Rafaela – sucesso sempre



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Por fim perguntou se eu não tive curiosidade em saber por que ela apresentava aqueles ferimentos. Respondi que quanto menos soubesse de suas andanças no Brasil, seria melhor para nós. Ela ficou quieta e saiu para a sala. Voltou com uma foto. Eu só vi depois que disse: Filhos bonitos. Você triste. Mulher foi embora.

Virei e dei com ela olhando uma foto minha, com meus dois filhos no lago Moraine no Canadá. Eu ia tirar a foto de sua mão, mas ela acrescentou: Lugar bonito parece meu lugar de nasce. Eu triste. Guerra, família, meu povo. Eu muito triste.

Limpou com as costas das mãos o rosto e largou a foto na mesa.

Fiquei sem ação por alguns momentos, mas falei sem pensar: Família é tudo que temos Same. Nem sempre é como a gente quer, mas me diga, tem alguém lá que gostaria de trazer para o Brasil? Posso te ajudar nisso.

Em meio a lagrimas que escorriam, sorriu. Pode ajuda memo? Eu tem sim.

Só pedi a ela um tempo para isso. Depois que tomamos o chocolate e íamos cada um para seu próprio quarto, ela pediu que eu ficasse parado e beijou minha testa. Disse em árabe: Allah yahmi laylatak! Quando chegou à sua porta virou para trás e disse em português cheio de erros: Eu diz: Alá poteja tua note!

Dormi como uma pedra. Estava precisando mesmo de novidades...

No dia seguinte pela manhã, Mariazinha já tinha preparado meu desjejum costumeiro, mas depois de beija-la como sempre, disse que tínhamos visita e ela falou que já sabia, pegou minha mão e levou-me até a porta do quarto de Same e pude ouvir que falava sem parar algo em Árabe. Falei para Mariazinha que ela estava rezando.

Tempos depois veio ao nosso encontro sorrindo enrolada num cobertor que se arrastava pelo chão. Pelo jeito ainda não tinha se vestido e disse estar com fome. Beijou Mariazinha e a mim no rosto. Fez uma saudação em Árabe. Tudo o que lhe foi oferecido comeu com prazer. Principalmente os divinos pães de queijo de Mariazinha com geleia caseira de amoras. Depois que se arrumou, colocou o tal lenço mulçumano e nem perguntou aonde íamos. No carro pediu que não a chama-se de Same. Achou feio e preferiu que lhe desse o nome de Samyra. Disse ser o nome da mãe e que significa companheira feminina divertida. Antes que eu esqueça. Ela nem fez caso dos meus curativos. Como tínhamos comprado um par de tênis novo, ela os colocou nos pés sem se importar se iriam causar dores ao anda.

Falei que tínhamos muito que conversar na clínica no fim da tarde, mas antes ela iria passar o dia num escritório meu na Alameda Santos. Falei que não era para dizer que estava morando na minha casa. Se alguém perguntasse onde morava era para dizer que eu ia providenciar um quarto para ela. Apresente-a ao pessoal do escritório e fui conversar em particular com Valéria, a psicóloga responsável pelo RH da empresa. Coloquei-a a par da situação de refugiada dela, de seu conhecimento de francês e inglês e da necessidade de trabalho. Seu passaporte provavelmente tinha sido roubado por alguém, pois ela não sabia onde fora parar. Falei que ela pensava que sua mala tinha desaparecido e que acreditava ser impossível acha-la, mas eu pensava diferente de sua afirmação. Só carregava uma identidade que o serviço de refugiados lhe deu. Disse-lhe que não sabia falar bem o português e eu contava com sua ajuda e do pessoal para ensina-la, apesar de ser até divertido ouvi-la falar certas coisas.

Valéria ouviu atentamente minhas considerações e por fim disse: Doutor é algo pessoal isso, ou estou enganada? O senhor está sempre levando na cabeça com suas ajudas humanitárias. Com ela parece diferente.

- Sua psicologia é ótima Valéria. É pessoal sim. Acho que dessa vez ajudo a pessoa certa. Tenho motivos pessoais para isso. Inadvertidamente passei a mão onde ela tinha me beliscado. Valéria notou e disse: Aconteceu algo entre vocês? Desculpe a ousadia.

- Não é ousadia nenhuma. Aconteceu sim. Mas ela vai ter o troco no momento oportuno. Saiba que é uma boa moça e pelo que já presenciei você vão gostar dela. Hum! Valéria. Ia esquecendo. Ela não sabe mentir. Se tiver que dizer alguma coisa, nem vai se preocupar com o lugar e com quem está falando. Ela fala e pronto!

- Serio? Queria ver isso. Tenho certeza que foi vitima dela. De qualquer forma isso e raro em nossos dias. Provavelmente vai arrumar algumas confusões por ai, mas se vai conviver com o Senhor... Desculpe Doutor, sua amiga já encontrou em quem se espelhar. Nos aqui do escritório já aprendemos também. Sinceramente. É um prazer encontrar alguém que pensa como o Senhor.

- Bom. Peça para alguém leva-la ao consultório às quatro horas. Tenho uma consulta com ela. Outra coisa. Sabe me dizer se o escritório de investigação do seu Vitor ainda funciona no prédio?

- Acho que sim. Encontrei com ele no elevador na semana passada.

- Verifica para mim e diga que lhe ligo depois das seis. É importante Valéria. Ah! Você deve ter notado que o agasalho dela é bem precário. Foi uma emergência. Providencie o que for necessário para ela. Você sabe... Fala com o Vivalde para colocar ela no grupo de exportação da empresa. Seu conhecimento de línguas pode abrir uma nova porta para nós. Agora a deixo aos seus cuidados. Divirta-se.

Ela esperava do lado de fora da sala sentada ao lado da recepcionista e observando o computador. Chamei-a e ela entrou. Expliquei que no final da tarde iriamos nos ver e que ela ia ficar no escritório.

Trabalhei o dia todo pensando nesse desafio inesperado. Se eu queria novidades para ocupar o tempo, já tinha de sobra. Qual seria a verdade dela e o que ocultava no coração, além de uma mala cheia de segredos inconfessáveis. Esqueci-me de perguntar para ela da origem da foto das malas e o que tinha naquele celular. Passei a mão no lado do beliscão e imaginei que fora um presente de noivado e acabei rindo sozinho.

Um presente bem doído aquele, mas que eu ia me vingar, isso ia.

Meu ultimo paciente do dia era uma jovem de vinte anos que ostentava algumas tatuagens nos braços. Não tenho nada contra, mas as dela eram de muito mau gosto. Cobras e caveiras e, além disso, tinha dois Piercings enormes nos lábios. Devia ser difícil até para comer.

Antes que eu dissesse alguma coisa, ela falou que só viera a clinica por imposição de sua mãe. Afirmou que se sentia bem daquele jeito e continuou a falar por vários minutos. Deixei-a livre e até aproveitei para tomar um café sem oferecer para ela. Nem sei o que falou e nem estava interessado. Meus pensamentos eram outros.

Quando se deu conta de que nada do que disse me incomodou, ficou me olhando em silencio e por fim disse: Vocês médicos nem se interessam pelos pacientes. Só pensam no dinheiro que vão receber. Você deve ser igual aos outros.

Aquilo me despertou dos meus devaneios. Respondi de pronto: É? E como sabe disso moça?

- Nem ligou para mim. Garanto que nem sabe por que eu estou aqui.

- E se eu disser que você é a pessoa mais importante que entrou aqui hoje.

- É mentira tua. Você diz isso para todos. Só quer meu dinheiro.

Chamei minha secretaria e disse: Ela pagou a consulta em cheque ou dinheiro?

- Em cheque Doutor. Por quê?

- Pega ele e me traga aqui.

Minha secretaria me deu o cheque e mandei que saísse. Rasguei o cheque na sua frente. Ficou sem saber o que fazer, mas eu disse: Não preciso do seu dinheiro, mas você sim. Você precisa dele e de outras coisas. Precisa de alguém que a compreenda. Você não veio aqui por causa de sua mãe e nem de outras pessoas. Veio porque perdeu o rumo da vida e o interesse em si mesma.

Esconde-se nessas tatuagens e outras coisas inconfessáveis, mas tem medo do amanhã como qualquer humano. Sabe. Essas caveiras são para dizer que não tem medo da morte e as cobras para dizer que está cheia de veneno. Todos nós somos venenosos sabia? É só pisar no nosso calo e viramos o bicho. Nem precisamos de cobras e caveiras. Eu também tenho medo da morte e nem tento disfarçar como você. Mesmo assim tenho que suportar o medo de meus pacientes e ainda convence-los que podem ser melhores e vencerem a si mesmos.

Não posso ajuda-la. Só você pode se ajudar. Minha clínica estará sempre aberta para você quando achar que pode ser ajudada a se ajudar. Pode vir quando quiser e nem pense em me pagar. Faria isso por qualquer um dos teus amigos. Também sou pai e sei o que é a vida na juventude. Está livre. Pode ir. Nossa consulta termina aqui.

Ela abriu a boca a chorar como criança. Chorou de soluçar. Deixei. Meu amigo. Um tratamento de choque sempre foi o melhor dos remédios. Ela queria ser contestada e é o que as pessoas faziam. Nunca foi reconhecida como pessoa.

Providenciei lenços de papel para ela e esperei.

Com muito cuidado tirou os Piercings para não machucar a boca e colocou na minha mesa. Não levantava a cabeça e ficou olhando para o chão sem forças para sair. Sentei na sua frente e segurei suas mãos bem firmes. Disse-lhe: Sabe. Nunca é tarde para recomeçar algo na vida. Pode tirar as drogas que estão no seu bolso e por em minhas mãos. É um segredo só nosso. As tatuagens serão esquecidas com o tempo e até podem ser retiradas com LASER. Só as feridas do coração vão demorar em cicatrizar. Se eu puder ajudar me procure. Amigos?

Ela não respondeu nada e eu insisti. Amigos?

Ela levantou a cabeça e olhou-me ainda com os olhos cheios de lagrimas. Disse: Amigos. Depois me abraçou demoradamente.

Ia saindo, mas voltou. Enfiou a mão no bolso da calça e tirou um embrulho. Deu-me e disse: Não vou conseguir sozinha. Ajude-me, por favor!

- Quando quiser. Marque com minha secretária, mas me ligue a qualquer hora. Não me deixe sem informações. Combinado?

Deu um sorriso e disse: Combinado.

Jorge. Nem olhei o que tinha dentro do embrulho. Se for relatar as coisas que já joguei fora de meus pacientes, teria que escrever um livro.

Minha secretaria acostumada com minhas estratégias nem perguntou sobre o cheque. Dias depois ela apareceu na clínica com mais dois amigos e totalmente mudada. Nem de longe parecia a moça rebelde. Tinha voltado a estudar e foi trabalhar na padaria do pai.

Ia embora no fim do ano para Portugal, disse-me. Tinha um irmão morando lá e trabalhando numa empresa de artigos de pesca. A empresa era de um tio.

Jorge, amanhã te envio mais uma parte dessa longa história, que como já percebeu vai dar muito pano pra manga, numa referencia de um ditado popular até divertido que minha avó utilizava quando queria se referir a algo bem incômodo de se ouvir quando se tem outras coisas para se fazer.

E pode ter certeza caro amigo que eu tenho muita coisa para resolver no decorrer desse assunto, mas não sei por que carga d’água, essa mulher foi aparecer na minha vida e me trazer uma serie de problemas internacionais.

II

Vi com prazer teu e-mail das realizações profissionais tuas. Realmente, a mente humana é uma caixinha de surpresa até para os mais esclarecidos, mormente o fato dos acontecimentos que envolvem a Alfagenia. Acredito mesmo que se os Damasios tivessem em mãos essa poderosa ciência e pudessem retroceder o tempo para a época do caso Phineas Gage1 provavelmente teria outra solução. Agora Jorge, não tem menor graça rs,rs.rs,rs, você ficar tirando uma com minha cara por causa dessa jovem. Você vai ver (ler) mais para frente que ela é mais difícil de lidar do que tuas pacientes de estudo. Vendo na televisão as imagens e no noticiário da internet a guerra, cada dia me convenço de como é difícil sobreviver em meio à violência de cada dia numa terra devastada pela ignorância dos que governam. Bem. Sigo com a narrativa.



Eu aguardava a chegada de Samyra e ela chegou vestindo um ótimo sobretudo e de botas, acompanhada de Valéria. Carregavam varias sacolas. Nem bem entraram no escritório da clínica e ela desatou a falar em francês sobre as compras. Disse que não precisava de nada e agora devia para Valéria.

Como nós sorriamos de seu jeito, fechou a cara e ficou séria. Valéria entregou-me a pasta de Samyra com a minuta do contrato de trabalho dela e outros documentos. Foi embora e ficamos a sós.

Constatei que Vivalde deixara em branco algumas partes da minuta e tive que perguntar para Samyra porque não dera informações sobre sua origem e seu nome verdadeiro, pois aquilo é obrigatório numa empresa.

- Eu não pode dizer coisas que homem pergunta, respondeu.

- É? Você não gosta de mentir, correto?

- Eu não mente. Eu fala reto coisas.

- Bom. Pois veja isso. As coisas que Valéria comprou irão ser pagas do seu salario. Sabe o que é isso?

- Não. Salari, salario, paga Valéria. Não é dinheiro Brasil. Dinheiro Brasil é rear.

- Isso. O certo é real. Quando você receber real lá de onde já começou a trabalhar, nós chamamos de salario e ele vai pagar tuas despesas. Entendeu?

- Eu entendi. Primeiro trabalha. Depois recebi salari de real. Então paga Valéria e o homem tem que escrever isso nessa folha ai.

- Isso. Você pode não dar seu nome verdadeiro, mas vai ter que ter documentos, fotografias e dar um endereço de onde mora e de onde veio. Temos que colocar isso nesse papel. Eu estou te atendendo para encontrar uma mala. Se você não me ajudar com alguma coisa Samyra, nem te garantir um trabalho eu posso, que dirá do resto. Como nós ficamos nessa história. Diga-me?

Ela levantou e começou a andar de um lado para o outro como no outro dia. Descobri que quando ficava nervosa agia dessa maneira. Curioso é que falava sem parar em Árabe, coisas que eu não entendia. Quando parou de andar, sentou e segurou minhas mãos. Suas mãos tremiam. Ela tremia inteira.

Levantei segurando suas mãos e a conduzi até meu divã e mandei que deitasse. Ela suava frio e me olhava assustada. Dei-lhe um calmante leve e a cobri com uma manta. Ela pediu que eu não largasse suas mãos e acabou adormecendo.

A mala em questão lhe causava certo pavor e tinha medo de algo sobre sua vida. Ia ser difícil mesmo trata-la. Fazer indução dela naquela circunstancia não me traria muitas luzes, mas eu tinha que saber alguma coisa, por isso deixei-a dormindo e liguei para seu Vitor.

Depois que me atendeu, tive que contar para ele parte da história da minha paciente e dos problemas relacionados com seu atendimento. Falei sobre a mala e enviei para ele a imagem que tinha do celular da Samyra. Afirmei que não havia qualquer outra informação da minha paciente sobre a mala ter saído do Aeroporto Internacional de Guarulhos. Contratei sua investigação e disse que se eu conseguisse algum fato novo o colocaria a par. Voltei à sala de atendimento e Samyra tinha sentado no divã e parecia ignorar que tivera uma crise nervosa.

Lembrou-se da minuta e disse em inglês: Escreve que eu sou Síria refugiada e que moro em prédio seu. Qualquer um deles. Ouvi em escritório que tem bastante. Faz documento de Samyra Yurda. Eu Yurda. Eu descobre hoje que no Brasil pode fazer qualquer documento. Eu tem que comprar óculos. Rosto de Samyra não pode fotografia de verdade. Não pode. Não pode. Não pode. Eu sou fugida da guerra. Ajuda eu, por favor.

Levantou-se e agarrou-me pela cintura. Acabei por abraça-la e em silencio. Quando se deu conta do que fizera, se afastou e sentou de novo no divã. Disse: Eu envergonhada. Você é apenas o médico que cuida de eu. Tenho que me esconder do homem em você.

Imediatamente colocou o lenço que estava na bolsa que carregava.

Falei para ela que iriamos dar um jeito na situação e que era para se acalmar. Bem. Diante das circunstancias dos imprevistos daquele início de noite, resolvi que devíamos ir embora e sendo assim, algum tempo depois já estávamos subido a Avenida Angélica rumo ao sobrado. Naquele momento nem pensava em jantar e sabia que Mariazinha nem deixava janta para mim, pois era quase comum eu comer fora durante a semana. Restava apenas saber de Samyra o que desejava comer naquela noite, por isso perguntei o que gostaria de comer e ela disse que tinha desejo de comer pizza, mas queria tomar um banho antes e perguntou se podia.

Quando entrei na Rua Domingos de Morais foi que notei a presença de duas motos bem atrás de mim. Samyra falou qualquer coisa, mas nem lhe dei atenção. Estava de olho nas motos. Instantes depois, uma delas resolveu me podar pela esquerda e a outra pela direita. Um pouco mais atrás tinha um carro que avançou e colou na minha traseira. Mandei Samyra deitar o banco e ficar bem quieta.

Pouca gente sabe que sou um dos médicos do setor de emergência do HC em São Paulo e por isso meu carro possui luzes atrás e na frente, além de cirene de ambulância. Liguei o sistema e acelerei minha BMW. Minha meta era o hospital São Luiz. Não ficou um carro na minha frente e entrei pelo corredor exclusivo de ônibus, portanto, ninguém poderia me ultrapassar pela esquerda, porque tem um pequeno muro divisório. Depois dei seta para entrar a esquerda no primeiro cruzamento, o que é proibido para veículos, pois estes tem que pegar retorno e fui entrando com a cara e a coragem. Até os ônibus pararam para eu poder passar. Entrei no setor de emergência do hospital e os seguranças cercaram meu carro. Falei para a Samyra ficar onde estava e desci.

Inventei uma desculpa, depois de me identificar. Disse que minha noiva tinha se sentido mal e sua pressão subira. Queriam atende-la no setor de emergência e quando fui abrir a porta dela, mesmo sem intender o que tinha acontecido, Samyra deu um leve sorriso para as pessoas. Perguntei na frente de todos em inglês se ela estava bem e pisquei de leve. Não sei o que pensou, mas queria saber por que estávamos ali e disse nunca estivera melhor. Antes de ir embora, fingi que tomava seu pulso e fui falando com ela em inglês, dizendo que achei sua fisionomia um pouco pálida e sorri. Ela olhou-me séria e disse-me em inglês: Let's go, I'm hungry! (literalmente: Vamos embora que estou com fome). Observei bem o transito e não vi ninguém suspeito. Meus perseguidores não conseguiram se livrar do transito.

Ocorreu outro episódio de motos no nosso relacionamento, mais a frente eu lhe conto.

Mais uma vez agradeci a atenção do pessoal e sai de volta com o carro na direção contraria. Em principio queria dar uma grande volta, mas mudei de ideia. Enquanto decidia o que fazer, ela ficou me cutucando e perguntando por que fiz tudo aquilo. Desconversei, mas não adiantou e por isso falei que não íamos diretamente para minha casa, mas íamos comer primeiro para podermos conversar, por isso voltei para a Paulista e fomos para a Rua Abílio Soares até a pizzaria Babbili que eu te recomendo quando vier passear por aqui.

Fui vigiando o trajeto andando com o carro bem devagar e ela notou, por isso ficou olhando em volta e para trás também.

Quando estacionei o carro ela ficou deslumbrada ao descer. O hall de entrada da Babbili chama atenção mesmo e ela certamente nunca tinha ido a um bom restaurante no Brasil. Em seu país não saberia dizer. Olhava tudo sem se preocupar com as pessoas que a observavam. Por fim deixou escapar algumas palavras que tiraram risos disfarçados das pessoas que estavam mais perto de nós. Disse um tanto alto: Allh! makan al'aghnia' jda!

Depois que nos sentamos num lugar mais reservado perguntei o que tinha dito e ela respondeu que dissera assim: Por Deus! Lugar de gente muito rica! Foi difícil convence-la que não era bem isso, mas segurou meu braço e disse bem baixinho: Você desculpe Doutor. Você é um homem muito rico. Eu não mereço que me trate desse jeito.

Não respondi nada e deixei que escolhesse no cardápio a pizza, mas a orientei sobre o que continha e pedi também mais alguma coisa para acompanhar. Pedi um bom vinho e enquanto aguardávamos, ela perguntou de novo o que tinha acontecido para mudar nosso caminho e irmos comer antes dela tomar banho.

Naquele momento não podia dizer toda a verdade, pois temia sua reação, porem disse-lhe que éramos seguidos por uma moto, ou duas e como os bandidos usam desse sistema para realizar assaltos, preferi não arriscar e também porque ela podia ser atingida por alguma bala, ou ter algum ferimento e isso seria a pior coisa que poderia acontecer. Demonstrei preocupação por ela e recebi de volta estas palavras: Alllah lakum alsshhat dayma! Como já sei o que significa, traduzo para você: Deus (Allá) te de saúde sempre! Ela falou isso com entusiasmo na voz, as pessoas de outras mesas nos olharam surpresas.

Deixei claro que ia dar um jeito de que suas fotos seriam trabalhadas para parecer o menos possível com ela. Também prometi providenciar mudanças em sua silhueta, agregando coisas da estética nessa mudança. Não gostou muito de ter de cortar uma parte de seus cabelos e nem mudar a cor deles, mas concordou, depois de eu muito insistir, que não havia outro modo de resolver as coisas.

Por ultimo e, com muito tato nas palavras, pedi que depois do banho não se apresentasse de trajes íntimos na minha presença. Não seria bom para ela e nem para mim. Não respondeu nada, mas me cutucou por debaixo da mesa. Parei de comer os petiscos e olhei serio e ela desatou a rir baixinho. Me cutucou de novo e falou-me em inglês: A man only melts like snow in the spring of life in a new time? (Um homem só se derrete como a neve na primavera da vida em um novo tempo?). Ainda serio respondi em português: A primavera ainda não chegou e tem muita neve lá fora para ser removida. Satisfeita?

- Satisfeita Doutor. A sinceridade do senhor é pratica constante na empresa. Viu como já aprendi boas palavras em português? Prometo que não vou lhe dar mais trabalho.

Mal sabíamos nós o que nos aguardava nas próximas horas e que a fantasia ensaiada do hospital ia deixar a emenda pior do que o soneto. Você vai saber já, já.

Chegamos ao sobrado sem novos incidentes e tive que desperta-la, pois tinha tirado um cochilo no trajeto. Se a minha ex me visse agora ia ter um colapso. Eu chegando ao sobrado acompanhado por uma bela jovem tão carente da vida quanto eu.

Fui de imediato arrumar a banheira para ela e combinamos que a esperaria para tomarmos um chocolate. Para sorte minha e a dela, ao entra, não trancou a porta da suíte, só a deixou encostada, o que a salvou de morte certa. Escutei quando entrou na agua se deliciando com as benesses da hidromassagem. Gozado é que eu também tenho minha banheira, mas nem uso. Tomei mesmo um banho rápido e coloquei um pijama.

Nisso tocou o telefone fixo do sobrado e atendi. Uma voz desconhecida falou comigo chamando-me pelo nome. A voz era estrangeira, mesmo falando em português. Seguiu-se este dialogo. É o Doutor Marcus? Como vai?

- Vou bem, mas com quem eu falo?

- Pode me chamar de Igoir, mas não me conhece pessoalmente.

- Não? Como conseguiu meu telefone e quem lhe deu o direito para ligar para minha casa se eu não o conheço?

- O senhor está resolvendo algo de uma pessoa na sua clínica que nos interessa. É isso.

- Não vou nem perguntar quem é. Meus pacientes são assunto meus.

- Bem. Sendo assim ainda vamos nos ver. Devo parabeniza-lo pela ousadia de hoje. Se quiser colaborar deixo um telefone. Aquela mulher é muito importante para nossa causa. Com o senhor ou sem o senhor, vamos encontra-la. É sou uma questão de tempo.

A palavra “aquela”, pronunciada de forma enfática, me fez despertar. Não sabiam de seu paradeiro, mas sabiam que eu tinha contato com ela, ou que a estava ajudando e outras coisa que desconheciam. Mas como souberam disso?

Fui desligar, mas antes falei: presta atenção no que vou dizer cara. Não sei a quem procura, mas isso já virou pessoal. Amanhã já estarei tomando minhas providencias. Não me ligue mais!

Ele ainda disse isso: Não se iluda Doutor. Estaremos vigiando seus passos. Boa noite.

Bati o telefone já pensando nela. Ela demorava em retornar e por isso fui chama-la, mas não respondeu. Passaram-se alguns minutos e notei o silencio no quarto. Estranhei e fui ouvir na porta. Nada. Chamei baixinho. Nada. Abri a porta devagar e tomei o maior susto. Ela estava se afogando. Tirei-a rapidamente da agua e coloquei no chão. Sem me desesperar auscultei seu coração. Batia cada vez mais fraco e descompassado. Fiz a respiração boca-a-boca e a massagem cardíaca. Não respondeu. Iniciei a ventilação boca-a-boca, tampando o nariz dela e assoprei o ar na sua boca. Em seguida fiz uma série de 15 massagens cardíacas. Só repeti mais dois ciclos de duas respirações e uma de 15 massagens. Graças a Deus ela começou a tossir e vomitou a agua que bebeu, mas não despertou. Peguei varias toalhas e fui enxugando seu corpo nu aos poucos. Depois a levei ainda desfalecida até sua cama. Não tenho jeito com mulheres, mas consegui colocar nela uma calcinha e vestir-lhe um pijama meu, pois ela não tinha. Ficou bastante largo nela e certamente a calça ia cair quando andasse. Seria engraçado se não fosse trágico. Sua higiene intima estava horrível. Havia pelos mal cortados nas axilas e no resto do corpo, além possuir vários arranhões nesses lugares, como se estes procedimentos tivessem sido executados com cacos de vidro ou sei lá o que.



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