Rafaela – sucesso sempre



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Encontro11.07.2018
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Coloquei uma musica calmante como fundo e fui dando-lhe as ordens subliminares em português frisando que ela entenderia o que eu dissesse. Ela se agitou por alguns segundos durante minha impostação de voz e por isso temi que acordasse, mas dentro do conceito de que a pessoa se sente muito bem e que dorme um sono de muita paz, relaxando, cabeça, ombros, pernas e braço, sendo que depois acaba tendo uma respiração rítmica ao som dos números 1 e 2, ela dava alguns suspiros profundos e foi se submetendo a indução Alfa sem opor-se. Por fim virou de lado na direção de onde vinha à voz e eu disse que ia responder algumas perguntas com prazer.

Disse-lhe: Ramysa se me disser seu nome verdadeiro, podemos conversar melhor não acha?

- Não sei se devo. Sou uma refugiada e vigiada.

- Só estamos nós dois aqui e eu prometo que ninguém vai importuna-la. Olha envolta e vai ver que tudo está bem fechado.

Ela sentou na cama, olhou para todos os lados e deitou de novo. Falei assim: Viu? Ninguém pode incomoda-la e eu quero seu bem. Somos grandes amigos desde a infância na Síria.

- Somos? Não me lembro de você. Qual seu nome?

- Sua irmã me chama de Nasir, mas você me chamava de outro nome lembra?

Ela ficou quieta por instantes, pôs a mão esquerda sob no queixo e disse: Estou confusa. Qual das minhas irmãs te chamava de Nasir?

- Sameeha é logico, ou eu estou enganado também?

- É certo que está Nasir. Já esqueceu? Eu nunca te chamei por este nome. Eu sempre te chamei de Zuhair. (Zuhair, ou Zuhayr significa Luminoso).

Quem te chamava por este nome era 'Aisha18. Ela sumiu nesse país e eu preciso encontra-la antes que a encontrem. Temo por ela, apesar do que me fez em Palmyra.

Eu estava pasmo. Ela deixou bem evidente que era a verdadeira Sameeha. Os nomes são diferentes, mas as aparências... O que mais poderia haver entre as duas que as aproximavam tanto. Pois é. E a outra irmã dela que estava no Líbano? Eu tinha que pensar rápido, por isso mandei-a ficar em pé. Disse-lhe que uma médica da organização “Médicos Sem Fronteiras” iria examina-la e que eu ia sair. A voz que ouviria agora era da médica. Seu corpo também apresentava sinais de perfurações ou de estilhaços de granadas ou outas coisas, mas era mais bem conservado do que o de Sameeha quando a conheci. Possivelmente tinha um papel secundário entre os rebeldes.

Lamentei a ordem que lhe dei, mas era necessário. As duas corriam perigo eminente e só eu poderia ajuda-las. A fiz tirar a roupa e ir se virando como se fosse examinada. Parecia tudo normal, porem ao aproximar seu rosto da tela e mandando-a virar devagar para um lado e outro, dei de cara com a mesma marca antiga da agora Zamyha. Pedi para que ficasse de frente. Não havia duvidas. As duas eram gêmeas idênticas. Na foto não dava para notar tais detalhes.

Dei-lhe ordem de se vestir e antes de manda-la se deitar, ocorreu-me de pedir que mexesse os cabelos para um lado e o outro. Outra surpresa. Havia um mapa também na sua cabeça.

Não sei se eram idênticos, mas deviam ser. Alguém percebeu a semelhança delas e preservou algo para o caso de uma ser morta, a outra teria o segredo na cabeça, mas ainda restava a mala. O que havia de tão importante nela.

Olhei o relógio e já eram quase quatro. O tempo voou. Teria pouco mais de duas horas para dormir.

Depois de ela se vestir e deitar, disse-lhe que ao acordar não ia se lembrar de nada, apenas que ia sentir um desejo enorme de ouvir a minha voz depois das duas da manhã do sábado, dormindo um sono tranquilo.

Eu estava exausto e ao invez de ir para a cama, dormi no sofá mesmo. Fui acordado por Sameeha, quer dizer 'Aisha. Ela ficou brava comigo, mas eu argumentei que ela ficou bastante agitada naquela noite e para não acorda-la fui para o sofá. Na verdade perdi a hora. Eram sete da manhã e tive que correr para tomar banho e me arrumar. Ela também perdeu a hora e insinuou que podíamos ficar pela manhã em casa, quando na verdade ela queria outra coisa. Dei-lhe um pega de brincadeira e prometi vir mais cedo, passando no escritório para pega-la até às quatro da tarde.

Durante o dia fui atendendo meus pacientes pensando em como conciliar a presença de 'Aisha, com seus desejos e a necessidade de concluir o atendimento clínico com Sameeha a verdadeira em não mais do que três dias, ou ia acabar tendo uma estafa física. Precisava urgente de um escape dela, mas como?

Hipnotizar 'Aisha no apartamento pareceu-me razoável, mas que argumento usaria como escape, pois induzi-la ao sono tinha sem inconvenientes, então lembrei que poderia induzi-la, simulando que fazíamos sexo por um longo período da noite, onde ela se manteria numa sublimação do prazer permanecendo imóvel na cama.

Não deu outra, deitamos mais cedo na sesta e depois de consumamos o ato em si, disse-lhe para ficar deitada e coberta. Sua confiança em mim já sedimentada, acabou com sua resistência. Ela sorria e se mostrava satisfeita.

Passava da meia noite quando adormeceu profundamente e eu fui acionar o sistema e vêr Sameeha onde estava. Bom. Assistia televisão no quarto. A impressão que tive é que ela era mantida em cárcere privado. Devido às ordens que recebera mentalmente, ao ouvir minha voz para relaxar, desligou a televisão, deitou e se cobriu. Adormeceu e disse que eu, Zuhair era bem vindo à casa de seus parentes.

Agradeci e perguntei onde é que estávamos e ela disse que na casa de seu tio em Al Taiarah e que depois iriamos para a casa de sua mãe em Al Khafsah. Pelo mapa observei que o rio Euphrates era uma aproximação sempre constante.

Seguindo num raciocínio logico, usei de astucia e perguntei onde estavam às armas que deveríamos levar até Manbij e ela disse que as armas ainda estavam na Turquia e que chegariam de barco. Perguntei então quem as traria e ela foi taxativa: 'Aisha é a responsável.

- Porque ela é quem cuida disso?

- Segredo do rio. Ela tem segredo do rio. Não quer me contar o segredo! Estou com raiva dela. Eu tenho o mapa e ela também tem.

- Então você sabe onde está o segredo rio!

- Não! Falta um pedaço. Só ela sabe.

- Está na mala que pegou?

- A mala estava vazia. Ela deixou ela vazia para mim no aeroporto.

- Tem certeza de que a mala estava vazia Sameeha? 'Aisha disse que tem um segredo na mala.

Eu joguei um blefe. Se conseguisse que ficasse confusa, teria a oportunidade de ver a tal mala e foi o que aconteceu.

- Zuhair. Bem que mamãe disse que você é mais teimoso do que um camelo empacado! Não tem nada na mala. Quer ver?

- Quero! Se você me mostrar te dou um daqueles doces que você mais gosta!

Ela esfregou as mãos de satisfação. Se existe uma coisa que os pacientes não dispensam são suas preferencias degustativas.

Ela levantou e foi até um armário e tirou de lá a mala que me enterrou nesta história até o pescoço. Teve dificuldades com ela, pois mesmo tendo rodinhas, pesa 20 quilos, conforme me disse a verdadeira 'Aisha. Pôs sobre a cama, mexeu no cadeado de segredo e abriu. Na sua imaginação eu estava junto com ela. A mala realmente não tinha nada dentro. As tachinhas chamaram minha atenção. Elas estão por toda parte segurando o revestimento de pele. Não deixa de ser uma peça muito bonita e mesmo vazia, se torna impossível detectar qualquer alteração nela numa maquina de raios-X. O metal interno e as tais tachinhas aparecem com nitidez. Mandei que virasse ela de lado, pois precisava que ficasse de frente para a câmera e, assim, filmei-a por dentro. Procurei não deixar escapar nenhum detalhe e por fim, mandei que se deitasse depois de guardar a mala, pois iriamos cada um para sua cama. Disse que comeu seu doce preferido e que no domingo para segunda no mesmo horário (disse-lhe o horário) estaria esperando meu comunicado.

Minutos depois dormiu e eu fui dormir também ao lado de Sameeha que é 'Aisha .

Nada me tiraria da cama antes das oito da manhã do sábado.

O final de semana não poderia ter sido melhor. Aproveitei para ir até Ubatuba, na casa que tenho num condomínio distante da praia trezentos metros. Desde a minha separação perdi o animo das coisas boas da vida, pois a gente esquece que tudo passa e em muitas vezes nem observa as coisas simples de viver. Eu não tenho como negar que 'Aisha injetou um animo novo em tudo ao meu redor e vendo-a brincar de fazer barcos de areia de todo jeito, enxerguei sua simplicidade juvenil apesar de seu corpo escultural.

A contragosto nós voltamos e depois das quatro da tarde já estávamos no prédio. Evitei conversar sobre as coisas que já haviam sido esclarecidas e assistimos a um filme da serie “Era do Gelo”, pois ela gosta de desenhos e saímos para jantar no “Folha de Uva”. Na volta ela falou sem mais nem menos: Nasir eu te amo, você sabe disso. Somos marido e mulher. Você tem coisas que eu não posso saber do consultório. Eu acho isso certo, mas porque você levantou duas vezes e se trancou no escritório e veio dormir de madrugada. Numa delas deu a desculpa de que eu não parava quieta. Na outra nem me disse nada. Não fale nada ainda. Eu pensava que fossem coisas de sexo na internet, mas depois pensei bem e vi que você não é desse tipo de homem. Quer dizer, eu satisfaço suas necessidades não é? Então cheguei à conclusão que sou eu a causa. O consultório, o escritório e tantas outras coisas não te dão paz, mas você já está acostumado. Então cheguei à conclusão depois do que ouvi, que a causa ainda sou eu. Eu não te dou paz. Minha vida, meu povo, o mundo de onde eu vim. É isso não é? Não minta pra mim. Não vou ficar aborrecida. Eu só quero a verdade.

Saiba que não fiquei atrás da porta tentando ouvir, mas ouvi a voz de uma mulher que conheço muito bem. Não entendi o que dizia, mas gostaria de saber o que conversaram e tenho certeza que eu estou envolvida.

Não precisa ser gênio para entender que mesmo sob o efeito da indução ela se ligou a mim de tal forma que bastava não estar com ela na cama, para que despertasse, portanto, ela devia ter ido a minha procura e mesmo ouvindo vozes distantes, pois eu deixava o som bem baixo, certamente reconheceu a voz da irmã. Naquela noite e madrugada adentro estaríamos juntos para a última parte daquela invasão doméstica. Já não ia precisar mais induzi-la a ser uma italiana, agora era a questão livrar sua irmã e a elas mesmas do risco de serem mortas, sequestradas e quem sabe, deportadas do Brasil como terroristas de algum grupo islâmico.

Primeiro pedi perdão por esconder dela até onde tinha chegado nossas investigações. Disse-lhe que não podia contar antes para não atrapalhar o rumo das coisas. Enfim, deixei-a par de tudo e disse que sua irmã era mantida em cárcere privado e que na verdade, seus sequestradores esperavam seu contato tendo em vista que pegaram sua irmã no seu lugar e depois descobriram que não era a pessoa que esperavam. Sorte que não a torturaram, mas deve ter sofrido algumas ameaças de morte caso sua irmã não a procurasse.

Contei que eles não acreditaram que ela tinha saído do Brasil. Para eles ela ia voltar em busca da mala e da sua irmã e isso era questão de tempo, por isso precisávamos agir o quanto antes. Expliquei que ela ia nos ajudar diretamente colocando um celular nas mãos de sua irmã de alguma forma, sem se dar a conhecer e ela disse que isso não era problema. Nós iriamos tirar ela de onde estava e íamos leva-la para a chácara, depois de uma trama que faríamos no sobrado onde ficava.

Ela chorava sem parar no carro e falava em árabe muita coisa e sua voz foi mudando de tom. Por fim disse com voz de homem: O falcão vai atacar Nasir. Não vou ficar parado esperando matarem minha irmã. Quero arma e vou agir. Para mim é guerra e seja quem for o inimigo, eu mato! Estou com muito ódio e nem tente me impedir.

Não era uma jovem que falava, não! Nem era minha esposa. Eu estava diante de um homem travestido de mulher e que sabia tudo de artes marciais, combate e guerrilha. Saia muito mais sobre espionagem do que muitos militares sequer sonham. Com armas ou sem elas, ai de quem cruzasse seu caminho, mas eu precisava dete-la para não desviar o rumo das investigações e o esquema que se armava para libertar sua irmã.

Jorge. Deu o que fazer para acalma-la e quando chegamos ao apartamento, às lagrimas ainda teimavam em escorrer. Tive que lhe fazer um chá de camomila e fui agradando ela até que ficasse com a voz normal de novo. Seu silencio era constrangedor. Sentei no sofá e ela deitou colocando a cabeça sobre minhas pernas. Foi nesse instante que resolveu abrir o jogo e me surpreendeu com suas palavras: Nasir eu me chamo'Aisha. Usei o nome de minha irmã para protegê-la e tentar afastar dela uma possível perseguição, mas somos muito parecidas e podemos ser confundidas. Somos gêmeas mesmo, mas como eu nasci primeiro ela me deve obediência.

Crescemos felizes e como todos ribeirinhos, amávamos nosso rio. Ouvíamos histórias verdadeiras de acontecimentos envolvendo nossos antepassados. Inocentes que éramos como crianças, eu e meus irmãos e outras crianças de vizinhos e parentes, passávamos horas na agua. Um dia eu dei meu primeiro mergulho em busca de uma pulseira que uma menina deixou cair e chorava muito e, debaixo d’água, vi o fundo do rio e aqueles restos de madeira saindo do meio das pedras. Não sabia que era, mas imaginei que fossem de barcos. Minha bisa, numa reunião na casa de vovó é que esclareceu o que era. Disse que pertenceram a navios muito, mas muito antigos.

Quando completei onze anos fui à casa de minha bisa numa noite especial. Estávamos comemorando seus 99 anos de vida, mas em plena festa era reuniu eu e vovó num quarto e disse que era hora da verdade ser transmitida para mim. Eu seria a partir daquela data, a detentora dos segredos dos rios.

- Que segredos você passou a conhecer, posso saber?

- Agora pode. Somos marido e mulher e nos amamos de verdade! Minha bisa contou segredos dos rios do tempo das minhas tataravós. Os grandes navios da antiguidade levavam riquezas e só que conhecia os lugares mais fáceis de passar neles escapava dos naufrágios, mesmo assim muitos iam a pique e ninguém se atrevia a tentar resgatar as riquezas que tais navios levavam. A não ser é claro, quem tivesse experiência em mergulho e ai... Como vocês dizem “Filho de peixe, peixinho é”. Ribeirinho nasce nadando. O fato é que minha bisa viu num mergulho uma coisa brilhando perto de uma pedra. Pegou o objeto e ao sair da agua fui mostrar para minha tataravó. Ela guardou e falou que não podia dizer para ninguém.

Meu tataravô disse que aquilo tinha muito valor e pela primeira vez ela soube que o objeto (pedra) se chamava Berilo e que também tem outro nome. Era uma pedra grande. Ele quis saber onde minha bisa tinha achado e de noite foi com ela ao local. No escuro ele a mandou ir até o meio do rio e mergulhar. Sorte que a lua era cheia e tornava a agua menos escura. Falou para ela só voltar do fundo com alguma coisa. Qualquer coisa. Não sei se ela obedeceu por medo, ou por desejo de achar algo que o deixasse contente e quase se afogou. Disse que subiu varias vezes para encher os pulmões de ar.

Na ultima vez que fui bem ao fundo escuro do rio e conseguiu distinguir um pequeno brilho perto de um mastro de navio. A claridade da lua refletiu até o fundo. Tentou carregar a pedra que brilhava, mas era muito pesada. Subiu então e disse para meu tataravô que não dava para trazer para fora o que achara. Ele não pensou duas vezes e voltou com uma corda e disse: Amarra no que for.

Eu e tua mãe depois puxamos. Foi o que ela fez.

A pedra que eles trouxeram para fora devia pesar mais de três quilos. Ela chorava ao me contar. Só tinha 9 anos Nasir. Só 9 quando virou mergulhadora. A pedra era de ouro puro. Ela quase morreu por causa daquela pedra. .

Todas as noites daí para frente meu tataravô queria que ela mergulhasse e ela às vezes fingia de doente, até que acabou adoecendo mesmo da friagem. Meu tataravô acabou chegando à conclusão de que aquilo foi apenas um achado, mas anos depois, foi ela quem supriu a necessidade do ouro para o comercio da família. Já tinha idade para nadar por onde quisesse e foi ocultando as riquezas dos rios nos lugares mais difíceis de serem encontrados.

Minha bisavó foi substituída pela minha avó, que quando casou assumiu o papel de guardiã dos tesouros dos rios. Ela teve que decorar todos os lugares secretos tanto dentro dos rios, quanto em regiões terrestres, dos depósitos de riquezas incalculáveis que temos escondido para usar em defesa do nosso povo.

- Você então é a herdeira dessa tal fortuna?

- Não. Não sou! Aquela riqueza pertence ao meu povo! Se quiser saber fui para a Ingraterra a pedido de meu pai quando fiz désseis anos. Acompanhei arqueólogos que trabalhavam antes da guerra atual em escavações nas margens do Tigre e do Euphrates. Eles só encontravam o que queríamos que encontrassem, pois eu resolvi mudar tudo dos lugares em que ficavam. Acredito foi Allāh, quer dizer, Deus que me iluminou. Fiquei fora da Síria alguns anos. Nesse tempo também que fiquei lá fui ser treinada pelo exercito inglês e americano desde os 17 anos. Sofri muito com o treinamento, mas aprendi tudo do serviço secreto. Depois vieram os russos e quando fugi do governo sírio para a Turquia, um plano inglês e americano já se achava em curso. Contavam com minha experiência do rio, mas eu nunca gostei deles.

Ninguém liga para meu povo.

Sabe o que eu aprendi nesse tempo todo da guerra. Só são felizes os que morrem. Feridos e sobreviventes herdam as feridas e o ódio, por isso não há nada que pague você aparecer na minha vida. Aceitar-me como eu sou e se casar comigo.

Eu e minha irmã viemos para cá fugindo. Parte da história você já sabe, mas viemos brigadas por causa do rio, pois temos em nós o segredo e ela queria que eu lhe desse o mapa que tenho, mas se já tivesse dado, ela há esta hora estaria morta. Olha na minha cabeça, isso é. Se já não viu. Tem um mapa. Eu mandei tatuar na Inglaterra com um desenho que criei do lugares onde escondi tudo, depois o repeti na cabeça da minha irmã. Na dela falta um pedaço e na mala está o resto.

- 'Aisha. Que droga! Porque não me disse antes. Quantas coisas teríamos evitado. Vai ser difícil acostumar com esse nome, mas vou te mostrar uma coisa daqui a pouco. Agora, veja isso. Seria tão bom que as que as riquezas que se escondem no leito do rio não pudessem ser tiradas de lá, ou você saqueou tudo? Que você acha que existe de tão importante no fundo dele. Para mim você pode dizer. Não há nada que eu possa fazer mesmo.

- Engano seu Nasir. Há sim. Você vai saber como em breve. Escuta isso que eu vou te dizer, eu li que a Bíblia fala das riquezas do Éden e tais riquezas estavam nos rios que saiam dele. Mas aprendi também que uma cidade chamada Babilônia, fundada por volta de 1950 a.C. situava-se às margens do rio Euphrates, foi a primeira grande metrópole do mundo. Foi destruída várias vezes, mas conseguiu se recuperar, sua história é riquíssima. Foi capital da Acádia e da Suméria, seu rei, Hamurabi, estabeleceu o primeiro código da história e desenvolveu, também pela primeira vez, um direito uniforme para uma grande nação. São famosas suas obras como a Porta de Babilônia, os Jardins Suspensos e a Torre de Babel citada na Bíblia.

Você certamente já ouviu falar da grande cidade Ninive que existiu em 1700 antes de Cristo, que eu não conheço e é um Deus muito famoso. Essa cidade situava-se ao redor do rio Tigre. Os antigos passaram de geração em geração que foi a maior cidade de um tempo muito antigo. Tinha muralhas e largas ruas que cortavam seus bairros, seus palácios eram cercados de muralhas e dentro delas se achava uma grande torre de onde se podia avistar longe.

Nasir. O passado do rio Euphrates e do Tigre se confunde com a civilização e para finalizar, aprendi com os arqueólogos que existiu uma cidade enorme chamada Ur. Diziam eles que era antiguíssima e muito rica. Surgiu por volta de 4.000 antes desse Cristo às margens do rio Euphrates. Agora escuta isso. Ur controlava o comércio no rio Euphrates, quem descesse o rio com a intenção de chegar à cidade de Eridu, próxima a saída para o Golfo Pérsico teria que passar por Ur. Posição muito estratégica. Bem perto de onde hoje é o lago Assad e cuja região antes de sofrer uma inundação grande, teve que passar por um acordo internacional de escavações de resgate arqueológico.

Foram realizadas na área ameaçada entre 1963 e 1974, os tais sítio que remontam da cultura natufiana tardia ao período otomano. Os sítios escavados incluíram Tell Abu Hureyra, Emar, Habuba Kabira, Mureybet, Tell es-Sweyhat, Tell Fray e Dibsi Faraj. Em Qal'at Ja'bar, um castelo sobre uma colina que se tornaria uma ilha pela inundação do lago Assad, um talude protetor foi construído e dois minaretes em Mureybet e Mascana foram realocados para uma área além da zona inundada.

Os sítios não revelaram nada, mas não iam revelar mesmo, meus antepassados já tinham tirado do leito do rio suas riquezas e escondido em um lugar seguro. O lago serve de sepulcro para parte delas, mas eu tenho a chave para tirar elas de lá. Só eu tenho a chave, mais ninguém. Que acha disso Nasir? Como acaba de ouvir. Eu não sou tão burra como pensava. Aprendi muita coisa sobre nosso rio. Mas só eu sei onde estão às verdadeiras riquezas dele e como já disse, tais riquezas são intocáveis. As guerras por causa do direito de navegar em suas aguas naquele tempo levaram para seu fundo, riquezas incalculáveis em ouro, pedras, utensílios e outras coisas que estão muito bem guardadas em alguns lugares que ninguém pensa em procurar. Pode ser, por exemplo, num poço soterrado perto da fronteira com a Turquia. Escondi muita coisa que tirei nesses anos das aguas barrentas do meu rio e elas estão em lugares obvis, obs. Como se fala mesmo?

- Óbvios. E você não é burra. Eu nunca pensei que fosse!

- É isso que disse, mas ninguém iria procurar algo de valor no meio de excrementos humanos e em latrinas né Nasir? Você procuraria ouro em poços artesianos de mais de trinta metros de profundidade, mas secos e que foram preenchidos por corpos em decomposição? Não, não é? No entanto estão todos mapeados na minha cabeça, mas eu sei onde estão de memoria.

Pus-me a pensar e a murmurar sobre a mala e antes de lhe perguntar mais alguma coisa, sugeri fazermos uma indução para que eu pudesse esclarecer um fato que tinha escapado despercebido e ela concordou. Afirmei que queria me certificar da fuga de sua irmã para o Líbano e quem sabe trazer noticias do seu irmão que desapareceu. Na verdade eu queria saber onde foi feita a tal mala e, assim, depois de induzi-la, por intuição, sugeri que estava com sua irmã no exato momento em que se faziam as tatuagens no couro cabeludo delas, por isso perguntei de chofre: Quem está começando a fazer as tatuagens em vocês e onde estão nesse momento?

- Alfeti.

- Onde fica isso 'Aisha?

- Rio e lago na Turquia.

- Porque este lugar longe da Síria?

- Comercio de amigos de papai. Tatuador sabe guardar segredos de 'Aisha.

- Vocês rasparam a cabeça para fazer as tatuagens?

- Tatuador só raspou lugar de passar as linhas do mapa. Ele é perfeito e nós usamos nossa proteção diante dos homens.

Lembrei-me do lenço e perguntei como pagou o tatuador e ela disse que havia pago com ouro em pó. Fiquei intrigado com aquilo. Não seria possível ela tirar ouro em pó do fundo rio, embora acreditasse que devia existir, por isso perguntei como tinha conseguido ouro em pó e ela respondeu que mandava triturar o ouro, pois assim era mais fácil carregar e pagar os traficantes de armas.

Mudei o foco e quis saber o que aconteceu depois que fizeram as tatuagens e ela disse que escoltou sua irmã de volta até a divisa com a Síria, deixando-a na cidade de Killis onde estavam alguns refugiados e deixou-lhe uma boa soma de dólares que ela ocultou num lugar seguro.

- E você? Para onde foi depois?

- Ar-Raqqah. Um comboio nos esperaria durante a noite para descarregar armas. Tínhamos que subir novamente o lago do rio em direção a Manbij.

Pelo mapa vi que a cidade de Aleppo estava próxima e perguntei para ela porque Manbij e respondeu que destino das armas era Aleppo. Os rebeldes precisavam de armas e munições.



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