Rafaela – sucesso sempre



Baixar 0.51 Mb.
Página2/15
Encontro11.07.2018
Tamanho0.51 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   15

Passava das sete da noite quando se foi e vi pela janela da clínica que armara um temporal lá fora. Certamente pegaria a chuva para o caminho de sua morada.

Troquei de roupa no escritório e coloquei uma roupa esportiva, pois normalmente trabalho de traje social. Já tive de trocar pneus em baixo de chuva e preferi não arriscar fazer isso de terno. Alias Jorge, porque os pneus acham de furar em dias de chuva hein?

Nós médicos também sofremos com a lei de Morf. é ou não é? Bem, o fato é que sai da garagem e subi a Avenida Angélica em direção a Avenida Paulista. Chovia a cântaros e os pontos de ônibus estavam vazios àquela hora da noite. Ao que parece, todos tinham saído mais cedo do trabalho na região para fugir do transito e dos engarrafamentos.

Tive que usar farol alto, pois não dava para se ver quase nada a frente e quando ia chegando a Praça Buenos Aíres, uma pessoa saiu debaixo de uma arvore e sinalizou para um taxi a minha frente, mas ele não parou e ainda espirrou agua de uma poça grande na pessoa. Meu farol direito bateu em cheio nela. Era a Aster.

Eu ia embora direto, mas me senti incomodado e encostei um pouco a frente e dei ré. Baixei o vidro e a chamei em francês e depois em inglês. Ela não deu atenção, ou não ouviu. Nem olhava para o carro.

Desse trecho em diante parte de nossas conversações passaram a ser feitas em francês.

Desci, peguei um guarda chuva que sempre carrego e fui à busca dela embaixo da arvore. Falei com ela para me acompanhar, mas relutou. Eu ia embora, mas tornei a dizer que a deixaria onde quisesse e lhe garanti sua liberdade.

Por fim aceitou e entrou no carro.

Ela estava bem molhada e tremia de frio. Liguei o ar condicionado e lhe dei meu casaco de couro. Não queria, mas insisti e vestiu. Depois quis deitar o banco e sem me dizer para onde ia, simplesmente dormiu mesmo molhada.

Ao chegar a paulista o transito estava totalmente parado. Tornei a reparar nela. Ela na verdade tinha desmaiado. Seu rosto estava lívido. Tomei seu pulso e seu ritmo cardíaco tinha baixado, além de que sua respiração estar também bem compassada. Entrei no estacionamento do Shopping Paulista e como os vidros do meu carro são escuros, pude movimentar com ela sem ser visto.

Soltei os botões de sua calça e desabotoei sua camisa forrada até quase seus seios. Seu sutiã apresentava-se bem surrado e o par de tênis que usava e que tirei com delicadeza, além de bem gastos, revelaram dois pés cheios de hematomas, como se ela tivesse dado muitos chutes com eles. Partes dos dedos dos pés estavam em carne viva. Procurei não olhar seus detalhes físicos e fui deitando ao máximo o banco. Depois segurei levantados seus pés quase acima da cabeça e foi lhe voltando à cor. Não pude ignorar seu rosto um tanto encovado com as maças salientes. Ela certamente dormia pouco e se alimentava muito mal. Bem. Por fim acordou e olhou-me assustada, mas eu lhe disse que ficasse quieta mais um pouco até se refazer por completo. Falei-lhe que tinha tido um desmaio.

Passado alguns minutos deixei que se arrumasse e endireitei o banco. Ela pareceu envergonhada quando abotoava sua roupa, mas fiz que não notei. Depois lhe disse: Aster, não sei seu nome, mas não importa. Você teve um desmaio desde que entrou no meu carro e é por causa de uma desnutrição. Sou médico e entendo disso. Há quanto tempo esta sem comer?

Ela não respondia nada, mas insisti e ela disse que não comia nada desde o dia anterior. Falou baixinho que estava economizando seu dinheiro.

Balancei a cabeça negativamente reprovando-a e disse-lhe: Você está precisando de uma roupa nesse momento e de comer algo. Permita que a leve até uma loja de roupas e depois lhe ofereço um jantar. Não quero nada de você e nem pense em querer me pagar. É o minimo que posso lhe oferecer. Aceite por favor!

Ela começou a gaguejar e ficou de cabeça baixa.

Fomos a uma loja do Shopping e deixei que escolhesse o que quisesse. Depois lhe comprei um blazer bem confortável e a levei a área de alimentação. Suas roupas molhadas foram acondicionadas numa sacola.

Ela permanecia em silencio sentada numa das mesas da praça e isso me incomodava. Só quando íamos começar a jantar ela falou. Disse-me: Posso beber algo quente? Estou com frio.

Inverno em São Paulo e chuva, é de gelar mesmo, por isso respondi que sim e que eu a acompanharia.

Bebemos vinho quente e optamos por um caldo verde. Ela nunca tinha tomado e até repetiu. Realmente seu problema era fome, ou parecia que era.

Depois que terminamos, perguntei se gostava de alguma sobremesa brasileira, mas ela disse desconhecer nossa culinária e aceitou o que eu pedi. Banana flambada em calda de chocolate e sorvete de trufas.

Ela não disse, mas deu para perceber que queria mais. Ficou encantada com o fogo que o conhaque levantou enquanto eram preparadas as bananas.

Depois que terminamos, caiu o silencio entre nós. Diria que constrangedor, mas quando ia pedir a conta ela perguntou quanto me devia por tudo. Olhei bem nela e disse: Jovem, minha vida é um pouco solitária e apesar das aparências gosto de companhia. Boas companhias não fazem mal a ninguém e você, mesmo não sendo de muita conversa, é bem vinda. Você não me deve nada. O que fiz eu faria de novo até por alguém que nunca vi. Já aconteceu. Agora me diga para onde quer ir. O transito já deve ter diminuído e podemos seguir para seu destino. Onde é?

Ela abaixou a cabeça e vi que enxugava com as costas da mão algumas lagrimas. Dei-lhe o meu lenço e esperei. Por fim deixou escapar que não tinha para onde ir. Seu dinheiro estava no fim e não podia voltar para o lugar que ficara. Um quarto nos fundos de uma casa próximo do aeroporto de Congonhas. Não conseguira nenhuma colocação e do dinheiro que ganhou da associação de refugiados só tinha pouco mais de 200,00 reais.

Perguntei por que queria pegar um taxi quando a vi e ela disse que ia para um albergue na região do Brás. Já tinha ficado lá quando veio para o Brasil. Afirmou que não tinha nada no tal quarto que alugara. Ela só tinha a roupa do corpo e a que comprei. Lembrei-me da mala. Possivelmente suas roupas estavam nela.

Você sabe que sou divorciado e moro, quer dizer, morava, num condomínio num sobrado no planalto Paulista. Minha companhia semanal sempre foi minha antiga empregada, quer dizer, era, depois lhe explico porque, por isso lhe dei um quarto nos fundos do sobrado. O nome dela Maria, mas sempre a chamei de Mariazinha. Chamava-a de mãe de vez em quando. Afinal, foram mais de quarenta anos de convivência e ela já tinha passado dos setenta anos. Trabalhou para minha mãe desde que eu era criança. Considerava-a um patrimônio familiar.

Conto isso porque tive que tomar uma atitude com relação à Aster. Ela notou que fiquei pensativo e me interrompeu. Estou lhe causano precupação Doutor? Se pude, me leva para o arbegue e eu sigo a vida.

Sorri do seu jeito de falar e lhe disse: Não estou preocupado com você. Estou mesmo é penalizado, mas creio que você não sabe o que quer dizer isso. Acho que posso ajuda-la. Alias, quero ajuda-la, mas vou depender de uma resposta tua. Tenho uma proposta para te fazer.

Ela olhou-me desconfiada e disse: Resposta deu? Que responde eu? Proposta. Que é isso? Eu pensa que não vou gostar de ouvir você. Desculpe Dr. Vou embora.

Levantou para sair e fui atrás dela até o corredor e pedi que parasse. Não sei como me obedeceu. Voltei e paguei a comanda, depois fui ao encontro dela que tinha sentado num dos muitos bancos do Shopping.

Sentei ao seu lado, mas um pouco longe. Na hora vi que não ia dar certo o que pretendia lhe oferecer, por isso mudei de tática e iniciamos este dialogo que transcrevo, que originalmente foi feito em francês, pois notei que tem grande domínio da língua.

- Aster. O que ia lhe propor foi um erro infantil, ia lhe oferecer o emprego de doméstica na minha casa. Você ia morar num quarto que tenho lá, mas mal nos conhecemos não é? - Quero lhe ajudar e isso é o minimo que posso fazer. Acredito que seja uma pessoa de boa índole e sei que os emigrantes não são bem recebidos nos países para os quais fogem, com a intenção de escapar da guerra. Aqui é um pouco melhor, mas temos nossos problemas e uma grande disputa pelo mercado de trabalho.

Ela quis me interromper, mas não deixei e conclui dessa forma. Disse-lhe: Vamos fazer assim. Vou te levar para um hotel que conheço na Av. Sabiá. Chama-se Comfort Ibirapuera. Você fica hospedada lá por minha conta até eu conseguir um emprego para você. Depois resolvemos onde você vai morar. Durante este tempo vou ajuda-la a encontrar sua mala. Que acha?

Ela levantou-se e se pôs a andar de um lado para o outro. Parava, olhava para mim e andava de novo. Falava e gesticulava em voz alta sem parar e sem se importar com quem passava. Por fim, veio se sentar e disse: Quando eu pago você? Quer dizer. Como eu pago você Dr. Marcus?

Respondi na hora: Aster se fosse por dinheiro eu nem te daria atenção e nem estaria aqui. É bom que se decida logo, ou posso mudar de ideia. Nem sei o que deu em mim para agir assim com você.

Ela estendeu a mão e disse: Aceito, mas quero que seja rápido em me arrumar trabalho, se não, sumo de vista.

Nosso sorriso não foi muito animador, mas pelo menos já não éramos inimigos.

Era quase nove horas quando a levei a uma loja de departamentos que conheço e fiquei numa sala esperando enquanto escolhia umas peças de roupa íntima e mais algumas peças de roupas sociais. Depois a levei para comprar sapatos, bolsa e outras coisas que ia precisar. Por ultimo fomos ao Al Zahra na Rua Melo Alves, 490 - Cerqueira César, onde mandei que escolhesse perfumes árabes. Durante todo este tempo evitava olhar-me e mesmo não querendo dar mostras de estar satisfeita, a vi suspirar de prazer olhando-se num espelho de uma loja. Mulheres! Que seria do mundo sem elas! Por falar nisso, ela demonstrou desconhecer bem o Brasil. Quando ainda estávamos no Shopping, colocou suas compras num banco e ficou de costas para ele colocando um lenço na cabeça se mirando numa vitrine de uma loja.

Peguei suas coisas e sai de perto só para ver sua reação. Quando se virou e não viu as compras que fizera, ficou desesperada procurando. De longe levantei as sacolas para ela e sorri, mas ela fechou a cara e os punhos gesticulando pra mim.

Quando se aproximou, disse-lhe: Não confie em ninguém. Aqui é Brasil, não teu país. Gostei do teu lenço. Ficou bem em você.

- Não é lenço. É Hijab. Eu protegida e distancia de você. Fiquei sabendo depois que o “hijab” (o “hijeben”, em dialeto magrebino) tem origem na palavra árabe “hajaba”, que significa esconder, se ocultar dos olhares, estabelecer distância. Este véu esconde os cabelos, as orelhas e o pescoço, e só deixa visível o rosto. Na hora só respondi assim: Se você acha, pra mim esta bem.

Quando entramos no carro para ir embora para o hotel, ela parecia outra pessoa. Sua cor tinha voltado. Seguimos em silencio por algum tempo até que notei que queria dizer algo, por isso usei um proverbio bem antigo para lhe falar: Aster, o que está fervendo na panela? Fale!

- Eu não Aster. Eu não panela. Que panela ferveno?

- Você não é Aster. Não quer me dizer seu nome. Como quer ser chamada então já que vamos passar algum tempo juntos.

- Juntos? Respondeu. Eu não junto.

- Já falou isso saco! Como quer ser chamada se eu continuar a atendê-la na clínica?

- Chama-me Sameeha. Nome que vovó deu de presente.

- Que significa? Sabe?

- Diz língua curda que é pessoa geneosa. Eu não sabu isso. Geneosa o que se?

Ela continuava a misturar o português e isso a deixava até engraçada.

- O correto é “Eu não sei que se diz e não sabu”. Generosa, o que você quer dizer, é uma pessoa que ajuda os outros quando precisam e são pessoas de respeito, por isso são nobres de nobreza entendeu?

- Entendi. Você boa pessoa, gene, gene, geneosa. Nobre você? Acha?

- Não acho nada, mas você está escondendo algo de mim. O que é Sameeha? Puts. Que nome. Vou chamar você de Same. O que está escondendo?

- Eu medo de falar. Você não gosta se eu fala.

- Para com isso! Fala logo.

Parei o carro na final da Paulista, quase perto do viaduto. Virei para ela e tornei a perguntar. Por fim disse. Eu queria foto grande.

- Que foto grande Same?! Onde viu isso?

- Perfumes tem um na parede.

- Sabe que horas são? É quase dez da noite e você quer uma foto!

Falei meio que bravo com ela como se fosse alguém que eu conhecesse há muito tempo, mas sua resposta me desarmou.

- Eu não quer mai. Você ruim co eu. Vamu embora!

Peguei o celular e liguei para a loja. Já estavam fechando. Perguntei sobre a tal foto e me disseram que não estava a venda. Insisti e o dono da loja veio me atender. Expliquei para ele a situação. Disse que pagava o que pedisse, mas a minha noiva era mulçumana e queria ele. Ela entendeu o que eu disse e me deu um beliscão forte sem eu esperar e falou algo em árabe que me pareceu um xingamento.

Nisso ele pediu para falar com ela e eu disse para não me desmentir, enquanto apertava o lugar do beliscão. Conversaram em árabe por alguns momentos e ela me devolveu o celular. O homem queria falar comigo. Disse-me para ir buscar a foto que um funcionário estaria esperando do lado de fora da loja. Quis saber o preço e ele disse que era um presente para minha noiva. Falou que era um prazer presentear a filha de um grande amigo sírio das grandes viagens pelo Euphrates anos atrás.

Voltei ao Al Zahra e peguei um embrulho bem feito. Quis dar uma gorjeta para o funcionário, mas recusou. Ele foi até o carro e disse para Same em árabe: Allahu dimana punir laquê! Traduzido depois: Ala ilumine sempre você! E ela respondeu: 'Sila alabada! Para sempre!

Eu estava puto com ela. Deu-me um beliscão e ainda já tinha me tirado do sério com seu pedido, mas quando já estávamos estacionando em frente ao hotel, ela pegou minha mão, beijou e disse: Você deculpa eu antes. Eu má com você. Allah yunir lak fi alkhayr! (literalmente: Alá te ilumine na bondade!). Deixa eu vê machuco seu. Dito isso levantou minha camisa e ficou olhando o vermelhidão bem perto do rim direito. Passou a mão esfregando de leve e disse: Eu ruim memo. Você triste co eu.

Tirei sua mão depressa e me arrumei. Desci e a chuva tinha amainado. Fui ajuda-la a pegar as coisas no porta-malas, mas ela permaneceu sentada no banco, olhando para a entrada do hotel. Fui até a porta do carona e abri chamando-a, mas se recusou a olhar-me. Seu rosto estava distante, fitando o vazio. Dei a volta e sentei ao seu lado dentro do carro. Perguntei por que sua feição tinha mudado e ela demorou em responder. Por fim disse em inglês: Você disse no comercio de lojas: Não confie em ninguém no Brasil. É isso assim não é? Eu não tenho documentos. Perdi no albergue. Vou ficar nesse lugar de que jeito? Se der nome meu, hoje mesmo, depois que for embora a policia do Brasil vem atrás de mim. Eles procuram por mim. O hotel vai chamar eles eu sei. O albergue é só uma desculpa. Eu ia dormir junto com os moradores de Rua do Braz, lá perto, não posso ir ao Albergue também.

Se puder me dar algum dinheiro eu vou para o Braz. Durmo em um lugar qualquer. Você foi bom comigo até aqui, mas estou com medo de ficar só. Não conheço ninguém e você vai me abandonar tenho certeza. É perigoso estar ao meu lado. Quando eu tiver dinheiro volto a te procurar. Quer dizer, se achar que pode me receber.

Fiquei intrigado com suas palavras e perguntei por que achava que eu faria uma coisa dessas, deixando-a sem mais nem menos e ela disse que era uma estrangeira sem futuro. Afirmou que eu não conseguiria arrumar emprego para ela, por isso não ia me fazer gastar dinheiro. Preferia que eu a deixasse.

Respondi que se a deixasse ir naquela circunstancia, nem ia conseguir dormir e que eu não era um velhaco para não cumprir meus tratos, mas ela deu a entender que não me acreditava e nem tinha entendido nada do que eu disse. Provavelmente já tivera outras decepções no Brasil. Só tinha uma saída para nós e eu resolvi arriscar em mais um convite para ela, mesmo temendo sua resposta, mas se fui até ali...

Jorge. O que o destino nos traça. Devo ser mais velho que ela uns dez anos, mas uma mulher mais jovem como companhia passageira de um caso fortuito é salutar do ponto de vista humano, mas não naquela situação e isso sem contar que ainda não me livrei dos problemas de um casamento fracassado. Saiba que ele ainda provoca idas e vindas dos tribunais. A Laura, minha ex, quer mais do que merece. Se é que merece alguma coisa, pois o que fez com nossos dois filhos em troca de dinheiro e da traição que descobri tarde demais me tornou arredio com mulheres. Sorte que nossos filhos levaram numa boa tudo e já estão com idade suficiente para entender os problemas da vida a dois. A Ingrid e o Adriano, ambos com quase vinte e dois anos, vivem fora do Brasil na casa do meu irmão Sergio. Estão na cidade de Toronto onde estudam. Só nos visitam nas férias, ou quando resolvo ir para lá, passar uns tempos.

Seguindo com esta narrativa disse para ela: Same, sei que não vai gostar do que vou dizer, mas você não me deixa opção. Se não aceitar, vou leva-la até para onde quer ir e você faz da sua vida o que quiser.

Ela parou de falar a esmo e ficou me olhando firme e então eu lhe fiz a proposta de ficar no meu sobrado até resolvermos parte do problema.

Seus olhos se iraram, mas não me intimidei e disse-lhe: Se conhecer minha casa não vai ficar me olhando desse jeito. Para mim pouco importa sua opinião. Estou cansado e não vejo a hora de dormir. Tive um dia daqueles.

Seus olhos voltaram ao normal e disse: Vai me respeitar como Mulçumana?

- Como mulher se isso é importante para você. Vamos embora?

Nem esperei sua resposta e em menos de vinte minutos já estávamos na garagem do meu sobrado.

Na garagem quando eu ia descer, ela segurou meu braço direito, bem firme. Seus dedos pareciam garras de aço. Eu quis tirar sua mão, mas não consegui. Nisso ela disse: Vou entrar com você. Nem tente me tocar, porque sei me defender muito bem.

Não respondi nada e ela tirou a mão, mas manteve-se afastada.

Ao entrarmos, levei-a para a suíte de visitas que tem duas portas. Uma sai para o corredor de acesso a saída lateral, permitindo que a pessoa possa sair sem passar por dentro do sobrado e a outra dá acesso ao ambiente interno do sobrado. O hospede fica livre para entrar e sair sem ser visto. São duas suítes em um quarto com duas camas de solteiro para eventuais visitas. As suítes possuem banheiras com hidromassagem, sendo que na minha suíte, é possível ver o fundo da minha piscina no andar de cima e que possui efeito cromoterápico, o que permite fazer um profundo relaxamento quando quero dormir com tranquilidade. Tenho um circuito de ar condicionado que deixa o sobrado sempre com uma temperatura agradável, mas aquela noite fazia muito frio e ia demorar a aquecer o ambiente.

Tenho duas salas, sendo uma de estar e a outra uma sala de jantar. Onde se encontra a piscina tem a sala de aparelhos de ginastica e a sala de televisão com uma ampla tela que permite uma imagem como de cinema.

Ela depois de se ambientar, largou suas compras na cama da suíte que lhe ofereci e foi bisbilhotar tudo dentro do sobrado. Fiquei parado só observando seu jeito. Ela só não foi no quarto de Mariazinha nos fundos do sobrado e não subiu na área da piscina. O resto ela ficou examinando com interesse.

Principalmente as fotografias de meus filhos e da minha família.

Uma em especial lhe chamou a atenção. Uma foto de minha formatura em traje de gala. Olhou para a foto e para mim. Depois veio onde eu estava e colocou a foto rente ao meu rosto e ficou olhando os detalhes. Não é que notou uma cicatriz perto do meu queixo na foto. Herança de uma briga na escola. Daí perguntou como tinha sumido ela. Falei que foi feito uma cirurgia plástica. Não entendeu e disse: Pratica você? Como pratica? Cara nova! É isso. Cara nova. Melhor assi. Mais bonito você.

Desconversei e perguntei o que procurava no apartamento e ela saiu com essa. Mulher escondida. Onde mulher esconde?

Falava de Mariazinha sem saber, por isso mostrei-lhe o quarto dos fundos. Foi o jeito que encontrei para que nossa Mariazinha pudesse receber seus familiares sem problemas e a vontade.

Finalmente quis tomar banho de banheira, pois nunca tinha visto uma. Enquanto a banheira enchia, perguntei se queria comer algo e por isso fomos à cozinha onde Mariazinha já tinha deixado uma mini pizza pronta. Dividi-a e tomamos suco de uva. Comemos em silencio até que notei que a banheira tinha ligado a circulação de agua, por isso fomos para seu quarto e a orientei como manter ela aquecida. Peguei roupas de cama no armário e cobertores e um roupão de saída de banho de flanela e lhe disse para vestir depois do banho, por cima da sua roupa de dormir.

Depois levei umas essências para que escolhesse uma do seu agrado e coloquei na agua. Sai e fechei a porta. Tempos depois escutei que entrara na agua e cantava baixinho.

Fui tomar banho e meditava sobre os acontecimentos daquele dia especial. Estava com uma mulher totalmente desconhecida no meu apartamento. No entanto não sentia qualquer atração física por ela. Ainda a via como alguém necessitando de minha ajuda. Só despertei para a realidade de sua beleza mesmo depois que sai do quarto vestindo meu pijama favorito e a encontrei também de baby doll, com a saída de banho por cima. Pareceu-me que não colocara um sutiã, mas eu lembro que comprou dois na loja de lingerie. Seus cabelos estavam soltos e caiam sobre os ombros, pois antes estavam preso. Só então notei que seus olhos eram quase verdes, mais para o cinza.

Sentou no sofá na minha frente e ficou me olhando demoradamente bem firme. Por fim disse: Você homem diferente de Brasil. Eu pouco tempo aqui e vejo muitos homem. Você diferente porque médico da cabeça não é? Por isso diferente. Não cubiça eu e eu tinha medo de você. Ghabiya (estupida) eu. Eu confia em você. Como posso paga o que fais por eu? Hummm. Nunca pode não é?

Mais Que diz de eu aqui. Nessa noite ou outra se tive?

O que você falaria Jorge? A tua paciente desarmada e sedutora na sua frente. Mas é bom lembrar que sua ameaça minutos atrás pairava no ar e pelo visto ela tinha algum trunfo na manga para falar daquela maneira, seus pés descalços não deixavam mentir, por isso dei a seguinte resposta: Same. Quero manter bem distante um contato maior com você e se possível te dar uma condição de se cuidar sozinha. Hoje é um dia especial para nós, quer dizer, para mim, pois jamais imaginaria um acontecimento tão inusitado na minha vida e além do mais você é minha paciente e diz que perdeu algo muito importante, ou outras coisas que não quer me dizer. Seus pés são testemunhas de muita coisa. Dentro daquela mala desaparecida estão os teus segredos e quem a pegou não entendeu nada do que encontrou. Você deve ter outros segredos e não quer revelar, mas não pensa que me surpreende. Meus pacientes vivem tentando se mostrar seguros e mentem o tempo todo.

O que você disse agora pouco nem de longe me interessa. Somos estranhos dentro dessa casa, mas espero que realmente venha a confiar em mim depois que encaminha-la. Seria desapontador descobrir que não mereço tua confiança e seria pior se descobrir que fui enganado por você. Nunca esconda algo que possa me trazer aborrecimentos. Prefiro à dor a mentira. Lembre-se disso quando for trabalhar para mim, pois pode ter a certeza que vou arrumar algo para você na minha empresa.

Ela me olhou com curiosidade e eu continuei: É. Eu tenho uma empresa de negócios também. Seu pai tinha não é, ou ainda tem? Pois então. Eu só não negocio armas, mas balas de chocolate e se você gostar eu tenho varias delas num pote aqui no sobrado.

Aceita?


Pela primeira vez ela sorriu e disse que sim.

Depois enquanto comia alguns bombos e as balas, eu quis examinar seus pés e ela não queria deixar, mas por fim concordou. Fui buscar minha caixa de medicamentos e mandei que se deitar no sofá maior com os pés para fora e fui passando com muito cuidado os remédios para não doer nos ferimentos. Depois enfaixei delicadamente seus pés com gaze e fui preparar um chocolate quente para nós. Ela veio atrás de mim manquitolando nos calcanhares e ficou sentada na cozinha enquanto eu preparava nosso chocolate. Cantava algo, mas não entendi nada. Provavelmente era em Árabe ou algum dialeto.



Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   15


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal