Racionalismo de freud



Baixar 23.15 Kb.
Encontro06.08.2018
Tamanho23.15 Kb.

Rio — Novembro de 1952

65


o homem e o mundo

RACIONALISMO DE FREUD

De EVARISTO DE MORAES FILHO

EM geral, ficam das doutrinas as suas formas iniciais, mais polémicas e renovadoras. E uma vez classificadas neste ou naquele tipo de pensa­mento, uma vez catalogadas segundo os moldes de escola, dificilmente conseguem mudar de ficha. E* que todos os começos são decisivos para a sorte futura da nova teoria, sendo necessário um certo exagero de conceitos para a obtenção de um lugar ao sol. Depois, vai chegando um meio termo con­ciliador e mais tranquilo, como quem verifica a existência de uma larga margem comum entre to­das as possíveis maneiras de se interpretar o mundo e a vida.

Foi o que se deu com a doutrina de Freud. A principio, chocante por suas próprias ideias a res­peito da sexualidade, despertou desde logo dois sentimentos opostos, mas igualmente violentos: adeptos intransigentes e adversários intolerantes. Pela polémica que se formou, viram-se ambas as partes levadas a um exagero perigoso, esquecidas da terra de ninguém, calma, meio morna, mas eterna e sempre virtuosa...

Por outro lado, poucos pensadores podem ser encontrados na história das ideias que tenham sido tão vilmente falsificados como Sigmund Freud. Muitas vezes, constituiu-se a crítica de certos adversários em uma refutação de suas pró­prias premissas, adredemente preparadas. As afirmações que se destruíam depois, caiam como castelos de areia, porque foram feitas de propó­sito para este resultado. Atribuíram-se a Freud ai ir ma t i vás que não fez e absurdos que não co­meteu. E meõmo, quando realmente se respigava a sua obra, procurava-se, com espírito prevenido, este ou aquele trecho isolado, capaz de compro­metê-lo. Não tinham alguns dos seus desafetos a boa-fé de compreendê-lo em conjunto, como siste­ma. Não se interessavam pelos seus ideais éticos, nem pelos seus fins moralizadores. Buscavam so­mente o escândalo de uma opinião extremada.

Os piores leitores, sentencia Nietzsche no afo-risma 137 do Humano, demasiado humano, são os que procedem como soldados entregues à pilha­gem: apoderam-se aqui e ali do que lhes interes­sa, mancham e confundem o resto, cobrindo-o de ultrajes. E ninguém foi mais vítima desta sin­gular e desonesta maneira de ser lido do que Freud. Como quem cata pulgas, procuraram na sua obra o exagero dos começos, desprezando o resto da sua doutrina construtiva.

Filosoficamente, encontramos o pensador de Viena incluído entre os representantes mais pu­ros de um exaltado írracionalismo, de um anti-intelectualismo que atinge às raias do desvario. Não hesitam alguns de seus discípulos e dos seus adversários — nisso de acordo — em classificá-lo como inimigo ferrenho da razão, negador irredu­tível de possíveis virtudes da inteligência huma­na. Basta recordar aqui um lúcido ensaio que, há alguns anos, publicou Aldous Huxley sobre a filosofia pré-logista da nossa época, destacando nela três grandes sistemas: o bergsonismo, o be-haviorismo de Watson e o freudismo.

Não há dúvida que, nas primeiras obras, nas fundamentais mesmo como básicas de todo o sis­tema psicanalítico, ressalta Freud a irracionalida­de da conduta, assim como o watsonismo o faz na opinião. No campo estrito da psicotécnica indi­vidual, baseou o psiquiatra austríaco a sua doutrina em dois princípios: o princípio de repetição e o princípio do prazer. Significam a busca do pra­zer e da libertação pela repetição dos atos, ineren­tes à natureza humana. Exteriorizam os impul­sos brutos, naturais, primitivos e inconscientes que tendem sempre a repetir-se. A essa personalidade inconsciente, que mais tarde vai se conservar no adulto através dos sonhos e dos atos instintivos, Freud chama de I d, por isso que é comum a to­dos nós. Somente em nova fase evolutiva surge o Ego, nascido deste Id e da repressão do meio.

Ainda neste mundo instintivo, de pura energia biológica, de base quase físico-química, distingue Freud dois impulsos: os impulsos de vida e os im­pulsos de morte, que tendem à construção ou à destruição do ser. Pela nutrição ou pela repro­dução, buscam os primeiros o equilíbrio entre o ambiente e o indivíduo, ao passo que os segundos o agridem, desagregando-o. Fixou-se Freud com mais cuidado nos primeiros, a que deu o nome de libido. Em suas palavras: "A libido designa a força com a qual se manifesta o instinto sexual, como a fome designa a força com a qual se ma­nifesta o instinto de absorção da nutrição". Em obras posteriores, como na Psicologia coletiva e análise do eu, desenvolve Freud grandemente esta noção, chegando a confundi-la com o próprio amor em sentido amplo, com o Eros de Platão ou o Ágape (amor-caridade) de São Paulo.

Prosseguindo na análise das diversas cama­das da personalidade humana, mas já agora não mais como puro fato da teoria do conhecimento cosmo-psicológico, como o Ego, surge o Superego, de índole eminentemente social, relacional, resul­tante do conhecimento ético (consciente). Esta­mos diante da consciência moral ou da censura, que orienta o indivíduo para uma melhor adapta­ção ao meio social em que vive, proibindo-o de ma­nifestar livremente o seu mundo instintivo. Daí os recalques, os deslocamentos e as transferências.

Nesta parte da sua obra, dedicava-se Freud aos estudos referentes à personalidade inconsciente e suas consequências no psiquismo superior, mas com absoluta preponderância daquela. E isso se explica facilmente pelo caminho que vinha per­correndo. Chegou ele a tais conclusões através de observações de neuróticos, principalmente de histéricos. Era seu objetivo — segundo dizia en­tão — "conduzir à consciência o material patogê-nico, dando fim deste modo aos padecimentos oca­sionados pela produção de sintomas de substi­tuição".

Com a noção de Superego, como "um forte aparelhamento disposto em nós de modo geral contra a invasão dos complexos inconscientes", já apresenta Freud alguma coisa de racional e de ló­gico na conduta humana. Aliás, já antes dele dizia Schopenhauer que a nossa vida consciente é uma resistência de todos os-instantes. Assim, pelo patológico chega Freud ao indivíduo normal, de vez que "as neuroses não têm um conteúdo psí­quico que, como privilégio dos neuróticos, não se possa encontrar nos sãos". Aqueles adoecem pelos mesmos complexos com que lutamos nós, os que temos saúde perfeita, completaria Cari Jung.

Depois da guerra de dezoito, dedicou-se Freud a desenvolver as suas ideias sobre uma visão deconjunto do homem e da vida, procurando cons­truir definitivamente a sua concepção do universo, a sua Weltanschauung. Libertava-se agora da­quelas pesquisas exaustivas no terreno da psico-terapêutica das histerias e suas classes, para in­gressar no campo mais amplo e espiritual de um verdadeiro sistema filosófico.

Uma concepção do mundo — escreve ele — é uma construção intelectual, capaz de resolver se­gundo um único princípio todos os problemas que propõe a nossa existência. Responde a todas as questões possíveis e permite classificar em um lu­gar determinado tudo quanto possa nos interes­sar. E' natural que os homens procurem fazer essa representação do mundo e que a elevem como um de seus ideais. A fé que lhe atribuem permi­te-lhes sentir mais à vontade na vida, de saber para que lado caminham e de que modo podem orientar mais utilmente seus sentimentos e seus interesses.

E é por volta de 1927, com o livro O futuro de uma ilusão, que Freud expõe a sua concepção to­tal do universo. Cansado de olhar para o pas­sado, preso à própria técnica psicalalítica — que, & maneira de Anatole France, bem poderia ter . como máxima o seu pensamento: "o> passado é a única realidade humana. Tudo o que existe é pas­sado", — voltou-se Freud para uma visão futura dos destinos da humanidade. E nota desde logo a necessidade urgente de conciliar a razão com o instinto, abandonando o mundo impressionante e tumultuoso do inconsciente. E' preciso que o ho­mem consiga controlar os seus instintos e impul­sos através de um programa de vida inteligente, de padrões de racionalidade.

À maneira de Kant, como que se divide o freu-dismo em duas direcões opostas. Em seus estu­dos estritamente psicanalíticos, do ser psicológico como indivíduo, numa atitude cega para os valores (wertblind, na exata terminologia alemã), decla­ra Freud que "os homens são pouco acessíveis aos argumentos da razão" e "são movidos pelos seus instintos", mas quando se coloca numa ati­tude valorativa (bewertend), do dever-ser, práti-co-filosófica, altera completamente o seu ponto de vista e confessa: "Não temos outro meio senão nossa inteligência para dominar nossa vida ins­tintiva".

E ainda na mesma orientação racionalista: "Podemos tanta vez acentuar que a inteligência humana seja sem força em comparação com a vida impulsiva, e teremos razão. Mas nessa fraqueza alguma coisa existe de particular: a voz da inteli­gência é débil, mas não descansa enquanto não se faz ouvir. Por fim, depois de inúmeras e repeti­das repulsas, ela se impõe. Esse é um dos poucos pontos pelos quais devemos ser otimistas, quanto ao futuro da humanidade; mas em si representa não pouca coisa. Ainda podemos fundar nisso as nossas esperanças".

E logo adiante, contrapondo-se às concepções do mundo que fazem depender os destinos huma­nos de valores estranhos ao próprio homem, prega a fé no sentido da vida e do autogoverno da hu­manidade por suas próprias criações: "Cremos que é possível ao trabalho cientifico conhecer alguma coisa sobre a realidade do mundo, com ela o nosso poder se pode elevar e por ela poderemos dirigir a nossa vida".

Nesta altura, devemos parar um pouco e me­dir a longa distância que se coloca entre as duas posições assumidas por Freud: a do instintivista das primeiras obras e a do racionalista das últi­mas. Sim, é próprio de qualquer raclonalismo,

como destaca Jean Laporte (Lê rationalisme de Descartes — Paris — 1945 — pág. XVI conside­rar as coisas não mais como contingentes e sim como necessárias. Isto é, procura sempre conter os fenómenos naturais e atos humanos dentro de uma concepção intelectual, lógica, válida univer­salmente .

A verdade é que, como escreveu Henri Poin-caré, embora a razão seja um simples relampejar no meio das forças universais, esse rápido clarão é tudo para o homem. E outro grande contista, Bertrand Russel, nos seus Skeptical essays (1928) também escreveu: "Creio que todo o verdadeiro progresso do mundo consiste em um aumento de racionalidade prática e teórica".

De fato, o que a razão não puder fazer, não se­rão as outras forças desordenadas e cegas da alma humana que o conseguirão. Racionalidade signifi­ca tão somente isto: o hábito de recordar e com­parar os nossos principais desejos e não nos en­tregarmos de imediato somente ao que nos domi­na em dado momento. E' preciso que a conduta humana se j À orientada por uma escala de valores éticos, guiados pelos juízos intelectuais. E isto o homem o consegue pelo uso da reflexão no mate­rial bruto que lhe fornece a sua experiência real­mente vivida.

Que diriam agora os detratores de Freud, os que o relegaram a uma filosofia primária de pu­ros instintos, vendo-o assumir uma atitude inte­lectual bem irmã do racionalismo kantiano, de uma escolha consciente de motivos para a conduta humana? Embora não alcançando a rigidez do imperativo categórico do filósofo de Koenigsberg, envereda Freud por um caminho semelhante de fé no domínio da razão, embora reconheça que este dia ainda não chegou para a humanidade. Mas que distância entre o médico dos neuróticos, todo lambusado de libido e o ardente apologista da ciência e da força espiritual do homem!

E embora com todos os mal-entendidos, as con­fusões, as defecções da criatura humana; apesar das quedas desanimadoras na ascensão de nós outros, pobres mortais, ainda assim compartilha­mos da mesma fé do antigo terapeuta dos histéri-l cos: "O primado da inteligência ainda está longe, muito longe, mas não no infinito".





Compartilhe com seus amigos:


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal