosivo. E sei como obtê-los. Talvez demore um dia ou dois, pois terei de comprar essa dinamite fora de Nova York. Assim, estarei incomunicável por esse período.

Hafez pensou por alguns instantes e aconselhou:

  • Nesse caso, seria melhor que você esperasse até a noite para viajar. Assim, terei a resposta de Al-Kayed e você poderá ficar sabendo também.

Ibrahim concordou e combinou com Hafez que este ligaria assim que tivesse qualquer notícia.

Quando desligou o telefone, Hafez sentiu-se mais aliviado. Com quarenta quilos de dinamite, eles poderiam fazer uma festa em Nova York!



  • As evidências são claras, chefe — disse Donovan a Castells. — Esse tal de Ramón foi ao apartamento de Munoz e matou-o. Com certeza para evitar que ele, sendo preso, desse com a língua nos dentes. Além disso, o cofre aberto e vazio denuncia que ele deve ter levado documentos ou dinheiro, senão ambos.

  • Até aí, concordo com você. O problema está em localizar esse homem. Não temos mais do que uma descrição dele, feita pelo porteiro do prédio, e isso é um bocado vago e impreciso. Basta ver como esse por­teiro se confunde com alguns sinais característicos e se contradiz. Uma hora Ramón é baixo e gordo; depois ele é de estatura mediana e forte; tem bigode num instante; depois o porteiro não lembra mais se era cavanha­que ou bigode... E outra coisa: Ramón provavelmente é um nome falso.

Voltando-se para Anne Marie, que continuava agarrada ao braço de Donovan como se este fosse sua tábua de salvação, Castells perguntou:

  • Você nunca recebeu qualquer ligação desse tal de Ramón?

  • Não, nunca — respondeu Anne Marie, com firmeza. —Já disse que a única ligação externa que recebi, destinada a Munoz, foi de alguém que se identificou como Mohamed...

Castells fez um gesto de desânimo e murmurou:

  • Mohamed... Mohamed... Há milhares de Mohameds nos Esta­dos Unidos... Isso não ajuda em nada também!

Depois de alguns instantes de um pesado silêncio, Steinberg observou:

  • Se esse tal de Ramón levou documentos que estavam no cofre de Munoz, há uma possibilidade de outras pessoas saberem o conteúdo desses documentos. E a pessoa mais provável de deter esse conhecimento está aqui...

Todos os olhares se voltaram para Anne Marie que, empalidecendo, balbuciou:

  • Mas eu não sei de nada! Minha função, na empresa, era sim­plesmente a de secretária pessoal do senhor Bollen! Nunca tive acesso a nada mais!

Com um sorriso que procurava tranqüilizar a moça, Steinberg pros­seguiu:

  • Acreditamos nisso, Anne Marie. Mas... Será que todas as pes­soas na empresa, e mesmo fora dela, sabem que você era apenas a se­cretária particular de Bollen? Será que não poderiam pensar que você ería... algo mais?

De pálida, Anne Marie ficou corada e, com um tom de revolta na voz, exclamou:

  • Se está querendo insinuar que eu era amante de Bollen, está muito enganado!

  • Não foi isso que eu quis dizer — desculpou-se Steinberg. — Quis sugerir, apenas, que você poderia representar, para muitas pessoas, a figura de secretária e confidente do patrão. Aquela pessoa com quem o chefe abre a alma, partilha problemas... É uma situação muito comum entre patrão e secretária. Assim, pode ser que Munoz imaginasse que você soubesse muito mais do que sempre demonstrou. Pode ter comentado alguma coisa com Ramón...

  • Você acha que ele viria me procurar? — indagou Anne Marie, com o pavor a lhe esganiçar a voz. — Ele poderia querer me matar?

  • É uma possibilidade — admitiu Donovan. — Se Ramón imagi­na que possa manter em segredo suas atividades com a morte de Munoz, com certeza vai querer apagar qualquer pista...

  • Mas ele já deixou um rastro — protestou Castells. — Ele não matou o porteiro!

  • Nem sempre os criminosos pensam em tudo — ponderou Steinberg.

E, como se falasse para si mesmo, comentou:

  • O próprio porteiro nos disse que Ramón era muito generoso. Isso significa que ele lhe dava gorjetas, não acham? E pode ser que Ramón estivesse muito confiante na amizade conquistada, pode ser que imaginas­se que o porteiro nem sequer comentaria que ele tinha estado no prédio.

Castells meneou a cabeça em sinal de dúvida e, acendendo um cigarro, prosseguiu:

  • Outra pista, também muito débil, é esse tal de Mohamed. Como vamos fazer para encontrá-lo? É o mesmo que procurar uma agulha num palheiro!

  • Podemos alertar nossos agentes, os aeroportos e tudo o mais para procurarem todos os Mohameds que surgirem. Será algo demorado, mas pode ser que leve a alguma coisa — arriscou Steinberg.

  • Isso já foi feito — garantiu Castells. — Dentro de mais alguns minutos teremos pelo menos as listagens de passageiros que. embarcaram nos aeroportos ou adquiriram passagens, bem como as listagens das fichas policiais de hotéis. Mas, sinceramente, não tenho muitas esperanças de encontrar esse homem. Em primeiro lugar, quem me garante que ainda está nos Estados Unidos? E quem me garante que tenha ido viajar? Esse Mohamed pode muito bem estar escondido num lugar qualquer de Nova York, simplesmente esperando a poeira baixar. Ou, quem sabe, está com uma imensa carga de explosivos, aguardando o momento certo para pra­ticar um ato terrorista que poderá causar centenas de vítimas!

Nesse instante, entrou na sala de Castells uma moça trazendo um disquete de computador, que inseriu na máquina do chefe, informando:

  • Todas as listagens que pudemos conseguir estão aqui. E o cruzamento de informações que executei leva a uma conclusão muito interessante...

Castells franziu as sobrancelhas numa expressão interrogativa, e a moça continuou:

  • Como seria de esperar, há dezenas de Mohameds. Entretan­to, um despertou minha curiosidade... Este Mohamed, cujo sobrenome é Marzouk, não aparece registrado em nenhum hotel, o que faz supor que tenha residência aqui em Nova York. Ele comprou duas passagens da American Airlines para o Texas, uma para ele mesmo e outra para uma mulher chamada Esther Meyer. Aliás, quem fez as reservas e pagou as passagens, já no aeroporto, foi essa mulher. Eles deram um endereço que não existe. E o interessante está justamente aí. De todos os Mohameds que foram verificados, este é o único que deu um endereço falso.

Com um sorriso, a moça comemorou:

— Tomei a liberdade de comunicar ao nosso escritório em Dallas. Eles já estão procurando por Mohamed Marzouk e Esther Meyer...

Ninguém prestou muita atenção àquele casal que chegou de táxi num motel próximo ao aeroporto de Dallas, sem mais bagagens do que a valise da mulher, e subiu para um dos inúmeros apartamentos. Era, com certeza, apenas mais um casal procurando um lugar para dar vazão a um amor provavelmente proibido. Também no aeroporto, sua atitude foi ab­solutamente normal: desembarcaram de um vôo vindo de Nova York, com duas malas e uma valise, alugaram um armário no serviço de guarda-volumes e dirigiram-se para o balcão de uma companhia aérea brasileira, comprando duas passagens para o Brasil, para o dia seguinte, às cinco horas da tarde. Apenas se mostraram decepcionados por não terem con­seguido vôo logo pela manhã. Do aeroporto pegaram um táxi e foram para o motel.

Mohamed e Esther passaram a noite fazendo amor e planos para a nova vida que, na manhã seguinte, estaria começando. Esther estava muito animada, confessando para Mohamed que sempre desejara viver no Brasil, que sua vida era o sol, a água-de-coco e as praias. Por sua vez, Mohamed já se imaginava fazendo qualquer coisa relacionada com a informática, numa cidade de médio porte, onde ninguém o conhecesse e onde pudesse viver em paz, única e exclusivamente para o amor com Esther.

Acordaram por volta de dez horas da manhã e foram passear pela cidade, sem rumo e sem destino, apenas com a finalidade de encher o tempo até três horas da tarde, quando então voltaram para o aeroporto.

Entraram no saguão principal abraçados e foram fazer o check-in para o embarque.

— Vou apanhar as malas — disse Mohamed.

Separaram-se, e Esther, ao ver que o rapaz se afastava, apanhou seu celular e discou um número.

Em iídiche, ela disse:


  • Não. Ele não é o chefe. Estou convencida disso. Não sei até que ponto ele ainda está escondendo alguma coisa, mas com certeza ele traiu os companheiros. Isso significa que virão atrás dele. Vocês não precisam mais se preocupar. Estou voltando agora. Não faz sentido correr mais riscos. Vou para Washington e, dentro de alguns dias, quando vocês me avisarem, voltarei a Nova York.

Desligou e, em passos rápidos, dirigiu-se para a saída, para apanhar um táxi.

Mal tinha saído para a calçada, um homem encostara nela e ordenara:



  • Não tente nenhuma gracinha, moça... Tenho uma arma aponta­da para o seu fígado e o dedo muito nervoso. Queremos lhe fazer algumas perguntas.

Quase no mesmo instante, um automóvel parou junto ao meio-fio e a porta traseira foi aberta por dentro. O homem que estava ao lado de Esther empurrou-a para dentro do veículo e sentou-se ao seu lado, declarando:

  • Muito bem, agente Sarah Ingermann... Agora você vai nos dizer até onde o Mossad está sabendo dos planos de Al-Kayed...

Enquanto isso, Mohamed já estava se aproximando do armário onde tinha deixado suas malas. Foi no instante em que estava pondo a mão no bolso para apanhar a chave que ele viu o homem.

Era inegavelmente um árabe, com a barba de corte característico, as sobrancelhas espessas, alto e magro.



  • Mohamed, tenho um recado de Al-Kayed — disse ele.

Mohamed imediatamente adivinhou que tipo de recado seria. Ten­tou fugir, mas não teve tempo. Na mão direita do homem surgiu uma pistola com silenciador e ele fez dois disparos, atingindo o rapaz primeiro no peito e, em seguida, no pescoço.

O som dos tiros, abafado pelo silenciador e pelo ruído de fundo típico de um aeroporto movimentado, não foi percebido por ninguém. Apenas algumas pessoas viram Mohamed se apoiar no armário e, lenta­mente, escorregar para o chão, enquanto o árabe que atirara se afastava rapidamente, porém sem correr.

A angústia de Hafez, que, logo após o telefonema para Ibrahim, parecera ter diminuído, voltou a crescer à medida que o tempo passava, e ele não tinha notícia de Al-Kayed. Como se não bastasse não saber o que estava acontecendo e muito menos o que Al-Kayed pensava a seu respeito e reservava para seu futuro, Hafez tinha a desagradável sensação de desconforto, por ter certeza, intimamente, de não estar sendo um bom muçulmano e, muito menos, um bom soldado da jihad, como deveria ser. Ele abraçara a grande causa; de fato compenetrara-se da validade da fatwa ditada por Al-Kayed, segundo a qual "matar americanos e seus aliados — civis e militares — é um dever individual de qualquer muçulmano que tenha os meios de fazê-lo, em qualquer país". Como bom soldado do Islã, deveria ter permanecido rigorosamente aferrado às regras do Corão. En­tretanto, não fora isso que acontecera. Quando conhecera Amina, tudo mudara. Pelo menos com respeito ao seu comportamento, à forma de enfocar a figura feminina e o sexo, à maneira de se relacionar com prazeres mundanos, como a alimentação, o álcool e o tabaco, e ao consumismo capitalista que, por princípio, sempre fora frontalmente combatido por Al-Kayed.

Hafez mudara, e muito. Mudara a ponto de não mais conseguir conceber a vida sem Amina, sem um padrão de conforto e de gastos que jamais seriam compatíveis com a imagem de um guerrilheiro, como ele sempre se julgara.

Ele estava ansioso e angustiado, também porque sabia estar tri­lhando um caminho sem volta. Envolvera-se com a jihad e Al-Kayed. Envolvera-se demais... recebera — e perdera — dinheiro da grande causa. Não poderia mais retroceder.


  • Posso fugir — murmurou ele, com um suspiro. — Mas o mundo será pequeno demais para eu me esconder de Al-Kayed.

Com um arrepio, lembrou, em voz alta:

  • E há Amina... Com certeza, eles a alcançariam, só para me castigar...

E era essa a idéia que mais o atormentava: que Amina pudesse vir a sofrer qualquer coisa. Sim, era importante pôr a moça a salvo. Mas como? Onde escondê-la? O que fazer para que ela não fosse encontrada pelo braço vingador de Al-Kayed?

Com a imagem de Amina a lhe encher a mente e a imaginação, Hafez pegou o celular — não queria usar o telefone fixo por causa da men­sagem que deveria receber de Al-Kayed e que ele não sabia se, desta vez, viria por e-mail ou diretamente pelo telefone — e ligou para a moça.



  • Teve notícias de Mohamed? — perguntou Amina.

  • Ainda não — respondeu Hafez. — Mas o pessoal de Al-Kayed já está cuidando disso. Até você chegar do hospital terei notícias.

  • E Ibrahim?

  • Logo mais à noite ele vai viajar para me trazer mais material. Tudo vai se arranjar, Amina. Fique descansada.

  • Estou preocupada com você. Parece estar nervoso... Muito tenso!

  • Tenho motivos para isso, não acha? Mas estarei bem melhor quando você voltar.

Amina deu uma risada e, dizendo que tinha certeza de que saberia como fazer para acalmá-lo, desligou.

Assim que Hafez fechou o celular, o alarme de e-mail chegando soou no laptop e ele, ansioso, abriu-o.

A mensagem afirmava que Mohamed tinha sido encontrado e eli­minado em Dallas e que ele estava em companhia de uma agente do Mossad, o equivalente israelense da CIA. Assegurava também que, uma vez que a segurança da célula que ele, Hafez, comandava tinha sido destruída, ele deveria se preparar para pôr em ação o plano alternativo. E terminava afirmando que o braço vingador de Al-Kayed reviraria o mundo para en­contrá-lo, bem como a pecadora Amina, caso esse plano não fosse posto em ação no máximo meia hora depois que o mundo recebesse o aviso e o sinal de que nada poderá impedir a jihad de continuar.

Ao terminar de ler, Hafez sentiu tudo girar ao seu redor, como se o sangue lhe fugisse completamente das faces, e teve de fazer muito esforço para não desmaiar.

O plano alternativo! Era, realmente, a última coisa que ele poderia desejar!

E significava que tudo estaria terminado.

Amina precisava ir embora, precisava desaparecer!

Voltou a ligar para a moça, aconselhando:



  • Amina, você precisa ir para Paris. Saindo do hospital, cuide da passagem para o primeiro vôo que puder tomar. Não me faça perguntas agora; explicarei o que puder quando você voltar para casa, já com a pas­sagem comprada. Irei logo depois de você, e nos encontraremos.

Antes que a moça pudesse protestar, Hafez enfatizou:

  • Obedeça. É muito importante que você faça exatamente o que eu disse.

E, sem esperar resposta, desligou.

Imediatamente em seguida, ligou para Ibrahim. Contou-lhe sobre a mensagem que recebera, sobre o destino de Mohamed, e avisou:



  • Não preciso mais dos explosivos. E você deve sair da cidade imediatamente, por medida de segurança. Com a determinação de Al-Kayed para se tomar o plano alternativo, você está dispensado. É uma missão só para mim.

Ibrahim apenas resmungou alguma coisa e desligou. Não havia o que fazer, não havia o que dizer, e ambos sabiam disso.

Para Hafez, aquela ordem significava o término de sua missão dentro de pouco tempo. Para Ibrahim, significava o início. Ele assu­miria a posição do companheiro em algum lugar dos Estados Unidos, depois que entrasse em contato com Al-Kayed por meio do e-maií que Hafez lhe entregara.

Desligando o telefone, Hafez começou a esvaziar suas gavetas e a rasgar todos os papéis que encontrava.

Enquanto Priscilla, a eficiente assessora de pesquisas de Castells não tinha qualquer resposta de Dallas, não havia muito a fazer, a não ser também esperar o resultado da revista do apartamento de Munoz, que Steinberg, alegando não querer ficar muito afastado das investi­gações preliminares, tinha se incumbido de realizar. Assim, enquanto este voltava para o local do crime, Donovan levou Anne Marie para tomar um café.



  • Ainda estou com muito medo — confessou a moça. — Tenho certeza de que Ramón vai tentar alguma coisa contra mim.

  • Pois eu acho que você está fazendo uma tempestade num copo d'água, Anne Marie. A troco de que ele teria interesse em se arriscar a esse ponto?

  • Ele pode pensar que se arrisca muito mais se eu souber de algu­ma coisa — retrucou ela. — Ele pode muito bem imaginar que Munoz me tenha dito mais do que devia, por exemplo...

Ficando um pouco ruborizada, Anne Marie acrescentou:

  • Não sei o que Munoz poderia ter dito a meu respeito... Ele sem­pre esteve muito atraído por mim e não fazia grande segredo. E você sabe como são certos homens... Podem não conseguir nada de uma mulher, mas, para contar vantagens a um amigo, deixam que a imaginação voe muito alto. Daí a ele ter falado alguma coisa para Ramón, e este achar que eu saiba demais, é apenas um passo.

Donovan meneou a cabeça lenta e afirmativamente. Anne Marie poderia estar com a razão. Ramón poderia supor que Munoz tivesse sido indiscreto para com a moça e, num momento de maior arroubo, ter lhe falado demais. Sim, havia a possibilidade de ele querer voltar e eliminar uma possível testemunha.

  • Mas ele saberia o seu endereço? — perguntou o agente.

  • Pode ser que saiba — respondeu Anne Marie. — Certa vez, meu carro estava na revisão e Munoz me deu uma carona até em casa. Claro, ele não subiu ao meu apartamento, mas ficou sabendo onde é o prédio. Descobrir o número do apartamento seria uma banalidade.

Donovan olhou para Anne Marie, e esta, percebendo seu olhar, deu um sorriso nervoso, presumindo:

O agente ficou sem jeito e, parecendo procurar as palavras menos duras, balbuciou:

  • Não propriamente isso... Mas talvez... Se ele tiver a idéia de procurá-la...

Anne Marie ficou em silêncio. Tomou o resto do café que estava em sua xícara e, erguendo o olhar para Donovan, declarou:

  • Acho que eu não teria coragem, Donovan. E acho também que ele jamais iria lá. A essa altura, ele já deve estar sabendo que estou aqui no escritório do FBI. No mínimo, é isso que ele deveria supor. Ele vai tentar me pegar em algum outro lugar, talvez até mesmo na empresa ou no trajeto de minha casa até lá.

Sorriu, pousou a mão sobre o antebraço do agente e perguntou:

  • Por que acha que não estou querendo ficar sozinha em lugar nenhum? E por que acha que, à medida que a noite se aproxima, eu fico mais nervosa?

Donovan segurou a mão de Anne Marie e assegurou:

  • Por estes dias você não precisa se preocupar. Vamos instalá- Ia num hotel, e você terá um agente postado diante de sua porta como garantia. Porém, isso não pode ser eterno e, portanto, temos de pegar Ramón o quanto antes.

Levantaram-se da mesa em que estavam e dirigiram-se de volta à sala de Donovan. Anne Marie não soltou a mão do agente e, no elevador, encostou-se um pouco mais a ele.

Assim que saíram no corredor onde ficava a sala de Castells e a de Donovan, Priscilla abriu a porta do escritório do chefe e chamou Dono­van, dizendo:



  • Já temos novidades de Dallas, e Castells quer falar com você.

Sempre acompanhado por Anne Marie, Donovan entrou no escritório do chefe, que, ao vê-lo de mão dada com a moça, não pôde esconder um sorriso carregado de malícia.

  • Nós não perdemos tempo... — murmurou Castells.

Donovan, percebendo os enésimos sentidos daquela observação, comentou:

  • E verdade... Priscilla acabou de me dizer que já existem novida­des de Dallas...

Castells ampliou o sorriso e continuou:

  • ...com pistas inúteis. Priscilla tinha dito que um Mohamed den­tre todos os que figuravam nas listas que ela conseguiu chamara-lhe a atenção. Passou sua suspeita para o escritório de Dallas e... Ela estava certa. Mohamed Marzouk era o homem...

  • Era? — fez Donovan com expressão de surpresa. — O que está querendo dizer com era?

  • Exatamente o que você entendeu — respondeu Castells. — Quando nossos homens chegaram ao aeroporto de Dallas, ele tinha aca­bado de ser assassinado.

Entregando a Donovan uma folha de fax, Priscilla esclareceu:

  • E há mais. O escritório do Mossad em Dallas passou-nos este fax. Eles dizem que uma agente especial deles, Sarah Ingermann, foi en­contrada morta, esfaqueada, no banco de trás de um carro abandonado no estacionamento do aeroporto. Uma pessoa viu sangue escorrendo pela parte de baixo da porta e chamou a polícia. Essa agente estava com docu­mentos nos quais constava o nome de Esther Meyer. Segundo o Mossad, essa agente estava trilhando um grupo de terroristas que teriam como missão explodir o Centro de Cultura Israelense em Nova York. A suposi­ção era de que Mohamed seria o chefe da célula terrorista. Porém, alguns minutos antes de morrer, Sarah ligou para seu chefe no Mossad e disse que Mohamed não era o chefe. Assim sendo, as buscas estão se dirigindo para cima de dois outros componentes desse grupo, um chamado Hafez Skandar e outro de nome Ibrahim Shehri.

Donovan leu o fax enviado pelo Mossad e, ao terminar, olhou para Castells como se lhe pedisse instruções.

Este, com um erguer de ombros, observou:



  • Veja bem, Donovan... Não deixa de ser uma informação para ser investigada. Porém, nós já temos experiência com informações do Mos­sad. Eles são muito espertos e põem em cima de nossas costas alguns casos que não têm nada a ver conosco. Melhor dizendo, que têm muito mais a ver com eles do que conosco. Assim, pode ser que essas informações que eles nos enviaram sejam verdadeiras. Mas nada nos garante que o sejam. Pode ser que esse tal de Hafez e esse outro, Ibrahim, não sejam mais do que simples suspeitos, e o Mossad esteja interessado em não perder tempo com uma investigação mais detalhada a respeito deles. Então, eles dão a impressão de que Hafez e Ibrahim são terroristas perigosos para nos fazer correr atrás deles. Daí, depois de um gasto enorme de tempo e recursos, descobrimos que são dois cidadãos exemplares. Apenas são árabes viven­do aqui nos Estados Unidos, inocente e honestamente.

  • Mas não podemos desprezar nenhuma informação! — protestou Donovan. — E se tudo isso for verdade? E se eles estiverem, realmente, querendo fazer saltar o Centro de Cultura Israelense?

  • Não tenho dúvida quanto a isso — defendeu-se Castells. — Apenas estou dizendo que é preciso tomar cuidado para não perder tem­po. Uma informação do Mossad deve ser levada a sério e, por isso, vou mandar investigar esses dois nomes. E vou pedir para o Mossad especificar um pouco mais. Por exemplo, fornecer endereços, atividades... coisas as­sim. Não quero desperdiçar tempo, energia e recursos em pesquisas que, certamente, o Mossad já fez e tem os resultados.

Fixando o olhar em Anne Marie, acrescentou:

  • No momento, nossos esforços têm de se concentrar em Ramón. Pode ser que ele, de fato, seja um distribuidor de explosivos para células ter­roristas. Se isso for verdade, quando o apanharmos, teremos a possibilidade de desarticular muita coisa! Além disso, é preciso cuidar da segurança de Anne Marie... Ela pode ser o próximo alvo desse tal de Ramón.

Deu um sorriso, piscou o olho esquerdo para Donovan, e concluiu:

  • Mas, quanto a isso, posso ficar sossegado. Você saberá como se desincumbir dessa tarefa...

Entre um hotel e o apartamento de Donovan — onde ele morava sozinho desde que se divorciara da esposa, havia já mais de seis anos —, Anne Marie preferiu este último, alegando que detestava o ambiente frio e impessoal dos hotéis e que, além do mais, ela teria uma sensação de muito maior segurança na residência do agente, em sua companhia, do que em qualquer outro lugar. Assim, passaram por uma dessas lojas de de­partamentos vinte e quatro horas, a fim de comprar alguns artigos básicos para a moça — como roupas íntimas e escova de dentes — e foram para a casa do agente.

Donovan não pôde deixar de sorrir quando, na loja, ao escolher um conjunto de calcinha e sutiã, Anne Marie lhe perguntara se gostava daquele modelo.



  • Acho que, em você, qualquer coisa cai bem — elogiara o agente, com uma forte pitada de malícia. — E nada, certamente, fica melhor ainda...

Subiram para o apartamento e, quando entraram, Anne Marie admirou-se com o bom gosto de Donovan com respeito à decoração e comentou que era um apartamento grande demais para um homem sozinho.

  • Até dá a impressão de que você não pretende ficar solteiro o resto da vida — comentou, com um sorriso.

Donovan preferiu não replicar. De fato, o apartamento era bastan­te grande, com três dormitórios — um deles, o agente transformara em escritório e biblioteca e o outro, em quarto de hóspedes, embora jamais tivesse qualquer convidado —, uma sala com dois ambientes e uma cozi­nha completamente equipada.

  • Gosto de cozinhar — justificou-se ele. — É a minha terapia. Por isso, para mim, a parte mais importante da casa é a cozinha.

  • Também gosto de cozinhar — disse a moça. — Mas tenho pre­guiça de cozinhar só para mim...

E, antes que Donovan perguntasse, ela revelou:

  • Fui casada durante um ano. Na realidade, foi um casamento mui­to mais de conveniência do que qualquer outra coisa. Não suportava mais o ambiente na casa de meus pais, em Saint Louis. Precisava de ar, de espaço para crescer. E, se dependesse de minha família, eu teria me casado com um primo distante, dando continuidade à tradição familiar de só casar com franceses ou, no mínimo, descendentes puros de franceses. Não era essa a minha meta de vida e, assim, casei-me com o primeiro que apareceu. Era mais ou menos óbvio que a união não iria durar muito, e foi exatamente o que aconteceu. Estou divorciada há quatro anos.

Donovan apenas resmungou alguma coisa e, para desviar o assunto, disse:

  • Vou preparar alguma coisa leve para comermos. Enquanto isso, se quiser tomar um banho, minha banheira de hidromassagem é muito boa. Você poderá relaxar e, quando tiver terminado, jantaremos.

Nesse exato momento, tocou seu telefone celular.

Donovan atendeu, vendo Anne Marie entrar no banheiro e ouvindo-a abrir as torneiras. Não pôde deixar de imaginá-la despindo-se...



  • Tenho novidades — disse Steinberg, do outro lado da linha. — Encontramos uma fotografia de Ramón!

  • Como sabe que é ele?

  • É uma dessas fotografias que os paparazzi de quinta categoria tiram nos restaurantes. Ele está em companhia de Munoz e duas mulheres.

Deu uma risada e comentou:

  • As mulheres, você bem pode imaginar o que são... Mas o importante é que no verso da fotografia está a data, o nome do restaurante, o nome das mulheres e o de Ramón. Pena que não tenha também o sobre­nome dele, o endereço e tudo o mais. De qualquer maneira, já temos pelo menos um elemento para procurá-lo. Castells mandou uma cópia para todos os que estão participando da caçada. Acho que não vai demorar muito para colocarmos as mãos em cima dele.

  • Alguma novidade sobre as informações fornecidas pelo Mossad? perguntou Donovan. — Sobre aqueles dois cujos nomes são citados no fax?

  • Ainda não temos nada a esse respeito — respondeu Steinberg.

Castells ligou para o correspondente do Mossad aqui em Nova York, mas, ou eles não sabem nada além do que já informaram, ou estão sone­gando mais informações. Você sabe como são essas coisas e como é o re­dime de competição que impera entre os serviços secretos... De qualquer maneira, estamos tentando agir também por nossa conta. É pena, pois é um pouco mais demorado; o Mossad deve ter muitas informações que se­riam úteis e que precisaremos conseguir por nós mesmos. Seria mais fácil se eles se dignassem a ajudar.

Donovan deu um sorriso contrafeito. Era bem verdade o que Stein­berg estava dizendo. O Mossad, assim como qualquer serviço de inteli­gência de outro país, habitualmente não partilha informações, a menos que seja de seu absoluto interesse.



  • Bem — disse ele. — Avise-me se souberem alguma coisa mais a respeito de Ramón. Se o pegarem, quero estar presente no interrogatório.

  • Se houver alguma novidade dentro de duas horas, ainda pode ser que eu o avise — disse Steinberg, rindo. — Sei que você está com Anne Marie aí em sua casa. Duas horas é o tempo que você vai demorar para preparar o jantar. Depois disso... Duvido que você queira receber qualquer telefonema!

Donovan soltou um sonoro palavrão e desligou. Mas logo em se­guida foi obrigado a sorrir, quando ouviu Anne Marie dizer, de dentro do banheiro:

  • Steve... Você não quer trazer alguma coisa para beber? E vir fazer companhia para mim?

Ramón Orellana não era um principiante. Já trabalhara vendendo explosivos para grupos fundamentalistas que atuaram na Argentina, no Quênia, na Tanzânia, dentro dos Estados Unidos e até mesmo para grupos do IRA e do ETA. Sua religião e política eram o dinheiro. Por dólares seria capaz de fazer qualquer coisa, sem lhe interessar nem mesmo sa­ber o que fariam com o explosivo que conseguia. O relacionamento com Munoz fora o que se poderia chamar de ouro sobre o azul: Munoz conse­guia explosivos da mais alta qualidade, cobrava pouco e não fazia muitas perguntas. Para o engenheiro, só interessava ter certeza de que estava for­necendo material para outras empresas de demolição. E era exatamente isso que Ramón sempre lhe garantira.

No entanto, o FBI descobrira aquele pacote de explosivos na esta­ção do Brooklin. Os federais, àquela altura dos acontecimentos, estariam trilhando Mohamed com a mesma eficiência usada para localizar a demo­lidora onde trabalhava Munoz.

— Esse imbecil! — lamentara Ramón para si mesmo, ao deixar o apartamento do engenheiro, logo após matá-lo. — Não teve estrutura nenhuma! Não teve coragem de enfrentar a situação! Teve de explodir o carro de Bollen, deixando todos os rastros possíveis!

A morte de Munoz tinha sido, para Ramón, uma conseqüência lógica e inevitável da própria estupidez do engenheiro. Depois de matar Bollen e fugir da empresa daquela maneira estúpida, ele fatalmente seria apanhado pelo FBI e não resistiria a dez minutos de interrogatório. Portanto, precisava morrer. Havia algo mais, porém, que Ramón ainda precisava fazer antes de desaparecer de circulação por algum tempo, tal­vez voltando para o Paraguai, talvez viajando para outro lugar qualquer onde não fosse reconhecido, preso e extraditado. Ele precisava eliminar a outra única pessoa com quem Munoz poderia ter falado de sua existência: a secretária de Bollen, Anne Marie, que, segundo o que lhe contara o en­genheiro no meio de uma conversa, chegara a ser uma amiga bastante... íntima.

"Idiota como era, não seria nada difícil ter falado tudo para essa mulher!", pensou Ramón, com raiva. "E isso não me deixa nenhuma al­ternativa! Tenho de matá-la também!"

Com esse objetivo em mente, Ramón tentou, de um telefone pú­blico, ligar para a empresa de demolição de Bollen. Não teve êxito, havia apenas um vigia que lhe disse que a empresa estava fechada porque o patrão tinha acabado de falecer.

Voltou, então, para sua casa, apanhou todo o dinheiro que guarda­va consigo, arrumou uma mala de roupas, vistoriou tudo, para ter certeza de não estar deixando para trás qualquer coisa que pudesse servir de pista numa eventual revista feita pela polícia, e saiu. Embora ainda fosse bastante cedo, queria ficar mais ou menos próximo à casa de Anne Marie, pois, assim que ela chegasse, trataria de eliminá-la e, então, antes que o FBI ou a polícia pudesse desconfiar dele, já estaria bem longe.

Assim pensando, e com tempo suficiente pela frente — imaginava que Anne Marie só voltasse para casa bem mais tarde —, foi até o aero­porto, onde adquiriu uma passagem para Assunção, no Paraguai, no vôo que sairia de Nova York às onze e meia da noite.

Voltou para o centro, sempre com o rádio do carro ligado numa estação de notícias, prestando atenção ao que ouvia, com o objetivo de saber se já teriam descoberto o cadáver de Munoz. Entretanto, até sete e meia da noite, ainda não tinha ouvido nenhuma menção sobre o assunto.

Eram exatamente oito e quinze quando ele estacionou o carro dian­te do prédio onde ficava o apartamento de Anne Marie, cujo endereço ele soubera pelo linguarudo do engenheiro.

Desceu, dirigiu-se à portaria e perguntou ao porteiro, um homem louro, muito alto, com aspecto simpático:


  • Por favor, preciso entregar uma correspondência pessoal para a senhorita Anne Marie... Qual é o apartamento dela?

Ramón percebeu, de repente, que o sorriso simpático que ilumi­nava o rosto do porteiro desaparecera, dando lugar a uma expressão que poderia ser definida de assustadora.

Não esperou resposta e, voltando-se rapidamente sobre seus calca­nhares, tentou fugir. Não deu três passos e viu outros dois homens surgin­do de trás de uma das colunas do saguão de entrada do edifício.

Com o desespero estampado no rosto, Ramón levou a mão direita à coronha da pistola que estava carregando no bolso do paletó.

No entanto, Steinberg estava muito próximo e foi mais rápi­do. Sua enorme e pesada mão alcançou o pescoço de Ramón por trás, agarrou-o e sacudiu-o. Ouviu-se um estalo lúgubre e, imediatamente, Ramón amoleceu.

Quando Steinberg o pousou no chão, o rosto arroxeado do para­guaio, com os olhos esbugalhados, mostrava que ele já não mais pertencia ao mundo dos vivos.


  • Droga! — exclamou Steinberg, com raiva. — Não era para tan­to! Eu precisava desse bandido vivo!




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