Rafaela – sucesso sempre



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A CAIXA PRETA SÍRIA!

SEGREDOS DE UMA REFUGIADA.


Prólogo.
Jorge, com apreço e saudades!

Espero que tenha a paciência de sempre em ler este relato que vou enviar aos poucos, pois por ele tenho hoje outros horizontes para percorrer e a nossa amizade merece que partilhemos bons e maus momentos, além de que nutrimos o mesmo interesse pelo estudo da mente humana e o instituto do cérebro na USP foi nossa grande escola.

Estimo que este e-mail o encontre muito bem na Alemanha no centro universitário e pode aguardar que pretendo visita-lo em breve. Por hora é só, mas espero que vá me dando o seu follow-up do que lhe envio.

Bem. Eu fora convidado para dar uma palestra a um grupo de profissionais de uma empresa aérea em São Paulo e faziam parte do grupo, aeromoças (os), comissários (as), pilotos, além de alguns investigadores da aeronáutica de sinistros aéreos.

O motivo de minha palestra, como não podia deixar de ser, era falar sobre o uso da técnica Alfagenica nas mais diversas circunstancias. Você sabe meu amigo Jorge que esta ciência desenvolvida pelo saudoso Professor Doutor Erimá Moreira, permite realizar proezas que escapam a razão e a compreensão sobre tempo e espaço e levar a mente do paciente para o momento da ocorrência de um fato marcante e inesquecível.

Sabemos que o cérebro pode ser ativado sobre os segredos que esconde quando lhe é conveniente, mas pode também viajar no tempo passado e encontrar pessoas desaparecidas, objetos e ainda estar num lugar minutos antes do acontecimento de um fato. Falei sobre isso na palestra e ainda acrescentei que o Professor dizia ser possível tirar a dor de um ferimento, realizar cirurgias sem anestesia e até salvar vidas depois de um acidente aéreo.

Fiz demonstrações com os próprios presentes sobre não sentir dor. Pedi que alguém escondesse um relógio de uma aeromoça no bolso de um dos presentes. Ela fora levada para o banheiro durante o acontecido e quando voltou, fiz-lhe o uso da técnica e ela em segundos disse onde se encontrava o relógio. Falou que viu a pessoa pegar o relógio e levar para um dos seus amigos e que ele disse duvidar que ela soubesse onde estava escondido. O fato é que não brincávamos de magica certo?

Depois que viram, com assombro, ela dizer onde fora escondido o relógio, um dos presentes perguntou se era possível descobrir a causa de um acidente aéreo, pois nem sempre as caixas pretas revelam muita coisa. Eu disse que só seria possível se houvesse algum sobrevivente, mas se fosse um atentado, era possível entrar no avião acompanhado de alguém que esteve nele minutos antes do voo. Só precisávamos da memoria do pessoal que limpou o avião, abasteceu, carregou o compartimento de bagagem e que de alguma forma esteve presente na aeronave antes da partida. Todos tinham algum detalhe para contar e se houvesse algo fora da rotina, seria lembrado com certeza. Deixei claro que até fisionomia dos passageiros era possível ser descrita para os desenhistas peritos em criminalística.

A técnica por diferir da hipnose clássica, permite que os pacientes estejam livres mentalmente para discernir o verdadeiro do induzido. São livres de opiniões do profissional e só executam o que sentem que devem fazer e nas circunstancias onde ocorreu algo marcante e fora do habitual, sendo comuns os relatos mais pitorescos de situações até desagradáveis. Isso acontece muito nos casos de estupros e violência sexual, pois se descobrem que certos acontecimentos foram consensuais.

Bem, meu amigo Jorge, quase ao fim dessa palestra, uma jovem falando numa mistura de francês e português bem rudimentar, perguntou se eu podia localizar uma mala desaparecida há quase um ano e meio, ou mais. Falou que a mala era uma recordação de sua terra e do lugar que nascera. Todos os presentes ficaram olhando para ela. Soube depois que não era brasileira e que tinha vindo para o Brasil por intermédio do centro de refugiados sírios e ela estava fazendo um trabalho na companhia aérea para o centro de refugiados.

Não lhe dei garantias, mas disse-lhe que se realmente para ela era importante o objeto, algo poderia ser feito e ao fim da palestra disse-me que ia a minha clínica qualquer dia. Dei-lhe meu cartão e falei que tinha de marcar hora, mas não foi isso que aconteceu e você vai saber logo. Depois dei alguns esclarecimentos sobre a memoria fotográfica e da sua capacidade ilimitada de reter informações fora do tempo e do espaço, portanto, qualquer coisa inanimada ou viva deixa um rastro de sua passagem por um determinado lugar. É como se pudéssemos estar presente nos acontecimentos quando de fato ocorreram e dessa forma trazer para o tempo presente a real situação, ou melhor, dizendo, em que condições o que buscamos se encontra e onde foi parar.

Costumo sempre ilustrar minhas palestras sobre o tema, relatando o caso que se tornou celebre em Juiz de Fora - Minas Gerais num simpósio de criminalística onde o Prof. Dr. Erimá fora convidado para dar uma palestra, já que ele trabalhou nessa área em auxilio ao exercito em casos de soldados desaparecidos, ou feridos gravemente em exercícios militares nas selvas brasileiras.

Durante sua palestra ele não só afirmou que era possível resolver um crime sem vestígios do assassino, como também fazer uma acusação formal contra o agressor usando para isso a cena do crime no momento em que o mesmo tenha acontecido.

Bem. O fato é que tinha ocorrido um crime bárbaro na cidade há uma semana e a policia não encontrara vestígios do assassino, ou assassina. Uma médica tinha sido morta em seu apartamento com requintes de barbárie, pois teve seu rosto desfigurado, embora não fora violentada. A arma do crime não fora encontrada, mas os cortes deixaram claro que foi usada uma faca. Não havia sinais de arrombamento e a porta tinha sido fechada quando o agressor ou agressora saíra. A médica, meu amigo Jorge, tinha um ferimento pequeno na cabeça, que o médico legista disse ter sido provocado por um objeto de vidro, mas não encontraram nenhum vasilhame parecido, ou com sinais de sangue. Também, além dos cortes no rosto, foi achado um pequeno orifício na veia jugular. O rosto dela e parte de seus cabelos cheirava a uma mistura de cerveja e uísque.

Não havia nenhuma garrafa de uísque aberta e latas de cerveja vazia. Possivelmente o assassino, ou assassina levou embora não só a arma usada como também o litro de uísque e as cervejas que foram bebidas.

O porteiro foi categórico em afirmar que ninguém entrou pela portaria no período em que ela foi encontrada morta, por volta das dez e meia da manhã, quando a diarista chegou para fazer a limpeza. A câmera de segurança instalada no elevador registrou a chegada da médica às nove e vinte horas, pois ela passou a noite no hospital cumprindo um plantão na emergência da UTI. Estava só quando subiu.

Não havia câmeras de segurança nos corredores do edifício e nem na garagem. Nenhum carro estranho entrou, pois todos os moradores possuem um código de segurança de acesso ao prédio.

Com vê, meu amigo, quem entrou e saiu do apartamento dela conhecia a rotina do prédio e também a vida dela. Pessoas tinham sido investigadas e interrogadas. Nenhuma suspeita ficou sem ser posta a prova. Portanto Jorge este era um caso para o Erimá mostrar o potencial da técnica Alfagenica.

Ele queria um voluntario que não tivesse medo de presenciar o crime e que não revelasse sua presença. Uma jovem se ofereceu. Vou chama-la de Olga, mas seu nome não importa nesse momento e nem o declinaria. Foi promovida de cargo depois de suas revelações. Ela era uma perita criminal e estivera no apartamento em busca de provas depois do corpo ser removido. Afirmou que já estivera examinando corpos em decomposição e que queria ver o criminoso na cadeia, não importando se homem ou mulher.

O Professor fez a indução nela e foi regredindo o tempo até o dia da morte da médica. Feito isso, coloco-a no apartamento e disse que ela ia relatar para o juiz da cidade, que estava presente o que via. Disse também para ela procurar um esconderijo que permitisse ver a porta de entrada sem que fosse vista. Ela se escondeu atrás de uma cortina bem pesada que realmente existe no apartamento, e disse que dava para ver não só a porta, como também o acesso à cozinha onde a médica fora morta.

Em dado momento disse que alguém abria a porta. Eram pouco mais sete horas da manhã conforme relatou. Nisso entrou um homem e ele trancou a porta de novo. Sua descrição dele em voz bem baixa, não correspondia a ninguém que fora interrogado segundo o delegado presente. Ele tinha uma cicatriz no pescoço e orelhas de abano.

Continuando. Ele conhecia bem o apartamento. Tinha duas cervejas na geladeira e ele as bebeu comendo junto um pedaço de salaminho que encontrou na gaveta da geladeira. Depois, ainda na cozinha, encontrou uma garrafa de uísque pela metade e bebeu deixando apenas um meio copo na garrafa. Sentou-se numa das cadeiras e fumou um baseado, depois entrou no quarto da médica, deitou atravessado e dormiu.

Olga alternava suas expressões na medida em que ia chegando a hora fatal. Ficou ofegante ao dizer que a médica tinha chegado e ao entrar no quarto, levou u susto ao ver o homem deitado em sua cama. Inadvertidamente, ao invés de ligar para a portaria e o síndico, acordou o homem xingando-o de palavrões. O nome dele é Pedro. Ela ficou fora de si e cobrava dele a ousadia de entrar no apartamento.

Ele estava grogue pelo álcool e a droga. Disse que veio ali apenas para passar o tempo, mas queria fazer sexo com ela. Ela ficou mais nervosa ainda e jogou algumas coisas que encontrou pelo caminho nele e se dirigiu para a porta com intenção de ir à busca de ajuda, mas ele a puxou pelos cabelos e pegou a primeira coisa que achou sobre a mesa e a golpeou na cabeça. Era o litro de uísque que se partiu, derramando seu conteúdo na cabeça dela.

Ela não chegou a desmaiar, pois seu cabelo amenizou o impacto, mas enquanto estava no chão, ele pegou uma faca na cozinha e a encostou na sua garganta, dizendo que ia mata-la se não fizesse sexo com ele. Ela então mordeu sua mão livre levando-a na boca.

Foi ai que retalhou seu rosto com a faca. Como se soube, os cortes foram profundos e ele imobilizou suas mãos, sentado em seu peito até que perdesse as forças. Depois furou a veia jugular e comprimiu com a mão o sangue que escorria.

Olga queria sair detrás da cortina e dar-lhe voz de prisão, mas o Professor disse que só sua mente estava lá. Era preciso as provas do crime e ela concordou.

Ele tinha algum conhecimento sobre provas criminais, possivelmente de filmes, por isso pegou outra cerveja num armário, depois que lavou cuidadosamente as mãos e a faca, lavou o corte da cabeça dela com parte da cerveja e pegou o litro de uísque e um martelo de amaciar carne, quebrando-o em pedacinhos dentro de um saco plástico. Juntou as latas vazias no saco e com um pano molhado em detergente foi apagando as digitais dele nos lugares que se lembrava de ter posto a mão. Passou um pano no chão e deixou-o dentro da maquina de lavar, junto com outras roupas.

A faca do crime, ele misturou a outras que eram usadas para churrasco. Por ultimo, limpou suas digitais da porta que entrara. Sabia que a diarista iria colocar a dela ao entrar e ao sair. Por ultimo, se certificou que a médica não se mexia mais e saiu.

Nesse momento o professor falou para ela segui-lo. A ordem foi que ela passasse junto com ele na porta. O Professor disse que temos de ser categóricos e enérgicos na ordem que dermos. Por isso disse: Sai com ele Olga! Não se afaste dele por nada! Nesse momento você é uma investigadora particular em serviço. Vai me dizendo o que ele faz com quem está e onde está.

Sei que está gostando da narrativa, mas contenha a emoção. Vem mais por ai Jorge.

Ele saiu do apartamento e ao invez de se dirigir para o elevador, desceu as escadas lentamente e foi direto até o subsolo, na garagem. Deixou o saco plástico junto de um entulho de um apartamento que estava sendo reformado e este foi seu maior erro.

Certificou-se que não havia nenhum morador saindo e foi beirando a parede do lado esquerdo onde havia uma pequena folga entre a grade da garagem e o chão. Saiu por ali e Olga também. Da guarita de entrada não dava para ver este ponto cego.

Na rua pegou um ônibus e foi para um dos bairros de Juiz de fora. Entrou numa casa da rua e o Professor deu ordem para ela ficar vigiando a entrada. Em seguida ele foi avançando os dias até a hora em que se encontravam e perguntou para Olga onde ele estava. Imediatamente ela disse que estava numa rua e entrou num bar. Tomava cerveja com mais dois amigos ao lado de uma mesa de bilhar. O teto do bar era um pouco baixo como viemos a saber depois.

O Professor pediu que ela lesse o nome do bar, mas ela disse que não tinha nenhum nome. Pediu então que procurasse o nome da rua, mas ela não encontrou. Por ultimo perguntou se viu algo que lhe chama-se a atenção na rua e ela deu a entender que andava por ela. Derrepente disse: Tem uma casa antiga grande reformada, com pintura nova em azul, verde e branco. Tem também uma mulher lavando a calçada.

A pergunta era. Onde seria a tal casa? Bem, um dos presentes disse se lembrar de que estavam restaurando um casarão da época do império, perto do Parque Imperial.

O juiz falou para o delegado geral colocar as viaturas em patrulha pela cidade na busca da tal casa e da mulher que lavava a calçada e foi o que se decidiu. Nesse interim, o Professor Erimá mandou a Olga ficar conversando com a mulher e não deixá-la sair do lugar. Por sorte uma viatura da ronda escolar passou na rua e viu a mulher parada como se conversasse com alguém apoiada na vassoura.

Ela tomou o maior susto, pois o policial desceu de arma em punho. O outro que ficou no veiculo chamou pelo radio e em minutos na frente da casa já tinha seis viaturas que fecharam completamente a rua.

Perguntaram para ela se sabia onde tinha um bar por perto e ela respondeu que não tinha bar nenhum naquela rua, mas numa garagem mais para frente havia uma mesa de bilhar e um balcão que o dono vendia bebidas. Só vagabundo iam lá, ela disse.

Decidiram que os dois policiais da ronda escolar iriam parar o carro na frente do bar e perguntarem se o homem tinha refrigerante, ou agua gelada, pois estava muito calor. Se a resposta fosse positiva eles entrariam. O homem tinha agua e um deles desceu, mas o outro ficou no carro. O que entrou bebeu devagar a agua e olhou em volta sorrindo e falou para os presentes que trabalhar com aquele calor e não poder tomar nem uma cerveja era uma merda. Ofereceram para ele um copo de uma garrafa sobre a mesa, mas ele balançou negativamente a cabeça.

Ao voltar para o carro com outra garrafinha de agua para o seu companheiro, disse: Pela descrição que recebemos, um deles, o que está ao lado da mesa de bilhar, é o suspeito que buscamos, vamos fingir que iremos embora e passar o radio para os demais.

Quando os policiais saíram da frente do bar, tinha viaturas dos dois lados da rua. Minutos depois os três foram levados detidos como suspeitos de um roubo. Nenhum deles tinha passagem pela policia e nunca foram presos.

A noticia de que as descrições de Olga se tornaram reais com a prisão do suspeito, mudaram o curso da presença do saudoso Professor. Todos queriam ver o suspeito e, assim, foi interrompida a palestra e o acusado foi transferido para o tribunal de Juiz de Fora, onde todos os presentes puderam presenciar as acusações que seriam feitas por Olga. Com a ajuda dela também acharam a faca e o saco plástico, mas este estava debaixo do entulho dentro de uma pequena caçamba. Só as latas de cerveja haviam desaparecido, porem, os cacos da garrafa estavam lá. Posteriormente a policia cientifica encontrou fragmentos de pele e alguns fios de cabelo no meio dos cacos. Exames de DNA constataram ser da médica.

O interessante de tudo isso foi ele ouvir da policial os detalhes do que fizera no apartamento e de como matara a médica. Sua reação foi de assombro e em desespero disse: Fui eu que matei ela, fui eu! Mas onde você estava no apartamento sua desgraçada! Eu estava sozinho, tenho certeza! Não é possível! Maldita! Maldita!

Levaram-no embora depois que assinou na presença do juiz a confirmação de que era o autor do crime.

Num dos muitos cursos que acompanhei o uso da técnica para dentistas, foi surpreendente o que ocorreu com o Dr. Otavio que, depois estacionar seu veiculo em frente o prédio, voltou até ele para pegar uma pasta de trabalhos odontológicos que esquecera e ao chegar não mais encontrou o veiculo.

Naquele tempo não havia celular e nem alarme de segurança em alguns veículos e o dele por ser um carro já usado, nem seguro tinha.

Contou o fato antes de iniciar-se o curso e um dos dentistas se prontificou a ir com ele a uma delegacia providenciar um boletim de ocorrência na esperança de encontrarem o veiculo, mas o Professor Doutor Erimá disse antes do curso que conseguia reaver o carro sem ajuda da policia e, dessa forma, depois de fazer a indução no Dr. Otavio, levou-o para dentro do carro momentos antes dele deixa-lo e mandou que se deitasse no banco traseiro, pois sentira um sono repentino.

Quem o olhava na cadeira de testes diria que realmente estava em outro lugar. Derrepente abriu os olhos em pleno transe e disse: Estão roubando meu carro! Estão roubando meu carro! Foi preciso a intervenção do Professor que lhe disse: Acalme-se! Ninguém pode te ver! Só eu! Combinado? E ele respondeu que sim.

Depois o Professor disse para ele ir descrevendo o trajeto que percorriam com o carro e ele imaginando que olhava de vez em quando para fora, movimentava a cabeça para cima e para o lado. Segundo ele, iam em direção a marginal de Pinheiros. Depois disse desconhecer o lugar que o carro parou.

O Professor disse para que aguardasse até que os bandidos saíssem, e assim foi. Quando saiu do carro imaginário, ele disse que não sabia onde estava e o Erimá disse para ele sair do lugar e ir até a primeira avenida que encontrasse e ele levou pelo menos 5 minutos para dizer que se encontrava na Rua Doutor Francisco Tomás de Carvalho, que é uma enorme ladeira muito perigosa do ponto de vista dos assaltos na região.

Bastou comunicar com o policiamento da região e seu carro foi recuperado em duas horas. O documento odontológico fora jogado no chão do carro.

A aula que os dentistas esperavam ser uma grande descoberta se limitou ao caso do dentista e trouxe uma nova perspectiva dentro do atendimento nos consultórios.

Eu tenho certeza, caro amigo, que outras aventuras aguardam os que se dedicarem a estudar esta ciência. É o meu caso, pois como usuário costumas dessa arte passo por saias justas, não iguais a que vou te contar e que se revelou num dos casos mais difíceis da minha vida. Meu mundo nunca mais será o mesmo depois disso e você vai ver logo.

Se algo não ocorrer como planejo, envio-te noticias.

Com o apreço de sempre. Marcus.

I

Para começar mais esta parte, saiba que minha agenda na segunda feira é bem cheia. Como neurologista e neuropsiquiatra atendo pacientes de toda sorte de problemas. Não raro, sou surpreendido com as fantasias de alcova de alguns artistas e famosos que me procuram. Meus segredos profissionais se revelados causariam muita confusão e me trariam sérios problemas processuais, mas uso sempre do bom senso e procuro me manter a margem do que tenho de resolver ou dar uma solução digna para amenizar tais fantasias ocultas.



Naquela segunda, no final da tarde, quando atendi meu ultimo paciente, soube pela minha secretária que uma moça queria me falar. Era ela. Vou chama-la de Aster, mas disse para minha secretária que se chamava Samyra Yurda, depois deu-me outro nome, sendo que este vem do grego e significa estrela, pois ela recusou dar seu nome verdadeiro quando a conheci e também porque possui uma marca tênue no lado direito da fronte parecida com uma estrela. Deve ser de nascença.

Coloquei em seu prontuário apenas este nome e seu país de origem, a Síria e que tinha pouco mais de 38 anos. Tinha parentes no conflito e alguns até desaparecidos na região de Rasem Alharmal Alimam, a nordeste de Aleppo, mas não quis falar muito sobre o assunto e eu não insisti.

Minha nova paciente posso lhe dizer, se revelou ser bem bonita, descobri depois, apesar de que no dia da conferencia que dei, não ter lhe prestado atenção, nem mesmo quando perguntou sobre a mala. Alias, de frente para ela no meu consultório, perguntei qual era a verdadeira razão de me procurar e ela disse que buscava a tal mala que desaparecera num voo do aeroporto de Thessaloníki Airport Makedonia na Grécia para o aeroporto Internacional de Guarulhos.

Cometi a indiscrição de perguntar por que queria tanto a tal mala e ela ficou nervosa e disse: Doutor Marcus, deculpe o que vou dizer. Não lhe devo satifação sobre minhas coisa. Se pode me ajuda mesmo, pago o que for necessário, mas não respondo o que não quero. Não sei fala direto o português aida, mas entedo as coisas que falam para mim. Pode me falar em inglês, ou francês que aprendi muito bem e assim vamos nos entender melhor. Eu sou de pouca palavra, mas sabe que sou honeta, honesti com coisa.

Pedi-lhe desculpas e a corrigi: É honesta que se diz. Vamos nos ver mais vezes e acertaremos o português. Eu nem imaginava o que vinha pela frente ao dizer isso. Depois perguntei se tinha alguma foto da tal mala e ela tirou um celular e mostrou sua mala, junto com mais duas malas grandes e uma pequena num carrinho de aeroporto.

Todas tinham aparência de ser de couro, mas aquela mala certamente foi feita por encomenda e perguntei para ela do que foi feito. Relatou que foi revestida de couro de cabrito da raça Mambrina, da região de Damasco e por isso os pelos serem marrom e branco. Suas bordas e seu meio em toda a volta era toda revestida de tachinhas. Um trabalho totalmente artesanal Uma mala daquela ninguém esquece.

Perder Jorge? Nem pensar.

Notei que tinha um nome e um numero em negrito numa etiqueta. Perguntei como quem não quer nada, se podia copiar a imagem e ela concordou. Depois disso falei como pretendia buscar na sua memoria o que sabia sobre a mala, porem escondi certos detalhes e não lhe garanti grande coisa.

Iniciei sua primeira indução Alfagenica levando-a para alguma idade de seu passado entre os dezoito e vinte e dois anos. Acreditava que nesse período podia haver algo sobre seu passado que revelasse segredos envolvendo certos assuntos que estivessem relacionados com o conteúdo da mala em questão.

Nada consegui de produtivo, apenas que morava na região de Al Tabqah, perto da hidroelétrica do lago Assad do rio Euphrates. Disse que era filha de um comerciante de peles e produtos turcos. O rio servia como meio de transporte de seus produtos para as cidades da região. Ela estudava inglês e francês, além de trabalhar num departamento do governo de Bashar Hafez al-Assad e entrou para o exercito sírio com vinte e três anos. Disse que permaneceu só dois anos a serviço do governo, mas não dei muito importância ao fato até que mais para frente em nosso relacionamento, outras situações deixaram claro que sua participação no governo sírio ia bem além do que me disse.

Em meio as suas informações em transe, se negou a responder o que fez depois de ser militar e passou a se comportar como se fosse uma adolescente, pois falava numa mistura de inglês e algum dialeto local, sobre o que aprontava no colégio junto com seus amigos de escola. Ria e fazia caretas. Acabei por desperta-la.

Como estou acostumado a mentiras de meus pacientes, não dei muita importância as suas declarações. A maioria só se entrega mesmo as induções depois de quatro ou cinco sessões. Escondem-se em suas fantasias e desejos tentando desviar meus objetivos técnicos, mas na medida em que adquirem confiança em mim, soltam-se de suas amarras e chegam a comentar suas vidas abertamente e de forma natural.

Enquanto ela estava sob o transe, fui observando seus traços físicos e notei que parecia se alimentar muito mal. Possivelmente passara por muitas necessidades antes de chegar ao Brasil. Depois de desperta queria pagar a consulta, mas recusei. Não recebo nada antes de ter algo para oferecer aos meus pacientes. É meu costume.



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