Rafaela – sucesso sempre



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Nem pensei num sutiã. Durante este processo foi que notei varias cicatrizes feias em forma de riscos e pequenos sulcos no seu abdômen e marcas nas suas costas como se tivesse sido torturada com o uso de um chicote de flagelo, pois o mesmo e constituído de varias cerdas traçadas de couro cru e nas pontas possui pequenas esferas.

Suas nadegas também apresentavam vários ferimentos e próximo do ombro direito tinha uma marca de perfuração. Possivelmente um tiro ou de fragmentos de aço e uma cicatriz grande de uma cirurgia para remoção de algum projetil. Alguns dos sulcos nas suas costas estavam mal cicatrizados e, pior, apresentavam um processo inflamatório que necessitavam de cuidados urgentes. Aquela jovem deve ter comido o pão que o diabo amassou até chegar ao Brasil, pois a guerra deixou-lhe feridas e algumas marcas inesquecíveis.

Quem fez aquilo sabia que ela era mulher, mas se ela era virgem como disse, como não foi violentada e como escapou de seu algoz, ou algozes. Antes de vesti-la, aproveitei para examina-la melhor. Sua desnutrição era grave. Mesmo magra devido à má alimentação, seu corpo tinha contornos (tem) de atleta. Deve ter passado muita fome no Brasil e fora daqui. Antes de tudo, eu tinha que cuidar da sua saúde e depois cuidar de seus problemas. Na cama coloquei dois cobertores sobre ela, esvaziei a banheira e enxuguei tudo até ela despertar.

Esqueci meu pijama todo molhado e fiquei na beira da cama aguardando e observando seu semblante. Eu querendo me vingar pelo beliscão e ela sofrendo provavelmente de tortura em algum lugar da Síria, ou sei lá onde. Pelo visto Jorge eu ia ter emoções de sobra nos próximos meses. Minha hospede era bela e delicada como uma flor. Se eu não a tivesse encontrado na chuva, provavelmente já estaria engrossando as estatísticas dos mortos noturnos de São Paulo.

Quando voltou a si ainda deu algumas tossidas leves e quando me viu ficou admirada. Perguntou o que eu fazia no seu quarto. Não lhe escondi nada, mas não comentei seus ferimentos. Disse-lhe que não ia trabalhar antes de estar completamente bem.

Exigi que passasse com uma médica minha amiga para fazer um tratamento rigoroso sobre sua anemia e ela não entendeu nada do que eu disse. A filha da mãe ficou foi é brava comigo por causa de eu vê-la nua e ainda vesti-la com uma roupa de homem. Pior. Tocar seu corpo.

Virei o bicho com ela. Chamei-a de ingrata e outras coisas que só falei em pensamento. Já imaginou Jorge se ela morre no sobrado, dentro da banheira? Eu nem estaria te transmitindo isso agora. Sai do quarto sem lhe dar a atenção, fulo da vida, mas, alguns minutos depois veio atrás de mim de roupão de banho, vestindo um baby doll e com o meu pijama na mão. Estendeu ele para mim e disse: Você bom médico memo. Eu segura com você. Como se diz: Obrigado. Não. Obrigada. Isso. Obrigada. Manzil aman hu sihhat alsskkan.

- Eu devia bater em você, eu disse. Aonde fui amarrar meu burro. O que você disse agora, perguntei?

- Eu diz: Casa segura é saúde dos moradores. Você é casa segura.

- Se eu sou casa segura, você mora nessa casa. Tem que me obedecer. Não vai dormir sozinha. Nós vamos dormir no outro quarto. Eu numa cama e você em outra e nem pense em discutir comigo, ou eu levo você para o Albergue e te largo lá!

- Leva memo? Faiz isso co eu?

- Você sabe que não! Samyra. Já estou me afeiçoando a você. Você é uma boa moça e, bem, poderia ser a irmã que não tive. Deixe-me ajuda-la mesmo, mas não me cause dificuldades. Tenho um monte de problemas e nesse momento você se tornou mais um. Temo pela tua saúde e quero que seja feliz. Combinado?

- Combinada. Eu combinada. Eu fome agora.

Preparei o chocolate e comemos alguns sonhos que Mariazinha tinha feito. Depois, como não era tão tarde, resolvi fazer uma sessão terapêutica com ela. Mostrou-se disposta e isso me favoreceu. Coloquei-a no transe Alfagenico e adormeceu encostada no sofá.

Levei-a para a idade de 22 anos e pedia que descrevesse o lugar e onde estava. Exigi que falasse em inglês, pois entendo melhor do que falo. Foi relatando os fatos Subia o rio Euphrates num barco grande na companhia de seu pai. Perguntei se sabia dizer sobre o que seu pai conversava com as pessoas a bordo. Disse que devia falar em inglês comigo. Segue; meu amigo Jorge, um pequeno relato de uma das peças do grande quebra cabeça dessa história. Disse-me:

- Papai compra muitas armas que estão escondidas em cesto no porão do barco e mascaras de gás.

- Mascaras de gás Sameeha. Para que mascara de gás?

- Armas químicas contra nós2. O mundo não sabe. Somos cobaias desses malditos que se aliaram contra nós. Odeio todos eles! Odeio, odeio! Odeio! Odeio! Mato sem piedade os que encontro!

Fiquei meio sem ação diante de suas palavras e seu estado emocional agitado, mas contive a respiração e perguntei quem ela matava e a ouvi dizer: Russos! Americanos! Ingleses! Franceses! Alemães! Canadenses! São todos Chacais pagos por Assad de varias partes do mundo! Mercenários fabricantes de armas! Contrabandistas! Estado islâmico! Mato todos que cruzam meu caminho. Minha Síria devastada! Pobre do meu povo! Pobre do meu povo!

Se eu não ouvisse uma síria num estado cataléptico dizer aquilo, não acreditaria, mas a verdade estava na minha frente com os olhos arregalados, dando socos no ar e espumando pela boca uma gosma quase negra.

Ela estava na Síria naquele momento, não no sobrado, por isso perguntei que tipos de gás usavam contra os Sírios e ela mostrou um conhecimento surpreendente. Citou alguns deles e seus efeitos no corpo. O Salim, por exemplo, Jorge, inibe a ação de uma enzima que desativa os sinais que as células nervosas humanas transmitem aos músculos para relaxá-los. Isso faz com que o coração e outros músculos - incluindo os envolvidos na respiração - tenham espasmos. A exposição ao gás pode causar desmaios, convulsões e levar à morte por asfixia em minutos. O gás cloro que também já foi usado varias vezes no mundo foi comprovado seu uso na Síria numa investigação conjunta da Organização pela Proibição de Armas Químicas com a ONU, onde se concluiu que as forças do governo usaram gás cloro, sendo que este também provoca asfixia e morte.

Os investigadores também concluíram que militantes do grupo autodenominado Estado Islâmico, que atua no país, usaram gás mostarda - que pode provocar cegueira, ferimentos na pele e morte.

A ONG de direitos humanos Human Rights Watch acusou mais recentemente helicópteros do governo de soltarem bombas contendo gás cloro em áreas controladas por rebeldes em Aleppo em ao menos oito ocasiões entre os dias 17 de novembro e 13 de dezembro de 2016, durante os estágios finais da batalha pela cidade.

Com dificuldade consegui tirar ela daquele momento agitado e perguntei se ela estava ainda na companhia de seu pai. Tornei a chama-la de Sameeha. O nome que recebeu da avó.

Ela se acalmou lentamente e deu um pequeno, mas perceptivo suspiro e limpou com as mãos a boca e o rosto e disse-me: Eu ajudo ele a separar e a examinar qualidade das armas. Muitas armas são ruins para atirar e não funcionam contra aqueles malditos!

Ocorreu-me de perguntar o que acontecia com quem vendia armas com defeito e ela tornou a se agitar e disse friamente com os olhos mais gélidos que já vi: Tortura e morte aos traidores! Nem o fundo do rio merecem eles!

Disse-lhe perguntando o que acontecia e com a mesma frieza respondeu: Fogo! É isso que merecem. Nós os queimamos vivos! Não enganam mais ninguém na Síria.

Eu estava angustiado com sua franqueza e narrativa, mas compreendi que não podia ser diferente. Falar de uma guerra é fácil, viver nela... Disse-lhe: Você então entende de armas Sameeha. Onde aprendeu?

- Russos treinam soldados de Bashar al-Assad. Eu sou oficial do exercito e recebe treinamento em Homs. Virei perita em armas e munições.

- Então você sabe atirar. Já matou muita gente?

- Na guerra ou a gente mata ou morre. Mulher não pode parecer apenas mulher. Tem que ser homem também. A morte espreita a beleza e a cobiça dos nossos corpos. Temos que lutar como mulheres livres.

- Como saiu do exercito de Bashar al-Assad?

- Fugimos de noite de acampamento e fomos para Reyhanli, Turquia, mas voltamos depois junto com rebeldes para lutar contra a tirania. Jorge, descobri ser verdadeiro o que disse sob o transe, pesquisando na internet. Quando fugiram (No total, 202 pessoas) foram para a cidade fronteiriça de Reyhanli, na província sudoeste de Hatay, Turquia, de onde foram transferidos a campos de refugiados nos quais ainda são recebidos os desertores do exército do presidente sírio, Bashar al Assad.

Continuando com o relato...

- Diga-me. Com o que seu pai compra armas?

- Ouro, mas eu não digo de onde vem. Nem em tortura eu digo. Papai é muito sábio, mas corre grande risco e amigos também. Ainda podemos morrer no rio.

Ocorreu-me de perguntar se ela disfarçava sua fisionomia e o corpo para não ser reconhecida como mulher. Surpreendeu-me com a resposta.

- Não sou mulher. Sou homem de confiança de papai. Sou Saqr, o Falcão. Roupa esconde meu corpo e eu não sei falar, só falo com amigos. Eu sou mudo. Só converso por língua de mudo. Eu sou feio. Rosto deformado de cicatriz.

- Como ficou com o rosto deformado?

- Mascara cobre metade de meu rosto e pessoas enxergam a pele enrugada. Foi queimadura de fogo. Costas das mãos também queimadas. Artista turco, amigo de papai é perfeito nas mascaras.

- Como faz para ir urinar e evacuar?

- Treino. Corpo tem treino para ir só à noite, ou quando ninguém vê durante o dia.

- Já viram você nua e disseram?

- Mortos não falam.

- Mas você é frágil como borboleta Sameeha. Como pode ter força? Lutar?

- Treino. Eu falcão, não borboleta.

Lembrei de sua mão no meu braço e seus dedos dos pés. Sua voz era autoritária e firme. Ela respondia as indagações apenas por não se sentir ameaçada, pois eu sabia que lhe fizesse alguma pergunta intimidativa, não obteria resposta. Durante este pequeno interrogatório disfarçado, ela demonstrou autoridade e determinação. Sua personalidade oculta sob a fragilidade feminina veio à tona.

Foi difícil acreditar que aquela jovem indefesa no meu sobrado já matou e já fez coisas que só vai revelar para alguém de muita confiança. Lembrei que a pessoa no telefone disse que ela é importante para a causa dele e pude perceber pelas suas respostas que nem hesitaria em matar quem quer que fosse se sentisse ameaçada. Seria ela uma espiã? Seria uma terrorista procurada? Pior. Seria um talibã? A mala que disse procurar, oculta um segredo que deve ajudar o povo Sírio, ou ajudar o ditador? Eu mesmo queria me beliscar para acordar do sonho, ou pesadelo, mas a verdade estava deitada na minha frente se desnudando num roteiro que poderia ser de um filme de Hollywood.

Parei a sessão nesse ponto e a despertei. Parecia estar muito bem. Lembrei então da foto que deram e ela foi me mostrar, pois não é que a tinha socorrido e nem vi que a foto estava presa no chão, longe da banheira. Ela a prendera aberta com os chinelos que encontrou e seu tênis velho. Descreveu o lugar e disse que o lago da foto era onde nadava quando criança. Ia muito ao monumento em Al-Thawrah, palácio distrital do governo. Mostrou também que junto com a foto, recebera também de presente um incensário com vários tipos de incensos e um vidro de perfume Saat Safa de Al-Rehab, cuja fragrância contém Almíscar, Jasmin, Musgo, Patchouli ou Oriza, Açafrão e Rosa. Trouxe ainda um cartão escrito em Árabe e leu para mim. Diz o seguinte: Yjb 'an takun alzzawjat dayimaan latif w eabaq lizawjiha. Takun zawjatan saeidat!

Fiquei olhando para ela sem entender nada e ela sorriu disse-me: Eu preciso muito de você. Eu importante para você? Amigo é como irmão?

- Pode ser sim. Porque pergunta?

- Papel que eu lê não diz isso. Que sabe?

- Se quiser falar... Se não quiser não faz mal. Nós mal nos conhecemos ainda não é?

Respondeu sem desviar os olhos de mim. Parecia quere ver minha reação. É Jorge. Já aprendi a me surpreender com as pessoas que atendo, mas ela... Disse-me em seguida: Está escrito assim: Uma esposa tem que estar sempre agradável e perfumada para o marido. Seja feliz esposa! Beiscão em você deixou marca. Esposa não faiz isso, faiz?

Fiquei sem ação. Dois dias juntos por algumas horas e já parecia uma eternidade. Segurei sua mão e disse: Sameeha, amigos brincam e brigam. É normal. Todas as suas reações até agora foram de defesa, não de amigos. Ainda somos estranhos apesar de estarmos a sós nesse momento, existe uma barreira natural entre nós. Sei que não vai entender tudo o que eu disse, mas olhando para você vejo uma pessoa carente de muitas coisas. Nesse momento minha preocupação é tua saúde.

Depois disso eu sai e ela veio logo atrás enrolada numa manta e deitou novamente no sofá de frente para mim. Disse não ter sono ainda e no meio de uma conversa que puxou, quis saber se eu vi as cicatrizes dela. Afirmei com a cabeça e ela perguntou se eu examinei os ferimentos.

Disse que não. Falei que não queria abordar o assunto naquele momento. Ela achou que eu a estava ignorando e no seu jeito engraçado de falar disse: Eu incomoda você. Eu vai dormi. Não fica incomoda você. Deculpe.

Falei para ela ficar mais um pouco, pois tinha algo para lhe falar. Sua vida vinha me incomodando e eu não queria ficar preso nela, mas tínhamos um compromisso em aberto e do jeito que sua saúde inspirava cuidados eu tinha que tomar uma decisão com urgência, por isso a surpreendi com o que falei.

- Sameeha. Bom. Amanhã vou leva-la para um lugar especial. Lá você vai ficar pelo menos vinte dias. Eu pretendia te levar até uma médica minha amiga, mas não vai resolver. Teu corpo inspira muito cuidado e essas feridas precisam ser tratadas. Não sei como consegue ficar em pé. Você deve ter dormido ao relento por muito tempo e provavelmente no chão.

Ela quis me interromper, mas não deixei e continuei. Quero ser teu amigo mesmo e te ver feliz. Já ajudei muita gente na vida e nem todas me deixaram felizes, mas a vida é assim mesmo. Vou desmarcar meu pacientes e você vai arrumar suas coisas amanhã de manhã. Não precisa levar muita roupa. Eu te oriento o que vai levar. Vamos sair cedo e não quero ouvir não entendeu?

- Eu vai onde? E se eu não quer.

- Não discuta comigo e nem pense em discordar. É serio isso. Você vai para uma clínica de internação até ficar totalmente em condições de poder trabalhar para mim.

- Onde é que eu vai? Tenho medo disso.

- Não é para ter medo. Quando chegar você vai saber. Vou passar o dia lá com você. Depois veremos.

- É bom? Eu vai gostar memo?

- Vai. Agora vamos dormir que temos de acordar cedo.

El ia indo para seu quarto, mas não deixei.

- Nada disso Sameeha. Vamos para o outro quarto. Já esqueceu? Se teimar comigo, eu vou deitar ai também. Na mesma cama.

Ela entrou no quarto, pegou mais um cobertor e fomos para o outro quarto. Esperei ela deitar e a cobri. Depois foi que deitei. Mas quem diz de eu ter algum sono. Fiquei incomodado de dormir fora do meu quarto. Deixei-a deitada e fui para a sala por alguns minutos, mas ela me chamou.

Deitei novamente e fiquei olhando para ela que fingia dormir. Sorriu...

Acabou dormindo mesmo e eu também. Meus sonhos foram entrecortados pelos seus movimentos na cama. Não foi uma noite agradável. Assombravam-me o terror da Síria em guerra e a imaginação daquela jovem com uma arma qualquer, matando sem nenhum remorso seus oponentes.

Devo lhe dizer que o dia seguinte amanheceu bem chuvoso e isso favoreceu desmarcar meus pacientes. Ligia, minha secretaria já se acostumara que os pacientes raramente vinham à clínica em dias de chuva. Mas o que mais eu temia aconteceu. Ao chegar à clínica de especialidades médicas de um mini hospital em Campinas, durante a bateria de exames que fizeram com Sameeha, revelou-se que ela estava com indícios de bronquite asmática, desnutrição profunda e riscos de uma tuberculose e isso sem falar na gravidade das lesões internas, que não conseguiram entender como suportara as dores que deve ter sofrido. Sua internação que bem poderia ser apenas por alguns dias, foi se prolongando e quando fui perceber ela já estava internada a mais de um mês. Sua recuperação foi lenta e gradual.

Segundo o Doutor Richard Noopper, meu amigo, ela apresentava uma ulcera duodenal provocada por ingestão de alimentos estragados. Provavelmente restos de comida de restaurantes e de outros lugares. Fui obrigado a contar parte de sua história e pedi encarecidamente que lhe desse um bom atendimento.

Saiba que foi operada quatro vezes. Um dos médicos da clínica desconfiou que ela tivesse algum problema uterino e indicou a histerossalpingografia, onde foi revelado que tinha uma pequena obstrução das trompas e foi executada a cirurgia por videolaparoscopia. Ela apresentou também uma ferida intestinal causada por bactérias e foi feito uma cauterização perfeita com o bisturi KVN.

Por precaução eu evitava ligar para a clínica, ou ir lá mais vezes. Mesmo assim a equipe médica e os funcionários foram preparados para dizer a quem ligasse me procurando, que eu só atendia pelo convenio da clínica. Ninguém estava autorizado a dar meu telefone. Meus pacientes na clínica eram casos de segredo médico. Mas nesse tempo em que esteve no hospital, alguém ligou procurando por ela na minha clínica. Disse ser um tal Marcelo, mas não acreditei que a conhecia da empresa aérea onde ficou por algum tempo. Com uma pronuncia bem carregada, afirmou que precisava encontra-la, pois tinha noticias de seus familiares na Síria. Queria saber se eu tinha noticias dela, mas eu argumentei dessa forma: Aquela moça é difícil de lidar. Veio a minha clínica se dizendo ameaçada de morte e quando sugeri que fosse a uma delegacia, xingou-me de tudo quanto é palavrão em francês e desapareceu. Ainda bem. Já não bastam os problemas que tenho com meus pacientes. Porque não procura na associação de refugiados. Quem sabe tenham noticias dela.

Ele desligou sem se despedir. Eu sabia que não acreditou na história e por certo não a viram mais ir para a clínica.

Uma manhã cheguei mais cedo ao escritório e fiz uma reunião particular com a Valeria. Ninguém nos interrompeu. Contei parte dos problemas que enfrentava com a saúde de Sameeha e da sua condição de refugiada.

Depois de ouvir a história que contei ela disse: “Doutor” Marcus. Ela enfatizou bem o Doutor. Está querendo me fazer acreditar nessa história? Desde quando o senhor se preocupa com uma pessoa estranha? Quer parar com isso! Não vai demorar muito para dizer que achou a mulher da sua vida. Sorte dela. Azar das brasileiras. Mas é bom tomar cuidado. Os refugiados deixam para trás não só histórias de sofrimento. Muitos deixam também rastros de ódio, rancores e desejo de vingança. Eu conversei com ela quando esteve aqui é notei que é muito esperta. Conhece computadores como poucos. Deve ter estudado e se formado, mas não disse. Tenho certeza que sabe muita coisa. Ainda vai me contar outras coisas sobre ela. Não tenho duvidas disso.

- Não é atoa Jorge, que Valeria é minha psicóloga favorita e meu divã vivo. Acabei tendo que contar a verdade da história até a internação dela. Ela começou a tremer mesmo sentada. Tanto é que acabou entornando o café na mesa. Tive que acalma-la afirmando que tudo estava sob controle. Por fim disse: Você não está brincando está?

- Não Valeria. Não estou brincando. O que você faria no meu lugar?

- Doutor Marcus se essa jovem for realmente tudo o que falou, temo pela sua vida. Estou apavorada com essa história. Acho que é melhor procurar a policia federal.

- Já pensei nisso. Mas se quer saber a guerra deles não me interessa. Se a deportarem para a Síria vão tortura-la para revelar seus segredos e depois mata-la. Isso se ela não se matar antes.

- Se matar! Como assim?

- É isso que ouviu. Ela deixou claro para mim que ninguém pega ela viva. Nem a policia, nem o exercito, nem nada.

- Meu Deus do céu Doutor!!! E se o Senhor estiver na companhia dela. Isso não pode ser verdade! Fala que tudo não passa de uma brincadeira!

Ela esqueceu que estávamos no escritório e falou bem alto. A secretária dela veio ver o que tinha acontecido e entrou sem bater. Pedimos desculpas por ter ouvido a voz alta de valeria e dissemos que não ia acontecer mais. A secretária saiu e ela tentando manter a calma, disse-me: Pelo menos ela confia no Senhor não é? Como vai fazer para contornar esta situação? Se me permite, vou embora para casa. Não vou conseguir trabalhar hoje. Meu Deus isso é terrível!!! Terrível!!!

Não demorou em que começasse a chorar e eu fui à busca de um chá para ela.

Na volta ela já tinha parado de chorar e arrumava suas coisas. Ia embora mesmo. Quem dera que eu pudesse fazer o mesmo. Sumir se possível.

Ainda em busca de conforto disse-lhe: Valeria me ajude a sair desta. Falo sério. Com você posso desabafar.

- Ajudar? Ajudar com o que? Essa, essa, essa mulher virou de cabeça para baixo a tua vida. Quiçá não vire a do escritório também. Vai contar para o Seu Vitor? Nem tente me enganar, pois tenho certeza que já está envolvido até o pescoço com ela.

- Porque não casei com você hein!?

- Sem brincadeiras Doutor. De hoje em diante me mantenha informada. Sei que não vai voltar atrás. Eu o conheço. Nem morto abandona uma meta, um projeto, uma realização. Já vi que vai fazer das tripas coração por ela, por isso quero ajudar e também quero ir visitar a jovem no hospital. Saio daqui e não digo para onde vou. Combinado?

- Combinado. Você vai ser a única pessoa que poderá visita-la a partir de amanhã além de mim.

Depois disso pedi-lhe que pelo menos ficasse no escritório até o almoço e ela concordou. Dei-lhe folga no outro dia e a convidei para ir comigo na mesma semana para o hospital. Ao sair dei-lhe um abraço e pedi desculpas pelo ocorrido.

Aproveitei nossa conversa e dei o novo telefone de casa para Valeria. Nesse tempo em que esteve internada, resolvi procurar o dono da casa de perfumes numa noite e ele disse que estiveram procurando uma moça síria que trabalhou numa empresa aérea. Ele não deu qualquer informação, mas falou que na hora relacionou o fato a Sameeha. Foi direto comigo. Nunca mais o Senhor volte aqui. Não posso lhe contar nada do pai da moça que o Senhor conhece. Sei que não são casados, noivos e outras conveniências sociais, mas ela deve ser importante para o Senhor. Eu acho. Ou foi. Se a encontrar diga-lhe que tem de mudar de fisionomia urgente. Querem sequestra-la e possivelmente mata-la depois de a torturarem. Pode ter certeza disso. Imagino que guarde um grande segredo.

Ela não é uma refugiada como outros que vem para o Brasil. É uma fugitiva internacional. Se ela o procurar novamente, evite-a. Pode crer que vai lhe trazer sérios problemas. Quer saber. O senhor está sendo vigiado. Sinto muito por lhe dizer isso. Quem a procura vai voltar aqui em busca de noticias. Eles sabem que os árabes não se afastam de suas tradições. Uma foto por exemplo. Já providenciei outra no lugar.

Sai sem me despedir e sem olhar para trás. Felizmente deixei meu carro bem longe e tive o cuidado de ir até a loja de taxi. Peguei outro na volta e rodei por varias ruas até chegar ao carro. Ninguém me seguia e o motorista do Uber notou que eu queria despistar possíveis seguidores, por isso correu mesmo pelas ruas que indiquei.

Paguei-lhe bem pela companhia. Então era verdade. A vida dela corria perigo.

Numa tarde ligaram para mim para dizer que ela queixou-se de dores na região do fígado e foi diagnosticado que tinha uma pequena necrose local e ela ia ser operada até com certa urgência. Dispensei os pacientes daquela tarde e fui para lá acompanhar a cirurgia, mas quando cheguei se encontrava no centro cirúrgico. Enquanto a operavam, um dos médicos me chamou de lado para que visse uma coisa estranha na base de sua nuca. Virou sua cabeça de lado e conseguiu afastar parte de seus cabelos. Ela possui um desenho tatuado no couro cabeludo. Não deu para ver direito, mas parecia parte de um mapa, ou algo parecido.



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