Rafaela – sucesso sempre



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Encontro11.07.2018
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- Eu forneço se você tem ouro, ou dinheiro americano.

- Vou conseguir e se eu precisar logo posso contar com você?

- Pode. Agora Saqr tem missão no rio.

Notei que se agitava no banco e que estava prestes a despertar, por isso tirei ela do transe Alfagenico e deixei que voltasse naturalmente. Naquele momento circulávamos pela marginal de Pinheiros.

Ela quis saber onde estávamos e lhe disse que próximo ao SEAGESP e como já era quase nove e meia, perguntei se aceitava tomar uma sopa de cebola dentro do SEAGESP. Por sinal ela é muito famosa e depois de ouvir bem minha explicação, aceitou, por isso, fizemos retorno no primeiro viaduto e entramos no recinto onde passamos bons momentos.

Durante esse jantar Sameeha disse-me: Você não é mais Marcus pra eu. Não é Doutor.

- Não? Sou o que então?

- Nasir - O Protetor. Você protetor. Mai eu acha que não pode mais mora na casa sua.

- É? Porque não pode? Fiz algo errado?

- Você homem, eu mulher. Esse é o errado.

- Oras Sameeha. Você diz que sou teu protetor e não posso ficar perto de você. Sabe quantos dias ficamos juntos mesmo? Dois dias e no máximo quatro. Ainda não arrumei um lugar para você e também você não me pagou o que me deve. Além disso, você é minha escrava. Foi você que disse.

Ficou olhando-me séria e esperando para ver se eu sorria. Eu ria por dentro, mas fiquei firme para ver sua reação e ela acabou baixando a cabeça. Notei que limpava com as mãos algumas lagrimas que escorriam. Por fim falou isso: Eu escrava mesmo. Não pode pagar você. Que quer da escrava tua?

Resolvi continuar com a brincadeira só para ver a reação dela: Escrava síria faz o que Sameeha? Preciso saber para resolver o que eu quero, já que nunca vai ter dinheiro para me pagar.

- Muitas morrem de vegonha. Tiram vida. Homens abusam delas e riem da desgraça delas. Não casam e são foiçadas na guerra a vários homens. Você Brasil. Não pode isso, pode?

Não podia continuar com aquilo. Eu brincando e ela falando das dores das mulheres sírias. A guerra é a pior das invenções humanas para possuírem o melhor das pessoas sem nenhum pudor, ou respeito à dignidade familiar e ao direito a vida. Coloquei a mão em seu rosto e levantei sem ela se opor. Portava-se como se realmente me deve-se algo. Fui direto com ela: Sameeha devo-lhe perdão por abusar da tua simplicidade e honestidade. Você me perdoa por brincar com teus sentimentos. Eu seria o pior dos homens no mundo se te cobra-se alguma coisa, ou exigisse de você algo contra sua vontade. Já te disse que ajudei pessoas que não mereceram minha ajuda.

Você pode escolher agora mesmo se quer continuar por mais um tempo em meu sobrado, ou se deseja morar sozinha. Você só não pode andar por ai sem eu saber por onde anda, até resolvermos teus problemas. Eles agora são meus. Você prometeu no lago e isso sim vou te cobrar, apesar de achar que me deixou te vencer.

Hoje ainda vai dormir no sobrado, mas se amanhã quiser ir embora, tenho onde possa ficar. Você viu que tenho muitas propriedades. Desculpe-me mesmo. Você merece ser feliz e eu pretendo que seja. Mais uma vez tive que lhe dar meu lenço.

Ficou por instantes em silencio como sempre fica e depois deu um leve sorriso, mas não escapei de um chute de uma bota por debaixo da mesa, bem no meio da canela. Soltei um sonoro palavrão. Esquecera completamente de onde estava. Disfarcei como pude, mas quem estava por perto notou que algo tinha acontecido.

Tudo parecia correr tão bem que eu tinha medo de estragar aquele momento. Mas quem disse que não estragaram. Meu celular começou a piscar um alerta. Era o sistema de segurança do sobrado. As imagens que vi não deixavam duvidas. Invadiram-no. Não dava para ver os rostos dos bandidos, pois usavam mascaras ninja. Fiz soar o alarme e liguei para a policia. Sai do CEAGESP puxando ela pela mão que não parava de fazer perguntas.

Minutos depois seguíamos para casa no nosso carro em silencio. Só depois de algum tempo eu disse para ela que invadiram o sobrado para roubar. Ela não entendeu bem o assunto e tive que ser mais claro. Disse-lhe: Tem gente lá no sobrado pegando tuas coisas e as minhas. São bandidos entende?

Sua resposta foi como eu esperava. Se eu estou lá, mato eles! Eu os conheço! Não são bandidos! Não são bandidos! Se não sabe dirigir mais rápido, dá este carro na minha mão que você vai ver como se dirige de verdade! Já dirigi com bombas por todo lado. Isso aqui não é nada!

Liguei as luzes e a Cirene de ambulância e corri como nunca tinha corrido. Mesmo atento ao transito fiquei pensativo sobre ela haver dito; “Eu os conheço”. Não são bandidos! Alguma coisa não cheirava bem nas suas palavras.

Minha canela doía e o ego também, mas não podia deixar de reconhecer que merecera sua reação, mas agora não via a hora de chegar ao sobrado. Na nossa rua esperava-nos varias viaturas da policia militar. Sameeha fez-me para o carro debaixo de uma arvore, vários metros longe da entrada do condomínio e fez sinal para eu manter o silencio. Desceu com a porta semi-aberta e se esgueirou por detrás da arvore. Sussurrou para que eu seguisse. Algo despertou dentro de mim. E se os invasores fossem pessoas que buscavam por ela. Possivelmente deviam ter espiões na área e se notassem alguma semelhança nela, iriam vigiar meus passos mais de perto. Era é mais esperta do que eu pensava. Segui com o carro mais um pouco e parei sob outra arvore. Abri a porta do meu lado e dei a volta abrindo a porta do carona como se procurasse algo. Abri as outras duas portas, pois meu carro é quatro portas e balançava a cabeça negativamente como se o que eu buscava tivesse ficado em outro lugar. Quis deixar claro que o carro estava vazio. Varias pessoas olhavam o que eu fazia.

Até os policiais. Depois que me apresentei, um sargento foi comigo até o sobrado e ao entrarmos ele disse: Doutor Marcus é a primeira vez que atendo uma ocorrência de furto numa casa que não levam nada dela. Já viu isso? Desculpe se achar ela toda revirada. Não fomos nós da policia. O Senhor saberia dizer o que procuravam? Quer dizer, tem algo a declarar sobre isso? Fique a vontade.

Não respondia nada. Fiquei andando pelos cômodos que estavam todos revirados e agradeci a Deus por Mariazinha ter ido para a casa do filho naquele dia. Nem sei o que poderia ter acontecido. O sonho de morar ali acabou naquele instante. Minha vida corria perigo mesmo. Eles foram muito ousados e certamente tinham treinamento específico, pois entre o tempo dos disparos do alarme e a chegada da policia, fizeram tudo aquilo e pelo que soube, sumiram sem deixar nenhum rastro para trás. Os vizinhos não ouviram nada e nem notaram nenhum veiculo ou pessoas suspeitas nas imediações.

No quarto de Sameeha quase não mexeram. Felizmente ela levou a foto embora e as roupas que podiam nos comprometer. Menos mal, mas... Não apresentei queixa, pois nada foi roubado e disse que provavelmente procuravam joias e dinheiro, mas que não deixo estas coisas em casa. Quis saber do segurança se ele viu, ou ouviu algo diferente e ele disse algo que escapou sem querer da sua boca. Um helicóptero tinha sobrevoado o condomínio e a região várias vezes naquela tarde e no início da noite. No escuro do céu só dava para ver as luzes dele voando baixo e algumas vezes pairando sobre os prédios. Desapareceu depois das oito da noite.

Não liguei os fatos até voltar para o carro e dar com Sameeha dentro dele no banco detrás. Eu tinha certeza que o fechara, mas como fez para entrar sem disparar o alarme? Eu ia dizer alguma coisa e ela me antecipou: Foram eles não foram? Eu sei.

Abriram seu carro quando entrou no condomínio e o revistaram. Instalaram isso aqui.

Ela me mostrou um minúsculo microfone e uma câmera imperceptível no teto. Já a havia inutilizado. Pois é meu caro amigo. A realidade não só pode imitar a arte, pode também nos fazer suar frio diante do inimigo invisível.

Ela acrescentou isso antes de irmos para o sobrado: Estão atrás de mim. Seguiram você até o condomínio depois que desci. Contei quatro ao todo. Misturaram-se as pessoas a tua volta. Dois vieram examinar o carro e a pouco passaram pelo carro falando em árabe. Não deu para ouvir o que diziam. Marcus, deculpe Doutor Marcus. Eu gosto de você. Da tua companhia. É meu irmão no Brasil e meu único amigo. Vou ter de ir embora. Não posso por em risco a tua vida. Não posso.

Tampei sua boca sem pensar e disse-lhe: Não acharam nada sobre você. Pode ser que não voltem mais. Além disso, vamos nos mudar daqui. Amanhã dou um jeito nisso. Aqui não fico mais. Amanhã começa outro dia. Você vai ver!

Depois que entramos ela chutava as paredes e os moveis, cerrava os punhos e falava em árabe as mais cruéis ofensas para um árabe e que um dia acabou me dizendo o que significavam8. Gesticulava e dizia: Bint kalb! Al'ama! Saafil [pl.] Safala! Wisix!

Contei-lhe do helicóptero e respondeu que permitiram que eu visse e acionasse o alarme. Naquela hora já deixavam o local. O helicóptero os deixou ali com tempo de folga e se foram para me esperar.

Para amenizar o acontecido disse-lhe que na segunda feira deveríamos fazer seus documentos e sugeri que me desse um nome, pois Samira é muito parecido com Sameeha. Se alguém a procurava devia saber que ela tinha algum parente com esse nome. Os refugiados sírios não são tantos assim e eu lhe disse também que a partir de segunda ela não poderia parecer uma refugiada, mas alguém que morava no Brasil há bastante tempo.

Respondeu secamente: Eu vou embora. Não posso continuar assim. Você não sabe do que são capazes. Não sei como vou fazer para reaver o que perdi e preciso de você, mas não posso arriscar a vida de ninguém. Não vejo nenhuma saída para estarmos juntos no teu trabalho. Vão me procurar lá. Olha a sua volta Marcus. Deculpe, desculpe. Por mim ia embora agora, mas não vai adiantar. Vamos dar uma ajeitada na casa e amanhã eu decido meu caminho.

Foi bem difícil conter a emoção daquele momento. Parecia que eu tinha uma esposa que não conhecia, me ajudando a organizar nossa casa. Estranho Jorge. Ela se portava como uma verdadeira dona de casa e algum tempo depois as coisa estavam mais ou menos em ordem. Em nenhum momento nos olhamos ou trocamos qualquer palavra. O clima era de profunda tristeza tanto para mim quanto para ela, mas o que aconteceu, aconteceu e novos desafios tinha que ser vencidos.

Depois que concluímos aquilo, sentei de frente para ela e disse-lhe direto: Já te procuram até na loja onde ganhou a foto. O amigo de teu pai disse para você não se parecer síria e nem ir às mesquitas. Temo pela tua vida e, falando serio, quero ajuda-la mesmo com todos os riscos. Sou teu protetor você disse, mas tenho que cuidar para que nada te aconteça. Não recuse minha ajuda, ou vou me sentir péssimo. Já salvei tua vida duas vezes e você quase morreu naquele hospital. Não pode acabar assim.

Não estava em crise, mas tremia e falava em árabe varias coisas. O passado batia a porta como um morto insepulcro. Não era só isso não Jorge. As pessoas que a procuravam e invadiram o sobrado podiam não fazer parte do regime de Bashar Hafez al-Assad, dos rebeldes, ou do Daesh, que para nós leva ao acrônimo Da'ish, ou Daesh, aportuguesado como Daexe. Saiba que em 29 de junho de 2014, o grupo passou a se auto intitular simplesmente “Estado Islâmico”. Imaginei que eles queriam vingar a morte do verdadeiro Shakir. Quem a procurava podia ter tido contato com seu pai, ou terem feito negócios com ele e descoberto que por detrás de seus negócios existia uma fonte secreta de riqueza que não revelava nem sob tortura e que Sameeha devia saber.

Procurei acalma-la e ela disse: Eu quer arma! Preciso de arma. Ninguém pega Sameeha viva. Segredo morre com Sameeha. Eu quer arma. Você acha arma para eu? Acha?

Ela falava com medo, mas firme. Minha situação não era das melhores naquele momento, só que minha paciente não brincava como fantasias de artistas, a coisa era real, por isso disse-lhe: Sameeha, nesse momento ninguém sabe onde você está. Ninguém sabe o que faz e mais importante. Qual é tua fisionomia atual. Vai te olha no espelho do banheiro. Seu rosto sofreu mudanças consideráveis. Diria que mudou. A Sameeha não existe mais, a não ser é claro pelas tuas digitais. Seus dedos. Entende! Uma arma não vai te dar segurança. Apesar de que vi como sabe atirar. Nem quero pensar em uma faca em tuas mãos...

Ela não se deu por vencida e disse: Eu sente segura com arma e bandidos no Brasil tem, porque eu não pode?

- Não é bem assim. São armas clandestinas e causam problemas para pessoas corretas como você.

Assim, depois que descarregamos as coisas de tão longo período em que ela se ausentara, sentamos na sala e ela falou para mim: Você acha que eu não sabo, quer dizer, não sei me defende no é? Nem sempre preciso de arma. Eu já matei sem arma. Você sabe. Eu mostra agora como eu sabe. Tirou a roupa na minha frente e ficou só de calcinha e blusa, foi até seu quarto e pôs uma bermuda. Falou para eu ficar sem roupa, ou de cueca. Coloquei uma bermuda. E voltei para a sala. Ela falou: Ajuda eu a afastar mover e coisas que quebra. Ajudei sem entender nada. Ficou só o tapete.

Ela foi à lavanderia e voltou com uma vassoura mais ou menos velha, entregou para mim e disse: Bate em eu. Bate com força onde quer.

- Você tá louca? Jamais faria isso com você. Levei tanto tempo para te por em ordem e você vem com essa conversa! Não vou fazer isso!

- Você bate. Eu me defende! Bate eu manda você bate. Com força. Sem dó de eu.

Inseguro, virei à vassoura para pegar pela parte das cerdas, mas tomou da minha mão. Ese lado não. Tem que se pra machucar eu. Pode matar eu. Você raiva. Muita raiva. Entende. Estamos em guerra. Você com ódio de eu!

Jorge. Eu bati sem muita convicção. Mirei na cintura dela. Segundos depois estava sem a vassoura. Devolve-me e disse: Mais rápido e segura firme dessa vez. Mirei na sua cabeça e ela deu um salto mortal por cima da vassoura. Fiquei sem ela de novo. Quanto mais tentava acerta-la, menos tempo ficava com a vassoura. Aquilo foi me irritando e passei a golpear a sua volta de qualquer maneira e em dado momento ela arrancou a parte das cerdas da vassoura e eu fique só com o cabo.

Depois disso ao tentar golpeá-la, o cabo ficou em pedaços. Por fim, mandou que eu segura-se um pedaço do cabo com as duas mãos acima da cabeça e fechasse os olhos. Segundos depois minha mão doeu um pouco. Cadê o pedaço. Prendeu nas cortinas. Continuou dando mostras de suas habilidades de lutadora. Não consegui segurar os braços dela em suas costas, apesar de eu ser bem mais forte fisicamente.

Ela só não deixou que eu me machucasse. Levei vários golpes de Jiu-jitsu e judô, ficando em varias vezes imobilizado no chão preso por suas pernas que me sufocavam, ou seus braços que mais pareciam garras poderosas. Por fim, exausta, deitou ao meu lado no chão. Suava e eu também suava bastante.

Ela viu que eu sorria e quis saber por que. Disse-lhe que o homem que casasse com ela, não podia andar fora da linha, ou ia levar surras e mais surras.

- Que linha homem anda? Eu não conhece isso. Você mente pra eu. Você mente?

- Nada disso Sameeha. Você é uma maquina de guerra. Eu tenho medo de você.

- Tem mesmo? Eu pode fazer o que quer de você? Eu não escrava?

- Que escrava? O único escravo aqui sou eu, isso sim! Se eu descuidar acabo aleijado ou morto. O que eu vi hoje é mais surpreendente do que poderia imaginar. Que mais se esconde por ai que eu não sei. Você confia de ficar com essa bermuda na minha presença, mas não sou louco de te tocar sem a tua vontade. Apesar disso que mulher você é. Bela, sedutora e enigmática. Bah! Você não entendeu nada do que disse. Quer saber? Vou tomar um banho de piscina.

- Piscina? Você tem piscina onde?

Peguei na sua mão e a levei escada acima. Ficou deslumbrada com o reservado do andar. As pessoas constroem sobrados e fazem quartos no andar superior. As piscinas ficam do lado de fora, mas eu inverti isso. No andar superior tem um solarium sobre a piscina, um reservado para troca de roupa. Aparelhos de ginastica e até um pequeno quarto para um aconchego depois de algo mais intimo. Ao lado do pequeno deque tem uma cascata de cromoterapia e jatos de agua para massagens hidroterápicas. Mergulhei e ela ficou andando pelo aposento. Descobriu minha Jacuzzi para quatro pessoas no solárium da sacada coberta, envidraçado em azul e completamente discreto.

Depois disso, entrou na agua, deu dois mergulhos próximos da borda e ficou em pé na beirada me observando. Por fim pegou uma das toalhas das cadeiras que mandei fazer para o deque, tirou a bermuda e se enxugou como deu.

Entrou no quarto e abriu um dos armários embutidos e achou cobertas e travesseiros. Ajeitou-os na cama, deitou e se cobriu. Como ela não veio nadar sai da agua e fui ao banheiro, que ela não tinha visto e peguei um roupão de banho. Depois fui para o quarto e deitei ao lado dela. Ela olhava para o teto e eu lhe disse: Sameeha eu vou ter que te atender todos os dias de outra forma. Vamos sair daqui para um lugar mais seguro.

Se eu não estiver enganado tem apartamento meu vago num condomínio de alto luxo em Moema. Vou ligar para a Valéria e já volto.

Valéria estava deitada, mas veio atender assim que soube que era eu. Nem deixou eu falar e disse apavorada no telefone: Doutor. Não me deixe nervosa. Que aconteceu! Fala logo! Que que foi?!

Consegui falar aos poucos tudo o que ocorrera e ela desatou a chorar no telefone. Não citei que Sameeha ficara comigo no sobrado. Queria que eu fosse para sua casa, mas lhe garanti que tanto Sameeha, quanto eu. Estávamos em segurança.

Realmente. O apartamento em questão estava vazio e as chaves estavam na recepção. Se eu quisesse poderia ir para lá naquele momento, pois meus apartamentos são mobiliados e os locatários só colocam seus bens pessoais.

Voltei até onde Sameeha estava, mas ela dormia. Não pensei duas vezes. Acordei-a e mesmo sonolenta, a fiz juntar suas coisas e pequei o estritamente necessário. Saímos para o apartamento. Por volta das duas da manhã, acabamos dormindo lado a lado numa das camas de casal. Estávamos exaustos demais para discutirmos nossos direitos.

No dia seguinte encomendei nosso desjejum e enquanto não chegava acertei com ela que só a atenderia no apartamento. Não mais na clínica para evitar imprevistos.

Respondeu que não ia ficar sozinha comigo. Saiu com esta. Eu dormi. E se você não repeita eu.

- Sameeha. Aqui ou no consultório você vai estar em minhas mãos. Eu poderia abusar de você. Possuir você e nem ficar marcas. Sei como fazer isso, mas que vantagem eu levo. Lutei pela tua saúde e por tua vida. Tenho uma promessa a cumprir e você vai notar logo logo que sei ser chato quando estou atrás de um objetivo. Além do mais você deu mostras de que eu não seria páreo para você se algo desse errado.

Pouco antes de sairmos, ela foi colocar o hijab, não deixei e também exigi que colocasse um sutiã. O fato é que acabei ajudando ela a por, mesmo com ela me xingando em árabe, depois fomos aos empurrões para o elevador. Quando foi descer na Alameda Santos em frente o prédio de escritório, me deu um leve beliscão e sorriu.

Durante o dia tratei de colocar em ordem o apartamento e mandei minha secretária providenciar a mudança e a transferência da Mariazinha para um dos quartos disponíveis até eu arrumar um lugar só para ela.

No final do dia o detetive ligou. Queria uma reunião e marcamos para a terça. Ligaram novamente do centro de refugiados. A pessoa tinha sotaque estrangeiro. Buscavam informações sobre a jovem síria que foi na minha clínica. Tornei a repetir que nunca mais a tinha visto e estiquei a conversa com a pessoa só para ver o que dava. Acredite Jorge, foi melhor do que eu esperava. A pessoa tinha se identificado como Marcelo. Eis o relato. Disse-lhe: Seu Marcelo, se realmente for esse seu nome. Outras pessoas já procuraram por ela (menti descaradamente) qual é o teu interesse nela, já que ninguém soube me dizer a razão desse interesse.

- Se eu disser o senhor vai me acreditar?

- Por que não haveria? Pelo visto ela deve ser importante no meio sírio.

- Não diria importante, mas de grande valia para a causa do povo sírio na guerra.

- Não entendi. Como pode uma jovem frágil que me procurou ser importante lá na Síria.

- Isso eu não posso dizer, mas saiba que de frágil ela não tem nada (por dentro eu sorri ao ouvi-lo dizer), é uma guerrilheira muito bem treinada. É capaz de matar (desculpe) se se sentir ameaçada, mas é leal com quem a ajuda. Não deveria lhe dizer isso, mas como já disse e acredito que pode saber algo sobre ela, é bom que guarde para si ou me procure, pois sei que esse celular que falo com o senhor esta sendo registrado.

- Como sabe tudo isso? Você faz parte de algum esquema de investigação sobre o paradeiro dela.

- Nem sim, nem não Doutor, mas já sei do que o senhor é capaz. Se ela o procurou é porque precisa de algo que desapareceu no Brasil. Ela não vai desistir, foi treinada, já disse. Cedo ou tarde ela vai voltar, isto é, se não morreu por ai. Nós também estamos esperando ela. Se possível viva.

- Eu gosto de franqueza. Não o conheço, mas sei que essa nossa conversa esta sendo gravada, ou tem mais gente nos ouvindo, por isso fique sabendo que nem que ela viesse a minha clínica novamente, não a receberia. Não me interessa seus problemas. Já tenho os meus, mas diga-me uma coisa pelo menos. Sabe o nome dela. Ela recusou dar-me qualquer nome quando foi à clínica.

- Se eu disser, vai acreditar?

- Não o estou vendo, só ouvindo. Que diferença faz. Se fosse na clínica duvido que me enganasse. Tenho meus truques.

- É. Eu sei. Por isso acreditamos que vai voltar atrás do senhor. Mas vou dizer um nome; não vai fazer diferença mesmo. Ela tem vários. Todo falsos. Veio para o Brasil com esse; Shakir. Entrou aqui como homem. Usou uma plástica com marcas no rosto de feridas da guerra. Segundo soube eram horríveis de se ver. Usava também um tapa olho, fixado por dois elásticos grossos em volta da cabeça. Veio com outros refugiados e foi para um abrigo de refugiados perto da Liberdade e desapareceu.

- Se era um homem, como descobriram que não era.

- Matou um refugiado Congolês que tentou roubar seu dinheiro numa noite. Ele, ela fingia que dormia e não deu a menor chance ao ladrão. Não usou arma, apenas jiu-jitsu e revelou sua verdadeira face, pois na luta o Congolês arrancou o tapa olhos dela. Foi depois disso que desapareceu. Investigações policiais posteriores encontraram em seus pertences três identidades sírias sem fotografias. Ela sabe falsificar documentos e outras coisas. Teve treinamento fora da Síria. É o que eu sei.

- É o que sabe, ou o que pode dizer?

- Esta interessado Doutor?

- Digamos que ela volte a minha clínica. O que deveria fazer diante de tudo que disse?

- Atenda-a e nos chame. Deixe por nossa conta que resolvemos.

Gato escaldado... Desconfiei Jorge, mas disse-lhe: Amigo. Se ela aparecer chamo a policia. Desculpe mas tenho outro compromisso daqui a pouco e, por favor, não me ligue mais. Tive paciência em ouvi-lo e não gostei nada do que ouvi. Vou contratar um segurança para me proteger e saiba que vou levar essa gravação para a secretaria de segurança de São Paulo. Tenho amigos lá. Até nunca mais! Bati o telefone.

Ficou claro como o sol que quase tudo do que disse era verdade e que também eu me metera numa enrascada. Eu a vi matar uma cobra altamente venenosa e transformar uma vassoura num punhado de gravetos, mas quanto à morte de um refugiado eu tinha minhas duvidas. Com o que fez comigo, era mais fácil dominar o ladrão do que mata-lo. Acho que o individuo que se disse chamar Marcelo blefou, ou queria me impressionar, mas não conseguiu, só que aquilo não saiu mais da minha cabeça. Eu tinha de tirar a duvida, por isso antes de encontrar-me novamente com ela eu ia pessoalmente até o Albergue. Independente disso Sameeha agora podia sair sem mim do prédio onde se encontrava, mas eu não podia rodar por São Paulo com ela ao meu lado, por isso liguei para o escritório e pedi a Valéria que levasse Sameeha até o Shopping Patio Paulista e a deixasse na praça da alimentação, no Almanara no final da tarde.



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