Rafaela – sucesso sempre



Baixar 0.51 Mb.
Página7/15
Encontro11.07.2018
Tamanho0.51 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   ...   15

Fui para lá e procurei por ela na praça, mas não a vi. Tive o cuidado de não usar o celular e sentei num canto dentro da praça e pedi um refrigerante. Quando me trouxeram, havia na bandeja um bilhete embaixo do copo, ao lado da latinha. Ia pega-lo, mas me contive e fui tomando o refrigerante devagar. Peguei o celular e fingi discar para alguém, depois o coloquei na bandeja em cima do bilhete e peguei minha carteira para pagar o refrigerante. Feito isso fui em direção ao toalete masculino e entrei num dos mictórios. Olhei o bilhete que pegara junto com o celular e li o seguinte em inglês: It is being followed. I saw. I'm going to the apartment. See you there! (Está sendo seguido. Eu vi. Vou para o prédio. Nos vemos lá!).

Nem ia adiantar sair em busca dela no Shopping, por isso fui pegar meu carro e sai até com certa velocidade do estacionamento, mas acabei diminuindo a velocidade tendo em vista o transito da região.

Procurei também observar os carros que seguiam atrás do meu e não havia nenhum que parecia estar sempre me seguindo. Mesmo assim parei no meio fio de ruas diferentes e nenhum veiculo parou próximo ou mais adiante. Acabei chegando à conclusão de que quem eventualmente me seguia, certamente já levantara algo sobre mim e acredito que tive sorte ao acolher Sameeha naquela noite de chuva.

Ela estava debaixo do meu teto e em segurança. Ninguém iria imaginar que eu dormia com o inimigo no quarto ao lado, por isso, passei numa loja da Kopenhagen e escolhi umas trufas finas e deliciosas.

Não toquei a campainha, apenas abri a porta na chave e entrei. Ela tampou meus olhos e disse: Adivinho quem eu?

- A mulher mais problemática que conheço, respondi e acrescentei: Isso é para você.

Ganhei um beijo e um agradecimento em Árabe. Disse: shukraan hakim!

- Que disse?

- Obrigada sábio homem!

- Está aprendendo a falar português Sameeha?

- Escritório ensina. São bons amigos eles.

- Isso é bom. Vou encomendar algo para comermos.

- Não percisa. A Mariainha tava aqui guano, quer dizer, quando cheguei. Feiz uma comida pra nós e mandou dar recado para você.

- E o que foi que ela falou?

- Disse que era para você te bastante juízo e que só dormisse na sua cama, ou ela ia dar jeito em nóis amanhã.

- Nasir que é jeito de Maria, Maria, Maria memo. È. Ela é Maria. Ela da jeito em nóis?

Quantas vezes Jorge levei algumas palmadas dela e depois ela mesma me escondia de levar alguma surra pelo que aprontava em casa.

O fato é que depois de jantarmos, tivemos uma conversa curta sobre eu ter sido seguido. Ela afirmou que desde minha saída do elevador, antes da praça da alimentação, dois homens me seguiram. Ela disse que os conhecia do abrigo dos refugiados e um deles era um congolês que ela deu uma surra nele e que quase o matou, pois tinha tentado rouba-la. Brigou com mais gente e machucou varias pessoas que vieram acudir o homem. Contou ainda que se armou com uma faca e ninguém teve coragem de enfrenta-la. Ficaram com medo dela, por isso sumiu. Não disse onde ficou no Shopping e nem como tinha colocado o bilhete na bandeja, mas disse que o Donna’s tem um pudim ótimo. “A Valéria tem bom gosto”. Afirmou. Falou que na quinta feira ia receber os documentos que o seu Vivalde mandou fazer. O nome dela no documento brasileiro ficou sendo Virginia Maryzeh. Sem detalhar, só preciso dizer que todos os seus documentos atestam que ela é descendente de Libaneses que vieram para o Brasil durante a guerra em 1982. (A Guerra do Líbano de 1982. Também conhecida como Primeira Guerra do Líbano).

Não sairíamos mais juntos do prédio e providenciei para que alguém a pegasse depois das nove no portão social, mas em muitas ocasiões ela ia de carona com um amigo meu morador do prédio. Um senhor já idoso e advogado que possui um escritório na Paulista. No Trianon. Tive mesmo que lhe arrumar uma arma legal, ou ela ia conseguir alguma. Como poderia impedi-la se ela não tinha qualquer vinculo comigo e sendo apenas minha funcionaria e correndo o risco de ser morta. Ela escolheu um revolver Taurus modelo RT85 e num estande de tiros do Centro de Treinamento Tático, onde fiz um curso, ela demostrou o quanto sabia atirar.

Somou-se a situação daqueles dias o fato do detetive Vitor dizer no seu escritório para mim que conseguiu levantar o nome que constava na etiqueta da mala, mas havia outra etiqueta por baixo que não dava para ler o nome. Tratava-se de uma mulher conforme me afiançou, cujo nome era Ra’idah (Lider) Nuryiah. Ele disse que mostrou a foto para funcionários do aeroporto e de companhias aéreas. Nada conseguiu, mas quando falou sobre os refugiados e sobre seus pertences, um funcionário da policia federal disse se lembrar da tal mala. Ele se lembrou de que foi de um homem com o rosto desfigurado na esteira de bagagens, que pegou a mala e saiu bem depressa, depois à mala foi encontrada na saída da ala internacional. O homem desaparecera e a mala podia estar na Gerencia de Segurança. Ao ir ao local seu Vitor ficou sabendo que a mala tinha realmente entrado no deposito de achados e perdidos do aeroporto, mas ninguém sabia dizer do paradeiro dela, pois havia sido retirada dois dias depois do ocorrido. A única pista foi que o rapaz responsável pelo armazenamento de produtos perdidos disse que uma mulher jovem retirou à mala, apresentando um documento com o nome da segunda etiqueta. Ele se lembra bem dela e também porque não falava quase nada em português.

Ele disse que ia continuar investigando e tentaria junto à própria policia federal, imagens da data do desembarque dos refugiados. Quem sabe não conseguisse encontrar a mala e seu dono, ou dona em transito no aeroporto.

Naquela segunda feira depois que jantamos e da nossa conversa sobre sua ida e vinda do trabalho, pedi que se deitasse no sofá e a cobri com cobertor fino e peguei uma cadeira de descanso e fiz a indução nela. Em apenas alguns segundos já obedecia minhas ordens em inglês e respondia em inglês, mas vou transcrevê-las em português para melhor compreensão dos fatos por ela narrados e descritos.

A logica me levava a acreditar que o passado dela nos últimos quatro anos era a chave para alguns segredos e também para que eu pudesse penetrar na sua mente broqueada e lograr dar de encontro com o trajeto dela pelas terras sírias e de que forma saiu do país com uma identidade falsa. A mala fazia parte de um esquema obscuro que certamente envolvia a luta dos rebeldes sírios contra a ditadura de Bashar Hafez al-Assad. Se eu estivesse certo, Sameeha, ou sei lá qual é o seu nome verdadeiro, era uma personagem conhecida dos ribeirinhos do Euphrates e do rio Tigre e isso facilitava suas atividades nas aguas famosas desses rios que são citados na Bíblia e que também faziam parte da bacia do Famoso Éden9 .

De início perguntei: Você é Sameeha? Que ano você está na Síria?

- Não. Eu sou um guerreiro sem nome. Na guerra documento é a arma! Hoje é segunda feira. Ano novo de 2013. Hummm. Não sei.

- Você não é Shakir?

- Isso é segredo. Documento escondido. Bem escondido.

- Você está no Euphrates, ou no Tigre agora.

- Euphrates. Tropas sírias mais a frente, mas tenho que buscar mais armas.

Ocorreu-me de perguntar: Você está só, ou tem mais alguém com você?

- Meu irmão está comigo? Só tenho ele. Nossa lancha é muito veloz.

- Como se chama teu irmão e porque você só tem ele?

- Cidade de Ain Issa, perto de Sarrin. Bombardeio russo. Muitas mortes. Conseguimos escapar por Kobani na direção do rio. Meus outros dois irmãos ficaram pra trás para dar cobertura junto com mais rebeldes, mesmo assim aviões caças metralharam muitos na fuga. Os desgraçados eram franceses. Nossa guerra é contra o mundo. Meu irmão chama-se Hamzah (leão). Coitadinho só tem 8 anos e sofre com o que vê.

- Você disse que está numa lancha. Como conseguiu?

- Ataque noturno ao acampamento do exercito Sírio em Mhaymidah. Houve mortos dos dois lados e eu matei os ocupantes de uma lancha numa das margens.

- Sozinho? Como foi isso?

- Eles atiravam contra a margem. Usei uma Besta de dentro do rio.

- Que arma é essa?

- Uma Balestra Recurvo 150 Lbs Camuflada. A mira telescópica dela permite atirar com precisão até duzentos metros sem barulhos. Usei setas de aço como sempre. Só atirei no clarão dos tiros. Foi fácil. Matei o primeiro e eles começaram a atirar contra a agua, mas eu ficava mergulhado deixando apenas a cabeça de fora depois de cada tiro, fora isso mudava de posição silenciosamente. Dos oito a bordo só um escapou. Pulou na agua largando tudo para trás. Joguei minha Balestra dentro da lancha e fui ao seu encalço e ele me enfrentou. Gritava em árabe e aparecerem mais dois deles armados com facas.

- E o que aconteceu?

- Na terra até poderiam me matar, mas não na agua... العمى! يقطع عمرك!10 Na agua sou peixe. Matei-os sem piedade

- E seu irmão? Onde ficou.

- Mergulhado perto da outra margem. Ele também nada como peixe.

-- E depois?

- Subi na lancha e joguei os corpos para fora. Recuperei minhas setas.

- Para onde foi depois disso?

- Subi o rio por vinte quilômetros com a lancha até próximo do distrito de Ar-Raqqah.

- O que foi fazer nesse lugar?

- Levei meu irmão para casa de parentes fora do distrito.

- Com que nome você se apresentou?

- Nome que vovó colocou, mas eu tenho outro nome de nascença.

- Então você também se chama Sameeha. É ou não é?

- Não. Só família sabe desse nome. Mais ninguém. Eu tenho vários nomes e sou varias pessoas.

- Homens, ou mulheres?

- Os dois. Menos nome de nascença.

- Pode me dizer onde está seu irmão Sameeha?

- Eu não sei! Eu não sei! Maldita guerra! Kl 'aedayiy tataeaffan fi aljahim! (Que todos meus inimigos apodreçam no inferno!). Quero meu irmão. Preciso dele! Preciso dele! Hamzah, meu leaozinho, cade você?

Ela começou a se agitar muito e tive que desperta-la. Nem bem abriu os olhos disse-me: Nasir. Onde você colocou meu irmão?

Ela pronunciou corretamente as palavras e emendou: Nasir. Quero meu irmão. Você acha ele? Eu vi ele! Ele me chamou!

Sentou no sofá e despertou completamente. Esqueceu o que tinha dito a pouco, mas eu perguntei para ela se tinha visto o irmão e obtive como resposta a afirmação de que estivera com ele no distrito de Ar-Raqqah.

Pelo tempo que estiveram juntos, seu irmão, se estiver ainda vivo, tem quatorze anos, mas não deve de estar no mesmo lugar, só que isso não se constituiria numa barreira, de modo que pensei até em dar prioridade na busca pelo menino antes de seguir com as induções de esclarecimento do passado nebuloso de Sameeha.

para recordar Jorge, a Alfagenia dispensa a barreira do tempo, portanto localizar alguém é relativamente fácil. Se a policia tomasse conhecimento profundo da técnica, encontrar pessoas em cativeiros, ou desaparecidas, seria uma brincadeira de criança de esconde esconde, tendo como único senão, o fato de tirar a graça da brincadeira.

Fiquei algum tempo pensativo e logicamente que isso a incomodou. Levantou-se e se pôs a andar de um lado para o outro, até não se conter de curiosidade. Parou na minha frente e perguntou sobre o meu silencio, respondi que meditava nas suas declarações sob os efeitos do uso da técnica e ela quis saber o que dissera, mas eu falei que era segredo médico. Respondeu assim: Segredo? Porque segredo? Eu sou paciente e paciente te que saber, não tem?

- Não tem não. Retruquei. Você não está doente, mas tem segredos que teme revelar, ou não quer. Seu treinamento militar te condicionou a manter uma posição defensiva e eu sou mais teimoso que uma mula. Quando terminar com seu tratamento terei a solução de muitas coisas. Quer você queira, quer não. Pode ter certeza que vou chegar até a mala e até outras coisas. E vou te dizer mais uma coisa para que fique bem claro como eu penso em você. Nem que se ofereça para mim eu vou desviar dos meus objetivos. Depois de tudo terminado, experimente ficar a vontade na minha frente...

- Que faiz co eu Nasir?

Desafiando-me Ela começou a dançar a dança da espada segurando uma bengala que pertenceu ao meu avô e que estava pendurada na parede. Como sei que existem várias lendas para a origem da dança da espada. Deixei que seguisse com suas insinuações. Vinha mesmo a calhar, pois uma das lendas diz que é uma dança em homenagem à deusa Neit, uma deusa guerreira. Ela simbolizava a destruição dos inimigos e a abertura dos caminhos. Outra, diz que na antiguidade as mulheres roubavam as espadas dos guardiões do rei para dançar, com o intuito de mostrar que a espada era muito mais útil na dança do que parada em suas cinturas ou fazendo mortos e feridos. Dançar com a espada permite equilíbrio e domínio interior das forças densas e agressivas. Uma terceira lenda conta que na época, quando um rei achava que tinha muitos escravos, dava a cada um uma espada para equilibrar na cabeça e dançar com ela. Assim, deveriam provar que tinham muitas habilidades. Do contrário, o rei mandaria matá-los. O certo é que, nesta dança, a bailarina deve saber equilibrar com graça a espada na cabeça, no peito e na cintura. É importante também escolher a música certa, que deve transmitir um mistério interior.

Ela fazia os movimentos dando mostras de conhecer as tradições árabes. Por fim parou e apontou a bengala para mim. Depois a pendurou de novo no lugar.

Pequei as almofadas no sofá e fui atirando na direção dela. Não acertei nenhuma. Sua habilidade em se defender é indiscutivel. Terminamos rindo.

Quando fui dormir, fiquei pensando no rio e na capacidade dela em nadar. Precisava tirar uma prova de uma duvida que tinha e, por isso, no dia seguinte disse-lhe que queria leva-la a um lugar perto de São Paulo para que ela achasse algo que perdi num lago. Eu a pegaria no prédio do escritório comercial antes das quatro da tarde, depois de minha reunião com o senhor Vitor. Quem me seguia, provavelmente tinha informações de que no prédio funcionava meu escritório de contabilidade e assuntos comerciais e como o acesso era restrito, eu pude me movimentar em segurança. Logico está que Sameeha nem sequer imaginava que eu estava trabalhando com investigações paralelas ao seu tratamento.

- Jorge. Dentro dessa narrativa, sou obrigado a citar um fato que marcou muito aqueles dias. Não pude fazer o que pretendia com Sameeha porque a Mariazinha faleceu de um enfarto fulminante na casa de seu filho. Tirei quatro dias de licença na clínica e fui para o interior. Não levei Sameeha. Na verdade, o sentimento de perda de uma pessoa muito querida e você sendo médico, é frustrante. De certo modo sentia-me culpado, mas ela tinha feito seu Check-Up dois meses antes e tudo parecia normal. Só aceitei o fato do inevitável com a ligação do cardiologista que a atendia sempre. Ele falou que ela apresentara uma cardiopatia grave e não comunicara com ninguém e que só foi descoberta dois dias antes do ocorrido, quando seu filho a levou numa emergência de um pronto socorro, portanto, ela tinha escondido de mim e dele seus problemas de saúde.

Na quinta feira quando voltei ao trabalho, eu só tinha dois pacientes marcados na manhã e teria a tarde livre, então me veio na mente ir até o consulado sírio na Avenida Paulista. Antes de sair tive a ideia de pegar seis fotografias aleatórias de pacientes e no meio delas, inclui a foto atual de Sameeha e de quando foi a minha clínica pela primeira vez. Apresentei-me como médico que sou e disse que procurava uma jovem que estivera no meu consultório cujo nome era Samyra Yurda. Eu disse que ela fazia parte dos refugiados e comentei que trabalhou numa empresa aérea onde a conheci. Enfim. Fiz um breve relato sobre ela, demonstrando preocupação com seu sumiço. Depois mostrei as fotos e disse que mantenho um arquivo fotográfico de quem entra na clínica e depois descarto aquelas que não se transformaram em pacientes mesmo. Eu queria saber se uma daquelas mulheres poderia ser a moça desaparecida.

Uma pessoa do consulado pediu que eu entrasse num reservado, onde mais duas pessoas me aguardavam. Não disseram o que eram, mas foram bastante corteses e atenciosos para comigo. Um deles disse que sabia quem eu era e o que eu fazia. Disse que me conheceu pela televisão numa conferencia que dei.

Eles disseram seus nomes, mas estes são dispensáveis, o que interessa é que estudaram foto por foto e foram descartando. Por fim, ficaram apenas com a foto de Sameeha quando foi à clínica pela primeira vez e compararam-na com uma de um arquivo sírio. Falaram entre si em árabe. Pareciam confusos e eu diria, surpresos. Por fim o mais velho deles falou: Doutor Marcus está é a única fotografia que se parece com uma jovem síria que já deu muito trabalho para o governo sírio de Bashar Hafez al-Assad, mas ela jamais poderia ter ido a sua clínica Doutor. Nunca.

- Posso saber por quê? Se eu não estiver sendo indiscreto.

- Pode sim. A tal Samyra Yurda, que tinha outros nomes também. Todos falsos. Contrabandeava armas para os rebeldes terroristas que tentam derrubar o governo. Sem entrar em detalhes, ela e mais alguns terroristas foram pegos numa emboscada no rio Tigre onde transportavam armas numa lancha de combate CB-90 camuflada, durante uma tempestade e a noite. O fato é que a embarcação foi bombardeada e explodiu durante o ataque.

Por dentro eu fique pensando. O tal combate que ela narrou tinha mesmo acontecido, mas como ela escapou se a provável lancha afundara? Será que ela se passava por outra pessoa? Alguma coisa não batia na informação dos sírios.

Notando que eu ficara em silencio eles reafirmaram que a mulher que me visitou não era ela. O serviço secreto afirmara isso. Respondi de modo enfático: Nesse caso então posso ficar em paz. Uma terrorista seria a pior coisa que eu pensaria na vida. Mas fica a pergunta. Quem é essa moça que foi na clínica? Na ficha que foi feita pela minha secretária o nome que consta é Samyra Yurda. Só não diz de onde ela era. Apenas que é uma refugiada síria a procura de alguns pertences.

- Não sabemos quem é ela, mas se for uma pessoa que já arrumou muita confusão num albergue, podemos dizer-lhe que é muito perigosa. Vamos procurar respostas entre os refugiados. Alguém deve ter visto alguma coisa, ou sabe de algo, mas não se preocupe, cedo ou tarde a solução do desaparecimento dela será esclarecida. Agradecemos que tenha vindo e nos colocamos a disposição do senhor para qualquer outro caso que lhe apareça. Ah! Doutor. Se ela voltar procure-nos. Allá o ilumine!

Despedimo-nos e conclui que para eles a pessoa que esteve na clínica devia ser alguém muito parecida com ela. Dessa nossa conversa a única coisa boa é que a nova Sameeha era uma pessoa totalmente desconhecida, pois a foto dela foi a primeira a ser descartada por eles, mas mesmo assim eu preferi manter alguns cuidados ao estar na sua companhia. Jamais citaríamos em público o nome Sameeha, agora ela era Virginia e morava em Diadema, num apartamento pequeno do programa Minha Casa Minha Vida, do Governo Federal.

Demorou um pouco para ela se habituar ao novo nome, mas foi se moldando a nova realidade e se tornou mais receptiva ao tratamento clínico, muito embora sendo feito no prédio. Por outro lado, a morte de Mariazinha obrigou-me a trazer do sítio de um amigo a Nhanhã que é uma excelente cozinheira e junto com ela veio também sua sobrinha neta, Geovanna que cursa a USP e passou a cuidar do apartamento, tendo total liberdade para usar a piscina do prédio e malhar nos equipamentos de ginastica nas suas folgas. Chama-me de tio e a Virginia de tia. Acha que somos namorados e que vivemos juntos.

Como já disse Jorge. Passei a me inteirar mais do escritório depois que Virginia foi para lá. Ela conseguiu acertar uma exportação de doces mineiros para a Arabia Saudita. A amostra enviada e que veio do Vale do Paraíba e Sul de Minas, agradou em cheio o paladar de quem degustou os queijos da Serra da Canastra, e principalmente os doces da Dona Nena e seu Raimundinho de Tremembé, interior de são Paulo, por isso, prometi leva-la até a festa do Projeto Revelando São Paulo em Taubaté, cidade onde eu nasci em e apresentar-lhe o casal de Tremembé.

Eu ainda não tinha visto ela em ação pra valer. Nem queria, mas ao que parece ela tem uma força de atração para isso. Numa noite, perto da onze horas quando voltávamos para o prédio, depois de jantarmos num restaurante, uma motocicleta emparelhou com o carro no semáforo do cruzamento da Av. Quarto Centenário com a Av. Republica do Líbano. A moto com dois ocupantes ficou do lado de Sameeha. Outra moto ficou quase ao meu lado, mas não baixei o vidro. Antes disso, vi pelo retrovisor a aproximação delas e deixei pouco espaço do lado esquerdo, assim evitaria ser fechado pelas motos elas. Falei baixinho para ela: São assaltantes em motos. Fique quieta.

IV

Jorge, se eu queria vê-la em ação, tinha chegado o momento. Só não esperava que sua destreza e modo de agir fossem com tanta violência, mas se prepare que mais adiante ela me aprontou outra bem perto do meu consultório. Leia isso meu amigo.



Quando lhe disse que eram bandidos, Sameeha baixou o vidro do seu lado e o cara da garupa da moto do lado dela veio direto de arma em punho dizendo: Perdeu! Perdeu! Perdeu dona! Eu não vi, mas Sameeha já havia pego sua arma na bolsa, mantendo o braço direto abaixado com a arma engatilhada, depois segurou a bolsa com o braço esquerdo. Também já havia destravado a porta e só a mantinha encostada. Quando o assaltante aproximou e a chamou de vagabunda e outros nomes, pedindo a bolsa, ela estendeu para ele o braço esquerdo balançando a bolsa como se estivesse tremendo de medo. Só que ela virou de lado quando pôs o braço para frente e o assaltante teve que dar um pequeno passo para alcançar a bolsa e, assim, seu braço com a arma ficou longe de nós. Sem mirar Sameera atravessou seu punho com um tiro e a arma caiu dentro do carro. Ela atirou de novo e acertou o cara no ombro. Empurrou a porta com os pés violentamente jogando ele longe. Em seguida disparou contra o que ficou na moto. Acertou ele no quadril e na coxa. Ele caiu com moto e tudo. Os bandidos nem tiveram tempo de usar suas armas.

Os dois que estavam do meu lado tentaram sair depressa pela direita, mas meu carro estava quase rente ao meio fio e dificultava a passagem rápida. Ela agarrou na porta usando-a como trampolim, deu um salto mortal por cima do capô e golpeou com os pés o que pilotava a moto na cabeça e os dois caíram com a moto, sendo que esta ainda os arrastou por alguns metros. Ela não parou ai não. Atirou no carona da moto mesmo caído, acertando-o perto do pescoço. Pegou a arma dele em foi em direção do outro que gemia de dor. Quebrara a perna e uma das mãos. Enfiou o cano da arma na boca do assaltante e mandou-o ficar calado. Depois chutou o que estava na garupa e que tinha recebido o tiro. Passou pela frente do carro na direção dos outros dois. Eu olhava sem ação seus modos e acabei despertando para a realidade. Aquela não uma moça qualquer, era uma guerrilheira em plena ação. Se não fizesse alguma coisa, ela os matava. Sai o mais rápido que pude do carro e gritei com ela, chamando-a. mas nem me ouviu.

Voltou até onde estava o ferido da primeira moto, levantou a moto, ergueu sobre a cabeça e ia jogar nele. Agarrei-me nela por detrás e a puxei com força. A moto caiu a centímetros da cabeça do homem. Se acerta nele já era. Depois disso ela se desvencilhou de mim como se eu não existisse, pegou uma das armas e foi até o outro motoqueiro. Pôs a arma na sua cabeça e ameaçou atirar. Ele gritava por socorro, daí ela segurou seu pescoço e apertou. Eu sei bem o que sentiu. Ela afrouxou o aperto e pôs o pé no seu peito e empunhou uma das armas erguendo o braço direito. Bradou em árabe estas palavras “Allahu Akbar!”11, considerado um grito de guerra. Naquele momento compreendi que para ela a guerra só mudou de lugar. A borboleta se foi e ficou o falcão. Tirei-a de cima do homem e a sacudi violentamente até que me olhasse, mas seus olhos estavam bem longe e transmitiam ódio. Pedi encarecidamente que ficasse quieta enquanto examinava os feridos.



Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   ...   15


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal