Rafaela – sucesso sempre



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Encontro11.07.2018
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Quanto ao fígado, ela certamente levou uma pancada bem forte no local. Por ultimo fizeram uma pequena cirurgia plástica em um dos seus seios. Ela ficou na clínica durante 60 dias no total e para evitar contratempos inimagináveis, eu passava um dia por semana no hospital auxiliando os médicos e dando suporte aos pacientes em convalescência de seus tratamentos. Vez ou outra aparecia algum paciente que necessitava de meus cuidados clínicos e não raro, voltava de lá acompanhado de médicos, pessoal auxiliar e até pacientes. Tudo isso serviu de álibi para minhas pequenas viagens.

Nesse tempo vinha maquinando algo. Ela corria risco de vida e não podia andar por ai com sua fisionomia peculiar, portanto algo tinha que ser feito e assim, quinze dias antes de deixar a clinica, num passeio que demos por um parque anexo da clínica, sentamos num banco e entrei no assunto sem dar a entender que fora procurado por pessoas que queriam noticias dela.

- Sameeha, que bom que já esteja quase pronta para voltar ao trabalho. O que acha disso? Posso contar com você?

- Eu não sabe o que fala. Devo-lhe vida. Devo-lhe tudo. Eu sou tua. É. Eu sou tua escrava. Sameeha não tem ninguém. Só tem você e a amiga Valéria.

Segurei suas mãos entre as minhas e disse: Bobagens o que diz. Eu faria isso por qualquer pessoa, mas admito que me afeiçoei a você. Talvez porque não seja mesmo uma pessoa interesseira, ou porque é realmente só, mas agora somos amigos inseparáveis não é?


- É? Eu sou mesmo amiga. Pode confia você?

- Tanto pode que temos que resolver um problema. Um pequeno problema. Quer saber?

- Eu quer saber? Eu problema seu?

- Não Sameeha. Você não é um problema. O problema é o que já me disse. Não pode ser fotografada lembra?

- Eu lembra. Não pode mesmo. Não pode.

- Bem. Se não pode ser fotografada, não pode andar por ai. Correto?

- Eu não pensa nisso, mai correto. Que faiz então?

- Cirurgia Sameeha. Lembra-se da minha foto que tinha cicatriz? Cadê ela?

Ela pegou meu rosto, virou para um lado e para o outro e disse: Só maquinha bem pequeno. Cirurgia plástico você disse. É isso?

- É. O correto é cirurgia plástica.

- Ma eu não tem cicatiz no, na cara. Só maica de nascença. Poique cirurgia eu faiz.

- Daí Jorge, expliquei que era possível mudar alguns detalhes do rosto e dar outra fisionomia para as pessoas. Por fim perguntei se concordava e ela ficou um pouco indecisa, mas quando lhe disse que não tinha muita opção. Aceitou.

Foi executado nela pelo Dra. Etelvinna da Clínica Ribeyro uma rinoplastia para redução nasal, um aumento dos lábios, uma blefaroplastia, uma mentoplastia e uma otoplastia. A marca de nascença desapareceu e as marcas de expressão também.

Os custos de sua internação saíram quase de graça para mim. Eu atendia pacientes da clínica da Doutora e ainda era sócio de um dos diretores numa empresa de convênios médicos do mini hospital em que ela é sócia. Até meus funcionários são atendidos lá quando os casos exigem melhores procedimentos.

Ela surpreendeu a todos com sua resistência e bom humor. Falava em árabe quando queria agradecer algo e depois ria das pessoas por saber que não entediam sua pronuncia. Depois de tudo o que foi feito, mas como inspirava cuidados na sua recuperação, foi internada num SPA que conheço bem. Ficou por mais vinte dias e quando fui busca-la numa sesta feira, tomei um susto com ela. Nem de longe lembrava aquela jovem daquela noite chuvosa na Avenida Angélica.

Ela já era bonita, mas ficou realmente linda. Seu cabelo havia sido cortados e tingido para um castanho claro, pois eram bem escuros e foram feito algumas luzes nele, mas o mais impressionante mesmo foi à mudança de seu rosto. Ficou irreconhecível tal o capricho da cirurgiã Etelvinna. Seu corpo outrora tão frágil, agora estava forte e bem sedutor.

Soube que durante sua estada lá, deu uma canseira no Personal Trainer do SPA. Ninguém conseguia acompanha-la nos exercícios físicos, na natação e outros esportes. Além disso, trepava nas arvores do bosque em busca de frutas, subia nos muros e andava sobre eles com os olhos fechado, preocupando os seguranças e o pessoal clínico. Descobriram que ela furtava chocolate da dispensa. Chegou mesmo a tirar a arma de um dos seguranças para ver se estava carregada e não teve que chegasse perto para tirar de sua mão. Ela dava golpes no ar e ria. Depois devolveu a arma para o segurança sem as balar e disse que ia levar embora como lembrança. Foi difícil para eles convence-la de que não podia fazer isso. No mais, Jorge. Todos foram unanimes em reconhecer a jovialidade dela e o bom humor.

Eu fiquei mesmo boquiaberto com ela e quando entramos no carro rumo à estrada dos sonhos na região de Socorro onde íamos passar nosso fim de semana, parei na estrada e fiquei por alguns minutos olhando-a e ela ficou incomodada com isso. Por fim disse: Eu não gosta disso. Que eu tem para você olha eu assi?

- Estou encantado Sameeha. Estou sem palavras. Foi o melhor investimento que fiz até hoje. Sorte de quem um dia casar com você. Bela, simples e franca. Você já era bonita... Agora nem sei o que dizer. Posso te dar um beijo?

- Só rosto? Só rosto pode.

Dei um beijo de leve nela e seguimos viagem. No trajeto nem perguntou para onde íamos, mas quando chegamos à entrada e viu os campos em redor, ela despertou para a realidade e perguntou o que era o lugar e o que fazíamos lá. Expliquei que era um refugio e que ela ia gostar. Disse-lhe que tinha outras pessoas nos esperando. Tinha mesmo. Os funcionários do escritório com suas famílias. Minha secretária e seus pais, Mariazinha e um dos seus filhos.

Entre as pessoas que já tinham tido algum contato com ela, se tornou a grande atração. Valéria me chamou em particular e disse-me: Doutor o que fez com ela? Nem se parece com aquela jovem que ficou um dia no escritório. É outra pessoa. Está irreconhecível! O tempo no hospital não pode ter feito tudo isso.

Sorri e disse: Sobre seu rosto, fico feliz que esteja realmente mudada. Uma hora te conto porque tive que fazer isso. Mas me diga. Ficou melhor do que era ou pior?

- Está brincando não? Ela está linda Doutor. Linda mesmo. Vai atrair os homens solteiros e até os casados do escritório. Não vai ficar com ciúmes dela hein!

- Ciúmes. Há quanto tempo não sentia isso, mas seria até bom ter um pouco de ciúme dela, pois eu acreditei na possibilidade de dar um futuro para uma moça que não tinha nenhuma perspectiva de vida no Brasil.

O final de semana no hotel fazenda que sempre alugo para nossa convenção anual, foi melhor do que esperava. No sábado alguns foram pescar no lago. Outros preferiram as piscinas, pois fazia calor tendo em vista que o inverno tinha ido embora há pouco. Outros se concentraram no salão de jogos e eu fui andar a cavalo pela manhã, porque a tarde gostava de dar um bom cochilo.

Fui alcançado por algumas crianças e algumas mulheres a cavalo. Sameeha estava entre elas. Dirigiam-se para o pomar da fazenda. Eu segui lentamente elas e escutei um tempo depois que alguém gritava por socorro, por isso fui mais rápido até o local. Aconteceu que uma das crianças tinha subido num pé de manga e uma cobra Jararaca estava enrolada num galho próximo. O menino corria o risco de ser atacado se se mexesse e receoso disso ficou quieta chorando baixinho.

Ficamos inseguros do que fazer, mas o guia turístico da fazenda tinha uma arma, porem não queria arriscar o tiro. Ele trazia uma espingarda Yildiz A65 semi automática calibre 12 numa capanga na cela, mas nem pensou em usar. Deu para perceber que ficou com receio. Nisso Sameeha foi até ele, tirou a arma, pôs rente o rosto. Regulou a mira e foi em direção à cobra. Ficou a cerca de cinco metros de distancia e falou pro menino não se assustar, mas todos estavam apavorados com aquilo. Inclusive eu. A cobra voou longe com galho e tudo e nesse percurso que fez, Sameeha efetuou mais dois disparos certeiros. Quando a cobra caiu no chão, estava em pedaços. Por precaução, eu acho, ela deu mais disparo na direção dela e a cabeça se desfez. Calculei a distancia desse ultimo disparo em 15 metros. Ela não fez pontaria em nenhum dos disparos.

Depois foi até o guia e ao devolver-lhe a arma lhe disse: Arma não boa para atirar. Mira torta. Precisa corrigir ela. Brigada por emprestar.

Aquilo acabou se tornando o assunto do fim de semana, por isso prevendo algum perigo sobre a divulgação da sua imagem na internet, pedi para todos que não filmasse ela, dando a desculpa de que sendo refugiada não podia aparecer nas redes como uma mulher que sabe atirar. Poderiam pensar que fosse uma terrorista e isso fez sentido para todos. Até para Valéria.

O guia me abordou em particular. Ele pertencia a policia militar e nas folgas trabalhava como guia na fazenda. Queria saber de onde ela era e como aprendeu a atirar daquele jeito. Disse que gostaria de vê-la fazer aquilo de novo. Dei-lhe a mesma explicação que dera para os demais e disse que para mim tudo era novidade. E era mesmo.

Ela quando não conseguia se expressar em português, recorria ao francês ou inglês e eu traduzia para as pessoas presentes.

Muitos foram embora no domingo pela manhã e eu resolvi voltar para São Paulo só no domingo à tarde e numa das minhas andanças pela fazenda depois das nove horas, dei com ela nadando próximo da cachoeira no rio que corta a propriedade. Suas roupas estavam penduradas numa arvore próxima. Nadava só de roupa intima. Não queria que me notasse, mas o cavalo relinchou chamando sua atenção. Ela parou de nadar e fez sinal para mim do meio do lago que é formado pela agua da cachoeira. Peguei suas roupas nos galhos e fingi que ia embora. Começou a gritar desesperada e dizia: Eu mata você! Eu mata você! Miseraver. Eu mata você! Voltei e desci do cavalo, indo até a margem e falei: Você disse o que Sameeha? Fingi que ia enfiar suas roupas na agua. Ela não mente, mas sorriu e reafirmou: Eu mata você! Não faiz isso co eu.

- O que eu ganho então. Beliscão? Abraço? Beijo? Que eu ganho escrava?

- Eu mata você! Já disse. Vem nadar e eu esquece ódio. Não ganha nada de eu.

Chamava-me para nadar e entre o receio de nos verem e me interpretarem mal e o prazer de sua companhia, optei pela loucura de ser novamente um jovem despido da sensatez e apenas de com a bermuda mergulhei atrás dela.

Nadava de sutiã e calcinha. Disse também que não era para eu ficar olhando e desafiou-me para nadarmos certa distancia. Aceitei e disse que toda disputa vale alguma coisa. O que disputaríamos e ela disse segredo.

Afirmou. Eu tem segredo. Você hoje tem segredo nas mãos. Eu segredo. Se você ganha, ganha segredo. Se eu ganha, cotinua com mais segredo.

Nadei como nunca, mas creio que deixou que eu ganhasse. Ela nada como um peixe. Eu vi. Brincamos de lutar na agua por causa do que eu fiz e ela esqueceu que disse que eu não devia toca-la. Parecíamos crianças peraltas, mas temendo que o clima pudesse esquentar entre nós, aleguei que tínhamos que ir. As pessoas poderiam ficar preocupadas com nossa ausência e, assim, sai da agua antes dela. Fui até meu cavalo e peguei uma toalha que carrego num dos alforges e dei para ela se enxugar, ficando de costas para ela. Em poucos minutos já tinha posto a roupa enquanto me enxugava mais ou menos com a toalha que usou. Saiamos para lados diferentes. Eu fui para a casa do capataz da fazenda que eu já tinha certa amizade e lá tomei um bom café e fiquei lá por certo tempo, depois voltei para a pousada da fazenda.

- Pelo visto ninguém notou minha ausência. Não vi Sameeha quando cheguei, mas não demorou e ela passou por nós na sala acompanhada das crianças.

Depois do almoço, quase ao final da tarde pegamos a Rodovia dos Bandeirantes para São Paulo. No trajeto ela deitou o banco do carona e dormiu e como o transito até a marginal nesse período fica pesado, aproveitei para fazer uma indução nela. Nem foi preciso usar toda a técnica de relaxamento. Dentro da indução disse que falaria em francês comigo. Só em francês. Segue mais estas descobertas que fiz.

- Saqr onde você está agora? Que dia é hoje?

- Domingo que anoitece.

- Que ano? Sabe?

- Ano não sei mais. Eu luto com rebeldes na M20, perto de Tadmor. Região do aeroporto de Palmyra. Muitas mortes. Maldita guerra. Nós no comboio de armas para um helicoptero. Temos que chegar.

- O aeroporto está ativo. Tem aviões também Saqr?

- Não! Helicóptero escondido num lugar. Nós não no aeroporto.

- Vocês guerreiam contra quem?

- Tropas do governo.

- Para onde vai as armas Saqr?

- Al-Salamiyah. Montanha de الحديقة العامة

Não entendi nada do que disse. Falou em Árabe o final da frase. Escondeu algo muito importante do destino das armas. Não podia continuar daquele jeito, pois para ela, mesmo sob transe, eu era um interrogador, por isso transformei aquilo em dialogo, como se estivéssemos tendo uma boa conversa. Por isso arrisquei que era um dos combatentes e afirmei que tínhamos de sair com o carregamento fora do comboio, pois éramos alvo fácil e ela disse assim: Já colocamos o carregamento nos Humvees americanos e cada um tomou um rumo diferente, mas chegaremos à montanha de الحديقة العامة em algumas horas. Ela não disse novamente em francês o nome do lugar. Aquilo era sem duvida um ponto estratégico para as forças rebeldes.

Mais adiante eu lhe disse que íamos precisar de mais armas e ela tinha sido nossa fonte de suplementos militares e sugeri que as armas tinham vindo do Líbano. Ela falou varias coisas em árabe e num francês corriqueiro disse de forma natural: Amigo de meu pai em Samarra no Iraque é quem trás as armas. Rio Tigre é o melhor caminho.

Derrepente ela começou a chorar baixinho, mas sem que as lagrimas escorressem, por isso com muito cuidado para não desperta-la do transe, disse-lhe para não chorar que tudo ia dar certo, mas respondeu em soluços que seu pai tinha sido preso.

Perguntei-lhe porque lhe fizeram isso e disse que ele era um coitado. Respondeu sem seguer se virar no banco do carro: waliday lays alfuqra'. wahu tajir kabir lilnahri. wasawf yaqtaluk limaerifat 'asrar akhtby. wasawf taedhibihi, lakunah lm yumsik li. 'ana 'aerif 'ayn zimam almubadarat wanahn detruir alsujnu. laena!3

Em francês fiz-lhe entender que suas palavras eram estranhas, mas de forma lacônica e em soluços ergueu o punho direito dando um grito de guerra. Fiz de conta que tinha entendido sua revolta, ou desejo de vingança de algo que não entendera e voltei a interrogatório que ficou parecido com uma conversa formal.

- Você já foi torturado Saqr?

- Eu e Sameeha fomos, mas sai vencedor.

- Você e Sameeha. Como assim?

- Somos dois num só.

- Esplendido! Eu disse e emendei: Você é uma mulher disfarçada de homem. Isso é fabuloso. Quem torturou você?

- Estado islâmico.

- Serio? Quantos eram eles e como escapou?

- Quatro. Descobrem que sou mulher. Querem sexo. Querem estupro.

- Por Allá! Como foi que isso não aconteceu? Onde?

- Ataque a um barco no rio Euphrates. Jogaram muitas bombas naquela noite e mascara desgrudou do rosto. Eu nadei para a margem onde fui capturado.

- Que fizeram com você?

- Arrastaram até grande cabana no meio do mato.

- Porque não tocaram seu corpo? Não fizeram sexo com você?

- Eu prometi dinheiro americano. Eu tinha muito dinheiro americano na mochila. Venda de armas e munição rende muito.

- Fizeram o que então com você, já que sabiam que era uma mulher disfarçada de homem?

- Pela lei Islâmica eu já era contaminada. Achavam que eu era uma prostituta dos americanos e que não podiam me tocar. Esperavam seu chefe para resolver minha vida.

- Enquanto isso fizeram o que?

- Torturaram eu com facas quentes na barriga e em outros lugares e chibatadas nas costas com esferas de aço. Fizeram isso sem deixar nua. Por cima da roupa, mas esta acabou rasgando pelas chibatadas e o calor das facas. Me chutavam e riam. Cuspiam em mim. Fizeram piss nos cortes e no meu rosto. Aquilo ardia. Muito piss. Eu com ódio deles! Mesma ferida já me preparava para mata-los. Para mim basta uma distração. Deixar as armas de lado por eu ser mulher. Eu matava todos eles num piscar de olhos.

Como pode constatar meu caro. Essa mulher tem duas personalidades bem distintas. Não sei qual é pior de se tratar. Você vai notar isso na sequencia que vem por aí

- Não sei se intendi direito o que ela disse, mas deu para compreender que urinaram nela. Fiquei angustiado só de ouvir sua narrativa, mas entendi que mesmo sem armas ela devia ter treinamento em artes marciais. Descobri como, meses mais tarde.

III

Continuo aqui o texto interrompido e quando quiser enviar algum comentário...



Ela continuando disse: Antes de fingir desmaio da dor, falei que se eu morresse não teriam mais dinheiro. Depois disso vestiram em mim uma túnica do islã e não mexeram mais comigo. Arrastaram meu corpo (eu fingia desmaio) para dentro da cabana e jogaram no chão.

- E daí? O que aconteceu depois?

- Fiquei só na cabana no mato. Era bem noite e havia uma luz fraca num canto. Era uma lanterna a pilha. Tudo doía. Doía muito. Deixaram algumas granadas e fuzis dentro da barraca, num outro canto. Pensaram que eu não era preparada, preparado e também porque chegaram mais seis. Um era o chefe deles.

Escutei que falavam de mim. O chefe deles sabia sobre mim e escutei que vinham em direção à barraca. Sabia que ia morrer depois de ser torturado de novo.

- Que fez então?

- Fui bem rápido. Num salto já estava de pé. Peguei duas granadas e fui até a porta da barraca e joguei as duas neles e joguei-me para trás. Antes chegar ao chão tudo explodiu e eu recebi alguns estilhaços através da lona da barraca, mas ferimentos não eram grandes. Peguei um AK47 e atirei para todo lado. Sabia que tinha de atirar baixo. Regra diz assim: dezesseis centímetros do chão. Se não pega pernas, pega cabeça e corpo. Tem de atirar como metralhadora. Enquanto tinha balas nas armas da barraca eu atirei. Até só escutar alguns gemidos e gritos de dor. Tinha dois ainda vivos gritando. Achei facas e cortei varias vezes sua caras antes de cortar a garganta deles Eu com ódio. Muito ódio deles. Depois encontrei uma pasta de couro num jipe que estava mais afastado. Era do chefe deles. Dentro tinha documentos em inglês. Ele ia para o México em alguns meses encontrar um contrabandista de armas.

- Como você é valente Saqr e como soube que era um contrabandista de armas?

- Já tinha visto ele em Ar-Raqqah na companhia de meu pai. Ele trabalhava para Ismael Zambada, chamado de “El Mayo” e Miguel Angel Rivera, chamado de “El Chapito4. Não conheço eles, mas sei que trafegam drogas e armas entre os EUA e o México5. Não sei o nome verdadeiro dele, mas sei o que negociava.

- O que negociavam além de armas?

- Mulheres capturadas e crianças sírias. Eu queria matar ele, papai não deixou, mas depois matei ele longe da Síria, como se mata verme que rasteja!

- Você está dizendo que matou ele em outro país? Onde foi isso? México? É verdade isso?

- Documento dizia que ele esperava uma encomenda da Al-Qaïda (Al-Qaeda) por intermédio de Iudáb – O buraco.

- Quem é o buraco?

- Chefe que matei, mas no documento seu nome era Ocamís – O Aliado.

- E então? Onde foi que o matou?

- No Mövenpick Hotel Izmir em Smirna. Por Allá! Ele tinha vindo da América até o porto de Smir, para entregar um carregamento de armas para um enviado de Adnan, conhecido como El Shukrijum. Eu disse para ele que Ocamís tinha sofrido um atentado e dei os detalhes. Ele já sabia que Ocamís tinha sido morto por alguém, mas acreditava que tivesse sido traído, por isso só aceitou se encontrar comigo, por eu ser mulher e ir ao encontro dele num país neutro.

Afirmei que levava ouro e euros para que apressasse o envio de armas, pois tínhamos necessidade. Também disse-lhe que ia levar uma “escrava” para que se distraísse, como era comum acontecer nos encontros desses vermes.

Tanto eu quanto ela fomos revistadas no hotel num reservado, mas quando viram o ouro, as notas de euro e um documento que garantia minha procedência dentro da Síria, embora sendo elaborado com precisão pelo serviço secreto inglês, nos levaram para o quarto, onde dois seguranças ficaram de guarda do lado de fora.

Minha “escrava” que já fora torturada como treino na milícia Talibã, era mestra em artes marciais e odiava, como eu, os contrabandistas. Trabalhávamos juntos em algumas missões na Síria. Não foi difícil nosso trabalho naquela noite em Izmir.

Os dois companheiros dele que ficaram conosco, morreram em pouco mais de cinco minutos em nossas mãos e sem darem um sinal.

Ele ficou por minha conta. Antes de estrangula-lo com a própria cinta, com uma faca arranquei seu haqiba6 e enfiei na sua boca depois de abri-la de fora a fora com a lamina da faca. Nem gritar conseguiu.

Eu já estava enojado com aquilo, mas tinha de continuar e disse-lhe: Como escaparam dos seguranças do lado de fora?

- Enquanto fizemos tudo isso, riamos e falávamos em árabe como se tudo estivesse normal. Por fim despertamos a atenção deles abrindo a porta e gesticulando como se fossemos tirar a roupa. Eles entraram e foram dominados facilmente.

Os amarramos e saímos pela escada de emergência. Não antes de por fogo no quarto.

- E depois disso? O que fizeram?

- Nós queríamos as armas e com os documentos que ele tinha, fomos até o porto. A carga ia ser descarregada direto para uma lancha torpedeira de um grupo terrorista. Afundamos a carga com ajuda de ingleses infiltrados no porto e que nos esperavam.

- Você fez tudo isso depois que foi capturada, mas como sobreviveu aos ferimentos daquela noite?

Vesti roupa do chefe, pois era bonita. Levei todos os documentos comigo. Não podia carregar nada dali, só minha mochila com dinheiro, facas e um M16.

Pus fogo no carro dele, nos corpos e na barraca. Antes, peguei muitas balas e fui andando na direção do rio, onde fora capturado. Já era muito noite. Desmaiei mesmo de dor, mas antes disso, tinha me escondido.

- Quem te encontrou?

- Camponeses pescadores. Fiquei dias numa choupana perto de Sarrin. Em Kobani. Cuidaram dos ferimentos e eu dei dinheiro americano para eles. Me chamaram de Shakir. O nome significa Grato em Árabe. Nome no documento de viagem.

- Jorge. Era o passaporte do Árabe que matou junto com os demais. Ela mudou a foto, ou alguém fez uma montagem. Ela não disse, mas é certo que entrou aqui como homem Árabe. Entrou como refugiado sírio, mas ninguém deve ter dado importância ao fato, pois leia isso que ela disse depois de uma pergunta que fiz.

- Saqr você achou um jeito de ir para o Brasil. Como foi?

- Documento. Eu cheguei como Shakir.

- Quem paga armas Saqr que você arruma?

- Eu. Em dinheiro americano. O nosso não serve.

- Quem fornece o dinheiro para comprar as armas?

- O rio. E outros rios. Muitos são meus segredos dos rios.

O rio tem um segredo que só ela conhece. Já os outros rios... Eu quis saber sobre tais segredos, mas respondeu em árabe: Alttarikh walnahr hu hayati. sirun 'aydaan7 . Em seguida acrescentou: Ainda não. Você não é dos nossos ainda.

Na hora ocorreu-me um nome que já vi e que é grande inimigo dos rebeldes e dos jirrajistas. Disse-lhe: Como não! Quase matei o Coronel Suhail Hassan na Operação Canopus Estrela. Ela, mesmo no transe Alfagenico, abriu os olhos de admiração. Saiba meu amigo que essa operação chamada Canopus Estrela, foi uma operação lançada pelo Exército sírio, apoiado pelo Hezbollah e outras milícias aliadas, durante a guerra civil síria. Esse coronel se tornou o terror dos rebeldes.

- Então é um dos nossos, mas Aleppo foi destruída. Perdi amigos e parentes lá. Você perdeu também?

- Perdi, mas o que interessa é que continuamos a lutar. Preciso de armas para continuar combates. Quem pode me fornecer?



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